OS PENSADORES
GILBERT RYLE
JOHN LANGSHAW AUSTIN
WILLARD VAN ORMAN QUINE
PETER FREDERICK STRAWSON
ENSAIOS
Seleção de Oswaldo Porchat de Assis Pereira da Silva
EDITOR: VICTOR CIVITA
TÍTULOS ORIGINAIS:
G. Ryle: Sistematically Misleading Expressions — Categories — Ordinary Language — The Thery of Mea-
ning — “If, “So”, and “Because”.
J.L. Austin: Other Minds.
W. V. Quine: Ontological Relativity and Other Essays — From a Logical Pint of view.
P.F. Strawson: Logico-Linguistic Papers.
1.º edição — dezembro 1975,
& — Copyright desta edição, 1975,
Abril S. A. Cultural e Industrial, São Paulo.
Textos publicados com licença da Aristotelian Society, Londres
(“Systematically Misleading Expressions”, “Categories”); Gilbert Ryle, Oxford (“Ordinary Language”);
George Allen & Unwin, Londres (“The Theory of Meaning”); Max Black (Cornell University, Ithaca, N.
Yo),
(“If, “So”, and “Because”); Clarendon Press, Oxford (“Other Minds”);
Columbia University Press, Nova York e Londres (Ontological Relativity and Other Essays —
Copyright &, 1969, by W. V. Quine, New Yrk: Columbia University Press, 1969);
Harvard University Press. Cambridge. Mass., (From a Logical Point of View —
Copyright e, 1953, 1961 by the President of Fellows of Harvard College);
Methuen & Co Ltd, Londres (Logico-Linguistic Papers. Os capítulos II (“Sobre Referir”) e
VII (“Gramática e Filosofia”) são reproduzidos por cortesia do editor de The Aistotelian Society).
Direitos exclusivos sobre as traduções constantes deste volume, 1975,
Abril S. A. Cultural e Industrial, São Paulo.
SUMÁRIO
EXPRESSÕES SISTEMATICAMENTE ENGANADORAS E OUTROS ENSAIOS...... 7
DUVERAS MENTE Sr aa emo ao a pala be co era po RO e 91
RELATIVIDADE ONTOLÓGICA E OUTROS ENSAIOS .........ccicciiiici 121
DEUINGPONTO DE MISTA EOGICO. ut arara ana av inn se Ap O e nr Da doa]
ESCRITOS EOGICO-LINGUISTICOS mr SEER 16 gp DE Era io O De e O 2 Ea 265
G. RYLE
EXPRESSÕES
SISTEMATICAMENTE
ENGANADORAS
E OUTROS ENSAIOS
Tradução de Balthazar Barbosa Filho
EXPRESSÕES SISTEMATICAMENTE ENGANADORAS *
Os argumentos filosóficos sempre consistiram largamente, se não exclusi-
vamente, em tentativas de examinar 'o que significa dizer isso e aquilo". Obser-
vamos que os homens, no seu discurso ordinário, isto é, no discurso que eles
empregam quando não estão filosofando, utilizam certas expressões. Os filósofos,
então, fixam a atenção em determinados tipos ou classes mais ou menos radicais
dessas expressões, levantando suas questões acerca de todas as expressões de
um determinado tipo e perguntando o que elas realmente significam (mean).
Algumas vezes, os filósofos dizem que analisam ou elucidam os 'conceitos”
que estão incorporados aos “juízos? do homem comum ou do cientista, do histo-
riador, do artista ou seja lá de quem for. Isso, no entanto, parece ser apenas
um modo pouco sólido de dizer que eles estão tentando descobrir aquilo que é
significado pelos termos gerais incluídos nas sentenças que tais pessoas pronun-
ciam ou escrevem. Como veremos, com efeito, “x é um conceito” e “y é um
juízo” também são, elas próprias, expressões sistematicamente enganadoras (syste-
matically misleading expressions).
Todo o procedimento, porém, é muito estranho. Com efeito, se as expres-
sões submetidas a consideração são utilizadas inteligentemente, as pessoas que
as empregam já devem saber o que elas significam, não necessitando do auxílio
ou do conselho dos filósofos para que possam compreender o que estão dizendo.
Por outro lado, se os seus interlocutores compreendem aquilo que lhes é dito,
também eles não estão perplexos de forma a necessitar que essa significação
lhes seja filosoficamente “analisada” ou “elucidada”. Além disso, pelo menos o
próprio filósofo deve saber o que as expressões significam, pois, do contrário,
ele não poderia saber o que é que estaria analisando.
Sem dúvida, ocorre muitas vezes que as expressões não são utilizadas inte-
ligentemente e, nessa medida, os seus autores estão simplesmente palrando como
papagaios. Nesse caso, no entanto, é evidentemente inútil perguntar o que as
expressões realmente significam. Não há nenhuma razão, com efeito, para supor
que elas signifiquem alguma coisa. Se houvesse uma razão qualquer nesse sen-
tido, não se trataria de simples palrice. Por outro lado, se o filósofo tem o
cuidado de perguntar o que essas expressões significariam se um homem racional
as estivesse utilizando, a única resposta seria a de que elas significariam aquilo
que então significariam. Compreendê-las seria suficiente e isso poderia ser feito
por qualquer ouvinte racional (reasonable). Filosofar não poderia auxiliá-lo aqui
e, na realidade, o próprio filósofo não seria sequer capaz de começar o seu
trabalho se não as tivesse simplesmente compreendido à maneira ordinária.
Portanto, se uma expressão pode ser compreendida, parece, então, que já
se sabe, nessa compreensão, o que a expressão significa. Assim, não há nenhuma
obscuridade presente e nenhum esclarecimento necessário possível.
* Traduzido do original inglês: “Systematically Misleading Expressions”, publicado em Pro-
ceedings of the Aristotelian Society for 1931/32, vol. XXXII, pp. 139-170, Londres.
IO RYLE
ror outro lado, se se sugerir que o autor não filósofo de uma expressão
(seja ele um homem comum, um cientista. um pregador ou um artista) efetiva-
mente sabe, mas apenas de maneira vaga, nebulosa ou confusa, o que a sua
expressão significa, ao passo que o filósofo, ao cabo da sua exploração, sabe
clara, distinta e exatamente o que ela significa, uma dupla resposta a essa sugestão
parece se impor. Em primeiro lugar, se um locutor sabe apenas confusamente
O que a sua expressão significa, ele estará, sob esse aspecto é nessa medida,
simplesmente palrando e emitindo sons. E não é a função ——- nem a realização
— do filósofo proporcionar um remédio contra tais vicissitudes. Em segundo
lugar, O filósofo não se ocupa ex officio com desvarios e divagações; ele estuda
as expressões naquilo que elas significam quando empregadas de maneira inte-
ligente e inteligível, e não enquanto ruídos emitidos por um idiota ou por um
papagaio.
É certo que às vezes ocorrem certas expressões para as quais seria possível
encontrar substitutivos mais adequados que deveriam ser empregados ou que
deveriam ter sido empregados em lugar delas. (1) Uma expressão pode constituir
uma infração à gramática inglesa ou latina, por exemplo. (2) Uma palavra pode
ser uma palavra estrangeira, uma palavra rara ou um termo técnico ou profis-
sional, para a qual existe um sinônimo familiar. (3) Uma frase ou uma sentença
pode ser grosseira ou desconhecida na sua estrutura. (4) Uma palavra ou uma
frase pode ser equívoca, sendo então um instrumento de possíveis ambigiidades
(puns). (5) Uma palavra ou uma frase pode ser mal escolhida por ser geral
quando deveria ser específica, ou por ser “alusiva quando a-alusão não é conhe-
cida ou não é evidente. (6) Uma palavra pode, enfim, ser despropositada (a mala-
propism) ou ser uma designação errônea (a misnomer). No entanto, a procura
de parátrases que. sejam mais imediatamente inteligíveis para uma determinada
audiência ou que sejam mais idiomáticas, mais estilísticas ou mais gramatical-
mente e etimologicamente corretas, constitui simplesmente uma tarefa de lexi-
cografia ou de filologia aplicadas. Não é filosofia.
Somos obrigados, então, a enfrentar a pergunta: Pode-se falar de análise
ou elucidação do significado das expressões que as pessoas utilizam, a não ser
no sentido de substituir expressões filologicamente menos adequadas por expres-
sões filologicamenie mais adequadas? (Poderíamos expressar o mesmo problema
na terminologia mais enganosa (misleading) dos “conceitos”, perguntando então:
Como pode a-filosofia, mediante análise e elucidação, operar sobre os conceitos
utilizados pelo homem comum, pelo cientista ou pelo artista, de tal sorte que
os conceitos, depois dessa operação, se encontrem esclarecidos quando antes
eram obscuros? As mesmas dificuldades: surgirão aqui. Com efeito, não pode
haver algo como um conceito obscuro, visto que ou alguém tem um conceito,
isto é, conhece a natureza do tema (subject-martcr) de que está tratando, ou não
está conseguindo fazê-lo. Se está conseguindo. nenhuma clarificação é neces-
sária ou possível. E se não está conseguindo, deverá descobrir mais coisas
acerca do tema ou refletir mais à seu respeito, pois aquilo que nós chamamos
de “conceito” dessa pessoa nada mais é, justamente, do que a apreensão. da natu-
reza desse tema. Isso não seria, contudo, filosofar acerca do conceito; Isso seria
explorar mais atentamente a natureza da coisa, sendo, portanto, uma tareta da
economia, talvez, ou da astronomia ou da história. No entanto, visto que eu
acredito ser possível mostrar que não é verdade, em nenhum sentido natural,
que “existem conceitos”, seguirei o outro método de enunciar o problema.)
O objetivo (object) deste artigo não consiste em mostrar o que é que à
filosofia em geral investiga. O seu objetivo é o de mostrar que ainda há um
importante sentido no qual os filósofos podem e devem descobrir e enunciar
EXPRESSÕES SISTEMATICAMENTE ENGANADORAS HM
aquilo que é realmente significado pelas expressões pertencentes a esse ou àquele
tipo radical, e que, apesar disso, essas descobertas absolutamente não implicam
que os usuários ingênuos (naive) dessas expressões tenham qualquer dúvida ou
estejam confusos acerca do que as suas próprias expressões significam, não im-
plicando, tampouco, que eles necessitem, num sentido qualquer, dos resultados
da análise filosófica para que possam continuar a utilizar inteligentemente os
seus modos ordinários de expressão ou para que possam continuar a utilizá-los
de forma a que eles sejam inteligíveis para os outros. i
O essencial daquilo que pretendo estabelecer é o seguinte. Existem muitas -
expressões que ocorrem no discurso não filosófico e que — embora sejam com-
preendidas com perfeita clareza por aqueles que as utilizam e por aqueles que
as escutam ou que as léem — são, não obstante, expressas em certas formas
gramaticais ou sintáticas tais que é possível demonstrar serem elas impróprias
para o estado de coisas que elas registram (ou para o suposto estado de coisas
que elas pretendem registrar). Tais expressões podem ser reformuladas e — para
a filosofia, mas não para o discurso não filosófico — devem ser reformuladas
em expressões cuja forma sintática seja apropriada aos fatos registrados (ou aos
supostos fatos supostamente registrados).
Utilizarei o termo “expressão” para abranger palavras isoladas, frases e
sentenças. Por “enunciado”, entenderei uma sentença no modo indicativo. Quan-
do um enunciado é verdadeiro, eu direi que ele “registra” ('records') um fato
ou um estado de coisas. Os enunciados falsos não registram nada. Saber (to
know) que um enunciado é verdadeiro é saber que alguma coisa é o caso e que
o enunciado registra isso. Quando eu simplesmente compreendo um enunciado,
ainda não sei que ele registra um fato, nem é necessário que eu conheça (know)
o fato que ele registra, se é que registra algum. Mas eu sei qual estado de coisas
seria realizado (would obtain) se o enunciado registrasse um estado de coisas.
Todo enunciado significativo (significant) é um quase-registro, pois ele pos-
sui tanto a estrutura quanto os constituintes necessários para ser um registro.
Mesmo já conhecendo (knowing) a sua estrutura e os seus constituintes, no en-
tanto, ainda não sabemos (know) que o enunciado é um registro de um fato.
Os enunciados falsos são pseudo-registros e, assim como as pseudo-antiguidades
não são antiguidades, também eles não são registros. Por conseguinte, a pergunta:
O que é que os enunciados falsos enunciam? será desprovida de significação
(meaningless) se 'enunciam” significar “registram”. Por outro lado, se a pergun-
ta significa: O que é que eles teriam registrado se registrassem que alguma coisa
é o caso”, ela já contém a sua própria resposta.
Quando uma expressão possui uma forma sintática que a torna inapropria-
da -para o fato registrado, a expressão é sistematicamente enganadora por su-
gerir espontaneamente a algumas pessoas — embora não às pessoas 'ordiná-
rias” — que o estado de coisas registrado é um tipo de estado de coisas total-
mente diferente daquele que de fato é.
No que segue, tentarei mostrar através de exemplos aquilo que estou
tentando dizer. Começarei considerando toda uma classe de expressões de um
determinado tipo que ocorrem no discurso ordinário e que aí ocorrem de ma-
neira perfeitamente satisfatória; sustentarei, no entanto, que essas expressões
são sistematicamente enganadoras, isto é, que elas são expressas numa forma
sintática inapropriada aos fatos registrados e, ao contrário, apropriada a fatos
de uma forma lógica inteiramente diversa da dos fatos registrados. (Por razões
de simplicidade, falarei como se todos os enunciados citados em exemplo fos-
sem verdadeiros. Os enunciados falsos, com efeito, não são formalmente dife-
rentes dos verdadeiros. Se não fossem assim, os gramáticos poderiam vir a ser
12 RYLE
oniscientes. Por outro lado, quando eu disser que um enunciado é 'sistematica-
mente enganador', não pretenderei com isso que ele é falso, e certamente tam-
bém não pretenderei que ele é sem sentido (senseless). Por “sistematicamente”,
quero dizer que todas as expressões que possuem a mesma forma gramatical em
questão são enganosas da mesma maneira e pela mesma razão.)
$ I — Enunciados quase-ontológicos
Desde Kant, a maioria de nós prestou homenagem à doutrina segundo a
qual 'a existência não é uma qualidade”, rejeitando, em consegiiência, a pseudo-
implicação do argumento ontológico: “Deus é perfeito, ser perfeito implica (entails)
logicamente ser existente, ... Deus existe”. Com efeito, se a existência não
é uma qualidade, ela não é o tipo de coisa que possa ser logicamente implicado
(entailed) por uma qualidade.
Até bem recentemente, no entanto, não se observava que, se “existe” em
“Deus existe”, não é um predicado (exceto do ponto de vista gramatical), então
'Deus', nesse mesmo enunciado, não pode ser (exceto do ponto de vista grama-
tical) o sujeito de predicação. A tomada de consciência desse fato surgiu do
exame de proposições existenciais negativas como “Satã não existe” ou “unicór-
nios são não-existentes”. Se Satã não existe, o enunciado “Satã não existe” não
pode ser acerca de Satã no sentido em que o enunciado “eu estou com sono” é
acerca de mim. A despeito das aparências, a palavra 'Satã” não pode estar sig-
nificando (signifying) um sujeito de atributos.
Alguns filósofos, entretanto, chegaram a considerar certas teorias que po-
deriam autorizá-los a continuar a dizer que “Satã não existe”, apesar de tudo,
ainda é, de algum modo, acerca de Satã, e que “existe” ainda significa (signifies)
um certo tipo de atributo ou de característica (character), embora não uma
qualidade.
Nessa direção, alguns sustentaram que o enunciado em questão é acerca
de alguma coisa descrita como “a idéia de Satã”, ao passo que outros afirmaram
que o enunciado é acerca de uma entidade subsistente mas não real (non-actual)
chamada “Satã”. Ambas as teorias, na realidade, tentam mostrar que uma coisa
pode ser (seja enquanto ser “meramente mental”, seja enquanto ser no *domínio
dos subsistentes”) sem ser em existência. No entanto, visto que nós podemos
dizer “quadrados redondos não existem” e “não-entidades reais não existem”,
esse tipo de interpretação das proposições existenciais negativas se vê obrigado
a povoar o domínio dos subsistentes ou o domínio das idéias com contradições
ambulantes. Essas teorias, então, foram obrigadas a ficar de lado, fazendo-se
necessário apresentar uma nova análise das proposições existenciais.
Suponhamos que eu afirme (assert), a respeito (aparentemente) do sujeito
(subject) geral “vacas carnívoras”, que elas 'não existem”, e que a minha asserção
seja verdadeira; nesse caso, não posso estar realmente falando acerca de vacas
carnívoras, pois não existem tais vacas. Segue-se, portanto, que a expressão
“vacas carnívoras” não está sendo realmente utilizada — não obstante as apa-
rências gramaticais em contrário — para denotar a coisa ou as coisas das quais
se afirma o predicado. Da mesma maneira, visto que o verbo “existe” não está
significando (signifying) a característica afirmada (asserted), embora pareça, do
ponto de vista gramatical, estar significando tal característica, o predicado reai
deverá ser procurado alhures.
Assim, foi necessário rejeitar a pista indicada pela gramática, sugerindo-se,
então, a análise segundo a qual “vacas carnívoras não existem” significa (means)
2
aquilo que é significado (meant) por “nenhuma vaca é carnívora” ou por “ne-
EXPRESSÕES SISTEMATICAMENTE ENGANADORAS 13
nhum animal carnívoro é vaca”. A idéia, contudo, ainda parecia requerer certos
aperfeiçoamentos adicionais.
“Unicórnios não existem” parece significar (mean) aquilo que é significado
por “nada é ao mesmo tempo quadrúpede e herbívoro e portador de um único
chifre” (ou quaisquer que sejam os traços característicos de um unicórnio). Ora,
esse último enunciado não parece implicar que existam alguns animais quadrú-
pedes ou herbívoros.
Assim, “vacas carnívoras não existem” deveria se exprimir por “nada é
ao mesmo tempo vaca e carnívoro”, esse último não implicando, tal como está
formulado, que algo seja uma ou outra coisa.
Consideremos agora algo que, aparentemente, é um sujeito singular. como
em “Deus existe” ou em “Satã não existe”. Se for correta a análise acima, então
também aqui 'Deus' e “Satã”, a despeito das aparências gramaticais, serão, na
realidade, expressões predicativas. Isto é, essas expressões constituem, na asscr-
ção segundo a qual alguma coisa possui uma característica especificada, aquele
elemento que significa (signifies) a característica pela qual se afirma que o su-
jeito é caracterizado. “Deus existe” deve significar (mean) aquilo que é signifi-
cado (meant) por “alguma coisa, e uma só, é onisciente, onipotente e infinita-
mente boa” (ou quaisquer que sejam as outras características que estão conden-
sadas na característica composta de ser um deus e o único deus). “Satã não
existe”, por sua vez, deve significar aquilo que é significado por “nada é ao
mesmo tempo diabólico e a única coisa a ser diabólica” ou, talvez, por “nada é
ao mesmo tempo diabólico e chamado 'Satã'” ou, ainda, por “ “Satã não é O
nome próprio de coisa alguma”. Podemos dizê-lo aproximadamente nos seguin-
tes termos: “x existe” e “x não existe” não afirmam ou negam que um determi-
nado sujeito de atributos, x, tem o atributo de existir; ao contrário, afirmam ou
negam, a propósito de alguma coisa que não é nomeada no enunciado, o atri-
buto de ser x-ico (x-ish) ou de ser um x.
Posso agora pôr as minhas cartas na mesa. Direi, então, que expressões
como “vacas carnívoras não existem” são sistematicamente enganadoras (syste-
matically misleading) e que as expressões mediante as quais nós as parafra-
seamos não são sistematicamente enganadoras ou, pelo menos, que elas não
o são no mesmo sentido ou na mesma medida. Aquelas expressões, con-
tudo, não são falsas nem sem sentido (senseless). Ao contrário, elas são
verdadeiras e realmente significam (mean) aquilo que significam (mean) as
suas parátrases menos sistematicamente enganosas. Por outro lado, tampouco
é verdade (exceto com relação a uma classe específica de casos) que o
autor não filosófico dessas expressões ignore ou tenha dúvidas quanto à natu-
reza do estado de coisas que a sua expressão registra. Tal autor não está de
modo algum equivocado (misled). Existe uma armadilha, porém, na sua forma
de expressão, mas uma armadilha que só ameaça aquele que já começou à gene-
ralizar acerca de espécies ou tipos (sorts or types) de estados de coisas, c que
supõe que todo enunciado fornece, na sua sintaxe, uma indicação relativa à for-
ma lógica do fato por ele registrado. Não me refiro aqui apenas e nem mesmo em
primeiro lugar ao filósofo, mas a qualquer pessoa que se engaje em abstrações.
Antes de desenvolver esse tema, porém, quero generalizar os resultados
alcançados no exame que realizamos a respeito do que podemos agora descrever
como “enunciados pretensamente existenciais”. Essa tarefa é tanto mais necessária
pelo fato de que, embora a maioria dos filósofos esteja agora prevenida por Kant
contra o sistemático caráter enganoso (the systematic misleadingness) de “Deus
existe”, muito poucos observaram que o mesmo defeito contamina um vasto nú-
mero de outras expressões.
14 RYLE
Se "Deus existe” significa (means) aquilo que dissemos que ele significa,
então é evidente que “Deus é um ente (existent)”, “Deus é uma entidade”, “Deus
tem ser” ou “existência” exigem também a mesma análise. Por conseguinte,
o é um ente (existent)” c “... é uma entidade” não são mais do que predi-
cados espúrios, e aquilo de que eles são (do ponto de vista gramatical) afirmados
não é mais do que um sujeito espúrio. |
E o mesmo valerá para todos os itens que figuram no seguinte par de
listas.
O sr. Baldwin — O sr. Pickwick —.
é um ser. é uma não-entidade.
é real, ou uma realidade: é irreal, ou uma irrealidade, ou
uma apárência.
é uma entidade genuína. é uma entidade espúria ou pretensa.
é uma substância. não é uma substância.
é um objeto, ou uma entidade real. é um objeto, ou uma entidade irreal.
é objetivo. não é objetivo, ou é subjetivo.
é uma realidade concreta. é uma ficção, ou uma invenção.
é um objeto. é um objeto imaginário.
É: não é.
é uma simples idéia.
é uma abstração.
é uma construção lógica.
Nenhum desses enunciados é realmente acerca do sr. Pickwick. Com efeito,
se são verdadeiros, não existe nenhuma pessoa acerca da qual eles possam ser.
Nenhum deles, tampouco, é acerca do sr. Baldwin, pois, se eles fossem falsos,
não haveria nenhuma pessoa acerca da qual eles poderiam ser. Além disso, em
nenhum deles o predicado gramatical é aquele elemento. no enunciado que sig-
nifica (signifies) a característica que se afirma estar ou não caracterizando algu-
ma coisa.
De maneira um tanto grosseira, formularei, então, a minha conclusão como
segue. Há uma classe de enunciados cujo predicado gramatical parece (appears)
significar (signify) não a posse de uma característica específica, mas a posse (ou
a não-posse) de um estatuto (status) específico. Em todos esses enunciados, con-
tudo, a aparência é puramente gramatical e aquilo que os enunciados realmente
registram pode ser enunciado em outros enunciados que não contêm esses pre-
dicados quase-ontológicos.
Além disso, em todos esses enunciados quase-ontológicos, a palavra ou
frase que exprime o sujeito gramatical parece denotar ou fazer referência a algu-
ma coisa como algo de que se predica o predicado quase-ontológico. Na reali-
dade, porém, o aparente termo sujeito é uma expressão predicativa camuflada
e aquilo que é efetivamente registrado nesses enunciados pode ser reenunciado
em outros enunciados cujas partes nem chegam sequer a fazer referência a algum
sujeito.
Numa palavra, todos os enunciados quase-ontológicos são sistematicamente
enganadores. [Se estou certo em relação a isso, segue-se então a conclusão —
que estou disposto a aceitar — de que os maiores pecadores são aqueles filó-
EXPRESSÕES SISTEMATICAMENTE ENGANADORAS 15
sofos metafísicos que fizeram da “Realidade” ou do “Ser' o sujeito das suas pro-
posições, ou de “real” o seu predicado. Com efeito, o que esses filósofos dizem
é, na melhor das hipóteses, sistematicamente enganoso — o que é o tipo de
coisa que as proposições dos filósofos não têm o direito de ser — e, na pior
das hipóteses, algo destituído de significação (meaningless).]
Devo: novamente advertir que a pessoa que ingenuamente emprega essas
expressões quase-ontológicas não está necessariamente nem mesmo provavel-
mente equivocada (misled). Ela disse o que pretendia dizer, e qualquer pessoa
que soubesse português compreenderia o que ela estava dizendo. Além disso, eu
acrescentaria que, nos casos que arrolei acima, os enunciados não são apenas
significantes, mas verdadeiros. Cada um deles registra um autêntico estado de
coisas. Por outro lado, também não é necessário que eles induzam o filósofo a
erro (mislead the philosopher). Espero não estarmos nós, por exemplo, equivo-
cados (misled). A questão, no entanto, é que qualquer pessoa, incluindo o filó-
sofo, que abstrai e generaliza, tentando considerar aquilo que diferentes fatos
do mesmo tipo (isto é, fatos do mesmo tipo acerca de coisas diferentes) têm em
comum, se vê obrigada a utilizar a forma gramatical comum dos enunciados
dos fatos, a título de alças com as quais possa apreender a forma lógica comum
dos próprios fatos. Com efeito (e é algo que veremos mais adiante), visto que
a maneira segundo a qual um fato deveria ser registrado constituiria uma indi-
cação quanto à forma desse fato, nós passamos imediatamente a supor que o
modo no qual um fato é concretamente registrado constitui uma indicação desse
gênero. Muitas vezes, porém, a indicação é enganosa, sugerindo que o fato tem
uma forma diferente daquela que é realmente a sua forma. De acordo com a sua
forma gramatical, 'Satã não é uma realidade” parece registrar o mesmo tipo de
fato que “Capone não é um filósofo” e, assim como essa última efetivamente nega
que alguém chamado 'Capone” possui uma determinada característica, também
a primeira paréce negar que alguém chamado “Satã” possui uma característica
especificada. Ora, a sugestão se revela uma fraude, pois o fato registrado seria
adequadamente (ou menos inadequadamente) registrado no enuntiado “ “Satã”
não é um nome próprio” ou nos enunciados “ninguém ou nada se chama “Satã” ”,
“ninguém ou nada se chama “Satã” e é, ao mesmo tempo, infinitamente malé-
volo, etc.”, ou talvez no enunciado “algumas pessoas acreditam que alguém se
chama “Satã” e é, ao mesmo tempo, infinitamente malévolo, mas a sua crença
é falsa”. Ora, nenhum desses enunciados sequer pretende ser “acerca de Satã”.
Ao contrário, eles manifestamente são acerca do vocábulo (noise) 'Satã” ou acer-
ca das pessoas que utilizam mal (misuse) essa palavra.
Do mesmo modo, embora seja significante, verdadeiro e diretamente inte-
ligível dizer “o sr. Pickwick é uma ficção”, trata-se de uma expressão sistemati-
camente enganadora (isto é, de uma expressão enganadora em virtude de uma
propriedade formal que ela tem em comum ou que poderia ter em comum com
outras expressões), pois ela não registra realmente, embora pareça registrar, um
fato do mesmo tipo daquele que é registrado em “o sr. Baldwin é um político”.
O mundo não contém ficções à maneira como ele contém políticos. Não existe
nenhum sujeito de atributos do qual possamos dizer “eis aqui uma ficção”. O
que podemos fazer é dizer, a propósito de Dickens, “eis aqui um contador de
estórias”, ou, a propósito dos Pickwick Papers, “eis aqui um pacote de menti-
ras”, ou, então, a propósito de uma sentença que figura nessa novela e que con-
tém o pseudonome “sr. Pickwick”, podemos também dizer “eis aqui uma fábu-
la”. Ora, quando dizemos coisas desse gênero, nós estamos registrando exata-
mente aquilo que registrávamos quando dizíamos “o sr. Pickwick é uma ficção”.
A diferença está em que as nossas novas expressões, ao contrário das anteriores,
16 RYLE
não mais sugerem que um sujeito de atributos possui os dois atributos de ser
chamado de 'sr. Pickwick” e de ser uma ficção. Em lugar disso, as novas expres-
sões sugerem que um sujeito de atributos tem os atributos de se chamar Dickens
e de ser um inventor de proposições falsas e de pseudonomes próprios ou, se-
gundo a outra análise, de ser um livro ou uma sentença que só poderia ser
verdadeiro ou falso se alguém se chamasse “sr. Pickwick”. A proposição “o sr.
Pickwick é uma ficção”, a despeito da sua prima facies, na realidade é acerca
de Dickens ou acerca dos Pickwick Papers. Esse fato, contudo, se encontra dis-
simulado e não é exibido pela forma da expressão na qual ele é afirmado.
Deve-se assinalar que o sentido no qual esses enunciados quase-ontolo-
gicos são enganosos não reside no fato de que eles sejam falsos nem mesmo no
fato de que uma palavra qualquer que neles ocorra seja equívoca ou vaga. O
sentido em que eles são enganosos consiste apenas em que são formalmente
inadequados para fatos que possuem uma determinada forma lógica, para cujo
registro, justamente, eles são empregados, sendo, ao contrário, adequados (pro-
per) para fatos de uma forma lógica totalmente diversa. Deveremos examinar
mais adiante quais são as implicações dessas noções de adequação (property)
formal e de inadequação (improperty) formal.
Si — Enunciados aparentemente acerca de
universais ou enunciados quase-platônicos
Muitas vezes, utilizamos com inteira propriedade expressóes como “a im-
pontualidade é repreensível” e “a virtude é a sua própria recompensa”. A pri-
meira vista, esses enunciados parecem corresponder exatamente a “Sílvio me-
rece repreensão” e “Pedro concedeu o prêmio a si mesmo”. Alguns filósofos,
então, pensando que aquilo que é significado (meant) pelos enunciados do pri-
meiro tipo é exatamente análogo aquilo que é significativo pelos enunciados do
segundo tipo, aceitaram a consegiiência de que o mundo contém pelo menos
dois tipos de objetos, a saber, objetos particulares, como Sílvio e Pedro, e obje-
tos “universais”, como Impontualidade e Virtude.
Ora, os absurdos começam imediatamente a proliferar. Obviamente é tolice
dizer que um universal merece repreensão. Assim como não podemos cavar
buracos no equador, tampouco podemos elogiar ou censurar um “universal”.
Além disso, quando dizemos “a impontualidade é repreensível”, não esta-
mos realmente supondo que a impontualidade deveria ter vergonha de si mesma.
Aquilo que significamos com esse enunciado é aquilo que é também sig-
niticado, porém mais bem expresso, pelo enunciado “todo aquele que for impon-
tual merecerá que os outros o repreendam pela sua impontualidade”. Com efeito,
são as pessoas impontuais, é não a impontualidade, que podem e devem ser
censuradas, visto que elas são agentes morais, o que a impontualidade não é.
Ora, a palavra “impontualidade', na nova expressão “todo aquele que for im-
pontual merecerá repreensão”, desapareceu em favor da expressão predicativa
e é impontual”. De tal sorte que, ao passo que “impontualidade”, na expres-
são original, parecia denotar o sujeito do qual se afirmava um atributo, a pala-
vra passa agora a significar (signify) a posse de um atributo. Assim, estamos di-
zendo, na realidade, que qualquer pessoa que possui esse segundo atributo, pos-
sui também o primeiro.
Por outro lado, não e literalmente verdade que a Virtude seja algo que
receba recompensas. O que é verdade é que qualquer pessoa virtuosa se benefi-
cia por isso mesmo. Todo aquele que for bom ganhará alguma coisa por ser
bom. O enunciado original, por conseguinte, não era “acerca da Virtude”, mas
EXPRESSÕES SISTEMATICAMENTE ENGANADORAS 17
acerca de homens bons, e a palavra “Virtude” que, naquele enunciado, exprimia
o sujeito gramatical, significava (meant) aquilo que é significado por “ é vir-
tuoso”, sendo, portanto, ao contrário do que pretendia ser, uma expressão pre-
dicativa.
Não é necessário discorrer longamente sobre esse ponto. Não é literalmente
verdade que “a honestidade me obriga a declarar isso e aquilo”, pois “honesti-
dade” não é o nome de um agente coercitivo. O que é verdade, nesse caso, é mais
adequadamente (properly) expresso por “visto que sou honesto ou porque de-
sejo ser honesto, sou obrigado a declarar isso e aquilo”. “A cor implica exten-
são” significa aquilo que é significado por “tudo o que é colorido é extenso”.
“A esperança adiada torna o coração doente” significa (means) aquilo que é
significado (meant) por “todo aquele que, durante muito tempo, espera por al-
guma coisa sem alcançá-la, adoece do coração”.
Na minha opinião pessoal, todos os enunciados que parecem ser “acerca
de universais” são analisáveis dessa mesma maneira e, consequentemente, creio
que os termos gerais nunca são realmente nomes de sujeitos de atributos. Os
“universais”, portanto, não são objetos no sentido em que o monte Everest é um
objeto; por conseguinte, o velho problema de saber que espécie (sort) de objeto
são eles é um problema espúrio. Com efeito, substantivos gerais, adjetivos, etc.,
não são nomes próprios, de sorte que não podemos falar de “os objetos chama-
dos “igualdade”, “justiça” e “progresso” ”.
Por conseguinte, asserções platônicas e antiplatônicas, do tipo “a igualdade
é — ou não é — uma entidade real”, são igualmente enganadoras, e enganado-
ras de duas maneiras ao mesmo tempo, pois elas são, simultaneamente, enun-
ciados quase-ontológicos e enunciados quase-platônicos.
Não pretendo, contudo, defender aqui essa posição geral, limitando-me
apenas a mostrar que, em alguns casos, certos enunciados que, a partir da sua
forma gramatical, parecem dizer que “a honestidade faz isso e aquilo” ou que
“a igualdade é assim e assim”, na realidade dizem — de uma maneira formal-
mente inadequada (embora se trate de uma maneira imediatamente inteligível e
idiomaticamente correta) — que “tudo o que é igual a x é assim e assim” ou
que “todo aquele que é honesto é isso e aquilo”. Esses enunciados enunciam
abertamente algo que os outros enunciam dissimuladamente, a saber: para que
alguma coisa possua um atributo, é necessário que também possua um outro.
É claro que o homem comum que utiliza essas expressões quase-platônicas
não está cometendo nenhum erro filosófico. Ele simplesmente não está filoso-
fando. A pretensão fraudulenta, que essas proposições incorporam, de serem
'acerca da Honestidade” ou “acerca do Progresso”, não o induz a nenhum erro
(misled); na verdade, ele nem sequer se dá conta dessa pretensão. Ele sabe o
que quer dizer (what he means) e é muito provável que aceite, como uma pará-
frase idônea, a nossa maneira [que é formalmente mais adequada (proper)] de
reenunciar o que ele quer dizer. Por outro lado, contudo, ele não terá nenhum
motivo para preferir a forma mais adequada de expressão, não tendo, tampouco,
nenhum fundamento para sustentar que ela é mais adequada. Esse homem, com
efeito, não está interessado na forma do fato em abstração do tópico (subject-
matter) específico sobre o qual incide esse fato. Para ele, portanto, a melhor ma-
neira de exprimir alguma coisa será aquela que for mais concisa, mais elegante
ou mais enfática, ao passo que aqueles que, como os filósofos, estão obrigados
a generalizar a respeito dos tipos (sorts) de enunciados que devem ser feitos de
certos tipos (sorts) de fatos acerca de determinados tipos (sorts) de tópicos, esses
não podem se impedir de tratar, como indicações relativas às estruturas lógicas
18 RYLE
que estão procurando, as formas gramaticais dos tipos (types) habituais de ex-
pressões nas quais essas estruturas são registradas. Ora, essas indicações muitas
vezes são enganadoras (misleading).
8 HI — Expressões descritivas e quase-descrições
Todos nós utilizamos constantemente expressões da forma 'o assim e assim
(the so and so'); por exemplo, 'o vice-chanceler da Universidade de Oxford”.
Com muita fregiiência, nós fazemos referência, mediante expressões desse gênero,
a um único indivíduo descrito de maneira individualizadora (one uniquely descri-
bed individual). As frases 'o atual vice-chanceler da Universidade de Oxford” e
'a mais alta montanha do mundo” têm essa referência em proposições como: “o
atual vice-chanceler da Universidade de Oxford é um homem alto” e “eu não
vi a mais alta montanha do mundo”.
Não há nada de intrinsecamente enganoso na utilização das frases-em-'o”
(“the'-phrases) como descrições individualizadoras (as unique descriptions), embo-
ra elas sejam, num certo sentido, altamente condensadas ou abreviadas. Os filó-
sofos, contudo, podem cometer erros, e efetivamente os cometem, nas suas eluci-
dações relativas áquilo que tais frases descritivas significam (mean). Como vere-
mos, o que há de enganoso reside nas frases-em-'o” que se comportam, do ponto
de vista gramatical, como se fossem descrições individualizantes (unique) que se
referem a indivíduos, quando, na realidade, elas absolutamente não são frases
referenciais. Mas não poderemos examinar essa classe de expressões sistematica-
mente enganadoras antes de considerar a maneira como as genuínas descrições
individualizantes fazem referência.
Uma frase “descritiva não é um nome próprio; a maneira segundo a qual o
sujeito de atributos que ela denota é denotado por essa frase não consiste em que
esse sujeito é chamado 'o assim e assim”, mas, ao contrário, em que ele possui e
é, ipso facto, o único a possuir o atributo específico, que é aquilo que a frase
descritiva significa (signifies). Se Toninho é o filho mais velho de Sílvio, a frase
'o filho mais velho de Sílvio” denota Toninho — mas não porque alguém o
chama de “o filho mais velho de Sílvio" e, sim porque só ele é, e mais ninguém
pode ser, um filho de Sílvio e, ao mesmo tempo, mais velho do que todos os
outros filhos de Sílvio. Em outros termos, a frase descritiva em questão não é
um nome próprio, mas uma expressão predicativa que significa (signifying) as
características simultâneas de ser um filho de Sílvio e de ser mais velho do que
os outros filhos de Sílvio. Além disso, ela se refere a Toninho apenas no sentido
em que Toninho, e somente Toninho, possui essas características.
Em nenhum sentido essa frase significa (mean) Toninho. Veremos logo
adiante que não teria sentido dizer isso. A frase significa (means) aquilo que é
significado pela expressão predicativa “... é um filho de Sílvio e, ao mesmo
tempo, mais velho do que os seus outros filhos”, sendo ela própria, portanto,
apenas uma expressão predicativa. Por “expressão predicativa” entendo (mean)
aquele fragmento de um enunciado em virtude do qual se exprime a posse de
uma determinada característica ou de certas características. Ora, a posse de uma
determinada característica não constitui um sujeito de atributos, mas a parte fi-
nal, por assim dizer, dos fatos segundo os quais alguns sujeitos de atributos pos-
suem a característica e outros não. Por si só, tal fragmento não nomeia o sujeito
que possui a característica em questão, não registrando, tampouco, o fato de que
um sujeito qualquer a possui. Na realidade, esse fragmento de enunciado não
pode ocorrer sozinho, mas somente enquanto um elemento, a saber, enquanto
elemento predicativo de um enunciado completo.
EXPRESSÕES SISTEMATICAMENTE ENGANADORAS 19
Assim, o enunciado completo “o filho mais velho de Sílvio casou hoje” sig-
nifica (means) aquilo que é significado por “alguém (isto é, Toninho (1) é um
filho de Sílvio, (2) é mais velho do que os outros filhos de Sílvio (essa parte po-
deria ser submetida a uma análise mais elaborada) e (3) casou hoje”.
O enunciado completo não poderia ser verdadeiro se não fossem verdadeiros
os três ou mais enunciados que o compõem. O fato de enunciar (1) e (2), no
entanto, não garante que exista alguém de quem ambos sejam verdadeiros. (Ne-
nhum enunciado pode assegurar a sua própria verdade.) Por conseguinte, a ex-
pressão caracterizadora “... é o filho mais velho de Sílvio” não significa (mean)
Toninho, no sentido de ser o seu nome próprio nem no sentido de ser uma
expressão cuja compreensão envolva o conhecimento de que Toninho possui
essa característica peculiar. Essa expressão só faz referência a Toninho no sentido
de que os ouvintes bem informados já saberão que Toninho, e somente Toninho,
possui de fato essa característica específica. Esse conhecimento, porém, não faz
parte daquilo que é necessário conhecer para compreender o enunciado “o filho
mais velho de Sílvio casou hoje”. Com efeito, nós poderíamos saber o que tal
enunciado significa sem saber que Toninho é o filho mais: velho ou que ele casou
hoje. Tudo o que devemos saber é que é necessário que alguém seja caracterizado
dessa dupla maneira a fim de que o enunciado completo seja verdadeiro.
Com efeito, compreender um enunciado ou apreender o que um enunciado
significa não é saber que o enunciado registra esse ou aquele fato, mas saber o
que seria o caso se o enunciado fosse o registro de um fato.
Não existe compreensão ou apreensão da significação de um nome próprio
isolado ou de uma descrição individualizante (unique description). isolada. Com
eteito, ou nós sabemos que alguém em particular é chamado por esse nome por
certas pessoas ou então que alguém em particular possui as características pecu-
liares, significadas (signified) pela frase descritiva — o que exige, da nossa parte,
familiaridade com o nome ou com a descrição e, ao mesmo tempo, com a pessoa.
nomeada ou descrita. Ou então não sabemos essas coisas e, nesse caso, não
sabemos que o quase-nome é realmente um nome ou que a quase-descrição indi-
vidualizante realmente descreve alguém. Apesar disso, nós podemos compreender
os enunciados em que ocorrem quase-nomes ou quase-descrições individualizan-
tes, pois nós podemos saber o que seria o caso se alguém fosse chamado por
esse nome ou pudesse ser descrito por aquela descrição e se, ao mesmo tempo,
possuísse também as outras características dele predicadas nos predicados do
mesmo enunciado,
Vemos, então, que as frases descritivas são expressões predicativas conden-
sadas e, por conseguinte, que a sua função consiste em ser aquele elemento ou
(o que é mais freqiiente) em ser um daqueles elementos dos enunciados (que,
tomados globalmente, registram que alguma coisa possui uma ou mais caracterís-
ticas) mediante os quais se exprime a posse dessa ou daquela característica.
Também é bastante fácil chegar a essa mesma constatação através de uma
outra perspectiva.
Consideremos qualquer frase-em-'o' (“the'-phrase) que seja utilizada refe-
rencialmente, com naturalidade, como sujeito gramatical de uma sentença; por
exemplo, a frase 'o vice-chanceler da Universidade de Oxford' na sentença “o
vice-chanceler da Universidade de Oxford é um homem muito ocupado”. Pode-
mos, então, tomar a frase descritiva, colocá-la à parte, à disposição, nas prate-
leiras de um estoque e passar a utilizá-la não referencialmente numa série de
enunciados e expressões: “quem é o atual vice-chanceler da Universidade de
Oxford?”, “o sr. Tal-e-Tal é o atual vice-chanceler da Universidade de Oxford”,
“Jorge Carpentier não é o atual vice-chanceler da Universidade de Oxford”. “e
20 RYLE
sr. Assim-e-Assim é o vice-chanceler da Universidade de Oxford, ou então o
seu procurador geral”, “todo aquele que for vice-chanceler da Universidade de
Oxford é alguém muito ocupado”, etc. Nos casos de enunciados negativos, hipo-
téticos e disjuntivos que contêm essa expressão predicativa comum, é claro que
não se implica nem mesmo se sugere que alguém efetivamente ocupa o cargo de
vice-chanceler. A frase-em-'o” será aqui, portanto, inteiramente não referencial,
sequer pretendendo denotar alguém. Essa frase significa (signifies) uma caracte-
rística específica, mas não implica que alguém a possua. Isso nos remete à nossa
conclusão original segundo a qual uma frase descritiva não significa (mean), em
nenhum sentido, uma pessoa ou uma coisa determinada. Ou, em outros termos,
que nós podemos compreender um enunciado que contém uma frase descritiva
sem, no entanto, saber que a descrição se aplica a esse ou âáquele sujeito de
atributos. [Na realidade, não é nem mesmo necessário justificar elaboradamente
essa posição, pois ninguém que respeite o sentido (sense) jamais sequer sonharia
em apontar para alguém ou para alguma coisa dizendo “essa é a significação
(meaning) de tal e tal expressão”, ou “a significação daquela frase é estar gripa-
do”. “Sócrates é uma significação (meaning)” é uma sentença sem sentido. Todo
o problema a respeito da denotação (denoting) parece derivar da suposição de
que seria possível descrever, de maneira significante, um objeto como “a signifi-
cação (meaning) da expressão 'x' ” ou como “aquilo que a expressão 'x” significa”.
E perfeitamente legítimo, sem dúvida, dizer que uma frase descritiva se refere ou
se aplica (fit) a tal homem ou a tal montanha, e é perfeitamente legítimo descre-
ver esse homem ou aquela montanha como aquilo a que a expressão 'x' se refere.
Mas isso é simplesmente dizer que esse homem ou aquela montanha tem, e é
o único a ter, as características cuja posse se exprime no fragmento sentencial
predicativo *... é o tal-e-tal'.]
Tudo isso não faz mais do que nos remeter a uma outra classe de expres-
sões sistematicamente enganadoras. De sua parte, contudo, as frases-em-'o” que
estivemos examinando, quer ocorram como sujeitos gramaticais, quer ocorram co-
mo predicados de enunciados, não são formalmente fraudulentas. Não há nada
na forma gramatical das sentenças citadas que sugira que os fatos por elas regis-
trados são de uma forma lógica diversa daquela que eles realmente possuem.
O argumento acima pretendeu ser uma crítica a determinados erros filosó-
ficos atuais ou possíveis; esses erros, entretanto, são erros acerca de expressões
descritivas e não erros devidos a embustes presentes nas expressões descritivas
enquanto tais. Os erros que estive tentando afastar consistem, aproximadamente,
nas opiniões segundo as quais (1) as frases descritivas são nomes próprios e (2)
a coisa que uma descrição descreve é aquilo que a descrição significa (mean).
Desejo agora, finalmente, abordar o problema que adiei tantas vezes, passando
a examinar uma outra classe de expressões sistematicamente enganadoras.
$ IV — Frases-em-'o' quase-referenciais que
são sistematicamente enganadoras
1. No discurso ordinário, frequentemente aparecem certas expressões que,
embora sendo frases-em-'o”, simplesmente não são descrições individualizantes
(unique descriptions), ainda que, pela sua forma gramatical, pareçam sê-lo. A pes-
soa que não se põe a abstrair e a generalizar pode utilizar tais expressões sem
nenhum perigo ou perplexidade, sabendo muito bem o que quer dizer (what he
means) com as sentenças que as contêm. O filósofo, porém, para não cair em
armadilhas, está obrigado a reenunciá-las numa disposição de palavras diferente
e formalmente mais apropriada.
EXPRESSÕES SISTEMA TICAMENTE ENGANADORAS ae]
Quando uma frase descritiva é utilizada de maneira formalmente não enga-
nadora como sujeito gramatical de uma sentença. como na sentença: “o rei foi a
caça hoje”, sabemos que, se o enunciado como um todo for verdadeiro (ou mes-
mo falso), deve então haver no mundo alguém em particular à quem a descrição
o rei” se refere ou se aplica. Além disso, tiâmbém poderiamos, nesse caso, per-
guntar de maneira significante “quem é o rei?” ou “o pai do principe de Gales
e o rei são uma só e mesma pessoa?”
Logo a seguir, veremos, entretanto, que existem, na utilização corrente, cer-
tas frases quase-descritivas da forma “o assim-e-assim” (the so-and-so') em cujos
casos não há no mundo ninguém ou nada que possamos descrever como aquilo
a que a frase em questão se refere ou se aplica; veremos, portanto, que, em
relação a esses casos, não há nada nem ninguém acerca do qual ou acerca de
quem possamos sequer perguntar: “é este o assim-e-assim?” ou “esta pessoa e O
assim-e-assim são uma só e mesma pessoa?”
Isso pode acontecer sob inúmeras modalidades. Consideremos, em primeiro
lugar, o enunciado — verdadeiro e claramente inteligível — “Poincaré não é o
rei da França”. À primeira vista, esse enunciado parece formalmente análogo a
“Toninho não é (isto é, não é idêntico a) o rei da Inglaterra”. Mas a diferença
entre os dois aparece imediatamente. Com efeito, ao passo que, com relação ao
último enunciado, se ele tor verdadeiro, a sua conversa (“o rei da Inglaterra não
é Toninho”) também será verdadeira, isso não ocorre com o primeiro, pois a sua
conversa (“o rei da França não é Poincaré”) não é nem verdadeira nem falsa. Não
existe, com efeito, nenhum rei da França e a frase “o rei da França” não se aplica
a ninguém. De resto, o homem comum que diz: “Poincaré não é o rei da França”
não está supondo o contrário. Nesse enunciado, portanto, a expressão “o rei da
França” não é análoga à expressão “o rei da Inglaterra” que figura em outros
enunciados. Na realidade, aquela expressão não está sendo utilizada de maneira
referencial ou como uma descrição individualizante relativa u alguém.
Podemos agora reescrever us proposições contrastadas em formas verbais
(forms of words) que anunciem claramente a diferença — dissimulada pelas pro-
posições originais — entre as formas dos fatos registrados por uma é outra.
“Foninho não é a mesma pessoa que o rei da Inglaterra” significa (means)
aquilo que é significado por “(1) alguém e (num círculo não especificado) uma
só pessoa se chama Toninho; (2) alguém e uma só pessoa possui poder real na
Inglaterra; e (3) ninguém se chama Toninho e é o rei da Inglaterra”. O enuncia-
do original não poderia ser verdadeiro se (1) e (2) não tossen verdadeiros.
Essa utilização dupla — a saber, a utilização referencial e a utilização não
referencial — das frases-em-'o” pode às vezes nos embaraçar na simples prática
do discurso ordinário. Certas pessoas poderiam facilmente pensar que “Pedro
não é o único homem a ter escalado o monte Branco” significa (means) aquilo
que é significado por “um homem e um só escalou o monte Branco, mas Pedro
não é esse homem”: ouiras pessoas, ao contrário, poderiam pensar que o enun-
ciado significa aquilo que é significado por “Pedro escalou o monte Branco, mas
pelo menos um outro homem também o escalou”. Não estou interessado, con-
tudo, na ocasional ambiguidade de expressões como essa, mas no fato de que
uma expressão desse tipo (que, na realidade, está sendo utilizada de maneira
não referencial) pode ser interpreiada como se ela devesse ser utilizada reterencial-
mente, ou como se toda frase-em-'o” fosse utilizada referencialmente. Os filósofos
e outras pessoas que são obrigadas a abstrair é a generalizar tendem, em virtude
da semelhança verbal entre as trases-em-'o” de um tipo c as frases-em-'o” do
vutro, a ser induzidos ao erro (to be misled) de “forjar entidades”, a fim de pode-
rem mostrar a que se refere uma determinada frase-em-'o".
E)
Eos
RYLE
Consideremos, em primeiro lugar, as frases “O topo daquela árvore” ou “o cen-
tro daquele arbusto” tal como elas ocorrem em enunciados do tipo “uma coruja
está pousada no topo daquela árvore” « “a minha flecha atravessou o centro
daquele arbusto”. Não ha nada de ambíguo nesses enunciados. que transmitem de
maneira clara e direita aquilo que eles pretendem transmitir.
Por outro lado, no entanto, dado que eles têm a sintaxe análoga à de “um
homem está sentado ao lado do vice-chanceler” cv à de “a minha flecha atraves-
sou a cortina” e, além disso, dado que seria possivel compor uma lista indefinida
de diferentes enunciados que teriam em comum as frases-em-'o": “o topo daquela
árvore” e “o centro daquele arbusto”, torna-se difícil, nessas condições, para as
pessoas que gencralizam, escapar à tentação de supor ou até de acreditar que
essas frases-em-'o” se referem a objetos a maneira como 'o vice-chanceler” e a
cortina” se referem a objetos. Ora, isso equivale à supor que o topo daquela
arvore constitui um autêntico sujeito de atributos, exatamente da mesma maneira
como o vice-chanceler.
Ão mesmo tempo, porém, a expressão "o topo da árvore” revela não estar
tazendo referência u nenhum objeto [salvo quando cla está sendo inadequada-
mente utilizada (misused) pela expressão 'o mais alto galho” ou por “a mais alta
folha da arvore]. Não ha nada no mundo de que se possa afirmar com verdade
tou com falsidade): “este é o topo de tal e tal árvore”. À expressão não se refere,
por exemplo, a uma parte da árvore que possa ser cortada e queimada ou colo-
cada num vaso. “OC topo da árvore não se refere a nada; ao contrário, a expres-
são significa (signifies) um atributo (4 saber o de possuir uma posição relativa)
quando ela ocorre em enunciados da forma “x está no topo da árvore, perto.
abaixo ou acima do topo da árvore”. Para dizê-lo cm termos grosseiros e crus:
a expressão não faz referência a uma coisa, ela significa que uma coisa está em
determinado local. Podemos também dizer que ela significa, não uma coisa, mas
a situação ou localização de uma coisa, como a localização de um ramo ou de
uma folha que se encontra mais alto do que qualquer outro ramo ou folha da
arvore. Por conseguinte, não faz sentido dizer que ora um ramo ora outro está
no topo da árvore. Ào contrário, “no topo da árvore” não significa mais do que
aquilo que é stenificado por “mais alto do que qualquer outra parte da árvore”;
ora, ninguém poderia tomar essa última trase por uma frase referencial do tipo
"o atual vice-chanceler.
O lugar de uma coisa ou o paradeiro de uma coisa não é uma coisa, mas
o ponto final do fato de que alguma coisa está aqui ou ali. “Onde a abelha suga,
ali sugo eu”; mas é O trevo que ali está que contém o mel, e não a localização
do trevo. Tudo isso significa apenas que, embora possamos utilizar frases quase-
descritivas que nos permitam enunciar onde alguma coisa está, que a coisa está
aqui ou ali é algo que constitui uma caracteristica relacional da coisa, e não um
sujeito de características.
Desconfio de que um bom número de equívocos cartesianos e talvez newto-
niauos acerca do espaço e do tempo tenham origem no caráter sistematicamente
enganador das frases-em-o” que nós utilizamos para datar e para localizar as
coisas, frases essas do tipo “a região ocupada por x”, 'a trajetória percorrida por
”. "o momento ou a data em que Z aconteceu”. Não toi percebido que essas ex-
pressões não são mais do que expressões predicativas rebuscadas (hamstrung), €
que clas não são expressões descritivas utilizadas de mancira referencial, não
sendo nem mesmo consideradas como tais, do mesmo modo como 'o rei da
França”, na sentença “Poincaré não é o rei da França”, não é, de hábito, tratada
como se fosse uma frase-em-'o” utilizada reterencialmente.
Consideremos un outro caso. “Sílvio detesta a idéia de ir para o hospital”
EXPRESSÕES SISTEMATICAMENTE ENGANADORAS 28
ou “ua idéia de aproveitar um feriado acaba de me ocorrer”. Essas frases quase-
descritivas sugerem que existe um objeto no mundo que é aquilo que c referido
pela frase “a idéia de ir para o hospital” é um outro objeto que é aquilo que «
referido por “a idéia de aproveitar um feriado. E foi, de algum modo, em parte
através da aceitação da aparência (prima facies) gramatical dessas expressões,
que certos filósofos vieram a acreditar na existência de “idéias”, “concepções” «
“pensamentos” ou “juízos, tão piamente Quanto os seus predecessores acredita-
ram (por razões semelhantes) na existência de formas substanciais, OU COMO as
crianças acreditam (ainda por razões similares) na cxistência do equador, do céu
e do pólo Norte.
Se nós as reenunciarmos, porém, ficará bem claro que essas expressões não
constituem nenhuma evidência em favor da demonologia lockiana. Com efeito,
“Silvio detesta a idéia de ir para o hospital” significa apenas aquilo que é signi-
ficado por “Silvio fica angustiado quando pensa no que irá sofrer quando for
para O hospital”. Assim, a frase “a idéia de... se transformou em “sempre que
pensa em. .., u qual nem mesmo aparenta conter uma referência a qualquer
outra entidade além de Silvio e, talvez, de hospital. Para que o novo enunciado
seja verdadeiro, é necessário que o mundo contenha um Silvio que algumas ve-
zes está pensando « outras vezes dormindo, por exemplo. Mas não é necessário
que o mundo contenha Sílvio e, ao mesmo tempo, “o pensamento ou, a idéia
disso e daquilo”, assim como tampouco é necessário que ele contenha alguém
chamado “Silvio” «, ao mesmo tempo. alguma coisa chamada “dormir.
De muneira similar, o enunciado: “a idéia de aproveitar um feriado acaba
de me ocorrer” parece ser, do ponto de vista gramatical, análogo a “aquele ca-
chorro acaba de me morder”. Ora, assim como o mundo deverá conter a mim
v ao cachorro se essa última tor verdadeira, assim também parece que o mundo
deverá conter a mim é à idéia de aproveitar um feriado se a primeira for ver-
dadeira. Tal aparência. porém, é ilusória. Com eleito, embora cu não possa
reenunciar a minha reclamação contra o cachorro numa sentença que não con-
tenha uma frase descritiva que faça referência a ele. cu posso facilmente fazé-lo.
ao contrário, com relação ao enunciáado acerca de “a idéia de aproveitar um”
teriado”; por exemplo, reenunciando-o no enunciado “acaba de me ocorrer que
eu bem poderia aproveitar um feriado”.
A ausência de uma análise da frase quase-descritiva “a significação (meaning)
da expressão 'x'” engendrou, na própria lógica e na epistemologia, um vasto nú-
mero de erros desse mesmo género. Desconfio de que todas as doutrinas errôneas
a respeito dos conceitos, idéias, termos, juízos, proposições objetivas, conteúdos,
objctividades (objectives) e outras entidades do gênero, derivam dessa mesma
falácia, a saber, a de que deve haver algo referido por expressões como “a sig-
nificação da palavra (da frase ou da sentença) "x, alguma coisa que tenha o
mesmo estatuto que o policial efetivamente referido pela primeira frase descri-
tiva da sentença “o policial do nosso bairro é apaixonado por futebol”. Para es-
capar à confusão, é preciso perceber que algumas frases-cm-'o" só se assemelham
quanto à gramática e não quanto à função as frases descritivas utilizadas referen-
cialmente; perceber, por exemplo, que, no caso mencionado, “a significação de "x ”
é uma expressão predicativa utilizada não referencialmente, exatamente como a
expressão “o rei da França” nã sentença “Poincaré não é o rei da França”.
É claro que o homem comum, ao fazer enunciados que contém expressões
como “a significação de "x" ”, não está pretendendo que ele próprio ou que qual-
quer outra pessoa esteja fazendo referencia a um estranho objeto novo, Não lhe
passa pela cabeça que a sua frase possa ser crroncamente interpretada (miscons-
rrued) como uma frase descritiva utilizada referencialmente. Ele não é culpado,
|
+=.
RYLE
portanto, de nenhum erro ou intração filosófica. Apesar de tudo, porém, a sua
forma de palavras não deixa de ser sistematicamente enganadora. Com efeito, a
total semelhança de forma gramatical entre “o policial do bairro é de inteira
confiança” e “a significação de x é dúbia” ou entre “acabo de encontrar o poli-
cial do bairro” e “acabo de captar a significação de "x ”, dissimula uma diferença
capital quanto à forma lógica.
(Por conseguinte, visto que não existe um objeto que possa ser descrito co-
mo aquilo que é referido pela expressão “a significação de 'x'”, as questões rela-
tivas ao estatuto desses objetos são destituídas de significação (mneaningless).
Discutir se as significações de palavras (word-meanings) (isto é, “conceitos” ou
“universais ) são subjetivas ou objetivas, ou se as significações sentenciais (sen-
rence-meanings) [isto é, “juízos” ou 'objetividades” fobjetives”)| são uma ou outra
coisa, é tão despropositado quanto perguntar se o equador ou o céu é objetivo
ou subjetivo. As próprias questões, com «feito, não são acerca de coisa alguma.)
Tudo isso absolutamente não nos impede, é claro, de utilizar, de forma
inteligente e inteligível, sentenças que contenham a expressão “a significação
de 'x' ”, desde que seja possível reescrevé-la como “o que 'x” significa”. Nesse caso
com efeito, a frase-em-'o” estaria sendo utilizada predicativamente e não como
uma descrição individualizante. “A significação (meaning) de 'x' é idêntica à sig-
nificação de 'y' ” é uma sentença equivalente à sentença 'xº significa (means) o que
*y" significa”, e essa pode ser compreendida sem que tenhamos nenhuma tentação
de multiplicar entidades.
Apesar de tudo, porém, esse argumento incide apenas sobre um caso bem
específico do caráter enganador sistemático (the systematic misleadingness) de
certas quase-descrições.
2. Há ainda uma outra classe de utilizações de frases-em-'o” igualmente
suscetíveis de engendrar interpretações filosóficas errôncas, embora eu não esteja
muito certo, pessoalmente, de poder evocar nenhum bom exemplo de erros cfeti-
vamente cometidos a partir dessa origem.
Suponhamos que cu diga o seguinte: “a derrota do Partido Trabalhista me
surpreendeu”; o que eu disse poderia. nesse caso, ser paratraseado corretamente
por “o fato de que o Partido Trabalhista foi derrotado constitutu uma surpresa
para mim” ou por “o Partido Trabalhista foi derrotado e estou surpreso de que
o tenha sido”, A frase-em-'o", aqui, não faz referência a uma coisa, sendo apenas
um registro resumido de que alguma coisa aconteceu. Ora, esse modo de expres-
são é tão comum quanto cômodo. Em lugar de “visto que 4 é B, C é D”, sempre
podemos dizer: “o caráter D (the D-ness) de C é devido ao caráter B (the B-ness)
de 4”. “O rigor do inverno é responsável pelo alto preço das couves” significa
aquilo que é significado por “as couves estão caras porque o inverno foi rigoroso”.
Por outro lado, se eu disser “a derrota do Partido Trabalhista ocorreu em
1931", a minha frase-em-o”, nesse caso, estará sendo utilizada referencialmente
para descrever um acontecimento e não como o registro resumido de um fato.
Os acontecimentos, com efeito, têm datas, fatos não. Em consegiiência, os fatos
registrados nos seguintes enunciados gramaticalmente semelhantes: “a derrota do
Partido Trabalhista me surpreendeu” e “a derrota do Partido Trabalhista ocor-
reu em 1931”, são muito diferentes quanto à forma lógica. Esses dois tipos de
fatos, além disso, são formalmente bem distintos deste terceiro fato que é regis-
trado no enunciado: “a vitória do Partido Trabalhista teria me surpreendido”.
Essa sentença, com efeito, não se refere a um acontecimento nem tampouco re-
gistra o fato de que o Partido Trabalhista foi o vencedor; ela diz, ao contrário,
“se o Partido Trabalhista tivesse vencido, eu teria ficado surpreso”. Nesse caso,
portanto, a frase-em-'o” é uma prótase. Por outro lado, todas essas três utiliza-
EXPRESSÕES SISTEMATICAMENTE ENGANADORAS 25
ções de frases-em-'o' diferem, quanto ao tipo de significância (significance), de
“a derrota do Partido Conservador nas próximas eleições é provável”, “possível”
ou “impossível”. Essas sentenças significam (mean), com efeito, que “os dados
relevantes disponíveis são em favor da”, ou “não são incompatíveis com” ou “são
incompatíveis com a derrota do Partido Conservador nas próximas eleições”.
Existem, portanto, pelo menos esses quatro tipos diferentes de fatos que
podem ser e que, no discurso ordinário, são registrados, de modo apropriado e
inteligível, em enunciados que contêm frases-em-'o” que não podem ser distin-
guidas entre si de um ponto de vista merante gramatical. É possível, contudo,
reenunciá-los em formas verbais (forms of words) que, em virtude das suas for-
mas gramaticais específicas, realmente exibam as diversas estruturas lógicas dos
diferentes tipos de fatos registrados.
3. Por último, devo ainda pelo menos mencionar uma outra classe de frases-
em-'o' sistematicamente enganadoras. Podemos considerar que as sentenças “a
baleia não é um peixe e sim um mamífero” e “o verdadeiro inglês detesta o jogo
sujo” ambas registram fatos. Nenhuma delas, porém, é acerca desta baleia ou
deste inglês em particular, ambas podendo ser verdadeiras mesmo se não exis-
tissem baleias ou verdadeiros ingleses. Tais enunciados são, provavelmente, enun-
ciados hipotéticos camuflados. Quero apenas assinalar aqui, contudo, que é óbvio
que eles são camuflados.
Escolhi esses três tipos principais de expressões sistematicamente engana-
doras porque todas, igualmente, são enganadoras numa determinada direção. To-
dos os casos examinados sugerem a existência de novos tipos de objetos ou —
para dizê-lo de outra forma — todos eles nos induzem na tentação de “multiplicar
entidades". Em cada uma delas e em todos (isto é, no caso, das expressões quase-
ontológicas, das expressões quase-platônicas e das expressões quase-descritivas),
considera-se erradamente que uma determinada expressão é uma expressão deno-
tativa (denoting), quando, na realidade, ela não denota, sendo simplesmente se-
melhante do ponto de vista gramatical a expressões que são utilizadas para de-
notar. Na minha perspectiva, portanto, o preceito de Occam era este: “Não tratar
todas as expressões que, do ponto de vista gramatical, são semelhantes aos no-
mes próprios ou às frases-em-'o” utilizadas referencialmente, como se, simples-
mente por isso, elas de fato fossem nomes próprios ou frases-em-'o” utilizadas
referencialmente”.
Além desses, porém, existem ainda outros tipos de expressões sistematica-
mente enganadoras. Limitar-me-ei aqui a apenas mencionar alguns tipos que me
ocorrem agora.
“Sílvio é um suposto assassino” ou “um assassino presumido”, “Pedro é
um possível ou provável prefeito”, “Roberto é um pretenso, aparente, simulado,
espúrio ou falso herói”, “José é um futuro ou um passado membro do Parla-
mento”, etc. Todas essas sentenças sugerem algo que elas não significam (mean),
insinuando que os sujeitos nomeados constituem uma espécie (kind) particular de
assassino, de prefeito, de herói ou de membro do Parlamento. Se um suposto
assassino, no entanto, não implica logicamente (entail) ser um assassino, assim co-
mo ser um provável prefeito não implica logicamente (entail) ser um prefeito.
“Sílvio é popular” sugere que ser popular é algo como ser sábio, isto é, uma
qualidade; na verdade, porém, trata-se de uma característica relacional, a qual
não caracteriza Sílvio diretamente, mas as pessoas que gostam dele. “Sílvio é po-
pular” significa (means), portanto, aquilo que é significado por “inúmeras pes-
soas gostam de Sílvio e o número das pessoas que gostam dele é maior do que
o número das que não gostam ou das que são indiferentes a ele”, ou por qual-
quer outra sentença desse gênero.
20 RYLE
Creio já ter mostrado, entretanto, um número suficiente de exemplos para
evidenciar em que sentido certas expressões podem aparentar significar (mean)
algo totalmente diferente daquilo que elas de fato significam. Consequentemente,
penso que mostrei em que sentido algumas expressões são sistematicamente
enganadoras.
Tenho por estabelecido, portanto, (1) que aquilo que é exprimido numa
expressão pode, muitas vezes, ser exprimido em expressões que possuem formas
gramaticais totalmente diferentes e (2) que, quando temos duas expressões, cada
uma significando (meaning) o que a outra significa e ambas possuindo formas
gramaticais diferentes, muitas vezes uma delas é mais sistematicamente engana-
dora do que a outra.
Ora, isso significa que, embora um fato ou estado de coisas possa ser enun-
ciado num número indefinido de enunciados com formas gramaticais bastante
diferentes, o fato será mais bem enunciado em alguns do que em outros. O ideal
(que talvez não se realize nunca) é que ele seja enunciado numa forma verbal
completamente não enganadora.
Ora, quando dizemos que uma forma de expressão é melhor do que outra,
não queremos dizer com isso que ela é mais elegante, mais sucinta, mais familiar
ou mais rapidamente inteligível para o ouvinte comum. O que pretendemos dizer
e que, em virtude da sua forma gramatical, essa forma de expressão exibe (de
um modo que as outras não conseguem exibir) a forma lógica do estado de coi-
sas ou do fato que ela registra. Mas esse interesse na melhor maneira de exibir a
torma lógica dos fatos não compete a todos, mas apenas ao filósofo.
Quero agora apenas levantar (sem tentar resolvé-los) alguns problemas que
surgem em consequência do que foi dito.
|. A supor que uma expressão de uma determinada iormu gramatical seja
adequada (ou, de algum modo, esteja próxima de ser adequada) para fatos de
uma determinada forma lógica, é apenas para esses fatos, essa relação de adequa-
ção da forma gramatical à forma lógica constitui uma relação natura! ou conven-
cional?
De minha parte, não posso endossar o que parece ser a doutrina de Witt-
genstein e da escola de gramáticos: lógicos que o seguem, segundo o qual aquilo
que faz com que uma expressão seja formalmente adequada a um fato é uma
certa relação pictórica biunívoca (a one-one picturing relation), real e não con-
vencional, vigente entre a composição de expressão e à composição do fato.
Com efeito, não consigo ver como (exceto numa reduzida classe de casos adrede
selecionados) se possa considerar que um fato ou estado de coisas é semelhante
ou mesmo dessemelhante, quanto à estrutura, a uma sentença; a um gesto ou a
um diagrama. Um fato, com efeito, não é um conjunto — nem mesmo um con-
junto organizado — de partes à maneira como uma sentença é um conjunto
organizado de sons, ou como um mapa é um conjunto organizado de linhas c
traços. Um fato não é uma coisa e, portanto, não é tampouco uma coisa organi-
zada, É claro. no entanto, que um mapa pode ser semelhante à um pais ou a
um sistema ferroviário e que, num sentido mais geral € mais vago, uma sentença,
enquanto séric ordenada de sons, poderia ser um tipo de série semelhante à se-
quência de veículos num fluxo de tráfego ou à sequência dos dias da semana,
Mas, no fator de Sócrates estar zangado ou no fato de que ou Sócrates era
sábio ou Platão era desonesto, não consigo encontrar nenhuma concatenação de
partes que seja tal que possamos legitimamente afirmar que uma concatenação
de partes de discurso tenha o mesmo plano arquitetural que ele. E possivel. con-
tudo, que essa dificuldade seja pura obtusidade da minha parte.
Por outro lado. também não parece muito fácil aceitar a aparente alterna-
EXPRESSÕES SISTEMATICAMENTE ENGANADORAS 27
tiva, de acordo com a qual é simplesmente por convenção que uma determinada
forma gramatical se aplica de maneira especial aos fatos que têm uma certa for-
ma lógica. Na realidade, com efeito, o uso (usage) corrente tolera perfeitamente
expressões sistematicamente enganadoras. Além disso, é difícil explicar como, na
gênese das línguas, os nossos antepassados (presumivelmente não filosóficos) po-
deriam ter decidido que uma dada forma gramatical deveria se aplicar a uma
determinada forma lógica, ou como poderia essa aplicação lhes ter ocorrido. É de
se presumir, com efeito, que o estudo das formas lógicas abstratas seja posterior
à entrada no uso corrente de idiomas sintáticos.
Na minha opinião, todavia, a adequação das formas gramaticais às formas
lógicas é mais convencional do que natural, embora eu não suponha que ela re-
sulte de arbítrio ou de um projeto deliberado.
2. Uma outra pergunta é a seguinte: como descobrir, em casos particulares,
se uma expressão é ou não sistematicamente enganadora? Tenho a impressão de
que a resposta seria mais ou menos assim. Deparamo-nos, muitas vezes, com
certas expressões, que compreendemos e nas quais inclusive acreditamos, do tipo:
“o sr. Pickwick é uma pessoa fictícia” e “o equador circunda o globo”. Ora, nós
sabemos que, se essas expressões realmente dizem o que parecem dizer, seguir-
se-ão certas outras proposições. Imediatamente se faz claro, no entanto, que as
proposições seguintes — as quais são consegiiências naturais das primeiras —:
“o sr. Pickwick nasceu no ano tal” e “o equador tem tal espessura” não são sim-
plesmente falsas, mas se revelam, à análise, estar em contradição com algum ele-
mento presente naquilo de que elas parecem ser as consegiiências lógicas. A úni-
ca solução está em perceber que ser uma pessoa fictícia não é ser uma pessoa de
um tipo particular, e que o equador não cinge a terra no sentido de ser uma
espécie qualquer de anel ou de faixa envolvendo a terra. Ora, perceber isso é
constatar que as proposições originais não diziam o que, à primeira vista, pare-
ciam estar dizendo. Paralogismos e antinomias evidenciam “então' que uma ex-
pressão é sistematicamente engattâdora,
Apesar disso, as expressões sistematicamente enganadoras, tais como elas
são entendidas pelo locutor e tais como elas são compreendidas pelo ouvinte,
não contêm contradições. As pessoas não dizem realmente coisas filosoficamente
sem sentido (philosophical nonsense), a menos que estejam filosofando ou — o
que é algo bem diferente — a menos que estejam sentenciando. Na verdade, elas '
simplesmente utilizam expressões que, por uma causa qualquer — em geral, pelo
desejo de concisão e para simplificar o discurso —, dissimulam em lugar de
exibir as formas dos fatos registrados. E é precisamente à fim de revelar essas
formas que nós abstraímos e generalizamos. Esses processos de abstração e de
generalização já ocorrem antes de que a análise filosófica comece. Tudo indica,
na verdade, que os resultados desses processos constituem o tema próprio (subject
matter) da filosofia. O pensamento abstrato pré-filosófico é sempre iludido (mis-
led) pelas expressões sistematicamente enganadoras e o próprio pensamento abs-
trato filosófico, cuja função própria reside em curar essa doença, é, na realidade,
uma das suas vítimas mais graves.
3. Não conheço nenhum meio de classificar ou de fornecer uma lista exaus-
tiva dos tipos (types) possíveis de expressões sistematicamente enganadoras. Su-
ponho que o seu número seja, em princípio, ilimitado, mas que o número de
tipos predominantes e obsessivos seja relativamente reduzido.
4. Não conheço nenhum meio de demonstrar que uma determinada expres-
são não tem absolutamente nada de sistematicamente enganador. O fato de não
se ter ainda mostrado que dela surgem antinomias não constitui prova de que
elas nunca surgirão. Nós podemos saber que, de duas expressões 'x' e'y” que regis-
28 RYLE
tram um mesmo fato, 'x" é menos enganadora do que 'y'; mas não é possível
saber se 'x' não poderá jamais ser aperfeiçoada.
S. A filosofia deve, então, envolver o exercício de um reenunciar sistemá-
tico. Isso não significa, contudo, que a filosofia seja um departamento da filolo-
gia ou da crítica literária.
O reenunciar que a filosofia deve efetuar não consiste na substituição de
um substantivo por outro ou de um verbo por outro. Nessa tarefa se distinguem
os lexicógrafos e os tradutores. As reenunciações da filosofia consistem em trans-
mutações de sintaxe, em transmutações controladas, não pelo desejo de elegância
ou de correção estilística, mas pelo desejo de exibir aquelas formas dos fatos
que a própria filosofia investiga.
A minha conclusão, então, é a de que há, afinal de contas, um sentido em
que é possível investigar autenticamente e até dizer 'o que significa realmente
dizer isso e aquilo”. Podemos legitimamente perguntar. com efeito. qual é a for-
ma real do fato registrado, quando essa forma é escondida ou dissimulada, e não
exibida devidamente, pela expressão em questão. Além disso, podemos muitas
vezes alcançar êxito em enunciar esse fato numa nova forma verbal que efetiva-
mente exiba aquilo que a outra não conseguia exibir. No momento, estou forte-
mente inclinado a pensar que é nisso que consiste a análise filosófica e que é
nisso que consiste a única função e toda a função da filosofia. Mas isso é algo
que não pretendo justificar aqui.
Uma vez que, porém, a confissão faz bem à alma, sou obrigado a admi-
tir que não me sabem muito bem as conclusões que essas conclusões indicam.
Eu preferiria, ao contrário, atribuir à filosofia uma tarefa mais sublime do que
a mera detecção, em certas formas de expressão lingúísticas, das fontes de inter-
pretações errôneas e de teorias absurdas que estão sempre a ressurgir. Por outro
lado, no entanto, não tenho a menor dúvida de que a filosofia tenha pelo me-
nos essa tarefa.
CATEGORIAS *
As doutrinas das categorias c as teorias dos tipos constituem explorações de
um mesmo campo, campo esse que permanece ainda muito pouco explorado. Além
disso, a sua exploração sc vê prejudicada, atualmente, por certas diferenças de
vocabulário entre os filósofos, o que impede que um possa decifrar o mapa do
outro. O meu objetivo, neste artigo, consiste mais em remover certos obstáculos
a essa exploração do que em oferecer uma visão geral própria.
A matéria tem alguma importância, pois não somente ocorre que as proposi-
ções cateporiais (category-propositions, isto é, asserções que enunciam que certos
termos pertencem a certas categorias ou tipos) sempre são proposições filosóficas.
mas a conversa também é — eu creio — verdadeira. Assim estaremos no
escuro acerca da natureza dos problemas e métodos filosóficos, se não tivermos
clareza acerca de tipos ou categorias.
Começarei com algumas observações históricas, mas não a fim de exibir
competência em palcontologia filosófica, nem, tampouco, a fim de tornar respei-
táveis, nelas discernindo sangue normando, doutrinas pretensiosas, mas apenas
como um meio conveniente de, simultancamente, tornar acessíveis as questões
filosóficas c de explicar algumas terminologias tradicionais em que o tópico foi
EXpresso.
Ás categorias de Aristóteles
Aristóteles pensava que a sua lista de Categorias era uma lista de quê? A
palavra categoria significava o que a nossa palavra predicado significa, partilhando
toda a falta de precisão e a ambigiiidade desse substantivo português. A lista de
categorias de Aristóteles não era, entretanto, um glossário de todos os predicados
que existem. Numa interpretação pelo menos plausível da doutrina, a lista de
Aristóteles pretendia ser uma lista dos tipos últimos de predicados. Mas o que
significa isso”
Existem proposições simples, a saber, aquelas que não consistem de proposi-
ções mais clementares cm conjunção umas com as outras, isto é, existem proposi-
ções em cuja expressão não podem figurar conjunções tais como e, ot, se, embora,
porque, etc. Algumas dessas proposições simples são proposições singulares, a
saber, aquelas proposições cada uma das quais é acerca de pelo menos um objeto
particular, nomeado ou diretamente indicado.
Se reunirmos um certo número de proposições simples e singulares. todas
clas semelhantes por serem acerca de um mesmo objeto particular ou dos mesmos
particulares, então os aspectos sob os quais essas proposições serão diferentes
serão dados pelos seus predicados. Esses predicados, por sua vez, são classificados
Iraduzido do original inglês: “Categories”, publicado em Proceedings of the Aristotelian
Society for 1938/39, Londres. A tradução baseou-se no texto publicado em Logic and Lan-
guage, Second Series, editado por A. G. N. Flew, Oxford, Basil Blackwell, 1953, pr. 65-81.
30 RYLE
num número finito de famílias ou de tipos, podendo ser indicadas as diferenças
entre os tipos, embora não definidas, da maneira seguinte.
Qualquer proposição simples acerca de Sócrates, por exemplo, é uma res-
posta, provavelmente uma resposta falsa, a uma pergunta qualquer acerca de
Sócrates. Qualquer pergunta determinada acerca de Sócrates engendrará uma
gama de respostas possíveis, mas nem toda proposição acerca de Sócrates será
uma resposta-a essa pergunta a seu respeito. Existem tantos tipos diferentes de
predicados de Sócrates quantas espécies irredutivelmente diferentes de perguntas
existem acerca dele. Assim, a pergunta: que tamanho? seleciona e reúne as res-
postas: um metro e oitenta de altura, um metro e sessenta de altura, oitenta quilos,
sessenta quilos, etc., não selecionando bastante cabeludo, no jardim ou um pe-
dreiro. Onde? seleciona e reúne predicados de localização; que tipo? seleciona
predicados de espécie; parecido com o quê? seleciona qualidades, e assim por
diante.
Dois predicados quaisquer que satisfazem a mesma interrogação são da
mesma categoria e dois predicados quaisquer que não satisfazem a mesma interro-
gação são de categorias diferentes. Na maior parte dos casos, Aristóteles parece
contentar-se em tomar a linguagem ordinária como o seu fio condutor para a lista
de espécies de perguntas e, portanto, de tipos de predicados.
Esse programa de catalogar os tipos se expandiu a seguir, ou pelo próprio
Aristóteles ou por seus seguidores. Não somente podemos levantar, acerca de um
objeto particular, uma série de perguntas, cada uma das quais produzirá, nas suas
respostas, um conjunto de predicados possíveis do particular em questão; podemos
igualmente perguntar, com referência a qualquer um desses predicados: quem o
possui? ou o que (no sentido de “qual”) o possui? As respostas a essas perguntas
nomearão ou indicarão objetos particulares, como Sócrates, Fido, eu e a rainha.
É óbvio que essas perguntas não engendram conjuntos de predicados e sim con-
juntos de sujeitos ou de possuidores de predicados, isto é, substâncias particulares.
Assim, Sócrates está na categoria de substância, ao passo que de nariz chato está
na categoria de qualidade e marido, na categoria de relação. Como resultado des-
sa expansão, categoria não mais significava apenas tipo de predicado, mas tipo
de termo, onde termo significa fator que pode ser abstraído num conjunto de
proposições simples e singulares.
A lista que Aristóteles realmente apresenta, de dez (ou, às vezes, de oito) tipos
de termos, é, sem dúvida, insatisfatória. Alguns dos supostos últimos tipos nada
mais são, evidentemente, do que ramos subordinados de outros tipos, e os critérios
utilizados por Aristóteles para determinar se um termo pertence a essa ou áquela
categoria eram (quando havia critérios) bastante vagos. Mas, para os seus objetivos,
isso não importava muito. A sua principal exigência era a de ser capaz de distin-
guir (a) as qualidades das relações, (b) ambas das substâncias e (c) todas as três
das espécies ou tipos. E isso ele era agora capaz de fazer, embora de maneira
tosca e imprecisa. Restam ainda, contudo, outras coisas importantes a tratar, de
sorte que devemos assinalar outros defeitos no seu esquema.
1. Não é um problema fácil o de decidir quando uma sentença exprime uma
proposição simples. Com efeito, o fato de que uma sentença contenha um só
verbo c nenhuma conjunção não prova que a proposição que ela exprime seja
simples, isto é, que a sentença não poderia ser parafraseada por uma sentença
contendo conjunções e uma pluralidade de verbos. E, na realidade, qualquer
sentença que contém uma descrição ou qualquer sentença que contém um adjetivo
disposicional como quebrável, ou, ainda, qualquer sentença que contém um nome
de espécie é parafraseável ou exponível (exponible) sob a forma indicada. Um
grande número de sentenças gramaticalmente simples exprimem proposições não
CATEGORIAS 31
simples, sendo, portanto, exponíveis. (A lógica contemporânea consiste, em ampla
medida, em levar a exponibilidade a sério.) Ora, isso implica que isolar os termos
não é, tampouco, um problema fácil. Expressões nominativas e expressões predi-
cativas gramaticalmente simples não representam (stand for) necessariamente, ou
não representam muitas vezes, constituintes ou componentes logicamente simples
de proposições. A classificação dos tipos de fatores que podem ser abstraídos em
proposições simples deve ser adiada até a classificação das variedades de formas
proposicionais. Em primeiro lugar, é necessário que tenhamos um sumário daquilo
que é expresso por palavras formais (form-words), isto é, por palavras sincatego-
remáticas, como todo, algum, um, o, qualquer, não, se, ou, do que, etc., junta-
mente com um sumário daquilo que é expresso pelas construções gramaticais,
antes de poder sequer esperar fixar quaisquer palavras categoremáticas para serem
catalogadas.
2. Além disso, necessitamos de um método para exibir e — o que é muito
diferente — de um método para estabelecer homogeneidades de tipos e heteroge-
neidades de tipos. O método de Aristóteles, na medida em que ele teve um método,
parece ter consistido em coletar as interrogações ordinárias do discurso cotidiano.
Ele rotula, então, os seus tipos mais importantes mediante substantivos formados
a partir dessas palavras interrogativas. Nenhuma razão é apresentada, entretanto,
para supor que o estoque grego de palavras interrogativas é tão econômico quanto
possível ou tão rico quanto se poderia desejar. Apesar disso, o seu fio condutor,
tal qual era, não era completamente estúpido. Afinal de contas, com efeito,
função proposicional nada mais é do que um modo sofisticado de escrever per-
gunta. A função proposicional x tem o nariz chato só é diferente quanto às asso-
ciações práticas de quem tem o nariz chato?; e Sócrates é b não mostra nem
mais nem menos do que Onde está Sócrates?, Como (qualis) é Sócrates? ou Qual
é o tamanho de Sócrates?, dependendo do genre selecionado para &. (Cf.
Lewis e Langford, Symbolic Logic, pp. 332-4; e Carnap sobre “W... questions”
in Logical Syntax of Language, p. 296.)
A fim de enunciar de maneira mais precisa em que ponto Aristóteles se
encontrava no caminho certo e em que ponto o seu empreendimento não foi bem
sucedido, e também porque deles necessitaremos mais adiante no desenrolar deste
artigo, quero introduzir aqui alguns termos técnicos. E evidente que as sentenças,
num certo sentido, contêm partes, pois duas sentenças podem ser parcialmente
semelhantes e parcialmente dessemelhantes. Chamemos de fatores sentenciais
(sentence-factors) a toda expressão parcial que pode figurar em sentenças que
são diferentes sob outros aspectos. Assim palavras isoladas serão fatores senten-
ciais, assim como também o serão frases com um grau qualquer de complexidade,
bem como cláusulas completas. Assim, na sentença: Eu sou o homem que escreveu
este artigo, eu, o homem que, que escreveu este artigo, escreveu este artigo são,
todos eles, fatores sentenciais.
Eu os denomino fatores e não partes, visto que partes poderia sugerir
— e a sugestão é falsa — que os elementos assim abstraídos podem existir fora
de quaisquer combinações que constituem sentenças e — o que é ainda pior —
que eles podem ocorrer indiferentemente em qualquer posição, em qualquer com-
binação dessas; isto é, poderia sugerir que eles são, ao mesmo tempo, elementos
independentes e que podem ser arbitrariamente combinados. A palavra fator pre-
tende sugerir — e a sugestão é verdadeira — que eles só podem ocorrer como
fatores em certos tipos de complexos e que eles só podem ocorrer nesses complexos
sob determinadas maneiras.
Ora, ainda que os fatores sentenciais não possam ser extraídos de todas as
combinações, eles podem ser abstraídos de qualquer combinação específica. Se
32 RYLE
tomarmos uma sentença qualquer, substituindo qualquer fragmento seu por uma
linha pontilhada ou pela frase assim e assim, o que restará será um fator sentencial
com um sinal (a saber, assim e assim ou a linha pontilhada) para mostrar que e
como o fator sentencial deverá ser completado. A linha pontilhada, contudo, em-
bora exija um complemento qualquer, toleraria, como seus complementos, qualquer
um dentre uma gama indefinida de fatores. Assim, Sócrates é... ou Eu sou O
homem que assim e assim, ou ainda isso e aquilo implica que amanhã é sábado
não são sentenças, mas apenas esquemas de sentenças (sentences-frames), cujas
lacunas devem ser completadas por outros fatores sentenciais. É claro que os
complementos requeridos deveriam ser de diferentes tipos nos três esquemas dife-
rentes mencionados acima. ... feio completaria o primeiro, ... visitou Edimburgo
ontem completaria o segundo e o fato de que hoje é sexta-feira completaria o
terceiro, e nenhum deles completaria qualquer um dos outros.
Embora nem todo fator seja apropriado para ser o complemento de uma
lacuna qualquer, existe, no entanto, uma gama indefinida de fatores possíveis, de
mesmo padrão, que completaria qualquer lacuna dada. Assim nós abstraímos,
em qualquer sentença concreta, um fator de outro fator ou de outros fatores,
colocando linhas pontilhadas ou signos de lacuna (como assim e assim, x,P
ou p) em lugar ou nos lugares desse outro fator ou fatores. Um signo de lacuna
não é, ele próprio, uma palavra, uma frase ou uma cláusula nem, tampouco, o
nome ou a descrição de uma palavra, frase ou cláusula. Ele é o nome ou índice
de um lugar para um fator sentencial ou para quaisquer fatores sentenciais de
uma gama de fatores sentenciais apropriados.
Ora, as sentenças e fatores sentenciais são portuguesas ou alemãs, escritas
a lápis, sussurradas ou berradas, em gíria ou em termos pedantes, e assim por
diante. Aquilo de que a lógica se ocupa é algo indiferente a essas diferenças, a
saber (é sempre conveniente dizê-lo, embora a afirmação possa induzir em erro),
das proposições e das partes ou fatores das proposições. Quando duas sentenças
de línguas, vocabulários, autores e datas diferentes dizem a mesma coisa, aquilo
que elas dizem pode ser considerado em abstração dos diferentes atos de dizê-lo,
o que não nos obriga a supor que aquilo que elas dizem está para esses atos de
dizer como uma cidade está para os postes sinalizadores que apontam para ela.
Além disso, assim como nós distinguimos as proposições das sentenças que as
propõem, da mesma maneira nós distinguimos os fatores proposicionais (propo-
sition-factors) dos fatores sentenciais que os exprimem. Também nesse caso, con-
tudo, não devemos supor que isso significa que o mundo contém vacas, terremotos
e fatores proposicionais, do mesmo modo como não estamos, tampouco, autori-
zados, pelo fato de podermos distinguir as duas faces de uma moeda, a inferir
que, quando tenho uma moeda na mão, tenho três coisas na minha mão, a moeda
e as suas duas faces.
A seguir, vimos que a lacuna, num esquema de sentença dado, pode ser
preenchida por alguns complementos alternativos, mas não por quaisquer com-
plementos alternativos. Há aqui, porém, dois tipos de pode. Assim e assim está
na cama exige gramaticalmente, como complementos para a lacuna indicada por
assim e assim, substantivos, pronomes ou frases substantivas, como as frases des-
critivas. Assim, sábado está na cama não infringe nenhuma regra de gramática.
Apesar disso, a sentença é absurda. Não basta apenas, por conseguinte, que os
complementos possíveis sejam de determinados tipos gramaticais; é necessário
também que eles exprimam fatores proposicionais pertencentes a certos tipos
lógicos. Os vários fatores que ocorrem numa sentença não absurda são tipicamente
apropriados uns aos outros; os que figuram numa sentença absurda, ou alguns
deles, são tipicamente inapropriados uns aos outros. Dizer que um dado fator
CATEGORIAS 33
proposicional é de uma determinada categoria ou tipo é dizer que a sua expressão
poderia, sem absurdo, completar certos esquemas sentenciais.
Se for correta a interpretação que dei à doutrina das categorias de Aristóteles,
poderemos dizer que essa doutrina estava, sob um aspecto importante, na via
certa. Com efeito, as sentenças interrogativas, quando consideradas em abstração
das suas funções práticas como pedidos ou como ordens, são esquemas sentenciais
e as palavras interrogativas que nelas aparecem são signos de iacuna. Ao distin-
guir as variedades de tipos de perguntas, Aristóteles estava utilizando um método
geral para exibir as variedades de tipo dos fatores que poderiam constituir res-
postas a essas perguntas ou que poderiam constituir complementos aos signos
de lacuna.
Por outro lado, entretanto, o seu procedimento possuía os seguintes defeitos.
Aristóteles tenta classificar apenas os tipos de uma pequena subclasse de fatores
proposicionais, a saber, os constituintes e componentes de proposições simples
singulares. Chamemos esses constituintes pelo seu título tradicional (e caracteris-
ticamente ambíguo) de termos. Todos os termos são fatores, mas a maioria dos
fatores não são termos. O procedimento de Aristóteles não oferece nenhum teste
para determinar quando um fator sentencial representa (stand for) e quando não
representa um termo. Além disso, ele parece supor que uma palavra gramatical-
mente simples sempre representa (stand for) um constituinte ou um componente
de uma proposição simples. Aparentemente, ele se apóia exclusivamente no senso
comum e no modo comum de falar para recolher evidências de que um dado
fator é apropriado para preencher uma determinada lacuna. Ainda pior do que
isso: ele não reconhece que os tipos de fatores controlam e são controlados pela
forma lógica das proposições em que eles podem figurar, com exceção do caso
solitário das substâncias particulares que, Aristóteles reconhece, não podem ocupar,
naquilo que ele considera como proposições simples, as vagas das qualidades, das
relações, das grandezas, das posições, das espécies, etc.
Com os lógicos de épocas posteriores, Aristóteles parece ter pensado que,
embora os termos se liguem em proposições e embora existam vários tipos de
termos, só existe, não obstante, um único tipo de ligação. Com efeito, o mesmo
termo que, numa proposição, ocorre como sujeito, pode ocorrer como predicado
numa outra.
Assim como qualquer letra do alfabeto pode ser justaposta a qualquer
outra letra, sem que se modifique o desenho dessas letras, assim também parece
que se acreditou que não existe nenhuma interação entre a forma de uma propo-
sição e os tipos dos fatores que a. compõem. Dessa maneira, não se estabeleceu
nenhuma conexão entre, de um lado, as propriedades formais das proposições que
tornam possíveis ou impossíveis as inferências que contêm tais proposições e,
de outro lado, as propriedades formais ou os tipos dos termos ou dos outros
fatores que figuram nelas. As regras silogísticas que Aristóteles descobriu giram
em torno dos conceitos expressos por palavras formais (form-words) tais como
todo, algum, isto, não, e e implica, mas o tratamento que ele dá a elas não conta-
mina nem é contaminado pela sua classificação dos tipos de termos.
É como se um gramático apresentasse, no seu primeiro capítulo, definições
dos tipos de partes do discurso, tais como substantivos, preposições, verbos,
conjunções, etc., apresentando, num capítulo posterior, uma discussão totalmente
independente relativa às regras de sintaxe, quando, na realidade, essas regras,
justamente, já devem estar latentes nas noções de substantivo, de verbo, de
conjunção, etc. É tratar com elementos que podem ser arbitrariamente combi-
nados com fatores cujas funções determinadas, nas combinações em que podem
ocorrer, é exatamente aquilo que constitui os seus tipos.
34 RYLE
Saber tudo acerca da forma lógica de uma proposição e saber tudo acerca
dos tipos lógicos dos seus fatores é saber uma só e mesma coisa. (Peço desculpas,
mas não com muita humildade, pela terminologia pela qual, aqui c em outros
momentos deste artigo, substituí a terminologia de funções proposicionais, variá-
veis, valores e o resto. Faço isso pela simples razão de que essa última terminologia
levou a inúmeras confusões. Em especial, cla não consegue deixar evidenciado se,
ao falar de funções, variáveis, valores, etc., estamos falando de certos tipos de
expressões ou falando, com certas expressões, de certos tipos de coisas. O que é
que deveríamos dizer ser um valor da variável x em x tem o nariz chatô:
Sócrates ou Sócrates? A terminologia que utilizo tenciona ser abertamente semân-
tica. Os itens que a compõem, também, tencionam ser razoavelmente auto-
explicativos.)
As formas de juízo e as categorias de Kant
A doutrina das categorias de Kant parte de uma direção bem diferente
da de Aristóteles e aquilo que ele arrola como categorias é bastante diverso
do que Aristóteles coloca no seu índice. Singularmente, Kant declara que o seu
propósito é idêntico ao de Aristóteles, no que ele se engana, salvo num sentido
bem amplo e vago. Infelizmente, para três das suas quatro rubricas de cate-
gorias, Kant toma emprestadas as mesmas etiquetas que Aristóteles havia utilizado
para três das suas dez rubricas. Como veremos, quantidade, qualidade e relação
significam tipos completamente diferentes de coisas para os dois filósofos.
Kant começa apresentando um catálogo das formas de juízo, isto é, um
catálogo das várias maneiras nas quais uma proposição pode se assemelhar ou
diferir de uma outra, não quanto ao tópico mas quanto à forma. Kant não faz
nenhuma tentativa de definir a noção de forma ou sequer de justificar o seu
catálogo, exceto declarando — o que é falso — que ele é derivado das descobertas
da lógica tradicional, que ele supõe ser um corpo completo de verdade estabele-
cida. (1) Todas as proposições são determinadas com relação à quantidade, isto
é, com relação à extensão dos seus sujeitos, devendo, portanto, ser ou universais,
ou particulares, ou singulares, isto é, da forma todo, algum, ou isto/este; (2) todas
as proposições são ou afirmativas, ou negativas, ou infinitas, que são as três
qualidades das proposições; (3) todas as proposições são de um dos três padrões
de relação seguintes; s é P, se p, então q e p ou q; e (4) todas as proposições têm
uma das três variedades de modalidade, isto é, são da forma é, da forma pode
ser ou da forma deve ser. Essas formas de juízo ainda não são as categorias de
Kant, mas a fonte de onde ele propõe, de maneira um tanto misteriosa, derivá-las
ou deduzi-las.
A linha de abordagem de Kant era, em princípio, muito mais esclarecedora
do que a de Aristóteles. Infelizmente, a sua execução foi irremediavelmente mal
orientada. A sua subvariedade de juízos infinitos é uma fraude; existem inúmeros
tipos de juízos universais, mas o tipo que Kant estava considerando deveria figurar
sob a rubrica dos juízos hipotéticos; a divisão em juízos assertórios, problemá-
ticos e apodíticos é forçada, pois os dois últimos são casos especiais de juízos
hipotéticos; a divisão em categóricos, hipotéticos e disjuntivos, além de incorporar
uma divisão cruzada, contém uma omissão escandalosa, pois (a) o que Kant
tinha em mente era a distinção entre proposições simples e compostas e (b) ele
omitiu, dessa útima classe, as proposições conjuntivas da forma p e q. Só das
proposições simples é que se pode dizer verdadeiramente que elas devem ser
afirmativas ou negativas e universais, particulares ou singulares, visto que, numa
proposição conjuntiva, disjuntiva ou hipotética com dois membros, por exemplo,
CATEGORIAS as
uma das proposições ligadas pode ser de uma dessas formas, enquanto que a
segunda pode ser de uma das outras formas. A distinção entre as formas disjuntiva
e hipotética é falsa. Não foi estabelecida nenhuma distinção evidente entre pro-
posições gerais e não gerais; não se encontra nenhum lugar para proposições
do tipo: sete vacas estão no campo, a maioria dos homens usa casacos, João está
provavelmente morto. E, finalmente, nas proposições simples singulares, não se
estabelece nenhuma distinção entre proposições atributivas e proposições relacio-
nais; a categoria aristotélica dos predicados relacionais é completamente ignorada.
Na realidade, Kant simplesmente deixa de seguir a doutrina das categorias de
Aristóteles, pois ele não assinala nenhuma diferença de tipo no interior das pro-
posições de sujeito e predicado, roubando os títulos qualidade, quantidade e
relação para os seus objetivos próprios, que são bem diversos dos de Aristóteles.
Isto é, na utilização de Aristóteles, verde, doce e honesto significam (signify)
qualidades, mas, na utilização de Kant, qualidade significa o fato de uma propo-
sição ser afirmativa ou negativa. Quantidade, para Aristóteles, é o nome da
família de predicados de grandeza ou de tamanho; para Kant, é o nome do
aspecto segundo o qual as proposições são da forma todo..., ou da forma
algum... ou da forma isto/este.... As relações, finalmente, na utilização de
Aristóteles, são predicados do gênero primo de, acima de, maior do que, mas, na
de Kant, elas são aquilo que é expresso por conjunções tais como se, ou e
(como ele deveria ter acrescentado) e.
Dito tudo isso, porém, devemos reconhecer que Kant estava identificando,
como fundamentais na busca das categorias ou dos tipos, certos fatos que Aristó-
teles simplesmente não havia observado nesse domínio. Kant percebeu que existe
uma grande variedade de aspectos nos quais as proposições podem ser formal-
mente semelhantes ou dessemelhantes. Como vimos, as funções (róles) de palavras
formais como todo, algum, o, um, qualquer, se, ou, e, não, não foram assina-
ladas na doutrina das categorias de Aristóteles, e os seus seguidores medievais
relegaram essas palavras ao limbo sob a apelação (de má vontade) de sincate-
goremáticas. A doutrina de Kant (embora ele não assinale o fato) resgatou-as do
limbo da lógica para o próprio gabinete de trabalho dessa.
Aristóteles, via de regra, parece supor que, embora exista uma variedade
razoável de tipos de fatores, só existe, não obstante, uma única espécie de
ligação a que eles estão sujeitos. (Na sua doutrina dos predicáveis, Aristóteles
entreviu que existem diferentes espécies de ligações nas proposições gerais, mas
não permitiu que isso modificasse a sua teoria dos termos.) Kant percebe que
existe uma imensidade de tipos de ligações e que elas determinam ou são deter-
minadas pelos tipos de fatores que podem ser unidos. A teoria de Aristóteles
é uma teoria alfabética dos fatores e uma teoria de simples justaposição das
combinações desses fatores; a de Kant, ao contrário, é uma teoria sintática a
respeito das combinações de fatores e, consequentemente, uma teoria sintática
a respeito dos tipos desses fatores. Pelo menos é assim que eu interpreto os
seus pronunciamentos críticos acerca das funções de unidade.
As categorias de Kant, entretanto, não são idênticas às suas formas de
juízo. De uma maneira obscura, elas constituem as projeções dessas formas
lógicas sobre os domínios das coisas e dos acontecimentos naturais. Os fatos
naturais, isto é, os fatos que podem ser estabelecidos por observação, por memó-
ria de observações, por indução a partir de observações ou por inferência causal
a partir de observações, incorporam, todos eles, certos princípios de estrutura
que, de algum modo, são derivados dos itens que figuram na tábua das formas
de juízo. A natureza consiste em coisas que possuem grandezas extensivas e
intensivas, que se encontram em determinados estados em momentos particulares
36 RYLE
do tempo e que passam por mutações ou perpetuações de estado em conformi-
dade com leis causais. Tudo o que é empírico deve incorporar essas categorias
e nada que não for empírico pode incorporá-las. As proposições metafísicas,
portanto, pecam contra as regras categoriais (category-rules).
Não é necessário examinar aqui a misteriosa metapsicologia mediante a
qual Kant tenta provar que a natureza deve ser constituída dessa maneira e,
ao mesmo tempo, que nós podemos saber que ela é assim constituída. Mais
pertinente aqui seria uma exposição das diferenças que Kant declara descobrir
entre os seus tipos lógicos e as suas categorias ou tipos naturais. Parece que
ele confusamente acreditava que existem duas espécies de fatos ou proposições
— os fatos ou proposições dos lógicos e os fatos ou proposições dos cientistas
—, e que as formas desses últimos são enteadas das formas dos primeiros. Tal
ponto de vista, contudo, seria absurdo, pois as formas dos lógicos, na realidade,
nada mais são do que aquilo que eles abstraem de conjuntos de proposições
parcialmente semelhantes e parcialmente dessemelhantes, proposições essas que,
com toda a probabilidade, saem diretamente dos textos de cientistas, historia-
dores, exploradores, matemáticos ou teólogos. Creio, portanto, que a suposta
distinção é espúria.
Kant não traz contribuição ao problema técnico de como exibir ou simbo-
tlizar homogeneidades e heterogeneidades de tipo, em abstração dos fatores con-
cretos que as exemplificam. Tampouco nos explica como elas se estabelecem,
exceto por nos recomendar a leitura da lógica tradicional.
Antes de deixar a história desse tópico, deveríamos assinalar uma pressupo-
sição que foi partilhada por Kant e Aristóteles e que acredito ser irrefletida-
mente partilhada por um certo número de filósofos contemporâneos. A pressupo-
sição é a de que existe um catálogo finito de categorias ou tipos; por exemplo,
que existem apenas dez (ou oito) tipos de termos, ou que existem precisamente
doze padrões de juízos, exatamente da mesma maneira como existem apenas
vinte e seis letras no alfabeto inglês, apenas sessenta e quatro casas no tabuleiro
de xadrez e apenas seis espécies de peças de xadrez. Isso parece ser puro mito.
Existem vários movimentos no xadrez, mas não existe nenhuma lista finita desses
movimentos; também existem várias construções gramaticais de sentenças ingle-
sas, mas não pode haver nenhuma tábua completa dessas variedades.
O escolasticismo é a crença num decálogo de categorias, mas não conheço
nenhum fundamento para essa crença.
Segue-se daí que não acredito que jamais possamos dizer, a propósito de
um simbolismo-código da lógica formal, que os seus símbolos são, finalmente,
adequados para a simbolização de todas as possíveis diferenças de tipo ou de
forma. Ele poderá ser adequado, é claro, para a exibição de todas as diferenças
de tipo que nos interessam no transcurso de alguma investigação particular.
Generalização do tópico
Quando uma sentença é (não verdadeira ou falsa) sem sentido (nonsensical)
ou absurda, embora o seu vocabulário seja convencional e a sua construção
gramatical seja regular, nós dizemos que ela é absurda porque pelo menos uma
das expressões que a compõem não é do tipo adequado para ser ligada, ou
para ser ligada daquela maneira com a outra expressão ou com as outras
expressões que a compõem. Podemos dizer que essas sentenças cometem infra-
ções de tipo que infringem regras de tipo. Mais tarde, a atenção dos lógicos veio
a se concentrar em certas espécies de infrações de tipo, como aquelas que são
cometidas por estou mentindo neste momento e “Heterológico” é heterológico.
CATEGORIAS E,
Essas espécies de infração têm muito interesse, pois o seu caráter absurdo não
é inteiramente Óbvio, manifestando-se apenas por engendrarem contradições ou
círculos viciosos, ao passo que sábado está na cama já é obviamente absurda,
antes mesmo que percebamos as contradições que resultam da hipótese de ser
ela verdadeira.
Além disso, podemos realmente ser levados, através de argumentos aparen-
temente válidos, a propor proposições da primeira espécie, ao passo que só a
intenção deliberada de produzir um palavrório sem sentido poderia nos levar
a formular sentenças da última espécie. Isto é, algumas infrações de tipo são
insidiosas, outras não. São as insidiosas que nos obrigam a considerar regras
de tipo; só atentamos para as outras, ao contrário, porque já estamos consi-
derando regras de tipo. Seria um erro, no entanto, restringir a teoria dos tipos a
uma teoria relativa apenas a certas regras de tipo especiais.
Levantar a pergunta: a que tipo ou categoria pertence o assim e assim?
é perguntar: em que tipos de proposições verdadeiras ou falsas, e em que posi-
ções nessas proposições pode o assim e assim figurar? Ou, para dizê-lo em ter-
mos semânticos, é perguntar: em que espécies de sentenças não absurdas, e em
que posições nessas sentenças, pode a expressão assim e assim figurar? e, inver-
samente: que espécies de sentenças tornar-se-iam absurdas pela substituição de
um dos seus fatores sentenciais pela expressão assim e assim? Adotei a palavra
absurdo, de preferência a sem sentido (nonsensical) ou a sem significação (imnea-
ningless) pela razão de que essas duas últimas palavras são aplicadas. muitas
vezes, a ruídos como xazam e abracadabra e, algumas vezes, também a arranjos
de palavras que não obedecem a uma construção gramatical regular. Além disso,
as duas toram recentemente adotadas para objetivos polêmicos, em suporte de
uma teoria específica. Absurdo tem associações úteis com a reductio ud absur-
dum, e até mesmo a sua nuança de ridículo tem certa utilidade, pois inúmeras
anedotas são, na realidade, brincadeiras com tipos (type-pranks).
Os tipos são tipos de quê?
Só expressões podem ser atirmadas ou negadas como absurdas. A natureza
não apresenta absurdos. Não podemos nem mesmo dizer que pensamentos, co-
mo crenças, suposições ou concepções, são ou não são absurdos. Pois o que é
absurdo é impensável.
Em geral, portanto, é mais prudente exprimir a lógica no vocabulário se-
mântico e exprimir as nossas teorias e indagações de tal forma que sempre
tenhamos presente que estamos considerando se tais e tais expressões podem
ou não ser unidas, de tais e tais maneiras, a outras expressões.
O perigo está, é claro, em que os outros pensem, e em que nós mesmos
pensemos, que estamos falando de gramática, como se fizesse parte de um único
tópico dizer: os substantivos no plural não podem ter verbos no plural e a linha
pontilhada em “... é falso” pode ser completada com: “o que você está dizendo
neste momento...”, mas não pode ser completada com: “o que eu estou dizen-
do neste momento...”
Tentamos dizer, então, que os absurdos resultam de uma ligação imprópria.
não de expressões, mas daquilo que as expressões significam (signifv), embora
a ligação e a ligação inadequada disso sejam efetuadas mediante operações sobre
as suas expressões.
Não há, contudo, nem pode haver nenhum título unívoco para todos os
significata das expressões, pois se tal título existisse, todos esses significata seriam
de um só e mesmo tipo. E era exatamente isso, no fundo, o que havia de errado
38 RYLE
com a terminologia lockiana das idéias e com a terminologia meinonguiana dos
objetos, pois essas palavras eram empregadas precisamente para executar essa
tarefa impossível.
Outros títulos habitualmente utilizados possuem, igualmente, transtornos
adicionais. Termos guarda ainda algumas das suas associações tradicionais, e de-
veria ser utilizado — se é que deveria ser realmente utilizado — para particula-
res, qualidades, relações, etc. Conceitos não cobre particulares nem as proposi-
ções completas nem mesmo os complexos de conceitos. Assim, utilizo fator pro-
posicional (entendendo-o de maneira a que tenha todas as possíveis ambigii-
dades de tipo) para abranger tudo aquilo que é significado por qualquer expres-
são, simples ou complexa, que possa ser o complemento de um signo de lacuna
num esquema de sentença qualquer (ou que possa ser o valor de uma variável
numa função proposicional qualquer). Se me perguntarem questões do gênero:
existem fatores proposicionais?, quantos deles existem”, eles são mentais?, como
são eles?, a minha resposta será: todas essas perguntas são perfeitamente ri-
dículas, pois “fator” é e pretende ser o ponto de encontro de todas as ambigiii-
dades de tipo.
E claro que poderíamos dispensar qualquer uma dessas palavras, pois as
suas funções são puramente estenográficas. As perguntas acerca dos tipos de
fatores são, num certo sentido, simplesmente perguntas acerca das possibilidades
de co-signifiçância (co-significance) de certas classes de expressões. Por outro
lado, no entanto, assim como o vocabulário em termos de fator (como também
o vocabulário em termos de idéia) pode nos aprisionar num mito, assim também
o vocabulário semântico pode nos aprisionar numa confusão entre questões ló-
gicas e questões gramaticais.
Dois fatores proposicionais pertencem a categorias ou tipos diferentes se
existem esquemas de sentença de tal sorte que, quando as expressões para esses
fatores são introduzidas como complementos alternativos nos mesmos signos de
lacuna, as sentenças resultantes são significantes num caso e absurdas no outro.
Embora seja tentador, não é inteiramente correto dizer, como conversa do que
acaba de ser afirmado, que dois fatores são do mesmo tipo se existir um caso
qualquer em que ambos possam preencher a mesma lacuna. Com efeito, eu e
aquele que escreveu este artigo podem ser nominativos alternativos em um gran-
de número de sentenças significantes, mas não é verdade que os dois podem pre-
encher a lacuna em ... nunca escreveu/escrevi um artigo. Segue-se daí que,
embora quase sempre seja correto, nem sempre é totalmente correto dizer que
todo signo de lacuna, no seu contexto num determinado esquema de sentença,
indica a categoria de todos os seus possíveis complementos. Por outro lado, sem-
pre que um signo de lacuna específica admitir, dessa maneira, complementos
diferentes quanto ao tipo, esse signo de lacuna possuirá uma ambigiiidade quan-
to ao tipo, que poderia ser evitada por um simbolismo mais adequado. Com
efeito, o fato de que uma determinada lacuna num esquema de sentença pode
ser preenchida por complementos entre os quais existem certas diferenças de
forma já constitui, por si só, um fato acerca dos tipos desses complementos
diferentes. Rá
A gênese dos enigmas de tipo
De que maneira viemos a nos instruir acerca das formas de proposições ou
dos tipos de fatores proposicionais? Ou, para exprimi-lo de forma menos novi-
dadeira, o que é que torna urgente para nós descobrir definições ou análises de
conceitos? Com efeito, não é gratuitamente que buscamos minuciosamente, nos
CATEGORIAS 39
dicionários e enciclopédias, noções para elucidar. Os problemas de tipo parecem
se impor a nós sob duas maneiras principais.
(1) Existem conceitos com os quais estamos perfeitamente familiarizados e
que podemos empregar com impecável competência, conceitos, por exemplo, que
ocorrem continuamente em questões que sabemos muito bem como resolver.
No entanto, classes inteiras de proposições ordinárias, que contêm um ou mais
conceitos desses, algumas das quais proposições temos razões perfeitamente boas
de aceitar como verdadeiras, são excluídas como falsas por outras proposições,
não menos bem autenticadas, que contêm outros conceitos igualmente familia-
res. Numa palavra, defrontamo-nos com antinomias. Estamos certos de que algu-
mas proposições de uma família de proposições são verdadeiras e de que algu-
mas proposições de uma outra família também são verdadeiras e, no entanto,
a verdade de qualquer proposição pertencente a uma família parece contradizer
redondamente todas as proposições da outra família. Vejo um bastão curvo e o
bastão é reto; devo ser censurado por uma ação, e essa ação derivou de um
caráter que me foi transmitido pelos meus antepassados e moldado pela minha
escola, e assim por diante.
Ora, se a contradição aparente, ou melhor, se a classe de contradições pode
ser resolvida, ela só poderá sê-lo porque as formas lógicas das proposições con-
flitantes não são aquilo que tínhamos suposto, pois é somente em virtude das
suas formas ou dos tipos dos seus fatores que as proposições implicam ou não
(ou implicam as negativas de) umas às outras.
(2) A seguir, quando já começamos a explorar os mecanismos de alguns
dos nossos conceitos e proposições, encontramo-nos embaraçados por certas
perplexidades puramente técnicas. Não estamos muito seguros de como utilizar
os nossos próprios instrumentos profissionais. Por outro lado, nós só desejamos
estar certos a respeito do desenho das nossas chaves-mestras porque pretende-
mos utilizá-las em fechaduras que se revelaram recalcitrantes antes de começar-
mos as nossas operações — a menos que o virtuosismo sempre nos tenha sus-
tentado. Investigações como esta, sobre a natureza das categorias, ou sobre as
espécies de relações, constituem, na realidade, questões técnicas desse gênero.
Qualquer conceito, entretanto, cujo mapa não foi estabelecido, pode engendrar
antinomias, pois ignorar o seu mapa significa ignorar algumas das implicações
e compatibilidades das proposições que o contêm. Os conceitos do senso comum,
das ciências e da própria filosofia podem engendrar, todos eles, e efetivamente
engendram, antinomias. O problema do caráter interno (internality) das relações
surgiu de antinomias resultantes do conceito técnico que os filósofos têm de
reiação.
Como se determinam os tipos?
Sabe-se, há muito tempo, que aquilo que uma proposição implica, ela o
implica em virtude da sua forma. E o mesmo ocorre com aquilo com o qual
uma proposição é compatível ou incompatível. Vamos rotular de ligações (liai-
sons) a todas as relações lógicas de uma proposição, isto é, aquilo que ela im-
plica, aquilo pelo qual ela é implicada, aquilo com o qual ela é compatível e
aquilo com o qual ela é incompatível. Ora, qualquer aspecto sob o qual duas
proposições diferem quanto à forma terá como reflexo certas diferenças nas suas
ligações. Assim, duas proposições que são formalmente semelhantes sob todos os
aspectos, exceto pelo fato de que um fator, numa delas, é diferente quanto ao
tipo de um fator parcialmente correspondente na outra, possuirão ligações que
são correspondentemente dessemelhantes. Na verdade, as ligações de uma pro-
40 RYLE
posição não se limitam a refletir simplesmente as propriedades formais das pro-
posições e — o que já está envolvido nisso — as propriedades formais de todos
os seus fatores. Num certo sentido, elas são a mesma coisa. Saber tudo acerca
das suas ligações significa saber tudo acerca da estrutura formal da proposição, e
vice-versa. Embora eu possa, é claro, considerar ou acreditar numa proposição
sem ter ainda observado todas as suas ligações. Na verdade, é necessário que
eu a apreenda antes de poder considerar as suas ligações, pois, do contrário, eu
não poderia ser vítima de antinomias.
A operação que consiste em extrair o tipo de um fator não pode excluir a
operação que consiste em revelar as ligações das proposições que contêm esse
fator. Em essência, elas constituem uma só operação. É claro que, no caso das
espécies familiares de proposições sobre os quais os lógicos trabalharam durante
séculos ou décadas, abreviamos a investigação, subsumindo-as diretamente sob
as fórmulas apropriadas. Mas ser informado de que uma proposição é da forma
Sé Pou da forma Ex.px « Wx não é ser informado de nada, a menos que se-
jamos capazes de trabalhar com os símbolos em código, de acordo com as regras
da sua utilização, vale dizer, a menos que saibamos como interpretar as ligações,
cujos padrões são aquilo que esses símbolos prescrevem.
Ora, a operação de formular as ligações de uma proposição é simplesmente
a atividade de raciocínio ou de argumentação (na qual não é necessário, é claro,
que haja, embora possa haver, um objetivo polêmico). E essa é a razão pela
qual filosofar é argumentar e é exatamente esse elemento de raciocínio que, via
de regra, é omitido nas mais recentes definições de filosofia como análise, pois
tais definições sugerem, em geral, que analisar consiste numa espécie de para-
frasear. Ora, alguns tipos de paráfrase não têm nenhuma força de elucidação
filosófica, pois elas deixam de exibir precisamente aqueles aspectos das proposi-
ções e dos seus fatores cuja obscuridade nos envolve em antinomias, a saber, as
suas ligações que derivam dos seus tipos e formas lógicas ou que os constituem.
O simples aumento de prolixidade não é suficiente. Saber quando um argu-
mento é filosófico e quando não o é são questões ulteriores cuja discussão
estaria deslocada aqui.
O tipo das proposições categoriais
Chamo de proposição categorial (category-proposition) a uma proposição
que afirma alguma coisa acerca do tipo lógico de um fator ou de um conjunto
de fatores. Alguns tipos foram oficialmente reconhecidos, tendo recebido marcas
registradas, como qualidade, estado, substância, número, construção lógica, ca-
tegoria, etc. Poderíamos denominá-los de palavras categoriais (category-words).
Carnap os chama, de um modo que induz em erro, de palavras universais. No
entanto, as proposições que afirmam que determinados fatores pertencem a tipos
que já têm nomes só diferem, do ponto de vista da economia da expressão, de
proposições que afirmam que certos fatores pertencem a tipos de que se faz
uma descrição.
Todas essas proposições são proposições de filósofos (não necessariamente,
é claro, de filósofos profissionais ou pagos), e creio que a conversa também é
verdadeira.
Ora, as asserções acerca dos tipos de fatores são, como vimos, asserções a
respeito de quais espécies de combinações desses fatores com outros produzi-
riam absurdos e quais combinações não produziriam absurdos. Assim, dado que
só disposições de símbolos podem ser afirmadas como absurdas e, por conse-
guinte, negadas como absurdas, segue-se que as proposições categoriais são pro-
CATEGORIAS 41
posições semânticas. Isso não implica que elas sejam do mesmo tipo que as
proposições dos filósofos, dos gramáticos ou dos lexicógrafos. Não existem pro-
posições categoriais inglesas opostas a proposições categoriais alemãs nem oci-
dentais opostas a orientais. Por outro lado, isso não implica, tampouco, que elas
não possam dizer nada a respeito da natureza das coisas. Se a perplexidade de
uma criança relativa ao fato de o equador poder ser atravessado mas não visto,
ou relativa ao fato de o Gato do Cheshire não poder deixar o seu sorriso atrás
de si, for uma perplexidade relativa à natureza das coisas, então é certo que de-
terminadas proposições categoriais fornecerão a informação desejada acerca da
natureza das coisas. E o mesmo se aplicará a perplexidades de tipo de um gênero
menos frívolo. Mas quais são os testes do absurdo?
A LINGUAGEM ORDINÁRIA *
Muitas vezes, os argumentos dos filósofos giraram em torno de referências
Jo que dizemos e não dizemos ou, mais radicalmente, ao que podemos e não po-
mos dizer. Argumentos desses já estão presentes nos textos de Platão, sendo
comuns também nos de Aristóteles.
Em anos recentes, alguns filósofos que vieram a manifestar uma preocupa-
ção febril com a natureza ec a metodologia do seu ofício fizeram grande caso de
argumentos desse po. Outros filósofos, ao contrário, os repudiaram. Ora, as
suas disputas acerca dos méritos desses argumentos não foram das mais cdifican-
tes, pois ambos os lados tenderam a adulterar o problema. Eu pretendo
desadulterá-lo.
“Ordinário”
Há uma frase que rtaparece sistematicamente nessa disputa, à frase “a uti-
tização (use) da linguagem ordinária”. Muitas vezes se supõe, de maneira total-
mente errônea, que ela é parafrascada por “uso (usage) linguístico ordinário”.
Alguns dos que tomaram partido na disputa aludida, afirmam que todas as ques-
tões filosóficas, são questões acerca da utilização da linguagem ordinária, ou que
todas as questões filosóficas são solvidas ou estão em vias de serem solvidas
mediante a consideração do uso. lingúistico ordinário.
Deixando para mais tarde o exame da noção de uso lingiiístico, quero co
meçar estabelecendo um contraste entre a frase “a utilização (use) da linguagem
ordinária c a frase — aparentemente semelhante à primeira mas, na realidade.
totalmente diferente —, “a utilização ordinária da expressão “...”". Quando as
pessoas falam da utilização da linguagem ordinária, a palavra “ordinária” se en-
contra em contraste implícito ou explícito com “fora do comun, “esotérica”, “téc-
nica”, “poética”, "notacional” e, às vezes, com “arcaica”. “Ordinário” significa “co-
mum"”, “corrente”, 'coloquial, 'vernacular', “natural”, “prosaico', “não notacionar”.
"na língua de todo mundo”, estando, de hábito, em contraste com expressões
que só poucas pessoas sabem como utilizar, tais como os termos técnicos ou os
simbolismos artificiais dos advogados, teólogos, economistas, filósofos, cartó-
gratos, matemáticos, lógicos simbólicos c jogadores de tênis. Não existe uma
fronteira nítida entre “comum” e “incomum” e "não técnico”, “antiquado” e “corren-
te”. “Carburador”, por exemplo, é uma palavra de utilização comum ou, ao con-
trário, apenas de utilização incomum? “Ponto reverso” está na boca de todo
mundo (everyman) ou somente na boca de todas as mulheres (everywoman)? E o
Traduzido do original inglês: “Ordinary Language”, publicado in The Philosophical Re-
view, LXII (1953). Ithaca, pp. 167-186, N. Y., Cornell University Press.
44 RYLE
que dizer de “homicídio”, "inflação", “quociente”, “offside'? De outra parte, nin-
guém hesitaria quanto ao lado dessa terra de ninguém em que localizaria “isótopo”
ou "pão, “implicação material” ou “se”, “cardinal transfinito' ou “onze”, 'abacinar”,
ou “supor. As margens de “ordinário” são embaçadas mas, de hábito, não temos
dúvida quanto a saber se uma expressão pertence ou não à maneira de falar
ordinária.
Na outra frase, porém, na frase a utilização ordinária da expressão “..."”,
“ordinária” não está em contraste com “esotérica”, “arcaica” ou “especializada,
etc. Ela está em contraste com “não canônica” ('non-stock') ou 'não standard”.
Podemos contrastar a utilização canônica (stock) ou padrão (standard) de uma
faca de peixe ou de um esfigmômetro com alguma utilização não regular (non-
regulation use) de uma ou de outra. A utilização canônica de uma faca de peixe
é a de se cortar peixe com ela. Mas ela poderia ser utilizada para cortar tubér-
culos de batata ou como um heliógrato. Por outro lado, um esfigmômetro po-
deria ser utilizado, tanto quanto eu saiba, para verificar a pressão dos pneus,
embora não seja essa a sua utilização-padrão. Quer uma ferramenta ou um ins-
trumento seja comum, quer seja especializado, sempre há uma distinção entre a
sua utilização canônica e certas utilizações não canônicas que dele se “pode
fazer. Quer se trate de um termo altamente técnico, quer se trate de um termo
não técnico, sempre há uma distinção entre a sua utilização canônica e certas
utilizações não canônicas do termo. Se se tratar de um termo altamente técnico,
a maioria das pessoas não conhecerá a sua utilização canônica nem, a fortiori,
quaisquer utilizações não canônicas, se é que o termo tem alguma. Se se tratar
de um termo vernacular, entretanto, praticamente todos conhecerão a sua utili-
zação canônica, e um grande número de pessoas conhecerá também algumas das
utilizações não canônicas do termo, se é que ele tem alguma. Existem inúmeras
palavras, como “de”, “ter” e “objeto”, que não possuem uma única utilização canô-
nica, assim como barbante, papel, latão e canivetes de bolso tampouco possuem
uma só utilização canônica. Por outro lado, inúmeras palavras não adquiriram
nenhuma utilização não canônica. Creio que “dezesseis não tem nenhuma, e
tampouco “asfodelo”. Botões de colarinho também, talvez não tenham nenhuma
utilização não canônica. São utilizações não canônicas de uma palavra, por exem-
plo, as utilizações metafóricas, hiperbólicas, poéticas, ampliadas e deliberada-
mente restritas. Além de contrastar a utilização canônica com certas utilizações
não canônicas, muitas vezes desejamos contrastar a utilização canônica de uma
expressão com certas utilizações alegadas, sugeridas ou recomendadas da expres-
são. Esse último não é um contraste entre a utilização regular e as utilizações irre-
gulares, mas entre a utilização regular e aquilo que se alega ser ou que se reco-
menda deva ser a utilização regular.
Quando falamos da utilização ordinária ou canônica de uma palavra, não
é necessário que estejamos, ao mesmo tempo, caracterizando-a de uma outra
forma qualquer, por exemplo, aprovando, recomendando ou atestando tal utili-
zação. Não é necessário que estejamos apelando para a sua canonicidade ou nela
baseando alguma coisa. As palavras “ordinário”, 'padrão” e “canônico” podem
servir simplesmente para fazer referência a uma utilização, sem, ao mesmo tem-
po, descrevé-la. Essas palavras são filosoficamente incolores, podendo facilmente
ser dispensadas. Quando falamos do guarda-noturno regular, estamos simples-
mente indicando o guarda-noturno que, independentemente dessa indicação, sa-
bemos ser aquele que habitualmente executa um determinado trabalho; ainda não
estamos fornecendo nenhuma informação à seu respeito nem prestando tributo
à sua regularidade. Quando falamos da pronúncia-padrão de uma palavra ou
da bitola-padrão das estradas de ferro inglesas, não estamos, com isso, reco-
LINGUAGEM ORDINÁRIA 45
mendando ou aprovando essa pronúncia ou essa bitola. Estamos simplesmente
fazendo uma referência a uma ou a outra, referência essa que esperamos que os
nossos ouvintes apreendam sem hesitações. Naturalmente, essa indicação às ve-
zes não funciona. Algumas vezes, a utilização canônica de uma expressão é
diferente, num determinado lugar, da sua utilização canônica em outro lugar,
como ocorrera com 'sobrado”.' Algumas vezes, além disso, a sua utilização ca-
nônica numa época difere da sua utilização canônica em outra época, como ocor-
re com “assistir'.? Uma disputa acerca de qual, dentre duas ou cinco utilizações,
é a utilização canônica, não constitui uma disputa filosófica acerca de nenhuma
dessas utilizações. Trata-se, portanto, de uma disputa sem interesse filosófico,
embora a sua decisão seja, às vezes, um requisito prévio para a comunicação
entre os filósofos.
Se eu pretendo falar acerca de uma utilização não canônica de uma palavra
ou de uma faca de peixe, não basta tentar fazer referência a ela mediante a
frase “a sua utilização não canônica”, pois pode muito bem haver um número
indefinido de tais utilizações não canônicas. Para chamar a atenção do meu
ouvinte para uma determinada utilização não canônica de uma palavra, devo
apresentar alguma descrição dessa utilização; por exemplo, citando um con-
texto especial em que se sabe que a palavra é utilizada de maneira não canônica.
Ainda que seja sempre possível, tal descrição, muitas vezes, não é neces-
sária no caso da utilização canônica de uma expressão, embora, em debates fi-
losóficos, sejamos, às vezes, obrigados a apresentá-la, visto que os nossos inter-
locutores-filósofos mostram tanto empenho em pretender que não conseguem
conceber qual é a utilização canônica da expressão, dificuldade essa que eles
esquecem totalmente, é claro, quando estão ensinando a crianças ou a estran-
geiros como utilizar a expressão em questão, ou quando estão consultando
dicionários.
Torna-se fácil agora constatar que aprender ou ensinar a utilização ordi-
nária ou canônica de uma expressão não deve, necessariamente, ser — embora
possa ser — aprender ou ensinar a utilização de uma expressão ordinária ou
vernacular, da mesma maneira como aprender ou ensinar a utilização-padrão de
um instrumento não deve, necessariamente, ser — embora possa ser — apren-
der ou ensinar a utilização de um utensílio doméstico. Inúmeras palavras e ins-
trumentos, sejam eles fora do comum ou comuns, têm suas utilizações canôni-
cas, podendo ou não ter, ao mesmo tempo, também utilizações não canônicas.
Assim, um filósofo que sustentasse que certas questões filosóficas são ques:
tões acerca das utilizações ordinárias ou canônicas de determinadas expressões,
não estaria, em consegiiência, se comprometendo com a opinião segundo a quai
tais questões são questões acerca das utilizações de expressões ordinárias ou
coloquiais. Esse filósofo poderia admitir que o substantivo 'infinitesimais” não se
encontra na boca de todo mundo e, ao mesmo tempo, poderia sustentar que
Berkeley estava examinando a utilização ordinária ou canônica de “infinitesimais”,
isto é, examinando a maneira-padrão (se não a única maneira) em que essa pa-
lavra era empregada pelos especialistas em matemática. Berkeley não estava exa-
minando a utilização de uma palavra coloquial; ele estava examinando a utili-
1 No original inglês, o exemplo apresentado é dado pela expressão '“suspenders' que, nos Es-
tados Unidos, significa 'suspensório” e, na Inglaterra, significa “ligas'. O exemplo foi alterade
a fim de preservar, em português, a dupla utilização mencionada pelo autor. (N. do T.)
2 No original, o exemplo é dado pela expressão “nice” que, no século XVI, significava 'estú-
pido', ou raro”, significando, atualmente, “bonito”, “encantador”, “delicado”, “fino”, “gentil”,
“amável. Também aqui o exemplo foi adaptado a fim de preservar, em português, a variação
de utilização indicada por Ryle. (N. do T.)
46 RYLE
tação regular ou padrão de uma palavra relativamente esotérica. Não estaremos
nos contradizendo portanto, se dissermos que ele estava examinando a utilização
ordinária de uma expressão não ordinária. |
E claro que um grande numero de discussões filosóficas são desse tipo. Na
filosofia do direito, da biologia, da física, da matemática, da lógica formal, da
teologia, da psicologia e da gramática, certos conceitos técnicos exigem exame,
sendo esses conceitos aquilo que é expresso por maneiras de dizer (dictions)
mais ou menos rebuscadas (recherché). Não há dúvida de que um exame desse ge-
nero incorpora certas tentativas de elucidar, em termos não técnicos, os termos
técnicos desta ou daquela teoria especializada, mas essa tentativa mesma envolve
a discussão das utilizações ordinárias ou canônicas desses termos técnicos.
Também não há dúvida de que o estudo que os filósofos fazem das utiliza-
ções canônicas de expressões que todos nós empregamos possui uma certa prima-
zia sobre o estudo que eles fazem das utilizações canônicas de certas expressões
que só especialistas, em ciência ou em direito, por exemplo, empregam. Esses
especialistas explicam aos noviços as utilizações canônicas dos seus termos pro-
fissionais (of art), falando-lhes, em parte, em termos não esotéricos, não estando,
contudo, obrigados a explicar-lhes, ao mesmo tempo, as utilizações canônicas
desses mesmos termos não esotéricos. A terminologia não técnica é, desse modo.
básica para as terminologias técnicas. O dinheiro vivo possuí esse mesmo tipo
de primazia sobre cheques e letras de câmbio — possuindo, 40 mesmo tempo,
as mesmas inconveniências quando entram em questão transações mais vastas
e complexas.
Não há dúvida, finalmente, de que alguns dos problemas capitais da filo-
sofia se constituem pela existência de emaranhados (tangles) lógicos, não neste
tipo de teoria especializada por oposição aquele outro, mas no pensamento e
no discurso de todo mundo, tanto dos especialistas quanto dos não especia-
listas. Os conceitos de causa, evidência, conhecimento, erro, deve, pode, etc.
não constituem propriedade privada de nenhum grupo particular de pessoas. Nós
os empregamos antes mesmo de começar a desenvolver ou a explorar teorias
especializadas. E não poderiamos explorar ou desenvolver tais teorias a menos
que já pudéssemos empregar esses conceitos. Eles pertencem aos rudimentos de
porém. que todas as questões filosóficas sejam questões acerca desses conceitos
rudimentares. É bem verdade que o arquiteto deve estar atento aos materiais do
seu edifício; mas não é apenas a eles que deve prestar atenção.
“Utilização”
Passemos agora a um outro ponto. A frase “a utilização ordinária (IStO E,
canônica) da expressão “...”” é pronunciada, muitas vezes, de tal sorte que a
enfase recai sobre a palavra “expressão” ou sobre a palavra “ordinária”, negligen-
ciando então o destaque à palavra “utilização”. Ora, é o inverso que deverie
ocorrer. A palavra operativa é “utilização.
O problema de Hume não era acerca da palavra “causa”, era acerca da
utilização de “causa”, Também era. em medida exatamente idêntica, acerca da
utilização de “Ursache', pois a utilização de “causa” é idêntica à utilização de
“Ursache', embora “causa” não seja à mesma palavra que “Ursache'. O problema
de Hume não era acerca de um fragmento da língua inglesa em nenhum sentido
em que não fosse. ao mesmo tempo, um problema acerca de um fragmento da
lingua alemã. A função (job) executada com a palavra portuguesa “causa” não É
uma função portuguesa nem uma função continental, Aquilo que eu faço com
LINGUAGEM ORDINARIA 47
as minhas botas feitas em Nottingham — a saber, caminhar com elas — não é
feito em Nottingham: mas não é, tampouco, feito em Leicester ou em Derby.
As transações que cu cfetuo com uma moeda de “vinte centavos (sixpenny-bit)
não têm bordas serrilhadas nem bordas não serrilhadas; elas simplesmente não
têm bordas. Poderíamos discutir o que posso e não posso fazer com uma moeda
de vinte centavos, isto é, O que posso € não posso comprar com ela, que troco
deveria e não deveria dar ou receber por ela, e assim por diante. Tal discussão,
contudo, não seria uma discussão a respeito da data, dos ingredientes, da forma,
da cor ou da proveniência da moeda. Tratar-se-ia de uma discussão a respeito
do poder aquisitivo desta moeda ou de qualquer outra moeda do mesmo valor,
e não a respeito desta moeda em particular. Não seria uma discussão numismá-
tica, mas uma discussão comercial ou financeira. Enfatizar a palavra “utilização
ajuda a evidenciar o importante fato de que a investigação em questão não é
uma investigação sobre as outras características ou propriedades de uma palavra,
de uma moeda ou de um pur de botas, mas exclusivamente uma investigação
sobre o que se faz com qualquer uma dessas coisas ou com qualquer outra coisa
com a qual possamos fazer as mesmas coisas. Essa é a razão pela qual é profun-
damente enganoso (misleading) classificar as questões filosóficas como questões
lingúísicas — ou como questões não linguísticas.
Penso que só em anos bem recentes vieram os filósofos a assimilar o expe-
diente (trick) de falar acerca da utilização das expressões, fazendo disso, inclusi-
ve, uma virtude. Outrora, os nossos predecessores falavam, em lugar disso, dos
conceitos ou idéias correspondentes às expressões. Sob inúmeros uspectos, esse
idioma foi extremamente conveniente e nós faríamos bem em conservá-lo num
grande número de situações. Ele tinha a desvantagem, porém, de encorajar as
pessoas a empreenderem expedições platônicas ou lockianas em busca do estatuto
e da proveniência desses conceitos ou idéias. Tinha-se a impressão de que um
filosofo que desejasse examinar, por. exemplo, o conceito de causa, de infinitesi-
mal ou de remorso, se encontrava sob uma certa obrigação de começar por de-
cidir se os conceitos têm uma existência supramundana ou apenas uma existén-
cia psicológica, se são objetos transcendentes suscetíveis de intuição (transcen-
dent intuitables) ou apenas objetos privados suscetíveis de introspecção (private
introspectibles).
Mais tarde, quando os filósofos passaram a se revoltar contra O psicologis-
mo em lógica, um outro idioma entrou em voga, o idioma que consiste em falar
acerca das significações das expressões; nessa ocasião, a frase “o conceito de
causa” passou a ser substituída pela frase “a significação da palavra “causa” ou
de qualquer outra com a mesma significação”. Esse nóvo idioma também estava
sujeito a objeções antiplatônicas e antilockianas, mas a sua maior desvantagem
era outra. Naquela época, os filósofos e lógicos eram vítimas de uma teoria espe-
cifica e errônea acerca da significação. Eles interpretavam o verbo “significar
como se esse representasse (as standing for) uma relação entre uma expressão e
uma outra entidade. Considerava-se que a significação de uma expressão era uma
entidade que tinha por nome aquela expressão. Assim, fazia-se a suposição (ou
se chegava quase a isso) de que estudar a significação da frase “o sistema solar
é a mesma coisa que estudar o sistema solar. Foi em parte como reação a essa
opinião errônea que os filósofos passaram a preferir falar em termos de “a uti-
lização das expressões "... causou .. Je"... o sistema solar ”. Estamos acos-
tumados a falar da utilização de alfinetes de segurança, de corrimãos, de facas
de mesa, de distintivos e de gestos. Esse idioma familiar, entretanto, não conota
nem parece conotar nenhuma relação bizarra com quaisquer entidades bizarras.
Ele chama a nossa atenção para procedimentos e técnicas (que podem ser ensi-
48 RYLE
nados) de manipular ou de empregar coisas, sem sugerir correlatos indesejados.
Aprender como manejar um remo, um cheque de viagem ou um selo postal não
é ser apresentado a uma entidade extra. Tampouco o é aprender como manipu-
lar as palavras “se”, “deve” e “limite”.
Esse idioma possui, ainda, um outro mérito. Quando podemos falar de ma-
nejar, de manipular e de empregar, podemos também falar de manejar mal (mis-
managing), de manipular mal (mishandiing) e de empregar mal (misemploying).
Nesses casos, existem regras a serem observadas ou infringidas, códigos a obser-
var ou a desrespeitar. Aprender a utilizar expressões envolve — assim como
aprender a utilizar moedas, selos, cheques e bastões de hóquei — aprender a
fazer com elas certas coisas e não outras, envolve aprender quando fazer certas
coisas com elas e quando não fazê-las. Dentre as coisas que aprendemos no
processo de aprender a utilizar expressões lingiiísticas, encontramos algo que po-
deríamos vagamente chamar de “regras de lógica”; por exemplo, aprendemos que,
embora mamãe e papai possam ambos ser altos, não podem ser ambos mais
altos um do que o outro; ou que, embora os tios possam ser ricos ou pobres,
gordos ou magros, eles não podem ser de sexo masculino ou feminino, mas ape-
nas de sexo masculino. Ao passo que dizer que conceitos, idéias ou significações
poderiam ser desprovidos de significação (meaningless) ou absurdos é algo que
soa de modo implausível, não existe tal implausibilidade em afirmar que alguém
poderia utilizar de maneira absurda uma determinada expressão. Um modo, ten-
tado ou sugerido, de operar com uma expressão pode ser logicamente ilegítimo
ou impossível, mas um universal, um estado de consciência ou uma significação
não podem ser logicamente legítimos ou ilegítimos.
“Utilização” e “Utilidade”
Por outro lado, contudo, há certas inconveniências em se falar muito das
utilizações (uses) das expressões. As pessoas se inclinam a interpretar “utilização”
segundo uma das maneiras que a língua portuguesa * certamente autoriza, a sa-
ber, como sinônimo de utilidade" ou “serventia”. Essas pessoas supõem, então,
que examinar a utilização de uma expressão significa examinar para que ela é
útil ou quão útil ela é. Considerações desse gênero são, às vezes, filosoficamente
proveitosas. É fácil constatar, no entanto, que discutir a utilização (versus utili-
dade) de alguma coisa é bem diferente de discutir a sua utilização [versus má
utilização (misuse)], isto é, o modo, método ou maneira de utilizar a coisa em
questão. O motorista de sexo feminino pode aprender qual é a utilidade de uma
vela de ignição, mas aprender isso não significa aprender como operar com uma
vela de ignição. É bem possível, por exemplo, que a motorista careça daquelas
habilidades ou competências com velas de ignição que, ao contrário, ela possui
- com volantes, moedas, palavras e facas. As suas velas de ignição se arrumam
sozinhas (manage themselves); ou melhor, elas simplesmente não se arrumam.
Elas simplesmente funcionam automaticamente, até o momento em que deixam
de funcionar. Essas velas lhe são úteis e até indispensáveis. Mas a motorista em
questão não as maneja nem as maneja mal (mismanage).
Inversamente, uma pessoa que aprendeu como assobiar árias pode não achar
que o ato de assobiar árias seja útil ou sequer agradável para os outros, ou mes-
3 Embora o emprego do termo utilização" como sinônimo de “utilidade” ou de “serventia” não
seja, em português, tão caracterizado quanto o é em inglês, o emprego de “use como sinô-
nimo de “utiliry' ou de 'usefulness”, a nossa língua certamente autoriza a aproximação c, even-
tualmente, a confusão indicadas por Ryle. (N. do T.)
LINGUAGEM ORDINÁRIA 49
mo para si própria. Tal pessoa, quando assobia, maneja ou, às vezes, maneja
mal os seus lábios, a sua língua e a sua respiração. Mais indiretamente, ela tam-
bém maneja ou maneja mal as notas que emite. Ela aprendeu o truque do asso-
bio. Essa pessoa pode nos mostrar e talvez até nos dizer como esse truque é exe-
cutado. Mas é um truque inútil. A pergunta: como você utiliza a sua respiração
ou os seus lábios para assobiar? tem uma resposta positiva e complicada. A per-
gunta: qual é a utilização (use) ou a utilidade de assobiar? tem uma resposta
negativa e simples. A primeira pergunta pede os detalhes de uma técnica, a últi-
ma, não. As perguntas acerca da utilização de uma expressão são, muitas vezes
(embora nem sempre o sejam), perguntas acerca do modo de operar com a
expressão; não são perguntas acerca daquilo para o que alguém necessita da
expressão quando a utiliza. Essas perguntas são perguntas relativas ao como
(how-questions) e não perguntas relativas ao para que (what-for-questions.) Po-
demos levantar esse último tipo de pergunta, mas raramente é necessário fazê-lo,
visto que a resposta, de hábito, é óbvia. Num país estrangeiro, eu não pergunto
para que serve um centime ou uma peseta. O que eu pergunto é quantos deles
devo dar por um determinado artigo ou quantos deles devo esperar em troca de
uma meia-coroa. Quero saber qual é o poder aquisitivo da moeda em questão
e não se ela serve para fazer compras.
“Utilização” e “Uso”
Muito mais insidiosa do que a confusão acima — entre o modo de operar
com alguma coisa e a sua utilidade — é a confusão entre uma “utilização” (“use”),
isto é, um modo de operar com alguma coisa, e um “uso” (usage). Inúmeros filó-
sofos, cuja principal decisão consiste em discernir diferenças lógico-lingiísticas,
falam sem muitos escrúpulos como se utilização” e *'uso' fossem sinônimos. Isso
é simplesmente um erro clamoroso, que não poderia ser desculpado senão pelo
fato de que, na frase inglesa arcaica, “use and wont” (“usos e costumes”), “use
poderia, talvez, ser substituído por “usage” (“hábitos”) e que “used to' efetivamente
significa “tinha o costume de” e finalmente que ser excessivamente utilizado (used)
significa sofrer um excessivo uso (usage). *
Um uso é um costume, uma prática, uma moda ou uma voga. Pode ser
local ou largamente disseminado, obsoleto ou corrente, rural ou urbano, vulgar
ou acadêmico. Não pode haver um uso errôneo (misusage), da mesma maneira
como não pode haver um costume errôneo (miscustom) ou uma voga errônea
(misvogue). Os métodos para descobrir usos lingiúísticos são os métodos dos
filósofos.
Em contraste com isso, um modo de operar com uma lâmina de barbear,
com uma: palavra, com um cheque de viagem ou com um remo constitui uma
técnica, uma habilidade ou um método. Aprender tal modo de operar é aprender
como fazer a coisa e não descobrir quaisquer generalidades sociológicas, nem
mesmo certas generalidades sociológicas referentes a outras pessoas que fazem
coisas semelhantes ou diferentes com lâminas de barbear, com palavras, com
cheques de viagem ou com remos. Robinson Crusoe poderia muito bem descobrir
sozinho como fazer e como arremessar bumerangues. Essa descoberta, contudo,
4 A tradução mais aproximada de 'usage' é dada pela expressão “uso' no sentido de “hábito'
ou de “costume”. Embora tenha sido essa a tradução adotada, no texto presente as ramifi-
cações semânticas do termo inglês impuseram a conservação de certas frases no original, visto
que as observações do autor não encontram um correspondente exato em português.
tn
(E
RYLE
não lhe diria nada acerca dos aborígines australianos que, de fato, os fabricam
c os utilizam da mesma maneira, À descrição de um truque de prestidigitação
não é a descrição de todos os prestidigitadores que executam ou que executaram
esse truque. ÀÃo contrário, para poder descrever aqueles que conhecem o truque,
é necessário que já sejumos capazes de apresentar um tpo qualquer de descrição
do próprio truque. À sra. Becton nos diz como fazer omeletes, mas não nos da
nenhuma informação a respeito dos grandes cozinheiros parisienses. O Bacdeker
poderia nos dizer alguma coisa acerca de alguns grandes cozinheiros parisienses,
dizendo-nos quais deles tazem omeletes, Mas se esse guia pretendesse nos dizer
como fazer omeletes, ele deveria descrever a técnica desses cozinheiros à mancira
como a sra. Beeton descreve u técnica de fazer omeletes, As descrições de usos
pressupõem descrições de utilizações, isto é. dos modos ou técnicas de fazer u
coisa, da prática de fazer, mais ou menos largamente predominante, que constitui
o uso.
Há uma importante diferença entre o emprego de bumerangues. arcos «
flechas e remos, de um lado, e o emprego de raquete de ténis, cordas de cabo-
de-guerra, moedas, selos ec palavras, de outro. Esses últimos são instrumentos
de ações interpessoais, isto é, de ações em conjunto (concerted) ou de ações
competitivas. Robinson Crusoe poderia jogar alguns jogos de paciência, mas não
poderia jogar tênis ou críquete. Assim, uma pessoa que aprende a utilizar uma
raquete de tênis, um remo simples, uma moeda ou uma palavra, encontrar-se-á,
inevitavelmente, em condições de observar outras pessoas utilizando essas mesmas
coisas. Ela não pode adquirir o domínio das habilidades necessárias a essas tran-
sações interpessoais sem descobrir, ao mesmo tempo, certos fatos acerca do em-
prego c do mau emprego (mnisemployment) que algumas outras pessoas delas
fazem. Normalmente, além disso, ela aprenderá um grande número dessas habi-
lidades observando outras pessoas empregá-las. Mesmo assim, aprender as habili-
dades não é nem exige a realização de um estudo sociológico. Uma criança pode
aprender em casa ou no armazém do bairro como utilizar pence, xclins e notas
de libra. E o seu domínio dessas manipulações ligeiramente complexas não será
acrescido se a criança souber de que maneira várias outras pessoas, em Outros
lugares e em outras épocas, lidaram (managed) e agora lidam ou lidam inadequa-
damente (mismanage) com os seus pence, xelins e notas de libra. Dominar per-
feitamente uma utilização não é vir a saber tudo ou sequer muitas coisas acerei
de um uso, ainda que dominar essa utilização envolva, sob forma causal, desco-
brir algumas coisas a respeito das práticas de algumas outras pessoas. No quarto
de brinquedos, nós aprendemos como manipular um grande número de palavras,
mas não nos ensinam, para isso, quaisquer generalidades históricas ou socioló-
gicas relativas aos usuários dessas palavras. Isso só vem mais tarde, se é que vem.
Antes de passar adiante, devemos ainda assinalar uma imensa diferença
entre utilizar remos ou raquetes de tênis, de um lado, e utilizar selos de correio,
alfinetes de segurança, mocdas ce palavras, de outro. As raquetes de têms poden:
ser manuscadas com maior ou menor perícia; até o campcão de tênis treina
(studies) para melhorar. E legítimo dizer, entretanto, com certas reservas de pouca
importância, que mocdas, cheques, selos, palavras isoladas, botões c cordões de
sapato são coisas que não oferecem praticamente nenhum campo para O talento.
Ou uma pessou sabe ou então não sabe como utilizá-las e como não utilizá-las
mal (misusej. E claro que a composição e à argumentação literárias podem en-
volver uma habilidade maior ou menor, mas o ensaísta ou o advogado não conhece
melhor do que as outras pessoas a significação de “coelho” ou de e. Não ha lupar
aqui para “melhor, De maneira análoga. o campeão de xadrez manobra as peças
com mais perícia do que o amador, mas ele não conhece os movimentos auton-
LINGUAGEM ORDINÁRIA
O é
zados das peças melhor do que o amador. Ambos os conhecem perfeitamente,
ou melhor, ambos simplesmente os conhecem.
Sem dúvida, o jogador de xadrez mais refinado pode descrever os movimen-
tos permitidos melhor do que o jogador pouco refinado. Mas nem por isso ele
efetua esses movimentos melhor. Eu não dou o troco por uma meia-coroa melhor
do que você o faz. Ambos simplesmente damos o troco correto. No entanto, é
possível que eu seja capaz de descrever tais transações de um modo mais eficiente
do que você. Saber como operar não é saber como dizer como operar. Esse
ponto assume grande importância quando estamos discutindo, por exemplo, a
maneira canônica (a supor que exista uma) de empregar a palavra 'causa”. O
médico sabe como fazer tal utilização da palavra tão bem como qualquer outra
pessoa, mas é bem possível que ele não seja capaz de responder a nenhuma das
perguntas filosóficas acerca dessa maneira de utilizá-la.
A fim de evitar estas duas grandes confusões: a confusão de 'utilização' com
“utilidade” e a confusão de utilização' com “uso”, venho tentando, hoje em dia,
utilizar, inter alia, 'empregar e 'emprego' em lugar do verbo “utilizar” e do subs-
tantivo “utilização”. Direi, então, o seguinte. Os filósofos tentaram, muitas vezes,
descrever a maneira ou o modo canônico (e, mais raramente, algumas maneiras
não canônicas) de empregar uma expressão. Algumas vezes, tal expressão per-
tence ao vernáculo; outras vezes, ela faz parte de um vocabulário técnico e,
algumas vezes, ela não pertence nem a um nem a outro. Descrever o modo de
emprego de uma expressão não exige e, de hábito, não encontra auxílio em infor-
mações a respeito da predominância ou não dessa maneira de empregá-la. Como
muitas outras pessoas, o filósofo, com efeito, há muito aprendeu como empregá-la
ou como manipulá-la, e o que ele está tentando descrever é exatamente aquilo
que ele próprio aprendeu.
As técnicas não são voga, mas podem ter voga. Algumas delas devem ter
voga ou ser correntes de alguma outra forma. Não é nenhum acidente, com efeito,
que os modos de empregar palavras, assim como os modos de empregar moedas,
selos e peças de xadrez, tendem a ser idênticos em toda uma comunidade e du-
rante um longo período de tempo. Com efeito, nós desejamos compreender e
ser compreendidos e, além disso, nós aprendemos a nossa língua materna dos
nossos antepassados. Mesmo sem a pressão da legislação e dos dicionários, os
nossos vocabulários tendem à uniformidade. Excentricidades e idiossincrasias nes-
sas questões prejudicam a comunicação. Excentricidades e idiossincrasias em
matéria de selos de correio, de moedas e de movimentos de peças de xadrez
são excluídas por legislação explícita, e conformidades parcialmente análogas são
impostas aos vários vocabulários técnicos através dos livros de exercícios e pelos
manuais. É notório que essas tendências à uniformidade têm as suas exceções.
No entanto, visto que inúmeros hábitos (usages) de vocabulário bastante dissemi-
nados e de longa duração já têm uma existência natural, torna-se às vezes descul-
pável que um filósofo lembre aos seus leitores um modo de empregar uma
expressão, fazendo alusão a 'o que todos dizem' ou a 'o que ninguém diz”. O leitor
considera, então, o modo de emprego que há muito aprendeu, sentindo-se enco-
rajado quando informado de que poderosos batalhões estão ao seu lado. Na
realidade, é claro que esse apelo à predominância é filosoficamente inútil (point-
less), além de ser filosoficamente arriscado. O que se pretende é, possivelmente,
a extração das regras lógicas que governam implicitamente um conceito, isto é,
um modo de operar com uma expressão (ou com qualquer outra expressão que
execute a mesma função). É provável que a utilização dessa expressão, para
desempenhar essa tarefa, seja largamente corrente. Mas que o seja ou não, isso
não tem nenhum interesse filosófico. Análise de função não é observação da
Wm
[10]
RYLE
maioria (mass observation). E essa análise não é sequer favorecida pela observação
da maioria. A observação da maioria, entretanto, requer, às vezes, o auxílio
da análise de função.
Antes de terminar essa discussão da utilização da expressão “a utilização da
expressão “...”*, quero chamar a atenção para um ponto interessante. Podemos
perguntar se uma pessoa sabe como utilizar e como não utilizar mal (misuse)
uma determinada palavra. Mas não podemos perguntar se ela sabe como utilizar
uma determinada sentença. Quando um bloco de palavras se cristalizou numa
trasc feita (a phrase), podemos perguntar se a pessoa sabe como utilizar a frase.
Mas, quando uma seuiiência de palavras ainda não se cristalizou numa frase feita,
embora possamos, nesse caso, perguntar se a pessoa sabe como utilizar as pala-
vras que a compõem, não podemos facilmente perguntar se ela sabe como utilizar
toda a segiiência. Mas por que nem mesmo podemos perguntar se a pessoa sabe
como utilizar uma determinada sentença? Com efeito, nós falamos acerca das
significações das sentenças aparentemente da mesma maneira como falamos das
significações das palavras que nela figuram. Portanto, se conhecer (knowing) a
significação de uma palavra é saber (knowing) como vtilizá-la, poderíamos esperar
que conhecer a significação de uma sentença fosse também saber como utilizar
a sentença. E, no entanto, isso evidentemente não funciona.
Uma cozinheira utiliza sal, açúcar, farinha, feijão e toicinho ao fazer uma
torta. Ela utiliza os ingredientes, e talvez os utilize mal (misuses). Mas ela não
utiliza, dessa mesma maneira, a própria torta. A sua torta não é um ingrediente.
De maneira um tanto diferente, uma cozinheira utiliza, e talvez utilize mal, um
rolo de massa, um garfo, uma frigideira e um forno. Esses são os utensílios com
os quais ela faz a sua torta, Mas a torta não é um outro utensílio. A torta é
composta (bem ou mal), por intermédio dos utensílios, a partir dos ingredientes.
Foi para ela que a cozinheira os utilizou. Mas a torta não pode ser classificada
em nenhuma dessas duas classes. De maneira mais ou menos análoga (mas apenas
mais ou menos análoga), uma sentença é construída (bem ou mal) a partir de
palavras. É para ela que o locutor ou o escritor as utiliza. Ele a compõe a partir
delas. A sua sentença, contudo, não é, ela própria, algo que, no mesmo sentido,
ele utiliza ou utiliza mal (misuses), utiliza ou não utiliza. A sua composição não
é um componente de sua composição. Podemos pedir a uma pessoa que diga
alguma coisa (por exemplo, que faça uma pergunta, que dé uma ordem ou que
conte uma anedota) utilizando uma determinada palavra ou uma frase específica.
E essa pessoa saberá o que é que estamos lhe pedindo que faça. Mas se lhe
dissermos simplesmente que pronuncie ou que escreva, ela própria, a palavra ou
a frase especificada, ela perceberá a diferença entre essa ordem c a anterior. Com
efeito, nesse segundo caso, não se está dizendo a ela que utilize, isto é, que
incorpore a palavra ou a frase, mas apenas que a pronuncie ou que a escreva.
As sentenças são coisas que nós dizemos. As palavras e as frases são aquilo com
que dizemos coisas.
Pode haver dicionários de palavras e dicionários de expressões /phrases),
mas não pode haver dicionários de sentenças. E isso não porque tais dicionários
deveriam ser infinitamente longos e, por conseguinte, impraticavelmente longos.
Ao contrário, é porque eles não poderiam nem mesmo começar. As palavras e
us frases estão aí, ao alcance de todos, para que as pessoas delas disponham
quando querem dizer coisas. Mas os atos de dizer (the sayings of) essas coisas
não são outras tantas coisas a mais que estão aí, na gaveta, para que as pessoas
delas disponham quando desejam dizer essas mesmas coisas. Esse fato de que as
palavras e as frases podem ser mal utilizadas (misused), ao passo que as sentenças
LINGUAGEM ORDINÁRIA 53
não o podem, dado que essas últimas simplesmente não podem, no mesmo sen-
tido, ser utilizadas, é perfeitamente compatível com o importante fato de que as
sentenças podem ser bem ou mal construídas. Podemos dizer coisas de mancira
inábil ou não gramatical, assim como podemos dizer coisas que, embora grama-
ticalmente apropriadas, não fazem sentido.
Segue-se daí que existem algumas diferenças radicais entre aquilo que se
entende por significação de uma palavra ou de uma frase” e aquilo que se entende
por “significação de uma sentença”. Compreender uma palavra ou uma frase é
saber como utilizá-la, isto é, saber como fazê-la desempenhar o seu papcl numa
ampla gama de sentenças. Compreender uma sentença, ao contrário, não é saber
como fazê-la desempenhar o seu papel. O próprio ato de utilizar não é algo que
tenha um papel (The play has not got a rôle).
Estamos tentados a supor que a pergunta: de que maneira as significações
de palavras (word-meanings) se relacionam com as significações sentenciais (sen-
tence-meanings)?, embora traiçoeira, é uma pergunta legítima, talvez um tanto
semelhante à pergunta: de que maneira o poder aquisitivo do meu xelim se rela-
ciona com o poder aquisitivo dos conteúdos do meu envelope de pagamento?
Esse modelo, todavia, subverte as coisas desde o início.
Se eu conheço a significação de uma palavra ou de uma frase, conheço
algo como um corpo de regras não escritas ou algo como um código não escrito
ou uma receita geral. Aprendi a utilizar corretamente a palavra em questão numa
variedade ilimitada de diferentes contextos. Aquilo que sei é, sob esse aspecto,
um tanto semelhante àquilo que sei quando sei como utilizar um cavalo ou um
pcão no xadrez. Aprendi a fazê-la executar o seu trabalho em qualquer ocasião
e em qualquer lugar, se é que existe um trabalho para ela executar. No entanto,
a idéia de fazer uma sentença executar o seu trabalho em qualquer ocasião e em
qualquer circunstância é uma idéia fantasiosa. Uma sentença não adquire uma
função (rôle) que ela possa desempenhar muitas vezes em jogos diferentes. Ela
simplesmente não adquire nenhum papel, assim como tampouco um jogo tem
um papel. Saber o que ela significa não é saber nada que se assemelhe a um
código ou a um corpo de regras, embora exige conhecer os códigos ou as regras
que governam a utilização das palavras ou frases que a constituem. Existem regras
e receitas gerais para construir sentenças de determinados tipos, mas não existem
regras ou receitas gerais para construir a sentença particular, “hoje é segunda-
feira”. Conhecer a significação de “hoje é segunda-feira” não é conhecer regras,
códigos ou receitas gerais que governem a utilização dessa sentença, visto que
não há nada que seja a utilização dessa sentença nem, portanto, nada que seja
a sua reutilização. Eu presumo que isso esteja ligado ao fato de que as sentenças
ec as cláusulas fazem ou não fazem sentido (sense), ao passo que as palavras não
fazem nem deixam de fazer sentido, apenas tendo significações (meanings), es-
tando também ligado ao fato de que pretensas sentenças podem ser absurdas
ou sem sentido (nonsensical), ao passo que pretensas palavras não são nem absur-
das nem sem sentido, mas apenas sem significação (meaningless). Posso dizer
coisas estúpidas, mas as palavras não podem ser nem estúpidas nem não estúpidas.
Filosofia e linguagem ordinária
A voga da frase 'a utilização da linguagem ordinária” parece sugerir a algu-
mas pessoas a idéia de que existe uma doutrina filosófica segundo a qual (a)
todas as investigações filosóficas se ocupam com termos vernaculares, por oposi-
ção a termos mais ou menos técnicos, acadêmicos ou esotéricos; e (b), em conse-
qlência, todas as discussões filosóficas devem, elas próprias, exprimir-se inte-
54 RYLE
gralmente em expressões vernaculares. A inferência é falaciosa, embora exista
alguma verdade na sua conclusão. Mesmo se fosse verdade — o que não é O
caso — que todos os problemas filosóficos se referem a conceitos não técnicos
(isto é, se referem ao modo de emprego de expressões vernaculares), não se
seguiria dessa (falsa) premissa que as discussões desses problemas devessem ser
feitas ou fossem mais adequadamente feitas no inglês, francês ou alemão dos
homens da rua.
Do fato de que um filósofo estuda as palavras inglesas que derivam de raízes
célticas não se segue que ele deva dizer, ou que ele faria melhor em dizer o que
tem a dizer acerca delas em palavras de origem céltica. Do fato de que um psi-
cólogo está examinando a psicologia dos ditos jocosos não se segue que ele deva
sempre ou sequer algumas vezes escrever jocosamente. Ao contrário, é claro que,
na maior parte das vezes, ele não deve escrever jocosamente.
Na realidade, a maioria dos filósofos empregaram efetivamente um grande
número de termos técnicos da teoria lógica, passada ou contemporânea. Pode-
riamos desejar, às vezes, que tivessem adotado um pouco mais de parcimônia,
mas não os censuramos por terem lançado mão desses expedientes técnicos. Ao
contrário, deploraríamos os seus intermináveis cincunlóquios se eles tivessem
tentado trabalhar sem tais expedientes.
Escravizar-se a um jargão herdado ou inventado, entretanto, constitui, sem
dúvida, um defeito para qualquer escritor, quer se trate ou não de um filósofo.
Essa escravização reduz o número de pessoas capazes de compreender e de cri-
ticar os seus escritos, de sorte que ela tende a fazer com que o próprio pensamento
do autor caia numa rotina privada. A utilização de jargões dispensáveis constitui
péssimas maneiras literárias e má política pedagógica, prejudicando, ao mesmo
tempo, os próprios talentos do pensador.
Mas isso não é peculiar à filosofia. Burocratas, juízes, teólogos, críticos lite-
rários, banqueiros e — talvez mais do que todos — sociólogos e psicólogos seriam
bem mais avisados, todos eles, se tentassem com afinco escrever em termos chãos
e diretos. Apesar disso, contudo, Hobbes, que possuía essa virtude de escrever
em termos chãos e diretos, foi um filósofo menor do que Kant, que não a possuía.
E os últimos diálogos de Platão, embora sejam de tradução mais difícil, têm
virtudes que não se encontram nos seus primeiros diálogos. Por outro lado, a
simplicidade do modo de expressão de Mill não basta para nos levar a preferir
a sua explicação da matemática à Rxplicação apresentada por Frege, cujo modo
de expressão é mais esotérico.
Em suma, não existe, imposta aos filósofos, nenhuma obrigação a priori
ou específica que os proíba de falar esotericamente. Existe, porém, uma obrigação
geral, válida para todos os pensadores e escritores, de tentar escrever de maneira
tão vigorosa e tão simples quanto possível. Por outro lado, no entanto, o caráter
direto da expressão e o vigor do pensamento são virtudes que podem variar inde-
pendentemente uma da outra, embora isso não seja muito comum.
Diga-se de passagem que seria tolice exigir que a linguagem das revistas pro-
fissionais fosse tão esotérica quanto a linguagem dos livros. É legítimo esperar
que os colegas utilizem e compreendam entre si os termos do ofício. Os livros,
entretanto, não são escritos apenas para os colegas. O juiz não deveria endereçar
aos membros do júri a linguagem que ele pode endereçar aos seus colegas. Algu-
mas vezes, inclusive (mas apenas algumas vezes), ele seria mais avisado se ende-
reçasse mesmo aos seus colegas juízes e a si próprio a linguagem que dirigiria ao
júri. Tudo dependerá de saber se os seus termos técnicos se revelam um auxílio
ou um obstáculo. É provável que tais termos constituam um obstáculo quando
eles são reminiscências de uma época na qual as questões de hoje não foram
LINGUAGEM ORDINÁRIA
RPA]
o)
sequer consideradas. E isso que justifica as regulares ec salutares rebeliões dos
filósofos contra os jargões filosóficos dos seus predecessores.
Há uma outra razão pela qual os filósofos deveriam, algumas vezes, evitar
os termos técnicos empregados por outras pessoas. Mesmo quando um filósoto
está interessado em alguns conceitos fundamentais da teoria física, por exemplo.
ele estará, de hábito, parcialmente interessado em anunciar as reciprocas interfe-
fências (cross-bearings) existentes entre os conceitos dessa teoria ec Os conceitos
da teoria matemática, teológica, biológica ou psicológica. Com muita frequência.
o seu problema (puzzle) radical consiste em determinar essas interferências reci-
procas c cruzadas. Quando está tentando resolver quebra-cabeças desse po, cle
não poderá empregar ingenuamente as formas de expressão (dictions) de uma ou
outra das teorias cm questão. Ele deverá manter-se aquém de ambas as teorias,
examinando os conceitos de ambas em termos que não constituam propriedade
específica de nenhuma delas. Ele poderá inventar expressões neutras próprias.
mas, para facilitar a comunicação, poderá também preferir as expressões de todo
mundo. Essas últimas possuem a neutralidade requerida, mesmo se não pos-
suem aquela semicodificação que disciplina os termos de ofício do pensamento
profissionalizado. Os termos comerciais do cotidiano não são tão bem controla-
dos como os termos de um escritório de contabilidade. Mas, quando precisamos
determinar as taxas de câmbio entre diferentes mocdas, é bem possível que seja
a termos de comércio cotidiano que deveremos recorrer. As negociações interteó-
ricas podem ser conduzidas e é possível que devam ser conduzidas em termos
(dictions) pré-teóricos.
Até aqui, espero ter estado pacificando e não provocando. Quero agora
dizer duas coisas filosoficimente contenciosas.
(a) Há uma razão pela qual os filósofos, ao contrário de outros profissionais
e especialistas, estão constantemente rejeitando in roto todos OS termos técnicos
dos seus próprios predecessores (salvo alguns termos técnicos da lógica formal).
Isto é, há uma razão especial pela qual os termos de jargão da epistemologia, da
ética, da estética, etc., parecem dotados apenas de uma fraca resistência anual e
não de uma resistência perene. A razão é u seguinte. Os entendidos (experts)
que utilizam os termos técnicos do bridge, do direito, da química e do encana-
mento aprendem a empregar esses termos em parte através de instruções oficiais.
mas, cm maior medida, mediante um engajamento direto nas técnicas específicas
c por tratarem diretamente com os materiais e objetos específicos das suas espe-
clalizações respectivas. Eles se familiarizam com o arreio por serem obrigados
a dirigir Os seus cavalos (que, para nós, são pouco familiares).
Os termos técnicos da própria filosofia, contudo, com exceção dos da lógica
tormal, não são como esses. Não existe nenhum campo específico de conheci-
mento ou de competência em gue os filósofos se tornem ex officio entendidos
(experts), exceto, é claro, o ofício mesmo do filosofar. Nós sabemos quais são os
tipos específicos de trabalho mediante os quais se adquire o domínio dos con-
cenos de fimesse, de delito civil, de sulfanilanida e de colocar uma válvula. Mas
é mediante quais tipos correspondentemente específicos de trabalho que os tilo-
sofos udquirem O seu suposto domínio correspondente dos conceitos de Cognição,
de Sensação, de Qualidude Secundária c de Essências” Que exercicios e que
situações os forçaram a aprender como utilizar e como não utilizar mal (nisuse)
UESCS termos”?
Mais cedo ou mais tarde, os argumentos filosóficos que dependem desses
termos tendem a começar a girar no vazio. Não há nada que os faça apontar
para o norte em vez de apontar para o nor-noroeste. O jogador de bridge não
56 RYLE
pode brincar impunemente com os conceitos de finesse c de não reconhecer o naipe
(revoke). Se gle tenta tazé-los funcionar da maneira que lhe upetecer, eles se
rebelarão. Sob esse aspecto capital, os termos informais (unofficial) do discurso
cotidiano são como os termos oficiais das especializações. Também eles sc rebe-
lam quando maltratados. Ássim como não é possívet dizer que aquele que jogou
a primeira carta, numa partida de bridge, não reconheceu o naipe (has revoked),
assim também não é possível dizer que alguém sabe que alguma coisa é O caso
quando não é assim. Fomos obrigados a aprender na dura escola da vida diúris
como conjugar (deploy) o verbo “saber”. E fomos obrigados u aprender na mesa
de bridge como desenvolver (deploy) o verbo 'não reconhecer o naipe” ('revoke').
Ora, não existe nenhuma dura escola desse gêncro na qual tenhamos aprendido
como expor os verbos “inteligir (cognize') e 'sentir' (sense). Esses verbos cxe-
cutarão quaisquer movimentos que deles queiramos exigir, o que significa que
cles simplesmente não adquiriram nenhuma disciplina que lhes seja própria.
Assim, os argumentos filosóficos, os quais se acredita conjugarem verbos desse
tipo, não vencem nem perdem batalhas, dado que esses verbos não incorporam
em si próprios nenhuma batalha. Por conseguinte, o apelo ao jargão filosófico para
expressões que todos nós fomos obrigados a aprender como utilizar apropriada-
mente (assim como o jogador de xadrez foi obrigado a aprender os movimentos
das suas peças). constitui, muitas vezes, um apelo que vale a pena fazer, do passo
que o apelo correspondente para o vocabulário de todo o mundo, a partir do
modo de expressão oficial (the official parlance) de uma ciência, de um jogo ou
do direito, seria, muitas vezes, se não sempre, um apelo ndículo. Um dos con-
trastes de “ordinário” (na frase “linguagem ordinária”) é “jargão de filósofo”.
(b) Passemos agora, porém, a um ponto bem diferente, de considerável rele-
vância contemporânea. Apelar para o que dizemos e não dizemos ou para o que
podemos e não podemos dizer é algo que encontra, muitas vezes, sótidas resis-
tências por parte dos defensores de uma doutrina específica, sendo, 4o mesmo
tempo, solidamente defendido pelos que a cla se opõem. A doutrina é aquela
segundo à qual as disputas filosóficas podem c devem ser resolvidas mediante a
tormalização das teses em conflito. Uma teoria é formalizada quando el é tra-
duzida da linguagem natural (não técnica, técnica ou semitécnica), na qual a
teoria foi originalmente concebida, para uma notação construída deliberadamente.
por exemplo, para a notação dos Principia Mathematica. Pretende-se que a lógica
de uma determinada posição teórica pode ser regularizada quando os seus con-
ceitos não formais são introduzidos entre as constantes lógicas neutras quanto ao
tópico (topic-mentral) cuja conduta em inferências é regulada por sulcos fixos.
A formalização substituiria, então, as perplexidades lógicas por problemas lógicos
redutíveis a procedimentos de cálculo conhecidos e capazes de ser ensinados.
Assim, um dos contrastes de “ordinário” (na frase “linguagem ordinária) é nota-
cional.
Dentre aqueles para os quais este sonho — o sonho do formalizador — não
parece muis do que um sonho (e eu me encontro entre esses), alguns sustentam
que a lógica dos enunciados cotidianos, e que mesmo à lógica dos enunciados
dos cientistas, dos juristas, dos historiadores v dos jogadores de bridge, não podeni,
em princípio, ser adequadamente representadas pelas fórmulas da lógica formal.
As chamadas constantes lógicas efetivamente possuem, em parte por deliberada
prescrição, os poderes lógicos que lhes foram fixados. Mas as expressões não
formais, tanto do discurso cotidiano quanto do discurso técrico, possuem os seus
próprios poderes lógicos que não foram deliberadamente planejados, e esses não
são redutíveis, sem resíduos, aus poderes lógicos das marionetes cuidadosamente
controladas fwired) da lógica formal, O titulo de uma novela escrita por A. E.
4]
na |
LINGUAGEM ORDINÁRIA
W. Mason: Thex Wouldn't be Chessmen, se aplica muito bem tanto às expressões
técnicas quanto às expressões não técnicas da vida profissional e cotidiana. Isso
não signitica dizer que o exame do comportamento lógico dos termos do discurso
não notacional não encontra auxílio em estudos de lógica formal. E evidente que
é o contrário que ocorre. Da mesma mancira, jogar xadrez pode auxiliar aos
generais, embora empreender campanhas não possa ser substituído peta disputa
de partidas de xadrez.
Não pretendo discutir aqui essa questão importante. Quero apenas mostrar
que u resistência a um certo tipo de apeto à linguagem ordinária deveria envolver
a defesa do programa de formalização. *Voltemos à linguagem ordinária” (Back
to ordinary language") pode ser (mas muitas vezes não é) o lema daqueles que
despertaram do sonho do formalizador. Esse lema, assim utilizado, deveria ser
repudiado somente por aqueles que têm a esperança de substituir o filosofar pelo
cálculo (reckoning).
Veredito
Mas, afinal de contas, a filosofia tem ou não tem alguma coisa a ver comi
a utilização das expressões? Perguntar isso significa simplesmente perguntar sc as
discussões conceituais, isto é, as discussões acerca, por exemplo, dos conceitos
de voluntariedade, de infinitesimuais, de mimero ou de casa, se cncontram sob
a rubrica das discussões filosóficas. E claro que sim. Elas sempre estiveram aí e
c não deixaram de aí estar hoje em dia.
Sabsr se ganhamos mais do que perdemos em noticiar diligentemente o fato
de que aquilo que estamos investigando é à maneira canônica de operar comi
a palavra “causa”, por exemplo, é algo que dependerá, em larga medida, do
contexto da discussão e dos hábitos intelectuais das pessoas com quem estamos
discutindo o problema, Trata-se, sem dúvida, de uma forma laboriosa de anunciar
aquilo que estumos fazendo, e us aspas, certamente, sempre são aflitivas para
os olhos. Por outro lado — e isto é bem mais importante do que esses incômodos
—, à preocupação com questões acerca dos métodos tende a nos distrair do cxer-
cício dos próprios métodos. Em regra geral, nós corremos pior e não melhor sc
começamos a refletir muito sobre os nossos pés. Assim, pelo menos em dias
alternados, falemos em vez de nos limitar apenas a investigar o conceito de
causação. Ou, melhor ainda, não vamos, nesses dias, falar dele, mas simplesmente
exercê-lo.
Esse idioma mais laborioso, contudo, possui algumas imensas vantagens
compensatórias. Se estamos investigando problemas relativos à percepção, isto é.
examinando questões acerca dos conceitos de ver, de ouvir e de cheirar, pode-se
pensar que estamos tentando resolver os problemas dos oftaimologistas, dos neu-
rofisiologistas ou dos psicólogos. É possivel até que nos mesmos cometamos esse
erro. E uma medida salutar, então, a de continuar lembrando u nós mesmos «
uns dos outros que aquilo que estamos buscando são explicações de como certas
palavras operam, a sabzr, palavras como “ver”, “olhar”, “inspecionar”, “cego”, 'visua-
lizar” e inúmeras outras Expressões aparentadas.
Um ultimo ponto. Estive falando, neste artigo, cm termos geritis à respeito
de aprender c de descrever os modos de emprego de certas expressões. Tais
modos, no entanto, possuem várias dimensões diferentes c apenas algumas delas
têm interesse para os filósofos. Diferenças de elegância estilística, de força de
persuasão retórica e de propriedade social são diferenças que devem ser consi-
deradas, mas não pcios filósofos, exceio per accidens. Churchill teria cometido
um grave deslize retórico se, em lugar de "Nos os combateremos nas praias...
58 RYLE
tivesse dito "Nós os combateremos nas areias... “Areias teria despertado a ideia
de feriados infantis em Skegness. Mas esse de emprego impróprio (misemployment)
de “areias” não configura o tipo de manipulação imprópria (mishandling) que nos
interessa. Estamos interessados na lógica informal do emprego das expressões.
na natureza dos equívocos lógicos que às pessoas cometem ou poderiam cometer
se elas alinhassem as suas palavras de determinadas maneiras, Ou, Mais positi-
vamente, na força lógica que as expressões possuem enquanto componentes de
teorias e enquanto centros (pivots) de argumentos concretos. Essa é a razão pela
qual. nas nossas discussões, nós argumentamos, a um SO tempo, com expres-
sões v acercu dessas expressões. Estamos tentando registrar aquilo que estamos
exibindo; estamos tentando codificar os próprios códigos lógicos que, de imediato,
já estamos observando.
A TEORIA DA SIGNIFICAÇÃO *
Todos nós utilizamos a noção de significação. Desde o momento em que
começamos a aprender a traduzir do português para o francês é do francês para
o português, damo-nos conta de que uma expressão significa ou não o mesmo
que uma outra. Na verdade, contudo, já utilizamos a noção de significação
ainda antes disso. Quando lemos ou escutamos, na nossa própria lingua, alguma
coisa que não compreendemos, queremos saber o que ela significa é pedimos
que à sua significação nos seja explicada. As idéias de compreender, compreen-
der mal e não conseguir compreender aquilo que. é dito já contém a noção de
expressões que têm ou não significações especificáveis.
Uma coisa, no entanto, é perguntar, como uma criança poderia faze-lo: o
que é significado (a supor que alguma coisa o seja) por vitamina, abracadabra
ou por (a + bP= e + b7 4 2ab? Outra coisa, e bem diferente, é perguntar:
que são significações? Da mesma maneira, uma coisa é perguntar, como uma
criança poderia faze-lo: o que posso comprar com este xelim?, e outra coisa.
bem diferente, perguntar: que é poder aquisitivo? ou: que são valores de cambio”?
Ora, nas últimas décadas, respostas a esta pergunta altamente abstrata: que
são significações? se avolumaram grandemente em discussões filosóficas c lógi-
cas. A preocupação com a teoria da significação poderia ser descrita como a
doença profissional da filosofia anglo-saxônica e austríaca do século NX. Não
precisamos nos preocupar em saber se se trata ou não de uma doença. Poderia
ser útil, porém, examinar os motivos e principais resultados dessa preocupação.
Vale a pena assinalar, incidentalmente, que muitas dessas questões foram
explicitamente investigadas — e algumas delas conclusivamente resolvidas —.
em alguns dos últimos Diálogos de Platão e nos trabalhos lógicos e em outros
trabalhos de Aristóteles. Algumas delas, além disso, constituíram problemas do-
minantes na alta Idade Média e, bem mais tarde, ainda em Hobbes. Algumas
delas. grosseira ou delicadamente veladas pela terminologia psicológica das
idéias, se agitaram incomodamente no interior da epistemologia Inglesa entre
Locke e John Stuart Mill. Eu não discutirci aqui, entretanto, exceto através de
uma ou duas referências retrospectivas, a história mais antiga dessas questões.
O lojista, o freguês, o banqueiro c o comerciante não sofrem, de ordinário,
nenhuma pressão intelectual para responder ou sequer levantar as perguntas
abstratas: o que é poder aquisitivo? e: que são valores de câmbio? Eles estão
interessados nos preços das coisas, mas não ainda na pergunta abstrata: qual É a
lHradução do original inglês: “The Theory of Meaning” publicado dr Bririsho Philosophy
in de Atid-Century, por CA. Mace, George Allen & Unwin, Londres, 1957, pp. 239-26-.
6U RYLE
natureza real daquilo que é comum a dois artigos do mesmo preço? De maneira
análoga, a criança que tenta seguir uma conversa a respeito de um tópico des-
conhecido, bem como o tradutor que tenta traduzir Tucídides para o português,
estão interessados naquilo que certas expressões significam. Mas não estão ne-
cessariamente interessados nas questões abstratas: o que é, para uma expressão,
ter uma significação? ou: qual é a natureza e o estatuto daquilo de que uma
expressão e a sua tradução ou paráfrase são os veículos? A partir de que tipo
de interesse, então, nós viemos a levantar esse tipo de pergunta? Existem muitas
respostas, sem dúvida. Eu me concentrarei em duas delas, que chamarei de Teo-
ria da Lógica e Teoria da Filosofia. Ocuparei um tempo bastante longo com a
primeira e menos com a segunda.
(1) 4 Teoria da Lógica — Ao estudar as regras de inferência, o lógico é
obrigado a falar dos componentes dos argumentos, a saber, de suas premissas e
conclusões, devendo deles falar em termos perfeitamente gerais. Mesmo quando
menciona premissas e conclusões concretas, cle o faz apenas para ilustrar as
generalidades que constituem o seu interesse próprio. Da mesma maneira, ele
será obrigado a examinar os tipos de componentes separáveis ou os tipos de
aspectos distinguíveis dessas premaissas-tipo e dessas conclusões-tipo, visto que
é em torno desses componentes ou aspectos das premissas e conclusões que,
algumas vezes, giram as inferências feitas a partir daquelas e para estas.
Ora, um mesmo argumento pode ser expresso em português ou em francês,
ou em qualquer outra língua. E, se for expresso em português, pode ainda haver
inúmeras maneiras diferentes de exprimi-lo em palavras. Aquilo que o lógico
explora pretende ser indiferente a essas diferenças de expressão verbal. Ele
está interessado naquilo que é dito por uma sentença-premissa ou por uma sen-
tença-conclusão, e não em como é expresso em palavras.
Assiri, se não no exercício da sua investigação, pelo menos nas suas expli-
cações à respeito do que está fazendo, o lógico é obrigado a declarar que o seu
objeto não consiste nas sentenças e nas palavras que as compóem, nas quais
Us argumentos são expressos, mas nas proposições ou juízos e nos seus ter-
mos, Idéias ou conceitos constituintes, de que as sentenças e as palavras são os
veiculos. Algumas vezes, ele poderá dizer que o seu objeto consiste nas signifi-
cacões-de-sentença e nas sigmificações-de-palavra ou significações-de-frase que
compõem as primeiras, embora esse modo de falar seja instrutivamente repulsivo.
Por que é repulsivo, é algo que espero possamos ver mais adiante. Assim, ao
oferecer esse tipo de explicação do seu ofício, o lógico está falando acerca de
significações, ao passo que, no exercício desse ofício, ele está simplesmente tra-
balhando sobre elas.
Dentro dos nossos objetivos, estaremos suficientemente próximos da ver-
dade se dissermos que a primeira discussão influente, relativa à noção de signi-
ficacão, a ser apresentada por um lógico moderno, foi aquela com a qual John
Stuart Mill iniciou o seu System of Logic (1843). Ele reconhece dever muito a
Hobbes e aos escolásticos, mas não é necessário reconstituir aqui os detalhes
desses empréstimos.
As contribuições de Mill à lógica formal ou simbólica foram despreziveis.
Não foi ele, mas os seus contemporâneos exatos, Boole e de Morgan, bem como
os seus sucessores imediatos, Jevons, Venn, Carrol, McColl e Peirce que, no
mundo de língua inglesa, prepararam o caminho para Russell. Por outro lado,
entretanto, é difícil exagerar a influência que Mill exerceu, para melhor e para
pior, sobre os filósofos ingleses e continentais. E, na medida em que eles filo-
sofaram acerca do seu próprio ofício técnico, deveremos também incluir os ló-
TEORIA DA SIGNIFICAÇÃO 61
gicos simbólicos entre tais filósofos. A teoria da significação desenvolvida por
Mill, em particular, fixou as perguntas e, em larga medida, determinou também
as respostas a elas para pensadores tão diferentes como Brentano, na Áustria;
Meinong e Husserl, que foram alunos de Brentano; Bradley, Jevons, Venn, Fre-
ge, James, Peirce, Moore e Russell. Esse feito extraordinário foi devido, princi-
palmente, ao fato de que Mill foi original simplesmente em ter produzido uma
doutrina da significação. A doutrina que produziu exerceu imediata influência,
em parte porque uma doutrina se fazia necessária e em parte porque as suas
inconsistências eram transparentes. Quase todos os pensadores que arrolei se
encontravam veementemente opostos a certas partes da doutrina de Mill e, com
fregiiência, foi de outras partes dessa mesma doutrina que eles tiravam as suas
armas mais eficientes.
Mill, seguindo a direção de Hobbes, inicia a sua elucidação da noção de
significação considerando palavras isoladas. Assim como somos obrigados a
aprender o alfabeto antes de podermos começar a soletrar, assim também parecia
natural supor que as significações das sentenças são compostos dos componentes,
os quais são: as significações das palavras que compõem as sentenças. As signi-
ficações das palavras são átomos, as significações das sentenças são moléculas.
Afirmei que essa suposição parecia natural, mas espero estar logo em condições
de satisfazer ao leitor, mostrando que se tratava de um ponto de partida tragica-
mente falso. Em seguida, ainda adotando a direção de Hobbes, Mill toma por
admitido que todas as palavras ou que quase todas elas são nomes, suposição
que, à primeira vista, parece muito tentadora. Sabemos o que significa, para
Fido, ser o nome de um cachorro particular e o que significa, para Londres, ser
o nome de uma cidade particular. Na nossa frente está o cachorro ou a cidade
que tem o nome e, assim, temos a impressão de que não há nenhum mistério
aqui. Temos aqui simplesmente a relação familiar entre uma coisa e o seu nome.
A assimilação de todos ou da maioria das demais palavras isoladas a nomes nos
dá, em consegiência, um sentimento confortável. Imaginamos saber onde esta-
mos. O cachorro à nossa frente é aquilo que a palavra Fido representa (stands
for), a cidade que visitamos ontem é aquilo que a palavra Londres representa
(stands for). Assim, a classificação de todas ou da maioria das palavras isoladas
como nomes nos dá a impressão de que aquilo que uma palavra significa é, em
todos os casos, alguma coisa controlável de que aquela palavra é o nome. As
significações, pelo menos as significações das palavras, não são nada de abstruso
ou distante, elas são, prima facie, coisas e acontecimentos ordinários como ca-
chorros, cidades e batalhas.
Mill vai ainda mais longe. Algumas vezes, o sujeito gramatical de uma
sentença não é uma palavra única, mas uma frase com várias palavras, como
o atual primeiro-ministro ou o primeiro homem a atingir o topo do monte Eve-
rest. Mill não tem nenhuma hesitação em classificar também como nomes ex-
pressões complexas como essas, que ele chama de nomes com várias palavras.
Não existem nomes próprios para todas as coisas acerca das quais queremos
falar e, às vezes, desejamos falar acerca de algo ou de alguém cujo nome próprio,
embora exista, nos é desconhecido. Assim, nós forjamos frases descritivas para
executar o trabalho dos nomes próprios. Mas ainda são nomes, segundo Mill,
embora a interpretação dessa asserção, que é a mais sedutora e que de fato
prevalece, difere, sob importantes aspectos, daquilo que Mill habitualmente pre-
tendia comunicar. Com efeito, quando Mill chama uma palavra ou uma frase
de nome, ele não está utilizando ou nem sempre está utilizando nome no sentido
totalmente ordinário. Por vezes, ele afirma que, para que uma expressão seja
um nome, ela deve ser capaz de ser utilizada como o sujeito ou como o predi-
62 RYLE
cado de uma sentença de sujeito e predicado — o que admite, por exemplo,
adjetivos como nomes. Às vezes, Os seus requisitos são mais estritos. Um nome
é uma expressão que pode ser o sujeito de uma sentença de sujeito e predicado
— o que só admite substantivos, pronomes e frases substantivas. Para ele, nome
não significa simplesmente nome próprio. Mill resistiu, muitas vezes, às tenta-
ções a que ele próprio submeteu os seus sucessores.
Antes de prosseguir, quero fazer com que o leitor pelo menos suspeite de
que essa equação, inicialmente plausível, de palavras e frases descritivas com
nomes constitui, de início, um erro monstruoso — se, como alguns dos suces-
sores de Mill, embora não como o próprio Mill, interpretarmos sistematicamente
nome a partir do modelo de nome próprio. A suposição da verdade dessa equa-
ção tem sido responsável por um grande número de absurdos radicais na filosofia
em geral, e na filosofia da lógica, em particular. Foi um grilhão nos tornozelos
de Meinong, de que ele nunca se libertou. Foi também um grilhão nos tornozelos
de Frege, Moore e Russell que, mais cedo ou mais tarde, descobriram, todos eles,
que essa suposição, sem consideráveis retificações, conduziria inevitavelmente a
impasses fatais. Foi ainda, como ele próprio diz no seu último livro, um grilhão
nos tornozelos de Wittgenstein no Tractatus, embora ele tenha descoberto naquele
mesmo livro, não apenas a necessidade, mas também o meio de se libertar par-
cialmente dele.
Ainda não estou muito certo a respeito das razões pelas quais parece tão
natural supor que todas as palavras são nomes e, inclusive, supor que todo pos-
sível sujeito gramatical de uma sentença, seja ele constituído por uma só palavra
ou por várias, está para (stands to) alguma coisa assim como o nome próprio
Fido está para o cachorro Fido e, o que constitui um aspecto adicional, supor que
a coisa que ele representa (stands for) é aquilo que a expressão significa. Até
Platão se viu obrigado a lutar por descobrir uma saída para essa mesma suposi-
ção. Mas ele tinha, pelo menos, uma desculpa especial. A língua grega só tinha
uma palavra: ónoma, onde nós temos três: palavra, nome e substantivo. Em grego,
era difícil até dizer que o correspondente grego do nosso verbo é era uma palavra
e não um substantivo. O grego não oferecia a Platão nenhuma etiqueta para ver-
bos ou para advérbios, para conjunções, etc. Dizer que é é uma palavra, mas não
um nome nem um substantivo, seria algo extremamente difícil em grego, onde
ónoma fazia o papel tanto da nossa palavra palavra quanto de nome e, eventual-
mente, também da nossa palavra substantivo. Mesmo sem essa desculpa, entre-
tanto, as pessoas ainda acham natural assimilar todas as palavras a nomes, e as
significações das palavras aos portadores desses supostos nomes. É bem fácil,
contudo, demolir essa suposição.
Em' primeiro lugar, se toda palavra isolada fosse um nome, uma sentença
composta de cinco palavras — por exemplo: três é um número primo — seria
uma lista dos cinco objetos nomeados por essas cinco palavras. Uma lista, toda-
via, tal como: Platão, Aristóteles, Agostinho, Locke, Berkeley, não é uma senten-
ça. Ela não diz nada verdadeiro ou falso. Uma sentença, ao contrário, pode dizer
alguma coisa — uma só coisa — que seja verdadeira ou falsa. Assim, as palavras
combinadas numa sentença pelo menos fazem alguma coisa em conjunto que é
diferente do fato de separadamente nomearem as coisas variadas que elas no-
meiam, se é que nomeiam quaisquer coisas. Não é possível decompor aquilo que
uma sentença significa no conjunto de coisas que as palavras que nela ocorrem
representam (stands for), se é que de fato representam coisas. A noção de ter
significação é, por conseguinte, pelo menos parcialmente diferente da noção de
representar (stands for).
E mais. Posso utilizar as duas frases descritivas: a Estrela Matutina e a Es-
TEORIA DA SIGNIFICAÇÃO 63
trela Vespertina como maneiras diferentes de fazer referência a Vênus. Mas é bem
evidente que as duas frases são diferentes em significação. Seria incorreto traduzir
em francês a frase a Estrela Matutina por PEtoile du Soir. Mas se as duas frases
têm significações diferentes, então Vênus, o planeta que descrevemos mediante
essas duas descrições diferentes, não pode ser aquilo que essas frases descritivas
significam. Com efeito, ele, Vênus, é um só e o mesmo, ao passo que aquilo que
as duas frases significam (signify) é diferente. Como veremos logo a seguir, Mill
reconhece francamente esse ponto, concedendo a ele uma importante admissão
na sua teoria.
Além disso, é fácil forjar frases descritivas às quais absolutamente nada cor-
responde. A frase o terceiro homem a atingir o topo do monte Everest não pode,
atualmente, ser utilizada para fazer referência a ninguém. Ainda não existe nin-
guém a quem ela se aplique, e talvez jamais exista. No entanto, ela é certamente
uma frase significativa (significant), podendo ser traduzida para o francês ou para
o alemão. Nós sabemos, nós somos obrigados a saber o que ela significa quando
dizemos que ela não se aplica a nenhum alpinista vivo. Ela significa algo, mas
não designa alguém. O que ela significa não pode, por conseguinte, ser identifi-
cado a um alpinista particular. Nem, tampouco, pode a significação transmitida
pela frase a primeira pessoa a atingir o topo do monte Everest ser identificada
com Hillary, embora saibamos que ela se aplique a ele e a mais ninguém. Pode-
mos compreender a pergunta e até alimentar dúvidas nepalenses a respeito da
resposta da pergunta: foi Hillary a primeira pessoa a conquistar o monte Everest?,
ao passo que não poderíamos sequer compreender a pergunta: Hillary é Hillary?
Poderíamos chegar à mesma conclusão de maneira ainda mais direta. Se
Hillary fosse, per impossibile, idêntico ao que a frase o primeiro homem a atingir
o topo do monte Everest significa, seguir-se-ia daí que a significação de pelo me-
nos uma frase nasceu na Nova Zelândia, já respirou através de uma máscara de
oxigênio e foi condecorada por Sua Majestade. Isso é um absurdo (nonsense) evi-
dente. Significações de frases não são cidadãos da Nova Zelândia. Aquilo que é
expresso por uma frase portuguesa particular, assim como por qualquer pará-
frase ou tradução dela, não é alguma coisa com pulmões, com um sobrenome,
longas pernas e um rosto queimado de sol. Pessoas nascem e morrem e algumas
vezes usam botas; as significações não nascem e não morrem e jamais usam botas
— nem tampouco, aliás, andam descalças. A rainha não condecora significações.
A frase o primeiro homem a atingir o topo do monte Everest não perderá a sua
significação quando Hillary morrer, nem era, tampouco, destituída de significação
(meaningless) antes que ele tivesse atingido o cume.
Devemos assinalar, finalmente, que a maioria das palavras não são substan-
tivos; elas são, por exemplo, advérbios, verbos, adjetivos, preposições, conjunções
ou pronomes. Classificar como nome uma palavra que não é nem mesmo um
substantivo, entretanto, é algo que nos choca como intolerável no momento mes-
mo em que consideramos a questão. Como poderiam correu ou fregientemente
ou e ou bastante ser o nome de alguma coisa? Tais palavras não poderiam nem
mesmo ser o sujeito gramatical de uma sentença. Posso perguntar como se cha-
ma uma determinada condição econômica, uma qualidade moral ou um certo dia
da semana e receber como resposta inflação, escrúpulo ou sábado. De fato, nós
utilizamos a palavra nome para aquilo pelo qual alguma coisa é chamada, quer
se trate daquilo pelo qual uma pessoa ou um rio é chamado, quer se trate daquilo
pelo qual uma espécie, uma qualidade, uma ação ou uma condição é chamada.
Mas a resposta à pergunta como é chamado isto? deve ser um substantivo ou então
possuir a gramática de um substantivo. Não se pode responder a nenhuma per-
64 RYLE
gunta desse gênero mediante a apresentação do tempo de um verbo, de um ad-
vérbio, de uma conjunção ou de um adjetivo.
O próprio Mill admitia que algumas palavras, como é, fregiientemente, não,
de e o, não são nomes, mesmo na sua hospitaleira utilização de nome. Por si mes-
mas, elas não podem funcionar como sujeitos gramaticais de sentenças. Sua fun-
ção, tal como Mill erroneamente a descreve, consiste em auxiliar, de um modo
ou de outro, a construção de nomes compostos de várias palavras. Elas não no-
meiam coisas adicionais, sendo apenas auxiliares da nomeação multiverbal de
coisas. E, no entanto, elas certamente têm significações. E e ou têm significações
diferentes, e ou e o latim aut têm a mesma significação. Mill tinha consciência
de que nem sempre é verdade que, para que uma palavra signifique alguma coisa,
ela deve denotar alguém ou alguma coisa. A maioria dos seus sucessores, contudo,
não observou quão importante é esse ponto.
É um crédito ainda maior de Mill o fato de ter assinalado e ter feito par-
cialmente justiça ao ponto que observei acima, segundo o qual duas frases descri-
tivas diferentes podem, ambas, se aplicar à mesma coisa ou pessoa, de sorte que
a coisa ou pessoa a que ambas se aplicam ou — no seu infeliz modo de expressão
— que ambas nomeiam, não pode ser identificada a nenhuma (nem, é claro, a
ambas) das significações das duas descrições. As duas frases: o primeiro-ministro
anterior e o pai de Randolph Churchill se ajustam ambas a Sir Winston Churchill,
e somente a ele; mas elas não têm a mesma significação. Uma tradução francesa
de uma delas não seria uma tradução da outra. Poderíamos saber ou acreditar
que uma das descrições se ajusta a Sir Winston Churchill, embora ainda questio-
nando, ao mesmo tempo, se a outra também se aplica a ele. Do simples fato de
saber que Sir Winston foi primeiro-ministro não poderíamos inferir que Randolph
Churchill é seu filho, ou vice-versa. Qualquer uma delas poderia ser verdadeira
sem que a outra o fosse. As duas frases, por conseguinte, não podem veicular a
mesma informação.
Na verdade, Mill enfrentou esse ponto com a sua famosa teoria da denotação
e da conotação. A maioria das palavras e frases descritivas, segundo ele, fazem
duas coisas ao mesmo tempo. Elas denotam as coisas ou pessoas de que elas são,
como ele afirma de maneira bastante infeliz, os nomes. Mas elas também conotam
ou significam (signify) os atributos simples ou complexos, mediante cuja posse a
descrição se aplica à coisa ou pessoa denotada. A palavra de Mil conotar foi uma
palavra extremamente mal escolhida, tendo induzido a erro não somente aos su-
cessores de Mill, mas ao próprio Mill. A sua palavra denotar era utilizada por ele
de uma maneira que estava longe de ser uniforme, o que fez com que ele não se
comprometesse com certas consegiiências das quais alguns dos seus sucessores,
que a utilizaram de forma menos equívoca, não conseguiram se desvencilhar. Para
Mill, os nomes próprios denotam os seus portadores, mas as expressões predica-
tivas denotam também aquilo de que elas podem ser predicadas com verdade.
Fido é denotado por Fido, mas também o é por cachorro e por quadrúpede.
* Assim, perguntar pela função de uma expressão significa, na demonstra-
ção de Mill, levantar uma dupla pergunta. Significa perguntar: qual pessoa ou
quais pessoas, coisa ou coisas a expressão denota?, em uma ou outra das utili-
zações que Mill faz desse verbo — talvez Sir Winston Churchill —; mas sig-
nifica também perguntar: quais são as propriedades ou características pelas quais
a coisa ou a pessoa é descrita? — por exemplo, a de ter gerado Randolph Chur-
chill. Dado que uma coisa ou uma pessoa pode ser descrita de diferentes ma-
neiras, as várias descrições ia serão diferentes em conotação, embor a ainda
SRA DBecam idêntico as vip denotam las caraeneisano Pe
TEORIA DA SIGNIFICAÇÃO 65
informação ou de má informação acerca da mesma coisa, pessoa ou aconte-
cimento.
O próprio Mill afirma, virtualmente, que, de acordo com a nossa noção
ordinária e natural de significação, não seria apropriado dizer que Sir Winston
Churchill, por exemplo, é a significação de uma palavra ou de uma frase. Por
significação nós não entendemos, habitualmente, a coisa denotada, mas apenas
aquilo que é conotado. Isto é, Mill virtualmente alcança as conclusões corretas
de que a significação de uma expressão nunca é a coisa ou a pessoa a que se
faz referência por seu intermédio e de que as frases descritivas e, com uma única
exceção, as palavras isoladas jamais são nomes no sentido de nomes próprios.
A exceção é fornecida, justamente, por aquelas poucas palavras que realmente
são nomes próprios, isto é, palavras como Fido e Londres, palavras essas que
não aparecem em dicionários.
Além disso, Mill captou um importante ponto adicional a respeito desses
genuínos nomes próprios. Ele afirmava que, ao passo que a maioria das palavras
e as frases descritivas denotam ou nomeiam e conotam ao mesmo tempo, os
nomes próprios só denotam e não conotam. Um cachorro pode ser chamado de
Fido, mas a palavra Fido não comunica nenhuma informação ou má informação
acerca das qualidades do cachorro, da sua ocupação, ou do seu paradeiro, etc.
Não é possível (para ampliar essa observação) parafrasear a palavra Fido nem
traduzi-la correta ou incorretamente para o francês. Os dicionários não nos di-
zem o que é que os nomes próprios significam — pela simples razão de que
eles não significam coisa nenhuma. A palavra Fido nomeia ou denota um cão
em particular, visto que ele assim se chama. Mas não há nenhuma possibilidade,
para uma pessoa que escuta a palavra Fido, de compreendê-la ou de compre-
endê-la mal ou de não conseguir compreendê-la. Não há nada a respeito de
que possa pedir uma elucidação ou uma definição. Da informação de que Sir
Winston Churchill foi primeiro-ministro, segue-se um certo número de informa-
ções, como, por exemplo, de que ele foi o líder do partido majoritário no Par-
lamento. Mas, do fato de que aquele cachorro ali é Fido, simplesmente não se
segue nenhuma outra verdade sobre o cachorro. Não se forneceu nenhuma in-
formação da qual algo possa se seguir. Utilizar um nome próprio não significa
comprometer-se a absolutamente nenhuma outra asserção qualquer. Nomes pró-
prios são apelações e não descrições, e descrições são descrições e não apela-
ções. Sir Churchill é o pai de Randolph Churchill. Ele não é chamado nem foi
batizado de o pai de Randolph Churchill. Ele se chama Winston Churchill. A
primeira dama (Lady Mayoress) de Liverpool pode dar o nome de Mauritania
a um navio que, desde então, passa a ter esse nome. Mas se ela chamasse Sir
Winston Churchill de o pai de Sir Herbert Morrison, isso poderia constituir um
tipo engraçado de batismo, mas não tornaria verdadeiro que Morrison é filho de
Sir Winston Churchill. As descrições veiculam verdades ou falsidades e não são
meras imposições arbitrárias. Os nomes próprios são imposições arbitrárias, não
veiculando nada verdadeiro nem nada falso, pois não veiculam absolutamen-
te nada.
Os astrônomos chineses dão nomes bem diferentes dos nossos aos plane-
tas, estrelas e constelações. Mas não se segue daí que uma proposição isolada
pertencente à astronomia ocidental seja rejeitada por eles nem que uma propo-
sição astronômica isolada que nós rejeitamos seja aceita por eles. A nomencla-
tura estelar não acarreta consigo verdades ou falsidades astronômicas. Chamar
uma estrela por um determinado nome não é dizer nada acerca da mesma, e
dizer alguma coisa verdadeira ou falsa acerca de uma estrela não é nomeá-la.
Dizer não é nomear e nomear não é dizer.
66 RYLE
Isso traz à luz um fato de extrema importância. Considerar a significação
(ou a conotação de Mill) de uma expressão significa considerar aquilo que pode
ser dito com ela, isto é, aquilo que pode ser dito com verdade ou dito com fal-
sidade, assim como o que pode ser perguntado, ordenado, aconselhado ou dito
sob qualquer outra forma com ela. Sob esse aspecto — que constitui o sentido
normal de significação —, a significação de uma subexpressão, como uma pa-
lavra ou uma frase, constitui um fator funcional dentro de uma gama de pos-
síveis asserções, perguntas, ordens, e assim por diante. É algo tributário ao dizer.
É o foco comum discernível de um domínio de possíveis dizeres, perguntares,
aconselhares, etc. Isso inverte exatamente a suposição natural da qual, como eu
disse anteriormente, Mill e a maioria de nós partimos, a saber, a suposição se-
gundo a qual se pode aprender, discutir e classificar as significações das palavras
e das frases antes de começar a considerar alocuções (sayings) completas como
as sentenças. As significações das palavras não estão para as significações das
sentenças como os átomos estão para as moléculas ou como as letras do alfa-
beto estão para a ortografia das palavras; ao contrário, trata-se, mais aproxi-
madamente, de como a raquete de tênis está para os lances que são ou que
podem ser feitos com ela. Esse ponto, cuja validade para pequenas palavras co-
mo se, ou, todo, o e não foi parcialmente reconhecida pelos sucessores e prede-
cessores de Mill, tem plena validade para todas as palavras significantes. As
suas significações são os seus papéis no interior de elocuções (sayings) reais e
possíveis. A doutrina de duas faces de Mill, segundo a qual quase todas as
palavras e frases simultaneamente denotam ou, sendo nomes, conotam, isto é,
têm significação, na realidade era, por conseguinte, embora inconscientemente,
uma coalizão de um ponto de vista atomista e de um ponto de vista funciona-
lista sobre as palavras. Por ironia do destino, foi o seu ponto de vista atomista
que, na maioria dos casos, foi aceito como verdade evangélica durante os cin-
quenta ou setenta anos subsegientes. Na verdade, foi mais do que aceito; ele
foi aceito sem a importante salvaguarda que o próprio Mill forneceu quando
dizia que a coisa ou pessoa denotada por um nome não deveria ser identificada
com aquilo que o nome em questão significa. Mill dizia que significar é cono-
tar. Seus sucessores disseram que significar é denotar ou, com menos fregiiência,
que é, ao mesmo tempo, denotar e conotar. Frege foi, durante muito tempo, o
único a perceber a importância crucial do argumento de Mill, segundo o qual
duas ou mais frases descritivas diferentes, com sentidos diferentes, podem se
aplicar ao mesmo planeta ou à mesma pessoa. Essa pessoa ou planeta não é,
portanto, o que tais frases significam. Os seus diferentes sentidos não são a sua
denotação comum. Russell cedo tomou consciência de um ponto que Mill não
estabeleceu de forma muito explícita, embora Platão já o tivesse estabelecido,
isto é, de que uma sentença não é uma lista. Ela diz alguma coisa; não é apenas
um inventário de várias coisas. Mas só muito mais tarde veio Russell a perce-
ber, se é que realmente percebeu, todas as implicações disso.
Suponho que foram duas as razões pelas quais a doutrina da denotação de
Mill, sem as suas precauções, alcançou sucesso, ao passo que as suas verdades
a respeito da conotação não o conseguiram. Em primeiro lugar, a palavra co-
notar naturalmente sugere aquilo que exprimimos por implicar, e não era isso
que se desejava. O que a frase o anterior primeiro-ministro do Reino Unido
significa não pode ser identificado com nenhuma das nem com todas as conse-
quências que podem ser inferidas do enunciado segundo o qual Churchill foi o
anterior primeiro-ministro. Deduzir não é traduzir. Mais importante, contudo, foi
o fato de que o próprio Mill rapidamente dissolveu a sua doutrina da conotação
numa tal massa de psicologia sensacionalista e associacionista, ao mesmo tempo
TEORIA DA SIGNIFICAÇÃO 67
irrelevante e falsa, que os seus sucessores se viram obrigados a ignorar a doutri-
na a fim de se resguardarem dos seus acréscimos.
(Permitam-me mencionar rapidamente algumas das consegiiências que os
sucessores de Mill efetivamente tiravam da opinião — que não era a de Mill —
segundo a qual significar (mean) é, no mais rígido sentido, denotar, isto é, se-
gundo a qual todas as expressões significativas são nomes próprios e segun-
do a qual aquilo de que eles são os nomes é aquilo que as expressões significam
(signify).
Em primeiro lugar, é óbvio que a vasta maioria das palavras não é seme-
lhante às palavras Fido e Londres sob um aspecto determinado, a saber, pelo
fato de serem gerais. Fido representa (stands for) um cachorro particular, mas o
substantivo cachorro cobre este cachorro Fido e todos os demais cachorros,
passados, presentes e futuros, os cachorros das novelas de ficção, os cachorros
que estão nos planos que os criadores de cachorros fazem para o futuro, e assim
por diante, indefinidamente. Assim, se se supuser que a palavra cachorro denota
à maneira como Fido denota Fido, ela deverá denotar alguma coisa que não
escutamos latir, isto é, ela deverá denotar ou o conjunto ou classe de todos os
cachorros reais e imaginários, ou o conjunto de propriedades caninas que todos
eles têm em comum. Em qualquer um dos casos, tratar-se-ia de um tipo bastante
extraordinário de entidade. Além disso, um grande número de palavras não são
nem mesmo substantivos e, sim, adjetivos, verbos, preposições, conjunções e
assim por diante. Se se supuser que essas palavras denotam à maneira como Fido
denota Fido, teremos em nossas mãos um conjunto ainda mais amplo e mais bi-
zarro de coisas nomeadas (nominees) ou de denotado, a saber, coisas nomeadas
cujos nomes não poderiam sequer funcionar como sujeitos gramaticais de sen-
tenças. (Incidentalmente, não é nem mesmo verdade que todos os substantivos
gerais ordinários possam funcionar, por si mesmos, como sujeitos de sentenças.
Posso falar acerca deste cachorro, de um cachorro ou do cachorro que...: ou.
então, acerca de cachorros, de todos os cachorros, da maioria dos cachorros, €
assim por diante. Por outro lado, contudo, não posso fazer com que o substan-
tivo singular cachorro seja, por si só, o sujeito gramatical de uma sentença,
exceto quando ele ocorrer entre aspas, embora eu possa fazê-lo com substanti-
vos como grama, hidrogênio e homem.) Finalmente, dado que complexos de
palavras (como frases descritivas e outras frases), cláusulas completas e senten-
ças possuem significações unitárias, também a essas, então, deveremos interpre-
tar no sentido de denotarem entidades complexas de tipos extremamente sur-
preendentes. Ora, Meinong na Áustria e Frege na Alemanha, bem como Moore
e Russell na Inglaterra aceitaram, nas suas primeiras fases, algumas dessas con-
seguências ou a maioria delas. Consistentes com a suposta equação de significar
e nomear, eles sustentaram a existência objetiva ou o ser dos mais diversos tipos
de entia rationis abstratos e fictícios. Sempre que construímos uma sentença, na
qual podemos distinguir um sujeito gramatical e um verbo, o sujeito gramatical
— seja ele uma palavra isolada ou uma frase mais ou menos complexa — deve
ser significante a fim de que a sentença possa dizer alguma coisa verdadeira ou
falsa. Mas se essa frase ou palavra nominativa é significante, é necessário, se-
gundo a suposição em questão, que ela denote alguma coisa que está aí para
ser nomeada. Assim, devemos creditar com um tipo qualquer de realidade, não
apenas a Fido e a Londres, mas também a centauros, a quadrados redondos, ao
atual rei da França, à classe dos cipriotas albinos, ao primeiro momento do
tempo e à não existência de um primeiro momento do tempo. Todos eles devem
ser, pois, do contrário, não poderíamos dizer coisas verdadeiras ou falsas acerca
deles. Não poderíamos dizer, com verdade, que não existem quadrados redondos,
68 RYLE
a menos que, em algum sentido de existir, existam quadrados redondos cuja exis-
tência, num outro sentido, possamos negar. Visto que algumas sentenças podem
começar com substantivos abstratos como igualdade, justiça ou homicídio, todas
as Formas ou Universais de Platão deverão, também, ser admitidas como enti-
dades. Visto que algumas sentenças podem conter menções a criaturas fictícias,
como centauros e sr. Pickwick, todas as criaturas fictícias concebíveis deverão
ser igualmente entidades genuínas. Além disso, dado que podemos dizer que as
proposições são verdadeiras ou falsas, que elas implicam logicamente (entail)
outras proposições ou que são incompatíveis com outras, qualquer cláusula-em-
que (that-clause) significativa — como que três é um número primo ou que qua-
tro é um número primo — deverá, também, denotar objetos existentes ou sub-
sistentes. Em conformidade com isso, supunha-se, numa certa época, que, se eu
sei ou acredito que três é um número primo, o fato de eu saber ou acreditar
isso constitui uma relação especial, vigente entre, de um lado, eu próprio e, de
outro, a verdade ou o fato denotado pela sentença três é um número primo. Se
eu invento ou leio um romance, o fato de eu imaginar centauros ou o sr. Pick-
wick constitui uma relação especial, vigente entre eu próprio e os centauros ou
aquele digno cavalheiro. Eu não poderia imaginá-lo a menos que ele possuísse
ser suficiente para figurar como termo correlato nessa postulada relação de ser
imaginado por mim.
Finalmente, consideremos rapidamente algo que se revelou, inesperadamen-
te, ser um caso crucial. Devem existir ou subsistir classes, isto é, os denotata
apropriados para frases descritivas no plural empregadas coletivamente, tais co-
mo os elefantes de Burma ou os homens na Lua. É justamente dessas classes ou
conjuntos que dizemos que somam 3 000 no primeiro caso, por exemplo, e zero
no outro. Para que os resultados do ato de contar sejam verdadeiros ou falsos,
é necessário que existam entidades que se submetam aos predicados numéricos
e, para que as proposições da aritmética sejam verdadeiras ou falsas, é necessá-
rio que exista ou que subsista uma gama infinita de classes dessas.
Bem no início deste século, Russell detectava certas implausibilidades locais
na teoria, já então bem desenvolvida, segundo a qual, a cada sujeito gramatical
significante deve corresponder um denotatum apropriado, à maneira como Fido
corresponde ao nome Fido. A proposição verdadeira quadrados redondos não
existem certamente não pode exigir de nós que afirmemos que realmente subsis-
tem quadrados redondos. A proposição segundo a qual é falso que quatro é um
número primo é uma proposição verdadeira, mas a sua verdade não pode, cer-
tamente, nos forçar a encher o universo com uma infindável população de fal-
sidades objetivamente existentes.
Foram as classes, entretanto, as primeiras a engendrar não meras implau-
sibilidades, nas contradições lógicas aparentemente desastrosas —, não apenas
contradições lógicas periféricas, mas contradições no âmago dos princípios mes-
mos dos quais, segundo Russell e Frege, a matemática depende. Podemos reu-
nir em classes, não somente objetos ordinários como cartas de baralho e celiba-
tários, mas também coisas como as próprias classes. Posso perguntar quantos
sapatos há numa sala e, também, quantos pares de sapatos há; ora, um par de
sapatos já é uma classe. Suponhamos agora, então, que construamos uma classe
de todas as classes que não são membros de si mesmas (como, de resto, a maio-
ria das classes não o são). Essa classe será um dos seus próprios membros ou
não? Se ela inclui a si própria, isso a desqualifica para ser uma das coisas me-
diante cuja inclusão a classe é caracterizada; mas se ela não é uma das coisas
que ela própria inclui, isso é justamente aquilo que a qualifica para ser um dos
seus próprios membros,
TEORIA DA SIGNIFICAÇÃO 69
A simples lógica, portanto, proíbe, ela própria, que certas expressões, que
aparentemente denotam, denotem. É no mínimo implausível dizer que existem
objetos denotados pela frase quadrados redondos; e é contraditório dizer que
existe uma classe que é membro de si mesma sob a condição de não sê-lo, e
vice-versa.
'O próprio Russell já se tinha visto obrigado a dizer que algumas expres-
sões, as quais ele havia suposto, anteriormente, nomearem ou denotarem, deve-
riam receber um tratamento excepcional. Essas expressões não eram nomes, mas
algo que ele chamava de símbolos incompletos, isto é, expressões que, por elas
mesmas, não têm significação, no sentido de denotação. A sua função consistia
em auxiliar as expressões que, tomadas como um todo, efetivamente denotam.
(Era isso que Mill dizia das palavras sincategoremáticas). O próprio tratamento
que, desde a Idade Média, tinha sido conferido a palavrinhas como e, não, o,
algum e é, passou, então, a ser conferido também a outros tipos de expressões
Na realidade, Russell, embora não explicitamente, estava dizendo que frases des-
critivas, por exemplo, eram tão sincategoremáticas quanto sempre se admitiu
serem não, e e é. Nesse ponto, Russell se encontrava à beira de admitir que as
significações (the meanings or significations) de muitos tipos de expressões são
uma questão, não de nomear coisas, mas de dizer coisas. Apesar disso, entre-
tanto, creio que ele ainda estava preso à idéia de que dizer é, simplesmente, uma
outra variedade de nomear, isto é, nomear um complexo ou uma objetividade (an
objective), uma proposição ou um fato — um tipo qualquer de Fido — rationis
postulado.
Mas ele deu um passo novo e da maior importância para enfrentar os para-
doxos como o paradoxo da classe de classes que não são membros de si mesmas.
Com efeito, ele agora passava a dispor de uma distinção, que Mill tinha perce-
bido mas deixado inativa: a distinção entre, de um lado, sentenças que são ou
verdadeiras ou falsas e, de outro lado, sentenças que, embora apropriadas quan-
to ao vocabulário e à sintaxe, são, não obstante, sem sentido (nonsensical), des-
providas de significação (meaningless) ou absurdas, não sendo, por conseguinte,
nem verdadeiras nem falsas. Afirmar tais sentenças e negá-las não é afirmar nem
negar nada. Por razões de um tipo que constitui o interesse próprio da lógica,
certos tipos de concatenação de palavras e de frases numa sentença produzem
coisas que não podem ser ditas de maneira significante. Por exemplo, a própria
pergunta: a classe de todas as classes que não são membros de si mesmas é ou
não é um membro de si mesma? não tem resposta. A famosa Teoria dos Tipos
de Russell foi uma tentativa de formular as razões lógicas que fazem dessa per-
gunta uma pergunta imprópria. Não é necessário que examinemos aqui se ele
teve ou não êxito nessa tentativa. O que nos interessa — e que constitui a gran-
de diferença para a filosofia posterior — é o fato de que se tomou consciência,
finalmente, de que a noção de significação era, pelo menos em certos contextos
cruciais, o anverso da noção de não-sentido (nonsensical) —, de que se veio,
finalmente, a contrastar aquilo que pode ser dito, verdadeira ou falsamente, com
aquilo que pode ser dito significantemente. A noção de significação foi final-
mente desvinculada, em parte, da noção de nomear, e revinculada à noção de
dizer. Passou-se a reconhecer que ela pertence ao ou, mesmo, que ela constitui
o domínio que sempre foi a província da lógica. E, visto que estabelecer e codi-
ficar regras constitui pelo menos uma parte da tarefa oficial da lógica, a noção
de significação passou, então, a ser considerada como composta, de algum
modo, de regras. Saber o que uma expressão significa envolve saber o que pode
(logicamente) ser dito com ela e o que não pode (logicamente) ser dito com ela.
70 RYLE
Envolve conhecer um conjunto de interdições, permissões e obrigações. Ou, para
dizé-lo numa palavra, é conhecer as regras de emprego da expressão em questão.
Não foi Russell, no entanto, mas Wittgenstein, o primeiro a generalizar ou
a semigeneralizar esse ponto crucial. No Tractatus Logico-Philosophicus, que
pode ser descrito como o primeiro livro a ser escrito sobre filosofia da lógica,
Wittgenstein ainda guardava um pé no campo denotacionista, mas o seu outro
pé já estava livre. Ele percebeu e disse não apenas algo que já tinha sido dito
antes — isto é, que as palavrinhas chamadas de constantes lógicas: não, é, e, e
as demais, não representam (stand for) objetos —, mas também algo que Platão
já havia dito antes, isto é, que as sentenças não são nomes. Dizer não é nomear.
Como Frege já havia feito, Wittgenstein se deu conta de que as questões dos ló-
gicos não são questões acerca das propriedades ou relações dos denotata (a su-
por que eles existam) das expressões que figuram naquelas sentenças cuja lógica
está em exame. Ao mesmo tempo, ele percebeu que todas as palavras e frases que
podem figurar em sentenças são governadas por aquilo que ele denominou, de
forma ligeiramente metafórica, de sintaxe lógica ou de gramática lógica. São es-
sas regras que são infringidas por aquelas concatenações de palavras e de fra-
ses que resultam em algo sem sentido (in nonsense). A lógica é ou inclui o estudo
dessas regras. Husserl, no início do século, empregou praticamente a mesma
noção de gramática lógica.
Só mais tarde, no entanto, Wittgenstein, consciente e deliberadamente, reti-
rou o seu pé remanescente do campo denotacionista. Quando dizia: “Não per-
gunte pela significação, pergunte pela utilização”, Wittgenstein estava transmi-
tindo um ensinamento que fora obrigado a ensinar a si mesmo depois de ter
abandonado as perspectivas do Tractatus. A utilização de uma expressão ou o
conceito que ela exprime é a função (rôle) para cuja execução ela é empregada,
e não uma coisa, pessoa ou acontecimento qualquer que ela supostamente repre-
senta (stand for). Do mesmo modo, não se pode identificar o poder aquisitivo de
uma moeda com este livro ou com aquele passeio de ônibus que com ela se po-
de comprar. O poder aquisitivo de uma moeda não possui páginas ou um ponto
final. Ainda mais instrutiva é a analogia que Wittgenstein passou agora a traçar
entre expressões significativas e as peças com as quais se jogam jogos como “o
xadrez. A significância de uma expressão e os poderes ou funções, no xadrez,
de um peão, de um cavalo ou da rainha, têm muita coisa em comum. Para saber
o que o cavalo pode e não pode fazer, devemos conhecer as regras do xadrez,
assim como devemos estar familiarizados com vários tipos de situações enxadriís-
ticas que podem surgir. Não se pode derivar aquilo que o cavalo pode fazer do
material ou da forma da peça de marfim, madeira ou estanho de que este cavalo
pode ser feito. De maneira semelhante, saber o que uma expressão significa é
saber como ela pode e não pode ser empregada e, por outro lado, as regras que
governam o seu emprego podem ser as mesmas para expressões de composição
física bem diferente. A palavra horse não é nem um pouco parecida com a pala-
vra cheval, mas o modo de manejá-las é o mesmo. Elas têm o mesmo papel, o
mesmo sentido. Cada uma é a tradução da outra. É certo que as regras de utili-
zações das expressões são, sob aspectos importantes, diferentes das regras dos
jogos. Podemos aprender, até certo ponto, as regras do xadrez antes de começar
a jogar. Existem manuais de xadrez, ao passo que não existem manuais de signi-
ficação. Além disso, as regras de xadrez são completamente definidas e inelás-
ticas. As perguntas relativas a saber se uma regra foi ou não infringida podem,
nesse caso, ser resolvidas sem discussão. Ademais, nós escolhemos jogar xadrez,
podendo parar quando desejarmos, ao passo que não escolhemos falar e pensar.
não podendo, aqui, decidir parar. O xadrez é uma diversão. O discurso e oq
TEORIA DA SIGNIFICAÇÃO 71
pensamento não são apenas diversões. Apesar disso, porém, a assimilação par-
cial das significações das expressões aos poderes ou aos valores das peças com as
quais se joga um jogo é extremamente esclarecedora. Não há mais nenhuma ten-
tação de supor que um cavalo é o substituto de (proxy for) alguma coisa, ou de su-
por que aprender o que um cavalo pode ou não pode fazer seja aprender que ele é
um representante de alguma outra entidade. Não poderíamos aprender a jogar
corretamente com o cavalo sem ter aprendido a jogar com as outras peças, assim
como não podemos aprender a jogar com uma palavra sozinha. mas somente em
combinação com outras palavras e frases.
Além desse, há um outro aspecto que essa assimilação traz à luz. Existem
seis tipos diferentes de peças de xadrez, com os seus seis tipos diferentes de fun-
ções (rôles) respectivas no jogo. Podemos imaginar jogos mais complexos, envol-
vendo vinte ou duzentos tipos de peças. Ora, assim é com as línguas. Em oposi-
ção à suposição denotacionista, de acordo com a qual quase todas as palavras.
todas as frases e mesmo todas as sentenças se assemelham por terem a função
única de nomear, a assimilação da linguagem ao xadrez nos lembra de algo que,
o tempo todo, já sabíamos ambulando, isto é, o fato de que existe um número
indefinido de tipos de palavras, de tipos de frases e de tipos de sentenças —,
de que existe uma variedade indefinidamente ampla de tipos de funções desempe-
nhadas pelas expressões que nós utilizamos ao dizer coisas. Os adjetivos não
fazem o que os advérbios fazem nem, tampouco, todos os adjetivos fazem a mes-
ma coisa. Alguns substantivos são nomes próprios, mas a maior parte não é. Os
tipos de coisas que fazemos com sentenças são diferentes dos tipos de coisas que
fazemos com a maioria das palavras isoladas; além disso, alguns tipos de coisas
que podemos fazer, de maneira significante, com certos tipos de sentenças, não
podemos fazê-lo com outros tipos. E assim por diante.
Não existe um molde básico único, tal como o molde Fido-Fido, ao qual
todas as expressões significantes devam necessariamente se ajustar. Ao contrário,
existe uma infindável variedade de categorias de sentido ou de significação. Mes-
mo a noção, prima facie simples, de nomear ou denotar se revela, sob um exa-
me mais minucioso, cheia de variações internas. Os pronomes são utilizados pa-
ra denotar pessoas e coisas, mas não à maneira na qual os nomes próprios o
fazem. Ninguem se chama ele ou ela. Sábado é um nome próprio, mas não da
mesma maneira como Fido é um nome próprio; além disso, ele não é utilizado,
tampouco, da maneira como é utilizado o nome próprio fictício Sr. Pickwick.
Longe de fornecer a explicação final da noção de significação, a noção de deno-
tação se mostra ser simplesmente um galho ou ramo especial na árvore da signi-
ficação. As expressões não significam porque elas denotam coisas; ao contrário.
algumas expressões denotam (de uma ou de outra maneira, dentre várias manei-
ras diferentes possíveis) porque elas são significantes. As significações não são
coisas, nem mesmo coisas muito estranhas. Aprender a significação de uma
expressão é mais parecido com aprender um exercício (drill) determinado, do
que com deparar com um objeto não encontrado anteriormente. É aprender
a operar corretamente com uma expressão e com qualquer outra expressão equi-
valente a ela, ;
(2) 4 Teoria da Filosofia — Quero agora localizar, de maneira um tanto
mais apressada, o outro motivo principal a partir do qual os pensadores coloca-
ram a pergunta abstrata: que são significações? ou: o que é, para uma expres-
são, ter um certo sentido?
Até bem recentemente, os filósofos não abandonavam, com fregiiência, o
seu sossego para considerar o que é a filosofia, ou para considerar de que ma-
2 RYLE
neira fazer filosofia é diferente de fazer ciência, de fazer teologia ou de fazer
matemática. Kant foi o primeiro pensador moderno a perceber essa questão e a
tentar respondê-la e, embora tenha apresentado um excelente começo de resposta,
não tentarei expô-la aqui.
Essa questão não começou a preocupar seriamente as fileiras gerais dos fi-
lósofos até, talvez, sessenta anos atrás. Ela só começou a se tornar obsessiva
depois da publicação do Tractatus. Por que a filosofia da filosofia começou tão
tarde, e como veio ela a começar no momento e da maneira como começou?
Não nos damos conta, muitas vezes, de que as palavras filosofia e filósofo,
bem como os seus equivalentes em francês e em alemão, tiveram, durante um
longo tempo, significações bem menos específicas do que aquela que agora pos-
suem, Durante os séculos XVII, XVIII, e grande parte do século XIX, um filó-
sofo era, praticamente, qualquer tipo de savant. Astrônomos, químicos e botâni-
cos eram chamados de filósofos, tanto quanto o eram Locke, Berkeley e Hume.
A filosofia de Descartes englobava as suas contribuições à ótica da mesma ma-
neira como as suas contribuições à epistemologia. Em inglês, durante muito tem-
po, não existiu nenhuma palavra especial para o que as pessoas hoje chamam de
cientistas. Esse substantivo só foi deliberadamente cunhado em 1840 e, mesmo
então, demorou ainda algum tempo até ser adotado. Os contemporâneos de
Newton não o chamariam de um cientista, visto que não existia tal palavra.
Quando se fazia necessário estabelecer uma distinção, isso era feito distinguindo-
se a filosofia natural da filosofia moral e da filosofia metafísica. E mesmo já em
1887, Conan Doyle, em duas ou três páginas de um conto, diz que Sherlock Hol-
mes ignorava totalmente a filosofia, tal como nós agora utilizamos essa palavra,
e, ao mesmo tempo, que o seu quarto estava cheio de instrumentos filosóficos,
isto é, científicos, como provetas, retortas e balanças. Em Oxford, uma Cadeira
de Física, não muito antiga, ainda guarda a sua velha etiqueta, a de Cadeira
de Filosofia Experimental.
Diferente desse importante fragmento de história etimológica é o fato de que,
tanto na Escócia quanto na Inglaterra, existia, talvez desde os tempos de Har-
tley até a época de Sidgwick e Bradley, uma forte tendência a supor que a distin-
ção entre filosofia natural, isto é, ciências físicas e biológicas, de um lado, e a
filosofia metafísica e moral, incluindo talvez a lógica, de outro lado, consistia em
que essas últimas se ocupavam de fenômenos internos e mentais, ao passo que
a primeira se ocupava com fenômenos físicos e externos. Boa parte daquilo que
nós agora rotulamos de filosofia, sans phrase, foi, durante muito tempo e por
vários pensadores, identificada, com inteira confiança, embora de maneira total-
mente errônea, com aquilo que chamamos, hoje, de psicologia. John Stuart Mill,
às vezes, mas nem sempre, utiliza até a palavra pomposa metafísica para o estudo
empírico do funcionamento das mentes humanas. Protestos contra essa identifi-
cação se fizeram ouvir, principalmente por parte da teologia filosófica, mas, por
um longo tempo, os antiteólogos continuaram com ela. Um filósofo, sans phrase,
era um Cientista Mental e Moral —., cientista esse que estava dispensado de
trabalho no laboratório ou no observatório simplesmente porque os seus espé-
cimes eram coletados em casa, por introspecção. Mesmo Mansel, que foi um
teólogo filosófico dotado de um bom equipamento kantiano, sustentava que a
ciência dos fenômenos mentais — aquilo que chamamos de psicologia —, cons-
tituía a base real até mesmo das especulações ontológicas ou teológicas.
Desse modo, não somente o amplo domínio coberto pela palavra filosofia
encorajava as pessoas a não procurarem pelas diferenças importantes existentes
entre o que os cientistas, como nós os denominamos atualmente, fazem e o que
os filósofos, como nós os denominamos hoje, fazem. Além disso, mesmo quando
TEORIA DA SIGNIFICAÇÃO 73
se procurava por tais diferenças, era provável que elas fossem encontradas nas
diferenças entre a investigação dos fenômenos físicos, realizada pelo cientista de
laboratório e a investigação dos fenômenos psicológicos, efetuada pelo psicólogo
introspeccionista.
No meu modo de ver, três influências foram as principais responsáveis pe-
lo colapso da suposição segundo a qual fazer filosofia, no nosso sentido atual,
nada mais é do que fazer ciência natural ou, pelo menos, nada mais é do que
fazer ciência mental ou psicologia.
Em primeiro lugar, alguns paladinos da matemática, como Frege, Husserl
e Russell, foram obrigados a salvar a matemática da combinação de empiricismo
e de psicologismo que encontramos na escola de John Stuart Mill. As verdades
matemáticas não são meras generalizações psicológicas; as equações não são me-
ros registros de associações de idéias profundamente enraizadas, os objetos da
geometria não são o estofo de que as imagens mentais são compostas. À mate-
mática pura é uma ciência não indutiva e não introspectiva. As suas provas
são rigorosas, os seus termos são exatos e os seus teoremas são universais e não
apenas verdades altamente gerais. As provas e teoremas da lógica formal ou sim-
bólica partilham essas dignidades em comum com as provas e teoremas da mate-
mática. Dessa maneira, visto que a lógica fazia certamente parte da filosofia,
nem toda a filosofia poderia ser classificada como ciência mental. Deve haver,
então, um outro campo ou domínio além do material e do mental, e pelo menos
uma parte da filosofia se ocupa com esse terceiro domínio, o domínio dos obje-
tos lógicos, nem materiais nem mentais, isto é, de objetos tais como conceitos,
verdades, falsidades, classes, números e implicações.
Em segundo lugar, a ciência mental feita em cadeira de balanço, ou psico-
logia introspectiva, começou, por si mesma, a permitir a constituição da psicolo-
gia experimental e de laboratório. Psicólogos como James começaram a se sub-
meter aos ensinamentos dos fisiólogos e dos estatísticos. A psicologia científica,
então, começou, primeiramente a contrariar e, a seguir, a expulsar tanto a psico-
logia a priori quanto a introspectiva, e a pretensão tácita dos epistemólogos, dos
filósofos morais e dos lógicos de serem cientistas mentais viu-se obrigada a capi-
tular aqueles que utilizavam os métodos e instrumentos de ciências respeitáveis.
Assim, despontou a pergunta: quais eram, então, os objetos das investigações
dos epistemólogos, dos filósofos morais e dos lógicos, visto que não eram, como
se supunha, estados e processos psicológicos? Somente nos nossos dias os psicólo-
gos, pelo menos num grande número de universidades britânicas, vieram a esta-
belecer uma faculdade própria, separada da faculdade de filosofia.
Em terceiro lugar, Brentano, reforçando, a partir de fontes medievais, um
ponto estabelecido e rapidamente esquecido por Mill, sustentou, como um prin-
cípio a priori da própria psicologia, que é da essência dos estados e processos
mentais ser estados e processos de objetos ou conteúdos. Assim como, na gra-
mática, um verbo transitivo exige um acusativo, assim também, no campo das
idéias, pensamentos e sentimentos, os atos de consciência, em geral estão diri-
gidos para os seus próprios acusativos metafóricos. Ver é ver alguma coisa, la-
mentar é lamentar alguma coisa, concluir ou supor é concluir ou supor que algu-
ma coisa é o caso. Imaginar é uma coisa, a coisa imaginada — um centauro,
por exemplo — é outra. O centauro tem o corpo de um cavalo e não existe.
Um ato de imaginar um centauro existe e não tem o corpo de um cavalo. O seu
ato de supor que Napoleão derrotou Wellington é diferente do meu ato de supor
isso. mas o que ambos supomos é idêntico. sendo aquilo cue é expresso vela
74 RYLE
dadeiro dos atos mentais é, via de regra, falso dos seus acusativos ou objetos
intencionais, e vice-versa.
Dois alunos de Brentano — Meinong e Husserl —, por razões diversas, vie-
ram a se interessar de maneira especial, conquanto não. exclusiva, em aplicar
esse princípio de intencionalidade ou de transitividade aos atos de consciência
intelectuais, enquanto esses se distinguem de atos de consciência sensitivos, vo-
litivos ou afetivos. Isto é, eles decidiram retificar as explicações fornecidas por
Locke-Hume-Mill a respeito da abstração, da concepção, da memória, do juízo,
da suposição, da inferência e do resto, mediante uma distinção entre, de um
lado, os variados atos, privados, momentâneos e repetíveis, de conceber, de lem-
brar, de supor, de julgar e de inferir e, de outro lado, os seus acusativos públi-
cos e não momentâneos, isto é, os conceitos, as proposições e as implicações
que constituem os correlatos objetivos desses atos. Ao passo que Frege atacava
de fora as explicações psicologistas do pensamento, Meinong e Husserl ataca-
vam-nas de dentro. Ao passo que Frege argumentava, por exemplo, que os núme-
ros não têm nada de psicológico nem tampouco, é claro, nada de físico, Husserl
e Meinong argumentavam que, para que os processos mentais de contar e de
calcular sejam o que são, é necessário que eles tenham acusativos ou objetos
distintos, numérica e qualitativamente, desses processos. Frege dizia que a expli-
cação que Mill apresentava das entidades matemáticas era falsa porque era psi-
cológica; Husserl e Meinong, na realidade, diziam que a própria psicologia era
falsa porque era psicologia não intencional. O resultado, contudo, era pratica-
mente idêntico em ambos os casos. Girando a partir de eixos diferentes, todos
os três chegaram a conclusões que, de forma um tanto crua, podemos alcunhar
de platônicas. Todos os três sustentaram a doutrina de um terceiro reino de
entidades não físicas e não psicológicas, no qual habitavam coisas como concei-
tos, números, classes e proposições.
Tanto Husserl quanto Meinong estavam dispostos a englobar indistinta-
mente todos esses acusativos do pensamento sob o título compreensivo de Signi-
tficações (Bedeutungen), visto que aquilo que eu penso é aquilo que é veiculado
pelas palavras, frases ou sentenças em que exprimo aquilo que penso. Os acusa-
tivos das minhas idéias e dos meus atos de juízo são as significações das minhas
palavras e das minhas sentenças. Disso seguia-se facilmente que, tanto Husseri
quanto Meinong, orgulhosos que estavam do seu terceiro reino recentemente se-
cretado, pensassem que era esse domínio que forneceria o desejado objeto (sub-
ject-matter) característico da lógica e da filosofia e necessariamente ignorado
pelas ciências naturais, físicas e psicológicas. Os atos e estados mentais constituem
o objeto (subject-matter) da psicologia. Os objetos e acontecimentos físicos cons-
tituem o cbieto (subject-matter) das ciências físicas e biológicas. Resta à filosofia
ser a ciência desse terceiro reino, o qual consiste largamente, embora não intei-
ramente, em objetos de pensamento ou Significações — as novas e impressio-
nantes entidades que tinham sido recentemente isoladas para receberem investiga-
ção em separado mediante a aplicação do princípio da intencionalidade de Bren-
tano aos atos de consciência especificamente intelectuais ou cognitivos.
Assim, por volta da primeira década deste século, começava a ficar claro
para os filósofos e para os lógicos que o seu ofício não era o de uma ciência
entre outras, por exemplo, o da psicologia e, além disso, que não se tratava de
nenhum tipo de ofício indutivo, experimental ou observacional. Esse ofício estava
intimamente interessado, entre outras coisas, nos conceitos e princípios funda-
mentais da matemática, parecendo, ao mesmo tempo, estar ligado a um domínio
especial que não estava reservado a nenhuma outra disciplina, a saber, o chamado
terceiro reino dos objetos lógicos ou significações. Nessa mesma época, afetados.
TEORIA DA SIGNIFICAÇÃO 75
em certa medida, por essas influências, Moore (de maneira consistente) e Russell
(intermitentemente) praticavam as suas investigações, evidentemente filosóficas e
lógicas, com um especial modus operandi. Eles, e não apenas eles, estavam, deli-
berada e explicitamente, tentando fornecer análises de conceitos e de proposi-
ções perguntando: o que significa realmente dizer, por exemplo, que isto é bom?
ou que isto é verdade? ou que centauros não existem? ou que eu vejo um tin-
teiro?; ou perguntando: quais são as diferenças entre os vários sentidos, susce-
tíveis de distinção, do verbo saber e do verbo ser? A prática constante de Moore
e a prática fregiente de Russell pareciam exemplificar maravilhosamente aquilo
que Husserl e Meinong, por exemplo, tinham declarado, em termos gerais, ser
o ofício peculiar da filosofia e da lógica, a saber, explorar o terceiro reino das
Significações. A filosofia adquiria assim um direito de viver a sua própria vida,
nem como um descreditado pretendente ao estatuto da ciência da mente nem,
tampouco, como a serviçal aposentada da teologia démodé. Ela era responsável
por um campo específico de fatos, fatos esses de tipo impressionantemente
platonizado.
Antes da Primeira Guerra Mundial, as discussões relativas ao estatuto e ao
papel da filosofia vis-à-vis às ciências matemáticas e empíricas eram, em geral,
bastante apressadas, surgindo apenas por ocasião das discussões de outras ques-
tões. O Tractatus de Wittgenstein era um tratado completo que se dedicava prin-
cipalmente a fixar a posição da lógica formal, mas também, como um corolário
necessário, a fixar a posição da filosofia em geral. Foi esse livro que fez com
que a teoria da lógica e a teoria da filosofia se tornassem questões dominantes.
Em Viena, alguns dos ensinamentos nele contidos foram aplicados numa direção
polêmica, isto é, com o objetivo de demolir as pretensões da filosofia de ser a
ciência das realidades transcendentes. Na Inglaterra, em geral, alguns dos seus
outros ensinamentos foram aplicados de maneira mais construtiva, a saber, com
o objetivo de enunciar as funções positivas que as proposições filosóficas desem-
penham e que não são desempenhadas pelas proposições científicas. Na Inglater-
ra, em geral, o interesse se concentrou na descrição que Wittgenstein apresenta
da filosofia como uma atividade de clarificação ou de elucidação das significa-
ções de certas expressões utilizadas, por exemplo, pelos cientistas, isto é, o in-
teresse concentrou-se nas virtudes medicinais da explicação de Wittgenstein a
respeito das coisas que não têm sentido. Em Viena, de maneira geral, o interesse,
ao contrário, se concentrou nas potencialidades letais da explicação de Wittgen-
stein a respeito das coisas que não têm sentido. Em ambos os casos, os pensadores
tomaram consciência da necessidade de realizar um levantamento sistemático dos
critérios entre o significante e o sem sentido (the nonsensical), e de que cabia ao
filósofo, e não ao cientista, realizar tal levantamento.
Nesse ponto, o colapso da teoria denotacionista da significação passou a in-
fluenciar a teoria da filosofia enquanto ciência das Significações platonizadas.
Se a significação de uma expressão não é uma entidade denotada por ela, mas
um estilo de operação que com ela se executa, se ela não é uma coisa nomeada
(a nominee), mas uma função (róle), então não é apenas repugnante, mas é posi-
tivamente induzir a erro falar como se existisse um Terceiro Reino cujos habi-
tantes são as significações. Podemos distinguir este cavalo, enquanto peça de
marfim, da parte que ele (ou que qualquer substituto seu) pode desempenhar nu-
ma partida de xadrez; mas a parte que ele pode desempenhar não é uma enti-
dade extra, feita de algum misterioso não-marfim. Não existe, de um lado, uma
caixa que guarda as figuras de xadrez feitas de marfim e, além dessa, uma outra
caixa, mais estranha, que guarda as suas funções em partidas de xadrez. De ma-
neira análoga, podemos distinguir uma expressão, enquanto conjunto de silabas,
76 RYLE
do seu emprego. Um conjunto totalmente diferente de sílabas poderia ter o mes-
mo emprego. Mas a sua utilização ou sentido não é uma substância adicional ou
um sujeito adicional de predicação. Não se trata de um objeto não físico ou não
mental, não porque se trate de um objeto físico ou mental, mas porque não se
trata de um objeto. Visto que não é um objeto, não é um habitante de um reino
platônico de objetos. Dizer, portanto, que a filosofia é a ciência das Significações,
embora não seja integralmente errado, é algo que pode induzir a erro, da mesma
maneira como pode também induzir a erro dizer que a economia é a ciência dos
valores de câmbio. Também isso é verdade, é claro, mas exprimir essa verdade
nesses termos pode levar as pessoas a pensar que o universo abriga, sob tetos di-
ferentes, aqui as mercadorias e as moedas, e ali os valores de câmbio.
Em consegiiência disso, tornou-se habitual, sob a orientação de Wittgen-
stein, dizer, ao contrário, que os problemas filosóficos são problemas lingiisticos.
embora sejam problemas lingiísticos totalmente diversos de quaisquer problemas
de filosofia, de gramática, de fonética, de retórica, de prosódia, etc., dado que
são problemas acerca da lógica do funcionamento das expressões. Tais problemas
diferem tão largamente de problemas filológicos, por exemplo, que dizer que são
problemas lingiúísticos equivale, no momento, como Wittgenstein previu, a indu-
zir as pessoas a um erro tão grave numa direção quanto era induzi-las a graves
erros em outra direção, dizer que esses problemas são problemas acerca de Sig-
nificações, de Conceitos e de Proposições. A dificuldade está em encontrar um
caminho entre o Cila de uma elucidação platônica do ofício da filosofia e da ló-
gica e o Caribde de uma elucidação lexicográfica.
Houve uma moda, e talvez traços dela ainda persistam, que preferia dizer
que fazer filosofia consiste em analisar significações ou em analisar os empregos
de certas expressões. Na verdade, a julgar por certas revistas de além-mar, posso
concluir que, neste exato momento, a filosofia inglesa é dominada por algo que
certas pessoas chamam de analistas lingiiísticos. A palavra análise tem, na reali-
dade, uma boa ressonância de laboratório ou de Scotland Yard; ela estabelece
um bom contraste com expressões do tipo especulação, hipótese, construção de
sistema ou até com pregação e escrever poesia. Por outro lado, todavia, trata-se
de uma palavra que, sob outros aspectos, induz (inevitavelmente) a erro. De um
lado, ela sugere falsamente que qualquer tipo de elucidação minuciosa de quais-
quer tipos de idéias complexas ou sutis constitui um trabalho de filosofia; como
se O juiz, ao explicar aos membros do júri as diferenças entre homícidio e assas-
sinato, os estivesse auxiliando a resolver uma perplexidade filosófica. Além disso,
contudo — o que é ainda pior —, a palavra sugere que os problemas filosóficos
são como os problemas do químico ou do detetive sob um determinado aspecto,
a saber, sob o aspecto de que tais problemas podem e devem ser enfrentados
fragmentariamente. Terminar pela manhã c problema 4, arquivar a resposta, e
passar, à tarde, ao problema B. Essa sugestão violenta o fato vital segundo o qual
os problemas filosóficos se encontram inevitavelmente entrelaçados das mais di-
versas maneiras. Seria evidentemente absurdo dizer a alguém que termine, nesta
manhã, o problema da natureza da verdade, que arquive a resposta e que passe
a resolver, na mesma tarde, o problema das relações entre nomear e dizer, dei-
xando para amanhã os problemas relativos aos conceitos de existência e de não-
existência. Creio que essa é a razão pela qual os filósofos, no momento, estão
muito mais inclinados a assemelhar a sua tarefa à tarefa do cartógrafo do que à
do químico ou à do detetive. São as relações exteriores e não as constituições
domésticas das coisas que podem ser ditas (of sayables) que engendram embara-
ços lógicos e que exigem arbitragem lógica.
“SE”, “PORTANTO” E “PORQUE” *
É estranho que os lógicos falem tão pouco a respeito das inferências. Em
geral, eles preferem mudar de assunto, falando a respeito de enunciados hipoté-
ticos em vez de inferências. Eles se abstêm cautelosamente, por exemplo, de
examinar aquilo que fazemos com sentenças do tipo “Hoje é segunda-feira, por-
tanto amanhã é terça-feira”, discutindo, em seu lugar, sentenças como “Se hoje
é segunda-feira, amanhã é terça-feira”. Em consegiência dessa atitude, os lógicos
estão sujeitos a descrever erradamente (misdescribe) ou a ignorar os empregos
efetivos que damos a enunciados da forma “se-então” (“if-then” statements). Ora,
seria possível alcançar um bom índice de esclarecimento sobre as utilizações
teóricas de enunciados da forma “se-então” através de uma investigação sobre
algumas das utilizações não teóricas que fazemos de outros tipos de sentenças
da forma “se-então”, como promessas condicionais, ameaças, prescrições, apostas,
pedidos e conselhos igualmente condicionais. Em particular, a regulação da nossa
conduta prática por certas regras admitidas — como as regras dos jogos, de
etiqueta, de moral, de estilo, de gramática e de tecnologia — tem muita coisa
em comum com a regulação da nossa conduta teórica pela nossa aceitação de
enunciados hipotéticos variáveis (ou “leis”). Neste artigo, porém, procederei de
outra maneira, tentando apresentar, sob uma outra forma, uma parte, pelo menos,
da força de algumas sentenças da forma “se-então”, consegiientemente, limitando
a discussão aos enunciados hipotéticos propriamente ditos, a saber, aqueles que
podem ou devem aparecer na exposição de teorias verdadeiras ou falsas. Tentarei
exibir as principais diferenças, bem como as conexões, entre as nossas utilizações
teóricas de sentenças da forma “'se-então” e as nossas utilizações de sentenças
da forma “portanto” ou “por conseguinte”. (A distinção entre teoria e prática,
contudo, não tem limites rígidos. Quando nós conversamos, estamos sendo teori-
camente ativos ou praticamente ativos? E quando ensinamos verbalmente a nadar
ou quando fazemos pedidos e apostas?)
Existe ainda uma terceira classe de sentenças constitutivas de teorias (theor)-
constituting sentences) que também devem ser consideradas, a saber, aquelas que
possuem a estrutura em (pattern) “..., porque...” Essas sentenças, com efeito,
são diferentes tanto das inferências quanto dos enunciados hipotéticos, embora
sejam, ao mesmo tempo, estreitamente ligadas a ambos. Chamarei os enunciados
dessa classe de “explicações” (“explanations”).
Quando utilizamos sentenças da forma “se-então” e quando utilizamos sen-
tenças da forma “porque”, nós estamos enunciando os assertando. “Se hoje é
segunda-feira, amanhã é terça-feira” é um enunciado verdadeiro; um outro enun-
2
ciado que pode igualmente ser verdadeiro é “Amanhã é terça-feira porque hoje é
* Traduzido do original inglês: “If”, “So”, and “Because”, publicado in Philosophical Ana-
lysis (A Collection of Essays) Englewood Cliffs, N.J. 1963, Prentice Hall Inc.
18 RYLE
segunda-feira”. Mas “Hoje é segunda-feira, portanto amanhã é terça-feira” não
é um enunciado. Trata-se aqui de um argumento a respeito do qual podemos
perguntar se é válido ou falacioso. Não se trata, porém, de uma asserção, de uma
doutrina ou de uma declaração a respeito da qual possamos perguntar se é ver-
dadeira ou falsa.
Na verdade, podemos perguntar se a sua premissa é verdadeira e se a sua
conclusão é verdadeira; mas não cabe aqui uma terceira pergunta do tipo: “É
verdade que hoje é segunda-feira, portanto amanhã é terça-feira?”. Um argumento
não é a expressão de uma proposição, embora contenha as expressões de duas
proposições.
Através de quais critérios decidimos se uma expressão é um enunciado ou
não? O simples critério gramatical de que o verbo ou os verbos da expressão
estão no modo indicativo e segundo o qual a sentença termina com um ponto
final e não com um ponto de interrogação, não é um critério suficiente. Em
alguns enunciados hipotéticos, com efeito, ambos os verbos podem estar no modo
subjuntivo; por outro lado, em certos argumentos, ambos os verbos estão no
modo indicativo. Embora nenhum dos dois constitua uma pergunta, apenas um
deles é um enunciado.
Um outro critério seria o seguinte: de hábito, cnamaríamos uma determinada
sentença de “enunciado” se o deslocamento do seu verbo e a substituição do seu
ponto final por um ponto de interrogação resultassem numa pergunta identifi-
cável. “Todos os homens são mortais” é um enunciado, pois “São todos os homens
mortais?” é uma pergunta; “Amanhã é terça-feira porque hoje é segunda-feira”
também é um enunciado, pois “A razão pela qual amanhã é terça-feira é que
hoje é segunda-feira?” é uma pergunta apropriada, conquanto pouco natural.
A utilização desse critério nos ajuda a perceber que os argumentos não são enun-
ciados, uma vez que não há meios de extrair uma pergunta de “Hoje é segunda-
feira, portanto amanhã é terça-feira” mediante um deslocamento dos verbos e a
substituição do ponto final por um ponto de interrogação. Por outro lado, con-
tudo, é necessário assinalar também que não há, tampouco, nenhum modo natural
de converter em pergunta um enunciado da forma “se-então”. Na realidade,
naqueles casos em que é fácil formular perguntas naturais que possam ser res-
pondidas por enunciados da forma “porque” (por exemplo, a pergunta: “Por que
é terça-feira amanhã?” ou “Por que você afirma que amanhã é terça-feira?”),
precisamente nesses casos não é fácil, embora não seja impossível, formular per-
guntas naturais que possam ser respondidas por “Se hoje é segunda-feira, amanhã
é terça-feira”. Sob esse aspecto, o comportamento dos enunciados hipotéticos se
assemelha mais ao comportamento dos argumentos do que ao das explicações.
Além disso, quando alguém faz um enunciado segundo o qual alguma coisa
é o caso, é sempre apropriado ou, pelo menos usualmente o é, perguntar se a
pessoa sabe, acredita ou apenas supõe que isso é o caso. Podemos perguntar se
a pessoa está mentindo ou se está enganada, podendo, portanto, questionar a
verdade do que ela nos disse: podemos contradizê-la; podemos também considerar
a evidência favorável e a evidência contra o que ela disse; e podemos ainda agra-
decer-lhe pela informação que nos deu. Ora, quando alguém apresenta um argu-
mento, nenhuma dessas reações (responses) é a apropriada. Nesse caso, podemos
examinar se a pessoa está certa em tirar a conclusão q da premissa p; não podemos
perguntar, no entanto, se ela sabe, acredita ou simplesmente supõe que “p, por-
tanto q”. Na realidade, “p, portanto q” não pode preencher nenhuma cláusula
em “que” (“that” clause). Podemos refutar o argumento de uma pessoa, mas não
podemos contradizê-lo. Podemos contradizer a sua premissa e a sua conclusão,
mas não podemos refutá-las. Podemos descrever como informação a sua pre-
SE, PORTANTO E PORQUE Eh
missa e a sua conclusão, mas o argumento que consiste em passar de uma à outra
não é uma informação adicional. Podemos examinar a evidência de que a pessoa
dispõe para a sua conclusão, mas não podemos perguntar pela evidência favorável
ou contra à transição que a pessoa efetua da evidência de que dispõe para a sua
conclusão.
Finalmente, constitui um traço muito importante (se não o mais importante)
da nossa utilização de palavras como “enunciado”, “proposição” e “juízo”, o fato
de que qualquer enunciado, proposição ou juízo possa funcionar como premissa
ou como conclusão nos argumentos. O fato de serem apropriadas (suitability) para
o que podemos sumariamente chamar de “função de premissa” (“premissory job”)
é uma das principais coisas que nos levam a reservar, em oposição a todo o resto, 0
título de “enunciado” para determinadas sentenças. Ordens, repreensões, perguntas,
lamentações, exortações e aplausos não são coisas que construímos para serem
incorporadas, tais quais, a argumentos como premissas ou como conclusões. Por
“um enunciado” entendo, pelo menos inter alia, uma sentença que é construída
para uma incorporação desse tipo. Fica evidente, então, que os próprios argu-
mentos não são enunciados. A conclusão de um argumento pode constituir a
premissa de um outro argumento, mas um argumento não pode, ele próprio, ser
a premissa ou a conclusão de um outro argumento. De “p, portanto q” não se
segue nada, assim como “p, portanto q” não deriva de nada. Ao contrário, enun-
ciados hipotéticos e enunciados da forma “porque” podem ser premissas ou con-
clusões de argumento (embora apenas de argumentos de nível relativamente
elevado).
Provisoriamente, podemos dizer que, assim como uma instância de multi-
plicação não constitui um número, tampouco um argumento não é um enunciado.
Um argumento é uma operação que efetuamos com enunciados, um pouco à
maneira como um passe é uma operação que efetuamos com uma bola de futebol.
Dado que um argumento não é um enunciado, ele não é nem um enunciado
categórico nem um enunciado hipotético; não se trata, tampouco, de um terceiro
tipo de enunciado, como é o caso de um enunciado da forma “porque”. o qual,
embora não possa ser classificado como categórico ou hipotético, deve certamente
ser classificado como enunciado.
Existe, porém, uma importante conexão entre o argumento “Hoje é segunda-
feira, portanto amanhã é terça-feira” e aquilo que dizemos com o enunciado
hipotético: “Se hoje é segunda-feira, amanhã é terça-feira”. Ao considerar o argu-
mento, com efeito, podemos não somente investigar se a premissa é verdadeira
e se a conclusão é verdadeira; podemos também examinar se a conclusão foi
legitimamente tirada da premissa. Ora, perguntar se a conclusão foi legitimamente
tirada da premissa significa perguntar se é verdade que, se hoje é segunda-feira,
amanhã é terça-feira. De certo modo, a validade do argumento exige a verdade
do enunciado hipotético, assim como admitir a verdade do enunciado hipotético
equivale a admitir o argumento. E isso já manifesta parte do objetivo (point)
que perseguimos ao fazer enunciados hipotéticos. Mas de que maneira, exata-
mente, a validade do argumento exige a verdade do enunciado hipotético?
(a) Poder-se-ia sugerir erroneamente que um argumento exige a verdade
do enunciado hipotético correspondente no sentido em que “Este animal é uma
raposa” exige a verdade de “Este animal é um mamífero”, isto é, que o enun-
ciado hipotético deriva do argumento ou é logicamente implicado (is entailed)
por ele. Ora, não é isso que ocorre, pois um argumento, não sendo um enunciado,
não constitui o tipo de coisa que possamos dizer implica logicamente (entailing)
ou não implica logicamente enunciados. É certo que o enunciado “Se hoje é
80 RYLE
segunda-feira, amanhã é terça-feira” deriva do enunciado “O argumento 'Hoje é
segunda-feira, portanto amanhã é terça-feira? é um argumento válido”; não se
pode dizer, entretanto, que aquele enunciado derive (nem que ele não derive)
do argumento “Hoje é segunda-feira, portanto amanhã é terça-feira”. Um argu-
mento não é um enunciado acerca dos seus próprios méritos e ele não pode fazer
o que um enunciado acerca dos seus méritos pode fazer.
(b) De outra parte, poder-se-ia também sugerir erroneamente que um argu-
mento “p, portanto q” não é nem mais nem menos do que um enunciado con-
juntivo estilisticamente camuflado, cuja expressão direta seria “p, e (se p, então
q) e q”. Assim, o argumento exigiria a verdade do enunciado hipotético no mesmo
sentido em que o enunciado “Jack e Jill caíram da colina” exige a verdade de
“Jill caiu da colina”. Ora, também não é esse o caso, pois os enunciados con-
juntivos são enunciados verdadeiros ou falsos e não argumentos válidos ou invá-
lidos. Tais enunciados podem, en bloc, ser premissas ou conclusões de argumentos;
podemos assertá-los, perguntá-los, contradizê-los ou conhecê-los, neles acreditar
ou apenas conjeturá-los. Um homem de boa memória poderia simplesmente lem-
brar que “p, e (se p, então q) e q”, sem que tivesse estabelecido uma conclusão
ou sem ter acompanhado o estabelecimento de uma conclusão efetuada por outra
pessoa. Se o enunciado hipotético fosse falso, a sua conjunção com “p” e com “q”
tornaria falso o enunciado conjuntivo resultante, mas não faria dele uma falácia;
quem afirmasse tal enunciado mostraria estar cometendo um erro, mas não estaria
sendo ilógico.
(c) Inversamente, poder-se-ia ainda sugerir (o que seria igualmente errôneo)
que “p, portanto q” exige a verdade de “se p, então q” porque a sentença hipotética
nada mais seria do que o argumento “p, portanto q” expresso em termos engano-
sos; dessa maneira, “p, portanto q” exigiria “se p, então q”, dado que isso signi-
ficaria simplesmente dizer que “p, portanto q” é aquivalente a “p, portanto q”.
Ora, isso tampouco ocorre. Em “se p, então q” não se afirma nenhuma premissa
nem se tira nenhuma conclusão. Alguém poderia dizer “se p, então q” e, ao mes-
mo tempo, admitir “mas não p” e “não q” sem, com isso, retirar o que havia dito.
Além disso, um enunciado hipotético pode desempenhar a função de premissa e
a função de conclusão, ao passo que um argumento não pode fazê-lo. Mediante
uma modificação estilística, podemos também contradizer ou transformar um
enunciado hipotético em pergunta. “Hoje poderia ser segunda-feira sem que
amanhã fosse terça-feira” (dito, por exemplo, por ocasião de uma reforma de
calendário) contradiz o enunciado “Se hoje é segunda-feira, amanhã é terça-feira”
e a pergunta correspondente seria: “Pode hoje ser segunda-feira sem que amanhã
seja terça-feira?”
(d) Uma sugestão mais plausível, mas ainda errônea, seria a de que um
argumento exige a verdade do enunciado hipotético correspondente nos seguintes
termos: um argumento “p, portanto q” é sempre inválido, a menos que a pre-
66,33 [EU E)
missa de que se tira “q” contenha não apenas “p” mas também “se p, então q”.
Não se pode derivar “q” apenas de “se p, então q” nem de “p” somente, mas
apenas da conjunção “p e (se p, então q)”. Ora, é evidente que a sugestão é equivo-
cada. Com efeito, suponhamos que ela seja correta. Nesse caso, um crítico poderia
exigir a certeza de que “q” foi tirado legitimamente de “p e (se p, então q)”; para
alcançar essa garentia, cle deveria estar assegurado de que “se (p e [se p, então
a), então q”. Esse novo enunciado hipotético deveria, então. ser incorporado
COMO UA terceiro came ste À prio onda
SE, PORTANTO E PORQUE 8!
nidamente —, como a tartaruga demonstrou a Aquiles. O princípio de uma infe-
rência não pode ser uma de suas próprias premissas ou parte de suas premissas.
As conclusões são derivadas das premissas em conformidade com certos prin-
cípios, c não de premissas que contenham esses princípios. Não é necessário que
as testemunhas testifiquem as próprias regras da evidência.
A questão não está simplesmente em que não é possível conferir às Regras
de Inferências oficialmente reconhecidas a função de premissas componentes em
todas as inferências específicas que se fazem de acordo com elas. A mesma coisa
ocorre com enunciados hipotéticos, mas “substanciais” e determinados tais como
“Se hoje é segunda-feira, amanhã é terça-feira”. Esse enunciado também não
constitui uma premissa da qual, juntamente com “Hoje é segunda-feira”, se possa
derivar “portanto amanhã é terça-feira”. O argumento “Hoje é segunda-feira, por-
tanto amanhã é terça-feira” é uma aplicação de “Se hoje é segunda-feira, amanhã é
terça-feira”. E é nessa noção de aplicação que se encontra a resposta à nossa
pergunta: “De que maneira um argumento válido exige a verdade do enunciado
hipotético correspondente?”
Podemos apresentar uma parte desse ponto positivo da seguinte forma: se
nós perguntarmos: “Qual é o objetivo (point) de aprender a cozinhar receitas,
convenções de bridge ou regras de trânsito”, o começo evidente da resposta
será: “A fim de ser capaz de cozinhar os pratos adequadamente, de jogar bridge
adequadamente e de dirigir veículos adequadamente”. De maneira correspondente,
se perguntarmos pela evidência de que alguém sabe essas coisas, um começo
óbvio de resposta consistirá em dizer que a pessoa cozinha adequadamente
(properly), joga bridge adequadamente e dirige veículos adequadamente. Por
outro lado, contudo, poderíamos esperar mais do que isso, embora não necessa-
riamente. Com efeito, poderíamos esperar que aquele que aprende, não apenas
seja capaz de e esteja pronto a operar adequadamente na cozinha, na mesa de
bridge e na estrada, mas que seja também capaz de e pronto a dizer (tell) as
receitas, as convenções e as regras de trânsito; que seja capaz, por exemplo, de
dizê-las quando uma outra pessoa necessite de instrução ou quando ele próprio
deva justificar as suas próprias operações ou, ainda, que seja capaz de dizê-las
no transcorrer de um debate acerca de possíveis aperfeiçoamentos a serem intro-
duzidos nos métodos de cozinhar, de jogar bridge ou de utilizar estradas.
Da mesma maneira, se perguntarmos qual é o objetivo (point) de aprender
“se p, então q”, ou, qual é a evidência de que alguém aprendeu isso, parte da
resposta consistirá numa referência à capacidade e à rapidez, por parte de quem
aprendeu, em inferir “q” de “p” e “não-p” de “não-g”, em aceitar os argumentos
correspondentes de outras pessoas, em rejeitar argumentos aparentados que são
inválidos, e assim por diante. Além disso, porém, também, esperaríamos que ele,
em certas ocasiões (talvez raras), dissesse que “se p, então q” aos seus ouvintes
ou leitores. Esperaríamos assim, que essa pessoa fosse capaz de e pronta a fazer
o enunciado hipotético quando alguém necessitasse ser ensinado, quando ela
própria fosse desafiada a justificar as suas operações de inferência, e assim por
diante.
A pergunta: “Qual é o objetivo (point) de aprender “se p, então q'?” é bem
diferente da pergunta: “Qual é o objetivo de fazer o enunciado 'se p, então q'?”
Quando aprendemos alguma coisa, não é possível que aprendamos apenas como
ensiná-las, pois, do contrário, não haveria coisa alguma aprendida. Quando ensi-
namos uma lição, não é possível que ensinemos apenas como ensinar essa mesma
$2 RYLE
lição, pois, do contrário, não haveria lição nenhuma. Assim, fazer um enunciado
hipotético significa (is), por vezes, dar um preceito de inferência. E o primeiro ob-
jetivo (object) de dar esse preceito está em que quem o recebe deverá efetuar as in-
ferências apropriadas. Um objetivo (object) ulterior de dar esse preceito ao ouvinte
consistirá, talvez, em que esse deverá, por sua vez, dar esse mesmo preceito de
inferência a outras pessoas, dando-o novamente, com o primeiro objetivo, isto é,
com o objetivo de que essas últimas aprendam a executar as operações inferenciais
apropriadas.
Saber “se p, então q”, portanto, é mais ou menos como possuir uma passa-
gem de trem. Significa ter uma autorização ou uma permissão (warrant) de fazer
uma viagem de Londres a Oxford. (Conhecer um enunciado hipotético variável
(a variable hypothetical) ou “dei” é como possuir um bilhete de trem válido para
todo um período.) Assim como uma pessoa pode possuir uma passagem sem
viajar efetivamente com ela e sem jamais ter estado em Londres ou ido a Oxford,
assim também uma pessoa pode ter uma permissão de inferência (an inference
warrant) sem fazer efetivamente inferências, inclusive sem jamais ter adquirido
as premissas a partir das quais pudesse fazê-las. A pergunta: “Qual é o objetivo
(point) de comprar ou de guardar uma passagem de trem?” é bem diferente da
pergunta: “Qual é o objetivo de mostrar ou de entregar uma passagem?” Nós
compramos e damos passagens a fim de estarmos equipados para viajar de Lon-
dres a Oxford (naquelas ocasiões em que estamos em Londres e desejamos viajar
a Oxford). Mas nós mostramos as passagens a fim de esclarecer aos funcionários
que temos o direito de viajar, e damos passagens a outras pessoas a fim de dar
a elas o direito de viajar e, ao mesmo tempo, de lhes dar a oportunidade de
mostrar aos funcionários que elas têm esse direito.
Comprar uma passagem, possuir uma passagem, mostrar ou transferir uma
passagem, nada disso é viajar. Do mesmo modo, não estamos fazendo ou acom-
panhando uma inferência “p, portanto q” quando atingimos ou lembramos o co-
nhecimento de que “se p, então q”, ou quando pronunciamos ou escrevemos o
enunciado “se p, então q”. Quando aprendemos e quando ensinamos esse enun-
ciado, aquilo que aprendemos e que ensinamos é, em primeiro lugar, a argumentar
“p, portanto q” ou então “não-q, portanto não-p”, e a aceitar argumentos como
esses de outras pessoas. E, do mesmo modo como permissões de viagem (travel
warrants) podem ser inválidas sob inúmeras formas, assim também enunciados
da forma “se-então” podem ser falsos. Podemos fazer viagens não previstas de
Londres a Oxford e de “Hoje é 28 de fevereiro” para “Amanhã é primeiro de
março”.
É necessário compreender que afirmar (asserting) “se p, então q” não é
informar acerca de uma inferência nem é fazer um comentário sobre uma infe-
rência. Não se trata tampouco de recomendar, exortar, confessar, pedir ou ordenar
coisa alguma. Não é falar acerca de inferir, assim como mostrar ou transferir uma
passagem de trem não é falar acerca de uma viagem de trem.
Deveremos agora passar a considerar rapidamente a força de enunciados do
tipo: “Amanhã é terça-feira porque hoje é segunda-feira”, isto é, enunciados que
respondem a perguntas do tipo: “Por que isso e aquilo?” As explicações não são
argumentos; elas são enunciados. Elas podem ser verdadeiras ou falsas; são res-
postas a perguntas; podem exprimir aquilo que alguém sabe, acredita, conjetura
ou investiga, podendo, ainda, ser premissas ou conclusões de argumentos. (Deve-se
assinalar, no entanto, que existe uma utilização didática de sentenças da forma
“porque” na qual elas funcionam muito mais como argumentos do que como
enunciados. E o que se passa quando um professor deseja conduzir os seus alunos
da premissa para a conclusão de um argumento que lhe é familiar, mas novo
SE, PORTANTO E PORQUE 83
para eles. Nesse caso, ele pode dizer: “Porque isso e aquilo, por conseguinte,
assim e assim”. O professor estará, então, simultaneamente conduzindo os alunos
ao longo de um caminho e lhes mostrando os postes que sinalizam esse caminho.)
Ora, o enunciado “q porque p” não pode ser verdadeiro a menos que “q” e
“p” sejam verdadeiros. Ele também não pode ser verdadeiro se “se p, então q” não
for verdadeiro. Sob esses aspectos, isto é, na medida em que ele exige a verdade
de “p” de “gq” e de “se p, então q”, ele tem analogias evidentes com o argumento
“p, portanto q”. O sentido de “exige”, entretanto, é diferente aqui, pois as explica-
ções são verdadeiras ou falsas e jamais são válidas ou inválidas, ao passo que os
argumentos são válidos ou inválidos, mas não são nem verdadeiros nem falsos.
Se alguém aceita “p, portanto q” não apenas como válido, mas também como
correto — no sentido de que tanto a sua premissa quanto a sua conclusão são
verdadeiras e no sentido de que é legítimo o argumento que vai da primeira para
a segunda —, ele se compromete a aceitar como verdadeiro “gq porque p”, e vi-
ce-versa. Apesar disso, “q porque p” não é uma paráfrase de “p, portanto q”,
assim como entregar, na nossa destinação, a passagem ao coletor de bilhetes não
é fazer uma autêntica viagem de trem. Em outros termos, dizer “q porque p” não
é dizer “p, portanto q” nem, tampouco, é dizer “p, e q, e (p, portanto q)”. Não
sendo um enunciado, com efeito, “p, portanto q” não pode ser um componente
de um enunciado conjuntivo. Por outro lado, “g porque p” não é equivalente a
“p, e (se p, então q), e p”, pois uma pessoa que dissesse isso não teria apresen-
tado uma explicação de “q”, embora tivesse fornecido o material com que se po-
deria construir essa explicação. Tal pessoa teria mencionado algo que, na reali-
dade, é a razão (ou uma razão) para “q”; mas ela não a teria apresentado enquan-
to razão para “q”. (Na vida real, nós também não formamos enunciados conjunti-
vos a partir de enunciados componentes que possuam constituições tão diversas
como “p” e “se p, então q”.) Não, ao dizer “q porque p” não estamos simples-
mente afirmando, mas sim utilizando aquilo que é expresso por “se p, então q”;
estamos fazendo-o funcionar ou aplicando-o; estamos ligando “q” a “p” em con-
formidade com a autorização veiculada por “se q, então p”. Com efeito, a pergun-
ta: “Por que 'q'?” é idêntica à pergunta: “De que premissa se pode legitimamente
tirar 'g'7”. E a resposta a essa pergunta deve não apenas apresentar a premissa ver-
dadeira *p' mas juntamente com ela, o título que autoriza a inferir “q” de “p”.
Em outras palavras, assim como a inferência “p, portanto q” não contém o
enunciado “se p, então q” como um componente da sua premissa, limitando-se
a aplicá-lo pelo fato de ser uma operação com “p” e “q” executada em conformi-
dade com ele, assim também “q porque p” não contém o enunciado “se p, então
q” como um componente da sua cláusula em “porque”, também limitando-se a
aplicá-lo, embora de uma outra maneira.
As explicações deveriam ser classificadas como enunciados categóricos ou
como enunciados hipotéticos? A resposta deverá ser: “Elas não são nem uma
coisa nem outra, assim como também não são combinações de enunciados cate-
góricos com enunciados hipotéticos”. A dicotomia “ou categórico ou hipotético”,
embora seja inicialmente esclarecedora, se revela finalmente uma fonte de con-
fusões. O árbitro é um jogador ou um espectador? Ora, ele não é nem um jogador
nem um espectador nem, tampouco, jogador e espectador ao mesmo tempo.
Podemos agora elucidar, mediante uma outra consideração, a noção, ainda
um tanto nebulosa, de aplicação. Há um aspecto importante sob o qual pelo
menos alguns enunciados hipotéticos diferem tanto das inferências quanto das
explicações. Isto é, pode haver aquilo que chamamos de “enunciados hipotéticos
variáveis” (“variable hypotheticals”), mas não poderia haver inferências variá-
84 RYLE
veis ou explicações variáveis. Nós podemos dizer: “Se alguém é homem, é mor-
tal”, mas não podemos dizer: “Alguém é homem, portanto, é mortal”, nem “Por-
que alguém é homem, é mortal” ou “Alguém é mortal porque é homem”. A pre-
missa e a conclusão de uma inferência são proposições e não funções proposi-
cionais, são enunciados e não esquemas de enunciados (statement skeletons)
e o mesmo acontece com as cláusulas de um enunciado de forma “porque”. É
bem verdade que a premissa e a conclusão de uma inferência podem ser enun-
ciados hipotéticos variáveis completos. De: “Todo aquele que lê Platão no ori-
ginal lê grego” segue-se que “Todo aquele que lê Platão no original lê uma lín-
gua diferente do latim”. No entanto, as inferências e as explicações não podem
terminar em esquemas de enunciado (statement indents) no sentido em que as
cláusulas de um enunciado hipotético não são, elas próprias, enunciados, mas
esquemas de enunciado.
Assim como algumas passagens de trem são bilhetes periódicos, autorizando
aos que os possuem a fazer uma certa viagem em qualquer um dos dias durante
um determinado período, assim também alguns enunciados hipotéticos são, por
assim dizer, permissões de inferência periódicas. Além disso, assim como uma
viagem não pode ser uma viagem periódica (no sentido em que uma passagem
pode ser periódica), assim também nenhuma inferência ou explicação pode ser
uma inferência variável ou uma explicação variável. As permissões podem ser
abertas, mas as ações permitidas não podem ser abertas.
Ora, é exatamente o fato de que esses enunciados hipotéticos são abertos
que faz com que outros enunciados, como premissas e conclusões, sejam quali-
ficados para preenchê-los. O fato de que alguma coisa se qualifique para preen-
cher (ou para satisfazer) uma especificação aberta é algo que faz parte daquilo
que se entende (what is meant) quando se diz que o enunciado, regra ou per-
missão (etc.) que incorpora a especificação em questão “se aplica” àquela coisa.
É dessa maneira, justamente, que um determinado regulamento local, relativo
ao estacionamento se aplica a mim e ao meu carro. Com efeito, embora não nos
mencione, o regulamento diz o que é que qualquer proprietário de um automó-
vel particular (independentemente de seu tempo de uso, da sua fabricação, da
sua cor ou do seu preço) pode ou não pode fazer com relação ao estaciona-
mento do seu carro. Eu e o meu carro, contudo, não “nos aplicamos”, a nosso
turno, a nenhuma outra coisa. Aquilo que faço com meu automóvel numa oca-
sião particular pode obedecer ao regulamento ou constituir uma intração a ele.
Não faz sentido, porém, sugerir que existe alguma outra coisa que, de maneira
análoga, obedeça àquilo que eu faço com o meu automóvel nessa ocasião, ou
que constitua uma infração pelo que eu faço com ele. Por outro lado, pode haver
exceções a uma regra, a uma lei ou a uma máxima, mas uma exceção não pode,
por sua vez, ser algo para o qual poderia haver exceções nesse mesmo sentido.
“Com exceção de...” é uma expressão que se pode acrescentar a um enunciado
hipotético variável, mas não a uma inferência ou a uma explicação. Logo adiante
tentarei mostrar que um certo tipo de abertura (openness), de variabilidade (va-
riableness) ou de preenchibilidade (satisfiability) caracteriza todos os enunciados
hipotéticos ao mesmo tempo, quer se trate de “enunciados hipotéticos variáveis”
reconhecidos (como “Para todo x, se x é um homem, x é mortal”), quer se trate
de enunciados hipotéticos altamente determinados (como “Se hoje é segunda-
feira, amanhã é terça-feira”).
Antes, porém, façamos um balanço do que foi visto. Parte do que estive
tentando fazer consistiu em mostrar que as atividades de assertar e de acom-
panhar tanto os enunciados hipotéticos quanto as explicações são atividades
mais sofisticadas do que as atividades de manipular e de acompanhar argu-
SE, PORTANTO E PORQUE 85
mentos. Uma pessoa pode aprender a utilizar argumentos antes de poder aprender
a utilizar enunciados hipotéticos e explicações. Quando argumenta (e quando
acompanha um argumento), uma pessoa está operando com uma técnica ou
método, isto é, está exercendo uma habilidade (skill). Ao contrário, quando faz
ou quando considera enunciados hipotéticos e explicações, a pessoa está, por
exemplo, dando ou recebendo instruções relativas à técnica ou à operação em
questão. Podemos dizer, de forma grosseira e provisória, que tal pessoa não
está cozinhando, mas lendo ou escrevendo um livro de cozinha, que ela não
está praticando uma arte, mas ensinando-a ou recebendo instruções sobre essa
arte.
Um outro objetivo (object) que estive perseguindo até aqui (diferente do
anterior, conquanto ligado a ele) foi o seguinte: fascinados pelo modelo dos
enunciados simples, singulares, afirmativos, atributivos ou relacionais, os teóricos
se sentem fortemente inclinados a perguntar: “O que, exatamente, os enunciados
hipotéticos assertam caracterizar o quê?” ou: “O que, exatamente, os enunciados
de forma “porque” assertam estar em que relação com o quê?” ou ainda, mais
habitualmente: “O que é que esses enunciados descrevem?” ou “Que questões
de fato (matters of fact) esses enunciados registram?” A partir daí, os teóricos
tendem a brincar com respostas verbalmente acomodatícias, relativas a Conexões
Necessárias entre Fatos ou a Relações Internas entre Universais, e outras coisas
do gênero. Mas se esses enunciados, como tentei demonstrar, não são mais do
que sofisticações de inferências, a reformulação correspondente daquelas per-
guntas dos teóricos manifestará claramente o que nelas há de errado. Com
efeito, se eu perguntar: “O que, exatamente, os argumentos assertam caracte-
rizar o quê?” ou: “O que, exatamente, as inferências enunciam estar em que
relação com o quê?”, a resposta será fácil. Os argumentos simplesmente não
são asserções ou enunciados e, portanto, não são enunciados atributivos ou rela-
cionais. Poderíamos ensinar Hume e dizer: “A causalidade não é uma relação,
pois 'p, portanto q' é uma inferência e não um enunciado, não sendo, portanto,
o enunciado de uma relação. “Portanto” não é uma palavra que exprime uma
relação (a relation word) nem um predicado relacional; de resto, simplesmente,
não é um predicado. Com efeito, 'p, portanto q' não é um enunciado de sujeito
e predicado, visto que simplesmente não é um enunciado. Predizer um aconte-
cimento a partir de um outro acontecimento não é descrever uma ligação, pois
não é descrever”. Em geral, entretanto, esse ponto não foi levado em consi-
deração, em parte devido ao hábito de ignorar as inferências (as quais não são
enunciados) e de concentrar a atenção, em troca, nos enunciados hipotéticos e
nas explicações (os quais são enunciados) e, em parte, devido também à supo-
sicção tácita e falsa de que esses enunciados pertencem a níveis de discurso
pré-inferenciais, e não a níveis pós-inferenciais.
É tempo agora de delimitar com maior nitidez, a partir de um outro ângulo,
os limites da noção de aplicação. Quando aprendo “se p, então q”, eu aprendo
que estou autorizado a argumentar “p, portanto q”, sob a condição de que já
tenha a minha premissa “p”. Ora, o enunciado hipotético não me diz “p”, assim
como a simples posse de um bilhete não me põe no trem. O enunciado “se p,
então q” não engloba os enunciados “p” e “q”, ao passo que esses enunciados es-
tão, certamente contidos em expressões como “p e q”, “q porque p”, “D, portanto
q” e “p, embora q”. Quando digo “se p, então q”, não estou enunciando “p” ou
“gq” nem me comprometendo, sob nenhuma forma, à verdade de “p” ou de “q”;
estou enunciando ou assertando alguma coisa, mas não estou enunciando ou as-
sertando “p” ou “g”. Nem o enunciado “p” nem o enunciado “q” fazem parte do
enunciado “se p, então q”. E, no entanto, o enunciado hipotético, especialmente
86 RYLE
quando codificado sob essa forma, se parece com um enunciado que contenha co-
mo componentes os dois enunciados “p” e “gq”. Ora, se o enunciado hipotético não
os contém, a codificação (coding) adotada deve, então, ser altamente enganadora,
É justamente essa conclusão que pretendo estabelecer a seguir.
No português corrente, muitas vezes formulamos os nossos enunciados hipo-
téticos de tal sorte que a expressão-prótase (isto é, a expressão que funciona
como prótase) que ocorre depois da palavra “se”, bem como a expressão-apó-
dose (isto é, a expressão que funciona como apódose) depois da palavra “então”
(se é que essa última aparece no enunciado) possuem o vocabulário e. ao mesmo
tempo, a sintaxe dos enunciados. As expressões-prótase e apódose em “Se hoje
é segunda-feira, (então) amanhã é terça-feira” têm exatamente a mesma aparência
e o mesmo som que os enunciados “hoje é segunda-feira” e “amanhã é ierça-
feira”, quando esses aparecem sozinhos ou como componentes de um enunciado
conjuntivo, ou quando aparecem como premissa e conclusão de uma inferência,
ou como explicandum e explicans numa explicação. Algumas vezes, entretanto,
no português corrente (e isso ocorre com freqiência no português mais antigo,
sendo também muito comum em línguas como o latim) a cláusula-prótase e a
cláusula-apódose são formuladas subjuntivamente. Ora, dizer que são formu-
ladas subjuntivamente significa dizer que elas não são formuladas como os enun-
ciados. Em “Se hoje for segunda-feira, amanhã será terça-feira”, uma das cláu.
sulas não se parece nem soa como um enunciado. Por outro lado, em “Se hoje
fosse segunda-feira, amanhã seria terça-feira”, nenhuma das cláusulas têm a apa-
rência ou o som de um enunciado.
Conhecemos ainda um outro modo familiar de formular os enunciados hipo-
téticos. Embora os manuais correntes (standard) tratem das “proposições mo-
dais” num capítulo diferente daquele em que tratam das proposições hipo-
téticas, as diferenças entre enunciados modais e hipotéticos são, na realidade,
puramente estilísticas. Existem uma única maneira coloquial de negar correta-
mente o supersticioso enunciado hipotético: “Se uma pessoa passa sob uma
escada, algo de prejudicial lhe acontece antes do fim do dia”; essa maneira
consiste em dizer: “Não, uma pessoa pode (ou poderia) passar sob uma escada
sem que nada de prejudicial lhe aconteça”. Por outro lado, a única maneira
coloquial de formular uma questão cuja resposta afirmativa que ela exige é
fornecida por um enunciado da forma “'se-então”, consiste em perguntar, por
exemplo: “Um vice-chanceler de Oxford pode não ser (ou: deve necessariamente
ser) o diretor de um colégio?”
Mas se nós reformulamos (como é sempre possível fazer) um enunciado da
forma “se-então” como um enunciado do tipo (pattern) “Não pode ser segunda-
feira hoje e não ser terça-feira amanhã”, constatamos imediatamente que aquilo
que segue “não pode” e aquilo que segue “e” não têm nada da aparência de
um enunciado. A aparência de enunciado (statement like appearance) das cláu-
sutas daqueles enunciados de forma “se-então” que não são formulados subjun-
tivamente constitui uma aparência enganosa (deceptive), a qual sempre pode
ser removida (e muitas vezes efetivamente o é) através de paráfrases estilistica-
mente diferentes. Mas se é assim, o estilo de código adotado pelo lógico (e que
eu mesmo estive utilizando) que escreve “se p, então q”, também é enganoso.
Com efeito, as letras “p” e “gq”, tais como elas ocorrem aqui, têm exatamente a
mesma aparência e o mesmo som do “p” e do “q” que ocorrem em enunciados con-
juntivos, em inferências e em explicações. Ora, se as cláusulas de um enunciado
hipotético não são enunciados, os lógicos não deveriam, então, embandeirá-las
SE, PORTANTO E PORQUE 87
dessa forma. A prática faz com que os seus usuários e com que aqueles que
os aprendem sejam tentados a supor que sejam verdadeiras, falsidades como
estas: que os enunciados hipotéticos assertam conexões entre enunciados, entre
juízos, entre proposições, entre fatos ou entre aspectos ou características do
Real; que eles são funções de verdade de enunciados atômicos; e assim por
diante.
Cook Wilson estava muito mais perto da verdade quando dizia que os enun-
ciados hipotéticos assertam relações entre perguntas. Mas isso ainda não é intei-
ramente correto, pois assim como nada é enunciado ou assertado, assim também
nada é perguntado na prótase ou na apódose; ora, se ninguém está perguntando
nada, não há nenhuma pergunta. Por outro lado, contudo, ele estava certo ao
constatar que nenhuma das cláusulas faz um enunciado e, por conseguinte, que
o enunciado hipotético como um todo não nos diz nada acerca desses supostos
enunciados nele supostamente contidos. Além disso, o enunciado hipotético
não é, tampouco, uma resultante, um produto ou uma função de verdade de
nenhum enunciado nele pretensamente contido. De outra parte, Cook Wilson
também estava no caminho certo sob um outro aspecto mais positivo. O que
um enunciado hipotético efetivamente contém não são enunciados, mas especi-
ficações de enunciado ou esquemas de enunciado (statement indents), promis-
sórias para enunciados (bills for statements) que poderão ser preenchidas por
enunciados. De maneira análoga, os regulamentos de estacionamento não contêm
automóveis ou automobilistas, mas certas especificações que os automóveis e os
seus motoristas podem satisfazer. E é precisamente porque os enunciados hipo-
téticos contêm especificações de enunciado que podemos dizer que uma infe-
rência que vai de um enunciado a outro está “de acordo com” ou constitui
“uma aplicação de” o enunciado hipotético. A premissa preenche a promissória
da prótase e a conclusão preenche a promissória da apódose. Elas “preenchem
as condições”. Ora, essa rioção de esquemas (indents) de enunciado ou de especi-
ficações de enunciado é, de fato, muito próxima da noção de pergunta. Uma
pergunta, com efeito, contém uma especificação daquilo que se pede: ora, o
que se pede é justamente um enunciado, pois a resposta a uma pergunta é um
enunciado. É claro que fazer uma pergunta não consiste simplesmente em expri-
mir uma determinada especificação de enunciado. Fazer uma pergunta é realizar
uma tarefa conversacional específica mediante uma especificação do tipo indi-
cado. Proferir um enunciado hipotético é realizar uma outra tarefa específica
mediante um par de especificações de enunciado, mediante cada uma das quais
isoladamente ou mediante cuja conjunção uma pessoa, que tenha um outro inte-
resse, poderia ter feito um pedido relativo a uma informação específica. Existem,
eu creio, inúmeras outras coisas conversacionais, administrativas e teóricas que
são feitas com especificações de enunciado.
Ora, exatamente como uma pergunta “Quem ...?” pode ser respondida
por “Sócrates. ..”, e assim como a variável “x” em x...” pode ter “Sócrates”
por um de seus valores, assim também a pergunta: “Hoje é segunda-feira?” pode
ser respondida por: “Hoje é segunda-feira”, e “...hoje for segunda-feira” pode
ter “Hoje é segunda-feira” por um dos seus valores. É nesse sentido que eu disse
anteriormente que todos os enunciados hipotéticos são enunciados hipotéticos
variáveis (variable hypotheticals). “Variável” e “hipotético” se relacionam como
gênero e espécie. (Não é nesse sentido, todavia, que os lógicos separaram do
resto alguns enunciados hipotéticos como “enunciados hipotéticos variáveis”.)
Se uma remessa de bicicletas cumpre a fatura (fills the bill) de uma licença
de exportação, a fatura que ela cumpre não constitui, ela própria, essa remessa
de bicicletas nem, tampouco, uma remessa de qualquer outra coisa. Ela constitui
86 RYLE
apenas a especificação verbal dessa remessa. De maneira análoga, se um enun-
ciado cumpre uma promissória (fills a bill), a promissória por ele cumprida não
é esse enunciado nem um outro enunciado qualquer. Colocar uma licença de
exportação dentro de um envelope não envolve colocar uma remessa de bici-
cletas nesse envelope; envolve apenas colocar no envelope aquela parte da licença
que traz a especificação da remessa. Introduzir as palavras “hoje é segunda-feira”
e “amanhã é terça-feira” num enunciado hipotético não envolve introduzir uma
premissa ou uma conclusão nesse enunciado; significa apenas introduzir as espe-
cificações de uma premissa e de uma conclusão. E, assim como as licenças de
exportação podem ser redigidas, embora nenhuma bicicleta seja manufaturada
dessa maneira, assim também podemos fazer enunciados hipotéticos, embora
jamais possamos fazer simplesmente um enunciado-premissa (premiss statement)
ou um enunciado-conclusão.
Já se sugeriu, algumas vezes, que toda a diferença entre a ocorrência de
“hoje é segunda-feira” e de “amanhã é terça-feira” num enunciado hipotético
e a sua ocorrência como respostas a perguntas ou como premissa e conclusão
numa inferência, consiste simplesmente no seguinte: no enunciado hipotético, as
sentenças “hoje é segunda-feira” e “amanhã é terça-feira” ocorreriam de modo
“não assertado” (“unasserted”), ao passo que elas ocorreriam de modo “asser-
tado” nos outros contextos. Sugere-se, assim, que ser assertado constitui um luxo
adicional, como a italicização. Ora, a sugestão não funciona. Se nada é afirmado
ou se nenhum enunciado é feito, então não se responde a nenhuma pergunta,
não se contradiz nada, não se utiliza nenhuma premissa, não se tira conclusão
nenhuma, não se dá nenhuma informação certa ou errada. Um enunciado privado
do seu emprego não é um enunciado, assim como uma expressão impedida de
desempenhar qualquer das tarefas de um enunciado, ou não tem tarefa nenhuma
ou tem uma outra tarefa. .
Aquilo que induz as pessoas a dizerem esse tipo de coisa, bem como dizer
coisas deste gênero: os enunciados hipotéticos assertam relações entre enunciados,
proposições ou fatos, é a evidente semelhança que há entre as expressões que
figuram como prótase e as expressões que figuram como apódose (tais como
elas habitualmente vêm formuladas) de um lado, e os enunciados de outro. Não
é necessário (embora possa haver) uma marca simbólica (a vocabulary flag) ou
uma marca sintática (syntax flag) para mostrar que essas expressões não são
enunciados. A simbolização em código padronizada, expressa em termos de “se
p, então q”, reforça poderosamente a tentação assinalada. Parece claro, com
efeito, que, de todas as pessoas, os lógicos seriam justamente aquelas que jamais
simbolizariam coisas completamente diferentes mediante símbolos idênticos. Ou
teriam também eles suposto que estilos indiscerníveis provam uma identidade
de função?
Em inúmeros casos ordinários, não há absolutamente nenhuma similaridade
entre as faturas e aquilo que as cumprem. A especificação de uma remessa de
bicicletas numa licença de exportação não tem a menor semelhança com uma
remessa de bicicletas. A especificação é uma folha de papel coberta com letras
datilografadas; as bicicletas são peças de ferro, aço, borracha e alumínio. Uma
passagem de trem de Londres a Oxford não tem nada que se assemelhe a
Londres ou a Oxford.
Algumas especificações, todavia, são bastante semelhantes às coisas que as
satisfazem. Uma pessoa que ensina a cozinhar pode fazê-lo não em palavras
ou por meio de diagramas, mas simplesmente mostrando como cozinhar, numa
encenação muda. Tal pessoa executa aqueles movimentos que a sua aluna deverá
ES
executar mais tarde. A pessoa que ensina não está dizendo à aluna o que fazer;
SE, PORTANTO E PORQUE 89
está lhe mostrando o que fazer. Se a aluna for desatenta ou desajeitada, o instrutor
poderá queixar-se de que as suas ações não estão em conformidade com os
requisitos que dela exigiu. No entanto, o instrutor comunicou esses requisitos
simplesmente pela execução de certos movimentos. Devemos observar que o
instrutor não está cozinhando. Ele faz com uma colher vazia o que a aluna
deve fazer com uma colher cheia; ele faz com um forno frio o que ela deve
fazer com um forno quente. Não se deve descrever a diferença que há entre
as operações do instrutor e as da aluna, dizendo que essa última está cozinhando
pratos comestíveis (“assertados”), ao passo que o primeiro estaria cozinhando
pratos para não serem comidos (“não assertados”). Ora, na realidade o instrutor
não estava cozinhando nenhum prato; estava apenas mostrando à aluna como
fazer o prato quando ela tiver os ingredientes e o forno quente.
Assim como não se cozinha nada com os movimentos encenados pelo
demonstrador, assim também nenhuma premissa é utilizada e nenhuma conclusão
é tirada por uma pessoa que faz um enunciado hipotético. Da mesma forma,
porém, assim como as operações a serem feitas com os ingredientes são especi-
ficados pelas operações semelhantes, mas executadas de mãos vazias, do demons-
trador, assim também as operações inferenciais a serem feitas com certos enun-
ciados são especificadas pelas operações verbais (extremamente semelhantes às
primeiras, mas executadas no vácuo) do autor de um enunciado hipotético. Pode-
riamos dizer que pronunciar um enunciado hipotético equivale a ensinar, numa
demonstração muda, o que fazer com certos enunciados, com a diferença de
que a demonstração não pode, nesse caso, se realizar literalmente numa ence-
nação muda, dado que a própria operação que está sendo ensinada é uma
operação de fala (ou de escrita). De maneira mais ou menos análoga, um diretor
de teatro poderia ensinar aos seus atores como pronunciar os seus textos respec-
tivos, não dizendo a eles o que fazer, mas mostrando-lhes o que fazer. Também
ele não poderia fazer isso através de uma encenação muda.
Alguém que está demonstrando como cozinhar não está manipulando ingre-
dientes e utensílios nem falando acerca deles. A sua atividade, nessa ocasião,
não é uma atividade de utilizar ou de mencionar farinha, açúcar, colheres ou
fornos. Do mesmo modo, o diretor de teatro não está mencionando ou utili-
zando (em sentido estrito) as elocuções (utterances) cuja maneira correta de
proferir ele está mostrando aos atores. Com efeito, o diretor não está represen-
tando para o público, ele está mostrando aos atores como fazê-lo. Os próprios
atores, aliás, ao proferirem os seus textos diante de um auditório, não estão.
em sentido estrito, utilizando as palavras que pronunciam. Os atores, no palco,
não estão literalmente desafiando, não estão com remorsos, não estão amando
nem estão desesperados; eles apenas fingem que estão. As suas elocuções não
podem ser classificadas nem como “utilização” nem como “menção”. 4 fortiori,
as ações que o diretor de teatro executa ao ensinar (mediante demonstrações)
como parecer convincentemente desafiador, cheio de remorsos, etc., não podem,
tampouco, ser classificadas nem como “utilizar” nem como “mencionar”. Da
mesma forma, o autor de um enunciado hipotético não está utilizando nem men-
cionando enunciados-premissa ou enunciados-conclusão. Ele está mostrando, no
vácuo, como utilizá-los. Poderíamos dizer que tal autor está fazendo uma infe-
rência muda com um propósito didático. Poderíamos ainda assinalar que mostrar
o que fazer constitui um trabalho (performance) mais sofisticado do que simples-
mente fazer a coisa com destreza, embora seja um trabalho menos sofisticado
do que dizer o que fazer.
Aptes te conelniro devo ainda mencionar alguns pontos que é necessário
90 RYLE
(1) “Se” às vezes significa (means) “mesmo se” ou “embora”; nesse caso,
uma cláusula em “se” não funciona como um esquema de premissa (a premiss
indent), mas como um esquema (indent) para um enunciado de forma “mas”
(a “but” statement).
(2) O autor de uma sentença condicional irrealizada (unfulfilled) do tipo:
“Se Aníbal tivesse marchado sobre Roma, ele a teria conquistado” não opera
de mãos vazias, como nos exemplos mencionados acima. Tal autor se compro-
mete com a falsidade de “ele marchou sobre Roma” e de “ele a conquistou”.
A sua asserção, consequentemente, não está muito longe de ser uma explicação
do motivo por que Aníbal não conquistou Roma. Não creio, apesar disso, que
a sentença: “Se ele tivesse marchado sobre Roma, ele a teria conquistado” seja
uma paráfrase da sentença: “A razão pela qual ele não a conquistou é que ele
não marchou sobre ela”. Não seria natural proferir a primeira como resposta
a uma pergunta da forma “por que” (a “why” question) ou a uma pergunta da
forma “por que não”, embora eu acredite que a sua verdade implique logica-
mente (entail) a verdade (sendo também logicamente implicada por ela) da
resposta de forma “porque” apresentada a uma determinada pergunta de forma
“por que não”.
(3) Neste artigo, eu nada disse acerca das diferentes variedades de infe-
rências, de enunciados hipotéticos e de explicações. (a) Em todos esses três
casos, nós podemos encontrar certos conjuntos de exemplares que constituem
truísmos lógicos, isto é, argumentos “válidos apenas em virtude da sua forma”,
bem como enunciados hipotéticos e explicações que são “verdadeiros apenas em
virtude da sua forma”. Como exemplos: “Jack e Jill caíram da colina, portanto
Jill caiu da colina”, “Se Jack e Jill caíram da colina, Jill caiu da colina” e “Jill
caiu da colina, pois Jack e Jill caíram ambos da colina”. (b) Ainda nesses
três casos, podemos encontrar exemplares que são válidos ou que são verdadeiros
em virtude de alguma convenção ou de uma disposição rígida, como aquelas
que produzem inferências, permissões de inferências (inference warrants) e expli-
cações relativas a questões de fatos de calendário ou a questões de fatos enxadrís-
ticos. (c) Em todos esses casos, finalmente, podemos ainda encontrar conjuntos
de exemplares cuja validade ou cuja verdade deve ser destacada por observação
“ experimento.
(4) Também nada disse, neste artigo, acerca de enunciados do tipo “*p im-
plica logicamente (entails) 'q'” ou “'q' segue-se (ou não se segue) de 'p'”. Tais
locuções são utilizadas, grosso modo, não por aqueles que estão participando
do jogo no campo, mas pelos espectadores e pelos críticos que se encontram na
platéia. Elas fazem parte do discurso (talk) dos lógicos, dos examinadores e dos
que fazem resenhas.
Também aqui é necessário assinalar que a codificação em “'p' implica logi-
camente (entails) *q' ” não é uma codificação inocente, ao passo que “*p implica-
€ 2,
ria logicamente 'q” ” seria inocente. Com efeito, poderíamos facilmente pensar (e é
CC Ea! 2) 3)
o que de hábito pensamos na vida real) que “'p' implica logicamente 'g' ” significa
(mean) que a conclusão verdadeira “q” foi legitimamente tirada da premissa ver-
dadeira “p”. Ora, dizer isso é bem diferente do que dizer que “Se houvesse um
enunciado verdadeiro que satisfizesse a prótase, dele poderíamos legitimamente
deduzir um enunciado verdadeiro. que satisfizesse a apódose”.
é
). LL. AUSTIN
OUTRAS MENTES
Tradução de Marcelo Guimarães da Silva Lima
* Traduzido do original inglês: “Other Minds”, publicado em Other Minds, Clarendon Press, Oxford, 1946.
OUTRAS MENTES
Este artigo foi escrito como a segunda parte de um simpósio, em sua tota-
lidade originariamente publicado nos Proceedings of the Aristotelian Society,
volume suplementar XX, em 1946. É aqui republicado sem alterações signifi-
cantes. A primeira parte, pelo Senhor — agora Professor — John Wisdom, era
uma síntese de sua longa e inconclusa série de artigos sobre “Outras Mentes”
que apareceram em Mind de 1940 em diante. Como esta série, incluindo a pri-
meira parte do simpósio, está agora disponível separadamente (Wisdom, J., “Other
Minds”, Basil Blackwell, 1952), o artigo do Prof. Wisdom não é aqui inserido.
Eu espero que, com o auxílio das notas que ajuntei, o artigo do Prof. Austin seja
inteiramente inteligível ainda que tirado do contexto. Se não for, a culpa é toda
minha. (O Editor inglês.) '
Sinto que concordo com muito, e especialmente com as partes mais importan-
tes, do que Wisdom escreveu, tanto em seu presente artigo, como na sua
proveitosa série de artigos sobre “Outras Mentes”, e outras matérias. Tenho tam-
bém a triste certeza de que é necessário ser ao menos um pouco tolo, para
adentrar temerariamente regiões já tão bem percorridas. Quando muito, eu espero
dar apenas uma contribuição relativa a uma parte do problema, onde, ao que
parece, um pouco mais de esforço pode ser de utilidade. Eu poderia apenas desejar
que fosse uma parte mais central, Fato é que me senti incapaz de abordar o
centro enquanto ainda embaraçado na periferia. E o próprio Wisdom pode talvez
encarar com simpatia uma política de atacar questões de detalhes para evitar
embaraços maiores.
Wisdom, sem dúvida de modo correto, considera a dificuldade a ser
posta em discussão a partir de questões tais como “Como sabemos que outra
pessoa está zangada?” Ele também cita outras formas da questão: “Nós (alguma
vez) conhecemos”, 'Podemos conhecer?”, “Como podemos conhecer?” os pensa-
mentos, sentimentos, sensações, a mente, etc., de outra criatura, e assim por
diante. Entretanto, estou propenso a acreditar ser cada uma destas demais ques-
tões bastante diferente da primeira, que sozinha foi suficiente para preocupar-me
e à qual eu devo me ater.
O método Wisdom é de prosseguir perguntando: É de modo semelhante
âquele pelo qual sabemos que uma chaleira está fervendo, ou que há uma reunião
na casa do vizinho, ou o peso da lanugem do cardo? Entretanto me pareceu que,
à medida que prosseguia, ele talvez não estivesse dando uma avaliação de todo
1! Flew, Antony (org.) — Logic and Language (First and Second Series) Anchor Books,
Doubleday & Co., Inc., N. York, 1965. (N. do T.)
94 AUSTIN
exata (talvez apenas por muito apressada) daquilo que deveríamos responder se
indagados “Como você conhece?” estas coisas. Por exemplo no caso de uma reu-
nião, dizer que soubemos dela “por analogia” seria, quando muito, uma resposta
muito sofisticada (e uma resposta para a qual alguns sofisticados poderiam pre-
ferir a frase 'por indução”) e além disso, ao que parece, incorreta, pois, penso eu,
nós não alegamos conhecer por analogia, mas apenas raciocinar por analogia.
Assim, fui levado a refletir sobre o tipo de coisa que na realidade acontece quando
se pergunta a pessoas comuns: “Como você sabe”
Muito depende, obviamente, do tipo de assunto a respeito do qual nos é
feita a pergunta “Como você sabe?” ce certamente devem existir muitos tipos de
casos que cu simplesmente não devo cobrir, ou não devo cobrir em detalhe.
O tipo de enunciado que parece mais simples e ao mesmo tempo, a julgar pelas
aparências, não dessemelhante de “Ele está zangado”, é um enunciado do tipo “Isto é
um pintassilgo' (*A chaleira está fervendo”) —— um enunciado de um particular e
corrente fato empírico. Este é o tipo de enunciado que, ao fazê-lo, somos passíveis
de sermos interrogados “Como você sabe?” e do tipo que, ao menos em algumas
ocasiões, nós afirmamos não saber, mas apenas acreditar. Pode servir de pretexto
a isso ou áquilo.
Quando fazemos uma afirmação do tipo "Há um pintassilgo no jardim” ou
“Ele está zangado”, há um sentido no qual queremos dizer que temos certeza
disso ou sabemo-lo (Mas eu pensava que você sabia”, dizemos em reprovação),
embora o que queremos dizer num sentido similar c mais estrito é apenas que
assim acreditamos. Deste modo, ao fazer tal afirmação, somos diretamente expos-
tos às questões: |) "Você sabe que há?” “Voce sabe que ele é” 2) “Como você
sabe?” Se, em resposta à primeira questão dizemos “sim”, podemos então nos
defrontar com a segunda questão, c mesmo à primeira questão sozinha é comu-
mente tomada como um convite para dizer não meramente se, mas também como
sabemos. Mas, por outro lado, nós podemos perfeitamente dizer 'não” em resposta
à primeira questão, Podemos dizer: "Não, mas eu acho que há”, “Não, mas cu
acredito que cle é. Pois a implicação de que conheço ou tenho certeza não é
rigorosa: nós não somos todos (extrema ou suficientemente) educados no rigor.
Se assim procedemos, ficamos então expostos à questão, que pode também nos
ser apresentada sem preliminares, “Por que você acredita nisto” (ou “O que o faz
pensar assim”, “O que o leva a tal suposição”, etc.).
Há uma singular diferença entre as duas formas do repto: “Como você sabe'”
e 'Por que você acredita” Aparentemente nunca perguntamos “Por que você sabe”
ou “Como você acredita?” E nisto, bem como noutros aspectos a serem levantados
mais tarde, não meramente palavras como “supor”, “assumir”, etc., mas também as
expressões “estar certo” e “estar seguro”, seguem o exemplo de “acreditar”, não
de “saber”.
Uma ou outra questão — “Como você sabe?”, “Por que você acredita” —
apenas pode ser corretamente feita por uma curiosidade respeitosa, por motivo
de um genuíno desejo de aprender. Mas, por outro lado, elas podem ambas serem
feitas como questões dirigidas contra alguém e, assim sendo, uma nova diferença
surge. “Como você sabe?” sugere que talvez você não saiba de qualquer modo,
enquanto 'Por que você acredita” sugere que talvez você não deva acreditar. Não
há sugestão? de que você não deva saber ou de que você não acredita. Se a
resposta a “Como você sabe” ou “Por que você acredita?” é considerada insatis-
2 Mas existe em casos e sentidos especiais. isto é, por exemplo, se alguém participou uma
informação ultamente secreta, você pode perguntim com desugrado 'Como você sabe”
OUTRAS MENTES 9
tm
fatória pelo inquiridor, ele procede bem diversamente nos dois casos. Sua próxima
réplica será, por um lado, algo como: “Então você não sabe nada a respeito”, ou
'Mas isto não prova nada: neste caso você na realidade não o conhece”, por outro
lado, algo como “Esta é uma evidência demasiado pobre para tanto: você não
deveria acreditar nisso tendo-a apenas por base”.
A “existência” de sua alegada crença não é posta em dúvida, mas é posta
em dúvida a “existência” de seu alegado conhecimento. Se nos apraz dizer que
'Eu acredito”, e do mesmo modo “Estou certo" ou “Estou seguro”, são descrições
de atitudes ou estados subjetivos, mentais ou cognitivos, ou coisas semelhantes,
o mesmo não pode então ser dito de “Eu sei”, ou pelo menos não apenas isto:
esta expressão funciona diferentemente na conversação.
'Mas é claro”, dir-se-á, “Eu sei” é obviamente mais que isso, mais que uma
descrição de meu próprio estado. Se sei, não posso estar errado. Você poderá
sempre demonstrar que cu não sei, fazendo ver que estou errado, ou posso estar
errado; ou que eu não sabia, mostrando que poderia ter estado errado. Este é
o modo no qual conhecer difere até mesmo de “estar tão certo quanto possível”.
Isto deverá ser considerado oportunamente; de início devemos atentar para os
tipos de respostas que podem ser dadas à questão “Como você sabe”
Supondo que eu tenha dito: “Há uma garça no fundo do jardim”, e você
pergunte “Como você sabe?” Minha resposta pode tomar as mais diversas formas:
a) Eu fui criado nos pantanais.
b) Eu a escutei.
c) O caseiro contou-me.
d) Por seu grito.
e) A partir do ressoar do seu grito.
fp Por que ela está gritando.
Nós podemos dizer, aproximadamente, que as três primeiras são respostas
às questões: “Como você veio a saber”, “Como você está em condições de saber”,
ou “Como você sabe”, entendidas em sentidos diversos. Enquanto as outras três
são respostas a “Como você pode afirmá-lo?”” entendida em sentidos diversos.
Isto é, eu posso tomá-lo como indagando:
|) Como cheguei a estar em condições de saber a respeito das garças?
2) Como cheguei a estar em condições de dizer que há uma pgarça aqui
e agora”?
3) Como identifico (posso identificar) garças?
4) Como identifico (posso identificar) esta coisa presente aqui e agora como
uma garça?
O que está implícito é que para poder saber que isto é uma garça me
foi necessário:
|) Ter sido educado num meio onde pude me familiarizar com as garças.
2) Ter uma determinada oportunidade no caso presente.
3) Ter aprendido a reconhecer ou identificar as garças.
4) Conseguir reconhecer ou identificar isto como uma garça.
D e 2) significam que minhas experiências devam ter sido de certos tipos,
que eu deva ter tido certas oportunidades, 3) e 4) significam que eu devo ter
empregado um certo tipo e uma certa soma de perspicácia. *
3 Uma variante interessante no caso de conhecer seria *Você não deve dizer (você não tem
direito de dizer) que não conhece tal coisa de modo algum”. Mas, é claro, isto é apenas super-
ficialmente similar a *Você não deveria acreditar nisto”: você deve dizer que acredita, se
realmente acredita, não importa quão pobre seja a evidência.
4 “Eu sei, eu sei, já vi isto uma centena de vezes, não precisa repetir” acusa uma superabun-
96 AUSTIN
As questões levantadas em 1) e 3) dizem respeito a nossas experiências
passadas, nossas oportunidades e nossas atividades empregadas no aprendizado
da discriminação ou discernimento, e, ligados a ambas, a correção, ou seu con-
trário, dos hábitos linguísticos adquiridos. Destas experiências anteriores depende
o conhecimento melhor ou pior que teremos das coisas, do mesmo modo que,
em casos diferentes mas cognatos de “conhecimento”, é destas anteriores expe-
riências que dependerá o grau de profundidade ou de intimidade do nosso conhe-
cimento: conhecemos uma pessoa, de vista ou intimamente, uma cidade, de cima
a baixo, uma prova, de trás para a frente, um trabalho, em todos os detalhes,
um poema, palavra por palavra, um francês, quando vemos um. “Ele não sabe
o que é o amor (o desejo real), quer dizer que ele não teve suficiente experiência
para ser capaz de reconhecer este objeto e distingui-lo de outros superficialmente
semelhantes. De acordo com o grau de conhecimento que temos de determinada
coisa, e de acordo com o tipo de coisa, eu posso reconhecê-la, descrevê-la, re-
produzi-la, desenhá-la, recitá-la, aplicá-la, e assim por diante. Enunciados como
“Eu sei muito bem que ele não está zangado” ou “Sei muito bem que não é algodão”,
embora, é claro, relativo ao presente caso, atribuem a excelência do conhecimento
à experiência passada, assim como o faz a expressão: *Você já tem idade bastante
para conhecer melhor”. *
Em contraste, as questões levantadas em 2) e 4) dizem respeito às circuns-
tancias do presente caso. Aqui podemos perguntar *Quão definidamente você
conhece” Você pode conhecer seu objeto com certeza, muito positivamente,
oficialmente, da própria fonte, de fontes incontestáveis, apenas indiretamente,
e assim por diante.
Algumas respostas à questão “Como você sabe?” são, curiosamente, descritas
como razões para o conhecimento" ou 'razões para saber" ou Mesmo algumas
vezes “razões por que sei”, a despeito do fato de não perguntarmos 'Por que você
sabe?” Ora, certamente, “razões” devem agora ser dadas, de acordo com o dicioná-
rio, em resposta à questão “Por quê?” do mesmo modo como de fato apresentamos
razões para crer em respostas à pergunta 'Por que você acredita” No entanto,
há aqui uma distinção a ser feita. “Como você sabe que a IG Farben trabalhou
para a guerra?” 'Eu tenho todas as razões para saber — servi na comissão de
investigações”. Aqui dar minhas razões para o conhecimento é dizer como eu me
encontrei em condições de saber. Do mesmo modo usamos as expressões “Eu sei
porque o vi fazendo” ou “Sei porque investiguei a respeito há apenas dez minutos”,
estas são similares a “É isto mesmo: é plutônio, como você sabia” “Estudei um
bocado de física na universidade, antes de dedicar-me à filologia”, ou “Eu deveria
saber: eu estava a uns poucos metros de distância”. Razões para acreditar, por
outro lado, são normalmente um caso bem diverso (um conjunto de sintomas,
argumentos em favor, e assim por diante), embora existam casos onde damos
como razões de crença o fato de termos estado em condições de conseguir boas
evidências: “Por que você acredita que ele estivesse mentindo” “Eu o observava
bem de perto”.
Entre os casos nos quais damos nossas razões para o conhecimento de
dância de oportunidades; “distinguir uma espátula de um serrote' requer um mínimo de pers-
picácia, no reconhecimento ou classificação. 'Tão bem como conheço a palma de minha
mão”, diz-se, para caracterizar algo de que eu devo ter tido experiência e que devo ter
aprendido a discriminar.
5 Os advérbios que podem ser inseridos em “quão... você sabe? são em pequeno número
e pertencem a um número ainda menor de classes. Não existe praticamente coincidência algu-
ma com aqueles que podem ser inseridos em 'quão... você acredita” (firmemente, since-
ramente, genuinamente, etc.).
OUTRAS MENTES 97
coisas, uma classe importante e especial é formada por aqueles nos quais citamos
autoridades. Se questionado “Como você sabe que a eleição é hoje? estou apto
a responder 'Li no The Times”, e se questionado “Como você sabe que os persas
foram derrotados em Maratona? estou apto a responder “Heródoto afirma ex-
pressamente que eles o foram”. Nestes casos 'saber' é corretamente utilizado:
sabemos “de segunda mão” quando podemos citar uma autoridade que estava em
condições de saber (possivelmente ela mesma também apenas de segunda mão). é
A afirmação de uma autoridade me faz ciente de algo, capacita-me a conhecer
algo, que eu não poderia de outro modo saber. É uma fonte de conhecimento.
Em muitos casos, nós contrastamos tais razões para o conhecimento com outras
razões de crença nas mesmas coisas: “Mesmo se não o soubéssemos, mesmo se
cle não tivesse confessado, a evidência contra ele seria suficiente para enforcá-lo”.
E evidente, claro está, que este tipo de conhecimento é “passível de engano,
devido à incerteza do testemunho humano (preconceitos, erro, mentira, exagero,
etc.). Não obstante, a ocorrência de uma peça de testemunho humano altera
radicalmente a situação. Nós dizemos: “Jamais saberemos quais foram os senti-
mentos de César na batalha de Filipos”, pois ele não escreveu um relato a respeito:
se ele O tivesse feito, dizer então 'Jamais saberemos” não seria a mesma coisa,
nem mesmo que pudéssemos ainda talvez achar razões para dizer: 'Não parece
muito plausível, realmente nós jamais saberemos a verdade”, e assim por diante.
Naturalmente, somos judiciosos; nós não dizemos que conhecemos (de segunda
mão) se existe qualquer razão especial para duvidar do testemunho: mas há que
haver alguma razão. É fundamental na conversação (como em outras matérias)
que tenhamos o direito de confiar nos demais, exceto no caso em que haja alguma
razão concreta para a desconfiança. Acreditar nas pessoas, aceitar testemunhos,
é um dos aspectos principais, se não o principal, da conversação. Nós não dispu-
tamos jogos (competitivos), exceto acreditando que nosso oponente tenta vencer:
se ele assim não proceder, não é um jogo, mas algo diferente. Assim, nós não
conversamos (descritivamente) com as pessoas, exceto acreditando que elas tentam
transmitir informação. ?
É agora o momento de nos voltarmos à questão “Como você pode afirmá-
lo”, isto é, aos sentidos 2) e 4) da questão “Como você sabe?” Se você perguntou
Como você sabe que é um pintassilgo?” eu posso responder “A partir do seu
comportamento”, “Pelo colorido da plumagem”, ou, mais detalhadamente, *Por sua
cabeça vermelha”, “A partir de seus hábitos alimentares”. Isto é, eu indico, ou até
certo ponto exponho com algum grau de precisão, as características da situação
que me capacitam reconhecê-la como uma a ser descrita do modo como o iz.
Por causa disso você pode ainda objetar em muitos sentidos minha afirmação de
que é um pintassilgo, sem de maneira alguma “contestar meus fatos”, que é um
estágio posterior a ser examinado mais tarde. Você pode objetar:
1) Mas pintassilgos não têm cabeça vermelha.
la) Mas este não é um pintassilgo; a partir de sua própria descrição posso
reconhecer que é um cardeal-amarelo.
é Saber de segunda mão ou por uma autoridade, não é o mesmo que saber indire-
tamente' não importa o que possa querer dizer esta difícil e talvez artificial expressão. Se
um assassino 'confessa”, então, seja qual for nossa opinião sobre o valor da confissão”, não
podemos dizer 'nós (apenas) sabemos indiretamente que ele cometeu o crime”, nem podemos
falar assim quando uma testemunha, de confiança ou não, declarou ter visto a pessoa
cometer o crime. Consegiientemente, não é igualmente correto dizer que o próprio assassino
sabe “diretamente” que cometeu o crime, seja lá o que possa querer dizer “saber diretamente”.
7 Confiança na autoridade dos outros é também fundamental, em várias questões específicas,
por exemplo, para a corroboração e a correção de nosso próprio emprego das palavras, que
aprendemos dos outros.
98 AUSTIN
2) Mas isto não é suficiente, muitos outros pássaros têm a cabeça vermelha.
O que você disse nada prova. Apesar de tudo que você sabe, poderia perfeitamente
ser um pica-pau.
As objeções 1) e la) afirmam que, de um modo ou de outro, eu sou evi-
dentemente incapaz de reconhecer pintassilgos. Pode ser la) — que eu não tenha
aprendido o nome correto (costumeiro, popular, oficial) a ser aplicado à criatura
((Quem lhe ensinou a usar a palavra “pintassilgo”?);º ou pode ser que meus
poderes de discernimento, e consegientemente de classificação, nunca tenham
enfrentado diretamente tais problemas, e por isso me sinta confuso quanto ao
procedimento empregado para reconhecer as várias espécies de pequenos pássaros
ingleses. Ou, é claro, pode ser um pouco das duas coisas. Ao fazer este tipo
de acusação, você tenderia talvez não tanto a usar a expressão “Você não sabe”
ou “Você não deveria dizer que sabe”, mas, antes, 'Mas isto não é um pintassilgo
(pintassilgo)' ou 'Então você está errado ao chamá-lo de pintassilgo”. Mas ainda,
se indagado, você com certeza negaria a afirmação de que eu sei que é um
pintassilgo.
No caso da objeção 2) é que você estaria mais inclinado a dizer imediata-
mente “Então você não sabe”. Porque isto não o prova, não é suficiente para
prová-lo. Aqui surgem vários pontos importantes:
a) Se você diz: “isto não é suficiente”, então você deve ter em mente uma
insuficiência mais ou menos definida. “Para ser um pintassilgo é necessário, além
da cabeça vermelha, ter também a marca dos olhos característica” ou “Como
você sabe que não é um pica-pau? Pica-paus também têm a cabeça vermelha”.
Se não há insuficiência definida à qual você esteja ao menos preparado para se
ater, se contra-arrestado, então é bobagem (é desmerecedor) continuar dizendo
“Isto não é suficiente”.
b) O suficiente quer dizer o suficiente: não quer dizer tudo. Suficiente signi-
fica suficiente para mostrar que (dentro de limites razoáveis e para os fins e pro-
pósitos atuais) não pode ser outra coisa, não há lugar para uma descrição alter-
nativa, concorrente. Não significa, por exemplo, suficiente para mostrar que não
é um pintassilgo empalhado.
c) “A partir de sua cabeca vermelha” dado como resposta a “Como você
sabe?” requer cuidadosa consideração: em particular difere essencialmente de
Porque tem uma cabeça vermelha”, que é também algumas vezes dada como
resposta a “Como você sabe”, e é comumente dado como resposta a 'Por que
você acredita” E muito mais aparentado a tais obviamente “vagas” respostas co-
mo: “A partir do colorido da plumagem” ou “A partir de seu comportamento”, do
que parece à primeira vista. Nossa pretensão, ao dizer que sabemos (isto é,
que podemos afirmá-lo), é de reconhecer; e o reconhecimento, ao menos num
caso deste tipo, consiste em ver, ou perceber de outro modo, uma característica
ou características que temos certeza serem similares a algo notado (e geralmente
nomeado) anteriormente, em alguma ocasião anterior em nossa experiência. Mas
aquilo que vemos, ou percebemos de algum outro modo, não é necessariamente
descritível em palavras, ainda menos descritível em detalhes e em palavras não
º Nomear erradamente não é uma questão trivial ou divertida. Se assim procedo, eu deverei
confundir os outros, e deverei também entender crroncamente as informações que recebo
dos outros. “Claro que sabia perfeitamente tudo sobre suas condições, mas nunca pensei
que fosse diabetes — pensava que era câncer e todos os autores concordam que é incurável
— se úpenas tivesse sabido que era diabetes, pensaria prontamente em insulina”. Saber o que
mma coisa é, é em grande parte, saber como nomeá-la, e como nomeá-la corretamente,
OUTRAS MENTES V9
comprometidas, e por quem quer que seja. Quase todo mundo pode reconhecer
um olhar hostil ou o cheiro do alcatrão, mas poucos podem descrevê-lo descompro-
missadamente, isto é, de outro modo que “hostil” ou “de alcatrão”; muitos podem
reconhecer e com certeza vinho do Porto de diferentes vinhedos, modelos de
diferentes casas de moda, tons de verde, modelos de automóveis pela traseira, e
assim por diante, sem ser capazes de dizer “(Como podem reconhecê-los”, isto é,
sem poder “Ser mais explícito a respeito” — eles apenas podem dizer que iden-
tificam “pelo gosto”, “a partir do corte”, e assim por diante. Desse modo, quando
digo que posso identificar o pássaro “A partir de sua cabeça vermelha”, ou que
reconheço um amigo 'por seu nariz”, eu assumo que existe algo peculiar a res-
peito da cabeça vermelha ou do nariz, algo peculiar a pintassilgos ou a meu ami-
go, pelo qual você pode (sempre) identificá-los. Em virtude do reduzido número
e da rudeza das palavras classificatórias em qualquer linguagem, comparada ao
infinito número de caracteres reconhecíveis, ou que poderiam ser destacados c
reconhecidos em nossa experiência, não é de admirar que fregiientemente retorne-
mos às frases iniciadas com “A partir de” e “Pelo”, e que não sejamos capazes de
dizer adicional e precisamente, como, podemos reconhecer. Freqientemente co-
nhecemos coisas bastante bem, enquanto raramente somos capazes de dizer de
algum modo “a partir de” que as conhecemos, e ainda menos dizer o que há de
tão especial a respeito delas. Qualquer resposta iniciada por “A partir de” e “Pelo”
tem intencionalmente esta salvadora 'vagueza'. Mas, ao contrário, uma resposta
iniciada por Porque” é perigosamente definida. Quando digo que sei que é um
pintassilgo Porque tem a cabeça vermelha” quero dizer que tudo o que notei,
ou que precisava notar a respeito, é que sua cabeça é vermelha (nada de espe-
cial ou peculiar quanto à tonalidade, forma, etc. da mancha). Assim, isso quer
dizer que não existe outro pequeno pássaro inglês que tenha qualquer tipo de
cabeça vermelha que não o pintassilgo.
d) Sempre que digo saber, estou sujeito a ser interpretado como sus-
tentando, num certo sentido apropriado ao tipo de afirmação (e aos propósitos
presentes), ser capaz de prová-lo. No tipo de caso atual, muito comum, 'Provar'
parece significar dizer quais as características do presente caso suficientes para
estabelecê-lo como um caso corretamente descritível do modo que o fizemos e
não de qualquer outro modo, relevantemente diverso. De um modo geral: casos
em que posso 'provar” são aqueles em que usamos a fórmula “porque”: casos em
que “sabemos mas não podemos provar” são aqueles onde nos refugiamos nas tór-
mulas *A partir de” e 'Pelo”.
Acredito que os pontos até aqui abordados são aqueles mais genuína e nor-
malmente levantados pela questão “Como você sabe?” Mas existem outras ques-
tões adicionais algumas vezes alçadas sob a mesma rubrica, e especialmente pelos
filósofos, que podem ser consideradas mais importantes. Estas são as preocupa-
ções a respeito da “Realidade” e a respeito de estar “Certo e seguro”.
Até agora, ao desafiar-me com a questão “Como você sabe? você não foi
interpretado como tendo questionado minhas credenciais do modo como apre-
sentadas, embora você tenha perguntado quais eram, nem como tendo questionado
meus fatos (os fatos nos quais me baseio para provar que é um pintassilgo), em-
bora você me tenha pedido para especificá-los. É este tipo posterior de desafio que
pode agora ser feito, um desafio à credibilidade de nossas supostas “credenciais”
e nossos supostos 'fatos'. Você pode perguntar: 1) mas como você sabe que é um
pintassilgo real? como você sabe que não está sonhando? ou afinal não poderia
ser um pintassilgo empalhado? e a cabeça é realmente vermelha? não poderia
ter sido manchada, ou não há talvez ali uma luz estranha refletida? 2) mas você
está seguro de que é o tipo exato de vermelho para um pintassilgo? você tem
100 AUSTIN
certeza de que não é demais alaranjado? não é talvez uma nota demasiado estri-
dente para uma garça?
Estes dois tipos de preocupação são distintos, embora muito provavelmente
possam ser combinados ou confundidos ou possam se entrelaçar: por exemplo,
“você tem certeza de que é mesmo vermelho?” pode significar, “você está certo
que não é laranja? ou ainda 'você está certo de que não é apenas a iluminação
peculiar”
I REALIDADE
Se você me pergunta “Como você sabe que é um bastão real”, “Como você
sabe que o bastão é realmente torto” ('Você tem certeza de que ele está real-
mente zangado?”), você está então questionando minhas credenciais ou meus fatos
(é freqientemente problemático saber qual dos dois) de um modo especial. De
vários modos especiais reconhecidos, dependendo essencialmente da natureza do
assunto que declarei conhecer, tanto minha experiência atual como a coisa atual-
mente em consideração (ou indeterminadamente qual deles) pode ser anormal,
espúrio. Posso estar sonhando, em delírio, sob influência de mescal, etc. ou a
coisa pode ser empalhada, pintada, simulada, artificial, ilusão, fantasia, brinquedo,
suposição, fingimento, etc., ou então existe ainda uma incerteza (é frequentemente
deixado em aberto) sobre quem deva ser inculpado, eu ou a coisa — miragens,
imagens refletidas, estranhos efeitos de iluminação, etc.
Estas dúvidas são todas apaziguadas por meio de procedimentos reconhecidos
(reconhecidos mais ou menos toscamente, é claro) apropriados ao tipo de caso
particular. Existem procedimentos reconhecidos de distinção entre o sonho e a
vigília (de que outro modo poderíamos saber empregar ou opor estas palavras”),
e de distinção entre um animal empalhado e um vivo, e assim por diante. A
dúvida ou questão 'mas é real?” tem sempre (tem que ter) uma base especial,
deve existir alguma “razão para sugerir que não é real no sentido de um procedi-
mento específico, ou um limitado número de procedimentos específicos, que
sugerem que esta experiência ou esta coisa podem ser espúrias. Algumas vezes
(usualmente) o contexto esclarece qual seja a sugestão: um pintassilgo pode ser
empalhado, mas não há insinuação de que seja uma miragem, o oásis pode ser
uma miragem mas não há insinuação de que seja empalhado. Se o contexto
não esclarece, sou então autorizado a perguntar: “Como assim? Você quer dizer
que pode ser empalhado ou o quê? o que é que você está sugerindo?” O ardil
dos metafísicos consiste em perguntar “Isto é uma mesa real? (um tipo de objeto
que não tem um modo evidente de ser falsificado) e não especificar ou delimitar
o que há de errado com ela, de modo que eu me sinto embaraçado a respeito
de “Como provar” que isto é uma mesa real.” É o emprego da palavra 'real” deste
modo que nos leva a supor que 'real” tem um único significado ((O mundo real”,
'Os objetos materiais”) altamente enigmático e profundo. Ao contrário, nós deve-
ríamos insistir sempre em especificar com qual “real” está sendo feito o contraste
? Os prestidigitadores também tiram proveito disso. 'Algum cavalheiro, por gentileza, gostaria
de certificar-se de que este é um chapéu perfeitamente comum?”
Isto nos deixa desconcertados e inquietos — timidamente concordamos que parece estar
tudo bem, enquanto, ao mesmo tempo, cônscios de que não temos a menor idéia contra o
que devemos nos precaver.
OUTRAS MENTES 101
e não o que eu deverei mostrar que ele é para mostrar que é “real”: e assim proce-
dendo, encontraremos usualmente alguma palavra específica, menos fatal, apro-
priada ao caso particular, para substituir “real”.
Saber que é um pintassilgo “real não está em questão quando digo que sei
que é um pintassilgo, apenas precauções razoáveis são tomadas. Mas quando
isto é posto em questão, em casos especiais, então eu certifico ser um pintassilgo
real de maneira essencialmente similar àquela por mim utilizada quando me
certifiquei de que era um pintassilgo, embora a corroboração por outras teste-
munhas tenha em alguns casos um papel especialmente importante. Mais uma
vez as precauções não podem ser mais que razoáveis, relativas aos propósitos e
intenções atuais, e outra vez, nos casos especiais, assim como os casos comuns,
duas outras condições vigoram.
a) Eu de qualguer modo não sei sempre se é ou não é um pintassilgo.
Ele pode voar antes que eu tenha oportunidade de examiná-lo, ou sem que eu
o examinasse bastante detalhadamente. Isto é muito simples, ainda assim muitos
estão inclinados a argumentar que, porque eu algumas vezes não sei ou não posso
descobrir, não posso nunca.
b) *Certificar-se de que é rea!” não é uma prova contra os milagres ou
anomalias da natureza, maior do que qualquer outra coisa que o seja ou, sub specie
humanitatis, possa sê-lo. Se nós nos certificamos de que é um pintassilgo e um
pintassilgo real, e então mais tarde ele faz algo anormal (explode, citando a Sra.
Woolf, ou algo parecido), não dizemos que nos enganáramos ao afirmá-lo um
pintassilgo, nós não sabemos o que dizer. As palavras literalmente nos traem:
“que é que você teria dito?”, “que é que diremos agora”, 'que é que você diria”
Quando eu me certifiquei de que era um pintassilgo real (e não um pássaro
empalhado, ou corroborado por pessoas pouco interessadas no caso, etc.) então eu
não estou 'predizendo” ao dizer que é um pintassilgo real, e em certo sentido é bem
razoável afirmar que não posso ser desmentido, aconteça o que acontecer. Parece-
me um sério engano supor que a linguagem (ou a maior parte da linguagem, a
linguagem sobre as coisas reais) é “preditiva” de um modo tal que o futuro possa
sempre desmenti-la. O que o futuro pode fazer sempre é nos obrigar a rever nossas
idéias sobre pintassilgos ou pintassilgos reais ou sobre qualquer outra coisa.
Talvez o procedimento normal da linguagem possa ser esquematizado como
se segue. Primeiro, providencia-se para que ao experimentar um complexo de
características C digamos então “Isto é C” ou “Isto é um C”. Subsegiientemente,
a ocorrência tanto do C inteiro como de uma sua parte significante e característica
é, em uma ou muitas ocasiões, acompanhada ou seguida, em circunstâncias
definidas, por outra característica, ou conjunto de características especiais e distin-
tivas, o que faz parecer desejável a revisão de nossas idéias: de tal modo que
fazemos uma distinção entre “Isto parece um C, mas é na realidade apenas uma
imitação, etc.' e “Isto é um C real (vivo, genuíno, etc.). Daí em diante
podemos apenas nos assegurar de que é um C real, ao nos assegurarmos de que
- a característica especial ou conjunto de características especiais está presente
nas circunstâncias apropriadas. A antiga expressão “Isto é um C” tenderá, como
antes, a falhar em traçar qualquer distinção entre “real, vivo, etc.' e “imitação,
empalhado, etc.” Se a característica especial distintiva é tal que não necessita
manifestar-se em nenhuma circunstância definida (na aplicação de algum teste
específico, após algum limitado lapso de tempo), então não é uma característica
apropriada para servir de base à distinção entre “real” e “imitação, imaginário,
etc.” Tudo o que podemos afirmar é “alguns €C são, outros não são, alguns fazem,
outros não fazem; e pode ser muito interessante ou importante saber quais deles
são, quais não são, quais fazem, quais não fazem, mas todos eles são C, verda-
102 AUSTIN
deiros C igualmente”.!º Porém se a característica especial é tal que deva aparecer
em circunstâncias (mais ou menos) definidas, então “Isto é um C verdadeiro”
não é necessariamente preditivo: podemos em casos favoráveis certificá-lo.!!
Il. CERTEZA E SEGURANÇA
O outro modo de questionar minhas credenciais e provas (Você tem certeza
de que é o tipo exato de vermelho?” é muito diferente. Aqui nos insurgimos contra
os pontos de vista de Wisdom sobre “a peculiaridade do conhecimento que
um homem tem de suas próprias sensações”. A respeito do que, ele nos encaminha
a “Other Minds VII (Mind, vol. LII, N. S. n.º 207), a uma passagem da qual
eu penso discordar.
Wisdom diz ali que, excluindo de consideração casos como “Estar apaixo-
nado” e outros casos que “envolvem previsão” e considerando enunciados como
“Estou sofrendo dor” que, em sentido preciso, não envolvem previsão, então um
indivíduo não pode “Estar errado” ao fazê-lo, no sentido mais privilegiado de
estar errado, isto é, embora lhe seja certamente possível mentir (de tal modo que
“Estou sofrendo dor' possa ser falso) e embora lhe seja possível nomear
erradamente, isto é, utilizar, digamos, a palavra “sorver' ao invés de sofrer”,
fato que pode confundir as outras pessoas, mas não a si mesmo, seja porque ele
regularmente emprega 'sorver' por “sofrer”, ou porque tal uso foi uma aberração
momentânea como quando chamo João de “Alberto” mesmo sabendo muito bem
ser ele João — embora lhe seja possível estar “errado” nestes dois sentidos, não
lhe é possível estar errado no sentido mais privilegiado. Ele diz ainda que, com
esta classe de enunciados (chamados em alguma outra parte 'enunciados de
sensação”), saber diretamente que se está sofrendo dor é “dizer que se está so-
frendo, e dizê-lo com base em estar sofrendo dor”, e ademais, que a peculiaridade
dos enunciados de sensação fundamenta-se no fato de que “quando eles são cor-
retos e feitos por X, então X sabe que são corretos”.
Isto me parece um erro, embora seja um ponto de vista que, em formas
mais ou menos sutis, tem constituído a base de grande parte da filosofia. É
talvez o pecado original (a maçã de Berkerley, a árvore no quadrilátero demarcado)
pelo qual o filósofo expulsa a si mesmo do jardim do mundo em que vivemos.
Muito bem detalhado, este é o ponto de vista segundo o qual, ao menos
e apenas em certos tipos de casos privilegiados, eu posso dizer *O que vejo
(ou sinto de algum outro modo)”, quase literalmente. Deste ponto de vista, se
eu dissesse “eis aqui algo vermelho” então poderia ser considerado como querendo
dizer ou afirmando que isto é realmente uma coisa vermelha, uma coisa que
pareceria vermelha numa luz normal, ou a outras pessoas, ou ainda amanhã
e talvez mesmo mais que isso: sendo que tudo isto “envolve predição” (senão tam-
bém um substrato metafísico). Mesmo se eu dissesse “Eis aqui algo que parece
vermelho”, poderia ainda ser considerado como querendo dizer ou afirmando que
io A inconveniência de alguns Snarks serem Boojums. (Criaturas imaginárias do poema de
Lewis Carrol “The Hunting of the Snarks”. N. do T.)
N Algumas vezes, com base na nova característica especial, nós distinguimos não entre “Cs'
e “Cs reais”, mas, antes, entre “Cs' e “Ds”. Há uma razão para preferir um procedimento a
outro: todos os casos onde empregamos a fórmula 'realº apresentam (complicadas e sinuosas)
semelhanças, como o fazem todos os casos onde empregamos “propriamente”, palavra que
funciona em muitos casos como “real”, e não é nem mais nem menos profunda.
OUTRAS MENTES 103
parece vermelho também aos outros, e assim por diante. Se entretanto eu me limito
a afirmar “Eis aqui algo que me parece vermelho agora”, então, ao menos não
posso estar errado (no sentido mais privilegiado).
Entretanto, há uma ambigiidade em “Algo que me parece vermelho agora”.
Talvez isto possa ser destacado em itálico, embora não seja na verdade tanto
um problema de ênfase como de tom e expressão, de confiança e hesitação.
Confronte “Eis aqui algo que (definidamente) me parece (de todo jeito) vermelho"
com “Eis aqui algo que me parece (como que) vermelho (eu diria)”. No primeiro
caso estou confiante de que, não importa como possa parecer aos outros, seja
lá como possa “ser na realidade”, etc., certamente me parece vermelho no
momento. No outro caso não estou de modo algum confiante: parece averme-
lhado, mas jamais vi algo parecido antes, absolutamente não posso descrevê-lo
— ou, não sou muito bom no reconhecimento de cores, nunca me senti muito
à vontade com elas, sempre me dei mal a respeito. É claro, isto soa tolo no
caso de *vermelho”: vermelho é de tal modo óbvio, todos nós o reconhecemos
ao vê-lo, é inconfundível. !? Casos em que não deveríamos nos sentir à vontade
com o vermelho não são fáceis (embora não impossíveis) de encontrar. Mas
tomemos 'magenta”: 'Parece-me quase como 'magenta” mas neste caso eu não
me sentiria muito seguro para poder distinguir magenta de malva ou de helio-
trópio. Claro que sei que é de certo modo apurpurado, mas não sei realmente
dizer se é magenta ou não: simplesmente não posso ter certeza”. Ao falar assim,
não estou aqui interessado em excluir considerações a respeito de como parece
aos outros (me parece) ou considerações sobre qual seja a sua cor real (parece),
o que estou excluindo é a minha certeza ou segurança a respeito do que aquilo
me parece. Tomemos sabores ou sons, como exemplo são bem melhores que
as cores, pois nunca nos sentimos tão à vontade com nossos demais sentidos do
que como com nossa visão. Qualquer descrição de um sabor ou som ou odor
(ou cor), ou de um sentimento envolve (é) dizer que é como outro ou outros
que experimentamos anteriormente; toda palavra descritiva é classificatória,
envolve reconhecimento e neste sentido memória, e apenas quando empregamos
tais palavras (ou nomes ou descrições, o que dá no mesmo) estamos conhecendo
alguma coisa, ou acreditando em algo. Mas a memória e o reconhecimento são
frequentemente incertos e falíveis. Dois modos bastante diversos de hesitação
podem ser distinguidos:
a) Tomemos o caso no qual provamos um certo sabor. Podemos dizer “Eu
simplesmente não sei o que é, nunca provei nada remotamente parecido antes...
não, não adianta: quanto mais penso a respeito, mais confuso fico, é perfeita-
mente distinto e absolutamente inconfundível, verdadeiramente único em minha
experiência”. Isto ilustra o caso no qual não posso encontrar em minha passada
experiência nada com que comparar o caso presente: tenho certeza de que não
é apreciavelmente semelhante a qualquer outra coisa que eu tenha alguma vez
provado, não é suficientemente semelhante a qualquer coisa que eu conheça para
merecer a mesma descrição. Este caso, embora bastante distinto se transforma gra-
dualmente no tipo de caso mais comum no qual não estou completamente certo,
ou apenas razoavelmente certo, ou praticamente certo, de que é o sabor de,
por exemplo, louro. Em todos os casos deste tipo, estou me esforçando por
reconhecer a coisa presente ao buscar em minha passada experiência algo pare-
cido, alguma semelhança em virtude da qual esta mereça, mais ou menos positi-
2 E ainda assim ela sempre pensou que sua camisa fosse branca, até que pôde compará-la
com a de Toninho, lavada com Persil.
104 AUSTIN
vamente, ser descrita pela mesma palavra descritiva, * e experimento graus
variados de sucesso.
b) O outro caso é diferente embora se combine naturalmente com o pri-
meiro. Aqui, o que tento fazer é saborear a experiência corrente, examiná-la
de perto. Não estou seguro de que seja o sabor de abacaxi: não existe ali talvez
algo a propósito — um gosto forte, uma sensação cortante ou sua falta, uma
sensação nauseante, que não é bem de abacaxi? Não existe lá talvez uma insi-
nuação característica de verde que excluiria a malva e dificilmente alcançaria
o heliotrópio? Ou talvez seja algo ligeiramente estranho: devo olhar mais atenta-
mente, esmiuçá-lo repetidas vezes, talvez haja verdadeiramente apenas uma
sugestão de um reflexo artificial de modo que não pareça totalmente com água
comum. Há uma falta de nitidez naquilo que realmente sentimos, que será reme-
diada não, ou não meramente, pelo pensamento, mas por um discernimento mais
aguçado, pela discriminação sensorial (embora seja naturalmente verdadeiro que
pensar em outros casos mais pronunciados de nossa passada experiência pode e
realmente auxilia nossos poderes de discriminação). '
Tanto o caso a) como o caso b), e talvez usualmente os dois juntos, nos
levam a não estarmos totalmente certos ou seguros a respeito do que é, do
que dizer, de como descrever a coisa, o que nossos sentimentos realmente são,
se a cócega é verdadeiramente penosa, se estou realmente zangado com ele,
como se diria, ou é apenas um sentimento semelhante. Naturalmente, a hesi-
tação é, num certo sentido, sobre um possível equívoco quanto ao nome empre-
gado; mas não estou tanto, ou meramente, preocupado com a possibilidade de
confundir os outros, como com a possibilidade de confundir-me eu próprio (o
sentido mais privilegiado de estar enganado). Eu sugeriria que as duas expressões
'estar seguro” e “estar certo”, apesar de serem, pela natureza do caso, com
frequência empregadas indiscriminadamente, têm uma tendência a se reportarem
aos casos a) e b) respectivamente. 'Estar seguro” tende a indicar confiança em
nossas lembranças e em nosso discernimento anterior, “estar certo”, a indicar
confiança na percepção atual. Talvez isto seja evidenciado no emprego que
fazemos dos concessivos 'certamente” e 'seguramente”, e em nosso emprego de
frases como 'seguramente não” e 'certamente não”. Mas talvez seja imprudente
fustigar a língua para além das nuanças mais comuns.
Pode ser dito que, mesmo quando não sei exatamente como descrever a
coisa, eu, não obstante, sei que penso (e sei aproximadamente com que confiança
penso) que é malva. De modo que eu de fato conheço algo. Mas isto é irrele-
vante: eu não sei que é malva, que isso definidamente me parece agora malva.
Além do que, há casos em que realmente não sei o que penso: estou comple-
tamente desconcertado.
E claro, existem inúmeros 'enunciados de sensação' a respeito dos quais
eu posso estar, e estou, completamente certo. Em casos comuns, pessoas comuns
estão quase sempre certas quando algo parece vermelho (ou avermelhado, ou
de qualquer modo mais avermelhado que esverdeado) ou quando estão sofrendo
dor (exceto quando é muito difícil dizê-lo, como quando elas estão sofrendo
cócegas); em casos comuns, um perito, um tintureiro ou desenhista de modas
3 Ou, é claro, algo que lhe seja relacionado de algum outro modo que por 'semelhança”
(em qualquer sentido ordinário de 'semelhança”), o que, não obstante, é razão suficiente
para descrevê-lo com a mesma palavra.
!4 Isto parece cobrir casos de percepção velada, descuidada ou desorientada, em oposição a
casos de percepção enferma ou drogada.
OUTRAS MENTES 105
estará bem certo de quando algo parece (a ele, à luz presente) verde resedá ou
marrom-escuro, embora aqueles que não sejam peritos não terão tanta certeza.
Quase sempre, senão mesmo sempre, nós podemos estar muito ou consi-
deravelmente certos se nos refugiarmos numa descrição suficientemente indeter-
minada da percepção: indeterminação e certeza tendem a variar inversamente.
Mas as descrições menos grosseiras, tanto quanto as grosseiras, são todas 'enun-
ciados de sensação”. Os problemas da certeza e da segurança, que os filósofos
tendem (se não estou enganado) a negligenciar, são, penso eu, os que têm
consideravelmente exercitado os cientistas, enquanto o problema da “realidade”,
que os filósofos têm cultivado, não lhes preocupa. Todo o aparato de medidas
e critérios parece projetado para combater a incerteza e insegurança, e conco-
mitantemente para aumentar a precisão possível da linguagem, o que na ciência
é rendoso. Mas o cientista tende sabiamente a substituir as palavras 'real' e
irreal" por seus próprios valores substitutos de moeda corrente, dos quais ele
cria e define um número crescente para cobrir uma variedade crescente de casos:
ele não pergunta “é real?”, mas, de preferência, “é desnaturalizado?” ou 'é uma
forma alotrópica” e assim por diante.
Não está claro para mim qual a classe dos enunciados de sensação nem
qual a sua 'peculiaridade”. Alguns dos que falam dos enunciados de sensação
(ou dados sensíveis) parecem fazer uma distinção entre falar sobre coisas simples
como o vermelho ou a dor, e falar sobre coisas complicadas como o amor ou
mesas. Mas aparentemente não é esse o procedimento de Wisdom, pois ele
considera “isto me parece agora um homem mastigando papoulas”, como perten-
cendo ao mesmo caso de “isto me parece vermelho”. Nisto ele tem certamente
razão: um homem mastigando papoulas pode ser mais “complexo” de se reco-
nhecer, mas com freqiiência não é sensivelmente mais difícil que o outro. Mas,
se novamente dizemos que enunciados que não de sensação são os que envolvem
“predição”, por que o fazemos? Decerto, se digo “Isto é um oásis (real)' sem
primeiro assegurar de que não é uma miragem, arrisco então o meu pescoço,
mas se eu tiver assegurado de que não é uma miragem e puder reconhecer com
certeza que não é (como quando bebo sua água) então certamente não estou
mais arriscando o pescoço. Eu acredito, é claro, que continuará a se comportar
como normalmente fazem os oásis, mas se há um lusus naturae, um milagre,
e assim não acontece, isto não quer dizer que eu estava enganado, previamente,
por chamá-lo de oásis real.
Com respeito às fórmulas escolhidas próprias de Wisdom, nós já vimos
que não pode ser correto dizer que a peculiaridade dos enunciados de sensação
é que “quando são corretos e feitos por X, então X sabe que são correto”, pois X
pode pensar, sem muita confiança, que lhe sabe a Lapsang, e ainda assim estar
bem longe da certeza, e então, subsegiientemente, vir a estar certo, ou mais
certo, a respeito do sabor. As duas outras fórmulas eram: “Saber que se está
sofrendo dor é dizer que se está sofrendo e dizê-lo com base em estar sofrendo
dor”, e que o único erro possível com os enunciados de sensação é exempli-
ficado pelo caso típico no qual “sabendo ser ele Joaquim, eu o chamo de “Alfredo”,
pensando ser este seu nome, ou não prestando a mínima atenção como possa ser
o seu nome”. O nó da questão nos dois casos encontra-se nas frases “com
base em estar sofrendo dor” e “sabendo ser ele Joaquim”. “Sabendo ser ele Joa-
quim” significa que o reconheci como Joaquim, um assunto a respeito do qual
eu bem posso estar hesitante e/ou enganado: é verdade que não preciso reco-
nhecê-lo nominalmente como “Joaquim” e posso portanto chamá-lo “Alfredo”,
mas devo ao menos reconhecê-lo corretamente como, por exemplo, o homem
que vi da última vez em Jerusalém, ou de outro modo eu devo estar me equivo-
106 AUSTIN
cando. Similarmente, se “com base em estar sofrendo” apenas significa “quando
estou (do modo que seria corretamente descrito como) sofrendo”, então algo mais
que meramente dizer estou sofrendo dor' é necessário para saber que estou
sofrendo dor, e este algo mais, como envolve reconhecimento, pode ser hesi-
tante e/ou errôneo, embora, é claro, seja improvável num caso tão compara-
tivamente óbvio como o de dor.
Possivelmente a tendência a negligenciar os problemas do reconhecimento
é favorecida pela tendência a empregar um objeto direto após a palavra conhecer.
(ou saber). Wisdom, por exemplo, emprega sem desconfiança expressões tais co-
mo “conhecer os sentimentos de outro (seus pensamentos, suas sensações, seus
ódios, sua dor) do modo como ele os conhece”. Mas, embora nós empreguemos cor-
retamente a expressão 'eu conheço seu sentimento a tal respeito” ou “ele conhece
seus próprios pensamentos” ou “ele sabe o que tem em mente” ou (mais tradi-
cionalmente) “posso saber o que lhe vai em mente?”, são estas antes expressões
especiais que não justificam nenhum emprego geral. “Sentimentos” tem aqui o
mesmo sentido que em “sentimentos muito fortes” em favor ou contra algo, talvez
signifique “pontos de vista” ou 'opiniões' (opiniões muito firmes”), igualmente
como ter em mente” neste emprego é dado pelo dicionário como equivalente a
“intenção” ou “desejo”. Ampliar acriticamente tal emprego é algo como se, valen-
do-nos da frase legítima 'conhecer os gostos de alguém”, passássemos a dizer
que “conhecemos os sons que alguém ouve” ou *conhecemos o gosto de abacaxi
que alguém saboreia”. Se, por exemplo, é o caso dos sentimentos corporais,
como a fadiga, nós não usamos a expressão “conheço seus sentimentos”.
Quando portanto Wisdom fala geralmente em “conhecer suas sensações”,
ele presumivelmente entende isto como equivalente a “saber o que ele está
vendo, cheirando, etc.”, º assim como “conhecer o vencedor do Derby significa
“saber que cavalo ganhou o Derby”. '* Mas aqui novamente a expressão “saber
que” parece algumas vezes ser tomada errônea e inconscientemente, como favore-
cendo a prática de colocar um objeto direto após 'saber”, pois 'que' é passível de
ser entendido como relativo = “aquilo (ou aquele) que”. Este é um erro grama-
tical: “que” pode naturalmente ser um relativo, mas, em “saber o que você sente'
e “saber que cavalo ganhou”, é um interrogativo (latim: quid, não quod). A esse
respeito, *eu posso cheirar o que ele está cheirando” difere de *eu posso saber
o que gle esta cheirando”. “Eu sei o que ele está sentindo” não é “há um X que ao
mesmo tempo eu conheço e ele está sentindo”, mas “sei a resposta à questão: o
que ele está sentindo”, e similarmente com “eu sei o que coisa estou sentindo':
isto não significa que exista algo que eu estou conhecendo e sentindo ao mesmo
tempo. '
Expressões como 'não conhecemos os ódios de outro homem como ele os
conhece” ou “ele conhece sua dor de um modo que não podemos conhecer”
parecem grosseiras. Ele não “conhece sua dor": ele sente (e não conhece) o que
reconhece como, ou o que ele sabe ser, ódio (e não seu ódio), e ele sabe que
está sentindo ódio. Sempre estando assumido que ele de fato reconhece o senti-
mento, embora na realidade ele possa não fazê-lo, mesmo sentindo-o aguda-
mente: “agora sei o que era, era ciúme (ou irritação dérmica, ou angina), na
hora eu não sabia de modo algum do que se tratava, nunca senti anteriormente
nada parecido, mas desde então passei a conhecê-lo perfeitamente bem”. "7
5 No original: knowing what he is seeing, smelling, etc. (N. do T.)
Ié No original: “knowing what won the Derby”. (N. do T.)
7 Existem, é claro, empregos legítimos do objeto direto após conhecer, e do pronome
OUTRAS MENTES 107
O uso acrítico de objeto direto após conhecer parece ser algo a conduzir
ao ponto de vista de que (ou a falar como se) as sensa, isto é, coisas, cores,
ruídos, etc. falam ou são qualificadas de modo natural, de maneira a me per-
mitir literalmente dizer o que (aquilo que) vejo: elas se manifestam ruidosamente
ou posso lê-las. Como se as sensa literalmente 'se anunciassem a si mesmas” ou
'se identificassem a si mesmas”, no sentido que indicamos ao dizer “isto presen-
temente se identifica como um particularmente perfeito exemplar de rinoceronte
branco”. Mas certamente isto é apenas um modo de dizer, um idiotismo refle-
xivo que o francês, por exemplo, tolera mais que o inglês: as sensa são mudas,
e apenas a prévia experiência nos capacita a identificá-las. Se preferirmos dizer
que elas “se identificam a si próprias" (e certamente “reconhecer” não é uma ativi-
dade altamente voluntária de nossa parte) então deve-se admitir que partilham
do direito inato de todo orador, qual seja o de falar de modo confuso e falsa-
mente.
Se sei, não posso estar errado
Uma observação final a respeito de “Como você sabe?”, repto a quem
empregara a expressão “eu sei”, precisa ainda ser feita considerando-se o ditado
de que 'se você sabe não pode estar errado”. Certamente se o que foi dito até
aqui for correto, então fregiientemente estamos certos ao dizer que sabemos
mesmo nos casos em que subsequentemente verificamos nosso engano, e de fato
parecemos sempre ou quase sempre passíveis de engano.
Porém somos perfeitamente, e devemos ser candidamente, cônscios dessa pos-
sibilidade que entretanto não parece ser tão onerosa na prática. O intelecto e os
sentidos humanos são de fato intrinsecamente falíveis e enganosos, mas de modo
algum inveteradamente assim. As máquinas são intrinsecamente passíveis de se
quebrarem, mas tal não acontece (frequentemente) às boas máquinas. É inútil
apegar-se a uma “teoria do conhecimento” que negue esta possibilidade: tais teorias
terminam constantemente por admitir finalmente tal possibilidade e negar a
existência do conhecimento.
'Quando você sabe, não pode estar errado" é uma afirmação de perfeito
bom senso. É vedado dizer “sei que é assim, mas posso estar errado” assim como,
é vedado dizer 'prometo fazê-lo, mas posso faltar”. Se você tem consciência de
que pode estar enganado não deve dizer que sabe, assim como se você tem
consciência de que pode faltar à palavra empenhada, não há porque prometer.
Mas, é claro, ter consciência de que você pode estar enganado não significa
meramente estar consciente de ser um falível ser humano, significa que você
tem alguma razão concreta para supor que pode estar enganado neste caso.
Assim como 'mas posso faltar” não significa meramente “mas eu sou um fraco
ser humano” (no qual caso não seria mais sugestivo que ajuntar 'Deo volente'):
significa que existe alguma coisa concreta para eu supor que quebrarei minha
palavra. Naturalmente existe sempre a possibilidade (é “humanamente” possível)
de estar enganado ou quebrar minha promessa, mas isso por si mesmo não é
obstáculo ao emprego das expressões 'eu sei e “eu prometo" do modo como de
fato o fazemos.
possessivo, antes das palavras para sensações. 'Ele conhece a cidade perfeitamente”, “ele
conheceu muito sofrimento”, 'minha antiga vaidade, quão bem a conheço": mesmo o pleo-
nástico “onde é que ele sente que (lhe) dói”, e a educativa tautologia 'ele sente sua dor”.
Mas nenhum destes empregos dá apoio ao metafísico “ele conhece sua dor de um modo
que nós não podemos conhecer”.
108 AUSTIN
Ao risco (que há muito venho correndo) de ser tedioso, o paralelo entre
dizer “eu sei" e dizer “eu prometo” pode ser elaborado. "º
Quando digo 'S é P”, significa que ao menos assim o creio e, se fui educado
no rigor, que estou (absolutamente) certo disto; quando digo “devo fazer 4”,
isso significa que ao menos espero fazê-lo e, se fui educado no rigor, que tenho
a (total) intenção de fazê-lo. Se apenas creio que S é P, posso acrescentar “mas, é
claro, posso (muito bem) estar enganado”; se apenas espero fazer 4, posso acres-
centar 'mas, é claro, posso (muito bem) não fazê-lo”. Quando apenas creio ou ape-
nas espero, reconheço que novas evidências ou novas circunstâncias podem fazer
com que eu mude minha opinião. Se digo 'S é P' quando nem mesmo assim o
creio, estou mentindo: se o digo quando acredito, mas não tenho certeza, posso
estar me equivocando mas não estou propriamente mentindo. Se digo “devo fazer
A' quando não tenho mesmo nenhuma esperança ou a menor intenção de fazê-lo,
então estou deliberadamente ludibriando: se o digo quando não tenho plena
intenção, estou confundindo, mas não estou deliberadamente ludibriando no
mesmo sentido.
Mas agora quando digo 'eu prometo”, dou um outro passo decisivo: não
apenas anunciei minha intenção mas, usando esta fórmula (cumprindo este ritual),
eu me comprometi com os outros e arrisquei minha reputação de uma nova
maneira. Analogamente, dizer “eu sei" é dar outro passo decisivo. Mas não é
dizer: “eu consegui uma façanha de cognição especialmente notável, superior
na mesma escala que a de acreditar e ter certeza, até mesmo ao mero “ter toda
certeza”, pois não há nada nesta escala superior a ter toda certeza. Assim como
prometer não é algo superior, na mesma escala que a de esperar ou tencionar,
até mesmo ao mero ter total intenção, pois não há nada nesta escala superior
à total intenção. Quando digo “eu sei” dou minha palavra aos outros: dou aos
outros minha autorização para dizer que 'S é P”.
Quando digo apenas que tenho certeza e resulta que estou enganado, não
estou sujeito a ser criticado pelos outros de modo idêntico a como quando
declarei “eu sei”. De minha parte tenho certeza, você pode concordar ou não;
aceite o que digo se você acha que sou uma pessoa perspicaz e cuidadosa, é
sua a responsabilidade. Mas eu não conheço 'por minha parte”, e quando digo
'eu sei”, não quero dizer que você possa concordar ou não (embora, é claro,
você possa concordar ou não). Do mesmo modo, quando digo ter total intenção,
eu o faço de minha parte, e de acordo com a conta em que você tem minha
resolução e suas possibilidades, você escolherá agir de acordo com ela ou não.
Mas, se digo que prometo, você está autorizado a agir de acordo com ela, não
importando qual tenha sido sua escolha. Se afirmei saber ou se prometi, ao
recusar-se a aceitar minha afirmação, você me ofende de um modo especial.
Todos nós sentimos a grande diferença mesmo entre dizer “estou absolutamente
certo de' e dizer “eu sei”: é semelhante à diferença mesmo entre dizer “eu ten-
ciono firme e irrevogavelmente” e “eu prometo”. Se alguém me prometeu fazer 4.
8 É apenas o emprego das expressões “eu sei' e *eu prometo" (primeira pessoa do presente
do indicativo) que está sendo considerado. 'Se eu sabia, não podia estar errado" ou “se ela
sabe, não pode estar errada” não são inquietantes no mesmo sentido em que “se eu sei, não
posso estar errado” (ou 'se você...”) é inquietante. Ou ainda, “eu prometo" é perfeitamente
distinta de “ele promete”. Se digo “eu prometo”, eu não digo que digo que prometo, eu pro-
meto; igualmente, se ele diz que promete, ele não diz que diz que promete, ele promete:
enquanto, se digo “ele promete”, digo (apenas) que ele diz que promete — no outro “sentido'
de “prometer”, o “sentido no qual eu digo prometer, apenas ele pode dizer que promete.
Eu descrevo sua promessa, mas faço minha própria promessa e ele deve fazer a sua.
OUTRAS MENTES 109
então estou autorizado a me fiar nesta promessa e eu próprio posso fazer pro-
messas valendo-me dela; do mesmo modo, onde alguém me disse “eu sei”, estou
autorizado a dizer que sei também, de segunda mão. O direito de dizer *eu sei
é transmissível no sentido em que aquela autoridade outra é transmissível. Por-
tanto, se o digo irrefletidamente posso ser responsável por causar-lhe problemas.
Se você afirma conhecer algo, o repto mais imediato a tal afirmação toma a
forma da pergunta 'você está em condições de saber”, isto é, você deve também
procurar mostrar, não meramente sua certeza a respeito, mas que este algo está
ao alcance de sua cognição. Há um tipo similar de repto no caso da promessa:
total intenção não é o bastante — você deve procurar mostrar que “está em
condições de prometer”, isto é, que isto está ao alcance de seu poder. Sobre
estes dois pontos, em ambos os casos, séries paralelas de dúvidas podem acometer
os filósofos, pela razão de que não podemos prever o futuro. Alguns começam
por sustentar que eu não deveria nunca ou quase nunca dizer que sei algo —
talvez apenas aquilo que percebo no momento; outros, que eu não deveria nunca
ou quase nunca prometer — talvez apenas o que esteja de fato ao alcance de
meu poder no momento. Em ambos os casos há uma idéia fixa: se sei não
posso estar errado, assim, não posso ter o direito de dizer que sei, e se prometo
não posso faltar, e deste modo não posso ter o direito de dizer que prometo.
E em ambos os casos essa idéia fixa prende-se ao fato da minha incapacidade
em fazer “predições” considerando-o como a raiz do problema, onde por 'predições'
são entendidas as pretensões de conhecer o futuro. Mas isto é um duplo erro em
ambos os casos. Como vimos, podemos estar perfeitamente justificados em dizer
que conhecemos ou prometemos, a despeito do fato de que as coisas podem se vi-
rar contra nós, e que é um problema de maior ou menor seriedade para nós se
isto de fato ocorrer. E ainda não se atenta ao fato de que as condições a serem
satisfeitas, se devo mostrar que uma coisa está ao alcance de minha cognição
ou de meu poder, são condições não a respeito do futuro, mas a respeito do
presente e do passado: não me é pedido fazer mais que acreditar no tocante
ao futuro. !?
Nós sentimos, entretanto, uma objeção contra dizer que 'eu sei” desem-
penha o mesmo tipo de função na conversação que *eu prometo”. É o seguinte:
supondo que as coisas não tenham dado certo, nós então dizemos, por um lado
“você se mostrou equivocado, então você não sabia”, mas por outro lado 'você
falhou, embora tivesse prometido”. Acredito ser este contraste mais aparente do
que real. O sentido no qual você “prometeu” é o de ter dito que prometia (disse:
*eu prometo”), e você disse que sabia. Este é o agravante da acusação que lhe
pesa por nos ter desapontado após termos confiado em sua palavra. Mas pode
perfeitamente parecer que você nunca tenha tido total intenção de fazê-lo, ou que
tivesse razões concretas para supor que não seria capaz de fazê-lo (poderia
mesmo ser manifestamente impossível), e, em outro “sentido” de prometer, você
não poderia ter prometido fazê-lo, de modo que você não prometeu.
Considere o emprego de outras frases análogas a 'eu sei” e *eu prometo”.
Suponha que ao invés de “eu sei' dissesse “eu juro”. Nesse caso com base
no dado negativo, nós deveríamos dizer, exatamente como no caso da promessa,
'você jurou, mas você estava errado”. Suponha ainda que, ao invés de 'eu prometo”,
dissesse “eu garanto” (por exemplo, defendê-lo de ataques). Neste caso, ao desa-
I9 Se “figos nunca crescem em espinheiros' é tomado como querendo dizer 'jamais aconteceu
e jamais acontecerá”, então não está implícito que eu sei que jamais aconteceu, mas apenas
que acredito que jamais acontecerá.
110 AUSTIN
pontá-lo você pode dizer exatamente, como no caso de conhecer, “você disse
que garantia, mas não garantiu.? Talvez a situação possa ser resumida como
se segue. Nestes casos “rituais”, o caso aprovado é aquele onde nas circunstâncias
apropriadas digo uma certa fórmula: por exemplo, “sim”, quando, solteiro ou
viúvo, ao lado de uma mulher, solteira ou viúva e fora do âmbito dos graus
de parentesco impeditivos, ante um clérigo, um juiz de paz, etc.; ou “eu dou'
quando o objeto é meu para que possa dar, ou “eu ordeno” quando tenho auto-
ridade para tal. Mas agora, se a situação finalmente aparece como tendo se
desenrolado de um modo não ortodoxo (eu já era casado, o objeto não me
pertencia para que pudesse dá-lo, não tinha autoridade para ordenar), então
tendemos a estar tão hesitantes a respeito de como estimá-la, quanto estiveram
os céus quando o santo abençoou os pingiins. Chamamos o homem de bígamo,
mas seu segundo casamento não foi um casamento, é nulo e inefetivo (uma
fórmula útil em muitos casos para evitar igualmente dizer “ele o fez” ou “ele não
o fez); ele realmente me “ordenou” que fizesse isso, mas não tendo autoridade
sobre mim, não poderia 'ordenar'-me; ele de fato me advertiu que se daria o
ataque, mas não era verdade, ou de qualquer modo eu sabia muito mais a
respeito do que ele, de maneira que de certo modo ele não poderia advertir-me,
não me advertiu. 2! Nós hesitamos entre “ele não me ordenou”, “ele não tinha
autoridade para ordenar-me”, “ele não deveria dizer que me ordenava”, do mesmo
modo como entre 'você não sabia”, “você não podia ter sabido”, 'você não tinha
o direito de dizer que sabia” (estas talvez possuindo nuanças levemente dife-
rentes, de acordo com o que precisamente saiu errado). Mas os fatores essenciais
são: a) você disse que sabia: você disse que prometia; b) você estava errado:
você não cumpriu. A hesitação diz respeito apenas ao modo preciso como
enfrentaremos o 'eu sei” ou “eu prometo” originais.
Supor que “eu sei” é uma frase descritiva é apenas um exemplo da
falácia descritiva, tão comum na filosofia. Mesmo que alguma linguagem seja
agora puramente descritiva, a linguagem não era assim na sua origem, e con-
tinua não sendo assim em sua maior parte. Proferir óbvias frases “rituais” nas
circunstâncias apropriadas, não é descrever a ação que praticamos, mas prati-
cá-las: (sim); em outros casos funciona, como o tom e a expressão, ou ainda
como a pontuação e a ênfase, como uma notificação de que estamos empre-
gando a linguagem de um modo especial (*eu advirto”, 'eu pergunto”, 'eu defino”).
Tais frases não podem, estritamente falando, ser mentiras, embora possam “envol-
ver” mentiras, como em “eu prometo” está implícito que tenho total intenção,
o que pode não ser verdadeiro.
Se estes são os diversos e principais pontos que aparecem nos casos fami-
liares onde perguntamos “como você sabe que é um caso assim e assado?” pode-se
esperar que apareçam igualmente em casos onde dizemos “sei que ele está zan-
gado”. E se existem neste caso dificuldades especiais, como sem dúvida existem,
29 “Jurar”, “garantir”, “dar minha palavra”, “prometer”, todas essas palavras e outras similares
cobrem casos tanto de “conhecimento” como de “promessas”, sugerindo assim que os dois
sejam análogos. É claro que eles diferem sutilmente um do outro, por exemplo, conhecer
e prometer são num certo sentido expressões “ilimitadas”, enquanto quando juro, juro a
respeito de algo, quando garanto, garanto que, quando surgirem mais algumas circunstâncias
adversas ou menos previstas, empreenderei uma ação mais ou menos definida para
anulá-las.
21 “Você não pode advertir ninguém de algo que não vai acontecer" é paralelo a “você não
pode saber o que não é verdade”.
OUTRAS MENTES Mi
ao menos podemos limpar um pouco o terreno daquilo que não seja dificuldade
especial e ter uma melhor perspectiva da matéria.
Preliminarmente é necessário dizer que apenas devo discutir a questão dos
sentimentos e emoções com especial referência à raiva. É bastante provável que
casos onde sabemos que outro homem pensa que dois e dois são quatro, ou
que vê um rato, e assim por diante, sejam diferentes, em importantes aspectos,
dos casos de saber que ele está zangado ou faminto, embora, sem dúvida lhe
sejam também similares.
Em primeiro lugar, nós certamente afirmamos, algumas vezes, saber que
outro homem está zangado, e também distinguimos estas ocasiões de outras onde
apenas afirmamos acreditar que ele esteja zangado. Pois, é claro, nós em momento
algum supomos que sabemos sempre, a respeito de todos os homens, se eles
estão zangados ou não, ou que podemos descobri-lo. Existem muitas ocasiões
em que me dou conta de que não posso determinar o que sente ele, e existem
muitos tipos de pessoas, e também muitos indivíduos, a respeito dos quais eu
(sendo eles o que são, e sendo eu o que sou) não posso saber nunca o que eles
estão sentindo. Os sentimentos da realeza, por exemplo, ou dos faquires, ou dos
rastreadores, ou dos wykehamistas, * :* ou de simples excêntricos podem ser muito
difíceis de adivinhar; a não ser que você tenha tido um prolongado contato e
alguma intimidade com tais pessoas, você absolutamente não está em condição
de conhecer seus sentimentos e especialmente se, por uma ou outra razão, eles
não podem ou não querem revelá-los. Ou ainda, os sentimentos de um indi-
víduo com o qual você nunca tenha tido contato anteriormente: estes podem
ser qualquer coisa, você absolutamente desconhece seu caráter e seus gostos,
você não teve qualquer experiência de seus maneirismos, e assim por diante.
Seus sentimentos são pessoais e indefiníveis — as pessoas diferem tanto! É este
tipo de coisa que nos conduz à situação de dizer 'você não sabe nunca, você
não pode nunca afirmar”.
Em resumo, aqui mais ainda do que no caso do pintassilgo, grande parte
depende do grau de familiaridade que no passado tivemos com respeito a este
tipo de pessoa, e propriamente com este indivíduo, neste tipo de situação. Se
não tivemos grande familiaridade, então evitamos dizer que sabemos: realmente,
não se pode esperar que o digamos (afirmemos). Por outro lado se tivemos a
necessária experiência, podemos então, em circunstâncias presentes favoráveis,
dizer que sabemos: nós certamente podemos reconhecer quando algum nosso
parente próximo está mais zangado do que nunca.
Ademais, nós deveremos ter tido experiência também da emoção ou do
sentimento em questão, neste caso, a raiva. Para poder saber o que você sente,
eu aparentemente preciso também ser capaz de imaginá-lo (adivinhá-lo, com-
prendê-lo, avaliá-lo). Ao que parece exige- se algo mais que meu aprendizado da
discriminação da manifestação da raiva nos outros, eu próprio devo também ter
estado zangado = Ou, de qualquer forma, se nunca experimentei uma certa emo-
22 Antigo ou atual membro do Winchester College, fundado por William of Wykeham.
(N. do T.)
23 Dizemos não saber como deve sentir-se um rei, enquanto de fato sabemos o que deve
ter sentido um de nossos amigos quando atormentado. Neste sentido ordinário (impreciso e
evidentemente superficial) de “saber como deva sentir-se”, nós frequentemente sabemos como
deveria sentir-se nosso vizinho sacando sua arma, enquanto não sabemos (e não podemos
sequer adivinhar ou imaginar) realmente como deve sentir-se um gato ou uma barata. Mas
evidentemente nós jamais 'sabemos' o que acompanha, em nosso vizinho, seu ato de sacar
a arma, no sentido peculiar de “saber o que” de Wisdom, equivalente a “experimentar
diretamente aquilo que”.
112 AUSTIN
ção, digamos, a ambição, então certamente sinto uma hesitação adicional em dizer
que seu móvel é a ambição. E isto parece dever-se à natureza (à gramática, à
lógica), muito especial dos sentimentos, ao modo especial com que se relacionam
com suas ocasiões e manifestações, o que requer elucidação posterior.
À primeira vista pode ser tentador seguir Wisdom e demarcar uma distinção
entre 1) os sintomos físicos e 2) o sentimento ou sensação, (the feeling). De manei-
ra que, no nosso caso, quando me perguntam “Como você pode afirmar que ele está
zangado?” eu deveria responder “Pelos sintomas físicos”, enquanto que se lhe per-
guntam como pode ele afirmar que está zangado, ele deveria responder “A partir
do que sinto”, mas isto me parece uma simplificação exagerada e perigosa.
Em primeiro lugar “sintomas” (e também 'físicos”) é empregado num sentido
diverso do habitual, e que se mostra enganoso.
“Sintomas”, um termo tomado ao uso médico, ** tende a ser empregado
apenas, ou primariamente, em casos onde aquilo de que existem sintomas é algo
indesejável (da doença que começa ao invés da saúde que retorna, de desespero
antes que de esperança, de tristeza antes que de alegria), e portanto é mais car-
regado em cores do que “sinais” ou “indicações”. Isto entretanto é relativamente
trivial. O importante é o fato de nunca falarmos de “sintomas” ou “sinais” exceto
por via de contraste implícito com o exame da própria coisa. Sem dúvida seria
frequentemente embaraçoso ter de dizer onde exatamente terminam os sinais
ou sintomas e começa a surgir a própria coisa, mas tal divisão é sempre as-
sumida com o existente. E assim não se empregam as palavras “sintoma” e
“sina a não ser em casos onde a coisa, como no caso da doença, esteja oculta,
seja no futuro ou no passado, sob a pele ou em qualquer outro invólucro
mais ou menos notório; e quando nos defrontamos com a própria coisa não
mais falamos de sinais ou sintomas. Quando falamos de “sinais de uma tem-
pestade”, queremos dizer sinais de uma tempestade iminente, ou uma passada
tempestade ou uma tempestade além do horizonte, não nos referimos a uma
tempestade sobre nossas cabeças. *
As palavras funcionam do mesmo modo como funcionam palavras como
traços” ou “indícios”. A partir do momento em que você conhece o assassino,
você não ganha mais quaisquer novos indícios, ficando apenas com aqueles que
foram ou teriam sido indícios, nem uma confissão, ou a observação do crime
por uma testemunha ocular é um indício particularmente bom — estes fatos
são algo inteiramente diverso. Quando o queijo não pode ser visto ou encon-
trado, então pode haver traços dele, mas não quando ele está à nossa frente
(embora, é claro, não exista neste momento algo como “nenhum traço” dele).
Por essa razão parece enganoso, como prática geral, colocar no mesmo
caldeirão todos os aspectos característicos de toda e qualquer coisa a título de
seus “sinais” ou sintomas”, embora naturalmente algumas vezes, coisas que podem
em circunstâncias apropriadas ser chamadas de características, ou efeitos, ou
manifestações, ou partes, ou sequelas, ou algo parecido, de certas outras coisas,
podem também ser chamadas de sinais ou sintomas dessas últimas, em circuns-
24 Os médicos hoje em dia demarcam uma distinção própria entre 'sintomas' e “sinais
(físicos)', mas esta distinção não é aqui relevante, e talvez não seja muito clara.
25 Existem alguns casos mais complicados como o da inflação, onde os sinais de inflação
incipiente são da mesma natureza que a própria inflação, mas de intensidade menor ou
andamento mais vagaroso. Aqui especialmente, é uma questão que depende da decisão sobre
onde terminam os sinais ou “tendências e onde principia o próprio estado de coisas; além
do mais, no caso da inflação como no de algumas enfermidades, podemos em certo con-
texto continuar a falar em sinais e sintomas mesmo quando a própria coisa está decidida-
EN
mente presente, porque esta é tal que não é patente à simples observação.
OUTRAS MENTES 113
tâncias apropriadas. Parece que, de fato, é isto que há de errado com o paradoxo
de Wisdom * de olhar na despensa e encontrar “todos os sinais” de pão, ao
ver o pão, tocá-lo, prová-lo, e assim por diante. Fazer estas coisas não é de
modo algum encontrar (alguns) sinais de pão: o gosto ou a sensação do pão
não é de modo algum um sinal ou sintoma de pão. A maneira como devo ser
interpretado se anunciei ter encontrado sinais de pão na despensa, parece algo
bastante incerto, visto que o pão não é normalmente guardado em caixas (e
se está numa caixa, não está deixando traços) e não sendo um evento transitório
(pão iminente, etc.), não tem quaisquer “sinais” normalmente aceitos, e sinais
peculiares à coisa devem ser mais ou menos normalmente aceitos. Eu poderia
ser interpretado como querendo dizer ter encontrado traços de pão, como mi-
galhas, ou sinais de que o pão esteve uma vez lá guardado, ou coisa parecida,
mas não posso ser interpretado de modo algum como querendo dizer que vi,
provei ou toquei em (algo como) pão.
O tipo de coisa que na realidade afirmamos, se está tudo bem com a
aparência, mas ainda não o provamos, é “eis algo que parece pão”. Se termina
por não ser pão, podemos dizer “tinha gosto de pão, mas, na verdade, era apenas
um sucedâneo” ou “apresentava muitos aspectos característicos do pão, mas di-
feria em pontos importantes: era apenas uma imitação sintética”. Isto é, não
empregamos de modo algum as palavras “sinais ou “sintomas”.
Porém, se “sinais! e “sintomas têm este emprego restrito, é evidente que dizer
que apenas possuímos os “sinais” ou “sintomas” de alguma coisa quer dizer que
jamais a alcançamos (e isto é válido também para “todos os sinais). De tal
modo que se dizemos que apenas alcançamos os sintomas de sua raiva, isto traz
consigo uma importante insinuação. Mas é esse o sentido que realmente em-
pregamos em nossa fala? Realmente, será que nunca nos consideramos cientes
de nada além dos sintomas da raiva em outro homem?
“Sintomas” ou “sinais” de raiva tendem a significar sinais de raiva nascente
ou suprimida. A partir do momento em que ele desafogou, falamos de algo
diferente — de uma expressão, ou manifestação, ou ostentação de raiva, de
uma exibição de temperamento, e assim por diante. Um arquear de sobran-
celhas, a palidez, um tremor na voz, todos estes podem ser sintomas de raiva,
mas uma tirada violenta ou uma pancada no rosto não o são, eles são atos
através dos quais a raiva é desafogada. 'Sintomas' da raiva não são, ao menos
normalmente, contrastados ao próprio sentimento interior pessoal de raiva de
um homem, mas antes à efetiva ostentação de raiva. Ao menos normalmente,
onde somente temos sintomas para nos orientar, deveríamos dizer apenas que
acreditamos esteja tal homem zangado ou esteja ficando zangado, enquanto, a
partir do momento em que ele tenha desafogado sua raiva, dizemos saber.”
2 Em “Other Minds, III ele discutiu a lógica de uma possível queixa — de um homem
que de fato via, tocava, cheirava e provava pão e que, não obstante, embora admitidos
como presentes todos os sinais de pão, ainda poderia não estar completamente seguro para
dizer que realmente havia pão ali. (N. do Editor inglês.)
27 Diz-se, algumas vezes, que empregamos 'eu sei” onde deveríamos estar preparados para
empregar, em substituição, “eu acredito, quando como dizemos “sei que ele está, porque
seu chapéu está no saguão”: — assim, 'saber' é livremente empregado por acreditar, por
que então supor que há uma diferença fundamental entre eles? Mas a questão é: o que
exatamente queremos dizer por 'preparados para empregar em substituição” e “livremente”?
Estamos 'preparados para empregar em substituição" acreditar por saber, não como uma
expressão equivalente, mas como uma expressão mais fraca e por isso preferível, em vista
da seriedade com que, como ficou patente, o assunto deve ser tratado — a presença do
chapéu que serviria como prova da presença de seu dono, em muitas circunstâncias, poderia
apenas por negligência ser aduzida como prova numa corte de justiça.
114 AUSTIN
A palavra “físico”, como utilizada por Wisdom em oposição a 'mental”,
parece-me também um abuso, embora eu não tenha certeza se este abuso é
enganoso no presente caso. Ele, evidentemente, não quer chamar de físicos
os sentimentos ou sensações de uma pessoa que ele cita como um típico
exemplo de eventos 'mentais”. Não obstante este é o modo como procede-
mos. Existem muitas sensações físicas tais como vertigem, fome ou fadiga, e es-
tas, alguns médicos as incluem entre os sinais físicos de várias enfermidades. Nós
não dizemos serem físicos ou mentais muitas sensações ou sentimentos, espe-
cialmente emoções como ciúmes ou a própria raiva; não as referimos à mente,
mas ao coração. Quando de fato descrevemos uma sensação como mental, é
porque usamos uma palavra normalmente utilizada para descrever uma sen-
sação física com um sentido especial, transferido, como quando falamos de
desconforto ou fadiga 'mental'. Tal se dá, é claro, porque mais está envolvido
no estar zangado, por exemplo, do que simplesmente mostrar os sintomas e
experimentar as sensações. Pois existe também a ostentação ou manifestação,
e deve-se notar que a sensação ou o sentimento é relacionado de uma maneira
única à ostentação. Quando estamos zangados, temos o impulso sentido e/ou
acompanhado de ação, de realizar ações de tipos particulares, e, a não ser que a
raiva seja suprimida, nós de fato passamos a executá-las. Existe uma íntima e
peculiar relação entre a emoção e a maneira natural de desafogá-la, com a qual,
se já experimentamos nós mesmos a raiva, estamos familiarizados. Os modos
pelos quais a raiva é normalmente manifestada são naturais à raiva, assim como
existem entonações naturalmente expressivas de várias emoções (indignação,
etc.) Não é normalmente admitido que exista? algo como “estar zangado à
parte de qualquer impulso, por mais vago que seja, para desafogar a raiva de
modo natural.
Além do mais, ao lado das expressões naturais de raiva existem também
ocasiões naturais de raiva, as quais nós também já experimentamos, que são
similarmente conectadas de um modo íntimo com “estar zangado”. Seria tão
disparatado classificá-las como 'causas' em algum sentido supostamente evidente
e “externo”, como seria classificar o desafogar da raiva como “efeito da emoção
em algum sentido supostamente evidente e “externo”. Igualmente seria um dis-
parate dizer que existem três fenômenos completamente distintos: 1) causa ou
ocasião, 2) sentimento ou emoção, 3) efeito ou manifestação, que são rela-
cionados conjuntamente “por definição” como sendo todos necessários à raiva, em-
bora essa afirmação fosse talvez menos enganosa do que a outra.
Parece razoável dizer que “estar zangado” é em muitos respeitos como “ter
cachumba'. É uma descrição de todo um padrão de eventos incluindo oca-
sião, sintomas, sentimentos ou sensação, manifestação e possivelmente outros
fatores além desses. É tão tolo perguntar “o que é na verdade a raiva em si mesma?
como tentar reduzir 'a enfermidade” a algum único fator escolhido ('a desor-
dem funcional). Que a própria pessoa sente algo que não sentimos (no sentido
de que ela sente raiva e nós não)” é bastante evidente, e a propósito nada a
28 Uma nova linguagem é naturalmente necessária se formos admitir sentimentos incons-
cientes e sentimentos que se expressam a si mesmos de modos paradoxais, como os des-
critos pelos psicanalistas.
2º Na ausência da versão de telepatia de Wisdom. [O Prof. Wisdom escreveu: “Igual-
mente podemos imaginar uma pessoa fazendo o que agora dificilmente podemos fazer, algo
a que as pessoas chamaram “ver dentro da mente de outro”. Esta pessoa não examina sinto-
mas presentes para predizer como seguirá o paciente. Ela vê cenas numa vitrine ou por
meio de sua visão interior e sabe que elas são o que o outro vê, ela sente angústia e sabe
que o outro está angustiado. Se isso deve ser chamado de ver o que outro vê e sentir o
OUTRAS MENTES JA
lamentar como um “impasse”: mas não há porque dizer que “aquilo” (o 'sentimen-
to)? é a raiva. O padrão de eventos, seja qual for sua fórmula precisa,
é muito claramente peculiar ao caso dos “sentimentos' (emoções) — não é
de modo algum inteiramente semelhante ao caso das enfermidades e pare-
ce ser essa a peculiaridade que nos torna propensos a dizer que, a menos
que tenhamos tido experiência própria de um sentimento, não podemos saber,
em determinado momento, se outra pessoa está ou não experimentando-o. Além
do mais, é nossa confiança no padrão geral que nos capacita a dizer que 'sa-
bemos” estar outra pessoa zangada quando apenas observamos partes do padrão
pois estas partes estão muito mais intimamente relacionadas entre si do que,
por exemplo, a pressa de um jornalista em Brighton está relacionada com um
incêndio em Fleet Street. *
O próprio indivíduo, tal é o poder dominante do padrão, algumas vezes
aceita correções alheias a respeito de suas próprias emoções, isto é, sobre a
correta descrição das mesmas. Ele pode chegar a concordar que não estava
realmente tão zangado, mas, antes, indignado ou enciumado e até mesmo que
não estava sofrendo dor, mas apenas imaginava. E isto não deve surpreender,
especialmente em vista do fato de que ele, como todos nós, aprendeu primeira-
mente a empregar a expressão “estou zangado" a seu próprio respeito, por meio
de a) atentar à ocasião, sintomas, manifestações, etc. nos casos onde outras
pessoas dizem de si próprias “estou zangado”; b) ser notificado por outras pes-
soas, que notaram tudo o que puderam observar sobre ele em determinadas
ocasiões, que 'você está zangado”, isto é, que ele deveria dizer “estou zangado”.
No conjunto, a respeito de 'meras' sensações ou emoções, se existem tais coisas
genuinamente detectáveis, é certamente muito difícil estar seguro; mais difícil
que, digamos, a respeito de gostos, que já escolhemos descrever normalmente
apenas por suas ocasiões (o gosto “de alcatrão”, “de abacaxi”, etc.).
Todas as palavras para emoções estão, além disso, do lado da indefinição
de dois modos, conduzindo a adicionais hesitações sobre se 'sabemos” quando
ele está zangado. Elas tendem a cobrir uma variedade de situações bastante
ampla e mal definida e os modelos cobertos tendem, cada um deles, a uma
maior complexidade (embora, muito frequentemente, comum e não tão difícil
de reconhecer), de modo que é fácil omitir uma das características mais ou
menos necessárias e assim ocasionar hesitação a respeito do que exatamente
deveríamos dizer em um desses casos não ortodoxos. Nós compreendemos bas-
tante bem que o desafio ao qual estamos sujeitos, se afirmamos saber, é provar
nosso conhecimento, e a esse respeito uma terminologia vaga é uma enfraquece-
dora desvantagem.
Até aqui talvez já se tenha dito o suficiente para provar que a maioria das
dificuldades, que atravessam o caminho do nosso dizer que sabemos ser tal
que ele sente, se fosse isso o conhecimento real dos pensamentos e sentimentos de outra
pessoa, então quando alguém diz 'não podemos conhecer o sentimento dos outros” ele se
refere ao fato familiar de que poucos podemos fazer tal coisa”. (N. do Editor inglês.)]
Ao que me parece, o que acontece na realidade é algo bastante diferente da telepatia de
Wisdom, e algo que de fato algumas vezes contribui para nosso conhecimento dos senti-
mentos alheios. Nós de fato falamos, por exemplo, de “sentir o desgosto de outra pessoa”,
e dizemos, por exemplo, 'podia-se sentir sua raiva”, e parece haver algo genuíno a respeito.
Mas o sentimento que sentimos, embora “sentimento” genuíno, não é, nesses casos, desgosto
ou raiva, mas um sentimento especial, correlativo.
30 Os “sentimentos”, isto é, as sensações (sensations) que podemos observar em nós mesmos
quando zangados, são coisas como um bater de coração ou tensão dos músculos, que não
podem nelas mesmas ser justificadamente chamadas “o sentimento de raiva”.
31 É portanto um equívoco perguntar “Como eu passo do olhar zangado à raiva?”
116 AUSTIN
coisa um pintassilgo, surgem, com maior força, no caso onde queremos dizer
que sabemos estar outra pessoa zangada. Mas existe ainda a impressão, e, penso
eu, uma impressão justificada, de que há uma dificuldade adicional e bem es-
pecífica no último caso.
Esta dificuldade parece do tipo que Wisdom levanta no início mesmo
de sua série de artigos sobre “Outras Mentes”. Pergunta-se: não poderia a pessoa
exibir todos os sintomas (e a ostentação e tudo o mais) da raiva, mesmo ad
infinitum, e ainda assim não estar (realmente) zangada? Deve ser lembrado que
ele aqui a considera, sem dúvida provisoriamente, uma dificuldade similar à
que surge a respeito da realidade de qualquer “objeto material”. Mas de fato
tem características que lhe são próprias.
Parece que três dúvidas distintas podem surgir:
1) quando, segundo todas as aparências, zangado, não poderia ele estar
na realidade atuando sob influência de alguma outra emoção, no sentido de
que, embora normalmente sinta a mesma emoção que sentiríamos nas ocasiões
onde em seu lugar deveríamos sentir raiva, ao ostentar aquilo que apresentamos
quando zangados, ele está, nesse caso particular, atuando de maneira anormal?
2) quando, segundo todas as aparências, zangado, não poderia ele estar
na realidade atuando sob influência de alguma outra emoção no sentido de que
normalmente, em ocasiões onde em seu lugar deveríamos sentir raiva, e onde,
agindo como deveríamos agir se sentíssemos raiva, experimenta ele alguma sen-
sação que, se a experimentássemos, nós deveríamos distingui-la da raiva?
3) quando, segundo todas as aparências, zangado, não poderia ele na reali-
dade não estar experimentando emoção alguma?
Na vida diária todos esses problemas surgem em casos especiais e ocasio-
nam genuína preocupação. Nós poderíamos nos preocupar quanto à questão:
1) se alguém nos ilude ao reprimir suas emoções ou simular emoções
que não sente;
2) se estamos entendendo incorretamente alguém (ou ele a nós), ao supor
erradamente que ele “sente como nós”, que ele partilha de emoções como as
nossas; ou
3) se alguma ação de outra pessoa é realmente deliberada ou apenas
talvez involuntária ou inadvertida, de um modo ou de outro. Todas essas três
variedades de preocupação podem surgir e frequentemente surgem, em relação
a ações de pessoas que conhecemos muito bem. *? Todas intervêm conjuntamente
na sensação de solidão que nos afeta a todos algumas vezes. Cada uma ou
todas elas podem constituir o fundo da citada passagem da Sra. Woolf. &
Nenhuma dessas três dificuldades especiais sobre a “realidade” surgem em
relação a pintassilgos ou pão, não mais que as dificuldades especiais a respeito
do oásis, por exemplo, surgem em relação à realidade das emoções de outra
pessoa. O pintassilgo não pode ser assumido nem o pão suprimido: nós pode-
mos nos enganar com a aparência de um oásis, ou interpretar erroneamente os
sinais da água, mas o oásis não pode mentir-nos e não podemos entender
erradamente a tempestade do mesmo modo como entendemos erradamente uma
pessoa,
Embora sejam específicas as dificuldades, os modos de tratá-las são, ini-
32 Existe também um sentido especial no qual podemos duvidar da “realidade” de nossas
próprias emoções, duvidar se não estamos 'representando' para nós mesmos. Os atores pro-
fissionais podem atingir um estado onde eles nunca sabem realmente quais são seus sen-
timentos genuínos.
3 O Prof. Wisdom citou um parágrafo de Jacob's Room. (N. do Editor inglês.)
OUTRAS MENTES 117
cialmente, similares àqueles empregados no caso do pintassilgo. Existem pro-
cedimentos estabelecidos (mais ou menos toscamente) para tratar casos suspeitos
de logro, de compreensão errada, de inadvertência. Por esses meios nós fre-
quentemente de fato estabslecemos (embora não esperemos estabelecer sempre)
que alguém está atuando, ou que o entendemos erradamente, ou que ele é sim-
plesmente impermeável a certa emoção, ou que não agia voluntariamente. Estes
casos especiais onde surgem as dúvidas e que requerem resolução são contra-
postos aos casos normais que não podem ser rejeitados, ** a não ser que haja algu-
ma sugestão específica de que esteja envolvido logro, etc. e, além do mais, sugestão
específica de um logro de um tipo inteligível nas circunstâncias, isto é, do tipo
que se possa examinar o motivo por que, etc. Não há sugestão de que nunca
sei quais sejam as emoções de outras pessoas nem de que, em casos particulares,
posso estar errado sem qualquer razão especial e de nenhum modo especial.
Casos extraordinários de logro, má compreensão, etc. (coisas estas que
não são propriamente normais), ex vi termini, não ocorrem ordinariamente. Nós
temos um conhecimento suficiente das ocasiões para, das tentações a, dos limites
práticos de, dos tipos normais de logro e má compreensão. Não obstante tais
casos podem ocorrer, e é possível haver variedades que sejam comuns mesmo
que não tenhamos ainda tomado consciência do fato. Se isto acontece, estamos
num certo sentido errados, porque nossa terminologia é inadequada aos fatos,
e daí em diante devemos ser mais cautelosos em dizer que sabemos, ou devemos
rever nossas idéias e terminologia. Coisa que estamos constantemente prontos
a fazer num campo tão complexo e desconcertante como o das emoções.
Entretanto, resta uma ulterior característica específica do caso, que tam-
bém o diferencia radicalmente do caso do pintassilgo. O pintassilgo, o objeto
material, como insistimos acima, não traz consigo inscrições, e é mudo; mas
o homem fala. No complexo de ocorrências que nos induzem a dizer que sa-
bemos estar outra pessoa zangada — o complexo de sintomas, ocasião, osten-
tação e o resto —, um lugar específico é ocupado pelos próprios enunciados
da pessoa a respeito de quais são suas sensações. No caso usual, aceitamos
estes enunciados sem perguntas, e então afirmamos saber (como se fosse de
“segunda mão”) quais são seus sentimentos, embora, é claro, “de segunda mão”
não possa aqui ser empregada para significar que ninguém, a não ser a pessoa
mesma, poderia saber “de primeira mão”, e consequentemente, talvez não seja
de fato assim empregado. Em casos incomuns, onde o enunciado de uma pessoa
entra em conflito com a descrição que, por outro lado, deveríamos estar incli-
nados a dar a respeito, não nos sentimos constrangidos a aceitá-lo, embora sin-
tamos sempre dificuldades em rejeitá-lo. Se tal homem mente ou se auto-ilude
habitualmente, ou se existem razões patentes pelas quais ele poderia mentir ou
iludir-se nesta ocasião, então nos sentimos, com razão, contentes; mas se ocor-
resse um caso como o imaginado, * onde um homem, tendo dado a vida inteira
total aparência de acatar uma certa crença pouco importante, deixa, ao falecer,
uma anotação em seu diário com o propósito de desmentir que alguma vez
tivesse partilhado tal crença, então provavelmente nós não saberíamos o que
dizer.
Eu gostaria de fazer, em conclusão, algumas observações adicionais sobre
este assunto de importância crucial, qual seja, nossa crença naquilo que um ser
2
34 “Você não pode enganar todas as pessoas todo o tempo” é “analítica”.
35 O Prof. Wisdom considerou o caso de um homem que persistentemente alegava acre-
ditar que as flores sentiam. (N. do Editor inglês.)
118 AUSTIN
humano diz a respeito de seus próprios sentimentos. Embora eu bem saiba não
possuir uma clara perspectiva em relação ao problema, não posso evitar a certeza
de que é fundamental em relação à dificuldade toda, e de que não lhe foi dada
a devida atenção, possivelmente apenas por seu caráter por demais evidente.
O enunciado de uma pessoa não é (não é primariamente tratado como)
um sinal ou sintoma, embora possa, secundária e artificialmente, ser tratado
assim. Um lugar único lhe é reservado no sumário dos fatos do caso. A questão
é então: 'por que acreditar nele?”.
Respostas existem para tal questão, devendo esta ser aqui tomada no sentido
geral “por que sempre acreditar nele?” e não simplesmente “por que acreditar
nele desta vez”. Podemos dizer que os enunciados de uma pessoa em assuntos
outros que não seus próprios sentimentos estiveram constantemente ao nosso
alcance no passado e foram regularmente verificados por nossas próprias obser-
vações dos fatos relatados, de modo que temos verdadeiramente alguma base
para deduzir algo a respeito de sua credibilidade geral. Ou podemos dizer que
seu comportamento é mais simplesmente 'explicado' pela hipótese de que ele
de fato sente emoções como as nossas, da mesma maneira como os psicanalistas
“explicam” o comportamento irregular por analogia ao comportamento normal,
quando utilizam a expressão “desejos inconscientes”.
Estas respostas são, entretanto, perigosas e inúteis. São tão evidentes que
não agradam a ninguém, enquanto, por outro lado, encorajam o inquiridor a
“aprofundar” suas questões, encorajando-nos, ao mesmo tempo, a exagerar estas
respostas até distorcê-las.
A questão levada avante transforma-se afinal num desafio à própria pos-
sibilidade de “acreditar em outra pessoa” de algum modo no sentido ordinaria-
mente aceito da frase. Que justificação há para supor que exista afinal outra
mente em comunicação com você? Como você pode saber o que seria para
outra mente sentir algo, e assim como pode você compreendê-lo? Dá-se então
que somos tentados a dizer que, por “acreditar nele”, queremos apenas dizer
que tomamos certos sons vocais como sinais de certo comportamento
iminente, e que “outras mentes” não são verdadeiramente mais reais que desejos
inconscientes.
Isto é entretanto, uma distorção. Acreditar em outra pessoa, em autoridade
€ testemunho, parece ser antes uma parte essencial do ato de comunicação, que
constantemente todos realizamos. É uma parte irredutível de nossa experiência,
tanto quanto, por exemplo, fazer promessas ou tomar parte em competições,
ou mesmo perceber manchas de cores. Podemos enunciar certas vantagens de
tais comportamentos, e podemos elaborar regras de certo tipo para sua conduta “ra-
cional” (como os tribunais e os historiadores e psicólogos elaboram as regras
para aceitar testemunho). Mas não há “justificação” para adotá-los enquanto tais.
Nota final
Um orador em Manchester * disse claramente que o verdadeiro ponto cru-
cial do problema residia ainda no fato de que “eu não devo dizer que set que
Tom está zangado, porque não introspecto seus sentimentos” e isto sem dúvida
é justamente o que faz vacilar muitas pessoas. A essência daquilo que tentei
aclarar é simplesmente:
“6 Onde se deu o simpósio. (N. do Editor ingles.)
OUTRAS MENTES 119
D E claro que não introspecto os sentimentos de Tom (estaríamos num
belo impasse se eu o fizesse);
2) E claro que algumas vezes sei que Tom está zangado.
Portanto:
3) Supor que a questão 'como sei que Tom está zangado? quer dizer
“como introspecto os sentimentos de Tom? (porque, como sabemos, o conhe-
cimento é ou deveria ser uma coisa deste tipo), é simplesmente trocar os pés
pelas mãos.
W V QUINE
Tradução de Oswaldo Porchat de Assis Pereira da Silva (ensaios 1. e 2.) e Andréa Maria Altino
de Campos Loparié (ensaios 3. 4.5. 6.)
* Traduzido do original inglês: Ontological Relativity and Other Essays, New York and London, 1969,
Columbia University Press.
so
2
1. FALANDO DE OBJETOS
Somos propensos a falar e pensar de objetos. Os objetos físicos são o
exemplo Óbvio quando nos dispomos a exemplificar, mas há também todos os
objetos abstratos, ou assim se pretende que haja: os estados e qualidades, nú-
meros, atributos, classes. Persistimos em partir de algum modo a realidade numa
multiplicidade de objetos identificáveis e discrimináveis, a que se referirão termos
singulares e gerais. Falamos tão inveteradamente de objetos, que dizer que o
fazemos quase parece não dizer nada; pois, de que outra maneira se pode falar?
E difícil dizer de que outra maneira se pode falar, não porque nosso padrão
objetivamente seja um traço invariável da natureza humana, mas porque estamos
limitados a adaptar qualquer padrão alheio a nosso próprio padrão, no mesmo
processo de entender ou traduzir as sentenças alheias.
Imagine-se uma tribo recém-descoberta cuja linguagem não tenha afinidades
conhecidas. O lingiista tem de aprender a linguagem diretamente, observando
o que os nativos dizem em circunstâncias observadas, encontradas ou planejadas.
Num primeiro começo, ainda cru, ele compila termos nativos para objetos cir-
cundantes; mas, já aqui, ele está realmente impondo seus próprios padrões. Vou
explicar o que tenho em mente. Concederei que o linguista pode estabelecer
indutivamente, para além de uma dúvida razoável, que uma certa expressão
gentílica é uma expressão a que os nativos podem ser instigados a assentir pela
presença de um coelho, ou de um fac-símile razoável, e não de outro modo. O
lingúista está então autorizado a atribuir à expressão nativa a tradução caute-
losa Eis aí um coelho, At temos um coelho. Ei! um coelho, Ei! coelhice de novo,
na medida em que as diferenças entre essas sentenças portuguesas se contam
como irrelevantes. Esse tanto de tradução pode ser objetivo, por mais exótica
que seja a tribo. A tradução reconhece a expressão nativa como, na prática,
uma sentença para anunciar coelhos. Mas o passo usado subsequente do lin-
gúista, no qual ele impõe seu próprio padrão de pôr objetos, sem garantia espe-
cial, é dado quando ele equaciona a expressão nativa ou alguma parte dela ao
termo coelho.
É fácil mostrar que um tal apelo a uma categoria de objetos não está
garantido, ainda mesmo que não possamos facilmente, em português, anunciar
coelhos sem objetivação. Pois podemos argumentar com a indiferença. Dado
que uma sentença nativa diga que um tal e tal está presente e dado que a sen-
tença seja verdadeira quando e somente quando um coelho está presente, de
nenhum modo se segue que os tais e tais sejam coelhos. Eles poderiam ser todos
vários segmentos temporais de coelhos. Eles poderiam ser todas as par-
tes inteiras ou não destacadas de coelhos. A fim de decidir entre essas alter-
nativas, precisamos ser capazes de perguntar algo mais do que se um tal e tal
está presente. Precisamos ser capazes de perguntar se este é o mesmo tal e
[24 QUINE
tal que aquele e se um ou dois tais estão presentes. Precisamos de algo como o
aparato de identidade e quantificação; donde muito mais do que nós próprios
estamos em condição de utilizar numa linguagem em que nosso ponto alto,
mesmo para datar, é a anunciação de coelhos.
E o caso é ainda pior: nem mesmo temos evidência para tomar a expressão
nativa como sendo da forma Um tal e tal está presente; ela poderia interpre-
tar-se igualmente bem com um termo singular abstrato, como significando que
se manifesta coelhice no local. Melhor: apenas coelha, como chove.
Mas, se nosso lingiiista for tão cauteloso assim, ele nunca traduzirá mais
do que essas anunciações simplórias de eventos correntes observáveis. Um lingiista
cauteloso é um lingiista enjaulado.' O que queremos do lingiiista, como um pro-
duto acabado utilizável, não é, afinal de contas, nenhuma mera lista de equi-
valências, sentença a sentença, como os catálogos das aerovias de frases espa-
nholas úteis. Queremos um manual de instruções para a construção corrente,
nos limites do razoável, de uma sentença nativa que corresponda aproximada-
mente a qualquer nova sentença portuguesa que se componha, e vice-versa. O
lingiiista tem de resolver a infinidade potencial de sentenças nativas numa lista
manipulavelmente limitada de construções gramaticais e formas linguísticas cons-
tituintes, e mostrar então como se pode atingir aproximadamente, em português,
o propósito de cada uma delas, e vice-versa. Algumas vezes talvez ele traduza
uma palavra ou construção não direta mas contextualmente, mediante instruções
sistemáticas para a tradução das sentenças que a contenham; mas, ainda assim,
ele deve arrumar-se com um lote limitado de definições contextuais. Ora, uma
vez cumprida, numa e noutra direção, essa tarefa necessária de lexicografia,
ele terá lido nosso ponto de vista ontológico na linguagem nativa. Ele terá
decidido que expressões tratar como referentes a objetos e, dentro de certos
limites, a que espécies de objetos tratá-las como referentes. Ele tivera de decidir,
ainda que arbitrariamente, como acomodar na tradução nativa expressões idio-
máticas portuguesas de identidade e quantificação.
A palavra “arbitrário” precisa ser acentuada, não porque essas decisões
sejam totalmente arbitrárias, mas porque elas o são tão mais do que se tende a
supor. Pois, que evidência tem o lingiúista? Ele começou com o que podemos
chamar de sentenças nativas de observação, tais como a anunciação de coelhos.
Essas, ele pode dizer como traduzi-las em português, desde que não atribuamos
nenhuma relevância às diferenças entre Um ccelho aqui, Coelhice aqui e
outras que tais. Ele pode também registrar outras sentenças nativas e estabelecer
se pessoas variadas estão preparadas para afirmá-las ou negá-las, ainda que
não descubra nenhum movimento de coelho ou outros eventos correntemente
observáveis aos quais ligá-las. Entre essas sentenças não traduzidas, ele pode
obter uma indicação ocasional de conexões lógicas, descobrindo, digamos, que
precisamente as pessoas que estão preparadas para afirmar 4 estão preparadas
para afirmar B e negar C. A partir daí cessam seus dados e principia sua cria-
tividade.
O que ele faz em sua criatividade é atribuir funções especiais e distintivas
a palavras componentes, ou a fragmentos notavelmente recorrentes, das sen-
tenças registradas. Os únicos modos de que se pode julgar essas atribuições
são os seguintes. Pode-se ver se elas contribuem para representar a sentença
sobre coelhos e outras que tais como conformes às suas condições de verdade
1 É impossível traduzir adequadamente o jogo de palavras em inglês. 4 cagey linguist is a
caged linguist. (N. do T.)
FALANDO DE OBJETOS 125
previamente detectadas. Pode-se ver também quão bem elas combinam com
os dados disponíveis para outras sentenças: sentenças para as quais nenhuma
condição de verdade é conhecida, mas somente a presteza variável dos nativos
para afirmá-las ou negá-las. Além desse ponto, podemos julgar as atribuições
somente pela sua simplicidade e naturalidade para nós.
O lingiista certamente experimentará sua teoria nos nativos, lançando novas
sentenças autorizadas por sua teoria, para ver se elas dão certo. Isso é uma
permutação da ordem temporal: arma-se a teoria antes de se terem todos os
dados possíveis e deixa-se, então, que ela nos sirva de guia na obtenção dos
dados adicionais que mais provavelmente tenham importância. Isso é um bom
método científico, mas não revela nenhuma espécie nova de dados. Os termos
portugueses gerais e singulares, a identidade, a quantificação e todo o conjunto
de truques ontológicos podem ser correlacionados com elementos da linguagem
nativa de qualquer uma dentre várias maneiras mutuamente incompatíveis, cada
uma compatível com todos os dados lingiiísticos possíveis e nenhuma preferível
a uma outra, exceto enquanto favorecida por uma racionalização da linguagem
nativa que é simples e natural para nós.
Não faz nenhuma diferença real que o lingiista se torne bilíngiie e venha
a pensar como o fazem os nativos — o que quer que isso queira dizer. Pois,
a arbitrariedade da leitura de nossas objetivações no discurso gentílico reflete
não tanto a inescrutabilidade da mente gentílica, mas o fato de que não há
nada a escrutar. Mesmo nós que crescemos juntos e aprendemos português no
mesmo colo, ou em colos adjacentes, por nenhuma outra razão falamos de
modo semelhante senão porque a sociedade nos treinou de modo semelhante
num padrão de resposta verbal a indicações exteriormente observáveis. Fomos
modelados numa conformidade externa a um padrão externo; e assim é que,
quando eu correlaciono suas sentenças com as minhas pela regra simples da
correspondência fonética, eu descubro que as circunstâncias públicas de suas
afirmações e negativas concordam bastante bem com as das minhas próprias.
Se concluo que você compartilha da minha espécie de esquema conceitual, estou
não tanto acrescentando uma conjetura suplementar, quanto rejeitando distin-
ções insondáveis; pois que outro critério de mesmidade de esquema conceitual
se pode imaginar? O caso de um francês, além do mais, é o mesmo, exceto que
eu correlaciono suas sentenças com as minhas, não por correspondência fonética.
mas conforme um dicionário que evolveu tradicionalmente.? Finalmente, o caso
do lingúista e de seu gentio recém-descoberto difere simplesmente no fato de
que o lingiista tem de ir às apalpadelas em busca de uma correlação geral,
sentença a sentença, que faça as circunstâncias públicas das afirmações e ne-
gativas do gentio combinar de modo tolerável com as circunstâncias das próprias
afirmações e negativas do lingiista. Se o lingiista falha nisso, ou se tem sérias
dificuldades com isso, ou se tem êxito somente à força de uma massa feia e
complexa de correlações, então ele está autorizado a dizer, no único sentido
em que isso se pode dizer, que seus gentios têm, em face da realidade, uma
atitude muito diferente da nossa; e, mesmo assim, ele não pode sugerir de
modo coerente qual é a atitude deles. Nem o bilíngiie natural está, em prin-
cípio, em melhor situação.
Quando comparamos teorias, doutrinas, pontos de vista e culturas, tendo
em vista que espécies de objetos se diz haver, estamos comparando-os sob um
prisma que, ele próprio, somente faz sentido provincialmente. Ele somente faz
2 V,. Richard von Mises, Positivism, Cambridge, Harvard, 1951, pp. d6 es.
126 QUINE
sentido na medida em que nossos esforços para traduzir nossas expressões
idiomáticas de identidade e quantificação trazem um encorajamento na direção
de uma correspondência simples e que pareça natural. Se cuidamos bem de
nossa tarefa, é improvável que encontremos uma cultura muito estranha com
uma predileção por um universo de discurso muito bizarro, precisamente porque
sua bizarrice diminuiria nosso sentimento da conveniência de nosso dicionário
de tradução. Há a idéia de que nossos modos provincianos de pôr objetos e
de conceber a natureza podem ser apreciados da melhor maneira pelo que eles
são se permanecemos de fora e se os vemos contra um pano de fundo de
culturas estranhas; mas essa idéia dá em nada, pois não há nenhum poã stô:
H
Ainda assim, apesar de toda a dificuldade em transcender nosso padrão de
pensamento dirigido para objetos, podemos examiná-lo suficientemente bem de
dentro. Voltemos nossa atenção do gentio, que pareceu ter um termo para
coelho, para nosso próprio filho, em casa, que parece ter acabado de adquirir
seus primeiros poucos termos em nossa própria língua: mamãe, água, talvez
vermelho. Para começar, o caso da criança assemelha-se ao do gentio. Pois,
embora possamos estar plenamente satisfeitos por ter a criança aprendido o
truque de usar as proferições mamãe e água estritamente nas presenças apro-
priadas, ou como meio de induzir as presenças apropriadas, ainda assim não
temos nenhum direito, a princípio, de interpretar essas proferições na boca da
criança como termos para coisas ou substâncias.
Nós, em nossa maturidade, acabamos por considerar a mãe da criança
como um corpo integral que, numa órbita fechada irregular, vem visitar a criança
de tempos em tempos; e a considerar o vermelho de um modo radicalmente
diferente, a saber, como disperso ao redor. Água, para nós, é um pouco como
vermelho, mas não inteiramente; coisas podem ser vermelhas, mas somente
material é água. Mas a mãe, vermelho e água são todos de um só tipo para
a criança: cada um é somente uma história de encontro esporádico, uma porção
dispersa do que ocorre. Seu primeiro aprendizado das três palavras é, de modo
uniforme, uma questão de aprender quanto do que ocorre em redor dela conta
como a mãe, ou como vermelho, ou como água. Não equivale à criança dizer,
no primeiro caso Oi! mamãe de novo, no segundo caso Oi! outra coisa ver-
melha e no terceiro caso Oi! mais água. Eles estão todos em pé de igualdade:
Oi! mais mamãe, mais vermelho, mais água. Mesmo essa última fórmula, que
trata todos os três termos a partir do modelo de nosso termo de massa adulto
provinciano água, é imperfeita; pois ela imputa, sem garantias, uma objetiva-
ção da matéria, mesmo se somente como material e não como pedaços.
Vê-se, entretanto, que a criança desenvolve progressivamente um padrão
de comportamento verbal que chega finalmente a copiar o nosso bastante de
perto para que haja qualquer sentido em questionar a mesmidade geral de
esquema conceitual. Com vistas a uma perspectiva sobre o nosso próprio aparato
objetivante, podemos considerar quais as fases de desenvolvimento que cons-
tituem a diferença entre a criança que balbucia mamãe, da qual não se pode
3 Para um desenvolvimento mais completo do tema precedente, ver meu “Meaning and Trans-
lation” na antologia de Reuben Brower On Translation (Harvard, no prelo). Sou grato a
Burton Dreben por criticas que beneficiaram a seção acima e porções seguintes do pre-
sente ensaio.
FALANDO DE OBJETOS 127
dizer que esteja usando termos para objetos, e a criança mais velha, da qual
isso se pode dizer.
E somente quando a- criança chegou ao uso pleno e próprio de termos
individuadores como maçã, que se pode dizer propriamente que ela se acostumou a
usar termos como termos e a falar de objetos. Palavras como maçã e não
palavras como mamãe ou vermelho ou água são os termos cujo envolvimento
ontológico é profundo. Para aprender maçã, não é suficiente aprender quanto
do que ocorre conta como maçã; devemos aprender quanto conta como uma
maçã e quanto como uma outra. Termos tais possuem modos inclusos de
individuação.
Termos individuadores se usam comumente também como termos de massa.
Assim, podemos dizer Há alguma maçã na salada, sem significar alguma maçã
ou alguma outra; exatamente como podemos dizer Maria tinha um cordeirinho
em dois sentidos distintos. Ora, nós apreciamos o fato de que a criança pode
aprender perfeitamente bem os termos mamãe, vermelho e água, antes de ter
dominado as idas e vindas de nosso esquema conceitual adulto de objetos físicos
duráveis móveis, idênticos de um tempo a outro e de um lugar a outro; e, em
princípio, cla poderia fazer o mesmo para maçã, como um termo de massa para
material de maçã não recortado. Mas ela nunca pode dominar plenamente maçã
em seu uso individuador, exceto na medida em que ela progride com o esquema
de objetos físicos duráveis e recorrentes. Ela pode chegar a alcançar de algum
modo o uso individuador de maçã, antes de dominar inteiramente o quadro
físico compreensivo, mas seu uso será prejudicado por identificações errôneas,
no decurso do tempo, de maçãs distintas, ou por discriminações errôneas de
maçãs idênticas.
Ela chegou realmente ao uso individuador, é-se tentado a supor, uma vez
que ela responda com o plural maçãs a um monte de maçãs. Mas não é assim.
Ela pode, nesse momento, ter aprendido maçãs como um outro termo de massa,
aplicável precisamente a quanto de maçã se toma em montes de maçãs. Maçãs,
para ela, estaria subordinado a maçã, como água quente o está a água e ver-
melho-claro a vermelho.
A criança poderia ir adiante e adquirir bloco e biocos, bola e bolas, como
termos de massa, no mesmo estilo. Pela força da analogia entre tais pares,
ela poderia mesmo vir a aplicar o plural -s, com propriedade aparente, a pa-
lavras novas e a retirá-lo, com propriedade aparente, de palavras primeiramente
aprendidas somente com ele. Poderíamos perfeitamente não detectar, durante
um certo tempo, sua concepção errônea: aquele -s apenas muda termos de massa
em termos de massa mais especializados que conotam agrupamento.
Uma concepção errônea variante e plausível é esta: maçã, à maneira de
massa, poderia recobrir apenas o material de maçã que se espeça em maçãs
isoladas, enquanto maçãs ainda figura como se sugeriu por último. Então maçãs,
e maçã seriam antes mutuamente exclusivas que subordinadas uma à outra. Essa
concepção errônea variante poderia, de modo semelhante, ser sistematicamente
projetada para bloco e blocos, bola e bolas, e por muito tempo escapar à
observação.
Como podemos dizer um dia, então, se a criança pegou realmente o truque
da individuação? Somente induzindo-a ao discurso sofisticado de aquela maçã,
não aquela maçã, uma maçã, mesma maçã, uma outra maçã, essas maçãs. É so-
mente nesse nível que emerge uma diferença palpável entre o uso genuinamente
individuador e as imitações há pouco imaginadas.
Sem dúvida, a criança adquire o uso balanceado desses adjetivos peculiares
mesmo, um outro, um, aquele, não aquele, contextualmente: primeiramente ela
128 QUINE
se adapta a várias frases ou sentenças mais longas que os contêm e, então, de-
senvolve gradualmente hábitos apropriados em relação às palavras componentes
como partes comuns e resíduos dessas formas mais longas. Sua aquisição expe-
rimental do plural -s, sobre a qual se especulou há pouco, constitui, ela própria,
um primeiro passo primitivo dessa espécie. O aprendizado contextual dessas
várias partículas progride, podemos supor, de modo simultâneo, de modo que
elas se ajustam gradualmente uma à outra e se desenvolve um padrão coerente
de uso, que se iguala ao dos mais velhos. Esse é um passo importante na
aquisição do esquema conceitual que todos conhecemos tão bem. Pois é ao
completar-se esse passo e somente então que pode haver algum discurso geral
sobre objetos como tais. Somente nessa etapa começa a fazer sentido querer-se
saber se a maçã que se tem na mão agora é a maçã que se observou ontem.
Enquanto não emerge a individuação, dificilmente se pode dizer que a
criança tem termos gerais ou singulares, não havendo nenhum discurso expresso
sobre objetos. O termo pré-individuador mamãe e, de modo semelhante, água
e vermelho (para crianças às quais acontece aprender água e vermelho antes de
dominarem a individuação) remetem a uma fase primitiva para a qual a distinção
entre singular e geral é irrelevante. Entretanto, uma vez tenha a criança atra-
vessado a crise individuadora, ela está preparada para reavaliar termos ante-
riores. Mamãe, em particular, surge como o nome de um objeto largo e recorrente
mas, além disso, individual e, assim, como um termo singular por excelência.
Sendo as ocasiões que obtêm mamãe em resposta exatamente tão descontínuas
como as que obtêm água em resposta, os dois termos tinham estado em pé de
igualdade; mas, com o advento da individuação, a mãe se torna integrada numa
convexidade espácio-temporal coesiva, enquanto a água permanece dispersa,
mesmo no espaço-tempo. Os dois termos deixam, assim, de fazer-se companhia.
O domínio da individuação dificilmente parece afetar a atitude das pessoas
em relação a água. Para água, açúcar e palavras semelhantes, permanece a cate-
goria de termos de massa, uma sobrevivência da fase pré-individuadora, que se
ajusta mal à dicotomia do geral e do singular. Mas a mente filosófica vê o seu
meio de impelir a categoria arcaica para dentro da dicotomia. O termo de massa
água depois da cópula usualmente pode reinterpretar-se planamente como um
termo geral verdadeiro de cada porção de água, enquanto, em outras posições,
ele usualmente se interpreta mais simplesmente como um termo singular que
nomeia aquele objeto espácio-temporalmente difuso que é a totalidade da água
do mundo.
HI
Insisti em que poderíamos conhecer as condições estimulatórias necessárias
e suficientes de cada ato possível de proferição numa língua estrangeira e, ainda
assim, não saber como determinar em que objetos os locutores daquela língua
acreditam. Ora, se a referência objetiva é tão inacessível à observação, quem
poderá dizer, com razões empíricas, que a crença em objetos desta ou daquela
descrição está certa ou errada? Como poderá alguma vez haver evidência em-
pírica contra enunciados existenciais”?
A resposta é algo como o que segue. Concedamos que um conhecimento
das condições estimulatórias apropriadas de uma sentença não estabelece como
interpretar a sentença em termos de existência de objetos. Ainda assim, ele
tende a estabelecer o que se há de contar como evidência empírica a favor de
ou contra a verdade da sentença. Se caminhamos então no sentido de atribuir
.
importância à sentença no tocante à existência de objetos, por projeção arbi-
FALANDO DE OBJETOS 129
trária no caso da linguagem gentílica ou como uma questão trivial no caso de
nossa própria linguagem, em seqiiência a isso o que já estivera contando como
evidência empírica a favor de ou contra a verdade da sentença vem a contar
como evidência empírica a favor de ou contra a existência de objetos.
A oportunidade de erro em enunciados existenciais aumenta com o do-
mínio que se tenha do aparato verbal de referência objetiva. Na nossa primeira
fase de aprendizado de palavras, foram aprendidos termos como mamãe e água
que podem ser vistos retrospectivamente como nomes, cada um deles, de um
objeto espácio-temporal observado. Cada um de tais termos foi aprendido por
um processo de reforço e extinção, mediante o qual o domínio espácio-temporal
de aplicação do termo foi gradualmente completado. O objeto nomeado é segu-
ramente um objeto observado, no sentido de que os estímulos reforçados pro-
cederam bastante diretamente dele. Por certo, esse discurso sobre nome e objeto
pertence a uma fase posterior do aprendizado da linguagem, exatamente como
é o caso do discurso sobre estimulação.
A segunda fase, marcada pelo advento de termos individuadores, é onde
emerge uma noção própria de objeto. Aqui obtemos termos gerais, cada um
deles verdadeiro de cada um dentre muitos objetos. Mas os objetos são ainda
objetos espácio-temporais observáveis. Pois esses termos individuadores, por
exemplo maçã, são ainda aprendidos pelo velho método de reforço e extinção;
eles diferem de seus predecessores somente pelo traço de individuação interna
acrescentado.
Termos singulares demonstrativos como esta maçã introduzem a uma ter-
ceira fase caracterizada pelo fato de que um termo singular usado seriamente
agora pode, por erro, deixar de nomear: pode ocorrer que a coisa apontada seja
a mera parte frontal de uma maçã, ou talvez um tomate. Mas, mesmo nessa eta-
pa, qualquer coisa que consigamos nomear é ainda um objeto espácio-temporal
observável.
Uma quarta fase vem com a junção de um termo geral a um outro em po-
sição atributiva. Agora, pela primeira vez, podemos obter termos gerais que
não são verdadeiros de coisa alguma; é o caso de maçã azul, bola quadrada.
Mas quando há, de qualquer modo, coisas das quais os termos gerais assim for-
mados são verdadeiros, elas ainda não são nada de novo; elas são apenas alguns
dentre os mesmos velhos observáveis dos quais os termos componentes são
verdadeiros.
E uma quinta fase que traz um novo modo de compreensão, dando acesso
a novas espécies de objetos. Quando formamos compostos pela aplicação de
termos relativos a termos singulares, obtemos compostos tais como menor que
aquela mancha. Enquanto a inexistência de maçãs azuis observáveis é equiva-
lente à inexistência de rnaçãs azuis, a inexistência de objetos observáveis meno-
res que aquela mancha não é tomada como equivalente à inexistência de objetos
menores que aquela mancha. O traço notável desta quinta fase não é que ela nos
capacita a formar termos singulares significativos desprovidos de referência, pois
isso já era conseguido ocasionalmente com essa maçã; nem que ela nos capacita
a formar termos gerais não verdadeiros de coisa nenhuma, pois isso já era con-
seguido com maçã azul; mas que ela nos capacita, pela primeira vez, a formar
termos cujas referências se pode admitir que são para sempre inobserváveis, sem
que sejam todavia repudiadas como inexistentes, tal como maçãs azuis.
Tal aplicação de termos relativos a termos singulares é o método mais sim-
ples de formar termos que se pretende nomeiem inobserváveis, mas há também
expedientes mais flexíveis para praticamente o mesmo efeito: a cláusula relativa
e a descrição.
130 QUINE
E eis que: vem ainda uma sexta fase, quando passamos bruscamente a su-
postos * ainda mais radicalmente novos que os objetos menores que a menor
mancha visível. Pois, os objetos menores que a mancha diferem de objetos obser-
váveis somente por uma questão de grau, enquanto a sexta fase introduz entida-
des abstratas. Essa fase é marcada pelo advento de termos singulares abstratos
como vermelhidão, redondeza, humanidade, pretensos nomes de qualidades, atri-
butos, classes. Especulemos sobre o mecanismo desse novo movimento.
Uma cunha para isso é o termo de massa. Tais termos podem ser aprendi-
dos, nós o vimos, na própria primeira fase, em pé de igualdade com mamãe.
Vimos que eles divergem de mamãe na segunda fase, simplesmente devido a que
a mulher passa então a ser apreciada como uma coisa espácio-temporal integrada,
enquanto o mesmo não ocorre ordinariamente com a água ou o material ver-
melho do mundo. Para a criança, assim, que ainda não possui a idéia sofisticada
do objeto singular disperso, o termo de massa já tem à sua volta um ar de gene-
ralidade, comparável ao termo individuador maçã; e, ainda assim, ele está bem
próximo em forma e função do termo singular mamãe, tendo mesmo sido apreen-
dido ou sido suscetível de ser apreendido na primeira fase, em pé de igualdade
com mamãe. Assim, o termo de massa já tem um pouco o ar híbrido do termo
singular abstrato. Poderia mesmo dizer-se que água, a partir do próprio advento
da individuação, nomeia antes um atributo compartilhado pelos numerosos char-
cos e copos cheios do que uma porção dispersa do mundo composta desses char-
cos e copos cheios; pois a criança, sem dúvida, não adota nenhuma dessas
posições.
Além do mais, há um ponto intricado a respeito de palavras para cores
que encoraja especialmente a transição para a referência abstrata. Vermelho pode
aprender-se como um termo de massa, como água, mas ele se aplica, em particu-
lar, a maçãs cujos interiores são brancos. Antes de dominar o esquema concei-
tual da individuação e do objeto físico durável, a criança vê a maçã vermelha
não cortada, tal como o suco de tomate, simplesmente como esse tanto de expo-
sição de vermelho no espetáculo que passa; e, não tendo nenhum sentido da
identidade física, ela vê o interior branco da maçã, a seguir exposto, como irrele-
vante. Quando ela domina eventualmente o esquema conceitual da individuação
e do objeto físico durável, ela tem então de haver-se com um uso previamente
adquirido de vermelho que se tornou subitamente duplo: há material vermelho
(suco de tomate) e há coisas vermelhas (maçãs) que são sobretudo material
branco. Vermelho ao mesmo tempo permanece um termo de massa da antiga
vindima de água e mamãe e se torna um termo geral concreto como redondo
ou maçã. Uma vez que a criança ainda não conceberá vermelho como, repenti-
namente, duas palavras, ela passa de algum modo a infundir singularidade no
geral concreto; e tal é a receita, ainda que não apetitosa, para o singular abstra-
to. A analogia se espalha então a outros termos gerais, que não se achavam em
dificuldade tão especial como vermelho, até que eles todos produzam singulares
abstratos.
Uma outra força em direção de termos abstratos, ou da suposição de obje-
tos abstratos, reside na remissão abreviada. Por exemplo, após uma observação
complexa a respeito do presidente Eisenhower, alguém diz: O mesmo vale para
Churchill. Ou então, a modo de confirmar alguma identificação botânica, se diz:
4 Traduzimos por “suposto” (no sentido etimológico do latim supponere) o termo inglês posit,
que designa, na linguagem quiniana, aquilo que se “põe” no discurso comum ou científico,
por exemplo, a entidade nova que se introduz e “sub-põe” como base para um novo dis-
curso ou teoria. (N. do T.)
FALANDO DE OBJETOS 131
Ambas as plantas têm o seguinte atributo em comum, e se continua com uma
descrição de duplo objetivo. Em tais casos, uma repetição laboriosa é convenien-
temente evitada. Ora, a remissão em tais casos é somente a uma forma de pa-
lavras. Mas temos uma tendência obstinada a reificar a matéria não repetida
mediante a suposição de um atributo, ao invés de falar somente de palavras.
Há, em verdade, um precedente arcaico para a confusão de signo e objeto;
o condicionamento primitivo do balbucio da criança é ambíguo nesse ponto. Pois
suponhamos um bebê recompensado por lhe ter acontecido balbuciar algo como
mamãe ou água precisamente quando apareceu a mãe ou a água. Os estímulos
que são assim reforçados são obrigatoriamente dois: há não somente a aparição
do objeto, há igualmente a própria palavra, ouvida pela criança de seus próprios
lábios. A confusão de signo e objeto é um pecado original, contemporâneo da
palavra.
Vimos como a criança poderia deslizar, por etapas fáceis, para dentro da
ontologia de atributos da comunidade, a partir de termos de massa. Vimos tam-
bém como um discurso sobre atributos continuará a ser encorajado, na criança
e na comunidade, por uma certa conveniência da remissão, unida a uma confu-
são de signo e objeto. Temos, nessas reflexões, alguns materiais para uma espe-
culação a respeito dos primitivos começos de uma ontologia de atributos na in-
fância da raça. Há lugar, igualmente, para conjeturas alternativas ou suplemen-
tares; por exemplo, a de que os atributos são vestígios das divindades menores
de algum credo consumido pelo tempo. * De modo geral, uma tal especulação é
epistemologicamente relevante, enquanto sugere de que modo organismos que
maturam e evoluem no meio físico que conhecemos poderiam, de uma maneira
concebível, acabar discorrendo sobre objetos abstratos, como fazemos. Mas o
descrédito da origem não constitui, por si mesmo, argumento algum contra a
preservação e a apreciação positiva da ontologia abstrata. Esse esquema concei-
tual pode muito bem ser, ainda que acidental, um acidente feliz; exatamenie co-
mo a teoria dos elétrons em nada seria pior por ter ocorrido primeiramente a seu
inventor no decurso de algum sonho absurdo. De qualquer modo, a ontologia de
objetos abstratos é parte do navio que, na imagem de Neurath, estamos recons-
truindo no mar. * Podemos rever o esquema, mas somente a favor de alguma
explicação geral mais clara ou mais simples e não menos adequada do que vai
pelo mundo.
Iv
Ao descobrir, de modo aproximado, que estimulações não verbais tendem
a instigar o assentimento a um enunciado existencial dado, nós estabelecemos,
em algum grau, o que deve contar como evidência a favor de ou contra a exis-
tência dos objetos em questão. Insisti nisso no começo de III. Entretanto, os
enunciados, existenciais ou outros, variam no modo mais ou menos direto de
que estão condicionados à estimulação não verbal. Comumente, uma estimulação
somente acionará nosso veredito sobre um enunciado porque o enunciado é uma
fibra na rede verbal de alguma teoria complexa de que outras fibras estão mais
diretamente condicionadas àquela estimulação. A maioria de nossos enunciados
correspondem assim a reverberações através do tecido de associações intralin-
guísticas, mesmo quando também condicionados diretamente, em algum grau, a
5 Assim Ernst Cassirer, Language and Myth, Nova York, Harper, 1946, pp. 95 s.
é Otto Neurath, “Protokollsaetze”, Erkenntnis 3 (1932), 206.
132 QUINE
estímulos extralingúísticos. Enunciados altamente teóricos são enunciados cuja
conexão com a estimulação extralingúística consiste de modo praticamente exclu-
sivo nas reverberações através do tecido. Enunciados da existência de diferentes
espécies de partículas subvisíveis tendem a ser teóricos, nesse sentido; e ocorre
ainda mais assim com enunciados da existência de certos objetos abstratos. Co-
mumente, tais enunciados dificilmente se devem julgar de outro modo que não
pela coerência, ou por considerações sobre a simplicidade em geral de uma teo-
ria cujos contatos últimos com a experiência estão tão afastados quanto o po-
dem estar dos enunciados em questão. Ainda assim e de um modo bastante no-
tável, há enunciados de existência abstrata que sucumbem a tais considerações.
Tivemos a aptidão de supor uma ontologia suficientemente maciça para desa-
bar sob seu próprio peso.
Pois há os paradoxos das classes. Esses paradoxos são enunciados usual-
mente para classes, porque classes são uma espécie relativamente simples de ob-
jeto abstrato sobre a qual discorrer e também porque, sendo as classes aparente-
mente mais inocentes do que os atributos, há mais graça em desacreditá-las. Seja
como for, como é tanto bem sabido quanto óbvio, os paradoxos de classes se
produzem pari passu para atributos e, de novo, para relações.
O moral a tirar dos paradoxos não é necessariamente o nominalismo, mas
certamente que devemos apertar nosso cinto ontológico de alguns furos. A lei
de atributos que estava implícita em nossos hábitos de linguagem ou que do modo
mais fácil se harmonizava com eles era que todo enunciado que menciona uma
coisa lhe atribui um atributo; e essa herança cultural, por venerável que seja,
deve ir-se. Requerem-se ao menos algumas judiciosas excisões ad hoc.
Considerações sistemáticas podem pressionar não apenas para que se repu-
diem certos objetos e, assim, se declarem irreferenciais certos termos; elas podem
também pressionar para que se declarem irreferenciais certas ocorrências de ter-
mos, enquanto outras ocorrências continuam a ter referência. Esse ponto é essen-
cialmente de Frege” e um exemplo dele é proporcionado pela sentença Tom
acredita que Túlio escreveu a Ars Magna. Se assertamos isso com base na con-
fusão de Tom entre Túlio e Lúlio e com plena apreciação da apreciação de Tom
de que Cícero não escreveu a Ars Magna, então não estamos dando ao termo
Túlio uma ocorrência puramente referencial em nossa sentença Tom acredita que
Túlio escreveu a Ars Magna; nossa sentença definitivamente não é sobre Túlio.
Se o fosse, teria de ser verdadeira de Cícero, que é Túlio.
Era somente após de algum modo decidir quais locuções gentilicas inter-
pretar como a identidade e coisas semelhantes que nosso linguista podia começar
a dizer quais palavras gentílicas servem como termos e a quais objetos elas se
referem. Era somente depois de pegar o jeito da identidade e de expedientes apa-
tentados que se podia dizer de modo razoável que nosso próprio filho estava falan-
do com termos e estava falando de objetos. E é ainda às exigências da identi-
dade, especificamente à substituibilidade da identidade, que o locutor adulto de
nossa língua continua a responder, por quanto tempo se possa dizer que ele
está usando termos para fazer referência.
Somos livres para usar o verbo acredita de modo a permitir, atinal de
contas, um pleno uso referencial aos termos subsegiientes. Agir assim é negar
Tom acredita que Túlio escreveu a Ars Magna, à luz do conhecimento de Cícero
7 Ver Frege, “On sense and reference”, traduzido em Philosophical Writings of Gottlob Frege
(Geach and Black, ed.), Oxford, Blackwell, 1952, e em Readings in Philosophical Analysis
(Feigl and Sellars, ed.), Nova York, Appleton, 1949. Ver também meu Frege a Logical
Point of View, Cambridge, Harvard. 1953, ensaio 8.
FALANDO DE OBJETOS 133
por Tom e a despeito de sua confusão de nomes. O fato é que podemos usar e
usamos acredita de ambos os modos: de um modo, quando dizemos que Tom
acredita que Túlio escreveu a 4rs Magna e do outro modo, quando negamos is-
so ou quando, recorrendo à quantificação, dizemos apenas que há alguém que
Tom acredita que agiu desse e desse modo. Observações paralelas também con-
vêm a outras dentre as atitudes proposicionais, como Russell as chama: é o caso
de duvidar, desejar e esforçar-se, juntamente com acreditar.
O homem num estado de natureza não tem consciência da duplicidade des-
ses seus usos, nem dos fios que a cada um se atam; exatamente como ele não
tem consciência das consegiiências paradoxais de uma ontologia ingênua de clas-
ses ou atributos. Ora, ainda uma outra fraqueza ontológica de que não temos
igualmente consciência até que, com mente filosófica, começamos a olhar para
considerações de coerência, tem a ver com a individuação de atributos.
A suposição de atributos não se acompanha de nenhum indício quanto às
circunstâncias nas quais se pode dizer que os atributos são os mesmos ou dife-
rentes. Isso é perverso, se se considera que o próprio uso de termos e a própria
suposição de objetos são irreconhecíveis, para começar, exceto se atados com
locuções idiomáticas de identidade e diferença. O que acontece é que, a princí-
pio, aprendemos modelos gerais de discurso com termos e de discurso sobre
coisas com a ajuda dos adjuntos de identidade necessários; posteriormente, pro-
jetamos essas formas gramaticais bem aprendidas sobre os atributos, sem estabe-
lecer a identidade para eles. Entendemos as formas como referenciais precisa-
mente porque elas são gramaticalmente análogas às que aprendemos primitiva-
mente, com plena dependência em relação ao aspecto da identidade.
A falta de um conceito apropriado de identidade para atributos é uma falta
que os filósofos se sentem impelidos a suprir; pois, que sentido há em dizer que
há atributos quando não há sentido algum em dizer quando há um atributo e
quando há dois? Carnap e outros propuseram este princípio para identificar
atributos: duas sentenças sobre x atribuem o mesmo atributo a x se e somente
se as duas sentenças não são meramente iguais em valor de verdade para cada
escolha de x, mas o são necessaria e analiticamente, por mesmidade de signi-
ticado. *
Contudo, essa formulação depende de uma noção questionável, a de mes-
midade de significado. Pois não vamos nos deixar resvalar de novo para a fan-
tasia de uma galeria de idéias e etiquetas. Lembremo-nos antes da dificuldade de
nosso lexicógrato de campo: quão arbitrária era sua projeção de analogias a
partir de linguagens conhecidas. Pode um empirista falar seriamente da mesmi-
dade de significado de duas condições para um objeto x, uma enunciada na lin-
guagem gentílica e outra na nossa, mesmo quando a singularização de um objeto
x como objeto, simplesmente, para a linguagem gentílica é tão irremediavelmente
arbitrária?
Poderíamos omitir a linguagem gentílica e tentar falar de mesmidade de
significado somente dentro de nossa própria linguagem. Isso degradaria a onto-
logia de atributos; a identidade de atributos seria atribuída a partir de traços
francamente provincianos do uso português, harmonizando-se mal com a objeti-
vidade de verdadeiros objetos. E não vamos deixar que se dê a desculpa de que
todo discurso sobre objetos, inclusive os físicos, também é de algum modo pro-
vincial; pois o modo é diferente. Nossa física é provincial somente por não ha-
ver nenhuma base universal para traduzi-la em linguagens remotas; ainda assim,
8 Rudolf Carnap, Meaning and Necessity, Chicago, 1947, p. 23.
134 QUINE
ela nunca perdoaria que se definisse a identidade física em termos de comporta-
mento verbal. Se assentamos a identidade de atributos numa relação admitida-
mente local de sinonímia portuguesa, então contamos os atributos como secun-
dários para a linguagem de um modo de que os objetos físicos não o são.
Vamos precisamente deixar que os atributos sejam assim secundários para
a linguagem de um modo de que os objetos físicos não o são? Mas nossos pro-
blemas não terminam aqui; pois o fato é que não vejo esperança alguma de con-
ferir-se sentido razoável à mesmidade de significado mesmo para o português.
Trata-se de uma dificuldade que desenvolvi alhures.º Supõe-se que expressões
portuguesas significam o mesmo se, para falar de modo vago, elas se podem usar
uma pela outra em qualquer situação e em qualquer contexto português sem di-
ferença relevante de efeito; e a dificuldade essencial surge na delimitação do
sentido de relevante que se requer.
V
Não há como negar o acréscimo de potência que sobrevém a nosso esquema
conceitual através da postulação de objetos abstratos. Entretanto, muito do que
se ganha pela postulação de atributos se ganha igualmente pela postulação de
classes. As classes estão em pé de igualdade com os atributos no que tange à
abstrateza ou universalidade e elas servem aos propósitos dos atributos na me-
dida do que diz respeito à matemática e certamente à maior parte da ciência; e
elas gozam, diferentemente dos atributos, de um conceito cristalino de identidade.
Não é de espantar, então, que na matemática a obscura intensionalidade dos
atributos tenda a ceder lugar à límpida extensionalidade das classes; semelhante
é O que ocorre em outras ciências, aproximadamente na proporção do rigor e
austeridade de suas sistematizações.
Poder-se-ia, ainda assim, reivindicar para os atributos esta vantagem sobre
as classes: eles ajudam a sistematizar o que podemos chamar de atitudes atribu-
tárias — caçar, querer, temer, carecer de e semelhantes. Com efeito, tome-se
caçar. Caçar leões não é, como capturar leões, uma transação entre homens e
Jeões individuais; pois não exige leão algum. Analisamos capturar leões, captu-
rar coelhos, etc., como tendo em comum uma relação de capturar e somente va-
riando quanto aos indivíduos capturados; mas o que dizer de caçar leões, caçar
coelhos, etc.? Se alguma relação comum tem de ser aqui reconhecida, os objetos
variantes da relação devem tomar-se evidentemente não como indivíduos, mas
como espécies. Ainda assim, não espécies no sentido de classes, pois então caçar
unicórnios deixaria de diferir de caçar grifos. Espécies antes no sentido de
atributos.
Alguns outros supostos objetos abstratos que são como atributos, com res-
peito ao problema da identidade, são as proposições — no sentido de entidades
que de algum modo correspondem a sentenças como atributos correspondem a
predicados. Ora, se os atributos reivindicam reconhecimento como objetos das
* “Two dogmas of empiricism”, Philosophical Review 60 (1951), 20-43; reimpresso em meu
From a Logical Point of View. Ver também meu “Carnap e la veritã logica”, Rivista di Filo-
sofia 48 (1957), 3-29, que é uma tradução de um ensaio, parte do qual apareceu também no
original inglês, sob o título “Logical Truth” em American Philosophers at Work (Sidney
Hook, ed.), Nova York, Criterion, 1956.
FALANDO DE OBJETOS 135
atitudes atributárias, assim o fazem as proposições como objetos das atitudes pro-
posicionais: acreditar, desejar e o resto. !º
Sufocados pelo problema da identidade de atributos e proposições, podemos
contudo optar por dar uma boa varredura neles e encarregar-nos de tratar de
algum modo as atitudes atributárias e proposicionais sem eles. Filósofos que se-
guem essa linha austera recorrerão talvez a formas lingiúísticas efetivas, a senten-
ças, ao invés de proposições, como objetos das atitudes proposicionais; e a for-
mas lingiísticas efetivas, a predicados, ao invés de atributos, como objetos das
atitudes atributárias
Contra um tal recurso a formas lingiiísticas, ouve-se a seguinte objeção,
devida a Church e Langford:" Se aquilo em que se acredita são meras senten-
cãs, então Edwin acredita na sentença inglesa S dá corretamente em alemão
Edwin glaubt das englischen Satz S, com S inalterada. Mas também dá correta-
mente em alemão Edwin glaubt seguida de uma tradução alemã de S em discurso
indireto. Essas duas declarações alemãs, uma citando a sentença inglesa e a
outra usando um discurso alemão indireto, devem então ser equivalentes. Mas
elas não o são, argumenta-se, uma vez que um alemão ignorante do, inglês não
pode equacioná-las. Ora, não estou inteiramente satisfeito com esse argumento.
Ele repousa sobre a noção de equivalência lingiiística, ou mesmidade de signifi-
cado; e isso tem parecido duvidoso como um instrumento de análise filosófica.
Há, entretanto, uma outra objeção a que se tomem formas lingiiísticas como obje-.
tos das atitudes atributárias e proposicionais; a saber, simplesmente a de que
esse procedimento é desencorajadoramente artificial. Com essa objeção eu
simpatizo,
Talvez, afinal de contas, devêssemos ser mais receptivos à primeira e me-
nos premeditada das alternativas. Poderíamos, afinal de contas, conservar atri-
butos e proposições, mas apenas não tentar enfrentar o problema de sua indivi-
duação. Poderíamos aquiescer deliberadamente na velha e não regencrada supo-
sição de atributos e proposições sem indicação de um padrão de identidade. O
preceito Nenhuma entidade sem identidade poderia simplesmente ser relaxado.
Por certo, a suposição de objetos primeiros não faz sentido algum se cla não
se prende à identidade; mas esses padrões de discurso sobre coisas, uma vez fir-
memente inculcados, de fato nos capacitaram a falar de atributos e proposições
numa analogia gramatical parcial, sem um padrão de identidade que os acompa-
nhasse. Por que não aceitá-los precisamente assim, como meias-entidades crepus-
culares a que o conceito de identidade não se tem de aplicar? '2 Se a pouca res-
peitabilidade de sua origem é inegável, mesmo bastarda, para a mente esclareci-
da, isso não é nenhuma desgraça. Essa linha liberal se acorda com a filosofia
da linguagem ordinária de Oxford, ainda que eu muito lamentasse, com minha
referência simpática, causar alguma mágoa mais dura a meu reverenciado prede-
cessor nesta cátedra presidencial.
O que poderia apropriadamente contar contra o favorecimento de tais meias-
entidades, inacessíveis à identidade, é um certo despedaçamento da lógica. Pois,
10 Ver meu “Quantifiers and propositional attitudes”, Journal of Philosophy 53 (1956),
1797-187.
4 Alonzo Church, “On Carnap's analysis of statements of assertion and belief”, Analvsis 10
(1950), 97-99. Reimpresso em Philosophy and Analysis (Margaret Macdonald, ed.), Oxford
e Nova York, Blackwell e Philosophical Library, 1954.
2 Frege fez isso em Grundgesetze der Arithmetik, onde ele estava em dificuldades para não
submeter Begriffe à identidade. Ver também Peter Geach, “Class and Concept”, Philosophi-
cal Review 64 (1955), 561-S70,
136 QUINE
se temos de tolerar as meias-entidades sem abdicar da responsabilidade filosófica,
devemos ajustar a lógica de nosso esquema conceitual para recebê-las e pesar,
então, qualquer complexidade resultante contra os benefícios das meijas-entidades
em conexão com atitudes proposicionais e atributárias e em qualquer outro setor.
Mas não estou seguro de que mesmo a responsabilidade filosófica requeira
uma decisão por um único sistema para todos os propósitos. 'º Atitudes propo-
sicionais e atributárias pertencem ao discurso cotidiano de esperanças, temores €
propósitos; a ciência causal se arranja bem sem eles. O fato de que a ciência
os evitou e passou tão bem talvez pudesse encorajar um filósofo de tempera-
mento sanguíneo a tentar incluir aquele domínio anteriormente obscuro dentro
de um sistema universal revisado, integralmente digno da ciência. Mas uma alter-
nativa razoável embora menos ambiciosa seria manter um esquema conceitual
relativamente simples e austero, livre de meias-entidades, para negócios cientifi-
cos oficiais c acomodar, então, as meias-entidades num sistema de segundo grau.
Em qualquer caso, a idéia de acomodar meias-entidades sem identidade ilus-
tra como o esquema conceitual individuador, orientado para o objeto, que nos
é tão natural, poderia, de modo concebível, principiar a evoluir.
Pareceu-nos, em nossa reflexão sobre a criança, que a categoria de termos
de massa era um remanescente de uma fase pré-individuadora. Estávamos pen-
sando ontogeneticamente, mas o paralelo filogenético também é plausível: pode-
mos ter no termo de massa uma relíquia, metade como vestígio e metade adap-
tada, de uma fase pré-individuadora na evolução de nosso esquema conceitual,
E algum dia, de modo correspondente, algo de nosso atual discurso individuador
pode acabar, por sua vez, metade como vestígio e metade adaptado, dentro de
um novo e por enquanto ainda não imaginado padrão para além da individuação.
A transição para um tal modelo radicalmente novo poderia ocorrer ou atra-
vés de um empreendimento filosófico consciente ou mediante um desenvolvi-
mento lento e não refletido ao longo de linhas de menor resistência. Uma combi-
nação de ambos os fatores é o mais provável; e, de qualquer modo, os dois di-
ferem principalmente quanto ao grau de deliberação. Nossos padrões de pensa-
mento ou linguagem têm estado a evoluir, sob pressão de inadequações inerentes
e necessidades em mudança, desde a aurora da linguagem; e podemos aguardar
com confiança mais do mesmo processo, quer ajudemos, quer não, a dirigi-lo.
Uma tradução de nosso discurso remoto, passado ou futuro, nos termos
que ora conhecemos, poderia ser uma projeção quase tão tênue e arbitrária quan-
to se viu que o era uma tradução da linguagem nativa. Conversamente, mesmo
falar daquele meio remoto de comunicação como de um meio radicalmente dife-
rente do nosso não é mais do que dizer, como se observou no caso da linguagem
gentílica, que as traduções não vêm suavemente. Temos, seguramente, um modo
de acesso às futuras etapas de nossa evolução que nos é negado no caso da lin-
guagem gentílica: podemos sentar-nos e evoluir. Mas mesmo essas gradações
históricas, se de algum modo detectadas ao longo das idades e usadas como indií-
cios para tradução entre etapas de evolução amplamente separadas, ainda seriam
somente gradações e, em nenhum sentido, indícios para idéias fixadas por sob
o fluxo da linguagem. Pois o obstáculo para correlacionar esquemas conceituais
não é que haja algo de inefável acerca da linguagem ou da cultura, próximas ou
remotas. A verdade inteira sobre o comportamento lingiúístico mais bizarro nos
é exatamente tão acessível, em nosso esquema conceitual ocidental corrente, co-
3 Ver James B. Conant, Modern Science and Modern Man, Nova York, Columbia Univer-
sity, 1952, pp. 98 es.
FALANDO DE OBJETOS 137
mo o são outros capítulos de zoologia. O obstáculo é apenas que qualquer corre-
lação intercultural de palavras e frases e, portanto, de teorias, será somente uma
dentre várias correlações empiricamente admissíveis, quer seja ela sugerida por
gradações históricas, quer por uma analogia não auxiliada; não há coisa alguma
a respeito da qual uma tal correlação possa ser a única certa ou errada. Ao di-
zer isso, eu filosofo a partir de uma posição de vantagem representada somente
por nosso próprio esquema conceitual provincial e nossa época científica, é ver-
dade; mas não conheço nenhuma melhor.
2. A RELATIVIDADE ONTOLÓGICA
Ouvi Dewey falar sobre 4rte como Experiência quando eu era estudante de
pós-graduação, na primavera de 1931. Dewey estava então em Harvard como o
primeiro Conferencista das Conferências William James. Orgulho-me agora de
estar em Columbia como o primeiro Conferencista das Conferências John Dewey.
Filosoficamente estou ligado a Dewey pelo naturalismo que dominou suas
três últimas décadas. Com Dewey, eu sustento que conhecimento, mente e signi-
ficado são parte do mesmo mundo com que eles têm a ver e que eles têm de ser
estudados com o mesmo espírito empírico que anima a ciência natural. Não há
lugar algum para uma filosofia a priori.
Quando um filósofo naturalista se dirige à filosofia da mente, ele está
pronto para falar de linguagem. Significados são, em primeiro lugar e antes de
tudo, significados da linguagem. A linguagem é uma arte social que nós todos
adquirimos, tendo como única evidência o comportamento aberto de outras pes-
soas em circunstâncias publicamente reconhecíveis. Os significados, portanto,
esses verdadeiros modelos de entidades mentais, resultam em água para o moinho
do behaviorista. Dewey foi explícito sobre esse ponto: “O significado... não é
uma existência psiquica; é, primeiramente, uma propriedade do comportamento”.'
Uma vez apreciada a instituição da linguagem nesses termos, vemos que
não pode haver, em nenhum sentido útil, uma linguagem privada. Esse ponto foi
acentuado por Dewey nos anos 20. “O solilóguio”, escreveu ele, “é o produto e
o reflexo da conversa com os outros” (170). Mais adiante, ele expandiu o tema
deste modo: “A linguagem é especificamente um modo de interação de, pelo me-
nos, dois seres, um locutor e um ouvinte; ela pressupõe um grupo organizado ao
qual essas criaturas pertencem e do qual elas adquiriram seus hábitos de discurso.
Ela é, portanto, um parentesco” (185). Anos mais tarde, Wittgenstein rejeitou de
igual modo a linguagem privada. Quando Dewey estava a escrever com essa veia
naturalista, Wittgenstein ainda sustentava sua teoria da linguagem como cópia.
A teoria da cópia, em suas várias formas, permanece mais próxima da prin-
cipal tradição filosófica e da atitude do senso comum de hoje. A semântica não
crítica é o mito de um museu no qual as coisas expostas são significados e as
palavras são etiquetas. Mudar as linguagens é mudar as etiquetas. Ora, a objeção
primária do naturalista a esse modo de ver não é uma objeção a significados pelo
fato de eles serem entidades mentais, ainda que isso pudesse ser objeção suficiente.
A objeção primária persiste mesmo se tomarmos as coisas expostas etiquetadas,
não como idéias mentais, mas como idéias Platônicas, ou mesmo como os objetos
concretos denotados. A semântica é viciada por um mentalismo pernicioso en-
1 J. Dewey, Experience and Nature (La Salle, 111, open Court, 1925, 1958), p. 179.
I40 QUINE
quanto considerarmos a semântica de um homem como de algum modo determi-
nada em sua mente além do que poderia estar implícito em suas disposições a um
comportamento aberto. São os próprios fatos sobre significado, não as entidades
signiticadas, que devem ser interpretados em termos de comportamento.
Há duas partes no conhecimento de uma palavra. Uma parte é estar familia-
rizado com o som dela e ser capaz de reproduzi-lo. Essa parte, a parte fonética,
se cumpre pela observação e imitação do comportamento de outras pessoas e não
há nenhuma ilusão importante acerca do processo. A outra parte, a parte semân-
tica, é saber como usar a palavra. Essa parte, mesmo no caso paradigma, é mais
complexa que a parte fonética. A palavra se refere, no caso paradigma, a algum
objeto visível. O aprendiz tem agora não somente de aprender a palavra foneti-
camente, ouvindo-a de um outro locutor, ele tem também de ver o objeto; e, em
acréscimo a isso, a fim de capturar a relevância do objeto para a palavra, ele tem
de ver que o locutor também vê o objeto. Dewey resumiu assim esse ponto: “A
teoria característica sobre a compreensão dos sons de 4 por B é que este respon-
de à coisa do ponto de vista de 4” (178). Cada um de nós, enquanto aprende sua
linguagem é um estudioso do comportamento de seu vizinho; e, inversamente,
na medida em que suas tentativas são aprovadas ou corrigidas, é um sujeito do
estudo comportamental feito pelo vizinho.
A parte semântica do aprendizado de uma palavra é, portanto, mais com-
plexa que a parte fonética, mesmo nos casos simples: temos de ver o que está
estimulando o outro locutor. No caso de palavras que não atribuem diretamente
traços observáveis às coisas, o processo de aprendizado é, de modo crescente,
complexo e obscuro; e a obscuridade é o lugar de procriação da semântica men-
talista. Aquilo em que o nautralista insiste é que, mesmo nas partes complexas
e obscuras do aprendizado da linguagem, o aprendiz não tem dado algum com
que trabalhar a não ser o comportamento aberto de outros locutores.
Quando nos voltamos assim, com Dewey, para um modo naturalista de
ver a linguagem, aquilo a que renunciamos não é somente a imagem do discurso
como museu. Renunciamos a uma garantia de determinação. Vistas conforme
ao mito do museu, as palavras e sentenças de uma linguagem têm seus significa-
dos determinados. Para descobrir os significados das palavras do nativo, podemos
ter de observar seu comportamento mas, ainda assim, supõe-se que os significados
das palavras estão determinados na mente do nativo, -em seu museu mental, mes-
mo em casos nos quais critérios comportamentais são impotentes para descobri-los
para nós. Quando, por outro lado, reconhecemos com Dewey que “o significa-
do... é, primariamente, uma propriedade do comportamento”, reconhecemos que
não há significado algum, nem semelhança nem distinção de significado, além dos
que estão implícitos nas disposições das pessoas ao comportamento aberto. Para
o naturalismo, a pergunta sobre se duas expressões são semelhantes ou desseme-
lhantes quanto ao significado não tem nenhuma resposta determinada, conhecida
ou desconhecida, exceto na medida em que a resposta é decidida em princípio
pelas disposições das pessoas ao discurso, conhecidas ou desconhecidas. Se, por
esses padrões, há casos indeterminados, tanto pior para a terminologia do signifi-
cado e da semelhança de significado.
Para ver a que se assemelharia uma tal indeterminação, suponha-se que hou-
vesse uma expressão numa linguagem remota que pudesse ser traduzida em por-
tuguês, de modo igualmente defensável, de duas manciras distintas, dessemelhantes
quanto ao significado em português. Não estou falando de ambigiiidade dentro
da linguagem nativa. Estou supondo que um mesmo uso nativo da expressão pos-
sa receber uma ou outra das traduções portuguesas, acomodando-se cada uma
RELATIVIDADE ONTOLÓGICA 141
delas mediante ajustamentos compensatórios na tradução de outras palavras. Su-
ponha-se que ambas as traduções, juntamente com essas acomodações em cada
caso, se acordem igualmente bem com todo comportamento observável de parte
dos locutores da linguagem remota e dos locutores do português. Suponha-se que
elas se acordem perieitamente não só com o comportamento efetivamente obser-
vado, mas com todas as disposições ao comportamento por parte de todos os
locutores a que concernem. Com essas hipóteses, seria para sempre impossível
saber que uma dessas traduções era a certa e a outra, a errada. Ainda assim, se
o mito do museu fosse verdadeiro, haveria um certo e um errado, nesse assunto;
ocorre apenas que nunca saberíamos, por não termos acesso ao museu. Conside-
re-se a linguagem de um modo naturalista, por outro lado, e se terá de ver a no-
ção de semelhança de significado num tal caso simplesmente como um absurdo.
Estive atendo-me ao hipotético. Voltando agora a exemplos, deixem-me co-
meçar com um que é desapontador e trabalhar a partir dele. Na construção fran-
cesa ne... rien, pode-se traduzir rien em inglês à vontade por anything ou por
nothing e acomodar, então, a escolha, traduzindo-se ne por not ou interpretando-
se ne como pleonástico. Esse exemplo é desapontador porque se pode objetar
que eu meramente recortei muito pequenas as unidades francesas. Pode-se acre-
ditar no mito mentalista do museu de significados e, airda assim, conceder que
rien não tem por si mesmo nenhum significado, não sendo nenhuma etiqueta in-
teira; é parte de ne... rien, que tem seu significado como um todo.
Comecei com esse exemplo desapontador porque penso que seu traco no-
tável — sua dependência do recorte da linguagem em segmentos curtos demais
para veicular significados — é igualmente o segredo dos casos mais sérios. O que
torna outros casos mais sérios é que os segmentos que eles envolvem são seria-
mente longos: suficientemente longos para serem predicados e para serem verda-
deiros de coisas e, portanto, pensar-se-ia, para veicular significados.
Um exemplo artificial que usei alhures ? depende do fato de que um coelho
inteiro está presente quando e somente quando uma parte não destacada de um
coelho está presente; também quando e somente quando uma fase temporal de
um coelho está presente. Se estamos querendo saber se traduzimos uma expres-
são nativa gavagai por coelho ou por parte não destacada de coelho ou por fase
de coelho, nunca podemos decidir o assunto simplesmente por ostensão — isto e.
simplesmente por propor repetidamente a expressão gavagai ao assentimento ou
dissentimento do nativo na presença de estimulações adequadas.
Antes de ir adiante para insistir em que também não podemos decidir o as-
sunto por meios não ostensivos, deixem-me elaborar um pouco essa dificuldade
ostensiva. Não estou me preocupando, como foi o caso de Wittgenstein, com casos
simples de ostensão. A palavra para cor sépia, para tomar um de seus exemplos, ?
pode certamente ser aprendida por um processo ordinário de condicionamento ou
indução. Nem mesmo é preciso que se nos diga que sépia é uma cor e não uma
forma ou um material ou um artigo. É verdade que, excluindo tais indicações
pode-se precisar de muitas lições, de modo a eliminar generalizações errôncas
baseadas antes na forma, no material, etc., que na cor, e de modo a eliminar
noções errôneas quanto à demarcação tencionada de um exemplo indicado e de
modo a delimitar as variações admissíveis da própria cor. Como todo-condiciona-
mento ou indução, o processo dependerá, em última instância, também de nossa
2 Quine, Word and Object (Cambridge, Mass., MIT Press, 1960). 8 12.
3 L. Wittgenstein, Philosophical Investigations (Nova York, Macmiilan, 1osz. vota
142 QUINE
própria propensão inata a achar uma estimulação qualitativamente mais afim
com uma segunda estimulação do que com uma terceira; de outro modo, nunca
pode haver qualquer reforço e extinção de respostas seletivas. * Ainda assim, de
nada mais se precisa, em princípio, ao aprender sépia do que em qualquer condi-
cionamento ou indução.
Mas a grande diferença entre coelho e sépia é que, enquanto sépia é um ter-
mo de massa como água, coelho é um termo de referência dividida. Como tal, ele
não pode ser dominado sem que se domine seu princípio de individuação: onde
cessa um coelho e começa outro. E isso não se pode dominar por pura ostensão,
ainda que persistente.
Tal é a dificuldade com gavagai; onde cessa um gavagai e começa outro. A
única diferença entre coelhos, partes não destacadas de coelhos e fases de coelhos
está em sua individuação. Se se toma a porção dispersa total do mundo espácio-
temporal que é constituída de coelhos e aquela que é constituída de partes não
destacadas de coelhos e aquela que é constituída de fases de coelhos, obtém-se,
cada uma das três vezes, a mesma porção dispersa do mundo. A única diferença
está em como ela é repartida. E como repartila é o que a ostensão ou o simples
condicionamento, ainda que persistentemente repetido, não podem ensinar.
Assim, considere-se especificamente o problema de decidir entre coelho e
parte não destacada de coelho, como tradução de gavagai. Nenhuma palavra da
linguagem nativa é conhecida, com a exceção de que nos fixamos em alguma hi-
pótese de trabalho no que respeita a quais palavras ou gestos nativos interpretar
como assentimento e dissentimento em resposta a nossas indicações e indagações.
Ora, o que estorva é que, sempre que apontamos para diferentes partes do coelho,
mesmo encobrindo algumas vezes o resto do coelho, também estamos apontando
a cada vez para o coelho. Inversamente, quando indicamos o coelho inteiro com
um gesto amplo, estamos ainda assim apontando para uma multidão de partes
de coelho. E note-se que nem mesmo temos um análogo nativo de nossa termi-
nação plural para explorar, ao perguntar gavagai? Parece claro que nenhuma de-
cisão, mesmo tentativa, entre coelho e parte não destacada de coelho deve ser
procurada a esse nível.
Como decidiríamos finalmente? Minha menção de passagem de terminações
plurais é parte da resposta. Nossa individuação de termos de referência dividida,
em português, está ligada a um conjunto de partículas e construções gramaticais
inter-relacionadas: terminações plurais, pronomes, numerais, o é de identidade e
suas adaptações mesmo e outro. É o conjunto de expedientes inter-relacionados
em que se torna central a quantificação quando a regulamentação da lógica sim-
bólica é imposta. Se pudéssemos perguntar ao nativo em sua linguagem Este
gavagai é o mesmo que aquele?, fazendo do mesmo tempo múltipias ostensões
apropriadas, então estaríamos de fato bem a caminho de decidir entre coelho,
parte não destacada de coelho e fase de coelho. E, sem dúvida, o lingiiista acaba
alcançando o ponto em que ele pode perguntar o que pretende seja aquela per-
gunta. Ele desenvolve um sistema para traduzir contextualmente no idioma nativo
nossas pluralizações, pronomes, numerais, identidade e expedientes relacionados.
Ele desenvolve um tal sistema por abstração e hipótese. Ele abstrai partículas e
construções nativas de sentenças nativas observadas e tenta associá-las de várias
maneiras a partículas e construções portuguesas. Na medida em que as sentenças
nativas e as portuguesas que lhes são assim associadas pareçam combinar no que
4 Cf. Word and Obiect, 8 17.
RELATIVIDADE ONTOLÓGICA 143
respeita a ocasiões apropriadas de uso, o lingiista sente-se confirmado nessas hi-
póteses de tradução — o que eu chamo de hipóteses analíticas. *
Mas parece que esse método, embora louvável na prática e o melhor que
possamos esperar, não resolve em princípio a indeterminação entre coelho, parte
não destacada de coelho e fase de coelho. Pois, se um sistema de modo geral pra-
ticável de hipóteses analíticas provê a tradução de uma dada expressão nativa
por é o mesmo que, talvez um outro sistema igualmente praticável, mas sistema-
ticamente diferente, traduziria aquela expressão nativa antes por algo como está
junto com. Então, quando tentamos perguntar na linguagem nativa Este gavagai
é o mesmo que aquele?, poderíamos igualmente estar perguntando Este gavagai
está junto com aquele? Nessa medida, o assentimento do nativo não constitui ne-
nhuma evidência objetiva para traduzir gavagai por coelho ao invés de por parte
não destacada de coelho ou fase de coelho.
Esse exemplo artificial compartilha da estrutura do exemplo trivial anterior
ne... rien. Fomos capazes de traduzir rien por anything ou por nothing, graças
a um ajustamento compensatório no tratamento de ne. E eu sugiro que podemos
traduzir gavagai por coelho ou parte não destacada de coelho ou fase de coelho,
graças a ajustamentos compensatórios na tradução de locuções nativas acompa-
nhantes. Outros ajustamentos poderiam ainda acomodar a tradução de gavagai
por coelhice ou de outras maneiras. Acho isso plausível por causa do caráter am-
plamente estrutural e contextual de quaisquer considerações que pudessem con-
duzir-nos a traduções nativas do grupo português de expedientes inter-relacionados
de individuação. Parece obrigatório haver escolhas sistematicamente muito dife-
rentes, todas as quais fazem justiça a todas as disposições ao comportamento ver-
bal por parte de todos os interessados.
Um verdadeiro linguista de campo seria, sem dúvida, suficientemente judi-
cioso para equacionar gavagai com coelho, rejeitando para longe alternativas per-
versas tais como parte não destacada de coelho e fase de coelho. Essa escolha
judiciosa e outras como ela ajudariam, por sua vez, a determinar suas hipóteses
subsegiientes no que respeita a quais locuções nativas deveriam corresponder ao
aparato português de individuação e, assim, tudo acabaria dando certo. A máxima
implícita que guiaria sua escolha de coelho e escolhas similares para outras pala-
vras nativas é que um objeto duradouro e relativamente homogêneo, movendo-se
como um todo contra um pano de fundo contrastante, é uma referência provável
para uma expressão curta. Se ele viesse a tornar-se consciente dessa máxima, po-
deria celebrá-la como um dos universais lingiiísticos, ou traços de todas as lin-
guagens e não teria nenhuma dificuldade em assinalar sua plausibilidade psico-
lógica. Mas ele estaria errado: a máxima é sua própria imposição, no sentido de
fixar o que é objetivamente indeterminado. É uma imposição muito judiciosa e eu
não recomendaria nenhuma outra. Mas eu estou marcando um ponto filosófico.
É filosoficamente interessante, além disso, que o cue é indeterminado nesse
exemplo artificial não é apenas o significado. Minhas observações sobre a inde-
terminação começaram como um desafio à semelhança de significado. Eu nos pus
a imaginar “uma expressão que pudesse ser traduzida em português, de modo
igualmente defensável, de duas maneiras distintas, dessemelhantes quanto ao sig-
nificado em português”. Semelhança de significado é por certo uma noção obscura,
repetidamente posta em xeque. De dois predicados que são semelhantes em ex-
tensão nunca foi claro quando dizer e quando não dizer que eles são semelhantes
5 Word and Object, 8 15. Para um sumário de meu ponto de vista geral, ver também $ 1
de “Falando de Objetos”, neste volume.
144 QUINE
em significado; é a velha questão de bípedes implumes e animais racionais, ou de
triângulos eguiângulos e eqiiláteros. Referência, extensão, têm sido a coisa firme;
significado, intensão, a coisa infirme. Entretanto, a indeterminação de tradução
com que nos confrontamos agora se entrecruza de modo semelhante com extensão
e intensão. Os termos coelho, parte não destacada de coelho e fase de coelho di-
ferem não apenas em significados; eles são verdadeiros de coisas diferentes. A pró-
pria referência se mostra comportamentalmente inescrutável.
Dentro dos limites paroquiais de nossa própria linguagem, podemos conti-
nuar como sempre a achar o discurso extensional mais claro que o intensional.
Pois a indeterminação entre coelho, fase de coelho e o resto dependia apenas de
uma indeterminação correlativa de tradução do aparato português de individua-
ção — o aparato de pronomes, pluralização, identidade, numerais e assim por
diante. Nenhuma indeterminação tal se intromete enquanto pensarmos esse apa-
rato como dado e fixo. Dado esse aparato, não há mistério algum sobre a exten-
são; os termos têm a mesma extensão quando verdadeiros das mesmas coisas.
Ao nível da tradução radical, por outro lado, a própria extensão fica inescrutável.
Meu exemplo de coelhos e suas partes e etapas é um exemplo inventado e
um exemplo perverso, com o qual, como disse, o lingiiista prático não teria ne-
nhuma paciência. Mas há também casos menos bizarros que se intrometem na
prática. Em japonês, há certas partículas, chamadas de classificadores, que podem
ser explicadas de duas maneiras distintas. Elas são comumente explicadas como
juntando-se a numerais para formar numerais compostos, de estilos peculiares.
Assim, tome-se o numeral para 5. Se se junta a ele um classificador, obtém-se
um estilo de “5” adequado para contar animais; se se junta um classificador dife-
rente, obtém-se um estilo de “5” adequado para contar coisas delgadas como lápis
e pauzinhos; e assim por diante. Mas, um outro modo de ver classificadores é
vê-los não como parte constituinte do numeral, mas como parte constituinte do
termo — o termo para pauzinhos ou bois ou o que seja. Nessa perspectiva, o clas-
sificador cumpre a tarefa individuadora que é cumprida em português por paus de,
enquanto aplicado ao termo de massa madeira, ou cabeça de, enquanto aplicado
ao termo de massa gado.
O que temos, numa e noutra perspectiva, é uma frase japonesa equivalente,
digamos, a cinco bois, mas consistindo de três palavras; º a primeira é, com efeito,
o numeral neutro “S”, a segunda é um classificador da espécie animal e a última
corresponde de algum modo a boi. Numa perspectiva, o numeral neutro e o clas-
sificador se juntam para constituir um numeral declinado no gênero animal, o
qual então modifica boi para dar, na prática, cinco bois. Na outra perspectiva, a
terceira palavra japonesa corresponde, não ao termo individuador, boi, mas ao
termo de massa, gado; o classificador aplica-se a esse termo de massa para pro-
duzir um termo individuador composto, na prática, cabeça de gado; e o numeral
neutro aplica-se diretamente a tudo isso sem benefício de gênero, dando cinco
cabeças de gado, portanto, de novo, na prática, cinco bois.
Se é para um exemplo tão simples servir seu propósito explanatório, ele
precisa de nossa conivência. Temos de entender gado como um termo de massa
cobrindo apenas bovinos, e boi como aplicando-se a todos os bovinos. Que esses
usos não são os usos invariáveis fica fora de nosso ponto. Nosso ponto é que a
frase japonesa resulta em cinco bovinos, como se desejava, quando analisada de
uma e de outra mancira. Uma maneira trata a terceira palavra japonesa como um
é Para maior clareza de minha explicação, estou contando uma certa particula pós-posicional
antes como um sufixo do que como uma palavra.
RELATIVIDADE ONTOLÓGICA 145
termo individuador verdadeiro de cada bovino, e a outra maneira trata aquela
palavra antes como um termo de massa cobrindo a totalidade não individuada de
carne de boi sobre cascos. Essas são duas maneiras muito diferentes de tratar a
terceira palavra japonesa; e a frase de três palavras como um todo dá um bom
resultado em ambos os casos somente por causa das diferenças: compensatórias
em nosso tratamento da segunda palavra, o classificador.
Esse exemplo lembra, de algum modo, nosso trivial exemplo inicial, ne...
rien. Fomos capazes de representar rien como anything ou como nothing, toman-
do ne compensatoriamente como negativa ou como vazia. Somos capazes agora
de representar uma palavra japonesa ou como um termo individuador para bovi-
nos ou como um termo de massa para carne de boi viva, tomando compensato-
riamente o classificador como a declinar o numeral ou como a individuar o termo
de massa. Entretanto, a trivialidade de um exemplo não se transfere sem mais
para o outro. O exemplo anterior foi rejeitado com base em que tínhamos recor-
tado muito pequeno; rien era muito curta para uma tradução significativa por si
própria e ne... rien era a unidade significativa. Mas não podemos rejeitar o
exemplo japonês dizendo que a terceira palavra era muito curta para uma tra-
dução significativa por si própria e que somente a frase inteira de três palavras
equivalente a cinco bois era a unidade significativa. Não podemos tomar essa li-
nha a menos que estejamos preparados para chamar uma palavra de muito curta
para uma tradução significativa, mesmo quando ela é suficientemente longa para
ser um termo e veicular denotação. Pois a terceira palavra japonesa é, numa e
noutra abordagem, um termo: numa abordagem, um termo de referência dividida
e, na outra, um termo de massa. Se de fato estamos preparados para chamar uma
palavra de muito curta para uma tradução significativa, mesmo quando ela é um
termo denotativo, então estamos concedendo, por um processo às avessas, o que
eu queria provar: a inescrutabilidade da referência.
Entre as duas explicações dos classificadores japoneses, não há nenhuma
questão de certo e errado. Uma explicação tende a prover uma tradução mais
eficiente no português idiomático; a outra tende a prover mais sensibilidade para
com o idioma japonês. Ambas se harmonizam igualmente bem com todo com-
portamento verbal. Todas as sentenças inteiras, e mesmo frases componentes co-
mo cinco bois, admitem as mesmas traduções portuguesas em todos os casos ní-
tidas, numa e noutra explicação. Esse tanto é invariante. Mas o que é filosofica-
mente interessante é que a referência ou extensão de termos mais curtos pode
deixar de ser invariante. Se aquela terceira palavra japonesa é, ela própria, ver-
dadeira de cada boi ou se, por outro lado, ela é um termo de massa que precisa
ser ajuntado ao classificador para formar um termo que seja verdadeiro de cada
boi — eis aqui uma questão que permanece não decidida pela totalidade das dispo-
sições humanas ao comportamento verbal. Ela é indeterminada em princípio; não
há nenhum fato nessa matéria. Uma e outra resposta podem ser acomodadas por
uma explicação do classificador. Aqui está de novo, então, a inescrutabilidade
da referência — ilustrada desta vez por um ponto vulgar de tradução prática.
Pode-se trazer a inescrutabilidade da referência para mais perto de casa,
considerando-se a palavra alfa ou, de novo, a palavra verde. Em nosso uso dessas
palavras e de outras como elas, há uma ambigiiidade sistemática. As vezes usamos
tais palavras como termos gerais concretos, como quando dizemos que a grama
é verde, ou que alguma inscrição começa com um alfa. As vezes, por outro lado,
usamo-las como termos singulares abstratos, como quando dizemos que verde é
uma cor que alfa é uma letra. Uma tal ambigiiidade é encorajada pelo fato de
que não há nada na ostensão para distinguir os dois usos. O ato de apontar que
seria feito ao ensinar o termo geral concreto verde ou «alfa não difere em nada
146 QUINE
do ato de apontar que seria feito ao ensinar o termo singular abstrato verde ou
alfa. Porém, os objetos a que se refere a palavra são muito diferentes nos dois
usos; num uso, a palavra é verdadeira de muitos objetos concretos e, no outro
uso, ela nomeia um objeto singular abstrato.
Podemos, sem dúvida, relatar à parte os dois usos, vendo como a palavra
aparece em sentenças: se ela toma um artigo indefinido, se ela toma uma termina-
ção plural, se ela figura como sujeito singular, como complemento do predicado e
assim por diante. Mas esses critérios apelam para nossas construções e partículas
gramaticais portuguesas especiais, nosso aparato português especial de individua-
ção, o qual, já insisti, está, ele próprio, sujeito à indeterminação de tradução.
Assim, do ponto de vista da tradução numa linguagem remota, a distinção entre
um termo geral concreto e um termo singular abstrato encontra-se na mesma
dificuldade que a distinção entre coelho, parte de coelho e fase de coelho. Eis
aqui, então, um outro exemplo da inescrutabilidade da referência, uma vez que
a diferença entre o geral concreto e o singular abstrato é uma diferença nos objetos
a que se faz referência.
Incidentalmente, podemos, afinal de contas, conceder esse tanto de inde-
terminação também ao exemplo de sépia, Mas esse passo não é evidentemente o
que estava preocupando Wittgenstein.
A indistinguibilidade ostensiva do singular abstrato em relação ao geral con-
creto gira em torno do que se pode chamar de “ostensão diferida”, enquanto
oposta à ostensão direta. O ponto ostendido, como o chamarei, é o ponto onde a
linha do dedo que aponta encontra primeiro uma superfície opaca. O que carac-
teriza a cstensão direta, então, é que o termo que está sendo ostensivamente ex-
plicado é verdadeiro de algo que contém o ponto ostendido. Sem dúvida, mesmo
uma tal ostensão direta tem suas incertezas, e essas são familiares. Há a questão
de quão largo é o entorno do ponto ostendido que se pretende recoberto pelo ter-
mo que está sendo ostensivamente explicado. Há a questão de quanto se poderia
permitir que uma coisa ou substância diferisse consideravelmente do que está sen-
do agora ostendido e fosse ainda recoberta pelo termo que está sendo agora
ostensivamente explicado. Ambas essas questões podem, em princípio, ser deci-
didas, tão bem quanto se precise que o sejam, por indução, a partir de múltiplas
ostensões. Se o termo é um termo de referência dividida como maçã, há tam-
bém a questão da individuação: a questão sobre onde cessa um de seus objetos
e começa um outro. Isso pode ser decidido por ostensão, a partir de
múltiplas ostensões de uma espécie mais elaborada, acompanhadas por expres-
sões como mesma maçã e uma outra, se um equivalente desse aparato português
de individuação foi fixado; de outro modo, persiste a indeterminação que foi
ilustrada por coelho, parte não destacada de coelho e fase de coelho.
Tal é, então, o modo da ostensão direta. Chamo uma outra ostensão de
diferida. Ela ocorre quando apontamos para o medidor e não para a gasolina,
para mostrar que há gasolina. Ela ocorre também quando explicamos o termo
singular abstrato verde ou alfa, apontando para a grama ou para uma inscrição
grega. Um tal ato de apontar é ostensão direta quando usado para explicar o ter-
mo geral concreto verde ou alfa, mas é ostensão diferida quando usado para apon-
tar os termos singulares abstratos, pois o objeto abstrato que é a cor verde ou a
letra alfa não contém o ponto ostendido nem ponto algum.
A ostensão diferida ocorre muito naturalmente quando, como no caso do
medidor de gasolina, temos uma correspondência em mente. Um outro exemplo
como esse é proporcionado pela numeração de Goedel de expressões. Assim, se
7 foi designado como número de Goedel da letra alfa, um homem consciente da
RELATIVIDADE ONTOLÓGICA 147
numeração de Goedel não hesitaria em dizer Sete, apontando para uma inscrição
da letra grega em questão. Isso é, segundo toda a aparência, uma ostensão du-
plamente diferida: um passo de diferimento leva-nos da inscrição para a letra
como objeto abstrato, e um segundo passo nos leva daí para o número.
Mediante um apelo a nosso aparato de individuação, se ele está disponível,
podemos distinguir entre o uso geral concreto e o uso singular abstrato da palavra
alfa; isso nós vimos. Por um apelo, de novo, âquele aparato e, em particular, à
identidade, podemos evidentemente decidir também se a palavra alfu, em seu uso
singular abstrato, está sendo realmente usada para nomear a letra ou se, de um
modo perverso, está sendo usada para nomear o número de Goedel da letra. De
qualquer modo, podemos distinguir essas alternativas se também localizamos, de
modo satisfatório para nós, o equivalente do numeral “7” ao locutor: pois pode-
mos perguntar-lhe se alfa é sete.
Essas considerações sugerem que a ostensão diferida não acrescenta nenhum
problema essencial aos apresentados pela ostensão direta. Uma vez que tenhamos
fixado hipóteses analíticas de tradução que recubram a identidade e as outras
partículas portuguesas relacionadas com a individuação, podemos resolver não
somente a indecisão entre coelho e fase de coelho e o resto, que proveio da osten-
são direta, mas também qualquer indecisão entre geral concreto e singular abstra-
to, e qualquer indecisão entre expressão e número de Goedel que provenha da
ostensão diferida. Entretanto, essa conclusão é demasiado esperançosa. A inescru-
tabilidade da referência se dá em profundidade e ela persiste numa forma sutil,
mesmo se aceitamos a identidade e o resto do aparato de individuação como fixa-
dos e estabelecidos; mesmo, em verdade, se abandonamos a tradução radical e
pensamos apenas no português.
Considere-se o caso de um proto-sintaticista cuidadoso. Ele tem um sistema
formalizado de teoria de prova de primeira ordem, ou proto-sintaxe, cujo universo
compreende apenas expressões, isto é, fieiras de signos de um universo especifi-
cado. Ora, precisamente que espécies de coisas, mais especificamente, são essas
expressões? Elas são tipos, não sinais.” Assim, poderia supor-se, cada uma delas
é o conjunto de todos os seus sinais. Isto é, cada expressão é um conjunto de ins-
crições que estão situadas de várias maneiras no espaço-tempo, mas são classifi-
cadas conjuntamente em virtude de uma certa similaridade de forma. A conca-
tenada x” v de duas expressões x e y, numa dada ordem, será o conjunto de to-
das as incrições, cada uma das quais tem duas partes que são, respectivamente
sinais de x e y e que se seguem, uma à outra, naquela ordem. Mas x” y pode
então ser o conjunto vazio, ainda que x e y não sejam vazias: pois pode acontecer
que inscrições pertencentes a x e a y em nenhuma parte ocorram enfileiradas,
seja no passado, presente ou futuro. Esse perigo aumenta com os comprimentos
de x e de y. Mas vê-se facilmente que isso viola uma lei da proto-sintaxe que diz
que x = z sempre que x” y =27 ».
Ocorre assim que nosso proto-sintaticista cuidadoso não interpretará as coi-
sas em seu universo como conjuntos de inscrições. Ele ainda pode tomar seus
átomos, os signos singulares, como conjuntos de inscrições, pois não há risco
algum de nulidade nesses casos. E então, ao invés de tomar suas fieiras de sím-
bolos como conjuntos de inscrições, ele pode invocar a noção matemática de se-
quência e tomá-las como sequências de signos. Um modo familiar de tomar se-
quências, por sua vez, é como uma função de coisas em números. Nessa aborda-
? Estamos traduzindo por “sinais” o termo tokens, introduzido por Peirce. (N. do T.)
148 QUINE
gem, uma expressão ou fieira de signos torna-se um conjunto finito de pares, cada
um dos quais é o par de um símbolo e um número.
Essa explicação das expressões é mais artificial e mais complexa do que está
apto a esperar quem simplesmente diz que está deixando suas variáveis variar
sobre as fieiras de tais e tais signos. Além do mais, essa não é a escolha inevitá-
vel;. também se pode vir ao encontro das considerações que a motivaram por
meio de interpretações alternativas. Uma dessas interpretações é a própria nume-
ração de Goedel e ela é tentadoramente simples. Ela usa apenas números natu-
rais, enquanto a interpretação precedente usava conjuntos de inscrições de uma
letra e também números naturais e conjuntos de pares dessas coisas. Quão claro
é que precisamente nesse ponto deixamos de lado as expressões em favor de nú-
meros? O que é mais claro é meramente que, em ambas as interpretações, está-
vamos divisando artificialmente modelos para satisfazer leis que, num sentido não
explicado, se tinha pretendido que as expressões satisfaziam.
Esse tanto a respeito de expressões. Considere-se agora o próprio aritmético,
com sua teoria elementar dos números. Seu universo compreende diretamente os
números naturais. É ele mais claro que o universo do pronto-sintaticista? O que é,
afinal de contas, um número natural? Há a versão de Frege, a de Zermelo e a de
Van Neumann e incontáveis alternativas outras, todas mutuamente incompatíveis
e igualmente corretas. O que estamos fazendo em qualquer uma dessas explica-
sões de número natural é divisar modelos conjunto-teoréticos para satisfazer leis
que, num sentido não explicado, se tinha entendido que os números naturais sa-
tisfaziam. O caso se assemelha bastante ao da proto-sintaxe.
Sentir-se-á talvez que qualquer explicação conjunto-teorética de número na-
mural é, na melhor das hipóteses, um caso de obscurum per obscurius; que todas
as explicações devem assumir algo e que os próprios números naturais são uma
admirável assunção com que começar. Devo concordar em que uma interpretação
dos conjuntos e da teoria de conjuntos a partir dos números naturais seria de
longe mais desejável que o familiar oposto. Por outro lado, nossa impressão da
clareza mesmo da própria noção de número natural sofreu algo com a prova de
Goedel da impossibilidade de um procedimento completo de prova para a teoria
elementar dos números ou, no que respeita a essa matéria, com as observações de
Skolem e Henkin de que todas as leis de números naturais admitem modelos não-
padrões. *
Não estamos encontrando nenhuma diferença clara entre especificar um uni-
verso de discurso — o domínio das variáveis de quantificação — e reduzir esse
universo a algum outro. Não vimos nenhuma diferença significativa entre clari-
ficar a noção de expressão e substituí-la pela de número. E, agora, dizer mais
particularmente o que são os próprios números não é diferente, de nenhuma ma-
neira evidente, de deixar precisamente os números de lado e atribuir à aritmética
um ou outro novo modelo, digamos, em teoria dos conjuntos.
As expressões são conhecidas unicamente por suas leis, as leis da teoria da
concatenação, de modo que quaisquer construtos que obedeçam a essas leis —
números de Goedel, por exemplo — são ipso facto elegíveis como explicações de
expressão. Os números, por sua vez, são conhecidos unicamente por suas leis, as
leis da aritmética, de modo que quaisquer construtos que obedecam a essas leis
— certos conjuntos, por exemplo -— são elegíveis, por sua vez, como explicações
8 Ver leon Henkin, “Completeness in the theory of types”, Journal of Symbolic Logic 15
(19580). pp. 81-91. e as referências que aí se encontram.
RELATIVIDADE ONTOLÓGICA 149
de número. Os conjuntos, por sua vez, são conhecidos unicamente por suas leis,
as leis da teoria dos conjuntos.
Russell insistiu numa tese contrária, há muito tempo. Escrevendo sobre nú-
meros, ele argumentou que as leis da aritmética não são suficientes para uma
compreensão do número; devemos conhecer as aplicações, devemos compreender
o discurso numérico embutido no discurso de outras matérias. Ao aplicar núme-
ros, a noção chave, insistiu ele, é Anzahl: há n tais e tais. Entretanto, pode-se
responder a Russell. Em primeiro lugar, tomemos especificamente Anzahl. Po-
demos definir hAá n tais e tais sem jamais decidir o que são números, independen-
temente de seu preenchimento da aritmética. Que há n tais e tais pode ser expli-
cado simplesmente como significando que os tais e tais estão em correspondência
um a um com os números até n.º
Pode-se responder também ao ponto mais geral de Russell sobre a aplicação.
Se a estrutura está lá, as aplicações cairão sempre no lugar certo. Como paradig-
ma, talvez seja suficiente invocar de novo essa reflexão sobre expressões e núme-
ros de Goedel: que mesmo o ato de apontar para uma inscrição não constitui
nenhuma evidência final de que nosso discurso é sobre expressões e não sobre
números de Goedel. Podemos sempre alegar ostensão diferida.
Nesse sentido, é verdadeiro dizer, como os matemáticos frequentemente o
fazem, que a aritmética é tudo que há para número. Mas seria uma confusão ex-
primir esse ponto dizendo, como se diz algumas vezes, que números são quais-
quer coisas que preencham a aritmética. Essa formulação é errada porque do-
mínios distintos de objetos fornecem modelos distintos da aritmética. Pode-se
fazer com que qualquer progressão sirva; e identificar todas as progressões uma
com a outra, identificar por exemplo a progressão dos números ímpares com a
progressão dos pares, contradiria, afinal de contas, a aritmética.
Assim, se bem que Russell estivesse errado ao sugerir que os números pre-
cisam de mais coisas além de suas propriedades aritméticas, ele estava certo ao
objetar contra a definição de número como quaisquer coisas que preencham a
aritmética. O ponto sutil aqui é que qualquer progressão servirá como uma versão
de número enquanto e somente enquanto nos fixarmos numa só e mesma pro-
gressão. A aritmética, nesse sentido, é tudo que há para número: não há como
dizer, em sentido absoluto, o que os números são; há somente a aritmética. 'º
H
Insisti primeiramente na inescrutabilidade da referência com o auxílio de
exemplos como o dos coelhos e partes de coelho. Esses exemplos usavam ostensão
direta e a inescrutabilidade da reterência dependia da indeterminação da tradu-
ção da identidade e de outros aparatos individuadores. O cenário desses exem-
plos era, por conseguinte, a tradução radical: tradução a partir de uma lingua-
gem remota à base de evidência comportamental, sem o auxílio de dicionários an-
teriores. Movendo-nos então para a ostensão diferida e os objetos abstratos, en-
contramos uma certa obscuridade de referência a permear a própria linguagem
doméstica.
Ora, deveria notar-se que, mesmo para os primeiros exemplos, o recurso a
? Para mais discussões sobre esse tema, ver meu Set Theory and its Logic (Cambridge, Mass.,
Harvard, 1963, 1969), 11.
'º Paul Benacerraf, “What numbers cannot be”, Philosophical Review 74 (1965), pp. 47-73,
desenvolve esse ponto. Suas conclusões diferem de alguma maneira daquelas a que eu
vou chegar.
150 QUINE
uma linguagem remota não era realmente essencial. Para uma reflexão mais pro-
funda, a tradução radical começa em casa. Devemos acaso equacionar as palavras
portuguesas de nosso vizinho com as mesmas fieiras de fonemas em nossas pró-
prias bocas? Certamente não; pois, às vezes, não as equacionamos assim. Às vezes
achamos ser do interesse da comunicação reconhecer que o uso por nosso vizinho
de alguma palavra, tal como fresco ou quadrado ou esperançosamente, difere do
nosso, e traduzimos assim essa sua palavra por uma fieira diferente de fonemas
em nosso idioleto. Nossa regra doméstica usual de tradução é, com efeito, a ho-
mofônica, que simplesmente remete cada fieira de fonemas a ela própria; mas,
ainda assim, estamos sempre preparados para temperar a homofonia com o que
Neil Wilson chamou de “princípio de caridade”. '! De quando em quando inter-
pretaremos heterofonicamente a palavra de um vizinho se virmos nisso o nosso
meio de tornar sua mensagem menos absurda.
A regra homofônica é, em geral, uma regra manejável. Que ela funcione
tão bem não é nenhum acidente, uma vez que a imitação e o feedback são o que
propaga uma linguagem. Adquirimos um grande fundo de palavras e frases bá-
sicas dessa maneira, imitando os mais velhos e encorajados pelos mais velhos em
meio a circunstâncias exteriores a que as frases se aplicam convenientemente. A
tradução homofônica está implícita nesse modo social de aprendizado. Afastar-se
da tradução homofônica nessa situação apenas bloquearia a comunicação. Há, en-
tão, as instâncias relativamente raras de espécie oposta, devidas a divergência no
dialeto ou a confusão num indivíduo, onde .a tradução homofônica incorre em
feedback negativo. Mas o que tende a escapar à observação é que há também
uma vasta região intermediária onde o método homofônico é indiferente. Aqui
podemos, gratuitamente, reconstruir sistematicamente as referências aparentes de
nosso vizinho a coelhos, como referências realmente a fases de coelho, e suas
referências aparentes a fórmulas, como referências realmente a números de Goe-
del e vice-versa. Podemos reconciliar tudo isso com o comportamento verbal de
nosso vizinho, reajustando habilmente nossas traduções de seus vários predicados
de ligação de modo a compensar a mudança da ontologia. Em resumo, podemos
reproduzir em casa a inescrutabilidade da referência. De nada serve testar essa
versão imaginosa dos significados de nosso vizinho, perguntando-lhe, digamos, se
ele tem realmente em mente, num certo ponto, referir-se a fórmulas ou a seus
números de Goedel; pois nossa pergunta e sua resposta — “Aos números, é cla-
ro” — perderam seu título à tradução homofônica. O problema em casa em nada
difere da usualmente assim chamada tradução radical, exceto no caráter proposi-
tal dessa suspensão da tradução homofônica.
Insisti, em defesa da filosofia comportamental da linguagem, a de Dewey,
em que a inescrutabilidade da referência não é a inescrutabilidade de um fato; não
há fato algum nesse domínio. Mas, se não há realmente fato algum nesse domínio,
então, a inescrutabilidade da referência pode ser trazida para ainda mais perto de
casa que o caso do vizinho; podemos aplicá-la a nós mesmos. Se tem de fazer
sentido dizer, ainda que de si mesmo, que se está fazendo referência a coelhos
e fórmulas e não a fases de coelho e números de Goedel, então deveria igualmente
fazer sentido dizê-lo de algum outro. Afinal de contas, como Dewey acentuou,
não há nenhuma linguagem privada.
Parecemos estar caminhando para a posição absurda segundo a qual não
há nenhuma diferença em quaisquer termos, interlingúística ou intralingiiística,
NH N. L. Wilson. “Substances without Substrata”. Review of Metaphysics, 12 (1959), pp.
521-539.
RELATIVIDADE ONTOLÓGICA 151
objetiva ou subjetiva, entre fazer referência a coelhos e fazer referência a partes
ou fases de coelho; ou entre fazer referência a fórmulas e fazer referência a seus
números de Goedel. Isso é seguramente absurdo, pois implicaria em que não há
nenhuma diferença entre o coelho e cada uma de suas partes ou fases, e nenhuma
diferença entre uma fórmula e seu número de Goedel. A referência pareceria tor-
nar-se agora sem sentido, não apenas na tradução radical, mas em casa.
Para resolver essa dificuldade, comecemos por figurar-nos à vontade em
nossa linguagem, com todos os seus predicados e expedientes auxiliares. Esse vo-
cabulário inclui coelho, parte de coelho, fase de coelho, fórmula, número, boi,
gado; também os predicados binários de identidade e diferença e outras par-
tículas lógicas. Nesses termos, podemos dizer em tantas palavras que isso é uma
fórmula e aquilo um número, que isso é um coelho e aquilo uma parte de coelho,
que isso e aquilo são o mesmo coelho e que isso e aquilo são partes diferentes.
Precisamente nessas palavras. Essa rede de termos e predicados e expedientes
auxiliares é, no jargão da relatividade, nosso quadro de referência, ou sistema
coordenado. Com relação a ele podemos falar e falamos significativa e distintiva-
mente de coelhos e partes, números e fórmulas. Em seguida, como nos parágrafos
recentes, contemplamos denotações alternativas para nossos termos familiares.
Começamos a considerar que uma grande e engenhosa permutação dessas deno-
tações, juntamente com ajustamentos compensatórios nas interpretações das par-
tículas auxiliares, ainda poderia acomodar todas as disposições ao discurso
existentes. Isso era a inescrutabilidade da referência, aplicada a nós mesmos; e
ela tornou a referência sem sentido. Está muito bem; a referência é sem sentido
exceto em relação a um sistema coordenado. Nesse princípio de relatividade
repousa a solução de nossa dificuldade.
Não tem significado perguntar se, em geral, nossos termos coelho, parte de
coelho, número, etc., realmente se referem respectivamente a coelhos, partes de
coelho, números, etc., antes que a algumas denotações engenhosamente permuta-
das. Não tem significado perguntar isso de modo absoluto: podemos perguntá-lo
significativamente apenas com relação a alguma linguagem de fundo. Quando per-
guntamos “Coelho se refere realmente a coelhos?”, alguém pode replicar com a
pergunta “Refere-se a coelhos em que sentido de coelhos?”, encetando assim uma
regressão; e precisamos da linguagem de fundo para regredir a ela. A linguagem
de fundo dá sentido à indagação, mesmo se apenas um sentido relativo; sentido
relativo, por seu turno, a ela, a essa linguagem de fundo. Indagar pela referência
de algum modo mais absoluto seria como perguntar pela posição absoluta, ou
pela velocidade absoluta, antes que pela posição ou velocidade relativa a um
quadro de referência dado. Também é muito semelhante a perguntar se nosso vi-
zinho não pode ver sistematicamente todas as coisas de cabeça para baixo, ou
em cores complementares, de um modo para sempre indetectável.
Precisamos de uma linguagem de fundo, disse eu, para regredir a ela. Esta-
mos agora envolvidos numa regressão infinita? Se questões de referência da
espécie que estamos considerando somente fazem sentido com relação a uma
linguagem de fundo, evidentemente então questões de referência para a lingua-
gem de fundo somente fazem sentido, por sua vez, com relação a uma outra
linguagem de fundo. Nesses termos, a situação parece desesperada, mas ela é,
em verdade, pouco diferente de questões de posição e velocidade. Quando nos
são dadas posição e velocidade com relação a um sistema coordenado dado,
sempre podemos perguntar, por sua vez, pela localização da origem e pela orien-
tação dos eixos daquele sistema de coordenadas; e não há nenhum fim para a
sucessão de outros sistemas coordenados que poderiam ser aduzidos em resposta
às sucessivas perguntas assim geradas.
152 QUINE
Na prática, terminamos sem dúvida a regressão de sistemas coordenados por
algo como um ato de apontar. E, na prática, terminamos a regressão de lingua-
gens de fundo, em discussões de referência, aquiescendo à nossa língua mãe e
tomando suas palavras por seu valor nominal.
Muito bem; no caso da posição e da velocidade, na prática, o ato de apontar
interrompe a regressão. Mas o que dizer da posição e da velocidade, deixando a
prática à parte? A resposta, sem dúvida, é a doutrina relacional do espaço; não
há nenhuma posição ou velocidade absolutas; há apenas as relações de sistemas
coordenados uns com os outros e, em última instância, de coisas, umas com as
outras. E eu penso que a questão paralela concernente à denotação reclama uma
resposta paralela, uma teoria relacional do que são os objetos de teorias. O que
faz sentido é dizer, não o que são os objetos de uma teoria, falando de um
modo absoluto, mas como uma teoria de objetos é interpretável ou reinterpre-
tável numa outra.
O ponto em questão não é que a matéria pura seja inescrutável: que as
coisas sejam indistinguíveis a não ser por suas propriedades. Esse ponto não
precisa ser marcado. O ponto em questão se reflete melhor no enigma sobre
ver as coisas de cabeça para baixo, ou em cores complementares; pois é que as
coisas podem ser inescrutavelmente permutadas, mesmo carregando suas pro-
priedades consigo. Coelhos diferem de partes de coelho e de fases de coelho
não somente como matéria pura, afinal de contas, mas com respeito a proprie-
dades; e fórmulas diferem de números com respeito a propriedades. Aquilo que
nossas presentes reflexões nos estão levando a apreciar é que o enigma sobre
ver as coisas de cabeça para baixo, ou em cores complementares, deveria ser
levado a sério, e que a moral dessa história deveria ser largamente aplicada. A
tese relativista a que chegamos é esta, para repetir: não faz nenhum sentido dizer
o que são os objetos de uma teoria, para além de dizer como interpretar ou rein-
terpretar essa teoria numa outra. Suponha-se que estamos trabalhando dentro de
uma teoria e que estamos tratando assim de seus objetos. Fazemos isso usando
as variáveis da teoria, cujos valores são esses objetos, ainda que não haja ne-
nhum sentido último em que esse universo possa ter sido especificado. Na lingua-
gem da teoria, há predicados por meio dos quais se distinguirão porções desse
universo de outras porções e esses predicados diferem uns dos outros meramente
pelos papéis que desempenham nas leis da teoria. Dentro dessa teoria de fundo,
podemos mostrar como alguma teoria subordinada, cujo universo é alguma porção
do universo de fundo, pode ser reduzida, mediante uma reinterpretação, a uma
outra teoria subordinada cujo universo é alguma porção menor. Um tal discurso
sobre teorias subordinadas e suas ontologias é significativo, mas somente com
relação à teoria de fundo, com sua própria ontologia primitivamente adotada e,
em última análise, inescrutável.
Falar assim de teorias levanta um problema de formulação. Uma teoria,
dir-se-ia, é um conjunto de sentenças plenamente interpretadas. (Mais particular-
mente, é um conjunto dedutivamente fechado: inclui todas as suas próprias con-
sequências lógicas, na medida em que estejam vazadas na mesma notação.) Mas,
se as sentenças de uma teoria são plenamente interpretadas, então, em particular,
o domínio de valores de suas variáveis está fixado. Como pode então não haver
nenhum sentido em dizer o que são os objetos de uma teoria?
Minha resposta é simplesmente que não podemos exigir que as teorias sejam
plenamente interpretadas, exceto num sentido relativo, se algo há de contar
como uma teoria. Ao especificar uma teoria, devemos de fato especificar plena-
mente, cm nossas próprias palavras, que sentenças hão de compor a teoria, e
RELATIVIDADE ONTOLÓGICA 153
que coisas hão de ser tomadas como valores das variáveis, e que coisas hão de
ser tomadas como satisfazendo as letras de predicado; nessa medida, interpre-
tamos plenamente a teoria, com relação a nossas próprias palavras e com rela-
ção a nossa teoria doméstica geral que subjaz a elas. Mas isso fixa os objetos
da teoria descrita apenas com relação aos da teoria doméstica, e esses podem,
à vontade, ser por sua vez questionados.
É-se tentado a concluir que a assignificatividade se introduz quando tenta-
mos pronunciar-nos sobre todas as coisas em nosso universo; que a atribuição
universal somente assume sentido quando guarnecida com o pano de fundo de
um universo mais amplo, onde a atribuição não mais é universal. E isso é,
inclusive, uma doutrina familiar, a doutrina de que nenhum predicado próprio
é verdadeiro de tudo. Todos nós ouvimos ser proclamado que um predicado
somente é significativo por contraste com o que ele exclui e, portanto, que ser
verdadeiro de tudo tornaria um predicado sem significado. Mas essa doutrina
está seguramente errada. Seguramente a auto-identidade, por exemplo, não deve
ser rejeitada como sem significado. Para esse propósito, qualquer enunciado
factual em geral, por brutalmente significativo que seja, pode ser artificialmente
posto numa forma em que ele se pronuncia sobre tudo. Dizer simplesmente de
Jones que ele canta, por exemplo, é dizer de toda coisa que ou ela é outra que
não Jones ou ela canta. Melhor seria guardar-nos de repudiar a atribuição uni-
versal, para não cairmos no logro de ter que repudiar tudo que sc pode dizer.
Carnap seguiu uma linha intermediária em sua doutrina das palavras uni-
versais, ou Allwcerter, em The Logical Syntax of Language. Ele tratou a atribui-
ção de palavras universais como quase-sintática — como uma atribuição somente
por cortesia e sem conteúdo empírico. Mas palavras universais, para ele, não
eram precisamente quaisquer predicados universalmente verdadeiros, como é
outro que não Jones ou canta. Eram uma raça especial de predicados universal-
mente verdadeiros, que são universalmente verdadeiros pelos puros significados
de suas palavras e não graças à natureza. Em seu último escrito, essa doutrina
das palavras universais toma a forma de uma distinção entre questões iniernas,
nas quais uma teoria se avém com fatos a respeito do mundo, e questões
externas, nas quais as pessoas se avêm com os méritos relativos das teorias.
Deveríamos levar em conta essas distinções de Carnap para esclarecer a
relatividade ontológica? Quando encontramos que não havia nenhum sentido
absoluto em dizer sobre o que é uma teoria, estávamos acaso percebendo a não-
factualidade do que Carnap chama de questões externas? Quando encontramos
que dizer sobre o que é uma teoria fazia sentido contra uma teoria de fundo,
estávamos acaso percebendo a factualidade das questões internas da teoria de
fundo? Não vejo nenhuma esperança de clarificação nesse setor. As palavras
universais de Carnap não eram precisamente quaisquer predicados universal-
mente verdadeiros, mas, como eu disse, uma raça especial; e o que distingue essa
raça não é claro. O que eu disse que os distinguia era que eram universalmente
verdadeiros por puros significados e não por natureza; mas isso é uma distinção
muito questionável. Falar de interno e externo não é em nada melhor.
A relatividade ontológica não será clarificada por nenhuma distinção entre
espécies de atribuição universal — não-factual e factual, externa e interna. Não
é uma questão de atribuição universal. Quando questões concernentes à ontolo-
gia de uma teoria são sem significado absolutamente e se tornam significativas
com relação a uma teoria de fundo, isso não ocorre em geral porque a teoria
de fundo tenha um universo mais amplo. É-se tentado, como eu disse um pouco
acima, a supor que é por isso; mas, então, se está errado.
O que torna as questões ontológicas sem significado quando tomadas em
154 QUINE
sentido absoluto não é a universalidade, mas a circularidade. Uma questão da
forma O que é um F? somente pode ser respondida por recurso a um outro
termo: Um F é um G. A resposta tem somente um sentido relativo: um sentido
relativo à aceitação não crítica de G.
Podemos representar o vocabulário de uma teoria como compreendendo
símbolos lógicos como quantificadores e os símbolos para as funções de verda-
de e para a identidade e, em acréscimo, símbolos descritivos ou não-lógicos,
os quais são, tipicamente, termos singulares ou nomes, e termos gerais, ou pre-
dicados: Suponhamos, em seguida, que, nos enunciados que compõem a teoria,
isto é, que são verdadeiros segundo a teoria, façamos abstração dos significados
do vocabulário não-lógico e do domínio das variáveis. Ficamos com a forma
lógica da teoria ou, como direi, com a forma de teoria. Ora, podemos interpretar
de novo essa forma de teoria, tomando um novo universo para servir de domí-
nio a suas variáveis de quantificação, atribuindo objetos desse universo aos no-
mes e escolhendo subconjuntos desse universo como extensões dos predicados
unários e assim por diante. Cada uma de tais interpretações da forma de teoria
é chamada de um seu modelo, se faz com que ela se torne verdadeira. Qual des-
ses modelos se tem em mente numa teoria efetiva dada, não se pode, sem dúvida,
conjeturar a partir da forma de teoria. As referências pretendidas dos nomes e
predicados têm de ser aprendidas antes por ostensão, ou então por paráfrase em
algum vocabulário previamente familiar. Mas o primeiro desses dois caminhos
se revelou inconclusivo, uma vez que, mesmo deixando-se de lado as indetermi-
nações de tradução que afetam a identidade e outros elementos do vocabulário
lógico, há o problema da ostensão diferida. A paráfrase em algum vocabulário
previamente familiar é, então, nosso único recurso; e tal é a relatividade onto-
lógica. Questionar a referência de todos os termos de nossa teoria universalmente
inclusiva se torna sem significado, simplesmente por falta de outros termos com
relação aos quais se possa perguntar ou responder à questão.
Assim, não tem significado, dentro da teoria, dizer qual dos vários modelos
possíveis de nossa forma de teoria é nosso modelo real ou pretendido. Mas, mes-
mo aqui, ainda podemos dar sentido ao fato de haver muitos modelos. Pois po-
deríamos ser capazes de mostrar que, para cada um dos modelos, ainda que
inespecificáveis, há forçosamente um outro que é uma permutação ou, talvez,
uma diminuição do primeiro.
Suponhamos, por exemplo, que nossa teoria seja puramente numérica. Seus
objetos são precisamente os números naturais. Não há sentido algum em dizer,
de dentro da teoria, qual precisamente dos vários modelos da teoria dos números
está vigendo. Mas podemos observar, mesmo de dentro da teoria, que, o que
quer que possam ser O, 1, 2, 3, etc.. a teoria ainda se manteria verdadeira se o
17 dessa série fosse mudado para o papel de O e o 12 mudado para o papel
de 1, e assim por diante.
A ontologia é, em verdade, duplamente relativa. Especificar o universo de
uma teoria somente faz sentido com relação a alguma teoria de fundo e somente
com relação a alguma escolha de um manual de tradução de uma teoria na
outra, Comumente, sem dúvida, a teoria de fundo será simplesmente uma teoria
continente e, nesse caso, não surge nenhum problema de um manual de tradu-
ção. Mas isso, afinal de contas, é apenas um caso degenerado ainda de tradução
-— Q caso em que a regra de tradução é a homotônica.
Não podemos saber o que é algo, sem saber como ele se distingue de outras
coisas. Assim, a identidade faz uma só peça com a ontologia. Consegiientemente,
cla está envolvida na mesma relatividade, como se pode prontamente ilustrar.
Imaginemos um fragmento de teoria econôraica. Suponhamos que seu universo
RELATIVIDADE ONTOLÓGICA Eos
compreende pessoas, mas que seus predicados são incapazes de distinguir entre
pessoas cujas rendas são iguais. A relação interpessoal de igualdade de rendas go-
za, dentro da teoria, da propriedade de substiiutividade da própria relação de
identidade; as duas relações são indistinguíveis. É apenas com relação a uma teo-
ria de fundo, na qual mais coisas se podem dizer da identidade pessoal do que a
igualdade de renda, que somos capazes inclusive de apreciar a descrição acima do
fragmento de teoria econômica, dependendo, como depende, de um contraste
entre pessoas e rendas.
Uma ocasião costumeira para um discurso ontológico é a redução, onde se
mostra de que modo, mediante uma reinterpretação, se pode dispensar o uni-
verso de alguma teoria em favor de algum outro universo, talvez uma parte pró-
pria do primeiro. Tratei alhures !? da redução de uma ontologia a uma outra
com o auxílio de uma função vicária: uma função que aplica um universo a uma
parte ou à totalidade do outro. Por exemplo, a função número de Goedel de é
uma função vicária. O universo da teoria elementar da prova ou proto-sintaxe,
que consiste de expressões ou fieiras de signos, é aplicado por essa função ao
universo da teoria elementar dos números, que consiste de números.
A função vicária usada na redução de uma ontologia a outra não precisa
ser 1-1, como a numeração de Goedel. Poderíamos, por exemplo, deparar com
uma teoria que tratasse conjuntamente de expressões e razões. Reduziríamos ale-
gremente tudo isso ao universo dos números naturais, invocando uma função vi-
cária que enumerasse as expressões ao modo de Goedel e enumerasse as razões
pelo método clássico das diagonais curtas. Essa função vicária não seria 1-[, uma
vez que atribuiria o mesmo número natural tanto a uma expressão como a uma
razão. Toleraríamos a convergência artificial resultante entre expressões e razões,
simplesmente porque a teoria original não capitalizava a distinção entre elas;
elas eram tão invariável e extravagantemente dessemelhantes, que a questão da
identidade não se punha. Para falar formalmente, a teoria original usava uma
lógica bi-sortida.
Para uma outra espécie de caso, onde não exigiríamos que a função vicária
fosse 1-1, consideremos de novo o fragmento de teoria econômica há pouco
comentado. Ficaríamos felizes por reduzir sua ontologia de pessoas a uma onto-
logia menos numerosa de rendas. A função vicária atribuiria a cada pessoa sua
renda, Ela não é 1-1; pessoas distintas dão lugar a rendas idênticas. A razão por
que uma tal redução é aceitável é que ela funde as imagens somente de indiví-
duos tais que nunca foram distinguíveis pelos predicados da teoria original. As
novas identidades não conflitam com coisa alguma na velha teoria.
Se, por outro lado, a teoria que nos interessa reduzir ou reinterpretar é a
pura proto-sintaxe, ou uma pura aritmética de razões ou de números reais, então
uma função vicária 1-1 se impõe. Isso porque dois elementos quaisquer de uma
tal teoria são distinguíveis em termos da teoria. Isso é verdade mesmo para os
números reais, mesmo embora nem todo número real seja especificável de modo
únido; dois números reais quaisquer x e y são, ainda assim, distinguíveis, pelo
fato de que x < you y < xe nunca x < x. Uma função vicária que não pre-
servasse o caráter distinto dos elementos de uma tal teoria falharia em seu pro-
pósito de reinterpretação.
Nossa ontologia é sempre redutível a uma outra quando dispomos de uma
função vicária f que é 1-1. O raciocínio essencial é o seguinte. Onde P é um pre-
2 Quine, The Ways of Paradox (Nova York, Random House, 1966), pp. 204 e ss., ou ver
Journal of Philosophy, 1964, pp. 214 ess.
156 QUINE
dicado qualquer do velho sistema, sua tarefa pode ser cumprida no sistema novo
por um predicado novo que interpretamos como verdadeiro precisamente dos
correlatos fx dos velhos objetos x de que P era verdadeiro. Assim, suponhamos
que se toma fx como o número de Goedel de x e que, como nosso velho sistema,
se toma um sistema sintático no qual um dos predicados é é um segmenio de. O
predicado correspondente do sistema novo ou numérico seria, então, um que
equivaleria, na medida do que respeita à sua extensão, às palavras é um número
de Goedel de um segmento daquilo cujo número de Goedel é. Sem dúvida, não
se daria ao predicado numérico essa forma tortuosa, mas ele seria formulado
como uma condição puramente aritmética apropriada.
Nossa dependência de uma teoria de fundo se torna especialmente evidente
quando reduzimos nosso universo U a um outro V mediante apelo a uma função
vicária. Pois, somente numa teoria com um universo inclusivo, abrangendo U e V,
é que podemos conferir sentido à função vicária. A função aplica / a V e preci-
sa, portanto, de todos os velhos objetos de U tanto quanto de seus novos vicá-
rios em V.
A função vicária não precisa existir como um objeto, nem mesmo no uni-
verso da teoria de fundo. Ela pode cumprir sua tarefa meramente como o que
eu chamei de uma classe virtual * e Goedel chamou de uma noção. O que vale
dizer que tudo que se exige para uma função é uma sentença aberta com duas
variáveis livres, desde que ela seja satisfeita por um valor, exatamente, da pri-
meira variável para cada objeto do universo velho como valor da segunda va-
riável. Mas meu ponto é que é somente na teoria de fundo, com seu universo
inclusivo, podemos ter a esperança de escrever uma tal sentença e de ter à
nossa disposição os valores corretos para suas variáveis.
Se acontece que os novos objetos estão entre os velhos, de modo que V é
uma subclasse de U, então a velha teoria com universo U às vezes pode, ela
própria, habilitar-se como a teoria de fundo na qual descrever sua própria redu-
ção ontológica. Mas não podemos fazer melhor do que isso; não podemos de-
clarar nossas novas economias ontológicas sem recorrer à velha ontologia não
econômica.
Isso talvez soe como uma grave dificuldade: como se nenhuma economia
ontológica fosse justificável a menos que seja uma falsa economia e que os obje-
tos repudiados, afinal de contas, existam realmente. Mas isso é efetivamente
errôneo; não há aqui nenhuma causa a mais para preocupação do que há na
reductio ad absurdum, onde assumimos uma falsidade que estamos a fim de refu-
tar. Se o que queremos mostrar é que o universo U é excessivo e que somente
uma parte existe, ou precisa existir, então estamos inteiramente em nossos direi-
tos ao assumir todo U como espaço do argumento. Mostramos desse modo que,
se se precisasse de todo U, então não se precisaria de todo U; e, assim, nossa
redução ontológica é selada pela reductio ad absurdum.
No sentido de uma melhor apreciação do importe da relatividade ontológica
no programa da redução ontológica, vale a pena reexaminar o importe filosó-
fico do teorema de Loewenheim-Skolem. Usarei a primitiva forma forte do teo-
à Quine, Set Theory und its Logic, S 2 e ss.
I4 Kurt Goedel, The Consistency of the Continuum Hypothesis (Princeton, N, J., The Uni-
versity Press, 1940), p. li.
RELATIVIDADE ONTOLÓGICA [57
rema, * que depende do axioma da escolha. Ele diz que, se uma teoria é verda-
deira e tem um universo indenumerável, então tudo, exceto uma parte denume-
rável desse universo, é matéria morta, no sentido de que se pode deixar de fora
do domínio das variáveis sem falsificar sentença alguma.
Aparece então que esse teorema declara uma redução de todas as teorias
aceitáveis a ontologias denumeráveis. Além do mais, uma ontologia denumerá-
vel é redutível, por sua vez, a uma ontologia especificamente de números na-
turais, pelo simples meio de tomar a enumeração como a função vicária, se a
enumeração está explicitamente à mão. E, mesmo que ela não esteja à mão,
ela existe; assim, ainda podemos pensar todos os nossos objetos como números
naturais e simplesmente reconciliar-nos com o fato de nem sempre saber, nume-
ricamente, que número é um objeto dado de uma outra maneira. Não podemos,
assim, decidir-nos de uma vez por uma ontologia pitagórica geral?
Suponhamos, em seguida, que alguém viesse a oferecer-nos o que se teria
outrora qualificado como uma redução ontológica — um modo de dispensar, na
teoria futura, todas as coisas de uma certa espécie S, mas deixando ainda um
universo infinito. Ora, no novo cenário pitagórico, essa descoberta reteria ainda
seu conteúdo essencial, embora abandonando a forma de uma redução ontoló-
gica; ela tomaria meramente a forma de uma passagem por meio da qual certos
números não especificados numericamente seriam despidos de alguma proprie-
dade de número que correspondia a S.
Um pitagorismo geral nesses termos é sem atrativo, pois meramente oferece
novas e mais obscuras explicações de velhas passagens e de velhos problemas.
A esse respeito, então, a proposição relativista parece de novo razoável: não
há nenhum sentido absoluto em falar da ontologia de uma teoria. De um
modo muito convincente, ela estigmatiza esse mesmo pitagorismo como sem sig-
nificado. Pois não há nenhum sentido absoluto em dizer que todos os objetos de
uma teoria são números ou que eles são conjunto ou corpos ou alguma outra
coisa; isso não faz nenhum sentido exceto com relação a alguma teoria de fundo.
Os predicados relevantes — número, conjunto, corpo, ou o que seja — seriam
distinguidos um do outro na teoria de fundo pelos papéis que desempenham nas
leis dessa teoria.
Insisti alhures (na nota 12), em resposta a um tal pitagorismo, em que não
temos nenhuma redução ontológica num sentido interessante a menos que pos-
samos especificar uma função vicária. Ora, onde nos deixa, a esse respeito, O
teorema forte de Loewenheim-Skolem? Se a teoria de fundo assume o axioma da
escolha e provê inclusive uma notação para um operador seletor geral, podemos
talvez especificar, nesses termos, uma efetiva função vicária que incorpore o ar-
gumento de Loewenheim-Skolem?
O teorema é que tudo menos uma parte denumerável de uma ontologia pode
ser deitado fora sem que se sinta a sua falta. Poder-se-ia imaginar que a prova
procede por uma partição do universo em classes de equivalência denumeravel-
mente múltiplas de objetos indiscrimináveis tais que todos exceto um dos mem-
bros de cada classe de equivalência podem ser deitados fora como supérfluos; e
se conjeturaria então que, onde o axioma da escolha entra na prova, é na coleta
de um sobrevivente de cada classe de eguivalência. Se isso fosse assim, então,
i5 Thoralf Skolem, “Logisch-Kombinatorische Untersuchungen ueber die Erfuellbarkeit oder
Beweisbarkeit mathematischer Saetze nebst einem Theorem ueber dichte Mengen”, Skrifter
utgit av Videnskapsseiskapet i Kristiania, 1919, 37. Tradução em Jean van Heijenoort, ed.
From Frege to Goedel: Source Book in the History of Mathematical Logic (Cambridge,
Mass., Harvard, 1967), pp. 252-263.
158 QUINE
com o auxílio da notação do seletor de Hilbert, poderíamos em verdade expri-
mir uma função vicária. Mas, de fato, a prova de Loewenheim-Skolem tem uma
outra estrutura. Não vejo, mesmo na prova do teorema forte de Loewenheim-
Skolem, nenhuma razão para supor que se possa formular, em algum lugar, uma
função vicária que aplique uma ontologia indenumerável, digamos, os números
reais, numa denumerável.
Aparentemente, sem dúvida, uma tal função vicária está fora de questão.
Ela teria de ser 1-1, como vimos, para prover imagens distintas de números reais
distintos; e uma aplicação 1-1 de um domínio indenumerável num denumerável
é uma contradição. Em particular, é fácil mostrar, no sistema de teoria de con-
juntos de Zermelo-Fraenkel, que uma tal função nem existiria nem mesmo admi-
tiria formulação como uma classe virtual na notação do sistema.
A discussão da ontologia de uma teoria pode fazer exigências de várias
maneiras severas à teoria de fundo em que a discussão está vazada. A severidade
dessas exigências varia com o que está sendo dito sobre a ontologia da teoria-
objeto. Estamos agora em condições de distinguir três de tais graus de severidade.
A exigência menos severa é feita quando, sem nenhum intento de redução.
meramente explicamos sobre que coisas é uma teoria, ou que coisas seus termos
denotam. Isso equivale a mostrar como traduzir parte ou o todo da teoria-objeto
na teoria de fundo. É realmente uma questão de mostrar como nos propomos,
com alguma arbitrariedade, a relacionar termos da teoria-objeto com termos da
teoria de fundo; pois temos de levar em conta a inescrutabilidade da referência.
Mas não há aqui nenhuma exigência de que a teoria de fundo tenha um uni-
verso mais amplo ou um vocabulário mais forte que a teoria-objeto. As teorias
poderiam mesmo ser idênticas; esse é o caso quando alguns termos são clariti-
cados por definições à base de outros termos da mesma linguagem.
Uma exigência mais severa foi observada no caso em que uma função vicá-
ria é usada para reduzir uma ontologia. Nesse caso, a teoria de fundo precisava
do universo não reduzido. Mas vimos, por considerações afins à reductio ad ab-
surdum, que havia aqui pouco a lastimar.
O terceiro grau de severidade surgiu agora com a espécie de redução onto-
lógica sugerida pelo teorema de Loewenheim-Skolem. Se uma teoria tem, por
sua própria conta, um universo indenumerável, então, mesmo tomando essa teo-
ria inteira não reduzida como teoria de fundo, não podemos ter a esperança de
produzir uma função vicária que fosse adequada à redução de sua ontologia à
uma ontologia denumerável. Para achar uma tal função vicária, mesmo somente
uma virtual, precisaríamos de uma teoria de fundo essencialmente mais forte do
que a teoria que estávamos tentando reduzir. Essa exigência não pode ser aceita,
como o segundo grau de severidade acima, no espírito da reductio ad absurdum.
É uma exigência que simplesmente desencoraja qualauer argumento geral em
favor dc pitagorisme, a partir do teorema de Loewenheim-Skolem.
Um lugar em que vemos um lado mais trivial da relatividade ontológica é
no caso de um universo finito de objetos nomeados. Aí, não há nenhuma ocasião
para quantificação, exceto como uma abreviação inessencial; pois podemos ex-
pandir as quantificações em conjunções e alternações finitas. Assim, as variáveis
desaparecem e, com elas, a questão de um universo de valores de variáveis. E a
mesma distinção entre nomes e outros signos cai por sua vez, uma vez que a
marca de um nome é sua admissibilidade em posições de variáveis. Assim, a on-
tologia é enfaticamente sem significado para uma teoria finita de objetos no-
meados, considerada em e por si mesma. Ainda assim, estamos agora falando
significativamente de tais ontologias finitas. Somos capazes de fazer isso precisa-
RELATIVIDADE ONTOLÓGICA 159
mente porque estamos falando, ainda que vaga e implicitamente, dentro de uma
teoria continente mais larga. O que são os objetos da teoria finita somente faz
sentido como um enunciado da teoria de fundo em seu próprio idioma referencial.
A resposta à questão depende da teoria de fundo, da teoria finita do primeiro
plano e, sem dúvida, da maneira particular de que escolhemos traduzir ou em-
butir uma na outra. Ê
A ontologia também é internamente indiferente, penso eu, para qualquer
teoria que seja completa e decidível. Lá onde sempre podemos estabelecer meca-
nicamente valores de verdade, não há nenhuma razão interna evidente para inte-
resse na teoria de quantificadores, nem, portanto, em valores de variáveis. Essas
questões somente adquirem significação quando pensamos na teoria decidível
como embutida numa teoria de fundo mais rica, na qual as variáveis e seus va-
lores são assunto sério.
Também se pode dizer que a ontologia é internamente indiferente mesmo
para uma teoria que não é decidível e não tem um universo finito, se ainda assim
acontece que cada um dos objetos infinitamente numerosos da teoria tem um
nome. Não mais podemos expandir quantificações em conjunções e alternações,
excluindo expressões infinitamente longas. Podemos, entretanto, rever nossa ex-
planação semântica das condições de verdade da quantificação, de um modo tal
a voltar nossas costas a questões de referência. Podemos explicar como verdadei-
ras as quantificações universais, quando são verdadeiras sob todas as substitui-
ções; e, de modo correspondente, para as existenciais. Tal é o caminho que foi
apontado por Lesniewski e por Ruth Marcus.'* Sua orientação não referencial
se vê no fato de que não faz nenhum uso essencial do nomear. Isto é, poderiam
explicar-se quantificações adicionais cujas variáveis são seguradores de lugares
para palavras de qualquer categoria sintática. A quantificação substitucional,
como eu a chamo, não traz, assim, nenhum meio de distinguir entre nomes e um
outro vocabulário, nem um meio qualquer de distinguir entre variáveis genuina-
mente referenciais ou que tomam valores e outros seguradores de lugares. A onto-
logia é, assim, sem significado para uma teoria cuja única quantificação é inter-
pretada substitucionalmente, sem significado, isto é, na medida em que a teoria
é considerada em e por si mesma. A questão de sua ontologia somente faz sen-
tido com relação a alguma tradução da teoria numa teoria de fundo em que usa-
mos quantificação referencial. A resposta depende de ambas as teorias e, de novo,
da maneira escolhida de traduzir uma na outra.
Um toque final de relatividade pode coroar isso em alguns casos, quando
tentamos distinguir entre quantificação substitucional e referencial. Suponha-se,
de novo, uma teoria com um lote infinito de nomes e suponha-se que, mediante
a numeração de Goedel ou de outra maneira, estamos tratando das notações e
provas da teoria dentro dos termos da teoria. Se conseguirmos mostrar que todo
resultado da substituição da variável por um nome numa certa sentença aberta
é verdadeiro na teoria, mas refutamos ao mesmo tempo a quantificação universal
lé Ruth B. Marcus, “Modalities and intensional languages”, Synthesis 13 (1961), pp. 303-322.
Não posso localizar um enunciado adequado da filosofia da quantificação de Stanislaw Les-
niewski em seus escritos; eu o tenho de suas conversas. E. C. Luschei, em The Logical Sys-
tems of LesSniewski (Amsterdam. North Holland, 1962), pp. 108 e ss., confirma minha atri-
buição, mas também não cita nenhuma passagem. Sobre essa versão da quantificação, ver
ademais “Existence and Quantification”, em Quine. Ontological Relativity (Nova York e
Londres, Columbia University Press, 1969).
160 QUINE
da sentença, ” então com certeza teremos mostrado que o universo da teoria
continha alguns objetos sem nome. Esse é um caso em que se pode alcançar uma
decisão absoluta a favor da quantificação referencial e contra a quantificação
substitucional, sem retroceder nenhuma vez a uma teoria de fundo.
Mas considere-se agora a situação oposta, em que não há uma tal sentença
aberta. Imagine-se, pelo contrário, que, sempre que uma sentença aberta é tal que
cada resultado da substituição de um nome nela pode ser provado, sua quantifi-
cação universal também pode ser provada na teoria. Nessas circunstâncias, po-
demos interpretar o universo como carente de objetos sem nome e, portanto,
reinterpretar a quantificação como substitucional, mas não precisamos. Pode-
riamos ainda interpretar o universo como contendo objetos sem nome. Aconte-
ceria apenas que os sem nome seriam inseparáveis dos nomeados, neste sentido:
poderia acontecer que todas as propriedades de objetos sem nome que podemos
exprimir na notação da teoria fossem compartilhadas por objetos nomeados.
Poderíamos interpretar o universo da teoria como contendo, por exemplo,
todos os números reais. Alguns deles são sem nome, uma vez que os números
reais são indenumeráveis, enquanto os nomes são denumeráveis. Mas poderia,
ainda assim, acontecer que os reais sem nome fossem inseparáveis dos reais no-
meados. Isso nos tornaria incapazes de, dentro da teoria, provar uma distinção
entre quantificação referencial e substitucional. !! Toda quantificação expressá-
vel, que é verdadeira quando interpretada referencialmente, permanece verdadeira
quando interpretada substitucionalmente € vice-versa.
Poderíamos, ainda assim, fazer a distinção a partir do ponto de vista estra-
tégico de uma teoria de fundo. Nela, poderíamos especificar alguns números reais
que eram sem nome na teoria-objeto; pois há sempre maneiras de fortalecer uma
teoria de modo a nomear mais números reais, embora nunca todos. Além disso,
na teoria de fundo, poderíamos interpretar o universo da teoria-objeto como
exaurindo os números reais. Na teoria de fundo, poderíamos, dessa maneira, fir-
mar como referenciais as quantificações na teoria-objeto. Mas esse firmar é du-
plamente relativo: é relativo à teoria de fundo e à interpretação ou tradução im-
posta à teoria-objeto de dentro da teoria de fundo.
Poder-se-ia esperar que esse recurso a uma teoria de fundo pudesse com
frequência ser evitado, mesmo quando os reais sem nome são inseparáveis dos
reais nomeados na teoria-objeto. Poder-se-ia ter a esperança de mostrar por meios
indiretos, dentro da teoria-objeto, que há reais sem nome. Pois poderíamos pro-
var, dentro da teoria-objeto, que os reais são indenumeráveis e que os nomes
são denumeráveis e, portanto, que não há nenhuma função cujos argumentos se-
jam nomes e cujos valores exauram os números reais. Uma vez que a relação
dos números reais a seus nomes seria uma tal função se cada número real tivesse
um nome, pareceríamos ter provado, dentro da própria teoria-objeto, que há
reais sem nome e, portanto, que a quantificação deve ser tomada reterencialmente.
Entretanto, isso está errado; há um furo. Esse raciocínio provaria apenas
que uma relação de todos os números reais a seus nomes não pode existir como
uma entidade no universo da teoria. Esse raciocínio não nega a nenhum número
um nome na notação da teoria, enquanto a relação de nomear não pertença ao
universo da teoria. E, de qualquer modo, deveríamos saber o bastante para não
7 Esse é o método típico de um sistema numericamente insegregativo, enganosamente cha-
mado w -inconsistente. Ver meus Selected Logical Papers (Nova York. Random House,
1966), pp. 118 e ss., ou Journal of Symbolic Logic, 1953, pp. 122 ess.
i8 Essa possibilidade foi sugerida por Saul Kripke.
RELATIVIDADE ONTOLÓGICA 161
esperar uma tal relação, pois é o que causa os paradoxos de Berry e de Richard
e os que com eles se relacionam.
Algumas teorias podem atestar sobre seus próprios objetos sem nome e,
assim, reivindicar por si mesmas a quantificação referencial; outras teorias têm
de dirigir-se a teorias de fundo, para esse serviço. Vimos como uma teoria po-
deria atestar sobre seus próprios objetos sem nome, a saber, mostrando que algu-
ma sentença aberta se torna verdadeira sob todas as substituições constantes, mas
falsa sob quantificação universal. Talvez, quando acontece que os objetos sem
nome são inseparáveis dos nomeados, a quantificação usada numa teoria não
possa ser, Significativamente, declarada referencial, exceto através da mediação
de uma teoria de fundo. Ainda assim, a quantificação referencial é o idioma-
chave da ontologia.
Assim, a ontologia pode ser de múltiplos modos relativa, de múltiplos mo-
dos sem significado, separadamente de uma teoria de fundo. Além de sermos
incapazes de dizer precisamente o que são os objetos em termos absolutos, somos
às vezes incapazes inclusive de distinguir objetivamente entre quantificação refe-
rencial e uma imitação substitucional. Além disso, quando relativizamos esses
tópicos com respeito a uma teoria de fundo, a própria relativização tem duas
componentes: relatividade com respeito à escolha da teoria de fundo e relatividade
com respeito à escolha de como traduzir a teoria-objeto na teoria de fundo.
Quanto à ontologia da teoria de fundo, por sua vez, e mesmo quanto à referen-
cialidade de sua quantificação — esses tópicos podem, por sua vez, demandar
uma teoria de fundo. Ê
Não há sempre um regresso genuíno. Vimos que, se estamos meramente
clarificando o domínio das variáveis de uma teoria ou a denotação de seus termos
e se estamos tomando como aceita a própria referencialidade da quantificação,
podemos comumente usar a própria teoria-objeto como teoria de fundo. Encon-
tramos que, quando empreendemos uma redução ontológica, devemos aceitar ao
menos a teoria não reduzida a fim de mencionar a função vicária; mas éramos
capazes de aceitar isso alegremente, no espírito de argumentos de reductio ad
absurdum. E agora, no fim, encontramos ademais que, se cuidamos de questio-
nar a própria quantificação e de estabelecer se ela importa num universo de dis-
curso ou se ela depende meramente de substituição ao nível lingiúístico, em al-
guns casos temos genuinamente de regredir a uma linguagem de fundo dotada
de recursos adicionais. Parece termos de fazer isso, a menos que os objetos sem
nome sejam separáveis, na teoria-objeto, dos que são nomeados.
A regressão na ontologia relembra a regressão, agora familiar, na semântica
da verdade e das noções aparentadas — satisfação, nomeação. Sabemos, a partir
do trabalho de Tarski, como a semântica de uma teoria, nesse sentido, requer
regularmente uma teoria de algum modo mais inclusiva. Talvez essa similaridade
não nos devesse surpreender, uma vez que tanto a ontologia como a satisfação
são matérias de referência. Em seu caráter ilusório, de qualquer modo — em
seu caráter de quando em vez vazio exceto em relação a um pano de fundo mais
amplo — tanto a verdade como a ontologia se podem dizer, num sentido subi-
tamente claro e mesmo tolerante, pertencentes à metafísica transcendental. !º
Nota acrescentada nas provas. Além de uma redução ontológica tal como
a proporcionada por funções vicárias (cf. pp. 155-157), há aquela que consiste sim-
i9 No desenvolvimento desses pensamentos, foi ajudado por discussões com Saul Kripke,
Thomas Nagel e, especialmente, Burton Dreben.
162 QUINE
plesmente em deixar de lado objetos cuja ausência não falsificará quaisquer ver-
dades exprimíveis na notação. Essa sorte de deflação se pode tratar comumente
por funções vicárias, mas R. E. Grandy mostrov-me que às vezes não o pode.
Como quer que seja, vamos reconhecê-la então como uma outra espécie de re-
dução. Devemos, por certo, ser capazes de dizer, na linguagem de fundo, que
classe de objetos é deixada de lado, exatamente como, em outros casos, tínhamos
de ser capazes de especificar a função vicária. Essa exigência parece suficiente
para deter qualquer ressurgência do pitagorismo com base no teorema de Loe-
wenheim-Skolem.
3. EPISTEMOLOGIA NATURALIZADA
A epistemologia se interessa pelos fundamentos da ciência. Concebida com
essa amplitude, a epistemologia inclui o estudo dos fundamentos da matemática
como um dos seus ramos. Por volta da passagem do século, os especialistas pen-
savam que seus esforços nesse ramo particular estariam alcançando um sucesso
notável: a matemática parecia reduzir-se inteiramente à lógica. Numa perspectiva
mais recente, vê-se que é melhor descrever essa redução como uma redução a
lógica e teoria dos conjuntos. Do ponto de vista epistemológico, essa correção é
um revés, visto que não podemos reivindicar para a teoria dos conjuntos a solidez
e o caráter óbvio que associamos à lógica. Não obstante, dentro de padrões com-
parativos, o sucesso alcançado nos fundamentos da matemática continua sendo
exemplar e até certo ponto é possível trazer luzes para as partes restantes da
epistemologia, por meio de paralelos feitos com esse ramo.
Os estudos relativos aos fundamentos da matemática dividem-se simetrica-
mente em dois grupos, os conceituais e os doutrinais. Os estudos conceituais se
interessam pelo significado, os doutrinais, pela verdade. Os estudos concei-
tuais tratam de clarificar conceitos, definindo-os, uns em termos de outros.
Os estudos doutrinais tratam de estabelecer leis, provando-as, umas à base de
outras. Idealmente, os conceitos mais obscuros seriam definidos em termos dos
mais claros, de modo a maximizar a clareza, e as leis menos óbvias seriam pro-
vadas a partir das mais óbvias, de modo a maximizar a certeza. Idealmente, as
definições gerariam todos os conceitos a partir de idéias claras e distintas, e as
provas gerariam todos os teoremas a partir de verdades por si mesmas evidentes.
Os dois ideais estão ligados. Pois, ao definirmos todos os conceitos usando
um dos seus subconjuntos de nossa preferência, estaremos mostrando como
traduzir todos os teoremas nesses termos preferidos. Quanto mais claros forem
eles, mais provável é que as verdades neles expressas sejam obviamente verdadei-
ras ou deriváveis de: verdades óbvias. Se em particular os conceitos da matemá-
tica fossem todos reduzíveis aos termos claros da lógica, todas as verdades da
matemática passariam a ser verdades da lógica; e as verdades da lógica são com
certeza todas elas óbvias ou, pelo menos, potencialmente óbvias, isto é, deriváveis
a partir de verdades óbvias, por meio de passos que, um por um, são todos eles
óbvios.
Todavia, esse resultado particular nos é recusado, dado que a matemática
reduz-se apenas à teoria dos conjuntos e não à lógica propriamente dita. Essa
redução decerto acentua a clareza, mas só por causa das inter-relações que daí
emergem e não porque os termos finais da análise sejam mais claros do que ou-
tros. Quanto às verdades finais, os axiomas da teoria dos conjuntos, a certeza €
a obviedade que falam em seu favor são inferiores aos da maioria dos teoremas
matemáticos que delas derivaríamos. Além disso, sabemos a partir da obra de
Goedel que nenhum sistema axiomático consistente pode cobrir a matemática,
164 QUINE
ainda que renunciemos à auto-evidência. À redução dentro dos fundamentos da
matemática continua a ser fascinante do ponto de vista matemático e filosófico,
mas não realiza o sonho do epistemólogo: não revela o fundamento do conheci-
mento matemático, não mostra como a certeza matemática é possível.
Contudo, há ainda uma sugestão para a epistemologia em geral, naquela
dualidade de estrutura que se manifestou especialmente nos fundamentos da ma-
temática. Refiro-me à bifurcação em teoria dos conceitos ou do significado e
teoria da doutrina ou da verdade; pois ela se aplica à epistemologia do conhe-
cimento natural, não menos que aos fundamentos da matemática. Vejamos onde
está o paralelo. Assim como a matemática é redutível a lógica, ou a lógica e
teoria dos conjuntos, assim o conhecimento natural será baseado, de algum modo,
na experiência sensível. Isso significa explicar a noção de corpo em termos senso-
riais; eis o aspecto conceitual. E significa justificar o nosso conhecimento
de verdades da natureza também em termos sensoriais; eis o aspecto dou-
trinal da bifurcação.
Hume examinou a epistemologia do conhecimento natural dos dois lados da
bifurcação, o conceitual e o doutrinal. Seu tratamento do aspecto conceitual do
problema, a explicação de corpo em termos sensoriais, foi corajosa e simples: os
corpos foram identificados diretamente às impressões sensoriais. Se o senso co-
mum distingue a maçã material das nossas impressões sensíveis, alegando que a
maçã é una e durável, enquanto as impressões são muitas e fugazes, então, sus-
tentou Hume, tanto pior para o senso comum; a idéia de uma maçã estar sendo
a mesma numa ocasião e também noutra é uma confusão vulgar.
Cerca de um século após o Tratado de Hume, a mesma concepção a res-
peito dos corpos foi esposada por um dos primeiros filósofos americanos, Ale-
xander Bryan Johnson. ! É ele quem diz: “A palavra ferro nomeia uma associa-
ção de visão e tato”.
Que se passa então com o aspecto doutrinal, com a justificação do nosso
conhecimento das verdades relativas à natureza? Nesse ponto, Hume desespera.
Pela identificação dos corpos com as impressões, ele conseguiu fazer com que
alguns enunciados singulares sobre os corpos fossem construídos como verdades
indubitáveis; como verdades sobre as impressões, conhecidas diretamente. Mas
os enunciados gerais e também os enunciados singulares relativos ao futuro não
ganharam em certeza por serem construídos como enunciados sobre impressões.
Do lado doutrinal, não vejo que tenhamos chegado hoje além do ponto em
que Hume nos deixou. O impasse humiano é o impasse humano. Mas, do lado
conceitual, houve progresso. O crucial passo à frente já havia sido dado antes
mesmo de Alexander Bryan Johnson, sem que Johnson todavia o tomasse como
um desafio. Esse passo foi dado por Bentham, na sua teoria das ficções, e consis-
tia no reconhecimento da definição contextual ou naquilo que ele chamou de pará-
frase. Ele reconheceu que para explicar um termo não é preciso especificar um
objeto para o termo referir, nem mesmo especificar uma palavra ou frase sinô-
nima; basta apenas mostrar, por um meio qualquer, como traduzir cada uma das
sentenças inteiras em que o termo pode ser empregado. O desesperado procedi-
mento de Hume e Johnson, que identifica corpos com impressões, deixou de ser
o único meio concebível pelo qual faz sentido falar em corpos, mesmo na hipó-
tese de que as impressões sejam a única realidade. Alguém poderia empreender
a tarefa de explicar um falar de corpos em termos de um falar de impressões,
1 A. B. Johnson. A Treatise on Language (Nova York, 1836; Berkeley, 1947).
EPISTEMOLOGIA NATURALIZADA 165
traduzindo suas sentenças inteiras sobre corpos em sentenças inteiras sobre im-
pressões, sem que os próprios corpos fossem equiparados a que quer que seja.
Essa idéia de definição contextual, ou de reconhecimento da sentença como
veículo primário de significado, foi indispensável para os desenvolvimentos sub-
sequentes nos fundamentos da matemática. Explícita em Frege, a idéia desabro-
chou completamente na doutrina russelliana das descrições singulares como sím-
bolos incompletos,
A definição contextual era um dos dois trunfos dos quais se esperava um
efeito liberatório sobre o aspecto conceitual da epistemologia do conhecimento
natural. O outro consistia em lançar mão dos recursos da teoria dos conjuntos,
como conceitos auxiliares. O epistemólogo que está disposto a complementar sua
austera ontologia de impressões sensíveis com esses auxiliares, vindos da teoria
dos conjuntos, enriquece de súbito: seu jogo não precisa mais ser feito apenas
com suas impressões, ele dispõe de classes de impressões, classes de classes e
assim por diante. Construções nos fundamentos da matemática mostraram que
esses auxiliares, vindos da teoria dos conjuntos, representam um poderoso acrés-
cimo; afinal, todo o glossário de conceitos da matemática clássica pode ser cons-
truído a partir deles. Equipado dessa maneira, nosso epistemólogo pode não ter
necessidade nem de identificar corpos com impressões nem de ficar com a defi-
nição contextual; ele pode alimentar a esperança de encontrar, numa construção
sutil de conjuntos sobre conjuntos, uma categoria de objetos que satisfaz justa-
mente aquela fórmula de propriedades que reivindica para os objetos.
Há uma grande disparidade no status epistemológico dos dois expedientes.
A definição contextual é inatacável. Uma sentença que, como um todo, tenha
recebido significado é inegavelmente significativa e o emprego que faz dos seus
termos componentes é portanto significativo, independentemente de serem ofere-
cidas traduções para esses termos, tomados isoladamente. Hume e Johnson teriam
certamente empregado com muito gosto a definição contextual, se tivessem tido a
idéia. O recurso a conjuntos, por outro lado, é um lance ontologicamente drás-
tico, uma retirada com respeito à ontologia austera das impressões. Há filósofos
que prefeririam ficar diretamente com os corpos, antes de aceitar todos esses
conjuntos que importam, afinal de contas, na inteira ontologia abstrata da ma-
temática.
Todavia, nem sempre se teve clareza sobre esse ponto, devido às enganosas
pistas que insinuavam haver continuidade entre a lógica elementar e a teoria dos
conjuntos. Eis porque houve um tempo em que se acreditou que a matemática
se reduziria à lógica, isto é, a uma lógica inocente e não questionável, herdando
assim essas suas qualidades. E foi provavelmente por isso que Russell sentiu-se à
vontade para recorrer tanto aos conjuntos como à definição contextual, quando
se voltou em Nosso Conhecimento do Mundo Exterior, e em outras obras, para
o aspecto conceitual da epistemologia do conhecimento natural.
Dar conta do mundo exterior como um construto lógico a partir de sense
data — esse era o programa, em termos russellianos. Foi Carnap, no seu Der lg-
gische Aufbau der Welt de 1928, quem chegou mais perto de sua execução.
Isso foi o que se passou do lado conceitual da epistemologia; que dizer do
doutrinal? Aí, o impasse humiano se mantém inalterado. Pelas construções de
Carnap, se se tivessem completado com sucesso, estaríamos habilitados a tradu-
zir todas as sentenças sobre o mundo em termos de sense data, ou de observação,
acrescidos de lógica e teoria dos conjuntos. Mat o mero fato de que uma sen-
tença se exprima em termos de observação, lógica e teoria dos conjuntos não
significa que possa ser provada a partir de sentenças de observação, por meio de
lógica e teoria dos conjuntos. A generalização mais modesta acerca de traços
166 QUINE
observáveis cobrirá casos em maior número do que aqueles que poderão vir a ser
observados efetivamente por quem a profere. Reconheceu-se serem vãs as espe-
ranças de fundamentar, de modo solidamente lógico, a ciência natural sobre a
experiência imediata. A busca de certeza cartesiana havia sido a motivação re-
mota da epistemologia; no entanto, essa busca se revelou causa perdida. Dotar
as verdades da natureza da plena autoridade da experiência imediata é uma espe-
rança tão desconsolada quanto a de dotar as verdades da matemática do caráter
potencialmente óbvio da lógica elementar.
Qual poderia ter sido então a motivação dos esforços heróicos de Carnap,
no lado conceitual da epistemologia, quando a esperança de certeza no lado dou-
trinal havia sido abandonada? Restavam ainda duas boas razões. Uma delas era
a de que seria possível esperar que tais construções trouxessem à tona e escla-
recessem a evidência sensorial para a ciência, ainda que os passos de inferência
entre evidência sensorial e doutrina científica tivessem que ficar abaixo do nível
da certeza. A outra razão era a de que tais construções iriam aprofundar o co-
nhecimento que temos do nosso discurso acerca do mundo, mesmo deixando de
lado as questões relativas à evidência; isso tornaria todo o nosso discurso cogni-
tivo tão claro quanto são os termos observacionais, a lógica e, devo a contragosto
acrescentar, a teoria dos conjuntos.
Para os epistemólogos, Hume e outros, foi triste ter que aquiescer à
impossibilidade de uma estrita derivação da ciência do mundo exterior, a partir
da evidência sensorial. Entretanto, duas das teses capitais do empirismo mantive-
ram-se inatacáveis e assim se mantêm até hoje. Uma é a de que toda a evidência
de que a ciência dispõe é evidência sensorial. A outra, da qual farei uso, é a de
que qualquer processo de inculcar significados de palavras terá que repousar, em
última análise, numa evidência sensorial. Daí a atração permanente da idéia de
um logischer Aufbau em que o conteúdo sensorial do discurso seja explicitamente
exibido.
Se Carnap tivesse sido bem sucedido nessa construção, como poderia decidir
gue era essa a correta? A questão não teria sido pertinente. Ele fora em busca
do que chamava reconstrução racional. Qualquer construção de discurso fisica-
lista em termos de experiência sensível, lógica e teoria dos conjuntos seria enca-
rada como satisfatória, se dela resultasse corretamente o discurso fisicalista. Se
há um caminho, há muitos, mas qualquer um deles representaria um grande feito.
Mas por que toda essa reconstrução criativa, por que todo esse simulacro?
A estimulação dos receptores sensoriais constitui, em última análise, toda a evi-
dência na qual cada um terá podido basear-se para chegar à sua imagem do
mundo. Por que não ver simplesmente como essa construção realmente se pro-
cessa? Por que não ficar com a psicologia? A transferência das responsabilidades
epistemológicas para a psicologia havia sido condenada, anteriormente, como um
raciocínio circular, Se o objetivo do epistemólogo era o de validar os fundamentos
da ciência empírica, ao empregar a psicologia ou outra ciência empírica nessa
avaliação, ele estaria frustrando seus propósitos. Todavia, tais escrúpulos contra
a circularidade terão pouca relevância, uma vez que tivermos parado de sonhar
com uma dedução da ciência a partir de observações. Se estivermos procurando
simplesmente compreender o elo entre observação e ciência, será de bom critério
empregar qualquer informação disponível, inclusive a que é oferecida por essa
ciência mesma, cujo elo com a observação estamos procurando compreender.
Mas resta ainda uma razão outra, sem relação com o receio da circularidade,
para favorecer a reconstrução criativa. Gostaríamos de ser capazes de traduzir
a ciência em lógica, termos observacionais e teoria dos conjuntos. Esse seria um
grande feito epistemológico, pois mostraria serem todos os outros conceitos da
EPISTEMOLOGIA NATURALIZADA 167
ciência teoricamente supérfluos. E os legitimaria — até o grau em que os con-
ceitos da teoria dos conjuntos, da lógica e da observação são por sua vez legiti-
mados — mostrando que tudo o que é feito com um instrumental poderia em
princípio ser feito com o outro. Se a própria psicologia pudesse oferecer uma
verdadeira redução tradutiva dessa espécie, nós a acolheríamos de bom grado;
mas é certo que isso não é possível, pois é certo que não crescemos aprendendo
definições da linguagem fisicalista em termos de uma linguagem anterior de teoria
dos conjuntos, lógica e observação. Eis aqui, portanto, uma boa razão para per-
sistir numa reconstrução racional: queremos estabelecer a inocência essencial dos
conceitos físicos, mostrando que eles são teoricamente dispensáveis.
O fato, entretanto, é que a construção esboçada por Carnap em Der logische
Aufbau der Welt tampouco nos dá uma redução tradutiva. E essa redução não
seria obtida nem mesmo se o projeto esboçado viesse a ser realizado. O momento
crucial é aquele em que Carnap explica como atribuir qualidades a posições no
espaço e tempo físicos. Essas atribuições têm que ser feitas de modo a preencher
da melhor maneira possível certos desideratos que ele enuncia e. com o cresci-
mento da experiência, têm que ser revistas para continuar a corresponder. Em-
bora traga luzes, esse plano não nos oferece nenhuma chave para traduzir as sen-
tenças da ciência em termos de observação, lógica e teoria dos conjuntos.
Temos que perder as esperanças quanto a qualquer redução dessa espécie.
Carnap perdeu as suas por volta de 1936, quando, em “Testability and Meaning”,
intrcduziu as chamadas formas redutivas de um tipo mais fraco que uma deti-
nição. As definições sempre mostraram como traduzir sentenças em sentenças
equivalentes. As definições contextuais de um termo mostravam como traduzir
sentenças que contêm o termo em sentenças equivalentes onde o termo não ocorre.
Por outro lado, as formas redutivas da espécie liberalizada de Carnap em geral
não nos fornecem equivalências e sim implicações. Elas explicam um termo novo,
ainda que só parcialmente, especificando algumas sentenças que são implicadas
por sentenças que contêm o termo e outras sentenças que implicam sentenças que
contêm o termo,
Podemos ter a tentação de supor que a aceitação das formas redutivas, nesse
sentido liberal, seja simplesmente mais um pasco de liberalização, comparável ao
anterior, dado por Bentham, quando aceitou u delinição contextual, A espécie
anterior e mais rígida de reconstrução racional poderia ter sido representada como
uma história fictícia na qual imaginávamos nossos ancestrais introduzindo os ter-
mos do discurso fisicalista sobre uma base de fenomenalismo e teoria dos con-
juntos, por meio de uma sucessão de definições contextuais. A espécie mais nova
e mais liberal de reconsirução racional é uma história fictícia na qual imagina-
mos nossos ancestrais introduzindo aqueles termos, agora por uma sucessão de
formas redutivas mais fracas.
Entretanto, essa é uma má comparação. O fato é, antes, que a espécie ante-
rior e mais rígida de reconstrução racional, onde prevalecera a definição, não
envolvia absolutamente nenhuma história fictícia. Ela era ou teria sido, se tivesse
tido sucesso — nada mais, nada menos do que um conjunto de diretivas — para
conseguir realizar em termos de fenômenos e de teoria dos conjuntos tudo o que
realizamos agora em termos de corpos. Teria sido uma verdadeira redução por
tradução, uma legitimação por eliminação. Definire est eliminare. A reconstrução
racional pelas posteriores e menos exigentes formas redutivas de Carnap não
taz nada disso.
2 Philosophy of Science 3 (19346), 419-471: 4 (193), 11-40.
168 QUINE
Relaxar a exigência de definição e ficar com uma espécie de redução que
não elimina é renunciar à última vantagem que, segundo havíamos suposto, a
reconstrução racional tinha ainda, sobre a psicologia propriamente dita; a saber,
o vantagem da redução tradutiva. Se tudo o gue esperarmos toi uma reconstru-
cão gue vincule a ciência à experiência por meios explícitos que excluam a tra-
dução, então parece que seria mais sensato ficar com a psicologia. E melhor des-
cobrir como de fato a ciência se desenvolve e é aprendida, do que fabricar uma
estrutura fictícia para efeitos similares.
O empirista fez uma importante concessão quando abandonou a esperança
de deduzir as verdades da natureza a partir da evidência sensorial. Perdendo
agora a esperança até mesmo de traduzir aquelas verdades em termos de obser-
vação e auxiliares logico-matemáticos, ele faz uma outra concessão importante.
Pois, suponhamos que sustentemos, com o velho empirista Peirce, que o sigmfi-
cado mesmo de um enunciado consista na diferença em que importaria a sua
verdade para a experiência possível. Não poderíamos nós formular então, numa
sentença em linguagem observacional do tamanho de um capítulo, a diferença
inteira em que importaria a verdade de um certo enunciado para a experiência,
e não poderíamos em seguida tomar isso tudo como a sua tradução? Mesmo no
caso em que se ramificasse indefinidamente a diferença em que a verdade do
enunciado pudesse importar, para a experiência, seria sempre possível esperar
abarcá-la inteiramente nas implicações lógicas dessa nossa formulação do tama-
nho de um capítulo, da mesma maneira que podemos axiomatizar uma infinidade
de teoremas. Abandonando as esperanças quanto a uma tal tradução, o empi-
rista está concedendo que os significados empíricos dos enunciados típicos sobre
o mundo externo são inacessíveis e inefáveis.
Como explicar esse caráter inacessível? Simplesmente porque as implicações,
ao nível da experiência, de um enunciado típico sobre corpos seriam complexas
demais para uma axiomatização finita, seja qual for seu comprimento? Não; mi-
nha explicação é outra. É que o enunciado típico sobre corpos não dispõe de
nenhum cabedal de implicações ao nível da experiência que possa ser dito ptó-
prio a ele. Uma massa substancial de teoria, tomada em conjunto, terá comu-
mente implicações no domínio da experiência; é assim que fazemos predições
verificáveis. É possível que não sejamos capazes de explicar por que chegamos a
teorias que fazem predições bem sucedidas, mas o fato é que chegamos a tais
teorias.
As vezes também uma experiência implicada por uma teoria deixa de se
produzir; e então, idealmente, declaramos a teoria falsa. Mas o insucesso falsifica
apenas um bloco de teoria como um todo, uma conjunção de muitos enunciados.
O insucesso mostra que um ou mais de um dos enunciados é falso, mas não mos-
tra qual. As experiências preditas, verdadeiras e falsas, não são implicadas por
nenhum dos enunciados que compõem a teoria mais do que por um outro. Pelo
critério de Peirce, os enunciados componentes da teoria simplesmente não têm
significados empíricos; mas uma porção suficientemente abrangente de teoria,
sim. Se, de algum modo, pudermos aspirar a uma espécie de logischer Aufbau
der Welt, haverá de ser a algo em que os textos selecionados para serem tradu-
zidos em termos observacionais e lógico-matemáticos sejam na sua maioria am-
plas teorias tomadas como todos, em vez de simples termos ou sentenças curtas.
A tradução de uma teoria seria uma cansativa axioratização de toda à diferença
para a experiência em que importaria a verdade da teoria. Essa seria uma estranha
tradução, pois nela o todo seria traduzido sem que o fosse nenhuma das partes.
Melhor seria falar nesse caso nãc de tradução, mas simplesmente de evidência
EPISTEMOLOGIA NATURALIZADA 169
observacional para teorias; e, seguindo Peirce, temos todo o direito de continuar
a chamar isso de significado empírico das teorias.
Essas considerações levantam uma questão filosófica até mesmo a respeito
da tradução ordinária não filosófica, tal como a do inglês para o arunta ou para
o chinês. Pois, se as sentenças inglesas de uma teoria só têm significado quando
tomadas em conjunto como um corpo, então só quando tomadas em conjunto
como um corpo é que poderemos justificar a sua tradução para o arunta. Não
haverá justificação para um emparelhamento de sentenças inglesas componentes
com sentenças componentes do arunta, a não ser a de que essas correlações
fazem com que resulte correta a tradução da teoria como um todo. Uma tradução
de sentenças inglesas em sentenças do arunta será tão correta quanto qualquer
outra, na medida em que nela for preservado o saldo de implicações empíricas
da teoria como um todo. Mas é de se esperar que muitas maneiras diferentes de
traduzir as sentenças componentes, cada uma delas essencialmente diferente da
outra, ofereçam as mesmas implicações empíricas para a teoria como um todo;
e que os desvios na tradução de uma sentença componente possam ser compen-
sados na tradução de outra sentença componente. Nessa medida, não pode haver
razão para dizer qual de duas traduções claramente dessemelhantes está correta. *
Um mentalista acrítico não se vê ameaçado por nenhuma indeterminação
dessa espécie. Todo termo e toda sentença é um rótulo ligado a uma idéia, sim-
ples ou complexa, que está estocada na mente. Quando, por outro lado, levamos
a sério uma teoria verificacional do significado, a indeterminação aparece como
inevitável. O Círculo de Viena esposou uma teoria verificacional do significado,
mas não a levou suficientemente a sério. Se, com Peirce, reconhecermos que o
significado de uma sentença depende puramente do que vier a ser considerado
como evidência para a sua verdade, e se, com Duhem, reconhecermos que as
sentenças teóricas possuem evidência não enquanto sentenças isoladas, mas só
enquanto grandes blocos de teoria, então o caráter indeterminado da tradução de
sentenças teóricas será a conclusão natural. E, excluindo: as sentenças obser-
vacionais, a maioria das sentenças são teóricas. Inversamente, uma vez admitida
essa conclusão, fica selado o destino de qualquer noção geral de significado pro-
posicional ou, na medida em; que vem ao caso, de estado de coisas.
Será que a inconveniência dessa conclusão deveria persuadir-nos a abando-
nar à teoria verificacional do significado? É certo que não. O tipo de signifi-
cado básico para a tradução e para a aprendizagem da língua materna é necessa-
riamente o significado empírico e nada mais. Uma criança aprende suas pri-
meiras palavras e sentenças ouvindo-as e empregando-as na presença de estímulos
apropriados. Esses estímulos devem ser externos, pois devem atuar tanto sobre
a criança como sobre o locutor com quem ela está aprendendo. “* A linguagem é
socialmente inculcada e controlada. Inculcar e controlar dependem estritamente
da ajustagem das sentenças à estimulação compartilhada. Fatores internos podem
variar ad libitum sem prejuízo para a comunicação enquanto não for perturbada
a ajustagem da linguagem aos estímulos externos. Decerto, enquanto se trata da
própria teoria do significado lingiiístico, não se tem outra escolha além da de ser
um empirista.
O que foi dito a respeito da aprendizagem infantil aplica-se igualmente ao
linguista que faz uma aprendizagem de campo de uma nova língua. Se o linguista
não se apóia em línguas aparentadas para as quais há práticas de tradução pre-
3 Veja acima, p. 123 ess.
4 Veja acima, p. 139 ess.
170 QUINE
viamente aceitas, então seus dados obviamente se resumem às concomitâncias de
elocução nativa e à situação-estímulo observável. Não é de admirar que haja
indeterminação da tradução — pois, naturalmente só uma fração pequena de
nossas elocuções relatam uma estimulação externa concomitante. Conccdido está
que o lingiista acabará conseguindo traduções não equívocas para tudo; mas, para
chegar a isso, precisará ter feito muitas escolhas arbitrárias — arbitrárias, ainda
que inconscientes. Arbitrárias? Quero dizer por isso que escolhas diferentes tam-
bém poderiam ter feito dar certo tudo aquilo que pode em princípio ser subme-
tido a qualquer espécie de teste.
Liguemos agora, numa ordem diterente, alguns dos pontos estabelecidos aci-
ma. A consideração crucial por trás do meu argumento em favor da indetermi-
nação da tradução era a de que um enunciado sobre o mundo não tem sempre
ou não tem frequentemente um cabedal de consegiiências empíricas que possa
ser isolado e dito próprio a ele. Essa consideração servia também para dar conta
da impossibilidade de uma espécie de redução epistemológica em que cada sen-
tença fosse equiparada a uma sentença em termos observacionais e lógico-mate-
máticos. E a impossibilidade dessa espécie de redução epistemológica faz desa-
parecer a última vantagem que a reconstrução racional parecia ter sobre a
psicologia.
Os filósofos com razão abandonaram a esperança de tudo traduzir para
termos observacionais e lógico-matemáticos. Eles haviam perdido essa esperança
mesmo quando ainda não haviam reconhecido, a título de razão para essa irre-
dutibilidade, que grande parte dos enunciados não trazem seu lote privado de
consegiiências empíricas. E, para alguns filósofos, essa irredutibilidade aparecia
como a bancarrota da epistemologia. Carnap e os outros positivistas lógicos do
Círculo de Viena já haviam dado ao termo “metafísica” uma carga pejorativa, a
de um termo que conota ausência de significado; e o termo “epistemologia” era
o próximo. Wittgenstein e seus seguidores, principalmente em Oxford, descobri-
ram uma vocação filosófica residual na terapia: em curar filósofos da ilusão de
que há problemas epistemológicos.
Acho, entretanto, que nesse ponto seria talvez mais útil dizer, em vez disso,
que a epistemologia continua a avançar ainda, embora num novo quadro e com
um status clarificado. A epistemologia, ou algo que a ela se assemelhe, encontra
seu lugar simplesmente como um capítulo da psicologia e, portanto, da ciência
natural. Ela estuda um fenômeno natural, a saber, um sujeito humano físico.
Concede-se que esse sujeito humano recebe uma certa entrada experimentalmen-
te controlada — certos padrões de irradiação em variadas fregiiências, por exem-
plo — e no devido tempo o sujeito fornece como saída uma descrição do mundo
cxterno tridimensional e sua história. A relação entre a magra entrada e a saída
torrencial é a relação que nos sentimos estimulados a estudar um tanto pelas
mesmas razões que sempre serviram de estímulo para a epistemologia; ou seja, a
tim de ver como a evidência se relaciona à teoria c de quais maneiras as nossas
teorias da natureza transcendem qualquer evidência disponível.
Esse estudo poderia incluir ainda até mesmo algo semelhante à antiga recons-
trução racional na medida em que tal reconstrução for praticável; pois constru-
ções imaginosas nos podem fornecer indicações a respeito de processos psicoló-
gicos efetivos, desempenhando assim um papel semelhante ao das estimulações
mecânicas. Mas uma visível diferença entre a antiga epistemologia é o empreen-
dimento epistemológico dentro desse novo quadro psicológico é que agora temos
toda a liberdade de fazer uso da psicologia empírica.
A antiga epistemologia aspirava à conter em si, num certo sentido, à ciên-
EPISTEMOLOGIA NATURALIZADA 171
cia natural; ela a construiria, de algum modo, a partir dos sense data. No seu
novo quadro, inversamente, a epistemologia está contida na ciência natural, como
um capítulo da psicologia. Mas, a seu modo, o antigo envolvimento continua a
ser válido. Estudando como são postos os corpos pelo sujeito humano do nosso
estudo e como é projetada a sua física a partir dos seus dados, percebemos que
nossa situação no mundo é exatamente igual à dele. Nosso próprio empreen-
dimento epistemológico, portanto, assim como a psicologia da qual ele é um capí-
tulo e a ciência natural inteira onde a psicologia figura como um dos livros —
tudo isso é construção nossa ou projeção a partir de estimulações semelhantes
às que atribuíramos ao nosso sujeito epistemológico. Há assim um envolvimento
recíproco, ainda que em sentidos diferentes: o da epistemologia na ciência natural
e o da ciência natural na epistemologia.
Essa interação é ainda um remanescente da antiga ameaça de circularidade,
contudo sem maiores inconvenientes, agora que paramos de sonhar com a dedu-
ção da ciência a partir dos sense data. Estamos em busca de uma compreensão
da ciência enquanto instituição ou processo no mundo, e não pretendemos que
essa compreensão seja melhor do que a ciência que é seu objeto. Essa é, na
verdade, uma atitude que Neurath preconizava já nos tempos do Círculo de
Viena, com a sua parábola do marinheiro que tinha que reconstruir seu barco
enquanto nele navegava.
Um dos efeitos de ver a epistemologia dentro de um quadro psicológico é
“o
a
a resolução de um velho e recalcitrante enigma relativo à prioridade epistemo-
lógica. Nossas retinas são irradiadas em duas dimensões; contudo, sem que haja
inferência consciente, vemos as coisas como tridimensionais. Qual delas há de
contar como observação — a recepção inconsciente bidimensional ou a apreen-
são consciente tridimensional? No antigo contexto epistemológico, a forma cons-
ciente tinha prioridade, pois buscávamos justificar nosso conhecimento do mundo
externo por meio de uma reconstrução racional, e isso exige o estar consciente.
O estar consciente deixou de ser necessário quando abandonamos a tentativa de
justificar nosso conhecimento do mundo externo por meio de uma reconstrução
racional. O que contar como observação pode agora ser estabelecido em termos
de estimulação de receptores sensoriais, caia a consciência onde puder cair.
O desafio feito pelos psicólogos da Gestalt ao atomismo sensorialista, que
há quarenta anos parecia tão relevante para a epistemologia, perde assim sua
virulência. Sem que importe decidir se é em átomos sensoriais ou em Gestalten
que a linha avançada da nossa consciência se apóia, são simplesmente as esti-
mulações de nossos receptores sensoriais, que passam a ser considerados de me-:
lhor maneira como a entrada do nosso mecanismo cognitivo. Os velhos paradoxos
a respeito de dados e inferência inconscientes, os velhos problemas relativos a
cadeias de inferência que teriam que ser completadas depressa demais — isso
tudo agora não tem mais importância.
Nos velhos tempos do antipsicologismo, a questão da prioridade epistemo-
lógica era um ponto de controvérsia. O que é que tem prioridade epistemológica,
e sobre o quê? Será que, por serem notadas, as Gestalten têm prioridade sobre
os átomos sensoriais, ou deveríamos, por alguma outra razão mais sutil, dar
preferência a esses últimos? Agora que nos é permitido apelar para estimulações
físicas, o problema se dissolve; 4 tem prioridade epistemológica em relação a B,
se A estiver causalmente mais próximo dos receptores sensoriais do que B. Ou,
o que sob alguns aspectos é melhor, falemos apenas e explicitamente em termos
de prioridade causal, e não falemos mais em prioridade epistemológica.
Por volta de 1932, houve um debate no Círculo de Viena a respeito do que
e: QUINE
se: deveria considerar como sentenças observacionais ou Protokollsitze. * Uma
das posições sustentava que elas tinham a forma de relatórios de impressões dos
sentidos. Outra dizia que eram enunciados de um tipo elementar, sobre o mundo
externo, e.g., “Um cubo vermelho está sobre a mesa”. Uma outra ainda, a de
Neurath, afirmava que elas tinham a forma de relatórios sobre relações entre
os que percebem e as coisas externas: “Otto vê agora um cubo vermelho sobre
a mesa”. O pior disso tudo é que não parecia haver meio objetivo de resolver
a questão: não parecia haver meio de dar-lhe um sentido real.
Tentemos agora encarar a questão, sem reservas, no contexto do mundo
externo. Vagamente falando, o que queremos das sentenças observacionais é
que elas sejam as que estão na mais íntima proximidade causal com os receptores
sensoriais. Mas como poderá ser avaliada essa proximidade? A idéia pode ser
apresentada da seguinte maneira: sentenças observacionais são sentenças que,
quando adquirimos a linguagem, são condicionadas mais fortemente a uma esti-
mulação sensorial concomitante do que a uma informação colateral estocada.
Ássim, imaginemos que a respeito de uma sentença seja pedido o nosso vere-
dito, quanto a ser ela verdadeira ou falsa, que nos seja pedido nosso assentimento
ou dissentimento. A sentença em causa será uma sentença observacional se nosso
veredito depender apenas da estimulação sensorial presente nesse momento.
Mas um veredito não pode depender da estimulação presente a tal ponto
que exclua toda a informação estocada. O próprio fato de termos adquirido a
linguagem revela que houve grande estocagem de informação, de uma informação
sem a qual não estaríamos em condições de pronunciar vereditos sobre sentenças
por mais observacionais que fossem. Evidentemente, temos que ser menos rígidos
na nossa definição de sentença observacional, lendo-a da seguinte mancira: uma
sentença é uma sentença observacional se todos os vereditos a seu respeito apóiam-
se na estimulação sensorial presente e não se apóiam em nenhuma outra infor-
mação estocada além da que é envolvida na compreensão dessa sentenca.
Essa formulação faz surgir um outro problema: como distinguir a informa-
ção envolvida na compreensão de uma sentença, da informação que vai além
desses limites? Esse é o problema da distinção entre verdade analítica, que emerge
a partir dos meros significados das palavras, e verdade sintética, que se apóia
não somente sobre significados. Ora, sustentei longamente que essa distinção é
ilusória. Todavia, há um modo de encaminhá-la que na verdade faz sentido: seria
de se esperar que uma sentença verdadeira em virtude dos meros significados das
palavras fosse subscrita por todos os membros que falam fluentemente a língua
da comunidade. Talvez possamos, na nossa definição de sentença observacional,
dispensar a noção controvertida de analiticidade em favor desse atributo direto
da aceitação pela comunidade inteira.
Naturalmente, esse atributo não é absolutamente uma explicação da anali-
ticidade. A comunidade estaria de acordo em afirmar ter havido cães pretos; £
no entanto ninguém que fala em analiticidade chamaria isso de analítico. Minha
rejeição da noção de analiticidade importa justamente na recusa de traçar uma
linha que separe o que é envolvido na mera compreensão das sentenças de
uma língua, de tudo aquilo mais que a comunidade encara com os mesmos olhos.
Duvido que seja possível fazer uma distinção objetiva entre significado é uma
informação colateral dessa espécie, espalhada pela comunidade inteira.
Retornando à nossa tarefa de definir sentenças observacionais, obtemos o
seguinte: uma sentença observacional é uma sentença sobre a qual todos os
5 Carnap e Neurath. in Erkenntnis 3 (1932), 204-228.
EPISTEMOLOGIA NATURALIZADA 173
que falam a língua pronunciam o mesmo veredito, quando é dada a mesma es-
timulação concomitante. Em termos negativos, uma sentença observacional é
uma sentença que não é sensível, no interior da comunidade lingiúística, a dife-
renças-de experiência passada.
Essa formulação está em perfeito acordo com o papel tradicional da sen-
tença observacional, enquanto tribunal de recurso das teorias científicas. Pois,
segundo nossa definição, as sentenças observacionais são aquelas a respeito das
quais todos os membros da comunidade estarão de acordo, quando submetidos
à mesma estimulação. E qual será o critério de pertinência à mesma comunidade?
Simplesmente a fluência de diálogo, em geral. Esse critério comporta graus e,
de fato, pode ser conveniente considerar a comunidade mais estreitamente em
certos estudos do que em outros. Nem sempre o que é considerado como sen-
tença cbservacional por uma comunidade de especialistas seria assim considerado
por uma comunidade mais ampla.
Não há, geralmente, nenhuma subjetividade no fraseado das sentenças obser-
vacionais, tais como as estamos concebendo agora; de ordinário, elas serão
sobre corpos. Dado que o traço distintivo de uma sentença observacional é a
concordância intersubjetiva sob estimulação concordante, é mais provável que
aquilo de que trata seja de natureza corpórea.
A antiga tendência de associar sentenças observacionais a assuntos de natu-
reza subjetiva e sensorial parece até uma ironia, quando refletimos sobre o fato
de que as sentenças de observação são destinadas a ser o tribunal intersubjetivo
das hipóteses científicas. A antiga tendência se devia à pressão para basear a
ciência em algo mais firme e anterior, na experiência do sujeito; mas esse pro-
jeto foi abandonado.
Com a epistemologia despojada do seu antigo status de filosofia primeira,
libera-se, como vimos, uma onda de nihilismo epistemológico. Esse humor se
reflete de algum modo na tendência de Polányi, Kuhn e do falecido Russell
Hanson, de depreciar o papel da evidência e acentuar o relativismo cultural.
Hanson lançou-se até mesmo na aventura de pôr em descrédito a idéia de obser-
vação, argumentando que as chamadas observações variam de observador para
observador, segundo a soma de conhecimentos que eles trazem consigo. O físico
veterano olha para uma certa aparelhagem e vê um tubo de raios X. O neófito,
olhando para o mesmo lugar, observa em vez disso “um instrumento de vidro
e metal repleto de fios, refletores, parafusos, lâmpadas e botões”.* A observação
de um é, para o outro, um livro fechado ou um vôo da fantasia. Está falida a
noção de observação enquanto fonte de evidência imparcial e objetiva para a
ciência. Entretanto, minha resposta para o exemplo dos raios X já foi indicada,
poucos momentos atrás: o que conta como sentença observacional varia de acordo
com a extensão da comunidade considerada. Mas podemos também obter sempre
um padrão absoluto, incluindo nela todos os que falam a língua, ou a maioria
deles. 7 Parece uma ironia o fato de que os filósofos, tendo achado que a antiga
epistemologia era insustentável como um todo, tenham reagido repudiando uma
parte que só agora foi claramente focalizada.
6 N. R. Hanson, “Observation and interpretation”, in S. Morgenbesser, ed. Philosophy of
Science Today (Nova York, Basic Books, 1966).
7 Essa restrição é feita levando em conta os casos excepcionais tais como o do doente men-
tal e o do cego. Numa outra alternativa, esses casos poderiam ser excluídos por um ajusta-
mento do nível de fluência do diálogo pelo qual definimos quando temos uma mesma lingua-
gem. (Sou grato a Burton Drebem pela sugestão dessa nota, bem como por ter influenciado o
desenvolvimento desse trabalho também de outras maneiras mais importantes.)
174 QUINE
Foi muito importante que a noção de sentença observacional tivesse sido
esclarecida, pois ela é fundamental em dois aspectos. Esses dois aspectos corres-
pondem à dualidade para a qual chamei a atenção acima, nessa exposição: a
dualidade entre conceito e doutrina, entre saber o que uma sentença significa
e saber se ela é verdadeira. A sentença observacional é básica para os dois em-
preendimentos. Sua relação para com a doutrina, para com o nosso conheci-
mento do que é verdadeiro é, em grande parte, a tradicional: sentenças obser-
vacionais são o repositório de evidência para as hipóteses científicas. Sua relação
com o significado também é fundamental, dado que são elas as primeiras que,
na nossa condição, aprendemos a compreender, como crianças e como lingiistas
em pesquisa de campo. Pois as sentenças observacionais são precisamente aque-
las que podemos correlacionar a circunstâncias observáveis da ocasião de elo-
cução ou de assentimento, independentemente das variações nas histórias pas-
sadas dos indivíduos informantes. Elas são a única via de acesso a uma língua.
A sentença observacional é a pedra angular da semântica. Pois, como aca-
bamos de ver, ela é fundamental para a aprendizagem do significado. Além disso,
é nelas que o significado tem maior firmeza. As sentenças que nas teorias se
situam mais acima não têm consegiências empíricas que pudessem ser ditas
próprias a elas; elas só se defrontam com o tribunal da evidência sensorial em
agregados mais ou menos amplos. A sentença observacional, situada na periferia
sensorial do corpo científico, é o agregado verificável mínimo: ela tem um
conteúdo todo seu e o exibe nos seus trajes, como um distintivo.
A dificuldade da indeterminação da tradução tem muito pouco que ver com
as sentenças observacionais. À equiparação de uma sentença observacional de
nossa língua a uma sentença observacional de uma outra língua é, em grande
parte, uma questão de generalização empírica; é uma questão relativa à iden-
tidade entre o domínio de estimulações que incitariam o assentimento a uma
delas-e o domínio de estimulações que incitariam o assentimento à outra. *
Não estaremos entrando em choque com as pressuposições da velha Viena
se dissermos que a epistemologia converte-se agora em semântica. Pois, como
sempre, a epistemologia continua centrada em torno da evidência, e o significado,
em torno da verificação; e evidência é verificação. O que é provável que choque
aquelas pressuposições é a afirmação de que o significado deixará de ter qualquer
aplicabilidade clara a sentenças singulares, uma vez que tivermos ido além das sen-
tenças observacionais; e, igualmente, a de que a epistemologia se funde à psico-
logia, tanto quanto à lingiística.
Parece-me que essa eliminação de fronteiras poderia contribuir para o pro-
gresso de investigações de natureza científica filosoficamente interessantes. Uma
área possível é a das normas perceptuais. Consideremos, de início, o fenômeno
linguístico dos fonemas. Ouvindo a miríade de variações de sons falados, nós
nos habituamos a tratar cada um deles como uma aproximação de uma ou
de outra norma, em número limitado — por volta de trinta, no seu conjunto —
constituindo por assim dizer, um alfabeto falado. Qualquer discurso em nossa
língua pode ser tratado na prática como uma segiiência desses trinta elementos,
retificando desse modo alguns pequenos desvios. Ora, fora do domínio da lin-
guagem também só há provavelmente um alfabeto de normas perceptivas, no
seu conjunto bastante limitado, com respeito ao qual tendemos inconsciente-
mente a retificar todas as percepções. Essas últimas, se identificadas experimen-
talmente, podem ser vistas como blocos de construção epistemológicos, como os
3 Cf. Quine, Word and Object, pp. 31-46, 68,
EPISTEMOLOGIA NATURALIZADA 175
elementos de trabalho da experiência. Elas podem se mostrar em parte cultural-
mente variáveis, como os fonemas, e em parte universais.
Há ainda a área que o psicólogo Donald T. Campbell chamou de episte-
mologia evolucionista. º Essa área foi trabalhada por Hiiseyin Yilmaz, que mostra
como alguns traços estruturais da percepção de cor poderiam ter sido previstos
a partir do seu valor para a sobrevivência. 'º E um tópico de maior relevância
psicológica que a evolução ajuda a esclarecer é o da indução, agora que permi-
timos à epistemologia lançar mão dos recursos da ciência natural. "
EL DER PR Campbell, “Methodological Suggestions from a comparative psychology of knowledge
processes”, Inquiry 2 (1959), 152-182.
ão Hiúseyin Yilmaz, “On color vision and a new approach to general perception”, in. E. E.
Bernard and M. R. Kare, eds., Biological Prototypes and Synthetic Systems (Nova York,
Plenum, 1962); “Perceptual invariance and the psychophysical law”, Perception and Psy-
chophysics 2 (1967), 533-638.
UN Veja “Espécies Naturais”, neste volume, p. 191.
4. EXISTÊNCIA E QUANTIFICAÇÃO
A questão de saber se há números, ou qualidades, ou classes, é uma questão
metafísica, semelhante àquelas que, para os positivistas lógicos, eram sem signi-
ficado. Por outro lado, a questão de saber se há coelhos ou unicórnios é dotada
do mais pleno significado. Uma visível diferença está em poderem os corpos
ser percebidos. Contudo, não é só isso que conta; pois evidentemente também
podemos dizer, com pleno significado e sem metafísica, que há números primos
entre 10 e 20.
O que caracteriza os exemplos metafísicos é, antes, de acordo com uma
antiga doutrina de Carnap, ! o emprego de palavras categoriais, ou Allworter.
Tem significado perguntar se há números primos entre 10 e 20, mas não tem
significado perguntar, em geral, se há números; e, analogamente, tem significado
perguntar se há coelhos, ou unicórnios, mas não tem significado perguntar, em
geral, se há corpos.
Mas essa estipulação é insatistatória em dois sentidos. A primeira dificuldade
é a de não haver um critério evidente para o que deve ser considerado como
categoria, ou palavra categorial. Tipicamente, em termos de uma teoria da quan-
tificação formalizada, cada categoria compreende o domínio de aigum estilo
distintivo de variáveis. Mas o estilo de uma variável é uma questão arbitrária,
e certamente incapaz de oferecer qualquer subsídio para a distinção entre questões
de existência dotadas de significado e questões de existência metafísicas. Pois
não há restrições externas relativas ao estilo das variáveis; tanto podemos em-
pregar estilos distintivos para diferentes espécies de números, como um único
estilo para todas as espécies de números e para tudo o mais. Notações que em-
pregam um estilo de variáveis e notações que empregam muitos deles podem ser
traduzidas umas para as outras.
Há uma outra idéia de categoria que, superficialmente, pode parecer mais
profunda. É a idéia de categoria semântica, como é chamada por Lesniewski, ?
ou ainda, aquilo que o lingiista chama classe de substituição. Duas expressões
pertencem à mesma classe de substituição se, sempre que uma for posta no
lugar da outra numa sentença dotada de significado, a sentença resultante tiver
significado. A questão de saber se os números constituem uma categoria cede
o lugar, nesses termos, a uma questão de saber se têm significado as sentenças
obtidas pela substituição dos numerais por outras palavras. Todavia, não está
claro, de modo algum, o que cabe considerar como tendo significado. O lin-
1 Carnap, Logical Syntax of Language, p. 292. (N. do A.)
2 Stanislaw Lesniewski, “Grundzige eines neuen Systems der Grundlagen der Mathematik”,
88 1-11, Fundamenta Mathematicae 14 (1929), pp. 1-81. (N. do A.)
178 QUINE
gúista empírico vale-se da saída de examinar quais sentenças poderiam ser eli-
ciadas, através de expedientes razoáveis, dos locutores nativos não sofisticados.
Mas, para um filósofo com um programa de reforma, esse critério tem pouco
valor. De fato, nossa questão inicial era a de saber quais sentenças de existência
devem ser consideradas desprovidas de significado.
Carnap estipulara que uma questão de existência era desprovida de signifi-
cado quando dependia de palavras categoriais. Como já dissemos, essa estipulação
se mostrou insatisfatória, por dois motivos. Já examinamos um deles: a fragili-
dade da idéia de palavra categorial. O outro está no fato de que, como quer
que escolhamos nossas categorias, sempre será preciso dar sentido a questões
categoriais de existência. Pois alguém pode querer, nos círculos mais austeros,
tentar reelaborar um sistema matemático de modo a não ter que assumir certas
espécies de objetos. Poderá tentar resolver o caso assumindo apenas números,
sem assumir conjuntos de números; ou arranjar-se com classes, excluindo as
propriedades; ou ainda, como Whitehead, deixar fora os pontos e haver-se com
regiões extensas e conjuntos de regiões. Nesses casos, quem produz o sistema
está claramente tentando obter um certo resultado e há distinções a serem feitas
entre o sucesso e o fracasso da iniciativa.
Quando queremos checar a existência, corpos levam vantagem sobre outros
objetos, em virtude de sua perceptibilidade. Porém agora passamos à questão de
checar não a existência, mas as imputações de existência: aquilo que uma teoria
diz que existe. Trata-se de saber quando se deve sustentar que uma teoria assume
um dado objeto, ou objetos de uma certa espécie — números, digamos, ou con-
juntos de números, ou propriedades, ou pontos. Para mostrar que uma teoria
assume um dado objeto, ou objetos de uma dada classe, temos que mostrar que
a teoria seria falsa se esse objeto não existisse, ou se aquela classe fosse vazia;
portanto, que a teoria requer esse objeto, ou membros dessa classe, a fim de ser
verdadeira. Mas como nos são revelados esses requisitos?
Talvez deparando-nos com os nomes próprios desses objetos. Contudo, isso
não se constitui ainda numa evidência de que a teoria requer os objetos, a não ser
que possamos mostrar que esses nomes próprios dos objetos estão sendo empre-
gados na teoria como nomes próprios dos objetos. A palavra “cão” pode ser em-
pregada como nome próprio de uma espécie animal, mas pode ser empregada tam-
bém meramente como um termo geral verdadeiro de cada um dos vários indiví-
duos, sem nomear absolutamente nenhum objeto; assim, a presença da palavra
não constitui por si mesma evidência alguma de que espécies estejam sendo
assumidas a título de objetos. Até mesmo “Pégaso”, que, do ponto de vista
gramatical, é inexoravelmente um nome próprio, pode ser empregado por pes-
soas que negam a existência do seu objeto. Ele é empregado até mesmo para
negar essa existência.
Que contaria então como evidência de que uma expressão está sendo em-
pregado numa teoria como nome de um objeto? Vamos estabelecer que a ex-
pressão seja representada por “a”. Então, se a teoria afirmar a identidade exis-
tencialmente quantificada “(HI x) (x = a)”, teremos certamente nossa resposta:
o “a” está sendo empregado para nomear um objeto. Em geral podemos dizer
que uma expressão é empregada numa teoria para nomear se e somente se a
identidade existencialmente quantificada que é construída sobre essa expressão
for verdadeira para a teoria.
Naturalmente poderíamos dizer também, mais simplesmente, que o “a” é
empregado para nomear um objeto se e somente se o enunciado “a existe” for
verdadeiro para a teoria. Isso só é menos satisfatório na medida em que o signi-
ficado de “existe” pode ter parecião menos bem estabelecido do que o dos quan-
EXISTÊNCIA E QUANTIFICAÇÃO 179
tificadores e o da identidade. Na verdade, podemos tomar “(Ax) (x = a)” como
uma explicação de “a existe”. John Bacon estabeleceu aqui um interessante para-
lelo: * assim como “a come” é um abreviação de “a come alguma coisa”, “a é”
2
é uma abreviação de “a é alguma coisa”.
Vimos que uma expressão “a” pode ocorrer numa teoria com ou sem o
propósito de nomear um objeto. O que decide a questão é, antes, a quantificação
“(dx) (x = a)”. É o quantificador existencial e não o próprio “a” que dá o pesc
existencial. É justamente para isso que a quantificação existencial serve, natural-
mente. Trata-se de uma versão logicamente regimentada do “há”. A variável
ligada “x” tem como domínio o universo e a quantificação existencial diz que.
pelo menos um dos objetos no universo satisfaz a condição anexa — nesse caso,
a condição de ser o objeto a. Para mostrar que um objeto dado é requerido por
uma teoria, o que temos que mostrar é exatamente que se requer, para a teoria
ser verdadeira, que esse objeto esteja entre os valores sobre os quais se estende
o domínio das variáveis ligadas.
A apreciação desse ponto nos oferece mais do que uma explicação do “a
existe”, visto que a identidade existencialmente quantificada “(x) (x = a)” é
um dos casos de quantificação existencial, entre muitos outros. Trata-se de um
caso onde o valor da variável que é dita existir é um objeto que tem um nome;
o nome é “a”, Isso é o que se passa, em geral, com sentenças existenciais singu-
lares, sentenças da forma “a existe” ou “há algo que é um a”, mas não é o que
se passa com as sentenças existenciais em geral. Por exemplo, na teoria clássica
dos conjuntos, dada uma notação interpretada qualquer, há certos números reais
que não podem ser especificados separadamente nessa notação. A sentença exis-
tencial “Há números reais não especificáveis” é verdadeira e pode ser expressa
como uma quantificação existencial; mas os valores da variável que respondem
pela verdade dessa quantificação não são, como se enfatizou, objetos que têm
nomes. Eis aqui uma outra razão para afirmar que a força existencial de uma
teoria deve estar nas variáveis quantificadas e não nos nomes.
Um outro meio de dizer quais são os objetos que uma teoria requer é dizer
que são os objetos dos quais alguns dos predicados da teoria precisam ser ver-
dadeiros, para que a teoria seja verdadeira. Mas isso é o mesmo que dizer que
são os objetos que precisam estar entre os valores das variáveis para que a teoria
seja verdadeira. É a mesma coisa, em todo caso, se for incluído na notação da
teoria, para cada predicado, um predicado complementar, sua negação. Pois nesse
caso, dado um valor qualquer de uma variável, algum predicado será verdadeiro
desse valor; ou seja, um predicado ou o seu complemento. E, inversamente, tudo
de que um predicado for verdadeiro é, naturalmente, um valor de variáveis. Com
efeito, predicação e quantificação são intimamente ligadas; pois um predicado é
simplesmente uma expressão qualquer que gera uma sentença, uma sentença
aberta, quando posta ao lado de uma ou mais variáveis quantificáveis. Quando
esquematizamos uma sentença à maneira predicativa “Fa”, ou “a é um F”, nosso
66,3
reconhecimento de uma parte “a” e de uma parte “F” depende estritamente do
nosso emprego de variáveis de quantificação; o “a” representa uma parte da
sentença que está onde poderia estar uma variável quantificável, e o “F” repre-
senta o restante.
Nossa questão era: quais são os objetos que uma teoria requer? Nossa
resposta é: aqueles objetos que precisam estar entre os valores das variáveis para
que a teoria seja verdadeira. Naturalmente, uma teoria pode, nesse sentido, não
3 ;. Bacon, Being and Existence, dissertation, Yale, 1966. (N. do A.)
180 QUINE
requerer nenhum objeto em particular e, ainda assim, não tolerar um universo
de discurso vazio, pois pode acontecer que a teoria seja igualmente satisfeita por
qualquer um de dois universos mutuamente exclusivos. Uma teoria que implica,
por exemplo, “( Y x) (x é um cão)”, não tolera um universo vazio; contudo pode-
ria ser satisfeita por um universo que contivesse collies e excluísse os spaniels,
e vice-versa. Portanto, há mais coisas a serem ditas sobre uma teoria, do ponto
de vista ontológico, do que apenas quais são os objetos que ela requer, caso
requeira algum; podemos perguntar ainda quais são os vários universos que, alter-
nativamente, seriam suficientes. Os específicos objetos requeridos pela teoria,
caso haja algum, serão os objetos comuns a todos esses universos.
Considero fundamental a quantificação uni-sortida; isto é, um único estilo
de variáveis. Como já foi observado, a multi-sortida é traduzível para a uni-
sortida. Geralmente essa tradução tem o efeito colateral de admitir como dotadas
de significado certas predicações antes tidas como desprovidas de significação.
E. g., se o predicado “divisível por 3” for doravante aplicado a variáveis gerais,
em vez de a variáveis numéricas, teremos que dar sentido a chamar de divisíveis
por 3 coisas que não são números. Mas isso é fácil; podemos considerar essas
atribuições falsas, em vez de desprovidas de significado. Em geral, portanto, a
redução da quantificação multi-sortida à uni-sortida tem o efeito de eliminar algu-
mas classes de substituição; torna-se maior o número de palavras que podem
ser substituídas umas pelas outras sem que disso resultem expressões sem
significado.
As reservas de Carnap quanto às Ailwôrter deixam então de ser aplicáveis
e assim caducam também as suas censuras particulares contra as questões filo-
sóficas de existência, Enquanto isso, em que medida chegamos a uma maior
clareza a respeito dessas questões de existência? Na questão de ordem mais
alta que pergunta pelas coisas que uma teoria assume haver, ganhamos um
indicador: examinemos o comportamento das variáveis quantificadas e não nos
preocupemos com os nomes. Quanto ao significado mesmo da existência, nosso
progresso foi menos claro.
A existência é aquilo que a quantificação existencial exprime. Há coisas de
espécie F se e somente se (1 x) Fx. Essa afirmação é tão estéril para o nosso
debate quanto indiscutível, pois por ela é que começamos a explicar a notação
simbólica da quantificação existencial. O fato é que não tem cabimento exigir
uma explicação da existência em termos mais simples. Encontramos uma expli-
cação da existência singular, “a existe”, em “(H x) (x = a)”; mas a explicação,
por sua vez, do próprio quantificador existencial, “há”, a explicação da existên-
cia em geral, é de antemão causa perdida. Aqui uma melhor compreensão ainda
pode ser procurada, mas não sob forma de explicação. Podemos procurar saber
ainda o que conta como evidência para as quantificações existenciais.
Não há, para essa questão, uma resposta simples, geral. Se a sentença aberta
sob o quantificador for algo como “x é um coelho” ou “x é um unicórnio”, então
a evidência, se existir, será em grande parte o testemunho dos sentidos. Se a
sentença aberta for “x é um número primo entre 10 e 20”, a evidência estará
na computação. Se a sentença aberta for meramente “x é um número” ou “x é
uma classe”, ou algo semelhante, será muito mais difícil precisar a evidência.
Mas creio que os positivistas se enganaram quando perderam as esperanças de
encontrar evidências em tais casos, e procuraram, consegientemente, delinear
fronteiras que excluíssem tais sentencas do domínio do que tem significado. Os
enunciados de existência desse tom filosófico decerto admitem evidência, no sen-
tido em que podemos ter razões essencialmente científicas para incluir números e
classes, ou semelhantes, no domínio de valores de nossas variáveis. E outros
EXISTÊNCIA E QUANTIFICAÇÃO 18]
enunciados de existência que têm esse tom metafísico podem ser sujeitos a
contra-evidência; podemos ter razões essencialmente científicas para excluir pro-
posições, talvez, ou atributos, ou corpos não atualizados, do domínio de nossas
variáveis. Números e classes são bem vistos pelo poder e pela facilidade que
emprestam à física teórica e a outros discursos sistemáticos sobre a natureza.
Proposições e atributos são mal vistos por apresentarem um comportamento um;
tanto irregular, em conexão com a identidade e a substituição. As considerações
a favor e contra. a existência são mais amplamente sistemáticas nesses exemplos
filosóficos do que no caso dos coelhos, dos unicórnios ou dos números primos
entre 10 e 20; mas estou convencido de que a diferença é uma questão de grau.
Nossa teoria da natureza comporta graus, desde o fato mais concreto, até as
especulações sobre a curvatura do espaço-tempo ou até a criação contínua dos
átomos de hidrogênio num universo em expansão; e, correspondentemente, nossa
evidência também comporta graus, desde a observação específica até as conside-
rações amplamente sistemáticas. As quantificações existenciais do tipo filosófico
pertencem à mesma teoria inclusive e estão situadas nos confins mais longínquos,
nos que mais se distanciam do fato observável.
Até aqui, tentávamos minimizar a diferença entre enunciados de existência
de senso comum, como os dos coelhos e unicórnios, e enunciados de existência
filosóficos, como os dos números e atributos. Mas há também uma curiosa dife-
rença entre os enunciados de existência filosóficos e os de senso comum, que
precisa ser acentuada, uma diferença que pode ser apreciada até mesmo entre
os coelhos. Pois consideremos uma teoria que possa acomodar todos os dados
relativos aos coelhos, sem contudo admitir coelhos ou outros corpos como valores
de suas variáveis, admitindo, tão-somente, qualidades, tempos e lugares. Os
adeptos dessa teoria, ou imaterialistas, contariam com uma sentença que, como
um todo, teria o mesmo significado-estímulo * que nossa sentença “Há um coelho
no quintal”; todavia, no sentido quantificacional das palavras, eles teriam que
negar que há um coelho no quintal, ou seja onde for. À primeira vista, temos
aqui, portanto, dois sentidos de existência de coelhos, um do senso comum, outro
filosófico.
Uma distinção similar pode ser feita no caso dos números primos entre 10
e 20. Suponhamos que, por razões nominalistas, alguém tenha renunciado à
maior parte da matemática, ficando com os corpos, cono únicos valores de
suas variáveis. Ainda lhe terá restado toda a parte da aritmética que não requer
variáveis. Em particular, ainda lhe será possível subscrever à alternação das
nove cláusulas “11 é primo ou 12 é primo ou 13 é primo ou... ou 19 é primo”.
Nesse sentido, ele concorda conosco a respeito de haver números primos entre
10 e 20, mas, no sentido quantificacional, ele nega que haja primos ou números,
quaisquer que sejam.
4 Stimulus meaning. Em Word and Object, o significado-estimulo de uma sentença ocasional
S, tal como *Há um coelho ali”, para um dado locutor e a um dado momento, é o par
ordenado constituído pelos seus significados-estímulos afirmativo e negativo. Esses, por sua
vez, são definidos como a classe de estimulações que incitariam o assentimento, ou, respecti-
vamente, o dissentimento do locutor à sentença. Contudo, nenhuma dessas classes poderá
conter ao mesmo tempo todas as estimulações: uma estimulação s pertencerá ao significado-
estímulo afirmativo (negativo) de uma sentença S, para um dado locutor e a um certo
momento, se houver uma outra estimulação s' tal que, perguntando-se $ ao locutor por
ocasião de s' e uma outra vez por ocasião de s, no primeiro caso ele exprimir o seu dissen-
timento (assentimento) e no segundo o seu assentimento (dissentimento). Cf. Word and Object,
esp. 88 8 e 9. Veja também o artigo “Objetos Proposicionais”, neste volume, pp. 207 ess.
(N. do T.)
182 QUINE
Será que deveríamos dizer então: tanto pior para a versão quantificacional
da existência? Dificilmente; já vimos que essa versão, embora trivial, é indis-
cutível. Há então dois sentidos de existência? Só de um modo derivado. Para
nós, homens comuns que acreditamos em corpos e em números primos, os enun-
ciados “Há um coelho no quintal” e “Há números primos entre 10 e 20” não
encerram nenhuma duplicidade de sentido. A quantificação lhes faz justiça. O
imaterialista, quando abordado por alguém que lhe diz haver um coelho no
quintal, dispõe de uma saída melhor que a de levantar objeções apoiado na sua
teoria; ele dará sua aquiescência, apoiado numa conhecida relação holofrástica
de sinonímia-estímulo * entre nossa sentença e uma certa sentença engrenada
aquele diferente universo que é o seu. Na prática, ele terá até mesmo a condes-
cendência de empregar o nosso idiomatismo, tanto para facilitar a comunicação,
como em virtude de hábitos lingiiísticos recalcitrantes vindos das trevas de sua
infância. Assim ele agirá quando a questão teórica não estiver em jogo, como
nós fazemos quando dizemos que o sol se levanta. Nessa medida podemos dizer,
concedo, que há para ele dois sentidos de existência; mas nenhuma confusão
é feita, e o emprego teórico, em vez de ser deplorado como uma desordem filo-
sófica, deve ao contrário ser respeitado como o emprego básico e literal.
Considerações similares aplicam-se ao nosso nominalista. Ele concordará
que há números primos entre 10 e 20, quando estivermos discutindo aritmética
e não filosofia. Quando passarmos à filosofia, ele perdoará esse uso como uma
mera maneira de falar, e oferecerá a paráfrase. Considerações similares se aplicam
a nós; muitas das nossas considerações casuais que têm a forma “há” precisariam
de passar por uma limpeza quando iniciamos uma séria reflexão ontológica. Cada
vez que se dá importância a alguma dessas considerações, cai sobre nós, natu-
ralmente, o ônus de parafraseá-la ou retratar-nos.
Tem sido bastante comum, tanto nas primeiras fases da filosofia como nas
posteriores, a distinção feita entre ser, como conceito mais amplo, e existir, como
conceito mais restrito. Essa não é uma distinção que eu faça; entendo que “existe”
cobre tudo o que há, e tal é, naturalmente, a força do quantificador. Para os
que fazem a distinção, o existente tende a estar do lado concreto ou temporal.
Assim, havia talvez uma reminiscência dessa distinção, no exemplo do coelho c
do imaterialista. Naquele ponto, dois sentidos do “há”, um comum e outro filo-
sófico, ameaçavam divergir. Talvez a divergência sugerida por essa espécie de
exemplo tenha sido um dos fatores que tornaram certos filósofos receptivos a
uma distinção entre existir e ser. Em todo caso, não precisava ser assim. Pois
o importante ali é que o coelho não era um valor das variáveis do imaterialista;
o existir, se fosse essa a analogia, não seria assim uma espécie de ser. Vimos,
além disso, que a materialidade sensível do coelho foi inessencial para o exemplo,
porquanto os números primos entre 10 e 20, em grande parte, confirmam o
mesmo ponto.
Juntamente com a prática irritante de restringir o termo “existir” a uma
simples espécie do que há, encontramos, em Meinong, uma estranha divergência
de espécie oposta. Para ele, o domínio dos Gegensttinde ou objetos era ainda
maior que o domínio do que há; um objeto podia ser ou não ser. Sua noção de
objeto era, como diz Chisholm, jenseits von Sein und Nichtsein.* Por estranho
que pareça, acho que essa é uma boa idéia, contanto que seja escorada pela
5 Stimulus synonymy. É a relação entre as sentenças que têm o mesmo significado-estímulo
Cf. Word and Object, 8 11. (N. do T) :
9 Roderick M. Chisholm, '“Jenseits von Sein und Nichtsein”, K. S. Guthke, ed., Dichtuny
und Deutung (Berna e Munique, Francke, 1961). (N. do A.)
EXISTÊNCIA E QUANTIFICAÇÃO 185
teoria das ficções de Bentham. A definição contextual, ou aquilo que Bentham
chamou paráfrase, pode permitir-nos falar muito considerável e convenientemente
sobre putativos objetos sem contrair dívidas ontológicas. É um meio estritamente
legitimo de fazer teorias nas quais há menos do que se divisa a olho nu.
A idéia benthamiana de paráfrase floresceu tardiamente, na teoria das des-
crições de Russell. A teoria russelliana oferece um exemplo importante e rigo-
roso de como é possível fazer certas expressões figurarem como nomes, para,
em seguida, receberem uma justificação que, por meio de explícita paráfrase do
contexto numa notação inocente, as reduz a uma mera maneira de falar. Todavia,
a teoria russelliana das descrições era menos um meio de simular objetos do
que de definir contextualmente termos para designar objetos reais. Quando a
descrição deixa de especificar algo, Russell a acomoda de mau humor: todos
os seus contextos sentenciais imediatos serão uniformemente falsos.
Onde encontramos Russell explorando a paráfrase para a simulação de
objetos não é na sua teoria das descrições mas, antes, na sua teoria contextual
das classes. De acordo com ele, não há nada semelhante a classes; contudo ele
simula um discurso sobre classes por meio de definição contextual, e sem mau
humor; sem declarar simplesmente que todos os contextos imediatos são falsos.
Há uma famosa armadilha contra a teoria russelliana das classes. A teoria
se apóia na assunção, não declarada, porém irredutível, de atributos como valores
de variáveis ligadas. Russell só reduz as classes a atributos, e isso dificilmente
pode ser visto como uma redução na direção certa, a não ser por más razões.
Mas é possível introduzir por paráfrase uma certa porção do discurso sobre
as classes, menor que a de Russell, sem assumir realmente atributos ou quaisquer
outros objetos além dos que se quer como membros das classes simuladas. Desen-
volvi essa linha de pensamento sob o título de classes virtuais, há muito tempo,
e Richard Martin nesse momento trabalhava nela, independentemente. ? Posterior-
mente fiz uso dela, em larga escala, em Set Theory and its Logic. O que daí
resulta é suficientemente substancioso para semear nos corações de muitos novas
esperanças de poderem haver-se com uma ontologia nominalista. Infelizmente
isso só pode acontecer com os que não atentam para as necessidades da mate-
mática. Pois, por si mesma, a teoria virtual das classes não oferece qualquer
fundamento adequado para a matemática clássica, nem mesmo para a dos inteiros
positivos. Entretanto, ela convém, ainda assim, como uma técnica suplementar
depois de nos termos curvado à necessidade de assumir também classes reais;
pois ela nos permite simular outras classes além das assumidas. Por essa razão,
e também por pensar que é de boa estratégia, em qualquer assunto, adiar as
assunções até o momento em que elas se fazem necessárias, sou favorável u
que se explore a teoria virtual em todos os seus recursos.
Classes virtuais não figuram como valores de variáveis ligadas. Sua utih-
dade se deve em parte a um emprego convencional de letras esquemáticas que,
embora não sejam quantificáveis, comportam-se como variáveis livres. Tais letras
podem ser substituídas pelos nomes simulados das classes virtuais. Poderíamos
até mesmo chamar essas letras de variáveis livres, se resistíssemos à tentação de
ligá-las. As classes virtuais podem então ser encaradas como valores simulados
para essas variáveis simuladas. Hintikka apresentou uma lógica, não especifica-
mente de classes, mas de entidades e não-entidades em geral, em que as não-enti-
7? R. M. Martin, “A homogeneous system of formal logic”, Journal of Symbolic Logic, 8
(1943), 1-23. (N. do A.)
184 QUINE
dades figuram então como valores apenas de variáveis livres. * Ou, para falar de
um modo menos figurativo, só as variáveis livres podem ser substituídas por termos
que carecem de designação, enquanto os termos singulares que designam podem
ser empregados também para instanciar quantificações.
Isso no que concerne aos objetos simulados. Quero agora voltar mais atrás
e recuperar as considerações um tanto soltas que fazíamos sobre o imaterialista.
Dizia eu, então, que ele concordaria com nosso enunciado “Há um coelho no
quintal” apenas para exprimir que está de acordo quanto ao teor de estímulo,
ou mesmo por um hábito contraído na infância. Mas que dizer de uma situação
alternativa em que o imaterialista não é um intelectual dissidente do mundo oci-
dental, mas alguém que fala uma língua desconhecida que estamos querendo
reconstruir? De repente, as próprias condições se tornam problemáticas. Em prin-
cípio não há dificuldade em equiparar uma de suas sentenças, de modo holotrás-
tico, pelo significado-estímulo, com nossa sentença “Há um coelho no quintal”.
Mas como seria possível determinar, mesmo em termos probabilísticos, que sua
ontologia inclui qualidades, tempos e lugares e exclui corpos? Em Word and
Object, sustentei que tais questões ontológicas, concernindo a uma linguagem
radicalmente estranha, não fazem sentido objetivo algum. Em princípio, pode-
riamos empregar qualquer um dos vários conjuntos de hipóteses analíticas a fim
de traduzir essa língua para a nossa; muitos desses conjuntos podem estar plena-
mente conformes com toda a evidência, ser até mesmo equivalentes do ponto de
vista comportamental e, contudo, divergir entre si com respeito aos equivalentes
do nativo para nossos predicados e quantificadores. Para uma tradução de fins
práticos, fixamo-nos em um dos conjuntos adequados de hipóteses analíticas, à
luz do qual fazemos relatos até mesmo sobre a ontologia do nativo; mas o que
se vai relatar não fica univocamente determinado nem por evidência nem por
fatos. Nessa questão não há fatos.
Consideremos, por contraste, as funções de verdade. Podemos enunciar con-
dições de comportamento substanciais para interpretar um conectivo sentencial
do nativo, como, por exemplo, a disjunção. O requisito é o de que os nativos
estejam dispostos a dissentir de qualquer enunciado composto formado pelo
conectivo em questão, quando e somente quando estiverem dispostos a dissentir
de cada um dos enunciados componentes, e que estejam dispostos a assentir
com o enunciado composto sempre que estiverem dispostos a assentir com um
dos componentes. Essas condições são precárias num ponto: na questão de
haver assentimento do nativo em relação ao composto sem havê-lo em relação
a nenhum dos componentes. Por exemplo, podemos afirmar de dois cavalos que
um dos dois vencerá, sem estarmos preparados, entretanto, para afirmar que
vencerá o primeiro deles, ou que vencerá o outro.” Ainda assim, é muito o
que as duas condições fazem em favor da identificação das disjunções; é mais
do que tudo que pode vir a ser feito por quaisquer condições comportamentais
em favor da quantificação. E é fácil estabelecer para as outras funções de verdade
tanto quanto o que se obteve para a disjunção.
Há na verdade uma variante da quantificação, preferida por Lesniewski e
ê Jaakko Hintikka, “Existential presuppositions and existential commitments”, Journal of
Philosophy, So (1959), 125-137. Para uma incursão mais ousada nesta direção, veja Henry 8.
Leonard, “Essences, attributes and predicates”, Proceedings and Adresses of the American
Philosophical Association, 37 (1964), 25-51. (N. do A)
? Em Word and Object só dei a condição relativa ao dissentimento e passei assim por cima
dessa limitação do lado do assentimento. O mesmo se passou com a conjunção, de maneira
oposta. (N, do A.)
EXISTÊNCIA E QUANTIFICAÇÃO 185
por Ruth Marcus, !º que admite critérios comportamentais de tradução tão subs-
tanciais quanto os critérios para as funções de verdade. Vou chamá-la quanti-
ficação substitucional. Uma quantificação substitucional é considerada verda-
deira se e somente se existe uma expressão que, quando substitui a variável,
faz a sentença aberta após o quantificador resultar verdadeira. Uma quantifi-
cação universal é considerada verdadeira se nenhuma substituição faz a sentença
aberta resultar falsa. São assim facilmente formuladas condições comportamentais
para interpretar uma construção nativa como uma quantificação existencial de
substituição. Determinamos certas partes da construção como candidatas aos
papéis de quantificador e variável; então, para que essas candidatas convenham,
uma condição é a de estarem os nativos dispostos a dissentir da sentença quanti-
tficada como um todo quando e apenas quando estiverem dispostos a dissentir
de cada uma das sentenças que podem ser obtidas pela eliminação do quanti-
ficador e substituição da variável. Uma segunda condição é a de que os nativos
estejam dispostos a assentir com o todo quando quer que estejam dispostos a
assentir com uma das sentenças que podem ser obtidas pela eliminação do quanti-
ficador e substituição da variável. Tal como no caso da disjunção, as condições
comportamentais não determinam plenamente o assentimento; mas vão longe.
Critérios análogos para a quantificação universal de substituição são igualmente
evidentes. |
Naturalmente, não esperamos nunca ter uma certeza matemática a respeito
do preenchimento de um tal critério comportamental por uma construção dada
na língua nativa. Para qualquer escolha de locuções nativas como candidatas ao
papel de quantificador e de variável, uma quantidade infinita de sentenças quan-
tificadas e de instâncias de substituição teriam que ser testadas. Os critérios com-
portamentais para as funções de verdade são similares nesse aspecto. A indução
empírica é a única base que temos, e a única realmente necessária.
A quantificação substitucional e as funções de verdade são, em suma, muito
mais fáceis de serem reconhecidas comportamentalmente do que a quantificação
clássica ou aquilo que podemos chamar quantificação objetual. Na nossa própria
língua, podemos localizar a quantificação objetual porque crescemos empregando
exatamente essas palavras: quando não os efetivos quantificadores, palavras tais
como “existe” e “há”, pelas quais eles nos vêm a ser explicados. Em outras
línguas, só podemos localizá-la relativamente a códigos de tradução escolhidos
ou herdados que, num certo sentido, são arbitrários. Arbitrários, no sentido em
que poderiam ser diferentes materialmente e ainda assim conformes a um compor-
tamento que, à exclusão do próprio comportamento de tradução, é completa-
mente o mesmo. Nesse sentido, a quantificação objetual é mais provinciana do
que a quantificação substitucional e as funções de verdade.
Na sua quantificação substitucional, Lesniewski empregou estilos diferentes
de variáveis para diferentes classes de substituição. A quantificação substitucional
na classe de substituição dos termos singulares, ou nomes, é a espécie que mais
se aproxima da quantificação objetual. E claro, no entanto, que ela não é equiva-
lente a essa última -—— a não ser que cada um dos nossos objetos seja especi-
ficável por algum termo singular na nossa linguagem e nenhum termo daquela
classe de substituição deixe de especificar um objeto. Por essa razão a quantifi-
cação substitucional não nos dá nenhuma versão aceitável da existência propria-
mente dita, se for o caso de nos ser dada essa versão pela quantificação objetual.
W Veja acima, p. 159, nota 16. (N. do A.)
186 OUINE
Além disso, a quantificação substitucional faz sentido, explicável em termos de
verdade e substituição, qualquer que seja a classe de substituição que tomarmos
— mesmo quando for aquela cujo único membro é o parêntese esquerdo. " Con-
cluir que se está assumindo entidades dessa maneira tão trivial e tão ampla é
simplesmente eliminar questões ontológicas. Também não é possível introduzir
qualquer controle dizendo que só a quantificação substitucional na classe de
substituição dos termos singulares deve ser considerada como uma versão da
existência. Vimos agora mesmo uma das razões disso, e há uma outra: a simples
noção de termo singular apela implicitamente para a quantificação clássica ou
objetual. Foi isso que destaquei acima a respeito da análise de sentenças feita
de acordo com o esquema “Fa”. O próprio Lesniewski não ligou sua espécie de
quantificação a comprometimentos ontológicos.
Isso não implica que teorias que empregam a quantificação substitucional
sem empregar a objetual possam desenvolver-se sem objetos. Minha posição é,
antes, a de que a questão do comprometimento ontológico de uma teoria não
é propriamente levantada a não ser quando essa teoria se exprime em forma de
quantificação clássica, ou na medida em que se tem em mente como traduzi-la
para essa forma. Minha posição é essa, pela simples razão de que, ao quanti-
ficador existencial, no sentido objetual, é dada precisamente a interpretação exis-
tencial e nenhuma outra: há coisas que são dessa e daquela maneira.
É fácil ver como a quantificação substitucional poderia ser traduzida numa
teoria de forma habitual. Consideremos uma quantificação substitucional cujo
quantificador é existencial, contém a variável v e governa a sentença aberta S.
Podemos parafraseá-la em termos sintáticos e semânticos, com quantificação ob-
jetual, da seguinte maneira: há uma expressão que, posta no lugar de v em 5,
resulta numa verdade. A quantificação universal pode ser tratada de modo simi-
lar. Para esse método, a teoria para a qual traduzimos é uma teoria que fala
sobre expressões da teoria original e as assume entre os seus objetos — como
valores de suas variáveis de quantificação objetual. Numa sintaxe aritmetizada,
os números naturais funcionariam igualmente. Assim podemos encarar a quanti-
ficação substitucional não como uma quantificação que evita qualquer compro-
misso ontológico, mas como aquela que, com efeito, arranja-se com um universo
de números naturais.
A quantificação substitucional tem sua importância. Se eu visse como me
arranjar com um universo que servisse a todos os propósitos e cujos objetos
fossem enumeráveis e de fato enumerados, então eu denominaria cada objeto
numericamente e ficaria com a quantificação substitucional. Isso representaria
para mim um avanço epistemológico, visto que a quantificação substitucional é
mais bem determinada do ponto de vista comportamental do que a quantificação
objetual. Eis aqui, portanto, uma nova razão, se precisássemos de alguma, para
aspirar por um universo enumerável.
Se por esse motivo preferíssemos empregar a quantificação substitucional, não
estaríamos reduzindo nosso universo, como já foi acentuado, a um universo vazio.
No entanto, estaríamos virando as costas às questões ontológicas. Onde quer
que sirva a quantificação substitucional, a ontologia é sem interesse. Só valerá a
pena tentar fazer aparecer a ontologia de uma teoria dessa espécie quando se
estiver fazendo traduções ou outras comparações entre essa teoria e uma outra
teoria que, em virtude de um universo não enumerável ou indefinido, esteja irre-
dutivelmente comprometida com algo como a quantificação objetual. Universos
" Exemplo dado em 1933 por Lesniewski, numa conversa em Varsóvia.
EXISTÊNCIA E QUANTIFICAÇÃO 187
não enumeráveis e indefinidos são aquilo que, afinal, torna interessantes a
quantificação objetual e a ontologia.
Afirmei que a quantificação objetual, mais do que a substitucional, é, num
certo sentido, provinciana. Portanto, o mesmo se dá com a idéia de ser; pois a
quantificação existencial objetual foi feita diretamente para o “há”. Mas alguém
poderia perguntar ainda, e isso foi feito por Hao Wang, se não estamos conce-
bendo o ser de uma maneira indevidamente provinciana quando o equiparamos
estritamente com a nossa própria teoria da quantificação, excluindo teorias de
quantificação de algum modo divergentes. A quantificação substitucional não
serviria para dar conta do ser, pelas razões já notadas; mas, que dizer da teoria
intuicionista da quantificação ou de outras teorias divergentes? '* Uma resposta
então é a de que seria justo dizer que o intuicionista tem uma doutrina do ser
que, como a sua teoria da quantificação, é diferente da minha; e que simples-
mente estou em desacordo com o intuicionista tanto num ponto como no outro.
Quando tento determinar o universo da teoria de alguém, emprego “ser” à minha
maneira. Em particular, o inventário feito por mim do universo do intuicionista
se poderia mostrar diferente daquele que seria feito pelo intuicionista com o seu
sentido divergente de ser. Ou seria possível ainda que eu simplesmente não en-
contrasse nenhuma tradução satisfatória da sua notação para a minha, e con-
cluísse assim que a questão sobre a sua ontologia não podia ser levantada em
termos que considero aceitáveis.
Mas essa resposta deixa escapar um elemento importante da questão de
Wang, a saber, em que medida nossa teoria particular da quantificação, vista
como uma teoria num possível espectro de teorias da quantificação, não será
simplesmente arbitrária? Suspeitas nesse sentido podem ser alimentadas observan-
do-se a seguinte forma de sentença, devida essencialmente a Henkin: !4
(1) Cada coisa está na relação P com alguma coisa y e cada coisa está na
relação Q com alguma coisa w tal que Ryw.
O melhor que podemos fazer com isso, em termos de quantificação ordinária, é
o seguinte:
(2) ()( Ty) (Pry (O) (A w) (Qrw. Ryw)).
ou igualmente:
(3) (D(Hw) (Qu. (x) (AH y) (Pxy. Ryw)).
As duas não são equivalentes. (2) representa a escolha de y como indepen-
dente de z, O que não é feito por (3). (3) representa a escolha de w como inde-
pendente de x, o que (2) não faz. Além disso, há interpretações de P, Q e R em
(1) para as quais ambas as dependências são gratuitas; por exemplo, a interpre-
A
tação de P como “é uma parte de”, Q como “contém” e R como “é maior que”.
12 As reflexões procedentes sobre a quantificação substitucional foram em grande parte
suscitadas por discussões com Burton Dreben. Sobre a irrelevância da ontologia ao nível do
enumerável, veja ainda meus Ways of Paradox, p. 203. (N. do A)
3 Uma dessas, proposta por Leonard, “Essences, attributes and predicates”, p. 39, combina
as quantificações substitucional e objetual. (N. do A.)
4 Leon Henkin, “Some remarks on infinitely long formulas”, Infinitistic Methods (pro-
ceedings of a Warsaw symposium) (Nova York, Pergamon, 1961), pp. 167-183, especifica-
mente p. 181. (N. do A.)
188 QUINE
(4) Cada coisa é parte de alguma coisa y e cada coisa contém alguma coisa
w tal que y é maior que w.
É possível levantar a suspeita de que a notação da quantificação seja incapaz
de forçar uma escolha entre (2) e (3) num caso como esse.
Admitindo funções como valores de nossas variáveis ligadas, observa Henkin.
podemos fugir das limitações de (2) e (3), da seguinte maneira:
(5) (A D( Tg) (x) (2) (Pxf,. Ozg. R$g))
Mas nesse passo são assumidos objetos de ordem superior que podem pare-
cer estar em desacordo com o caráter elementar de (1). Henkin então sugere
uma liberalização da quantificação clássica que se presta ao mesmo que (5), sem
quantificar sobre funções. Permite-se apenas uma ramificação de quantificadores,
como segue;
(x) (H y)
(6) (Pxy.Qzw.Ryw)
(2) (HT w)
Pode-se achar, portanto, que um critério ontológico ajustado à teoria clás-
sica da quantificação seja excessivamente rigoroso. Na interpretação à luz desse
critério, que vê (4) como (5), (4) assume funções, ao passo que na teoria de
quantificação divergente, com os seus quantificadores ramificados, (4) é inter-
pretado de modo mais plausível, como algo que não fala de função alguma. E
isso sem cair no enfoque inapropriado de (2) ou de (3).
Capazes de nos tentar são ainda as considerações a seguir. A fórmula de
segunda ordem (5) é de uma espécie que chamarei funcionalmente existencial,
para significar que todos os seus quantificadores funcionais estão no início e são
existenciais. Ora, existe um conhecido procedimento completo de prova, devido
a Skolem, para a teoria da quantificação clássica, que consiste em mostrar que
uma fórmula é inconsistente, tomando o que chamo de sua forma normal e deri-
vando dela umá contradição funcional-veritativa. !! Quem quer que tenha fami-
liaridade com o procedimento verá rapidamente que ele funciona não somente
para todas as fórmulas de primeira ordem, ou seja, para todas as fórmulas na
notação da teoria clássica da quantificação, mas igualmente para todas essas fór-
mulas funcionalmente existenciais. Pelo mesmo e único método das formas nor-
mais funcionais pode-se mostrar a inconsistência de qualquer fórmula inconsis-
tente, não apenas da teoria clássica da quantificação, mas também desse anexo
funcionalmente existencial. Isso faz com que o anexo pareça ser completo. Temos
a tentação de sair à procura de outras notações divergentes — dentro do mesmo
espírito, afeito à lógica de primeira ordem, dos quantificadores ramificados —
que fossem suficientes para acomodar todas as fórmulas funcionalmente existen-
ciais da maneira como (6) acomoda (5). Henkin, de fato, tem um projeto de
notação geral dessa espécie.
Além disso, levando-se em conta a dualidade, essas reflexões sobre fórmu-
las funcionalmente existenciais têm seu paralelo com respeito a fórmulas funcio-
nalmente universais — aquelas cujos quantificadores funcionais vêm no início
e são universais. O método de provar inconsistência, de Skolem, tem como dual
|» Veja meus Selected Logic Papers, pp. 196 e ss. (N. do A.)
EXISTÊNCIA E QUANTIFICAÇÃO 189
um método de provar validade, e funciona não somente para todas as fórmulas
de primeira ordem, mas também para todas essas fórmulas funcionalmente uni-
versais. Assim, esse outro anexo seria, parte por parte, tão completo quanto o
funcionalmente existencial. Portanto, parecia havermos encontrado um meio de
ampliar a teoria clássica da quantificação pelo qual, na medida em que os quan-
tificadores funcionais estivessem no início e fossem todos existenciais ou todos
universais, teríamos ganho todo o poder suplementar que nos seria dado pela
assunção de funções. Isso importaria numa confortável diminuição de nossa res-
ponsabilidade ontológica.
Essas reflexões encorajam a idéia de que nossa lógica clássica da quantifi-
cação é arbitrariamente restritiva. Quero, entretanto, expor agora uma conside-
ração em sentido oposto, que creio ter ainda mais peso. A lógica clássica da
quantificação tem um procedimento completo de prova para a validade e um
procedimento completo de prova para a inconsistência; na verdade, cada um dos
dois procedimentos serve a ambos os propósitos, visto que uma fórmula é válida
se e somente se sua negação for inconsistente. Por outro lado, o máximo que
podemos dizer do anexo funcionalmente existencial é que ele tem um procedi-
mento completo de prova para a inconsistência; e o máximo que podemos dizer do
anexo funcionalmente universal é que ele tem um procedimento completo de
prova para a validade. O artifício de provar a validade de uma fórmula. pro-
vando a inconsistência da sua negação, ou vice-versa, não é aplicável nos anexos,
desde que em geral a negação de uma fórmula funcionalmente existencial não é
equivalente a uma fórmula funcionalmente existencial (mas apenas a uma fór-
mula funcionalmente universal), e vice-versa. De fato, existe um teorema, que
se deve a Craig, 'º mostrando que a negação de uma fórmula funcionalmente
existencial nunca é equivalente a uma fórmula funcionalmente existencial, a não
ser que as funções sejam supérfluas e a fórmula seja equivalente a uma fórmula
de primeira ordem; e o correspondente vale também para as fórmulas funcional-
mente universais. Assim, a teoria da quantificação clássica não suplementada é,
nesse aspecto, maximal: vai tão longe quanto se pode ir e tem ainda uma garan-
tia completa de validade e inconsistência pelo procedimento de prova de Skolem.
Henkin mostra até mesmo que as fórmulas válidas que só são quantificadas
da maneira quadripartida indicada em (5), ou em (6), já estão além do limite do
que pode ser garantido por qualquer procedimento de prova, pelo menos nos
casos em que a identidade estiver incluída.
Portanto, eis aqui uma razão para que fronteiras sejam traçadas de tal modo
que (6) seja encarada como uma fórmula que, afinal de contas, fala velada-
mente de funções, e que recebe uma análise justa em (5). Segundo esse modo
de ver, (1) não é, entim, do âmbito da teoria pura da quantificação, mas trata
de funções. Isto é, se não for o caso de ler a forma (1) com os olhos de (2)
ou de (3), então (1) deve ser explicada por (5).
Uma observação de Jean van Heijenoort pode deixar-nos de algum modo
reconciliados com essa conclusão: afinal, (1) não é uma genuína expressão de
linguagem ordinária; sua gramática é duvidosa. Será que o “tal que” pode esten-
I6 Wilham Craig. “Three uses of the Herbrand-Gentzen theorem”, Journal of Symbolic Lo-
gic, 22 (1957), 269-285, espeficamente p. 281.
Y Henkin, “Some remarks on infinitely long formulas”. p. 182 e nota. Henkin deriva essa
conclusão de um teorema de Mostowski por um argumento que ele atribui a Ehrenfeucht.
Sou grato à Peter Geach por ter sido o primeiro a me fazer prestar atenção à questão de (1).
em janeiro de 1960; e sou grato a meus colegas Burton Dreben e Saul Kripke e a meu
discípulo Christopher Hill por me indicarem trabalhos pertinentes. Os conselhos de Dreben
ajudaram-me também em outros pontos. (N. do A.)
190 QUINE
der-se para trás a ponto de passar por cima do “e” para cobrir o “y”? Se for
o caso de estarmos tratando da atribuição de significado a uma expressão de
linguagem extraordinária, podemos atribuir-lhe (5), sem nos surpreendermos com
o fato de que ela é irredutivelmente de segunda ordem.
Desde a introdução de (1), nada foi provado. Duas espécies de considera-
ções foram expostas, uma para ilustrar como podemos ser levados a encarar
como arbitrária a apresentação clássica da teoria de quantificação, outra para
ilustrar em que sentido ela não é simplesmente arbitrária. A teoria clássica da
quantificação desfruta de uma extraordinária combinação de profundidade e
simplicidade, beleza e utilidade. É luminosa interiormente e ousada nas suas
fronteiras. Em contraste, teorias dela divergentes tendem mais a parecer arbi-
trárias. Mas, desde que existem, parece mais claro e simples dizer que, junta-
mente com elas, existem divergentes conceitos de existência.
S. ESPÉCIES NATURAIS
O que contribui para confirmar uma indução? Essa questão foi agravada,
de uma parte, pelo quebra-cabeça hempeliano dos não-corvos não pretos,! e
exacerbada, de outra parte, com o quebra-cabeça de Goodman das esmeraldas
verzuis. ? Iniciarei essas minhas considerações relacionando um quebra-cabeça
com o outro e esse outro com um certo faro inato que temos pelas espécies na-
turais. Em seguida devotarei o restante do artigo a reflexões sobre a natureza
dessa noção de espécie natural e sua relação à ciência.
O quebra-cabeça de Hempel é o de que, assim como cada corvo preto con-
tribui para confirmar a lei de que todos os corvos são pretos, da mesma forma,
cada folha verde, sendo um não-corvo não preto, deveria contribuir para con-
firmar a lei de que todas as coisas não pretas são não-corvos, isto é, novamente,
que todos os corvos são pretos. O que nisso é paradoxal é que uma folha verde
deva contar em favor da lei de que todos os corvos são pretos.
Goodman introduz seu quebra-cabeça pedindo-nos para imaginar que es-
meraldas, tendo sido identificadas por algum critério diferente do da cor, estejam
agora sendo examinadas, uma após a outra, e que até agora se constate serem
todas verdes. Propõe então chamar verzul a tudo o que seja examinado até hoje
e se constate ser verde ou não venha a ser examinado antes de amanhã e seja
azul. Deveremos esperar que a primeira a ser examinada amanhã seja verde
porque foram verdes todas as examinadas até agora? Mas, todas as examinadas
até agora também eram verzuis; assim, por que não esperar que a primeira de
amanhã seja verzul, e, portanto, azul?
O predicado “verde”, diz Goodman,? é projetável; verzul não o é. Diz
isso para poder dar um nome ao problema. Seu encaminhamento de solução está
na doutrina do que ele chama de fortificação, à qual voltarei mais tarde. Por
enquanto, o detalhe terminológico é simplesmente o de que predicados projetáveis
são predicados € e n cujas instâncias por ambos compartilhadas contam, todas
elas, por qualquer razão que seja, para a confirmação de [Todos os £ são n],
Proponho agora que se assimile o quebra-cabeça de Hempel ao de Good-
man, inferindo a partir do de Hempel que o complemento de um predicado
1 C. G. Hempel, Aspects of Scientific Explanation and Other Essays (N. York, Free Press,
1965), p. 15.
2 Nélsos Goodman, Fact, Fictions and Forecast (Cambridge, Mass., 1955 ou N. York,
Bobbs-Merrill, 1965), p. 74. Fico penhorado a Goodman e a Burton Dreben por proveito-
sas críticas dos esboços anteriores deste artigo.
3 Goodman, Fact, pp. 82 ess.
4 Ihid, pp. 95 ess.
192 QUINE
projetável não precisa ser projetável. “Corvo” e “preto” são projetáveis; um corvo
preto conta para “Todos os corvos são pretos”. Portanto, um corvo preto também
conta, indiretamente, para “Tudo o que é não preto é não-corvo”, dado que
essa formulação diz a mesma coisa que a anterior. Mas uma folha verde não
conta para “Tudo o que é não preto é não-corvo” nem, portanto, para “Todos
os corvos são pretos”; “não preto” e “não-corvo” não são projetáveis. “Verde” e
“folha” são projetáveis e a folha verde conta para “Todas as folhas são verdes”
e para “Tudo o que é verde é uma folha”; mas só um corvo preto pode con-
firmar “Todos os corvos são pretos”, não sendo projetáveis os respectivos
complementos.
Se encararmos a questão dessa maneira, temos que cuidar para não dizer
que um enunciado [Todosos t são nl] é legalizante somente se £ e n
forem projetáveis. “Todas as coisas não pretas são não-corvos” é uma lei apesar
de seus termos serem não projetáveis, porque é equivalente a “Todos os corvos
são pretos”. É legalizante qualquer enunciado logicamente equivalente a [To-
dos os € são n 1, para certos Cc em projetáveis:
Tendo concluído que o complemento de um predicado projetável não pre-
cisa ser projetável, podemos ir adiante perguntando se há algum predicado
projetável cujo complemento seja projetávcl. Quero crer que não, se os comple-
mentos forem tomados no sentido estrito. E não nos devemos deixar enganar
por uma complementação limitada ou relativa, “animal macho” e “animal não
macho” são, decerto, ambos projetáveis.
Voltando agora às esmeraldas, por que esperamos que a próxima seja verde
em vez de verzul? A resposta intuitiva está na similaridade, por mais subjetiva
que seja. Duas esmeraldas verdes são mais similares do que duas verzuis seriam,
caso apenas uma delas fosse verde. Coisas verdes ou, pelo menos, esmeraldas
verdes, são uma espécie. * Um predicado projetável é um predicado que é ver-
dadeiro de todas as coisas e apenas das coisas de uma espécie. Todavia, o que
faz com que o exemplo de Goodman seja um quebra-cabeça é o dúbio siatus
científico de uma noção geral de similaridade, ou de espécie.
A dubiedade dessa noção é por sua vez um fato singular. Pois certamente
não há nada mais básico para o pensamento e para a linguagem do que o nosso
senso de similaridade: nossa distribuição de coisas em espécies. O costumeiro
termo geral, substantivo comum, verbo ou adjetivo, deve sua generalidade a
alguma semelhança entre as coisas a ele referidas. Na verdade, o aprendizado do
emprego de uma palavra apóia-se numa semelhança dupla: primeiramente, numa
semelhança entre as circunstâncias presentes e passadas em que a palavra foi
empregada, e, em segundo lugar, numa semelhança fonética entre a presente
elocução da palavra e as suas elocuções passadas. E toda expectativa razoável
se apóia numa semelhança de circunstâncias e ao mesmo tempo na nossa ten-
dência de esperar que causas semelhantes tenham efeitos semelhantes.
A noção de espécie e a de similaridade ou semelhança parecem ser variantes
ou adaptações de uma mesma noção. A similaridade é imediatamente definível
em termos de espécie; pois duas coisas são similares quando são ambas de uma
mesma espécie. As próprias palavras inglesas correspondentes a “espécie” e
5 Vejo isso apenas como uma condição suficiente para que o enunciado seja legalizante.
Vide Donald Davidson, “Emeroses by other names”, Journal of Philosophy 63 (1966),
778-780.
* Esse relevante aspecto das espécies foi apontado por Goodman, Fact, primeira edição, pp.
119 e s., segunda edição, pp. 121 ess.
ESPÉCIES NATURAIS 193
“similar” — “kind” e “similar” — tendem a se dispor em pares cetimologica-
mente cognatos. Cognatos com “kind” temos “akin” e “kindred”. Cognato com
“like” temos “ilk”. Cognatos com “similar”, “same” e “resemble” há “assemble”
e “sammeln”, em alemão, sugerindo um agrupamento em espécies.
Não é fácil imaginar noção mais familiar ou mais fundamental do que essa,
ou, ainda, noção mais ubíqua na sua aplicação. Nesse ponto, ela é como as
noções da lógica: como a identidade, a negação, a alternação e as restantes. E
contudo, estranhamente, há com respeito a ela algo que repugna à lógica. Pois
é em vão que tentamos relacionar de modo significante a noção geral da simi-
laridade com termos lógicos. Uma primeira sugestão apressada seria talvez a de
dizer que coisas são simiiares quando têm em comum todas as suas propriedades,
ou a maioria, ou muitas delas. Ou, tentando ser menos vagos, poderíamos tentar
definir uma similaridade comparativa — “a é mais similar a b do que a c” —
como significando que a compartilha um maior número de propriedades com
b do que com c. Mas tal procedimento limita-se a reduzir nosso problema à ta-
refa não promissora de estabelecer o que considerar como propriedade.
Poderemos visualizar a natureza do problema do que considerar como
propriedade se nos voltarmos, por um momento, para a teoria dos conjuntos. As
coisas são encaradas como podendo fazer parte de conjuntos em toda e qualquer
combinação, descritível ou indescritível. Quaisquer duas coisas são membros, iado
a lado, de qualquer número de conjuntos. É certo então que não podemos definir
“a é mais similar a b do que a c” como significando que a e b pertencem con-
juntamente a um número maior de conjuntos do que a e c. Se as propriedades
toleram definições desse tipo e tal não se dá com os conjuntos, deve ser porque
as propriedades não agrupam coisas, como os conjuntos, em qualquer combi-
nação aleatória. Deve ser que as propriedades só são compartilhadas por coisas
que são similares de modo significativo. Mas, nesse sentido, as propriedades não
são mais claras do que as espécies. Começar com uma tal noção de propriedade
e definir a similaridade sobre essa base não é melhor do que aceitar a simila-
ridade como não definida.
A oposição entre propriedades e conjuntos que acabo de sugerir não deve
ser confundida com a oposição mais básica e familiar entre propriedades en-
quanto intensionais e conjuntos enquanto extensionais. As propriedades são
intensionais na medida em que podem ser consideradas propriedades distintas
mesmo que coincidam inteiramente quanto às coisas que as possuem. Não há
necessidade de reconhecer as espécies como intensionais. Elas podem ser en-
caradas como conjuntos, determinadas por seus membros. Só que nem todos os
conjuntos são espécies.
Se a similaridade for considerada de modo simplório como matéria de
sim-ou-não, sem comportar graus, então não há lugar para espécies serem contidas
em espécies mais amplas. Pois, como se observou, a similaridade significa então
simplesmente a pertinência a alguma mesma espécie. Se todas as coisas coloridas
formam uma espécie, então todas as coisas coloridas contam como similares, e
o conjunto de todas as coisas vermelhas é estreito demais para ser considerado
como uma espécie. Se, por outro lado, o conjunto de todas as coisas vermelhas
for considerado como uma espécie, então as coisas coloridas não contam todas
como similares, e o conjunto delas é amplo demais para ser considerado uma
espécie. Não podemos ter espécies dos dois modos. As espécies podem, contudo,
ser sobrepostas; as coisas vermelhas podem formar uma espécie, as redondas,
uma outra.
Quando passamos da simples relação diádica de similaridade para a relação
iriádica, mais séria e mais útil, de similaridade comparativa, uma mudança cor-
194 QUINE
relativa tem lugar na noção de espécie. As espécies passam a admitir agora não
somente a superposição, mas podem também estar contidas umas na outras. O
conjunto de todas as coisas vermelhas e o conjunto de todas as coisas coloridas,
podem agora ser considerados ambos como espécies, pois as coisas coloridas
podem contar agora como coisas que se parecem todas elas umas com as outras
mais do que certas outras coisas se parecem entre si, embora menos do que se
parecem, em geral, as coisas vermelhas.
Nessa altura, naturalmente, nossa definição trivial do similar, como o que
é de mesma espécie, cai por terra; pois quaisquer duas coisas, praticamente,
podem contar agora como membros comuns de alguma espécie ampla, e, de
qualquer maneira, o que queremos definir agora é a similaridade comparativa
ou triádica. Uma definição que surge imediatamente é a seguinte: a é mais similar
a b do que a c quando a e b pertencem conjuntamente a um número maior de
espécies do que a e c. Mas mesmo isto só funciona para sistemas de espécies
finitos.
A noção de espécie e a de similaridade nos pareceram ser substancialmente
uma só. Observamos adiante que elas resistiam a uma redução a noções menos
dúbias, como as da lógica ou da teoria dos conjuntos. Parece-nos que é pouco
demais pedir que elas sejam definíveis uma em termos da outra, de qualquer
maneira. Acabamos de examinar uma definição um tanto claudicante de simi-
laridade comparativa em termos de espécies. Que dizer agora do projeto inverso,
o da definição de espécie em termos de similaridade?
Poder-se-ia ter a tentação de representar uma espécie, apropriada a uma rela-
ção de similaridade comparativa, como um conjunto que fosse “qualitativamente
esférico” no seguinte sentido: inclui exatamente aquelas coisas que diferem de uma
certa norma central menos do que um certo tanto estipulado. Se, sem séria perda
de precisão, pudermos assumir que há efetivamente uma ou mais coisas (casos
paradigmáticos) que exemplificam particularmente bem a norma desejada, e
uma ou mais coisas (contrastes) que se afastam só um pouco demais para serem
contadas dentro da espécie desejada, então nossa definição surge facilmente:
a espécie que tem a como paradigma e b como contraste é o conjunto de todas
as coisas às quais a é mais similar do que é a b. De modo mais geral, pode-se
dizer então que um conjunto é uma espécie se e somente se existem a e b, co-
nhecidos ou desconhecidos, tais que o conjunto é a espécie que tem a como
paradigma e b como contraste.
Todavia, se forem considerados exemplos, veremos que dessa definição
não resulta o que queremos por espécies. Tomemos, assim, o caso do vermelho.
Concedamos que um certo matiz central de vermelho possa ser escolhido como
norma. O embaraço é que os casos paradigmáticos, os objetos que têm exata-
mente aquele matriz de vermelho, podem vir em todos os tipos de forma, peso.
tamanho e odor. O simples grau de similaridade global com um desses tasos
paradigmáticos nos oferecerá pouca evidência quanto ao grau de vermelhidão,
porquanto dependerá também da forma, do peso e de todo o resto. Se a re-
lação de similaridade comparativa que assumimos fosse apenas de similaridade
comparativa cromática, nossa definição em termos de paradigma-e-contraste de-
certo serviria para acomodar a vermelhidão. O que a definição não faz é destilar
espécies puramente cromáticas, da similaridade misturada.
Uma tentativa diferente, adaptada a partir de Carnap, é a seguinte: um
conjunto é uma espécie se todos os seus membros forem mais similares entre si
do que são, todos eles, a qualquer coisa fora do conjunto. Em outras palavras,
cada não-membro difere mais de um certo membro do que esse membro difere
ESPECIES NATURAIS 195
de qualquer membro. Todavia, como mostrou Goodman numa crítica a Carnap, ?
essa construção sucumbe diante do que Goodman chamou de dificuldade da co-
munidade imperfeita. Consideremos, assim, o conjunto de todas as coisas ver-
melhas e redondas, vermelhas e de madeira, e redondas e de madeira. Cada
membro desse conjunto assemelha-se a cada um dos outros membros de alguma
maneira: pelo menos por ser vermelho, ou redondo, ou de madeira, talvez por
dois desses aspectos ou por todos os três. É concebível, ademais, que não haja
fora do conjunto nada que se pareça com todos os seus membros num grau pelo
menos igual ao menor desses graus. Portanto, o conjunto se encaixa na definição
de espécie proposta. E, contudo, certamente não é o que se entende por espécie.
Nele são admitidas bolas de croqué amarelas e bolas de borracha vermelhas, ao
passo que bolas de borracha amarelas são excluídas.
A relação entre similaridade e espécie é, portanto, menos clara e nítida do
que se poderia desejar. A definição de similaridade em termos de espécie é va-
cilante e a de espécie em termos de similaridade, desconhecida. Ainda assim as
duas noções são correlatas num sentido importante. Elas variam juntas. Se pas-
sarmos a estimar certa coisa a menos similar a b do que a c, quando anterior-
mente a considerávamos mais similar a b do que a c, certamente permutaremos de
modo correspondente a, b e c com respeito a sua atribuição a espécies; e vice-versa.
Sublinhamos como é fundamental a noção de similaridade ou de espécie
para o nosso pensamento, e quão estranha é à lógica e à teoria dos conjuntos.
Quero agora prosseguir acrescentando algo sobre essa sua importância funda-
mental para o nosso pensamento, e algo também sobre suas raízes não lógicas.
Pretendo esclarecer depois como a noção de similaridade ou de espécie muda
com o progresso da ciência. Vou sugerir que é um marco de maturidade para
um ramo de ciência o momento em que finalmente se dissolve a noção de simi-
laridade ou de espécie, enquanto relevante para esse ramo. Isto é, o momento em
que por fim ela se submete a uma análise nos termos específicos da ciência e
da lógica.
Para uma apreciação mais profunda de como a similaridade é fundamental,
observemos com mais cuidado como ela figura no aprendizado da linguagem.
Aprendemos por ostensão a quais apresentações chamar amarelas; isto é, apren-
demos ouvindo a palavra ser aplicada a amostras. Naturalmente, só nos podemos
basear na similaridade entre os casos ulteriores e as amostras. Como a simila-
ridade é uma questão de grau, será preciso aprender por ensaio e erro quanto
uma coisa pode ser avermelhada, amarronzada ou esverdeada sem deixar de
ser considerada amarela. Quando acreditamos ter aplicado a palavra de ma-
neira demasiada ampla, podemos empregar os casos falsos como amostras do
contrário; e podemos então passar a estimar se os outros casos são amarelos ou
não, considerando se são mais similares ao grupo de dentro ou ao de fora. O
que se emprega assim, mesmo nesse estágio primitivo do aprendizado, é um
senso de similaridade em pleno funcionamento, e de similaridade relativa nesse:
a é mais similar a b do que a c.
Todas essas delicadas comparações e sagazes inferências sobre o que chamar
amarelo são, na terminologia de Sherlock Holmes, elementares. A maior parte
do processo é inconsciente. Trata-se do mesmo processo pelo qual um animal
aprende a responder de distintivas maneiras às ordens do seu dono ou a outras
estimulações discriminadas.
7 Nelson Goodman, The Structure of Appearance, 2.º ed. (N. York, Bobbs-Merrill, 1966),
pp. 163 es.
196 QUINE
| O senso primitivo de similaridade que subjaz a esse aprendizado tem, como
vimos, uma certa complexidade de estrutura: a é mais similar a b do que a c.
Alguns pensavam que deveria ser ainda mais complexo: que dependia irreduti-
velmente dos aspectos, como similaridade de cor, similaridade de forma, e assim
por diante. De acordo com essa concepção, nosso aprendizado do amarelo por
ostensão teria dependido de nos ter sido dito previamente, ou de termos de algu-
ma maneira aprendido, que se tratava de uma questão de cor. Ora, indicações dessa
espécie são muito úteis, e no nosso aprendizado fregiientemente dependemos
delas de fato. Ainda assim o interessante seria ter condições de mostrar que um
único padrão geral de similaridade, mas naturalmente de similaridade compara-
tiva, é tudo de que precisamos, e que aqueles aspectos podem ser abstraídos
posteriormente. Por exemplo, suponhamos que a criança tenha aprendido que
uma bola e um cubo amarelos contam como amarelos e que uma bola e um
cubo vermelhos não contam como tais, e que agora ela tenha que decidir a
respeito de uma roupa amarela. É de presumir que ela ache a roupa mais similar
à bola e ao cubo amarelos do que à bola vermelha ou ao cubo vermelho; e
ela não terá precisado de qualquer instrução anterior quanto a cores ou a as-
pectos. Carnap tentou mostrar há muito tempo como alguns aspectos, tais como
a cor, podiam ser derivados por uma construção engenhosa a partir de uma
noção geral de similaridade; * todavia esse desenvolvimento é posto em xeque
pela dificuldade apontada por Goodman, a da comunidade imperfeita.
Um padrão de similaridade é, num certo sentido, inato. Isso não vai contra
o empirismo; trata-se de um lugar-comum da psicologia comportamental. Uma
resposta a um círculo vermelho, se recompensada, será mais prontamente eliciada
de novo por uma elipse cor-de-rosa do que por um triângulo azul; um círculo
vermelho se assemelha mais à elipse cor-de-rosa do que ao triângulo azul. Sem
algo como esse espaçamento prévio de qualidades, nunca poderíamos adquirir
um hábito; todos os estímulos seriam igualmente parecidos e igualmente dife-
rentes. Estes espaçamentos de qualidades, dos homens e dos outros animais,
podem ser pesquisados e mapeados no laboratório por meio de experimentos
de condicionamento e de extinção. º Necessários como são para todo o apren-
dizado, esses espaçamentos não podem ser, por sua vez, todos eles aprendidos;
alguns precisam ser inatos.
Se eu disser então que há um padrão inato de similaridade, estarei fazendo
uma afirmação condensada que pode receber uma interpretação, e uma ver-
dadeira interpretação, em termos comportamentais. Além disso, nesse sentido
comportamental é possível dizer igualmente que outros animais têm também um
padrão inato de similaridade. Esse padrão faz parte de nosso patrimônio here-
ditário. E o interessante é que esse é um padrão caracteristicamente animal por
ser desprovido de status intelectual. Em todo caso, já se fez notar anteriormente
quanto a noção é estranha à matemática e à lógica.
Já vimos que esse inato espaçamento qualitativo de estimulações tem, no
aprendizado ostensivo de palavras como “amarelo”, um de seus empregos hu-
manos. A título de precaução deveria ser acrescentado que esse não é o único
modo de se aprender palavras, nem também o mais comum; trata-se apenas
do modo mais rudimentar. Ele funciona quando a questão da referência de
uma palavra é uma simples questão relativa à dispersão: que porção da nossa
vizinhança conta como amarela, que porção como água, e assim por diante.
ê Rudolf Carnap, The Logical Structure of the Word (Califórnia, 1967), pp. 141-147, (Edição
alema de 1928.)
9 Vide meu Word and Object, pp. 83 e s., para mais ampla discussão e referências.
ESPECIES NATURAIS 197
O aprendizado de uma palavra como “maçã” ou “quadrado” é mais complicado,
pois aqui temos que aprender também a dizer onde termina uma maçã, ou
um quadrado, e onde começa um outro. A complicação está no fato de que
maçãs não se somam umas às outras para formar uma maçã nem isso ocorre
em geral com os quadrados. “Amarelo” e “água” são termos de massa, para
os quais importa apenas a dispersão; “maçã” e “quadrado” são termos de re-
ferência dividida, para os quais tanto importa a dispersão como a individua-
ção. A ostensão figura também no aprendizado de termos dessa última
espécie, mas o processo é mais complexo. 'º Em seguida há todos os outros
tipos de palavras, todos aqueles conectivos e advérbios neutros e abstratos, todos
os mais recônditos termos da teoria científica; e há também as próprias cons-
truções gramaticais a serem dominadas. O aprendizado de tudo isso é ainda
menos direto e mais complexo. Há profundos problemas nesse domínio que,
no entanto, estão fora do tópico presente.
Portanto, nosso meio de aprender “amarelo” não chega a nos dar uma
imagem completa de como aprendemos a língua. Com mais ênfase ainda, po-
demos dizer que ele nos deixa aquém de uma imagem completa do emprego
humano de um padrão inato de similaridade ou de um espaçamento inato de
qualidades. Pois, como se fez notar, toda expectativa razoável se apóia sobre
a similaridade. Nesse ponto, de novo outros animais se assemelham ao homem.
Suas expectativas — se quisermos conceitualizar assim os seus movimentos de
esquiva, a salivação, o pressionamento de barras e coisas semelhantes —
apóiam-se claramente na sua apreciação da similaridade. Ou, para pór
as questões na devida ordem metodológica, esses movimentos de esquiva, a
salivação, o pressionamento de barras, etc. são exemplos típicos daquilo em que
nos baseamos para mapear a apreciação animal da similaridade, seu espaça-
mento de qualidades.
A própria indução, essencialmente, é só mais um exemplo da mesma coisa:
expectativa animal ou formação de hábitos. E o aprendizado ostensivo de pa-
lavras é um exemplo implícito de indução. Implicitamente, o aprendiz de “ama-
relo” caminha indutivamente rumo a uma lei geral de comportamento verbal em
português, embora se trate de uma lei que ele nunca tentará enunciar; ele cami-
nha em direção ao ponto de onde poderá julgar, em geral, quando um locutor
de português daria e quando não daria o seu assentimento a “amarelo”.
O aprendizado ostensivo não é apenas um exemplo de indução; trata-se de
um exemplo de indução curiosamente confortável, de um jogo de azar com
dados viciados. É assim pelo menos se, como parece plausível, o espaçamento
de qualidades de cada homem for semelhante ao do seu vizinho. Pois o aprendiz
generaliza sobre as suas amostras amarelas por meio de considerações de simi-
laridade e os seus vizinhos, por sua vez, adquiriram o uso da palavra “amarelo”,
no momento em que isso lhes aconteceu, por meio das mesmas considerações
de similaridade. Assim, o aprendiz de “amarelo” está fazendo a sua indução
dentro de um mundo amistoso. A indução exprime sempre a nossa esperança
de que causas semelhantes tenham efeitos semelhantes; mas quando a indução
é o aprendizado ostensivo de uma palavra, dessa piedosa esperança floresce
uma inelutável antecipação. A uniformidade dos espaços qualitativos das pessoas
praticamente assegura que presentações similares eliciarão vereditos similares.
Isso faz com que nos surpreendamos mais ainda com as outras induções,
Io Vide Word and Object, pp. 90-95.
198 QUINE
nas quais o que se procura são generalizações não sobre o comportamento
verbal do nosso vizinho, mas sobre o inóspito mundo impessoal. É razoável
supor que o nosso espaço qualitativo convém com o do nosso vizinho, dado que
somos pássaros de mesmas plumagens e assim a confiabilidade geral da indução
no aprendizado ostensivo de palavras era de esperar. Por outro lado, confiar na
indução enquanto meio de ascender às verdades da natureza é supor, mais exa-
tamente, que nosso espaço qualitativo convém com o do cosmo. A irraciona-
lidade bruta do nosso senso de similaridade, sua irrelevância para o que quer
que seja na lógica e na matemática, faz com que tenhamos poucas razões para
esperar que esse senso esteja de algum modo em sintonia com o mundo —
um mundo que, ao contrário da linguagem, não é obra nossa. Por que a indução
mereceria a nossa confiança, fora dos casos especiais tais como o do aprendizado
ostensivo de palavras? — esse é o perene problema filosófico da indução.
Uma parte do problema da indução, que pergunta por que afinal teria que
haver regularidades na natureza, pode, creio, ser dispensada. Qualquer que seja
a razão para tanto, é um fato científico que há ou tem havido regularidades;
e não podemos pedir mais do que isso. A questão do por que tem havido re-
gularidades é uma questão obscura, pois é difícil saber o que poderia ser consi-
derado uma resposta para isso. O que tem sentido claro é a outra parte do
problema da indução: por que nosso inato espaçamento subjetivo de qualidades
concorda tão bem com os agrupamentos funcionalmente relevantes da natureza,
a ponto de fazer as nossas induções tenderem a dar certo? Por que o nosso
espaçamento subjetivo de qualidades haveria de ter direitos especiais sobre a
natureza e um penhor sobre o futuro?
Um certo alento nos é trazido por Darwin. Se o espaçamento de qualidades
inato nas pessoas é um traço ligado aos genes, então o espaçamento que foi res-
ponsável pela maioria das induções bem sucedidas deve ter tendido a predominar
através da seleção natural. !! Criaturas inveteradamente erradas nas suas induções
têm uma tendência patética, porém louvável, de morrer antes de reproduzir a
sua espécie.
Devo dizer a essa altura que não me perturbarão os protestos de que estou
empregando generalizações indutivas, as de Darwin e outras, para justificar a
indução, raciocinando assim de maneira circular. Isso não me perturbará porque
minha posição é uma posição naturalista; encaro a filosofia não como um em-
basamento ou como um a priori propedêutico para a ciência, mas como algo
em continuidade com esta última. Para mim, a filosofia e a ciência estão no
mesmo barco — um barco que, para retomar a imagem de Neurath, como faço
tão frequentemente, só podemos reconstruir no mar, enquanto nele estamos na-
vegando. Não há nenhum mirante externo, não há filosofia primeira. Por conse-
guinte, na minha opinião, todas as descobertas científicas, todas as conjeturas
científicas presentemente plausíveis podem prestar-se a usos filosóficos, como a
outros quaisquer. Para mim, portanto, o problema da indução é um problema
que diz respeito ao mundo: um problema de como poderíamos, tais como estamos
agora (pelas nossas luzes científicas presentes) e num mundo não feito por nós,
ter chances melhores do que as simplesmente aleatórias, ou as dos jogos de
cara-ou-coroa, de obter bons resultados quando fazemos previsões por meio de
“ Isso foi apontado por S. Watanabe na segunda página do seu artigo “Une explication ma-
thématique du classement d'objets” in S. Dockx and P. Bernays, eds., Information and Pre-
diction in Science (N. York, Academy Press. 1965).
ESPÉCIES NATURAIS 199
induções baseadas no nosso padrão de similaridade inato e cientificamente não
justificado. A seleção natural de Darwin é uma explicação parcial plausível.
Essa explicação quase pode ser tomada por suficiente quando vista à luz
do que exponho em seguida. É que afinal a indução tem suas falhas patentes.
Tomemos, por exemplo, a cor. Certamente não há nada na experiência que seja
mais vívido e patente do que a cor e seus contrastes. E o fato notável, que
impressionou cientistas e filósofos desde pelo menos Galileu e Descartes, é que
as distinções que importam para a teoria física básica são, na sua maioria, inde-
pendentes dos contrastes de cor. A cor impressiona o homem; o corvo preto
impressiona Hempel; a esmeralda verde impressiona Goodman. Mas, do ponto
de vista cósmico, a cor é secundária. Diferenças ainda que sutis nos mecanismos
sensoriais, de espécie para espécie, observa Smart !? podem resultar em tremendas
diferenças no agrupamento das coisas pela cor. A cor é soberana no nosso
espaço qualitativo inato, porém pária nos círculos cósmicos. Do ponto de vista
cósmico, as cores não se qualificariam como espécies.
A cor é útil no nível da busca dos alimentos. Aí ela se comporta bem
sob indução e aí se encontra o valor sobrevivente do nosso espaço qualitativo,
cromaticamente enfocado. É que os contrastes que são cruciais para essas ativi-
dades podem ser insignificantes para uma ciência mais ampla e mais teórica.
Se fosse o caso de viver o homem apenas de ciência básica, a seleção natural
passaria a dar apoio a uma mutação cega a cores.
Vivendo como vive, tanto de ciência básica como de pão, o homem se vê
dilacerado. Coisas relativas a seu senso inato de similaridade, que numa esfera
são úteis, podem ser um estorvo, na outra. Preitos são devidos ao inveterado
engenho humano, ou à sua sabedoria, por ter sobrepujado o deslumbramento
otuscante da visão de cor e encontrado noutro lugar as regularidades mais signi-
ficativas. Evidentemente, a seleção natural cuidou desse conflito, dotando o
homem duplamente: tanto de um espaço qualitativo cromaticamente entocado.
como do engenho que lhe permite elevar-se acima do primeiro.
O homem chegou até aí, desenvolvendo sistemas modificados de espécies.
portanto, padrões de similaridade modificados para fins científicos. Pelo processo
de teorizar por ensaio e erro, reagrupou as coisas em espécies novas que se
mostraram mais convenientes do que as antigas, para muitas induções.
Um exemplo grosseiro é o da modificação da noção de peixe por exclusão
das baleias e dos botos. Um outro exemplo taxonômico é o do agrupamento
de cangurus, gambás e ratos marsupiais numa mesma espécie, a dos marsupiais.
excluindo ao mesmo tempo os ratos comuns. Pelos padrões primitivos, o rato
marsupial é mais similar ao rato comum do que ao canguru; pelos padrões
teóricos, é o inverso que é verdadeiro.
Uma espécie teórica não precisa ser a modificação de uma espécie intuitiva.
Ela pode surgir de uma teoria madura, sem antecedentes; como, por exemplo, a
espécie que compreende as partículas de carga positiva.
Como observa Goodman, 'º revisamos nossos padrões de similaridade ou
de espécies naturais baseados na torça das induções de segunda ordem. Novos
agrupamentos, adotados hipoteticamente por sugestão de uma teoria em cresci-
mento, mostram-se propícios a induções e tornam-se assim “tortificados”. Para
nossa satisfação, estabelecemos de um novo modo a projetabilidade de um
2 J.J. C. Smart, Philosophy and Scientific Realism (N. York, Humanities, 1963), pp. 68-72.
4 Goodman. Fact, pp. 95 ess.
200 QUINE
certo predicado por uma tentativa bem sucedida de projetá-lo. Em matéria de
indução, nada tem tanto sucesso quanto o sucesso.
Entre uma noção inata de similaridade ou espaçamento de qualidades e
uma outra, cientificamente sofisticada, há toda sorte de graus. Afinal, a ciência
difere do senso comum só quanto ao grau de sofisticação metodológica. Nossas
experiências da mais tenra infância forçosamente hão de ter revestido nosso
espaçamento inato de qualidades, modificando e suplementando pouco a pouco
nossos hábitos de agrupar, inclinando-nos cada vez mais a uma apreciação de
espécies e similaridades teóricas, muito antes de chegarmos ao ponto de estudar
sistematicamente a ciência, enquanto tal. Ademais, as fases posteriores não
substituem inteiramente as primeiras; conservamos diferentes padrões de simi-
laridade, diferentes sistemas de espécies, para serem usados em diferentes con-
textos. Todos nós continualmos a dizer que um rato marsupial é mais semelhante
a um rato comum do que a um canguru, a não ser quando estamos tratando de
questões genéticas. Algo semelhante a nosso espaço qualitativo inato continua a
funcionar paralelamente aos mais sofisticados reagrupamentos que a experiência
científica vem encontrando para facilitar a indução.
Vimos que um certo senso de similaridade ou de espécies é fundamental
para o aprendizado no mais amplo sentido — para o aprendizado da linguagem,
para a indução, para a expectativa. Prosseguindo na apreciação de quão fun-
damentalmente essa noção permeia o nosso pensamento, quero agora indicar
uma quantidade de outras noções muito familiares e centrais que parecem de-
pender diretamente dessa noção. São noções definíveis em termos de similaridade
ou de espécies e, a partir desse ponto, irredutíveis.
Um notável domínio de exemplos é o das disposições, como a do exemplo
de Carnap da solubilidade na água. Dizer que um objeto é solúvel em água não
é dizer meramente que ele dissolve sempre que está dentro da água, pois isso
seria vacuamente verdadeiro de qualquer objeto, ainda que insolúvel, se sim-
plesmente acontecesse que ele estivesse destinado a nunca ser posto dentro da água.
Dizer que um objeto é solúvel é dizer, antes, que ele se dissolveria se estivesse
dentro da água; mas essa é uma explicação pouco confortável, pois o emprego
do condicional com subjuntivo envolve todas as perplexidades dos termos dispo-
sicionais, além de outras. Até aqui, limitei-me a repetir Carnap. !* Mas agora
guero indicar o que poderia ser feito, em relação a isso, com a noção de espécie.
Intuitivamente, o que qualifica algo como solúvel, não obstante jamais ser posto
em água, é o fato de ser da mesma espécie de outras coisas que efetivamente
foram ou serão dissolvidas, o fato de ser similar a elas. No sentido estrito, não
podemos dizer simplesmente “da mesma espécie”, ou simplesmente “similar”,
quando temos espécies mais amplas e mais restritas, e similaridade em maior
ou menor grau. Façamos então uma emenda em nossa definição, dizendo que
as coisas solúveis são os membros comuns a todas essas espécies. Algo é solúvel
se estiver incluído em cada uma das espécies suficientemente amplas para
abranger todas as coisas que efetivamente são vítimas de dissolução.
Graficamente a idéia é essa: construímos um conjunto de todas essas vítimas,
de todas as coisas que efetivamente foram ou serão dissolvidas em água, e
acrescentamos então exatamente o necessário para inteirar o conjunto de modo
a formar uma espécie. É essa a espécie solúvel-em-água.
Se essa definição cobrir exatamente as coisas que se desejavam, as coisas que
!4 Carnap. “Testability and Meaning”, Philosophy of Science 3 (1936), 419-471; 4 (1937),
1-40.
ESPECIES NATURAIS 201
realmente são solúveis em água, esse seu sucesso se deverá a uma circunstância
que teria podido dar-se de outro modo. A circunstância exigida é a de ter havido
coisas efetivamente dissolvidas em água, numa variedade suficiente para assegurar
que não caíssem todas elas sob uma espécie mais restrita do que a própria es-
pécie desejada, solúvel-em-água. Mas essa é uma circunstância plausível e não
estou certo de que seu caráter acidental seja um gravame. Se o curso dos
acontecimentos fora diferente, talvez não se precisasse do conceito de
solubilidade.
Entretanto, se dei a impressão de estar advogando essa definição, devo
apressar-me em acrescentar que naturalmente ela tem em grande parte o mesmo
deteito que a definição que empregava o condicional com subjuntivo. Essa de-
finição emprega a noção não reduzida de espécie, que certamente também não
é uma noção pela qual quiséssemos responde
teórica, quer da de espécie intuitiva. Meu intuito ao dar a definição foi apenas
o de mostrar a conexão entre o problema das disposições e o das espécies.
Entre as espécies teóricas e intuitivas, são certamente as teóricas que se
mostram necessárias, para fins da definição de solubilidade e de outras dispo-
sições de interesse científico. Ao contrário, “amicável” e “repreensível” são
termos disposicionais cujas definições valer-se-iam mais de espécies intuitivas.
Examinando a disposição da solubilidade, observamos uma conexão, pri-
meiramente entre essa disposição e o condicional com subjuntivo, e, em seguida,
entre ela e a noção de espécie. Daí surge a idéia de comparar os dois termos
finais, a fim de ver a conexão entre o condicional com subjuntivo e a noção de
espécie. Tínhamos então, de um lado, o condicional com subjuntivo “Se x esti-
vesse dentro da água, dissolver-se-ia”; e, do outro, em termos de espécies. “Cada
uma das espécies que abrangem todas as coisas que em algum momento são imer-
sas em água e se dissolvem abrangem x”. Aqui equiparamos um exemplo de con-
dicional com subjuntivo a uma sentença sobre espécies. Não é difícil generalizar
a equivalência para que venha a cobrir uma classe significativa de condicionais
com subjuntivos: a forma “Se x fosse um F, então x seria um G” é equiparada
a “Cada espécie gue abrange todos os Fs que são Gs abrange x”. Note-se que
não se espera aqui que por si próprios os Fs constituam uma espécie; nem que
o façam os Gs; nem os Fs que são Gs. Mas, tomemos o menor número de coisas
possível que, quando acrescentadas aos Fs que são Gs, bastam para inteirar o
conjunto, de modo a formar uma espécie. Então, x será uma dessas poucas
coisas acrescentadas; é essa a interpretação que se obtém a partir do condicional
com subjuntivo “Se x fosse um F, então x seria um G”.
Podemos testar essa fórmula em outros exemplos e estudá-la visando, mais
geralmente, a um possível esclarecimento sobre os condicionais com subjuntivos.
Poderíamos assim ampliar de algum modo a nossa visão sobre esse estranho
idiomatismo. Lembremos entretanto que estamos ainda fazendo um emprego não
crítico da noção não reduzida de espécie. De novo, meu intuito é apenas o de
mostrar a conexão entre essas questões.
Outra noção obscura, que tem íntimas conexões com as disposições e os
condicionais com subjuntivos, é a noção de causa; veremos que também ela vem
dar na noção de espécie. Hume explicava a causa como uma sucessão inva-
riável e isso faz sentido enquanto causa e efeito forem referidos por meio de
termos gerais. Podemos dizer que fogo causa calor, querendo dizer com isso,
como teria feito Hume, que qualquer evento que puder ser classificado sob o
título de fogo será seguido por um evento que pode ser classificado sob o título
de calor ou de aquecimento. Mas essa versão, quaisquer que sejam as suas vir-
202 QUINE
tudes no caso desses enunciados gerais causais, deixa inexplicados os enunciados
causais singulares.
Que significa dizer que o que causou o incêndio de Chicago foi ter-se
derrubado um lampião no estábulo da sra. Leary? Isso não pode querer dizer
meramente que o evento no estábulo da sra. Leary pertence a um conjunto e
gue o incêndio de Chicago pertence a um conjunto, e que há uma invariável
sucessão entre os dois conjuntos: cada um dos membros de um dos conjuntos
é seguido por um dos membros do outro. Essa paráfrase é trivialmente ver-
dadeira e fraca demais. Pois, sempre que um evento é seguido por um outro, os
dois pertencem a certos conjuntos entre os quais há sucessão invariável. Podemos
forjar os conjuntos arbitrariamente. Para isso, basta pôr eventos arbitrários no
primeiro conjunto, incluindo o primeiro dos eventos que nos interessa; e, em
seguida, pôr no outro o segundo desses dois eventos, ao lado de outros que
tenham ocorrido de fato imediatamente depois dos outros membros do primeiro
conjunto.
Por causa dessa trivialização, um enunciado causal singular diz apenas
que um evento foi seguido pelo outro. Isto é, diz só isso, se empregarmos
a definição que acabamos de examinar; o que, por conseguinte, não deve
ser feito. A dificuldade que há com essa última definição é bem clara: é a
velha e conhecida dificuldade da promiscuidade dos conjuntos. Sendo mais
discriminadas aqui, como de hábito, as espécies nos permitem fazer distinções
que não podem ser feitas com conjuntos. Dizer que um evento causou um outro
é dizer que os dois são de espécies entre as quais há sucessão invariável. Se
essa correção não dá conta do que ocorreu com a vaca no estábulo da sra.
Leary, o único culpado é a própria sucessão invariável, enquanto nos dá uma
definição simples demais dos enunciados causais gerais; será preciso cercá-la
com uma série de cláusulas relativas a causas parciais ou contribuintes e a
muitas outras coisas mais. O problema da causalidade não é o aspecto que me
interessa nesse momento. O que eu queria mostrar era apenas a relevância da
noção de espécie, enquanto elo indispensável entre os enunciados causais sin-
gulares e gerais.
Vimos que a noção de espécie ou de similaridade é de relevância crucial
para a de disposição, para o condicional com subjuntivo e para os enunciados
causais singulares. Do ponto de vista científico essas são noções de reputação
bastante duvidosa. Tampouco a noção de espécie ou de similaridade é de boa
reputação. Todavia, constatou-se que uma noção desse tipo, um certo senso de
similaridade, é essencial para todo o aprendizado, e central, em particular, para
os processos de generalização indutiva e de predição que representam a vida
mesma da ciência. A ciência parece enlodada desde o seu âmago.
Todavia, poder-se-ia reivindicar para esse lodo uma certa e inegável
fecundidade. A ciência revela mistérios escondidos, prediz com sucesso e opera
maravilhas tecnológicas. Se isso é o que é próprio do lodo, mais merece ele
então ser prezado e apreciado do que permissivamente tolerado.
Na verdade, o lodo não é aqui a melhor imagem. Outra melhor é a
do progresso humano. Fiz notar anteriormente que um senso de similaridade
comparativa é um dos dotes animais do homem. Na medida em que bate certo
com as regularidades da natureza, possibilitando-nos um razoável sucesso, nas
nossas primitivas induções e expectativas, é de presumir que esse senso seja
um produto evolutivo da seleção natural. Em segundo lugar, como se fez notar,
o senso de similaridade, ou o sistema de espécies, de cada um de nós, desen-
"ESPÉCTES NATURAIS 203
volve-se, muda e torna-se até mesmo múltiplo, à medida que amadurecemos.
conduzindo-nos talvez a predições cada vez mais fidedignas. E, finalmente, sur-
gem padrões de similaridade engrenados à ciência teórica. Esse é um desen-
volvimento que vai do senso de similaridade imediato, subjetivo e animal até
a objetividade mais remota de uma similaridade determinada por hipóteses cien-
tíficas, supostos e construtos. No sentido último ou teórico, coisas são similares
na medida em que podem ser substituídas umas pelas outras enquanto partes
que são de uma máquina cósmica que nos é revelada pela ciência.
Esse progresso dos padrões de similaridade, ao longo dos anos de matu-
ração de cada um, é uma espécie de recapitulação, no plano individual, dos
progressos feitos pela raça a partir do lamaçal da selvageria. Mas, mesmo na
sua fase teórica, a noção de similaridade é em si ainda uma noção turva. Dela
não oferecemos nenhuma definição em termos científicos satisfatórios. Temos
naturalmente uma definição comportamental do que conta para um certo indi-
víduo como similar a algo, ou como mais similar a isso do que àquilo; temos
essa definição tanto para a antiga como para a nova similaridade, para a
humana assim como para a animal. Mas essa não é uma definição do que real-
mente significa para a ser mais similar a b do que a c; realmente, e independen-
temente desse ou daquele sujeito psicológico.
Será que metaforicamente já sugeri uma definição nesse sentido, quando
disse que coisas são semelhantes na medida em que podem ser substituídas umas
pelas outras enquanto partes da máquina cósmica? Mais literalmente, poderiam
certas coisas ser ditas similares na proporção da quantidade de teoria científica
que permaneceria verdadeira quando essas coisas fossem substituídas umas pelas
outras como objetos de referência da teoria? Isso apenas nos indica um rumo;
consideremos, por exemplo, a obscuridade da expressão “quantidade de teoria”.
Seja como for, esse não é um bom rumo; pois faria com que a similaridade de-
pendesse erradamente da teoria. Os juízos de similaridade de uma pessoa de
fato se apóiam e se devem apoiar na sua teoria, nas suas crenças; mas a simi-
laridade mesma, aquilo mesmo de que os juízos de alguém querem ser juízos.
pretende ser uma relação objetiva no mundo. Não é matéria que pertença à
nossa teoria da teorização sobre o mundo, ela pertence ao assunto da própria
teoria do mundo. Se pudesse ser bem definido, seria esse o tipo de conceito de
similaridade aceitável e bem reputado.
E ele vem sendo definido por pedaços: pedaços que convêm a ramos par-
ticulares da ciência. A seu modo, em várias frentes limitadas, o homem continua
a erguer-se da selvageria, desfazendo-se, peça por peça, da antiga e turva noção
de espécie ou de similaridade, um resquício aqui, outro ali. A química, que é
a própria ciência de origem da solubilidade-em-água, é um dos ramos que chegou
a esse estágio. A similaridade comparativa do tipo que importa para a química
pode ser diretamente formulada em termos químicos, isto é, em termos de com-
posição química. Dir-se-á que duas moléculas convêm, uma com a outra, se
contiverem átomos dos mesmos elementos nas mesmas combinações topológicas.
Então, em princípio, poderíamos chegar à similaridade comparativa dos objetos
a e b, considerando quantos pares há formados por uma molécula de a que con-
vém com uma de b, e quantos pares há formados por moléculas de a e b que
não convêm uma com a outra. À razão entre os dois resultados nos dá até
mesmo uma medida teórica de similaridade relativa, e explica assim fartamente
o que significa, para a, ser mais similar a b do que a c. Ou poderíamos preferir
complicar nossa definição, admitindo também graus para isso: as que tivessem
quase a mesma quantidade de átomos, ou ainda, aquelas cujos números ou pesos
atômicos fossem quase iguais, podiam ser contadas como moléculas que convêm
204 QUINE
entre si melhor do que certas outras. Em qualquer caso, um vigoroso conceito
de similaridade química está garantido.
Ademais, a partir desse último, um conceito igualmente aceitável de es-
pécie pode ser derivado pela definição do paradigma-e-contraste indicada an-
teriormente nesse trabalho. Pois agora trata-se apenas de destilar espécies
puramente químicas a partir de uma similaridade puramente química; não há
interferência de qualquer mesclagem de outros aspectos de similaridade. Exo-
neramos assim a solubilidade-em-água, cuja redução, da vez passada, não tora
além da noção não explicada de espécie. Com isso também o condicional com
subjuntivo a ela associado “Se isto fosse imerso em água, dissolveria” recebe alta.
Ironicamente, os mesmos avanços científicos que assim trouxeram um
sólido suporte para a definição da solubilidade em termos de espécie, tornaram
inútil esse tipo de definição, ao fornecer uma compreensão plena do mecanismo
da dissolução. A solubilidade-em-água pode ser redefinida por uma simples des-
crição das condições estruturais desse mecanismo. Esse embaraço de ricos, sus-
peito eu, é um resultado significativo. Ou seja, uma vez que podemos legitimar
um termo disposicional definindo o padrão de similaridade relevante, estamos
aptos a conhecer o mecanismo da disposição e, assim, a passar por cima da
similaridade, O que não implica que o padrão de similaridade não mais mereça
um esclarecimento, por sua própria conta ou em vista de outros propósitos.
Por motivos filosóficos ou por motivos científicos mais amplos, podemos
ser impelidos a procurar também um conceito de similaridade básico e absoluto,
ao lado de tais conceitos fragmentários de similaridade que convêm nos ramos
particulares da ciência. Essa tendência para um conceito de similaridade cósmica
pode talvez ser identificada com a tendência milenar de reduzir as coisas a seus
elementos. Ela resume o espírito científico, apesar de remontar ao tempo dos
pré-socráticos: a Empédocles com a sua teoria dos quatro elementos e, sobretudo,
a Demócrito com os seus átomos. A fisica moderna das partículas elementares,
ou dos amontoados no espaço-tempo, é um esforço, mais notável, nessa mesma
direção.
A idéia de racionalizar uma noção única de similaridade relativa, tomada
na sua inteira extensão cósmica, tem seus atrativos metafísicos. Mas restaria
ainda a necessidade de racionalizar a noção de similaridade de um modo mais
limitado e superficial, de tal maneira que viesse a capturar somente a simila-
ridade que fosse relevante para alguma ciência particular. Nosso exemplo da
química já é um caso desse tipo, posto que não desce a uma análise plena em
termos de nêutrons, elétrons e outras partículas elementares.
Um exemplo mais impressionante de superficialidade, no bom sentido in-
dicado, é dado pela taxonomia, digamos, na zoologia. Uma vez instruídos sobre
a evolução das espécies, estamos em condições de definir convenientemente uma
similaridade comparativa para essa ciência, considerando as árvores genealógicas.
Podemos empregar, como medida teórica do grau de similaridade de dois indiví-
duos animais, alguma função conveniente que dependa da proximidade e da
frequência de seus ancestrais comuns. Ou poderiamos empregar ainda um conceito
mais significativo de grau de similaridade, em termos de genes. Quando as
espécies são construídas em termos de um conceito de similaridade desse tipo, os
peixes, no sentido corrigido da palavra, no sentido que exclui as baleias, valem
como uma espécie, “o passo que isso não sé dá quando os mesmos são tomados
no sentido mais amplo.
Diferentes medidas de similaridade, ou noções de similaridade relativa, são
o que melhor convém a ramos de ciência diferentes; pois surgem desnecessárias
complicações quando são feitas gradações de similaridade relativa mais finas do
ESPÉCIES NATURAIS 205
que as relevantes para os fenômenos de que trata a ciência particular. Talvez os
ramos da ciência pudessem ser classificados de maneira reveladora, conside-
rando-se a noção de similaridade relativa apropriada a cada um deles. Esse
plano é uma reminiscência do chamado Eriangenprogramm de geometria, de Felix
Klein, que envolvia a caracterização dos vários ramos da geometria pela consi-
deração das transformações irrelevantes para cada um deles. Mas um ramo da
ciência só estaria em condições de ser reconhecido e classificado dentro de um
plano desse tipo, quando estivesse maduro a ponto de ter esclarecido sua noção
de similaridade. Além disso, tais ramos de ciência só poderiam ser ditos unifi-
cados, ou integrados na nossa sistematização abrangente da natureza, na medida
em que seus vários conceitos de similaridade fossem compatíveis, isto é, capazes
de ser entrosados e diferindo apenas quanto à finura de suas discriminações.
Naquelas áreas em que se dispõem de sensos apropriados de similaridade
e de espécie, os termos disposicionais e os condicionais com subjuntivos tornam-se
subitamente respeitáveis; respeitáveis e, em princípio, supérfluos. Noutros domií-
nios, eles continuam a ter má reputação e a ser praticamente indispensáveis.
Podem talvez ser encarados como traços não redimidos;, ainda está para chegar
a teoria que viria esclarecer em tais casos a inanalisada noção subjacente de
similaridade. Um exemplo disso é a disposição chamada inteligência — a capa-
cidade, para falar de modo vago, de aprender rapidamente e de resolver proble-
mas. Algum dia, em termos de proteínas, de colóides, de redes nervosas ou
de comportamento manifesto, o ramo de ciência em questão poderá atingir o
estágio em que será possível construir uma noção de similaridade capaz de tornar
respeitável até mesmo a noção de inteligência. E, ao mesmo tempo, supérflua.
Em geral, o fato de que um certo ramo de ciência não mais precise de uma
noção irredutível de similaridade e de espécie pode ser considerada como um
marco muito peculiar de sua maturidade. Esse é o estágio final, onde resquício
animal é totalmente absorvido dentro da teoria. Na carreira da noção de simi-
laridade, começando na sua fase inata, desenvolvendo-se ao longo dos anos à
luz da experiência acumulada, passando em seguida da fase intuitiva para a simi-
laridade teórica, para enfim desaparecer completamente, temos assim um para-
digma da evolução da não-razão até a ciência.
6. OBJETOS PROPOSICIONAIS
Usualmente, uma sentença declarativa é verdadeira ou falsa, Mas nossa
sentença declarativa típica não é verdadeira ou falsa de maneira fixa. Ela é
verdadeira numa ocasião e falsa numa outra, em razão dos tempos do seu verbo
e da variação de referência dos seus pronomes, advérbios de lugar e tempo ou
outras palavras indicativas. Incorporando na sentença informações adicionais,
tais como datas, nomes de pessoas e de lugares, podemos obter uma sentença
eterna: uma sentença que é verdadeira ou falsa, de maneira fixa. Assim, uma
sentença eterna não precisa ser uma let de matemática ou da natureza; pode ser
também o relato de um evento passageiro.
Ora, uma proposição é o significado de uma sentença. Mais precisamente.
é o significado de uma sentença cterna, desde que se supõe serem as proposições
verdadeiras ou falsas de uma vez para sempre. Mais precisamente ainda, é O
significado cognitivo de uma sentença eterna; isto é, exatamente aquela porção
do significado que afeta o valor de verdade da sentença e não a sua qualidade
poética ou o seu tom afetivo.
Não que isto seja preciso. A palavra “significado” é um sobrevivente na
minha explicação, e encobre uma multidão de fraquezas. Quando explico as
proposições como os significados cognitivos das sentenças eternas, estou dizendo
simplesmente qual é, dentre várias noções insatistatórias, aquela cujo problema
é aqui tratado.
Darei as razões pelas quais a noção de proposição, ou coisa análoga, pode
te parecido necessária e indicarei os obstáculos com que nos deparamos quando
queremos torná-la satisfatória. Vou trazer também para essa discussão outras
noções alvo aparentadas com a de proposição, e examinar se porventura podem
elas desempenhar certos papéis para os quais as proposições foram consideradas
necessárias. Foi por causa dessas outras noções que, em vez de dar ao meu tema
o simples título de “Proposições”, preteri o titulo mais vago de “Objetos Propo-
stcionais”. Tal como o concebo, o termo se aplica a qualquer coisa que possa
ser proposta como significado de sentença ou como objeto de atitude propo-
sicional.
A dificuldade que há com as proposições, enquanto significados cognitivos
de sentenças eternas, é a da individuação. Dadas duas sentenças eternas, visivel-
mente diferentes uma da outra enquanto formas lingiiísticas, não há clareza sufi-
ciente a respeito das circunstâncias em que cabe dizer que as duas significam
a mesma proposição. É nessa medida que as sentenças são entidades menos
dúbias do que as proposições.
L. J. Cohen vê as coisas de outro modo. Ele está disposto a aceitar signi-
ficados, em algum sentido, para desempenhar papéis proposicionais, mas não
se dispõe a admitir sentenças eternas para serem aquilo de que eles são os
208 QUINE
significados. “Não se pode esperar que sentenças de uma língua mantenham
seu valor de verdade invariante sob todas as circunstâncias”, escreve ele. ! O
que o preocupa é a mudança semântica na língua, de um tempo para outro ou
de locutor a locutor. Não se pode ignorar esse fator estipulando que se tem
em vista uma só e mesma língua, pois, diz ele, quando as formas verbais são
as mesmas, não há como decidir o que cabe considerar como discordância
doutrinal e o que vale como discordância lingiística.
Ora, essa observação me pode ser simpática; vejamos, no entanto, como
exatamente se relaciona com a noção de sentença eterna. Ela é relevante, certa-
mente quando se trata de saber, a respeito de uma sentença, se podemos contar
com que ela se mantenha aceita como verdadeira. Um homem pode mudar seu
veredito e podemos não saber se isso se explica por uma mudança de língua no
caso dado. Mas valor de verdade não é veredito. A semântica da verdade só
se liga ao comportamento verbal de uma maneira menos direta. Quando alguém
muda o seu veredito a respeito de uma sentença eterna, passando a negá-la,
digamos, o que é significativo é que ele sustentará também que, realmente, a
sentença sempre foi falsa; não dirá que seu veredito anterior também estava
correto e que agora está apenas diante de um caso diferente. Ele dirá que mudou
de opinião, ou poderá duvidar de haver tomado a posição anterior, ou talvez
diga que mudou de língua, isto é, que está empregando uma palavra de maneira
diferente.
É possível perceber a sutileza da questão quando se considera que uma
sentença pode até mesmo ser uma sentença eterna para um locutor num certo
momento, sem que o seja num outro. Talvez alguém possa imaginar um exemplo
natural para isso. Teria que ser eventualmente um caso de mudança lingiiís-
tica. E, ainda assim, teria sido correto dizer da sentença, na ocasião anterior,
que ela era verdadeira para sempre ou falsa para sempre. Enquanto sentenca
daquela língua, naturalmente.
Assim, Cohen poderia dizer com razão que saber se uma sentença é eterna
é questão que depende da língua considerada como língua à qual pertence a
sentença. Se houver uma língua em que a forma verbal “Está chovendo” signi-
fique “O ferro é um metal”, então, para essa língua, “Está chovendo” será
uma sentença eterna, enquanto para a nossa não é. Mas essa marca de relati-
vidade aplica-se tanto à eternidade das sentenças como à sua simples verdade.
Sabemos todos que os valores de verdade, aplicados às sentenças, dependem
de um parâmetro lingúístico; por um acidente fonético, uma sentença pode
ser verdadeira aqui e agora, enquanto sentença de uma língua, e falsa aqui
c agora, enquanto sentença de uma outra. A noção de sentença eterna não
é mais insatisfatória do que a de uma sentença sendo-verdadeira-aqui-e-agora.
Mas, é preciso dizer, isso já é por demais insatisfatório. Não me agrada a idéia
de um subscrito tácito na palavra “verdadeiro” ou “eterno” especificando a língua.
O embaraçante na noção de língua é que, para ela, assim como para a noção
mesma de proposição ou de significado, cujos problemas apontei, não se deu
nenhum princípio satisfatório de individuação. Um dos empregos dados às propo-
sições, que visava a evitar a relatividade às línguas, foi o que as tomava como
veículos de verdade: o que é verdadeiro ou falso, diz-se, são as proposições
e não as sentenças. Mas parece exorbitante recorrer a tais supostos, às propo-
sições, para atender a esse fim. Afinal, o ser verdadeiro ou falso não é algo
que dependa da maneira como as proposições são individuadas ao passo que
" É. J. Cohen, The Diversity of Meaning (Londres, Methuen, 1962), p. 232. (N. do A.)
OBJETOS PROPOSICIONAIS 209
disso depende a noção mesma de proposição. Em Word and Object (p. 208),
preferi, em consequência, tomar as próprias sentenças eternas como veículos de
verdade. Em todo caso, elas são melhores do que outras sentenças enquanto
são verdadeiras ou falsas independentemente de tempo, lugar, locutor e coisas
da espécie. Mas são tão insatisfatórias quanto as outras na medida em que
admitem variação de valor de verdade de uma língua para a outra.
Seja como for, o recurso às proposições para que sirvam como veículos
de verdade não resolve o problema. Dessa maneira o problema é simplesmente
abandonado.
Uma outra alternativa a considerar para veículo de verdade é o evento
concreto de elocução. Pergunto-me se poderemos estar de acordo com a afir-
mação de que não há evento desse tipo que seja bilíngie, mesmo se o locutor
for bilíngie e a forma verbal pertencer, por coincidência, a ambas as línguas
e tiver, nas duas, valores de verdade opostos. É possível que se ache que con-
ceder isso é assumir veladamente uma distinção inanalisada entre significados
na mente do locutor e que, nesse caso, também poderíamos aceitar esses signi-
ficados a título de proposições e dar a questão por encerrada. Scheffler, em
todo caso, tomou os eventos de elocução não como veículos de verdade, mas
como objetos de atitudes proposicionais, acreditando que dessa maneira estaria
evitando o problema da identificação da língua. º
Creio que o melhor a ser feito é encarar essa coincidência bilíngiie infini-
tamente rara simplesmente como uma elocução ambígua. Assim, o plano que
proponho agora é o de tomar como veículos de verdade não as sentenças eternas
mas os eventos de elocução de sentenças eternas: elocuções de sentenças que
são sentenças eternas para o locutor no momento dado; ou, para falar em termos
de língua, elocuções de sentenças que são sentenças eternas da língua que o
iocutor está falando no momento dado.
Mas os eventos de elocução, enquanto tomados como veículos de verdade,
apresentam uma nova dificuldade: a de haver apenas uma proporção finita €
por isso mesmo infinitesimal de nossas sentenças que vêm a ter elocução, mesmo
se o escrever contar como um fazer elocução. Leis como a de que duas falsi-
dades quaisquer formam uma alternação falsa e como a de que duas verdades
quaisquer formam uma conjunção verdadeira tornam-se difíceis de ser construí-
das, se a existência das elocuções for relevante. Parecíamos estar sendo levados,
nesse ponto, aos condicionais contrafatuais, saindo assim do fogo para dentro
da caldeira. Essa é uma dificuldade que não surgiu enquanto falamos em sen-
tenças, ou formas lingiiísticas, em vez de falar em eventos de elocução, pois
uma sentença pode ser pensada simplesmente como uma segiiência, não no sen-
tido histórico, mas no sentido matemático, de letras ou fonemas sucessivos. Nesse
sentido, sempre existirão sentenças, independentemente da elocução e além disso
não apenas vacuamente, como a classe vazia, se nos for permitido usar aqui um
pouco da teoria dos conjuntos.
Que fazer então com os eventos de elocução enquanto veículos de verdade?
Tenho duas idéias. A primeira é a de explicar a teoria lógica existente como um
esquematismo conveniente que pode ser aplicado para dar resultados corretos
quando se realizam as condições de existência apropriadas no que diz respeito
a elocuções. Essa idéia exigiria alguma elaboração. A segunda idéia é a de
deixarmos que as sentenças eternas continuem a ser, apesar de tudo, os veículos
de verdade, como eram em Word and Otject, tratando de encontrar apenas a
2 “An inscriptional approach to indirect quotation”, Analysis 14 (1954), 83-90, (N. do AJ)
210 QUINE
maneira de tolerar a dependência tácita da verdade e da eternalidade a um
parâmetro linguístico.
Minha sugestão é que se atribua a esse parâmetro, como valor, a língua
que o locutor está falando no momento em que o emprega tacitamente. Na ver-
dade, esse parâmetro dirigido para o ego não põe o preblema geral da indi-
viduação das línguas, não obstante assim possa parecer, dado o meu emprego
da palavra “língua”. Pois, como valor do parâmetro, é suficiente tomar a totali-
dade das presentes disposições verbais do locutor.
Disposições. De novo do fogo para a caldeira? Não creio. Estamos sempre
falando em disposições, até mesmo nos estudos mais empíricos do comporta-
mento verbal e, em geral, dos fenômenos naturais. Uma disposição de fazer algo
quando'se é estimulado de uma certa maneira é um mecanismo no interior de
um organismo, quer já esteja sendo compreendido mecanicamente ou não; e o
nome da disposição nos diz como colher evidência, de maior ou menor força
conclusiva, para a sua presença. E bem verdade que num momento dado não
podemos colher um grande número de evidências para o campo das dispo-
sições verbais de um locutor nesse momento. Podemos, no entanto, colher em
outros momentos muitas evidências relativas às suas disposições num momento
dado: evidências indiretas, a partir das quais raciocinamos, de acordo com gene-
ralizações e teorias psicológicas plausíveis no que diz respeito à persistência de
hábitos, entre outras coisas.
Isso quanto às proposições como veículos de verdade. Entretanto, uma
outra finalidade para a qual se pensou durante muito tempo que as proposições
eram necessárias foi a de servirem como objetos de atitudes proposicionais, como
crer, desejar, empenhar-se, lamentar, e semelhantes. Aqui o problema de indi-
viduação surge de maneira aguda. Com nossas próprias palavras, referimos a
crença previamente enunciada de alguém. Quais mudanças no fraseado terão
feito disso uma crença diferente, falsificando talvez a imputação que lhe fazemos
de ter essa crença? Aqui uma individuação mais do que fina não seria preju-
dicial: teríamos apenas crenças excessivamente discriminadas movendo-se em
feixes. Mas uma individuação demasiadamente grosseira traria prejuízos. Quanto
aos outros contextos, há alguns que são sensíveis em ambas as direções. Por
exemplo, suponhamos que eu diga ter renunciado a exatamente três crenças desde
a hora do almoço. Uma individuação demasiadamente grosseira poderia reduzir
esse número a dois, e uma mais do que fina elevá-lo a quatro.
Quanto a isso, é concebível que diferentes princípios de individuação, e
portanto diferentes sentidos de “proposição”, possam ser necessários para as dife-
rentes atitudes proposicionais. Há uma certa individuação de proposições, pro-
postas em certos contextos filosóficos, para a qual sentenças significam propo-
sições idênticas se e só se a bicondicional formada por essas sentenças for anali-
tica; e essa parece ser uma individuação demasiadamente grosseira para fins de
uma teoria da crença. No entanto, estou falando de uma maneira impressionista
porque não há, ao que eu saiba, nenhuma noção aceitavelmente clara de analiti-
cidade, para não falar em individuação de crenças.
Um fato desanimador concernente às atitudes proposicionais é que exata-
mente os obstáculos para uma individuação satisfatória de seus objetos são tam-
bém obstáculos para uma interpretação clara dos idiomatismos de atitude propo-
sicional, mesmo quando considerados à parte de seus objetos. Tomemos, por
exemplo, a crença. Se repudio crenças enquanto objetos, renuncio a dizer coisas
como “Deixei de acreditar numa coisa (ou em três coisas) desde a hora do
almoço”. Ainda assim, posso professar crenças, e imputá-las a pessoas, expli-
citamente, uma por uma. Ainda assim, posso dizer que acredito serem equilá-
OBJETOS PROPOSICIONAIS 21
teras as faces da Grande Pirâmide; posso dizer isso, embora negando que coisas
tais como que as faces da pirâmide são equiláteras existam, lado a lado com
coisas tais como eu, a pirâmide e suas faces. Mas, qual foi o nosso ganho com
o repúdio às crenças como objetos? O problema de saber se, ao acreditar que
as faces são equiláteras, estou ipso facto acreditando que os seus ângulos sejam
iguais faz corpo com o problema de individuação e continua a nos desafiar
mesmo quando as crenças são eliminadas como objetos.
Em Word and Object (p. 218) sugeri que a questão de saber até que ponto
podemos exprimir em outras palavras uma crença, sem perder o direito de impu-
tá-la à pessoa em causa, depende do propósito que temos ao fazer a imputação.
O mesmo vale para as outras atitudes proposicionais. Sendo esse o caso, não
há esperança de tradução geral dos idiomatismos de atitude proposicional para
outros termos mais objetivos. Conhecendo as circunstâncias, podemos em cada
caso particular ter condições de dizer algo em outros termos, que sejam auxi-
liares tão úteis quanto os primeiros nas transações de que nos ocupamos no
momento; mas não podemos esperar que se encontre qualquer equivalente verbal
de “a acredita que p”, mesmo para certos “a” e “p” dados, que seja independente
das circunstâncias nas quais se pode dizer que q acredita que p. À situação se
parece com a das palavras indicadoras: não se pode eliminar de uma sentença
as palavras indicadoras por uma paráfrase que não leva em conta a data e outras
circunstâncias de sua elocução. Assim, em Word and Object (p. 221) dei aos
idiomatismos da atitude proposicional um status de segundo grau, paralelo ao
das palavras indicadoras: o status de um vernáculo útil sem lugar algum no
instrumental austero da teoria científica.
Creio que nenhum de nós se sente incomodado por relegar as palavras indi-
cadoras a esse status, a despeito da sua utilidade. Compreendemos por que são
elas úteis, assim como por que não trazem enriquecimento algum ao vocabu-
lário das leis científicas. Podemos prever como faríamos para evitar as palavras
indicadoras, em cada circunstância particular. Contudo, sentimo-nos menos à
vontade quando se trata de relegar os idiomatismos de atitude proposicional.
Temos o sentimento de uma perda genuína.
Costumamos dizer, por exemplo, que o gato quer subir no telhado ou que
está com medo de que o cachorro o venha a machucar. Ao falar assim, estamos
talvez pretendendo relacionar o gato com um estado de coisas. O gato quer ou
teme estados de coisas. Seu querer ou temer é, decerto, questão estritamente fisio-
lógica e nossa evidência para tal é a nossa observação do seu comportamento
manifesto. Mas o domínio particular dos estados fisiológicos possíveis que pode-
riam ser contados como casos de um querer subir nesse telhado particular é
um domínio de estados forjado, que certamente não poderia ser encaixado em
nenhuma descrição anatômica manuseável, ainda que soubéssemos tudo sobre
gatos. Por sua vez, o domínio das sequências possíveis do comportamento mani-
festo que contariam como evidência de um querer subir nesse telhado particular
é um domínio forjado que não pode ser encaixado em nenhuma descrição com-
portamental compacta. Relações a estados de coisas, relações tais como querer
e temer, proporcionam certas maneiras muito especiais e aparentemente indispen-
sáveis de agrupar eventos no mundo natural.
Nossas dificuldades filosóficas quanto a eles surgiram talvez em parte da pers-
pectiva sentenciai de nossos idiomatismos de atitude proposicional. Todos esses
idiomatismos seguem o modelo da referência indireta e nos envolvem assim no
problema dos limites de variação permissível da sentença subordinada. Esse tipo
de problema de texto parece burlescamente irrelevante quando estamos tratando
de animais brutos; o que quer o gato é sua simples superposição com respeito
E QUINE
ao telhado, qualquer que seja o nome dado a isso. Será que podemos então
acomodar pelo menos alguns casos primitivos de atitudes proposicionais falando
em estados de coisas, em algum sentido desse termo que seja muito diferente
da idéia de proposição ou de sentença?
Comecemos imaginando um estado de coisas como uma classe de mundos
possíveis: a classe de todos os mundos possíveis nos quais, intuitivamente falando,
esse estado de coisas seria realizado. O que será então um mundo possível? Para
simplificar a questão aceitemos provisoriamente uma física antiquada segundo a
qual, como sustentava Demócrito, todos os átomos são homogêneos em subs-
tância e diferem apenas em grandeza, figura, posição e movimento. Suponhamos,
além disso, que o espaço seja euclidiano.
Ora, quando se concede tudo isso, para cada ponto no espaço restam apenas
dois estados possíveis: o ponto pode estar dentro de uma partícula ou pode ser
vazio. Cada distribuição desses estados sobre todos os pontos do espaço pode
ser vista, não ainda como um mundo possível, exatamente, mas como um pos-
sível estado de mundo momentâneo.
Tudo se passa como se estivéssemos tomando os possíveis estados de mundo
como descrições de estado no sentido carnapiano, nosso único predicado como
o predicado “ocupado”, e nossas constantes individuais como nomes dos pontos
do espaço. Mas não é bem assim. Uma das objeções contra as descrições de
estado é a de que cada indivíduo teria que ter um nome. Nossos indivíduos são
aqui os pontos do espaço e sabemos que não é possível nomear todos eles, pois
enquanto eles são não enumeráveis, os nomes são enumeráveis. O que há de
bom em tomar um estado de mundo possível como uma atribuição exaustiva
de “ocupado” ou “vazio”, de “sim” ou “não”, aos pontos do espaço é a possibi-
lidade de não ver a atribuição como uma descrição de estado; não é preciso
que ela seja verbal. O estado pode ser identificado simplesmente com o agregado
dos próprios pontos ocupados. Assim, cada porção do espaço, grande ou pequena,
compacta ou espalhada, pode ser tomada como um possível estado de mundo.
A realização desse estado de mundo consistiria no fato de haver matéria em
cada um desses pontos do espaço e em nenhuma outra parte.
Todavia, o que são pontos e o que é espaço? Estaríamos nós comprometidos
com duas espécies de indivíduos, a saber, pontos do espaço e porções da matéria?
Não, podemos evitar os pontos adotando um sistema de coordenadas e falando
em termos de números reais. Nossa ontologia só exigirá então porções de matéria,
como indivíduos, ao lado da superestrutura habitual de classes de indivíduos,
classes dessas classes e assim por diante. Os números reais têm seu lugar, como
é bem conhecido, no terceiro ou quarto andar desse edifício.
Nessa abordagem, um estado de mundo possível torna-se simplesmente uma
classe qualquer de ternos de números reais. A cada uma dessas classes é equipa-
rado aquilo que intuitivamente seria chamado de estado de mundo possível em
que há matéria exatamente naquelas posições dadas pelos ternos de números
da classe.
Passei por cima de uma forte razão para abandonar pontos em favor de
ternos de números. Há o desejo de economizar na ontologia; há o quebra-cabeça
sobre o que de outro modo um ponto poderia ser; mas há também algo ainda
mais compulsório, a relatividade da posição. A não ser que estivéssemos dispostos
a acreditar que a posição absoluta faz sentido, a idéia mesma de um ponto,
enquanto entidade de pleno direito, deve ser rejeitada não apenas como miste-
riosa, mas como absurda. E note-se que não estou falando aqui da relatividade
de Einstein; falo da de Leibniz. ;
Na verdade, ficamos ainda com um problema de relatividade da posição
OBJETOS PROPOSICIONAIS 213
quando abandonamos pontos em favor de ternos de números. A atribuição dos
números depende de uma escolha arbitrária de coordenadas; e essa escolha seria
arbitrária mesmo se a posição fosse, ela mesma, absoluta. Um estado de mundo
possível deveria continuar sendo o mesmo quando deslocamos ou rotacionamos
os eixos de coordenadas; contudo, isso faz com que mudem os ternos de números.
Assim, a versão segundo a qual um estado de mundo possível é uma classe
de ternos de números ainda está em dificuldades. Podemos superá-las galgando
mais um nível e preferindo tomar um possível estado de mundo como uma
classe de classes de ternos de números. Em vez de tomá-lo como uma classe
particular € de ternos, nós o tomamos como a classe de todas as classes nas
quais € pode ser transformada por translação ou rotação dos eixos de coorde-
nadas. Numa descrição figurativa, de novo em termos de pontos ao invés de
ternos, o que ocorreu é que em lugar de tomar um estado de mundo possível
como um conjunto de pontos, estamos tomando esse estado como a classe de
todos os conjuntos de pontos congruentes com um conjunto de pontos dado.
Assim nos erguemos acima da arbitrariedade da posição e da orientação
dos eixos de coordenadas. Tais coisas, fiz notar, teriam sido arbitrárias mesmo
se a própria posição fosse absoluta. Mas note-se agora que da nossa correção
resultou a relatividade desejada pelos dois motivos. Fazendo abstração das dife-
renças entre os eixos de coordenadas, essa correção não nos deixa aberto nenhum
caminho pelo qual pudéssemos vir a marcar posições absolutas, se assim quisés-
semos. Felizmente, não é esse nosso desejo. Caso acreditássemos no espaço
absoluto, talvez tivéssemos que aceitar um sistema de coordenadas qualquer,
ainda que reconhecidamente arbitrário, para ir de par com ele.
No pé em que estão as coisas, nossos novos estados de mundo possíveis se
encontram imunizados contra o espaço absoluto e as coordenadas arbitrárias.
Mesmo assim, a arbitrariedade se mantém num outro setor: o das unidades de
medir distâncias. A troca de pés por polegadas tem o efeito de multiplicar todos
os números dos nossos ternos de números por doze e de transformar assim o
nosso estado de mundo possível num outro, se um estado de mundo possível
for uma classe de classes de ternos de números, como foi por último concebido;
e isso é intolerável, desde que um estado de mundo possível decerto não se
deveria alterar efetivamente quando, em vez de ser feita em pés, sua descrição
é feita em termos de polegadas.
Eliminamos a arbitrariedade anterior tomando um estado de mundo pos-
sível não como uma classe de ternos C, mas como a classe de todas as classes
em que € poderia ser convertido por uma mudança de eixos. Podemos eliminar
agora o caráter arbitrário da unidade de medida por uma generalização ulterior,
tomando um estado de mundo possível como a classe de todas as classes na
qual uma classe C de ternos pode ser convertida por uma mudança de eixos e
pela multiplicação de todos os números por uma constante. Em linguagem geo-
métrica, estamos agora tomando um estado de mundo possível como a classe
de todos os conjuntos de pontos que são geometricamente similares a um con-
junto de pontos dado; em vez da congruência, ficamos agora com a mera simi-
Jaridade.
O grau anterior e menor de abstração, que se importava com a congruência,
eliminou, como vimos, não apenas a arbitrariedade dos eixos como também
qualquer vestígio de posição absoluta. Com isso nos regozijamos. De modo
semelhante, esse novo grau de abstração nos elimina agora não somente o
caráter arbitrário das unidades, de medida, mas também qualquer vestígio de
grandeza absoluta. Teríamos ido aqui longe demais? Se a grandeza for abso-
luta, se fizer sentido falar em um mundo no qual todas as coisas têm o dobro
214 QUINE
do tamanho e estão duas vezes mais longe do que no nosso, então foi demais
o que jogamos fora. Havíamos tomado as devidas providências para que a
mudança uniforme de todos os números se fizesse sem a mudança do estado
de mundo; procedendo assim tornamos irrelevante, como desejávamos, a escolha
das unidades, mas tornamos irrelevante também a grandeza absoluta indepen-
dente de unidades. Se isso for indesejável teremos talvez que dar meia-volta
para admitir afinal uma unidade de medida qualquer, confessadamente arbitrária.
Minha tendência, porém, é a de acolher a relatividade da grandeza, ou da
distância, tanto quanto a da posição. Conceda-se, por exemplo, que a massa
absoluta tenha, nas efetivas leis da física, um papel que a posição absoluta não
tem; mesmo assim poderíamos declarar haver em todas as partes uma mudança
uniforme na massa absoluta, fazendo uma mudança compensatória sistemática
nas próprias leis. Essa manobra combinada é ainda da mesma espécie verbal
vazia vista de costume como a que só leva um estado de mundo possível a esse
mesmo estado de mundo possível.
Muito bem, então: um estado de mundo possível é uma classe qualquer
cujos membros são todas as classes geometricamente similares a uma certa classe
de ternos de números. Por uma questão de brevidade, aplico o predicado geomé-
trico diretamente à classe de ternos de número: naturalmente, seu significado
propriamente algébrico pode ser decifrado.
Finalmente, um mundo possível pode ser explicado de um modo um tanto
semelhante, empregando, porém, quatro dimensões que representem o espaço-
tempo. Grosso modo, um mundo possível vem a ser qualquer classe cujos mem-
bros são todas as classes geometricamente similares a uma certa classe de quadras
de números. Mas não é exatamente assim. Num certo sentido, isso é muito
amplo, num outro, estreito demais. É demasiadamente amplo na medida em
que, enquanto no caso tridimensional queríamos admitir todas as rotações de
eixos, no quadridimensional queremos que o quarto eixo, o tempo, não possa
ser inclinado. Pois, lembremo-nos, estamos ainda no espaço-tempo pré-einstei-
niano. E isso é estreito demais na medida em que, enquanto no caso tridimen-
sional queríamos que só fosse permitido alterar os números por meio de um fator
constante, no quadridimensional contentamo-nos em deixar que a quarta coor-
denada, ou coordenada do tempo, seja multiplicada por um fator diferente daquele
das outras coordenadas. O ponto importante aqui é que, como ainda estamos
no espaço-tempo pré-einsteiniano, é-nos indiferente a quantidade de pés espaciais
geometricamente equiparados a um segundo no tempo. Em suma, ao passar de
uma explicação de estados de mundo possíveis em três dimensões para uma
explicação de mundos possíveis em quatro dimensões, modificamos a estipu-
lação da similaridade geométrica das duas seguintes maneiras: nós a fortale-
cemos, exigindo que as coisas preservem sua polarização com respeito à quarta
dimensão, e a relaxamos, admitindo um estiramento uniforme na quarta dimensão.
Essa explicação de mundos possíveis é baseada na visão de que todo mundo
possível tem matéria homogênea, espaço euclidiano e uma dimensão temporal
independente de um quadro de referência. Tais traços, sendo os de todos os
mundos possíveis, valem como necessários. A posição é discutível, visto que,
segundo se acredita, o mundo real carece de todos esses três traços.
Todavia, um dos aspectos favoráveis dessa versão de mundos possíveis está
no fato de que tem lugar dentro de uma clara ontologia extensional. Tenho a
esperança de que, permanecendo sempre dentro desses termos, possamos vir a
complicá-la a ponto de torná-la adequada à física corrente. Poderíamos esboçar
uma versão compatível com a física corrente e incompatível com os mundos
das espécies anteriores, ou, o que seria ainda mais difícil, chegar a uma versão
OBJETOS PROPOSICIONAIS 21
in
suficientemente ampla e neutra para cobrir tudo isso. Ambos os resultados repre-
sentariam uma decisão particular com respeito ao que conta como possível, no
sentido extra-lógico, e em certa medida arbitrário, do termo. Mas, por enquanto,
creio, não serão necessários grandes esforços para imaginar que os fatos da
física são daquela espécie mais caseira para a qual se dirigiu a minha versão
detalhada dos mundos possíveis. Essa é uma versão que podemos com facilidade
guardar em mente e que não será menos relevante para as nossas análises futuras
do que seria a versão mais sofisticada.
O que o gato quer é, então, um estado de coisas que é a classe de todos
os mundos possíveis nos quais ele está neste telhado. O que ele teme é a
ciasse de todos os mundos possíveis nos quais o cachorro o pega. Aquilo em
que acredito é a classe de todos os mundos possíveis nos quais a Grande Pirã-
mide tem faces equiláteras. Uma outra coisa em que acredito é a classe de todos
os mundos em que Cícero denunciou Catilina.
O problema da individuação que nos inquietara no caso das proposições
resolve-se satisfatoriamente para os estados de coisas. Os mundos em que as
faces da pirâmide são equiláteras são na verdade os mundos em que seus ângulos
são iguais; não há átomo algum que seja discrepante. Entretanto, surgem novas
dificuldades. Como haverá Catilina de ser identificado nos diversos mundos pos-
síveis? Será que é preciso que ele se tenha chamado “Catilina” em cada um des-
ses mundos, para poder contar? Até que ponto a sua vida pode diferir da vida
real de Catilina sem ele cessar de ser o nosso Catilina e ter que ser visto como
um outro homem que tem esse mesmo nome? Ou, ainda, até que ponto pode a
pirâmide diferir da pirâmide real? Se de fato minha crença a seu respeito estiver
errada, terá que haver algumas diferenças quanto à forma. Será suficiente, para
a sua identificação em outros mundos, o dado de ter sido construída por Queops?
E até que ponto, então, a vida desse último pode diferir da vida real de Queops,
sem que ele deixe de ser o nosso Queops?
Mesmo os exemplos com o gato apresentam dificuldades. Num mundo pos-
sível, com muitos gatos, cachorros e telhados similares, que gato haverá de ser
o nosso? Num desses mundos possíveis haverá um gato semelhante a ele em
cima de um telhado semelhante ao dele, e num outro, um gato semelhante a
ele, nas presas de um cachorro; pertencerá ele tanto ao estado de coisas desejado
como ao temido?
Os exemplos do gato sugerem que, ao fazer abstração da localização
particular dos eixos de coordenadas, fui longe demais. Talvez tenhamos que
manter fixa a origem, admitindo assim a rotação dos eixos mas não o seu deslo-
camento. Então, é possível identificar aquele que tem a atitude proposicional co-
mo o organismo que está no ponto-origem. Isso não dará conta do exemplo de
Cícero-Catilina, nem ao exemplo da pirâmide, mas servirá nos exemplos do gato.
Cada um dos mundos possíveis apropriados para os exemplos do gato terá seu cen-
tro ou origem no meio do gato — digamos, no centro de gravidade da sua glându-
la pineal. O gato não permanecerá na origem espacial durante todo o tempo; isto
é, não ficará sempre colado ao eixo do tempo. Mas, no tempo O, estará na ori-
gem espacial e isso o identificará como o gato que tem a atitude proposicional.
O que obtivemos agora é o que poderia ser chamado de estados de coisas
centrados. Cada um deles é uma classe de mundos centrados possíveis. Cada
mundo centrado possível é a classe de todas as classes de quadras de números
que podem ser obtidas a partir de uma certa classe de quadras de números, mul-
tiplicando-se os primeiros três números por um fator constante, multiplicando-se
o quarto número por uma constante talvez diferente e fazendo-se as operações
que correspondem à rotação dos primeiros três eixos. Note-se que o eixo do tem-
216 QUINE
po permanece agora fixo; pois antes ele já devia ser mantido sem inclinação €
agora proibimos o deslocamento de qualquer dos eixos.
Assim, estou sugerindo que os objetos de atitudes proposicionais, em alguns
casos primitivos tais como os dos exemplos relativos ao gato, possam ser tomas
dos como estados de coisas centrados. Isso não cobre os exemplos não egocên-
tricos, como o da crença sobre Cícero e o da pirâmide, e não sei dizer se isso
pode ajudar a abrir uma via de acesso a eles. Em todo caso, as atitudes propo-
sicionais egocêntricas, as do querer ou do esperar, do temer ou do tentar, de ter
expectativas de estar em alguma espécie de situação física, parecem ser as mais
primitivas; e essas estão cobertas. Talvez sejam elas as únicas das quais se pode
dizer que são atitudes que o animal bruto tem; creio que as outras pressupõem
a linguagem.
Contudo, se for o caso de lidarmos apenas com atitudes proposicionais ego-
cêntricas, poderia parecer que mesmo esses estados de coisas centrados incorpo-
ram um grande território desnecessário. Se o animal humano ou felino aqui
considerado estiver atitudinizando * estritamente sobre o que poderia atingi-lo,
então, em vez de levar em conta todas as possibilidades de estar ocupado qu
vazio por parte de todos os pontos do espaço-tempo, poderemos igualmente limi-
tar nossa atenção à superfície de nosso animal autocentrado e levar em conta
apenas as possibilidades de ativação e de não-ativação de seus múltiplos terminais
nervosos. Em suma, as possibilidades da entrada sensorial. Podemos limitar nos-
sas atenções ao organismo, deixando que o restante do mundo siga o seu cami-
nho, e o organismo continuará sabendo tanto quanto já sabia antes. Salvando -a
superfície, salvamos tudo. Ativemos sua superfície, esfreguemos suas costas, e o
organismo não pedirá nada mais.
Por conseguinte, em vez de uma distribuição cósmica de escolhas binárias
(ocupado vs. vazio) sobre os pontos do espaço-tempo, o que temos que conside-
rar é uma disposição de escolhas binárias, (ativado vs. trangiilo) sobre os recep-
tores sensoriais do nosso animal-alvo. Cada uma dessas distribuições é um mundo
possível nesse nosso novo sentido — ou, para dar-lhe um melhor título, um
padrão de estimulação. Podemos tomar então, como objeto da atitude proposi-
cional, em vez de um estado de coisas no sentido de um domínio de mundos pos-
síveis que exibem o gato no telhado, um domínio de padrões de estimulação que
vão de par com o seu estar no telhado. Padrões de estimulação do próprio gato.
Um domínio de mundos possíveis era um estado de coisas. Mas o que é um
domínio de padrões de estimulação? É o que chamei, em Word and Object, um
significado-estímulo afirmativo; ou, digamos agora apenas, um significado-estímu-
lo. Em Word and Object falei dos significados-estímulos de sentenças ocasionais;
o significado-estímulo de “está chovendo” é o domínio dos padrões de estimula-
ção que incitariam um locutor da língua a assentir, se solicitado, a “Está cho-
vendo”. E agora, esses mesmos significados-estímulos — esses mesmos domínios
de padrões de estimulação, embora não necessariamente distribuídos pelas senten-
ças, estão de volta como objetos de atitudes proposicionais egocêntricas dos ga-
tos e de outros.
Agrada-me tal efeito de vincular espécies. Afinal, a associação de uma sen-
tença de observação com um significado-estímulo é a fase mais primitiva da lin-
guagem. É o que a criança faz em primeiro lugar, no curso da aquisição da lin-
guagem, e é isso que é necessariamente a vereda de entrada do lingiista de
campo na tradução radical. Os significados-estímulos estão aí para serem signi-
3 Arritudinizing. (N. do T.)
OBJETOS PROPOSICIONAIS 217
ficados por sentenças, alguns deles, quando as sentenças ocorrem junto com eles.
E também estão aí como objetos para as atitudes proposicionais egocêntricas,
quer os atitudinistas sejam humanos ou felinos. Não ofereço nenhuma teoria da
imagem mental aplicável a gatos ou a pessoas. Simplesmente, fico encan-
tado com qualquer indicação, por mais fraca que seja, de um tratamento comum.
Observemos também que reencontramos uma reminiscência de uma fase
anterior de nossas considerações. As proposições foram pensadas como signifi-
cados de sentenças e também como objetos de atitudes proposicionais. Aí estão
agora nossos significados-estímulos funcionando ao mesmo tempo como signifi-
cados de certas sentenças e como objetos de certas atitudes proposicionais. Entre-
tanto, a distância entre os -significados-estímulos e as proposições, no sentido de
significados de sentenças eternas, é a maior possível. Num uso razoável de “signi-
ficado”, eles são significados apenas de sentenças observacionais.
Como quer que tenhamos apreciado a relegação dos idiomatismos de atitu-
des proposicionais ao status de vernáculos de segunda classe, podemos ter a cer-
teza de que uma certa noção de significado-estímulo se faz necessária no mais
austero nível científico. Se os significados-estímulos são objetos apropriados para
as atitudes proposicionais primitivas, então as atitudes proposicionais primitivas
ficam garantidas quanto a terem objetos. Pois, obviamente, qualquer tratamento da
linguagem como um fenômeno natural deve começar pelo reconhecimento de
que certas locuções são ajustadas a domínios de padrões de estimulação senso-
rial; e esses domínios são aquilo mesmo que os significados-estímulos são.
E, ainda assim, há algo que nos preocupa no detalhe da noção básica de
padrão de estimulação. Parece ser de vital importância que, ao correlacionar o
comportamento verbal de um sujeito com o do outro, por exemplo, enquanto
base para a tradução de uma língua numa outra, sejamos capazes de equiparar
a estimulação de um sujeito com a do outro. Porém, que fazer para tanto? Se
construirmos os padrões de estimulação ao meu modo, não poderemos equipará-
los sem supor uma homologia dos receptores; e isso é absurdo, não apenas por-
que a plena homologia é implausível, mas também porque ela certamente não
deveria importar.
O problema é recalcitrante, mesmo na teoria dos computadores. Que signi-
fica dizer que duas máquinas receberam a mesma entrada? Naturalmente, não
estou falando aqui do caso em que elas compartilham a energia de entrada, mas
da plena similaridade dos dois eventos de entrada para as duas máquinas, quando
elas são diferentes uma da outra. Digamos que são enviados sessenta volts a cada
máquina. Significará isso que as entradas são as mesmas? Que ocorre se, numa
máquina, o primeiro efeito da eletricidade for o de acionar um motor e, na outra,
o seu primeiro efeito for o de tornar sensível uma célula foto-elétrica? Em parte,
a questão é a de saber até que ponto podemos acompanhar a entrada dentro da
máquina, continuando a chamar isso de entrada. E, sem dúvida, para essa ques-
tão não há resposta. Na prática, definimos a entrada para uma máquina particu-
lar de tal maneira que a nossa teoria de programação dessa máquina fique sim-
plificada, e então podemos dizer, para máquinas desse modelo, o que quer dizer
terem elas a mesma entrada; mas não podemos ir muito além disso.
O que os psicólogos têm dito a respeito da estimulação, na maioria dos ca-
sos é ou independente de qualquer equiparação da estimulação de sujeito a su-
jeito, ou envolve apenas a equiparação de certas estimulações específicas, sem
que seja posto o problema geral. É quando nos voltamos para a teoria da
linguagem que o problema se torna agudo. Sendo social, a linguagem depende
da associação de elocuções com estimulações que podem ser publicamente identi-
ficadas nas suas recorrências de ocasião em ocasião e de locutor para locutor.
218 QUINE
O que conta é a estimulação na superfícic corpórea, não apenas a existência
objetiva dos objetos de referência distantes no espaço nem tampouco os eventos
profundos no interior do corpo. Mesmo uma mãe primitiva, ao encorajar ou de-
sencorajar o emprego, feito por uma criança, de uma palavra numa dada ocasião,
considerará se o objeto relevante é visível a partir do lugar onde se encontra a
criança. E mesmo uma mãe altamente civilizada se contenta, sem ir além da su-
perfície da criança, quando, diante dos dados da última, checa o seu testemunho.
A superfície corpórea poderia parecer assim ser a melhor fronteira que se pode
tomar na definição da entrada, para atividades que em algum momento estejam
sujeitas ao ajuste social, assim como a linguagem. E contudo quando chegamos
à tarefa aparentemente essencial de dizer em que consiste uma estimulação seme-
lhante de dois seres humanos, entramos no emaranhado do mito dos terminais
nervosos homólogos. Que faremos quando chegarmos a Marte? Será que pelo
simples tato de não podermos, nós e os marcianos, equiparar nossos terminais ner-
vosos, deveremos perder as esperanças de estabelecer relações entre as nossas
linguas?
Há aqui uma estranha ironia. Inquietávamo-nos quanto ao sentido científico
que pode ser dado aos idiomatismos mentalistas de atitudes proposicionais e
agora parecemos incapazes até mesmo de esclarecer o ABC da psicologia beha-
viorista; somos detidos pela noção de estímulo.
Naturalmente, a dificuldade real está na equiparação intersubjetiva das esti-
mulações. Não me parece errado definir a estimulação sensorial de uma pessoa
num certo tempo como o acionamento, nesse tempo, de uma subclasse inteira
de seus receptores sensoriais. Também não acho que seja crrado definir um
padrão de estimulação dessa pessoa simplesmente comc uma subclasse de seus
receptores sensoriais; a realização desse último é nesse caso a estimulação que
consiste na ativação de todos os receptores dessa subclasse e só deles. Entretanto,
quando passamos para o domínio do intersubjetivo, o máximo de que se pode
falar realisticamente é talvez de semelhança, mas não de identidade de padrões
de estimulação. Talvez todos os padrões de estimulação devessem ser vistos co-
mo próprios aos sujeitos individuais e comportando semelhanças intersubjetivas,
na inelhor das hipóteses, semelhanças baseadas em homologias aproximativas
dos terminais nervosos. Talvez a relação de sinonímia-estímulo intersubjetiva en-
tre sentenças observacionais possa ser redefinida em termos de semelhança de
significados-estímulos, em vez de ser em termos de identidade dos mesmos. E fi-
nalmente, em termos de uma quase homologia dos terminais nervosos. Mas isso
parecerá decerto um enorme circunlóquio.
Todas essas considerações de homologia são gritantemente teóricas. Na prá-
tica, fazemos com que seja garantida uma adequada similaridade entre estimula-
ções de dois sujeitos, tomando providências para que seus corpos sejam atingidos
por fogos de barragens similares vindos de forças exteriores, para que os sujeitos
sejam orientados de maneira semelhante em relação às fontes de estímulo e, tal-
vez, para que os seus olhos fiquem abertos. Nesses termos, podemos até mesmo
comparar um homem e um marciano, sem jamais termos das homologias uma
idéia que vá além do pouco que pode vir a ser exigido a fim de decidirmos quan-
to à maneira apropriada de orientar o marciano para as fontes de estímulo.
O marciano, na verdade, pode nos trazer dificuldades reagindo a forças pe-
rante as quais o homem fica sem resposta e vice-versa. O que conta é o aciona-
mento de um receptor, e essa é a razão pela qual a equiparação das estimulações
para dois sujeitos continua a suscitar considerações sobre a homologia, quando
tentamos construir uma teoria explícita. Nosso procedimento rudimentar de dar
aos dois sujeitos uma orientação similar para fontes de forças similares funciona
OBJETOS PROPOSICIONAIS 219
bem na prática, felizmente para nós. É por causa da semelhança anatômica en-
tre os humanos que ele funciona bem. Se não fossem essas similaridades a pró-
pria linguagem poderia não se ter propagado. Deixo vocês, portanto, com um
problema de formulação teórica que não traz consigo nenhum evidente problema
prático. Trata-se do problema de formular, de modo geral, o que significa dizer
que dois sujeitos recebem a mesma estimulação ou, caso falhe essa tentativa, o
que significa dizer que dois sujeitos recebem mais aproximadamente a mesma esti-
mulação que outros dois.
W VY QUINE
DE UM PONTO
DE VISTA
LÓGICO:
Tradução de Luis Henrique dos Santos (Sobre o que Há), Marcelo Guimarães da Silva Lima
(Dois Dogmas do Empirismo) e João Paulo Monteiro (Identidade, Ostensão, Hipóstase)
* Traduzido do original inglês: From a Logical Point of View, Cambridge, Mass., 1953, Harvard University
Press. Desse texto são extraidos os ensaios acima citados, que constituem os três primeiros capítulos. (N.
do E.)
SOBRE O QUE HA*
Um aspecto curioso do problema ontológico é sua simplicidade. Ele pode
ser formulado com três monossílabos portugueses: “O que há?” Além disso,
pode ser resolvido com uma palavra -—— “Tudo” — e todos aceitarão essa
resposta como verdadeira. No entanto, isso é simplesmente dizer que há o que
há. Resta margem para desacordo em situações particulares; e assim a questão
permaneceu de pé pelos séculos.
Suponhamos que dois filósofos, McX e eu, discordem em ontologia. Supo-
nhamos que McX sustente haver algo que eu sustente não haver. McX pode,
inteiramente de acordo com seu próprio ponto de vista, traçar nossa diferença
de opinião dizendo que eu me recuso a reconhecer certas entidades. Devo, natu-
ralmente, objetar que sua formulação de nosso desacordo não é correta, pois
sustento não haver nenhuma entidade, da espécie que ele alega, para que eu
as reconheça; mas julgar incorreta sua formulação de nosso desacordo é irrele-
vante, pois de qualquer modo sou obrigado a considerar sua ontologia incorreta.
Quando, por outro lado, tento formular nossa diferença de opinião, parece
que me vejo em embaraço. Não posso admitir que há coisas que McX sustenta
e eu não, pois, ao admitir que há tais coisas, eu estaria contradizendo minha
própria rejeição delas.
Seguir-se-ia, se esse raciocínio fosse sólido, que em toda disputa ontoló-
gica quem defende a parte negativa sofre a desvantagem de não poder admitir
que seu oponente dele discorda.
Esse é o velho enigma platônico do não-ser. O não-ser deve em algum
sentido ser, caso contrário o que seria aquilo, que não é? Essa doutrina emara-
nhada pode ser apelidada de a barba de Platão; historicamente provou-se obsti-
nada tirando frequentemente o fio da navalha de Occam.
E uma tal linha de pensamento que conduz filósofos como McX a atribuir
ser onde, de outro modo, se contentariam em reconhecer que não há nada.
Assim, tomemos Pégaso. Se Pégaso não fosse, argumenta McX, não estaríamos
falando de nada quando usamos essa palavra; portanto, não teria sentido dizer
nem mesmo que Pégaso não é. Acreditando ter assim mostrado que a negação
de Pégaso não pode ser coerentemente mantida, conclui que Pégaso é.
McX não pode, na verdade, persuadir-se de todo de que alguma região
do espaço-tempo, próxima ou remota, contenha um cavalo alado de carne e
osso. Instado a fornecer mais pormenores acerca de Pégaso, diz então que é
uma idéia nas mentes dos homens. Aqui, entretanto, começa a se tornar evidente
* Traduzido do original inglês “On What There is”, in From a Logical Point of View, Har-
per & Row, Nova York, 1963, pp. 1-19.
224 QUINE
uma confusão. Podemos, para argumentar, conceder que haja uma entidade,
e mesmo uma única entidade (embora de fato isso seja pouco plausível), que
seria a idéia-mental-Pégaso; mas não é dessa entidade mental que se está falando
quando se nega Pégaso.
McX nunca confunde o Partenon com a idéia-Partenon. O Partenon é físico;
a idéia-Partenon é mental (ao menos de acordo com a versão de McX a respeito
de idéias, e não tenho nenhuma melhor para oferecer). O Partenon é visível;
a idéia-Partenon é invisível. Dificilmente poderíamos imaginar duas coisas mais
diferentes e menos propensas a serem confundidas do que o Partenon e a idéia-
Paternon. Mas, quando passamos do Partenon para Pégaso, a confusão instala-se
— pela simples razão de que McX se deixaria tapear pela fraude mais grosseira
e evidente antes de conceder o não-ser de Pégaso.
Vimos como a idéia de que Pégaso deva ser, porque, caso contrário, não
teria sentido dizer nem mesmo que Pégaso não é, levou McX a uma confusão
elementar. Mentes mais sutis tomando do mesmo preceito como ponto de par-
tida, aparecem com teorias sobre Pégaso cujos defeitos são menos patentes, e
proporcionalmente mais difíceis de erradicar. Uma dessas mentes mais sutis
chama-se, digamos, sr. Y. Pégaso, afirma o sr. Y, possui ser na qualidade de
possível não realizado. Quando falamos de Pégaso e dizemos que não há tal
coisa, estamos dizendo, mais precisamente, que Pégaso não possui o atributo
específico da realidade. Dizer que Pégaso não é real é algo logicamente análogo
a dizer que o Partenon não é vermelho; em ambos os casos afirmamos algo
de uma entidade cujo ser não se questiona.
O sr. Y, a propósito, é um destes filósofos que se uniram para arruinar
a boa e velha palavra “existir”. A despeito de sua adesão a possíveis não reali-
zados, ele limita a palavra “existência” à realidade — preservando assim uma
aparência de acordo ontológico entre ele e nós, que repudiamos o resto de seu
denso universo. Todos nós tendemos sempre a afirmar, empregando “existir”
conforme o senso comum, que Pégaso não existe, querendo dizer simplesmente
que não há, de modo algum, uma tal entidade. Se Pégaso existisse, estaria certa-
mente no espaço e no tempo, mas apenas porque a palavra “Pégaso” tem cono-
tações espaço-temporais, e não porque “existe” tenha conotações espaço-tem-
porais. Se falta referência espaço-temporal quando afirmamos a existência da
raiz cúbica de 27, isso ocorre simplesmente porque uma raiz cúbica não é uma
espécie de coisa espaço-temporal, e não porque empreguemos ambiguamente
“existir”! O sr. Y, contudo, num esforço mal-intencionado para parecer agra-
dável, gentilmente nos concede a inexistência de Pégaso e, em seguida, contra-
riamente ao que nós entendemos por inexistência de Pégaso, insiste em que
Pégaso seja. Existência é uma coisa, diz ele, e subsistência é outra. A única
maneira que conheço de fazer frente a esse emaranhado de problemas é dar
ao sr. Y a palavra “existir”. Tentarei não usá-la novamente; disponho ainda
de “ser” e “haver”. E basta de lexicografia; voltemos à ontologia do sr. Y.
Q super-habitado universo do sr. Y é, por muitos aspectos, desagradável.
Ele ofende o senso estético dos que, como nós, têm uma queda por paisagens
1 A tendência a distinguir terminologicamente entre existência enquanto aplicada a objetos
realizados em algum ponto do espaço-tempo e existência (ou subsistência, ou ser) enquanto
aplicada a outras entidades surge em parte, talvez, da idéia de que a observação da natureza
seja relevante apenas para questões de existência de primeira espécie. Mas esta idéia é
prioritariamente refutada por contra-exemplos como “a razão entre o número de centauros
e o número de unicórnios”. Se houvesse uma tal razão, ela seria uma entidade abstrata, a
saber, um número. Entretanto, é apenas investigando a natureza que concluímos ser zero
tanto o número de centauros quanto o de unicórnios e, portanto, não haver uma tal raiz
SOBRE O QUE HA
to
14
ts
desertas, mas isso não é o pior. O cortiço de possíveis do sr. Y é um terreno
propício à proliferação de elementos desordeiros. Considere-se, por exemplo,
o homem gordo possível no umbral daquela porta; e agora o homem calvo
possível no umbral daquela porta. São eles o mesmo homem possível ou dois
homens possíveis? Como decidir? Quantos homens possíveis há no umbral daquela
porta? Há mais magros do que gordos possíveis? Quantos deles são semelhantes
Ou o fato de serem semelhantes torna-os um único? Duas coisas possíveis nunca
são semelhantes? Isso é o mesmo “que afirmar ser impossível que duas coisas
sejam semelhantes? Ou, finalmente, é o conceito de identidade simplesmente
inaplicável a possíveis não realizados? Mas que sentido há em falar de entidades
que não podem significativamente ser ditas idênticas a si mesmas e distintas uma
da outra? Esses elementos são praticamente incorrigíveis. Por meio de uma terapia
fregiana de conceitos individuais? poder-se-ia fazer uma tentativa de reabili-
tação; mas pressinto que o melhor seja simplesmente remover o cortiço do sr. Y
e esquecê-lo.
A possibilidade, assim como as demais modalidades da necessidade, impos-
sibilidade e contingência, coloca problemas aos quais não pretendo sugerir que
devamos dar as costas. Mas podemos ao menos restringir as modalidades a
enunciados globais. Podemos impor o advérbio “possivelmente” a um enunciado
global e podemos perfeitamente preocupar-nos com a análise semântica dessa
construção; mas é de esperar um pequeno progresso efetivo nessa análise
por expandirmos nosso universo a fim de nele incluir as chamadas entidades
possíveis. Suspeito que o principal motivo dessa expansão seja simplesmente a
velha idéia de que Pégaso, por exemplo, deva ser, porque caso contrário não
teria sentido dizer nem mesmo que ele não é.
Ainda mais, toda a riqueza e exuberância do universo de possíveis do sr. Y
pareceria reduzir-se a nada ao modificarmos um pouco o exemplo e falarmos
não de Pégaso, mas da cúpula redonda e quadrada do Berkeley College. Se, a
menos que Pégaso fosse, não tivesse sentido dizer que ele não é, então, pelo
mesmo motivo, a menos que a cúpula redonda e quadrada do Berkeley College
tosse não teria sentido dizer que ela não é. Mas, ao contrário de Pégaso, a
cúpula redonda e quadrada do Berkeley College não pode ser admitida nem
mesmo como um possível não realizado. Podemos agora obrigar o sr. Y a admitir
também um reino de impossíveis não realizados? Nesse caso, um bom número
de questões embaraçosas poder-se-ia levantar a seu respeito. Poderíamos inclu-
sive esperar que o sr. Y fosse apanhado em contradições, levando-o a admitir
que algumas dessas entidades são ao mesmo tempo redondas e quadradas. Mas
o esperto sr. Y escolhe a outra parte do dilema e concede que não tem sentido
dizer que a cúpula redonda e quadrada do Berkeley College não seja. Ele diz
que a expressão “cúpula redonda e quadrada” é assignificativa.
O sr. Y não foi o primeiro a abraçar essa alternativa. A doutrina da assig-
nificatividade das contradições remonta ao passado. A tradição sobrevive, além
disso, em autores que parecem não compartilhar de nenhuma das motivações
do sr. Y: Ainda assim, fico imaginando se não foi essencialmente a mesma moti-
vação observada no sr. Y que pela primeira vez instigou a uma tal doutrina.
Ela não dispõe, certamente, de nenhum atrativo intrínseco; e conduziu seus
adeptos a extremos tão quixotescos quanto o de contestar o método de prova
2 Cf. Quine. From a Logical Point of View, Harper & Row, Nova York. 1963, p. 152.
226 QUINE
por reductio ad absurdum — atitude em que pressinto uma reductio ad absurdum
da própria doutrina.
Além disso. a doutrina de assignificatividade das contradições apresenta a
séria desvantagem metodológica de tornar impossível, por princípio, que algum
dia se elabore um teste efetivo de significatividade. Não nos seria jamais possível
arquitetar meios sistemáticos para decidir se uma cadeia de sinais faz sentido —
mesmo para cada um de nós individualmente, deixando-se os outros de lado —
ou não. Isso porque se segue de uma descoberta de Church º em lógica mate-
mática que não pode haver nenhum teste de contraditoriedade geralmente apli-
cável.
Referi-me desairosamente à barba de Platão e insinuei que ela é emara-
nhada. Estendi-me longamente sobre os inconvenientes de sustentá-la. É hora
de pensar em medidas positivas.
Russell, em sua teoria das chamadas descrições singulares, mostrou clara-
mente como podemos empregar significativamente nomes aparentes sem supor
que haja as entidades supostamente nomeadas. Os nomes a que a teoria de
Russell diretamente se aplica são nomes descritivos complexos, tais como “o
autor de Waverley”, “o atual rei da França”, “a cúpula redonda e quadrada do
Berkeley College”. Russell analisa tais expressões sistematicamente como frag-
mentos das sentenças globais onde ocorrem. A sentença “O autor de Waverley
foi um poeta”, por exemplo, é globalmente interpretada como significando
“Alguém (ou melhor: algo) escreveu Waverley e foi um poeta, e nada mais
escreveu Waverley”. (O objetivo dessa oração adicional é o de afirmar a unici-
dade que está implícita na palavra “o”, em “o autor de Waverley”.) A sentença
“A cúpula redonda e quadrada do Berkeley College é rosa” é interpretada como
“Algo é redondo e quadrado e é uma cúpula do Berkeley College e é rosa, €
nada mais é redondo e quadrado e uma cúpula do Berkeley College”. *
A virtude dessa análise consiste em que o nome aparente é parafraseado
no contexto, como um chamado símbolo incompleto. Nenhuma expressão inde-
pendente se oferece como uma análise de expressão descritiva, mas o enunciado
como um todo, que era o contexto dessa expressão, mantém ainda sua cota
integral de significado — seja ele verdadeiro ou falso.
O enunciado não analisado “O autor de Waverley foi um poeta” contém
uma parte, “o autor de Waverley”, que McX e o sr. Y incorretamente supõem
exigir referência objetiva para ser de alguma maneira significativa. Mas, na
tradução de Russell, “Algo escreveu Waverley e foi um poeta e nada mais
escreveu Waverley”, o fardo da referência objetiva, que se havia posto sobre
a expressão descritiva, é agora assumido por palavras do tipo daquelas que os
lógicos chamam de variáveis ligadas, variáveis de quantificação, a saber, palavras
como “algo”, “nada”, “tudo”. Essas palavras, longe de pretenderem ser nomes
especificamente do autor de Waverley, não pretendem absolutamente ser nomes;
referem-se a entidades em geral, com uma espécie de ambigiiidade intencional
que lhes é peculiar. * Essas palavras quantificacionais ou variáveis ligadas cons-
tituem naturalmente uma parte básica da linguagem e sua significatividade, ao
menos em contextos, não deve ser contestada. Mas sua significatividade de modo
—
E
3 Cf. Church, “A note on the Entscheidungsproblem”, Journal of Symbolic Logic 1, 1936,
“pp. 40 ess. 101 e ss. Para uma apresentação possivelmente mais conveniente do argumento,
cf. Hilbert and Bernavs, Grundlagen der Mathematik, vol. 2 (Springer), Berlim, 1934, 1939;
segunda impressão, Edwards, Ann Arbor, 1944).
4 Para mais pormenores sobre a teoria das descrições, cf. Quine, op. cit., pp. 85 e s., l66 es.
3 Para um tratamento mais explícito das variaveis ligadas, cf. Quine, op. cit., pp. 82, 102 e s.
SOBRE O QUE HÁ 227
algum pressupõe haver ou o autor de Waverley, ou a redonda cúpula quadrada
do Berkeley College, ou quaisquer outros objetos especificamente predeterminados.
No que diz respeito a descrições, não há mais qualquer dificuldade em
afirmar ou negar ser. “Há o autor de Waverley” é interpretado por Russell como
significando “Alguém (ou mais rigorosamente, algo) escreveu Waverley e nada
mais escreveu Waverley”. “O autor de Waverley não é interpretado, corres-
pondentemente, como a disjunção “Ou cada coisa não escreveu Waverley, ou
duas ou mais coisas escreveram Waverley”. Essa disjunção é falsa, mas signi-
ficativa; e não contém nenhuma expressão que pretenda nomear o autor de
Waverley. O enunciado “A cúpula redonda e quadrada do Berkeley College
não é” é analisado de maneira análoga. Arruína-se assim a velha idéia de que
enunciados de não-ser se autodestroem. Quando um enunciado de ser ou não-ser
é analisado segundo a teoria das descrições de Russell, deixa de conter qual-
quer expressão que até mesmo pretenda nomear a suposta entidade cujo ser
está em questão, de modo que não se pode mais conceber que a significativi-
dade do enunciado pressuponha haver tal entidade.
E quanto a “Pégaso”? Sendo uma palavra, mais do que uma expressão
descritiva, a ela o argumento de Russell não se aplica imediatamente. No entanto,
pode-se facilmente fazer com que se aplique. Temos apenas que reescrever
“Pégaso” como uma descrição, de qualquer maneira que pareça particularizar
adequadamente nossa idéia; digamos, “o cavalo alado que foi capturado por
Belerofonte”. Substituindo “Pégaso” por essa expressão, podemos então proceder
a uma análise do enunciado “Pégaso é”, ou “Pégaso não é”, exatamente análoga
à análise de Russel de “O autor de Waverley é” e “O autor de de Waverley não é”.
Assim, para subsumir um nome, ou suposto nome, constituído por uma
única palavra, como “Pégaso”, sob a teoria das descrições de Russell, natural-
mente devemos antes ser capazes de traduzir essa palavra em termos de uma
descrição. Mas essa não é uma restrição efetiva. Se a idéia de Pégaso fosse tão
obscura ou tão básica a ponto de naturalmente não se ter oferecido nenhuma
tradução conveniente em termos de uma expressão descritiva, poderíamos ainda
ter-nos valido do seguinte estratagema artificial e aparentemente trivial; pode-
ríamos ter recorrido ao atributo de ser Pégaso, ex hypothesi não analisável e
irredutível, adotando para exprimí-lo o verbo “é-Pégaso”, ou “pegaseia”. O
substantivo “Pégaso” poderia então, ele próprio, ser tratado como derivado e
identificado, em última instância, com a descrição: “a coisa que é-Pégaso”, “a
coisa que pegaseia”. é
Se a importação de um predicado como “pegaseia” parece obrigar-nos a
reconhecer que há, no céu de Platão ou nas mentes dos homens, um atributo
correspondente, o pegasear, está tudo muito bem. Até agora nem nós nem o
sr. Y nem McX discutíamos a respeito do ser ou não-ser dos universais, mas
a respeito do ser ou não-ser de Pégaso. Se em termos de pegasear podemos
interpretar o substantivo “Pégaso” como uma descrição sujeita à teoria das
descrições de Russell, afastamos então a velha idéia de que não se pode dizer
que Pégaso não é sem pressupor que, em algum sentido, Pégaso seja.
Nosso argumento é agora suficientemente geral. McX e o sr. Y supunham
que não podíamos significativamente afirmar um enunciado da forma “Tal-e-tal
não é”, com um substantivo singular simples ou descritivo no lugar de “tal-e-tal”,
a menos que tal-e-tal fosse. Vemos agora que essa suposição é geralmente infun-
é Para mais observações quanto a essa assimilação de todos os termos singulares em des-
crições, cf. Quine, op. cit., p. 167; também Quine, Methods of Logic, Holt, Nova York,
1950, pp. 218-224.
228 QUINE
dada, desde que o substantivo singular em questão pode sempre, trivialmente
ou não, ser convertido numa descrição singular e então analisado à la Russell.
Comprometemo-nos com uma ontologia que contém números, quando dize-
mos que há números primos maiores que um milhão; comprometemo-nos com
uma ontologia que contém centauros, quando dizemos que há centauros; e com-
prometemo-nos com uma ontologia que contém Péguso, quando dizemos que
Pégaso é. Mas não nos comprometemos com uma ontologia que contém Pégaso,
ou o autor de Waverley, ou a cúpula redonda e quadrada do Berkeley College,
quando dizemos que Pégaso, ou o autor de Waverley, ou a cúpula em questão
não é. Não precisamos mais trabalhar sob o peso da ilusão de que a significa-
tividade de um enunciado que contém um termo singular pressupõe uma enti-
dade nomeada pelo termo. Um termo singular não precisa nomear para ser signi-
ficante.
Um simples pressentimento desse fato poderia ter iluminado o sr. Y e McX,
mesmo sem proveito para Russell, se tivessem percebido — como tão poucos
de nós o fazem — que há um abismo entre significar e nomear, mesmo no caso
de um termo singular que é genuinamente nome de um objeto. O seguinte exemplo
de Frege” será suficiente. A expressão “Estrela da Tarde” nomeia um certo
objeto físico, grande e esférico, que se move no espaço a alguns milhões de
milhas daqui. A expressão “Estrela da Manhã” nomeia a mesma coisa, tal como
o estabeleceu possivelmente pela primeira vez algum babilônico observador. Mas
não se pode considerar que as duas expressões tenham o mesmo significado;
caso contrário, aquele babilônico poderia ter dispensado suas observações e ter-se
contentado em refletir sobre os significados de suas palavras. Os significados,
nesse caso, sendo diferentes um do outro, devem ser distintos do objeto nomeado,
que é um e o mesmo em ambos os casos.
A confusão entre significar e nomear não apenas fez McX acreditar que
não poderia significativamente repudiar Pégaso; a persistência de uma confusão
entre significar e nomear sem dúvida ajudou a engendrar sua idéia absurda de
que Pégaso seja uma idéia, uma entidade mental. A estrutura dessa confusão é
a seguinte. Ele confundiu o suposto objeto nomeado Pégaso com o significado
da palavra “Pégaso”, concluindo portanto que Pégaso deve ser a fim de que a
palavra tenha significado. Mas que espécie de coisas são os significados? Esse
é um ponto de disputa; no entanto, pode-se bem plausivelmente entender signi-
ficados como idéias na mente, supondo-se que possamos compreender clara-
mente, por sua vez, a idéia de idéias na mente. Pégaso, portanto, inicialmente
confundido com um significado, acaba como uma idéia na mente. O mais notável
é o fato de que o sr. Y, sujeito à mesma motivação inicial que McX, devesse
evitar essa bobagem particular e, em compensação, acabar com possíveis não
realizados.
Voltemo-nos agora ao problema ontológico dos universais: à questão de
saber se há entidades tais como atributos, relações, classes, números, funções.
McX, bem caracteristicamente, acredita que há. Falando de atributos, ele diz:
“Há casas vermelhas, rosas vermelhas, ocasos vermelhos; tudo isso é senso comum
pré-filosófico, com o que todos devemos concordar. Essas casas, rosas e ocasos
têm, pois, algo em comum; e isso que eles têm em comum é tudo o que
entendo pelo atributo da vermelhidão”. Para McX, portanto, haver atributos é
7 Cf. Frege, “On Sense and Nominatum”, in Feigl and Sellars (eds.), Reuadings in Philoso-
phical Analysis, Appleton-Century-Crofts, 1949, pp. 85-102. Tradução de “Ueber Sinn und
Bedeutung”, Zeirschrift fuer Philosophie und Philosophische Kritik 100, 1892, pp. 25-10.
SOBRE O QUE HA 229
ainda mais Óbvio e trivial do que o fato óbvio e trivial de haver casas, rosas e
ocasos vermelhos. Isso, creio eu, é característico da metafísica, ou ao menos
daquela parte da metafísica chamada de ontologia: quem considera um enunciado
dessa disciplina de algum modo verdadeiro, deve considerá-lo trivialmente verda-
deiro. A ontologia de cada um está na base do esquema conceitual por meio
do qual interpreta todas as suas experiências, mesmo as mais ordinárias. Julgado
no interior de algum esquema conceitual particular — e de que outro modo é
possível um juízo? — um enunciado ontológico mantém-se por si, não reque-
rendo absolutamente nenhuma justificação particular. Enunciados ontológicos
seguem-se imediatamente de toda espécie de enunciados casuais acerca de fatos
ordinários, assim como — ao menos do ponto de vista do esquema conceitual
de McX — “Há um atributo” segue-se de “Há casas vermelhas, rosas vermelhas,
ocasos vermelhos”.
Julgado em outro esquema conceitual, um enunciado ontológico que é axio-
mático para a mente de McX pode, de modo igualmente imediato e trivial, ser
pronunciado falso. Alguém pode admitir que haja casas, rosas e ocasos ver-
melhos, mas negar, exceto como uma maneira de dizer vulgar e traiçoeira, que
eles tenham algo em comum. As palavras “casas”, “rosas” e “ocasos” são verda-
deiras de diversas entidades individuais que são casas e rosas e ocasos, e a
palavra “vermelho”, ou “objeto vermelho”, é verdadeira de cada uma das diversas
entidades individuais que são casas vermelhas, rosas vermelhas, ocasos vermelhos;
mas não há, além disso, qualquer entidade, individual ou não, nomeada pela
palavra “vermelhidão” nem, do mesmo modo, pela palavra “casidade”, “rosi-
dade”, “ocasidade”. Que as casas, rosas e ocasos sejam todos eles vermelhos
pode ser considerado algo fundamental e irredutível, e pode-se sustentar que
McX não ganha nada, em termos de poder explicativo efetivo, com todas as
entidades ocultas que ele põe sob nomes tais como “vermelhidão”.
Uma das maneiras pelas quais McX poderia naturalmente ter-nos tentado
impor sua ontologia de universais já foi afastada, antes que nos voltássemos ao
problema dos universais. McX não pode argumentar que predicados como ““ver-
melho” ou “é-vermelho”, que todos concordamos em empregar, devam ser enca-
rados como nomes, cada um de uma única entidade universal, a fim de serem
de algum modo significativos. Isto porque vimos que ser nome de algo é um
traço muito mais específico do que ser significativo. Ele não pode nem mesmo
nos acusar — ao menos não por este argumento — de termos suposto um atri-
buto de pegasear ao adotarmos o predicado “pegaseia”.
No entanto, McX descobre um estratagema diferente. “Aceitemos”, diz ele,
“essa distinção entre significar e nomear que você tanto preza. Aceitemos mesmo
que '“é-vermelho”, 'pegaseia”, etc., não sejam nomes de atributos. Ainda assim
você admite que possuem significados. Mas esses significados, sejam eles nomea-
dos ou não, são ainda universais, e arrisco-me a dizer que alguns deles podem
mesmo ser as próprias coisas que chamo de atributos, ou algo que em última
análise resulte no mesmo.”
Para McX esse é um discurso extraordinariamente penetrante; e não sei de
outra maneira de opor-me a ele senão recusando-me a aceitar significados. No
entanto, não sinto nenhuma relutância em recusar-me a aceitar significados, pois
nem por isso nego que palavras e enunciados sejam significativos. McX e eu
podemos concordar literalmente em nossa classificação das formas linguísticas
em significativas e assignificativas, mesmo McX construindo a significatividade
como o possuir (em algum sentido de “possuir”) alguma entidade abstrata que
chama de significado, enquanto eu não o faço. Continuo livre para sustentar
que o fato de que uma dada emissão lingiística seja significativa (ou significante,
230 QUINE
como prefiro dizer, de modo a não favorecer a hipóstase de significados como
entidades) * seja uma realidade fundamental e irredutível; ou então posso tentar
analisá-lo diretamente em termos do que as pessoas fazem na presença da emissão
linguística em questão e de outras semelhantes a ela.
Reduzem-se a duas as maneiras úteis como as pessoas ordinariamente falam,
ou aparentemente falam, de significados: o ter significado, que é a significância,
e a identidade de significado, ou sinonímia. O que chamamos dar o significado
de uma emissão consiste simplesmente em emitir um sinônimo, frequentemente
formulado numa linguagem mais clara. Se formos alérgicos aos significados
enquanto tais, poderemos falar diretamente de emissões como sendo significantes
ou não significantes, e como sinônimas ou heterônimas uma em relação à outra.
O problema de explicar esses adjetivos “significante” e “sinônimo” com algum
grau de clareza e rigor — de preferência, a meu modo de ver, em termos de
comportamento — é tão difícil quanto importante. º Mas o valor explicativo de
entidades intermediárias específicas e irredutíveis, chamadas de significados, é
certamente ilusório.
Até agora argumentei que podemos empregar termos singulare: significante-
mente em sentenças, sem pressupor haver as entidades que esses termos pretendem
nomear. Argumentei ainda que podemos empregar termos gerais, por exemplo,
predicados, sem reconhecê-los como nomes de entidades abstratas. Argumentei
ainda que podemos encarar emissões como significantes, e sinônimas ou heterô-
nimas uma em relação à outra, sem admitir um reino de entidades chamadas sig-
nificados. Nesta altura McX começa a se perguntar se há algum tipo de limite
para nossa imunidade ontológica. Nada do que possamos dizer nos comprome-
te com a assunção de universais ou outras entidades que possamos julgar in-
desejáveis?
Já sugeri uma resposta negativa a essa questão, ao falar de variáveis ligadas,
ou variáveis de quantificação, em conexão com a teoria das descrições de Russell.
Podemos facilmente envolver-nos em compromissos ontológicos dizendo, por
exemplo, que há aigo (variável ligada) que casas e ocasos vermelhos têm em co-
mum; ou que há algo que é um número primo maior que um milhão. Mas essa é a
única maneira de nos envolvermos em compromissos ontológicos: pelo nosso uso
de variáveis ligadas. O uso de supostos nomes não é critério, pois seu caráter de
nome pode ser repudiado num piscar de olhos, a menos que a assunção de uma
entidade correspondente possa ser descoberta entre aquilo que afirmamos em
termos de variáveis ligadas. Os nomes são, de fato, totalmente irrelevantes para
o problema ontológico, pois mostrei, em relação a “Pégaso” e “pegasear”, que
nomes podem ser convertidos em descrições, e Russell mostrou que descrições
podem ser eliminadas. Tudo quanto dizemos com o auxílio de nomes pode ser
dito numa linguagem que os dispense totalmente. Ser assumido como entidade é,
pura e simplesmente, ser reconhecido como o valor de uma variável. Em termos
das categorias da gramática tradicional, isso equivale aproximadamente a dizer que
ser é estar no domínio de referência de um pronome. Pronomes são os meios
básicos de referência; os substantivos, melhor seria chamá-los de propronomes.
As variáveis de quantificação, “algo”, “nada”, “tudo”, percorrem toda a nossa
ontologia, qualquer que seja ela; e ficamos atados e uma pressuposição ontológica
particular se e somente se o pretenso pressuposto tiver que ser reconhecido entre
80 sentido dessa observação apenas se torna claro se atentamos à etimologia do correspon-
dente inglês da palavra “significativo”: meaningful = meaning (significado) + full (cheio).
(N. do T.)
? Cf. Quine, From a Logical Point of View, ed. cit., artigos IL e III.
SOBRE O QUE HÁ 231
as entidades que nossas variáveis percorrem a fim de tornar uma de nossas afir-
mações verdadeiras.
Podemos dizer, por exemplo, que alguns cães são brancos e nem por isso
nos comprometemos a reconhecer ou a canidade ou a brancura como entidades.
“Alguns cães são brancos” diz que algumas coisas que são cães são brancas; e, a
fim de que esse enunciado seja verdadeiro, as coisas que a variável ligada “algo”
percorre devem incluir alguns cães brancos, mas não precisam incluir a canidade
ou a brancura. Por outro lado, quando dizemos que algumas espécies zoológicas
se caracterizam pela fecundação por cruzamento, estamos nos comprome--
tendo a reconhecer como entidades as diversas espécies, elas próprias, por mais
abstratas que sejam. Permanecemos assim comprometidos ao menos até arqui-
tetarmos alguma maneira de parafrasear o enunciado de modo a mostrar que
a aparente referência a espécies por parte de nossa variável ligada era uma ma-
neira de dizer evitável. !º
A matemática clássica, como o exemplo dos primos maiores que um milhão
ilustra claramente, está envolvida até o pescoço por compromissos com uma onto-
logia de entidades abstratas. Assim é que a vasta controvérsia medieval sobre os
universais reacendeu-se na moderna filosofia da matemática. Vê-se o problema
mais claramente agora do que antes, porque agora dispomos de um critério mais
explícito para decidir com que ontologia uma dada teoria ou tipo de discurso
está comprometida: uma teoria está comprometida com aquelas e apenas com
aquelas entidades a que as variáveis ligadas da teoria devem ser capazes de se
reterir a fim de que as afirmações feitas na teoria sejam verdadeiras.
Porque esse critério de pressuposição ontológica não emergiu claramente na
tradição filosófica, os matemáticos filósofos modernos em geral não perceberam
que debatiam o mesmo e velho problema dos universais, em uma forma elu-
cidada de maneira original. Mas as diferenças básicas entre os modernos pontos
de vista sobre os fundamentos da matemática de fato reduzem-se bem explicita-
mente a divergências acerca do domínio de entidades a que as variáveis ligadas
devem ser autorizadas a se referir.
Os três pontos de vista medievais mais importantes no que concerne aos
universais são designados pelos historiadores como realismo, conceitualismo e no-
minalismo. Essencialmente, essas mesmas três doutrinas reaparecem nas exposições
da filosofia da matemática do século XX sob os novos nomes de logicismo, intui-
cionismo & formalismo.
O realismo, tal como essa palavra é empregada em conexão com a contro-
vérsia medieval dos universais, é a doutrina platônica de que universais ou entidades
abstratas possuem ser de modo independente da mente; a mente pode descobri-los,
mas não pode criá-los. O logicismo, representado por Frege, Russell, Whitehead,
Church e Carnap tolera o emprego de variáveis ligadas para a referência a entidades
abstratas conhecidas e desconhecidas, especificáveis ou não, indiscriminadamente.
O conceitualismo sustenta que há universais, mas que eles são produtos da
mente. O intuicionismo esposado modernamente, numa forma ou noutra, por Poin-
caré, Brouwer, Weyl e outros, assegura o emprego de variáveis ligadas para a
referência a entidades abstratas apenas quando essas entidades podem ser prepa-
radas individualmente a partir de ingredientes especificados de antemão. Segundo
a formulação de Fraenkel, o logicismo afirma que as classes são descobertas, en-
quanto o intuicionismo afirma que elas são inventadas — de fato, uma maneira
impecável de enunciar a velha oposição entre realismo e conceitualismo. Essa
10 Para mais pormenores a esse respeito, cf. Quine, idem, artigo VI.
asa QUINE
oposição não é um mero jogo de palavras; ela é essencialmente relevante no que
concerne à porção da matemática clássica que alguém esteja disposto a subscrever.
Logicistas ou realistas podem a partir de suas assunções, chegar às ordens ascen-
dentes de infinito de Cantor; os intuicionistas são obrigados a parar na ordem de
infinito mais baixa e, como consegiiência indireta, a abandonar até mesmo algumas
das leis clássicas dos números reais." A moderna controvérsia entre logicismo e
intuicionismo nasce, de fato, de divergências acerca do infinito.
O formalismo, associado ao nome de Hilbert, faz eco ao intuicionismo ao
deplorar o recurso desenfreado do logicista a universais. Mas o formalismo também
julga o intuicionismo insatisfatório. Isso poderia ocorrer por uma de duas razões
opostas. O formalista poderia, como o logicista, opor-se à mutilação da mate-
mática clássica; ou poderia, com os nominalistas de antigamente, opor-se à admis-
são de quaisquer entidades abstratas, mesmo no sentido restrito de entidades pro-
duzidas pela mente. O desfecho é o mesmo: o formalista conserva a matemática
clássica como um jogo de notações não significantes. Esse jogo de notações pode,
não obstante, ter sua utilidade — toda a utilidade que já mostrou possuir na
qualidade de muleta para físicos e tecnólogos. Mas utilidade não implica neces-
sariamente em significância, em qualquer sentido lingiiístico literal. Nem o sucesso
marcante dos matemáticos em desfiar teoremas e encontrar bases objetivas para
acordo recíproco quanto aos resultados de cada um implica necessariamente em
significância. Isto porque uma base adequada para acordo entre os matemáticos
pode ser encontrada simplesmente nas regras que governam a manipulação das
notações — essas regras sintáticas sendo, ao contrário das próprias notações, per-
feitamente significantes e inteligíveis. !?
Argumentei que o tipo de ontologia que adotamos pode ser relevante —
especialmente no que diz respeito à matemática, embora trate-se apenas de um
exemplo. Ora, como decidir diante de ontologias rivais? A resposta não é cer-
tamente proporcionada pela fórmula semântica “Ser é ser o valor de uma va-
riável”: pelo contrário, essa fórmula serve antes para testar a conformidade de
uma certa afirmação ou doutrina com respeito a um critério ontológico prévio.
Atentamos a variáveis ligadas no contexto da ontologia não a fim de saber o
que há, mas a fim de saber o que uma certa afirmação ou doutrina, nossa ou
de outrem, diz que há; enquanto tal, esse é propriamente um problema que diz
respeito à linguagem. Mas o que há é uma outra questão.
Na discussão acerca do que há, ainda há razões para operarmos num plano
semântico. Uma razão é escapar do embaraço apontado no início deste ensaio:
o fato de não poder eu admitir que há coisas que McX sustenta e eu não. En-
guanto eu estiver ligado à minha ontologia, oposta que é à de Mc X, não poderei
permitir que minhas variáveis ligadas se refiram a entidades que pertençam à
ontologia de McX e não à minha. Posso, no entanto, descrever coerentemente
nossa divergência, caracterizando os enunciados que McX afirma. Desde que
NH Cf. Quine, idem, pp. 125 e ss.
iz Cf. Goodman e Quine, “Steps toward a constructive nominalism”, Journal of Symbolic
Logic 12 (1947), pp. 105-122. (Para que o leitor não seja levado a entender mal certas pas-
sagens do presente artigo ao tentar reconciliá-las com a sentença francamente exortativa que
abre o artigo citado, gostaria de dizer que hoje preferiria tratar essa sentença como um
enunciado hipotético dc condições para a construção em causa.) Para uma discussão mais
ampla sobre as questões gerais tratadas nas duas últimas páginas, cf. Bernays, “Sur le plato-
nisme dans les mathématiques”, L'Enseignement Mathématique 34 (1935-36), pp. 52-69;
Fraenkel, “Sur la notion d'existence dans les mathématiques”, idem, pp. 18-32; Black, The
Nature of Mathematics, Kegan Paul, Londres, 1933 e Marcourt Brace, Nova York, 1934.
SOBRE O QUE HA 23
UI
minha ontologia simplesmente admita formas lingliísticas, ou ao menos inscri-
ções concretas e emissões, posso falar a respeito das sentenças de McX.
Outra razão para retirarmo-nos a um plano semântico é encontrar terreno
comum para argumentar. Divergências quanto à ontologia envolvem divergências
básicas, quanto a esquemas conceituais; entretanto, a despeito dessas divergências
básicas, McX e eu damo-nos conta de que nossos esquemas conceituais convergem
em suas ramificações intermediárias e superiores o bastante para capacitar-nos
a uma comunicação proveitosa a respeito de tópicos como política, tempo e, em
particular, linguagem. Na medida em que nossa controvérsia básica sobre onto-
logia puder ser transformada numa controvérsia semântica acerca de palavras e
do que fazer com elas, a degeneração da controvérsia em petições de princípios
poderá ser adiada.
Não é de admirar, pois, que controvérsias ontológicas devam levar a contro-
vérsias sobre linguagem. Mas não devemos saltar à conclusão de que o que há
depende de palavras. A tradutibilidade de uma questão em termos semânticos
não é uma indicação de que a questão seja lingiiística. Ver Nápoles é carregar
um nome que, anteposto às palavras “vê Nápoles”, produz uma sentença ver-
dadeira; ainda assim, não há nada de lingiiístico em ver Nápoles.
Nossa aceitação de uma ontologia é, creio eu, semelhante em princípio a
nossa aceitação de uma teoria científica, digamos, de um sistema de física: ado-
tamos, ao menos na medida em que somos razoáveis, o esquema conceitual mais
simples no qual os fragmentos desordenados da experiência bruta podem ser
acomodados e organizados. Nossa ontologia fica determinada uma vez fixado o
esquema conceitual global destinado a acomodar a ciência no sentido mais
amplo; e as considerações que determinam uma construção razoável de qualquer
parte desse esquema conceitual, por exemplo, da parte física ou da biológica, não
são diferentes em espécie das considerações que determinam uma construção
razoável do todo. Tanto quanto a adoção de qualquer sistema de teoria científica
pode ser dita uma questão de linguagem, o mesmo — mas não mais — pode
ser dito da adoção de uma ontologia.
A simplicidade, porém, enquanto princípio orientador da construção de es-
quemas conceituais, não é uma idéia clara e despida de ambigiiidade; e ela é
perfeitamente capaz de apresentar um critério duplo ou múltiplo. Imaginem, por
exemplo, que tenhamos arquitetado o conjunto de conceitos mais econômico e
adequado ao relato ponto-por-ponto da experiência imediata. As entidades deter-
minadas por esse esquema — os valores das variáveis ligadas — são, suponhamos.
eventos subjetivos individuais de sensação e reflexo. Ainda assim. concluiríamos,
sem dúvida nenhuma, gue um esquema conceitual fisicalista, que pretende talar
de objetos externos, oferece muitas vantagens ao simplificar nossos relatos globais.
Reunindo os eventos sensíveis dispersos e tratando-os como percepções de um
objeto, reduzimos a complexidade de nosso fluxo de experiência a uma simpli-
cidade conceitual manipulável. A regra da simplicidade é, na verdade, a máxima
que nos orienta na atribuição de dados sensíveis a objetos: associamos uma sen-
sação anterior de redondo e uma sensação posterior de redondo à mesma assim
chamada moeda, ou a duas assim chamadas moedas diferentes, obedecendo às
exigências de simplicidade máxima para nosso quadro global do mundo.
Temos aqui dois esquemas conceituais rivais, um fenomenalista e outro fisi-
calista. Qual deve prevalecer? Cada um tem suas vantagens; cada um tem, a seu
modo, sua simplicidade específica. Cada um, eu proponho, merece ser desen-
volvido. Cada um pode ser dito, de fato, o mais fundamental, embora em sentidos
diferentes: um epistemologicamente, outro fisicamente fundamental.
O esquema conceitual físico simplifica nossa consideração da experiência em
234 QUINE
virtude da maneira como inúmeros eventos sensíveis dispersos passam a ser as-
sociados aos chamados objetos singulares; e mais, não é nada verossímil que toda
sentença a respeito de objetos físicos possa efetivamente ser traduzida, nem mesmo
de modo tortuoso e complexo, na linguagem fenomenalista. Objetos físicos são
entidades postuladas que uniformizam e simplificam nossa consideração do fluxo
da experiência, assim como a introdução dos números irracionais simplifica as
leis da aritmética. Do ponto de vista exclusivo do esquema conceitual da aritmética
elementar dos números racionais, a aritmética mais ampla dos números racionais
e irracionais teria o estatuto de mito conveniente, mais simples que a verdade
literal (a saber, aritmética dos racionais) e, no entanto, contendo essa verdade
literal como parte dispersa. Analogamente, de um ponto de vista fenomenaiista o
esquema conceitual dos objetos físicos é um mito conveniente, mais simples que
a verdade literal e, no entanto, contendo essa verdade literal como parte dispersa.
E quanto a classes ou atributos de objetos físicos, por seu lado? Uma ontologia
platônica dessa espécie é, de um ponto de vista de um esquema conceitual, estri-
tamente fisicalista, um mito, tanto quanto o próprio esquema conceitual fisica-
lista o é para o fenomenalismo. Esse mito mais elevado, por sua vez, é bom e
útil, na medida em que simplifica nossa consideração da física. Sendo a mate-
mática uma parte integrante desse mito mais elevado, a utilidade desse mito para
a ciência física é suficientemente evidente. Referindo-me a ele, apesar disso, como
a um mito, faço eco àquela filosofia da matemática a que aludi anteriormente sob
o nome de formalismo. Mas uma atitude formalista poderia, com o mesmo direito,
ser adotada em relação ao esquema conceitual físico, por sua vez, pelo esteta ou
fenomenalista puro.
A analogia entre o mito da matemática e o mito da física é, por alguns
aspectos suplementares e talvez fortuitos, visivelmente estreita. Considere-se, por
exemplo, a crise precipitada nos fundamentos da matemática, no início do século,
pela descoberta do paradoxo de Russell e outras antinomias em teoria dos con-
juntos. Essas contradições tiveram que ser obviadas por meio de artfícios ad hoc,
não intuitivos; !! nossa produção matemática de mitos tornou-se deliberada e
evidente a todos. E quanto à física? Surgiu uma antinomia entre as explicações
ondutatória e corpuscular da luz; e se ela não é rigorosamente uma contradição,
como o é o paradoxo de Russell, suspeito que isso ocorra por não ser a física
tão rigorosa quanto a matemática. Do mesmo modo, à segunda grande crise mo-
derna nos fundamentos da matemática — precipitada em 1931 pela prova de
Soedel '' de que há inevitavelmente enunciados indecidíveis em aritmética —
corresponde, em física, o princípio da indeterminação de Heisenberg.
Em páginas anteriores empenhei-me em mostrar que alguns argumentos
comuns em favor de certas ontologias são falaciosos. Adiantei, em seguida, um
critério explícito para decidir quais os compromissos ontológicos de uma teoria.
Mas a questão de saber que ontologia efetivamente adotar permanece ainda aberta,
e o conselho óbvio é tolerância e espírito experimental. Usemos de todos os meios
para verificar quanto do esquema conceitual fisicalista pode ser reduzido a um
tenomenalista; ainda assim, a física também requer, naturalmente, ser levada
adiante, mesmo se irredutível in toto. Verifiquemos como e em que grau pode-se
3 A analogia aritmética deve-se a Frank, Modern Science and its Philosophy, Harvard Uni-
versity Press, Cambridge, 1949, pp. 108 e ss.
i4 Cf. Quine, idem, pp. 900 e ss., 96 e ss., 122 e ss.
15 Cf. Goedel, “Ueber formal unentscheidbare Satze der Principia Mathematica und verwandter
Systeme”, Monatshefte fuer Mathematik und Physik 38 (1931), pp. 173-198. (Para um exame
introdutório e mais referências, cf. Quine, Methods of Logic, ed. cit., pp. 245 e ss.)
SOBRE O QUE HÁ 235
tornar a ciência natural independente da matemática platônica; mas também le-
vemos adiante a matemática, e aprofundemo-nos em seus fundamentos platônicos.
Dentre os vários esquemas conceituais mais apropriados a essas várias em-
presas, um deles — o fenomenalista — reivindica prioridade epistemológica.
Encaradas do interior do esquema conceitual fenomenalista, as ontologias dos
objetos físicos e dos objetos matemáticos são mitos. A qualidade de mito, no
entanto, é relativa; relativa, nesse caso, ao ponto de vista epistemológico. Esse
ponto de vista é um entre vários, correspondendo a um entre vários de nossos
interesses e propósitos.
DOIS DOGMAS DO EMPRISMO
O empirismo moderno foi em grande parte condicionado por dois dogmas.
Um deles é a crença em certa divisão fundamental entre verdades analíticas, ou
fundadas em significados independentemente de questões de fato, e verdades
sintéticas, ou fundadas em fatos. O outro dogma é o reducionismo: a crença
de que todo enunciado significativo é equivalente a algum construto lógico sobre
termos que se referem à experiência imediata. Ambos os dogmas, deverei susten-
tar, são mal fundamentados. Um dos efeitos de seu abandono é, como veremos,
o esfumar-se da suposta fronteira entre a metafísica especulativa e a ciência
natural. Outra conseqgiiência é a reorientação rumo ao pragmatismo.
|. O pano de fundo da analiticidade
A divisão kantiana entre verdades analíticas e sintéticas já se prefigurava
na distinção de Hume entre relações de idéias e questões de fato, e na distinção
de Leibniz entre verdades de razão e verdades de fato. Leibniz falou das ver-
dades de razão dizendo-as verdadeiras em todos os mundos possíveis. Deixando
de lado o caráter pitoresco, isto quer dizer que as verdades de razão são aquelas
que não poderiam, de modo algum, ser falsas. No mesmo espírito vemos os enun-
ciados analíticos serem definidos como aqueles cuja negação é autocontraditória.
Mas esta definição tem pouco valor explanatório, pois a noção de autocontra-
ditoriedade, no sentido muito amplo que esta definição da analiticidade requer.
experimenta necessidade de elucidação idêntica à requerida pela própria anali-
ticidade. As duas noções são as faces de uma mesma e duvidosa moeda.
Kant concebia um enunciado analítico como o que atribuía a seu sujeito não
mais do que o já conceitualmente contido no sujeito. Esta formulação tem duas
deficiências: limita-se a enunciados da forma sujeito-predicado, e vale-se da no-
ção de um estar contido que é deixado a nível metafórico. Mas a intenção de
Kant, evidente mais pelo uso que ele faz da noção de analiticidade do que por
sua definição da mesma, pode ser reformulada deste modo: um enunciado é ana-
lítico quando verdadeiro em virtude de significados e independente de fatos. Se-
guindo esta linha, examinemos o conceito de significado que está sendo pres-
suposto.
O significar, lembremo-nos, não deve ser identificado ao nomear. '! O exemplo
de Frege de “Estrela Vespertina” e “Estrela Matutina”, e o de Russel de “Scott” e
'o autor de Waverley' ilustram o fato de que os termos podem nomear a mesma
coisa e diferir em significado. A distinção entre significar e nomear não é menos
importante a nível dos termos abstratos. Os termos '9º e *o número dos planetas”
| Ver From a Logical Point of View, p. 9.
238 QUINE
nomeiam uma e mesma entidade abstrata, mas é de presumir que devam ser
considerados dessemelhantes em significado, pois a observação astronômica, e não
a mera reflexão sobre significados, foi necessária para determinar que a enti-
dade em questão é a mesma.
Os exemplos acima consistem em termos singulares concretos e abstratos.
Com os termos gerais, ou predicados, a situação é algo diferente, porém pa-
ralela. Enquanto um termo singular pretende nomear uma entidade, abstrata
ou concreta, o mesmo não acontece com o termo geral; mas o termo geral é
verdadeiro de uma entidade, ou de muitas, tomadas uma por uma, ou nenhuma.”
A classe de todas as entidades das quais um termo geral é verdadeiro é chamada
extensão do termo. Paralelamente ao contraste entre o significado de um termo
singular e a entidade nomeada, devemos distinguir igualmente o significado de
um termo e sua extensão. Os termos gerais “criaturas com coração” e “criaturas
com rins”, por exemplo, são talvez iguais em extensão, mas diferentes em sig-
nificado.
A confusão do significado com a extensão, no caso dos termos gerais, é
menos comum do que a confusão do significado com o nomeado, no caso dos
termos singulares. É de fato um lugar-comum na filosofia opor-se intensão (ou
significado) a extensão, ou, num vocabulário diverso, conotação a denotação.
A noção aristotélica de essência foi, sem dúvida, a precursora da moderna
noção de intensão ou de significado. Para Aristóteles era essencial ao homem
ser racional, acidental possuir duas pernas. Mas há uma diferença importante
entre esta atitude e a doutrina do significado. Deste último ponto de vista, é
possível de fato conceder-se (mesmo se apenas para fins da discussão) que no
significado da palavra “homem” esteja contida a racionalidade, não porém o pos-
suir duas pernas. Mas, ao mesmo tempo, o possuir duas pernas pode ser con-
siderado como contido no significado de “bípede”, enquanto a racionalidade não.
Desse modo, do ponto de vista da doutrina do significado, não faz sentido dizer,
do indivíduo real, que é, ao mesmo tempo, homem e bípede, que sua racionali-
dade é essencial e o seu possuir duas pernas é acidental, ou vice-versa.
As coisas, para Aristóteles, tinham essências, mas apenas as formas lin-
guísticas possuem significados. O significado é aquilo no que a essência se tráns-
forma quando, divorciada do objeto de referência, é vinculada a palavra.
Para a teoria do significado, uma questão que se impõe é a da natureza
de seus objetos: que tipo de coisa são os significados? A necessidade sentida de
entidades significadas pode ter sido derivada de. um fracasso anterior na aprecia-
ção de que significado e referência são coisas distintas. Uma vez que a teoria do
significado esteja nitidamente separada da teoria da referência, necessita-se apenas
de um pequeno passo para reconhecer como primeiro objeto da teoria do signifi-
cado simplesmente a sinonímia das formas lingiiísticas e a analiticidade dos enun-
ciados; os próprios significados, como obscuras entidades intermediárias, podem
bem ser abandonados. º
Nós nos defrontamos, então, novamente com o problema da analiticidade.
De fato não é difícil encontrar enunciados que, por aclamação filosófica geral,
são analíticos. Eles se distribuem em duas classes. Os da primeira classe, que
podem ser chamados logicamente verdadeiros, são tipificados por:
2 Id. pp. 10, 107-115.
3 Id. pp. 11 ess. 48-49.
DOIS DOGMAS DO EMPIRISMO
9)
“o
No
D) Nenhum homem que não casou (unmarried) é casado.
A característica relevante deste exemplo é a de que ele não meramente é ver-
dadeiro como se apresenta, mas permanece verdadeiro sob toda e qualquer rein-
terpretação de “homem” e de “casado”. Se supusermos um inventário prévio de
partículas lógicas compreendendo “nenhum”, “in”, 'não”, “se”, 'então”, “e”, etc.,
então, em geral, uma verdade lógica é um enunciado que é verdadeiro e perma-
nece verdadeiro sob todas as reinterpretações de seus outros componentes que
não as partículas lógicas.
Mas existe também uma segunda classe de enunciados analíticos, tipifi-
cados por:
2) Nenhum solteiro (bachelor) é casado.
A característica de tal enunciado é a de que ele pode ser transformado em
verdade lógica por meio da substituição dos sinônimos; assim (2) pode ser trans-
formado em (1) substituindo-se “solteiro” por seu sinônimo 'homem que não
casou”. Falta-nos ainda uma caracterização apropriada desta segunda classe de
enunciados analíticos, e, com isso, da analiticidade em geral, porquanto na des-
crição acima tivemos que nos basear numa noção de “sinonímia” que, não me-
nos do que a própria analiticidade, precisa ser elucidada.
Recentemente Carnap inclinou-se para uma explicação da analiticidade que
se vale do que chamou de descrições de estado.” Uma descrição de estado é uma
atribuição exaustiva qualquer de valores de verdade aos enunciados atômicos ou
não compostos da linguagem. Todos os demais enunciados da linguagem, assume
Carnap, são construídos com suas cláusulas componentes por meio de expedientes
lógicos familiares, de tal modo que o valor de verdade de qualquer enunciado
complexo é fixado para cada descrição de estado por leis lógicas especificáveis.
Um enunciado é então explicado como analítico quando resulta verdadeiro sob
qualquer descrição de estado. Essa explicação é uma adaptação do leibniziano
“verdadeiro em todos os mundos possíveis”. Mas observem que esta versão da
analiticidade serve aos propósitos a que se destina apenas se os enunciados atô-
micos da linguagem forem, ao contrário de “João é solteiro” e “João é casado”,
mutuamente independentes. Caso contrário haveria uma descrição de estado que
atribuiria verdade a 'João é solteiro” e a 'João é casado”, e consegiientemente
“Nenhum solteiro é casado” resultaria sintético ao invés de analítico no critério
proposto. Assim, o critério de analiticidade em termos de descrição de estado
serve apenas a linguagens desprovidas de pares de sinônimos extralógicos, tais
como “solteiro” e “homem que não casou” — pares de sinônimos do tipo dos que
dão origem à “segunda classe” de enunciados analíticos. O critério em termos
de descrições de estado é, na melhor das hipóteses, uma reconstrução da ver-
dade lógica, não da analiticidade.
Não quero com isso sugerir que Carnap esteja de algum modo iludido a
este respeito. Sua linguagem-modelo simplificada, como suas descrições de estado,
visa primariamente não ao problema geral da analiticidade, mas a outro propósito:
à clarificação da probabilidade e da indução. Nosso problema, entretanto, é a
analiticidade e aqui a maior dificuldade encontra-se não na primeira classe de
enunciados analíticos, as verdades lógicas, mas antes na segunda classe, que
depende da noção de sinonímia.
4 Carnap, Meaning and Necessity, pp. 9 e ss., Logical Foundations of Probability, pp. 70 e ss.
240 QUINE
2. Definição
Existem aqueles que acham reconfortante dizer que os enunciados analíticos
da segunda classe se reduzem aos da primeira, as verdades lógicas, por meio de
definições; 'solteiro”, por exemplo, é definido como homem que não casou. Mas
como de fato chegamos à conclusão de que “solteiro” se define como “homem que
não casou”? Quem assim o definiu, e quando? Devemos recorrer ao dicionário
mais próximo e aceitar como lei a formulação do lexicógrafo? Falando claro,
isto seria pôr o carro na frente dos bois. O lexicógrafo é um cientista empírico,
cujo trabalho é o registro de fatos antecedentes; e se ele registra “solteiro” como
'homem que não casou”, é por sua crença de que há uma relação de sinonímia
entre estas duas formas, implícita no uso, geral ou preponderante, anterior a seu
próprio trabalho. A noção de sinonímia aqui pressuposta deve ainda ser clari-
ficada, presumivelmente, em termos que digam respeito ao comportamento lin-
gúístico. Certamente a “definição”, que consiste no relato do lexicógrafo de uma
sinonímia observada, não pode ser tomada como fundamento da sinonímia.
Na verdade a definição não é uma atividade exclusiva dos filólogos. Filó-
sofos e cientistas têm freqiientemente ocasião de “definir” algum termo obscuro,
parafraseando-o em termos de um vocabulário mais familiar. Mas, ordinariamen-
te, tal definição, como a do filólogo, é pura lexicografia, afirmando uma relação
de sinonímia antecedente a esta exposição.
O que exatamente quer dizer afirmar a sinonímia, no que exatamente po-
dem se constituir as interconexões necessárias e suficientes para que duas for-
mas lingiísticas possam ser com propriedade descritas como sinônimas, é algo
que está longe de ser claro; mas, o que quer que sejam, estas interconexões são
ordinariamente baseadas no uso. Definições relatando exemplos selecionados de
sinonímia aparecem então como informes sobre o uso.
Entretanto existe também um tipo alternativo de atividade definidora que
não se limita ao relato de sinonímias pré-existentes. Tenho em mente o que
Carnap chama de explicação — uma atividade a que se dedicam os filósofos e
também os cientistas em seus momentos mais filosóficos. Na explicação, o obje-
tivo não é meramente parafrasear o definiendum em termos de um sinônimo di-
reto, mas de fato aperfeiçoar o definiendum refinando ou suplementando seu
significado. Mas, mesmo a explicação, embora não meramente relatando uma
sinonímia pré-existente entre o definiendum e o definiens, de fato baseia-se, não
obstante, em outras sinonímias pré-existentes. A questão pode ser encarada da
seguinte forma: para cada palavra que merece explicação, existem alguns con-
textos, os quais, tomados cada um como um todo, são suficientemente claros e
precisos para ter utilidade; e o propósito da explicação é preservar o uso destes
contextos privilegiados, acurando ao mesmo tempo o uso de outros contextos.
A tim de que uma dada definição seja adequada aos propósitos da explicação,
o que se requer, portanto, não é que o definiendum em seu uso anterior seja
sinônimo do definiens, mas apenas que cada um dos contextos privilegiados do
definiendum, tomado como um todo em seu uso antecedente, seja sinônimo do
contexto correspondente do definiens.
Dois definientia alternativos podem ser igualmente adequados aos propó-
sitos de uma dada tarefa de explicação e ainda assim não serem sinônimos: pois
eles podem servir, um pelo putro, nos contextos privilegiados, mas podem di-
vergir em outros contextos. Apegando-se a um destes dois definientia, uma de-
finição de tipo explicativo gera, por decreto, uma relação de sinonímia entre
DOIS DOGMAS DO EMPIRISMO 241
definiendum e definiens que não existia anteriormente. Mas tal definição ainda
deve sua função explicativa, como foi visto, a sinonímias pré-existentes.
Entretanto resta ainda um tipo extremo de definição que de modo algum re-
mete a sinonímias anteriores, a saber, a introdução explicitamente convencional de
novas notações para fins de pura abreviação. Aqui o definiendum torna-se sinô-
nimo do definiens simplesmente porque foi criado expressamente com tal pro-
pósito. Temos então um caso realmente transparente de sinonímia criada por
definição; quisera fossem todas as espécies de sinonímia igualmente inteligíveis.
Nos outros casos a definição mais bascia-se na sinonímia do que a explica.
A palavra 'definição' passou a soar num tom perigosamente tranquilizante
sem dúvida devido à sua frequente ocorrência nos escritos lógicos e matemáticos.
Cabe então aqui uma digressão estimando brevemente o papel da definição no
trabalho formal.
Nos sistemas lógicos e matemáticos, dois tipos mutuamente antagônicos de
economia podem estar em concorrência, e cada um deles tem sua peculiar uti-
lidade prática. Por um lado podemos buscar uma economia na expressão prá-
tica — facilidade e brevidade no enunciado de variadas relações. Este tipo de
economia usualmente exige notações concisas e distintas para uma rica varie-
dade de conceitos. Por outro lado, entretanto, e em oposição a isso, podemos
buscar economia em gramática e vocabulário; podemos tentar encontrar um
mínimo de conceitos básicos tais que, a partir do momento em que uma nota-
cão distintiva tiver sido forjada para cada um deles, se torne possível expressar
qualquer conceito adicional desejável por mera combinação ou repetição de nossas
notações básicas. Este segundo tipo de economia não é prático em certo sentido,
dado que a pobreza de elementos idiomáticos básicos tende a aumentar neces-
sariamente o comprimento do discurso. Mas é prático em outro sentido: simpli-
fica grandemente o discurso teórico sobre a linguagem, através da minimização
do número dos termos e das formas de construção em que consiste a linguagem.
Ambos os tipos de economia, embora incompatíveis prima facie, são valio-
sos, cada um a seu modo. Como consegiiência, desenvolveu-se o costume de
combinar ambos os tipos de economia forjando na prática duas linguagens, sendo
uma delas parte da outra. A linguagem inclusiva, embora redundante na gra-
mática e no vocabulário, é econômica no que diz respeito ao comprimento da
mensagem, enquanto a sua parte chamada notação primitiva é econômica em
gramática e vocabulário. O todo e a parte relacionam-se por regras de tradução
pelas quais cada elemento idiomático que não esteja formulado na notação pri-
mitiva é equiparado a algum complexo construído de notações primitivas. Estas
regras de tradução são as chamadas definições que aparecem em sistemas for-
malizados. São mais bem consideradas não como adjuntos à uma linguagem,
mas como correlações entre duas linguagens, sendo uma parte da outra.
Mas estas correlações não são arbitrárias. Supõe-se que elas mostrem o
modo pelo qual as notações primitivas podem realizar todos os propósitos, salvo
brevidade e conveniência, da linguagem redundante. Deste modo pode-se es-
perar que o definiendum e seu definiens sejam relacionados, em cada caso, em
um ou outro dos três modos há pouco indicados. O definiens pode ser uma
ficl paráfrase do definiendum, na notação mais reduzida, preservando uma si-
nonímia diretaº* como a de uso antecedente; ou o definiens pode, no sentido
5 Segundo um importante sentido alternativo de “definição”, a relação preservada pode ser
a relação mais fraca, a de mera concordância na referência; v. From a Logical..., p. 132.
Mas. no. presente contexto, será melhor ignorar este sentido de definição. irrelevante para
a questão da sinonímia.
242 QUINE
da explicação, aperfeiçoar o uso antecedente do definiendum; ou, finalmente, o
definiendum pode ser uma notação criada no momento e recebendo nesse mesmo
momento um significado.
Assim, igualmente nos trabalhos formal e informal, vimos que a definição
— com exceção do caso extremo da introdução explícita e convencional de no-
vas notações — depende de relações de sinonímia anteriores. Reconhecendo
então que a noção de definição não possui a chave da sinonímia e da analiti-
cidade, examinemos mais atentamente a sinonímia, deixando de lado a defi-
nição.
3. Permutabilidade
Uma insinuação natural, merecendo detalhado exame, é a de que a sino-
nímia de duas formas lingiiísticas consiste simplesmente na sua permutabilidade
em todos os contextos sem mudança do valor de verdade — permutabilidade
salva veritate,º segundo a expressão de Leibniz. Note-se que sinônimos assim
concebidos não necessitam nem mesmo ser isentos de vagueza, na medida em
que as vaguezas se equiparem.
Mas não é totalmente verdadeiro que os sinônimos “solteiro” e “homem que
não casou” sejam em todas as oportunidades permutáveis salva veritate. Verdades
que se transformam em falsidades a partir da substituição de “solteiro” por “homem
que não casou” são facilmente construídas com a ajuda de” “cabo solteiro" e tam-
bém com a ajuda de aspas, assim:
“Solteiro” tem menos de dez letras.
Entretanto tais contra-exemplos talvez possam ser eliminados tratando-se a ex-
pressão “cabo solteiro” e a citação ““solteiro”” como uma única e indivisível
palavra e então estipulando que a permutabilidade salva veritate, que deve ser a
pedra de toque da sinonímia, não se supõe aplicável a ocorrências fragmentárias
no interior de uma palavra. Este modo de considerar a sinonímia, supondo-o
aceitável a outros respeitos, tem entretanto a desvantagem de apelar a uma con-
cepção anterior de “palavra” que, por seu turno, certamente apresentará difi-
culdades de formulação. Não obstante, é possível reivindicar algum progresso
pela redução do problema da sinonímia a um problema relativo à “palavridade”
(wordhood). Sigamos um pouco esta linha, sem problematizar a respeito de
“palavra”.
Permanece a questão de saber se a permutabilidade salva veritate (exce-
tuando as ocorrências no interior das palavras) é condição suficientemente rigo-
rosa de sinonímia, ou se, ao contrário, algumas expressões heterônimas poderiam
ser, deste modo, permutáveis. Porém esclareçamos que não se trata aqui de
sinonímia no sentido da completa identidade nas associações psicológicas ou
da qualidade poética; não existem verdadeiramente duas expressões sinônimas
neste sentido. Apenas nos interessa o que pode ser chamado sinonímia cognitiva.
O que vem a ser isso exatamente não poderá ser esclarecido antes de obtermos
uma resposta positiva para a questão que ora consideramos: mas sabemos algo
a respeito a partir da necessidade que dela se fez sentir, em conexão com a ana-
* Cf. Lewis, 4 Survey of Simbolic Logic, p. 373.
? Quine se serve dos exemplos bachelor (solteiro), bachelor of arts (bacharel em humani-
dades) e bachelor's buttons (varideade de ranunculácea). Se estivéssemos trabalhando com a
forma feminina “solteira”, teríamos ainda em português 'semana solteira” como exemplo pa-
ralelo. (N. do T.)
DOIS DOGMAS DO EMPIRISMO 243
liticidade, no 8 1. O que ali se fazia necessário era apenas um tipo de sinonímia
tal que qualquer enunciado analítico pudesse se transformar numa verdade lógica
pela substituição de sinônimos por sinônimos. Reiniciando o curso em sentido
contrário e assumindo a analiticidade, poderíamos explicar a sinonímia cognitiva
dos termos como se segue (conservando os exemplos familiares): dizer que “sol-
teiro” e “homem que não casou” são cognitivamente sinônimos é dizer nem mais
nem menos que:
3) Todos e apenas os solteiros são homens que não
casaram é um enunciado analítico. *
O que necessitamos é uma explicação da sinonímia cognitiva que não pres-
suponha a analiticidade — se quisermos inversamente explicar a analiticidade
com a ajuda da sinonímia cognitiva como foi efetuado no 3 1. Efetivamente
tal explicação independente da sinonímia cognitiva está sendo presentemente
considerada, a saber, a permutabilidade salva veritate em todos os locais, exceto
no interior de palavras. A questão que se nos apresenta é, retomando finalmente
o fio da nossa discussão, se tal permutabilidade é uma condição suficiente de
sinonímia cognitiva. Nós podemos rapidamente assegurar-nos que é, por um
exemplo do tipo seguinte. O enunciado:
4) Necessariamente todos e apenas os solteiros são solteiros
é evidentemente verdadeiro, mesmo no caso em que se suponha “necessariamente”
tão restritivamente construído que apenas seja verdadeiramente aplicável a enun-
ciados analíticos. Então se “solteiro” e “homem que não casou” são permutáveis
salva veritate, o resultado:
5) Necessariamente todos e apenas os solteiros são homens que não casaram
de substituir por “homem que não casou” uma ocorrência de “solteiro” em 4)
deve, como 4), ser verdadeiro. Mas dizer que 5) é verdadeiro é dizer que 3) é
analítico e portanto que “solteiro” e “homem que não casou” são cognitivamente
sinônimos.
Vejamos o que há a respeito do argumento acima que lhe confere esse ar
de passe de mágica. A condição de permutabilidade salva veritate varia em força
segundo as variações do grau de riqueza da linguagem em questão. O argumento
acima supõe que trabalhamos com uma linguagem suficientemente rica para
conter o advérbio “necessariamente”, sendo este de tal maneira construído que
produz uma verdade quando e apenas quando aplicado a um enunciado analítico.
Mas podemos admitir uma linguagem contendo tal advérbio? Realmente faz
sentido tal advérbio? Supor que sim é supor que já tenhamos conseguido um
sentido satisfatório de “analítico”. Então, o que é que consideramos com tanta
dificuldade neste momento?
Nossa argumentação não é planamente circular, mas é algo parecido. Tem
a forma, figurativamente falando, de uma curva fechada no espaço.
A permutabilidade salva veritate não tem qualquer significado até que seja
relativizada a uma linguagem cuja amplitude esteja especificada em aspectos
-
8 Essa é a sinonímia cognitiva num sentido amplo e primário. Carnap, Meaning and...,
pp. 56 e Lewis, 4n Analysis of Knowledge and Valuation, pp. 83 e ss., indicaram como,
de posse desta noção, é possível derivar por sua vez um sentido mais estrito de sinonímia
cognitiva preferível para certos propósitos. Mas esta ramificação especial na construção de
conceitos não se coaduna com nossos propósitos atuais e não deve ser confundida com o
tipo mais amplo de sinonímia cognitiva aqui em questão.
E
244 QUINE
relevantes. Suponhamos agora que seja considerada uma linguagem contendo o
seguinte material. Há um suprimento indefinidamente grande de predicados mo-
nádicos (por exemplo, “F' onde “Fx” significa que x é um homem) e predicados
poliádicos (por exemplo, “G” onde “Gxy” significa que x ama y), a maioria rela-
tivos a assuntos extralógicos. O restante da linguagem é lógico. As sentenças
atômicas consistem cada uma de um predicado seguido de uma ou mais variáveis
Eus “o
x, “y, etc., e as sentenças complexas são construídas a partir das sentenças
atômicas por meio de funções de verdade ('não”, “e” “ou”, etc.) e de quantificação *.
Efetivamente tal linguagem goza também das vantagens das descrições e natu-
ralmente dos termos singulares em geral, estes definíveis contextualmente por
meios conhecidos. 'º Mesmo termos abstratos singulares nomeando classes, classes
de classes, etc. são contextualmente definíveis no caso do suposto suprimento
de predicados incluir o predicado diádico de pertinência de classe. !! Tal lingua-
gem pode ser adequada à matemática clássica e mesmo ao discurso científico
em geral, exceto na medida em que este último inclua expedientes discutíveis,
tais como condicionais contrafatuais ou advérbios modais como “necessariamen-
te”. '” Uma linguagem deste tipo é extensional neste sentido: quaisquer dois pre-
dicados que coincidam extensionalmente (isto é, que sejam verdadeiros dos mes-
mes objetos) são permutáveis salva veritate. !º
Numa linguagem extensional, portanto, permutabilidade salva veritate não
é garantia de sinonímia cognitiva do tipo desejado. Que “solteiro” e “homem que
não casou” sejam permutáveis salva veritate numa linguagem extensional apenas
nos garante que 3) é verdadeiro e nada mais. Aqui nada nos assegura que O
acordo extensional de “solteiro” e “homem que não casou” deva basear-se no
significado de preferência a meramente em acidentais questões de fato, como
sucede no caso do acordo extensional de “criaturas com coração” e “criaturas
com rins”.
Para a maior parte dos propósitos o acordo extensional é a maior aproxima-
ção à sinonímia com que precisamos nos preocupar. Mas permanece o fato de
que o acordo extensional está distante do tipo de sinonímia cognitiva requerido
para explicar a sinonímia ao modo do $ 1. O tipo de sinonímia cognitiva ali
necessário é tal que deve equiparar a sinonímia de '“solteiro' e “homem que não
casou” com a analiticidade de 3), e não meramente com a verdade de 3).
Assim devemos reconhecer que a permutabilidade salva veritate, se cons-
truída em relação a uma linguagem extensional, não é uma condição suficiente
de sinonímia cognitiva no sentido necessário para dela derivar a analiticidade
ao modo do $ 1. Se uma linguagem contém um advérbio intensional, “necessa-
riamente”, no sentido há pouco indicado, ou outras partículas de igual efeito,
então a permutabilidade salva veritate em tal linguagem proporciona de fato
uma condição suficiente de sinonímia cognitiva. Mas tal linguagem apenas é
inteligível na medida em que a noção de analiticidade já esteja antecipadamente
entendida.
O esforço para explicar primeiramente a sinonímia cognitiva, para poder
dela posteriormente derivar a analiticidade como no $ 1, é talvez uma abor-
dagem inadequada do problema. Deveríamos, ao invés, tentar de algum modo
? From a Logical..., pp. 81 e ss., contém uma descrição justamente de uma tal lingua-
gem, exceto pelo fato de existir ali apenas um predicado: o predicado diádico
0 Td., pp. 5-8; também pp. 85 es, 177 es.
NId., p. 87.
2 Sobre tais expedientes, v. também todo o ensaio VIII in From a Logical...
'3 Esta é a substância de: meu livro Mathematical Logic, 121.
DOIS DOGMAS DO EMPIRISMO 24
an
explicar a analiticidade sem apelar à sinonímia cognitiva. Posteriormente pode-
ramos, sem dúvida, derivar a sinonímia cognitiva da analiticidade de modo
suficientemente satisfatório, se desejado. Vimos que a sinonímia cognitiva de
“solteiro” e “homem que não casou” pode ser explicada como analiticidade de 3).
À mesma explicação serve para qualquer par de predicados monádicos. é claro,
e pode ser estendida, de modo evidente, a predicados poliádicos. Outras cate-
gorias sintáticas podem ser também incluídas de modo basicamente paralelo.
Termos singulares podem ser considerados cognitivamente sinônimos quando
o enunciado de identidade formado pela colocação de *=" entre eles é analítico.
Enunciados podem ser considerados simplesmente como cognitivamente sinô-
nimos quando sua bicondicional (o resultado de uni-los por “se e somente se”)
é analítica. !! Se nos preocuparmos em reunir todas as categorias numa única
tormulação, ao preço de reassumir a noção de “palavra”, invocada anteriormente
nesta seção, poderemos descrever duas formas lingiisticas quaisquer como cogni-
tivamente sinônimas, quando as duas formas forem permutáveis (excluindo as
cecorrências no interior das “palavras”) salva (não mais veritate mas) analyiticitate.
Decerto surgem certas questões técnicas sobre casos de ambiguidade ou homo-
nimia; mas não nos detenhamos nelas, visto que ainda estamos cm digressão.
Ão invés, voltemos as costas ao problema da sinonímia, dirigindo-nos novamente
ao problema da analiticidade.
4. Regras semânticas
A primeira vista a analiticidade pareceu mais naturalmente definível ape-
lando-se a um domínio de significados. Numa análise mais refinada, o apelo
aos significados cedeu lugar a um apelo à sinonímia ou à definição. Mas a defi-
nicão mostrou-se um fogo-fátuo, e a sinonímia mostrou ser mais bem compre-
endida apenas por força de um apelo anterior à própria analiticidade. Deste
modo voltamos ao problema da analiticidade.
Eu não sei se o enunciado “Tudo o que é verde é extenso” é analítico. Mas
será que minha indecisão sobre este exemplo trai na verdade uma compreensão
incompleta, uma captação incompleta dos “significados” de “verde” e “extenso”?
Não creio. O problema não está em “verde” ou “extenso”, mas em “analítico”.
E frequentemente sugerido que a dificuldade em distinguir enunciados ana-
líticos e sintéticos na linguagem comum é devida à vagueza desta linguagem e
que a distinção é clara quando possuímos uma precisa linguagem artificial com
“regras semânticas” explícitas. Isto, entretanto, como tentarei agora mostrar, é
uma confusão.
A noção de analiticidade com a qual nos preocupamos é uma pretendida
relação entre enunciados e linguagens: um enunciado E é dito analítico para uma
linguagem L, e o problema é dar um sentido geral para esta relação, isto é, para
variáveis “E' e “L'. A gravidade deste problema não é sensivelmente menor para
as linguagens artificiais do que para as linguagens naturais. O problema de dar
sentido ao idiomatismo “E é analítico para L”, com variáveis “E' e *L”, continua
recalcitrante, mesmo se limitamos o âmbito da variável “L” às linguagens artifi-
ciais. Tentarei agora evidenciá-lo.
A respeito de linguagens artificiais e regras semânticas é natural que nos
voltemos aos escritos de Carnap. Suas regras semânticas tomam formas variadas,
4 O próprio 'se e somente se” é entendido no sentido funciona! veritativo. V. Carnap.
Meaning and...
246 QUINE
e, para mostrar o que pretendo, deverei distinguir algumas destas formas. Tome-
mos, para começar, uma linguagem artificial Lo cujas regras semânticas têm
explicitamente a forma de uma especificação, recursiva ou de outro tipo, de todos
os enunciados analíticos de Lo. As regras nos dizem que tais e tais enunciados, e
apenas estes são os enunciados analíticos de Lo. Ora, aqui a dificuldade é simples-
mente que as regras contêm a palavra “analítico” que nós não compreendemos. Com-
preendemos a quais expressões as regras atribuem analiticidade, mas não com-
preendemos o que as regras atribuem a estas expressões. Em resumo, antes de
podermos entender uma regra que começa com “Um enunciado E é analítico
para a linguagem Lo se e somente se. ..”', precisamos compreender o termo geral
relativo “analítico para”; precisamos compreender “E é analítico para L” onde “E'
e 'Lº são variáveis.
Alternativamente podemos, de fato, encarar as assim chamadas regras como
uma definição convencional de um novo símbolo simples “analítico-para-Lo”
sendo talvez preferível a notação não tendenciosa 'K” para não parecer indevida-
mente que a definição traz algum esclarecimento sobre intrigante palavra 'ana-
lítico”. Obviamente qualquer número de classes K, M, N, etc., de enunciados
de Lo, pode ser especificado para vários propósitos ou independentemente de
qualquer propósito. O que significa dizer que K, ao contrário de M, N, etc., é a
classe dos enunciados “analíticos” de Lo?
Ao dizer quais os enunciados analíticos para Lo explicamos “analítico-para-
Lo”, mas não “analítico” nem “analítico para”. Não explicamos o idiomatismo “E
é analítico para L” com variáveis “E” e *L”, nem mesmo se nos contentamos em
limitar o âmbito de *Lº ao domínio das linguagens artificiais.
Na realidade conhecemos o suficiente a respeito da visada significância de
“analítico” para saber que os enunciados analíticos deverão ser verdadeiros. Vol-
temo-nos então a uma segunda forma de regra semântica que diz não que tais
e tais enunciados são analíticos, mas simplesmente que tais e tais enunciados
estão incluídos entre as verdades. Tal regra não é sujeita à critica de conter a
não compreendida palavra “analítico”; e podemos conceder para fins de argu-
mentação que não existe dificuldade a respeito do termo mais amplo “verdadeiro”.
Uma regra semântica deste segundo tipo, uma regra de verdade, não se supõe que
especifique todas as verdades da linguagem em questão. Ela meramente estipula,
recursivamente ou de outro modo, um certo número de enunciados que, junta-
mente com outros não especificados, devem ser considerados verdadeiros. Pode-
se conceder que tal regra seja suficientemente clara. Após o que a analiticidade
pode ser derivativamente assim demarcada: um enunciado é analítico se é (não
meramente verdadeiro, mas) verdadeiro segundo a regra semântica.
Ainda assim, na verdade, não há progresso. Ao invés de apelarmos a uma
inexplicada palavra “analítico”, apelamos agora a uma inexplicada expressão
'tegra semântica”. Nem todo enunciado verdadeiro que afirma serem verdadeiros
os enunciados de certa classe pode ser considerado regra semântica — de outro
modo todas as verdades seriam “analíticas” no sentido de serem verdadeiras
segundo regras semânticas. Aparentemente as regras semânticas apenas são reco-
nhecíveis pelo fato de aparecerem numa página sob o título “Regras semânticas”;
e este título então é, ele mesmo, sem significado.
Com efeito podemos dizer que um enunciado é analítico-para-Lo se e so-
mente se é verdadeiro segundo tais e tais “regras semânticas” anexadas especifi-
camente, mas, então, nos encontramos de volta essencialmente ao mesmo caso
originariamente discutido: “E é analítico-para-Lo se e somente se...' Uma vez que
buscamos explicar “E é analítico para L” de modo geral para a variável 'L” (mesmo
DOIS DOGMAS DO EMPIRISMO 249
admitindo a limitação de 'L” a linguagens artificiais), a explicação 'verdadeiro se-
gundo as regras semânticas de L” é inútil, pois o termo relativo “regra semântica
de” tem ao menos tanta necessidade de clarificação quando “analítico para”.
Pode ser instrutivo comparar a noção de regra semântica com a de postula-
do. Em relação a um dado conjunto de postulados, é fácil dizer o que é um
postulado: é um membro do conjunto. Em relação a um dado conjunto de
regras semânticas, é igualmente fácil dizer o que é uma regra semântica. Mas,
dada simplesmente uma notação, matemática ou de outro tipo, e uma notação
tão inteiramente compreendida quanto se queira com referência às traduções ou
condições de verdade de seus enunciados, quem pode dizer quais de seus enun-
ciados verdadeiros classificam-se como postulados? Obviamente a questão é des-
provida de significado — tão desprovida de significado quanto perguntar quais
pontos de Ohio são pontos de partida. Qualquer seleção finita (ou infinita,
mas efetivamente especificável) de enunciados (talvez preferivelmente ver-
dadeiros) é, tanto quanto qualquer outro possível, um conjunto de postu-
lados. A palavra 'postulado” é apenas significativa em relação a um ato
de investigação. Aplicamos tal palavra a um conjunto de enunciados, ape-
nas na medida em que sucede estarmos considerando, naquela ocasião específica,
estes enunciados em relação a enunciados que podemos alcançar a partir deles
por algum conjunto de transformações, às quais julgamos conveniente dirigir
nossa atenção. Ora, a noção de regra semântica é tão razoável e significativa
quanto a de postulado, se concebida num espírito similarmente relativo — rela-
tivo, desta vez, a uma ou outra iniciativa particular de instruir leigos a respeito
das condições suficientes para a verdade dos enunciados de alguma linguagem,
natura) ou artificial, L. Mas deste ponto de vista nenhuma assinalação de uma
subclasse das verdades de L é intrinsecamente mais regra semântica que outra, e,
se “analítico” significa 'verdadeiro por regras semânticas”, nenhuma verdade de
L é analítica preferivelmente a uma outra. !º
Pode-se conceber a objeção de que uma linguagem artificial L (diferentemente
de uma linguagem natural) é uma linguagem, no sentido comum, mais um con-
junto de regras semânticas explícitas — o todo constituindo, digamos, um par
ordenado; que as regras semânticas de L são então especificáveis simplesmente
como o segundo componente do par L. Mas, na mesma linha, e de modo mais
simples, podemos construir uma linguagem artificial L diretamente como um par
ordenado cujo segundo componente é a classe de seus enunciados analíticos; e
então os enunciados analíticos de L tornam-se especificáveis simplesmente como
enunciados do segundo componente de L. Ou, melhor ainda, podemos deixar
de lado essas tentativas.
Nem todas as explicações da analiticidade familiares a Carnap e a seus lei-
tores foram explicitamente cobertas nas considerações acima, mas sua extensão
a outras formas não é difícil de conceber. Apenas deveria ser mencionado um
fator adicional que algumas vezes intervém: algumas vezes as regras semânticas
são efetivamente regras de tradução para a linguagem comum, no qual caso os
enunciados analíticos da linguagem artificial são efetivamente reconhecidos como
tais a partir da analiticidade de suas traduções especificadas na linguagem comum.
Aqui certamente não se pode pensar em aclarar o problema da analiticidade da
parte da linguagem artificial.
Do ponto de vista do problema da analiticidade, a noção de uma lingua-
5 O parágrafo precedente não aparecia na edição original deste ensaio. Foi sugerido por
Martin (ver a bibliografia in From a Logical..., assim como o final do ensaio VIII.)
248 QUINE
gem artificial com regras semânticas é um feu follet par excellence. Regras se-
mânticas determinando os enunciados analíticos de uma linguagem artificial são
de interesse apenas na medida em que já compreendemos a noção de analitici-
dade: não nos ajudam a obter esta compreensão.
O apelo a linguagens hipotéticas de tipo artificialmente simples poderia ser
concebido como útil para clarificar a analiticidade, se fatores mentais, compor-
tamentais ou culturais relevantes para a analiticidade — quaisquer que sejam
— de algum modo participassem preliminarmente do modelo simplificado. Mas
é pouco provável que um modelo no qual a analiticidade é assumida meramente
como uma característica irredutível possa trazer luzes para o problema da expli-
cação da analiticidade.
É óbvio que a verdade em geral depende igualmente de fatores lingiúísticos.
O enunciado “Brutus matou César” seria falso se o mundo, em certos aspectos,
tivesse sido diferente, mas seria também falso se a palavra “matou” tivesse por
acaso o sentido de “gerou”. Assim somos levados a supor, em geral, que a verda-
de de um enunciado é de algum modo passível de ser decomposta em um com-
ponente lingúístico e um componente fatual. Dada esta suposição, parecerá em
seguida razoável que em alguns enunciados o componente tatual seja nulo; e são
estes os enunciados analíticos. Mas, por razoável que seja a priori, uma fronteira
entre os enunciados analíticos e sintéticos não toi ainda traçada. Que tal distinção
deva ser feita, afinal, é um dogma dos empiristas, sem qualquer base empírica,
um metafísico artigo de té.
5. A teoria verificacional e o reducionismo
No curso destas sombrias reflexões obtivemos uma obscura visão da noção
de significado, posteriormente da noção de sinonímia cognitiva, e finalmente da
noção de analiticidade. Mas, pode-se perguntar: que dizer da teoria verificacional
do significado? A expressão “teoria verificacional do significado” estabeleceu-se
tão firmemente como divisa do empirismo que de fato seria muito pouco cientií-
fico não proceder a uma busca, sob tal termo, de uma possível chave do problema
do significado e de problemas associados.
A teoria verificacional do significado, notória na literatura desde Peirce,
afirma que o significado de um enunciado é o método de infirmá-lo ou confir-
má-lo empiricamente. Um enunciado analítico é aquele caso-limite que é con-
firmado em qualquer circunstância.
Do modo como se realçou no 3 1, nós podemos também passar por cima
da questão dos significados como entidades e dirigir-nos diretamente à questão
das expressões que têm o mesmo significado ou da sinonímia. Aí, o que diz a
teoria verificacional é que enunciados são sinônimos se e somente se são seme-
lhantes no que diz respeito ao método de infirmação ou confirmação empírica.
Esta é uma explicação da sinonímia cognitiva, não das formas lingúísticas
em geral, mas dos enunciados. !* Entretanto do conceito de sinonímia dos enun-
lé A doutrina pode de fato ser formulada tendo termos como unidades, ao invés de enun-
ciados. Assim Lewis descreveu o significado de um termo como “mm critério em mente, por
referência ao qual somos capazes de aplicar ou recusar a aplicar a expressão em questão
no caso de coisas ou situações presentes ou imaginadas”. An Analysis of Knowledge and Va-
luation, p. 133. — Para uma instrutiva exposição das vicissitudes da teoria verificacional do:
significado, todavia centrada na questão da significância e não na da sinonímia e analiticidade,
consultar Hempel. (Hempe!, C. G., “Problems and changes in the empiricist criterion of
DOIS DOGMAS DO EMPIRISMO 249
ciados poderíamos derivar o conceito de sinonímia para outras formas lingiiís-
ticas, por meio de considerações algo similares aquelas feitas ao final do $ 3.
Com efeito, assumindo a noção de “palavra” poderíamos explicar como sinô-
nimas quaisquer duas formas se, da substituição de uma delas pela ocorrência da
outra em qualquer enunciado (excluindo as ocorrências no interior das palavras),
resultar um enunciado sinônimo. Finalmente, dado o conceito de sinonímia deste
modo para as formas lingiísticas em geral, poderíamos definir a analiticidade
em termos de sinonímia e verdade lógica como no $ 1. Neste particular, po-
deríamos definir a analiticidade mais simplesmente em termos de mera sino-
nímia de enunciados junto com verdade lógica; não é necessário apelar à sino-
nímia das formas lingiísticas outras que não os enunciados. Pois um enunciado
pode ser descrito como analítico simplesmente quando é sinônimo de um enun-
citado logicamente verdadeiro.
Deste modo, se a teoria verificacional puder ser aceita como uma explica-
ção adequada da sinonímia dos enunciados, a noção de analiticidade estará,
apesar de tudo, a salvo. Entretanto reflitamos. A sinonímia dos enunciados é
considerada como semelhança de método de infirmação ou confirmação empírica.
Mas que são estes métodos que devem ser comparados para se estabelecer sua
semelhança? Qual é, em outras -palavras, a natureza da relação entre um enun-
ciado e as experiências que contribuem para sua confirmação ou que a prejudicam”
A concepção mais ingênua desta relação é a que a considera como relato
direto. Isto é reducionismo radical. Todo enunciado significativo é considerado
como traduzível em um enunciado (verdadeiro ou falso) sobre a experiência ime-
diata. Em uma ou outra forma-o reducionismo radical antecede à teoria explicita-
mente chamada teoria veriticacional do significado. Assim, Locke e Hume sus-
tentaram que toda idéia deve ou se originar diretamente na experiência sensível,
ou então ser composta de idéias assim originadas; retomando uma sugestão de
Tooke, podemos reformular esta doutrina num jargão semântico, dizendo que
um termo, para ser de algum modo significante, deve ser ou o nome de um
dado sensível, ou um composto de tais nomes, ou uma abreviatura de tal com-
posto. Assim formulada, a doutrina permanece ambígua quanto a considerar os
dados sensíveis como eventos sensoriais ou como qualidades sensoriais; e per-
manece vaga a respeito dos modos admissíveis de composição. Mais ainda: tal
doutrina é desnecessária e intoleravelmente restritiva na crítica termo por termo
que impõe. Mais razoavelmente, e sem exceder ainda os limites daquilo a que
chamei de reducionismo radical, podemos tomar enunciados completos como
nossas unidades significantes — deste modo exigindo que nossos enunciados,
tomados cada um como um todo, sejam traduzíveis na linguagem dos dados sen-
síveis, mas não que sejam traduzíveis termo por termo.
Esta emenda teria inquestionavelmente sido bem recebida por Locke, Hume
e Tooke, mas historicamente teve que aguardar uma importante reorientação na
semântica — a reorientação pela qual o veículo primário do significado passou a
ser visto não mais no termo, mas no enunciado. Esta reorientação, vista em Ben-
tham e Frege, forma a base do conceito de Russell de: símbolos incompletos
definidos no uso; ” é também implícita na teoria verificacional do significado,
pois que os objetivos da verificação são enunciados.
meaning”, Revue International de Philosophie 4, 1950, pp. 41-63. Republicado em Lins-
ky, op. cir., “The concept of cognitive significance: a reconsideration”, Proceedings of the
American Academy of Arts and Sciences 80, 1951, pp. 61-77. (N. do TS)
7 NY, From a Logical..., p. 6.
IN)
A
o
QUINE
O reducionismo radical, concebido agora com enunciados como unidades,
dá-se à tarefa de especificar uma linguagem dos dados sensíveis e de mostrar
como traduzir nesta linguagem, enunciado por enunciado, o resto do discurso
significante. Carnap envolveu-se neste projeto em seu Aufbau. 'º
A linguagem adotada por Carnap como ponto de partida não era uma
linguagem de dados sensíveis, no sentido mais estrito concebível, pois incluía
também as notações da lógica, ao nível mais elevado da teoria dos conjuntos. Efe-
tivamente incluía toda a linguagem da matemática pura. A ontologia nela im-
plícita (isto é, o domínio dos valores de suas variáveis) abarcava não apenas
eventos sensoriais, mas classes, classes de classes, e assim por diante. Existem
empiristas que se assustariam com tal prodigalidade. Entretanto o ponto de partida
de Carnap é muito parcimonioso em sua parte extralógica ou sensorial. Numa
série de construções onde explora os recursos da lógica moderna com muita en-
genhosidade, Carnap conseguiu definir uma vasta ordem de importantes concei-
tos sensoriais adicionais que, não fossem suas construções, não se sonhariam
definíveis em tão escassa base. Ele foi o primeiro empirista que, não contente
em afirmar a redutibilidade da ciência a termos da experiência imediata, deu
sérios passos para a realização desta redução.
Se o ponto de partida de Carnap é satisfatório, suas construções, entre-
tanto, como ele mesmo salientava, eram apenas fragmentos do programa com-
pleto. A construção mesmo dos mais simples enunciados sobre o mundo físico
foi deixada em estado de esboço. As propostas de Carnap a este respeito, apesar
do caráter de mero esboço, eram muito sugestivas. Ele explicava os pontos-ins-
tantes espaço-temporais como quádruplos de números reais e tinha em vista a
atribuição de qualidades sensíveis aos pontos-instantes de acordo com certos
cânones. Grosseiramente resumido, o plano pedia que fossem atribuídas quali-
dades aos pontos-instantes de tal maneira que se obtivesse o mais indolente dos
mundos compatíveis com a nossa experiência. O princípio de ação mínima deve-
ria ser nosso guia na construção de um mundo a partir da experiência.
Entretanto Carnap aparentemente não se deu conta de que seu tratamento dos
objetos físicos não chegava a ser uma redução, não apenas por ter um caráter
de esboço, mas em princípio. De acordo com seus cânones, a distribuição de
valores de verdade a enunciados da forma “A qualidade q se encontra no ponto-
instante x; y; Z; t', deveria ser feita de maneira a maximizar ou minimizar certas
características globais, e, com o desenvolvimento da experiência, os valores de
verdade deveriam ser progressivamente revistos no mesmo espírito. Penso ser
esta uma boa esquematização (com certeza deliberadamente demasiado simplifi-
cada), daquilo que a ciência realmente faz; mas que não dá qualquer indicação,
nem mesmo a mais resumida, de como um enunciado da forma “A qualidade q
se encontra em x; y; Z; ! poderia ser traduzido na linguagem inicial de Carnap
de dados sensíveis e lógica. O conectivo 'se encontra em” permanece um conec-
tivo acrescentado não definido; os cânones nos guiam quanto a seu emprego, mas
não quanto a sua eliminação.
Carnap parece ter considerado este problema mais tarde, pois em seus tra-
balhos posteriores abandonou toda noção de traduzibilidade de enunciados sobre
o mundo físico em enunciados sobre a experiência imediata. O reducionismo, em
sua forma radical, há muito cessou de figurar na filosofia de Carnap.
Mas o dogma do reducionismo tem continuado, de modos mais sutis e mais
i8 Carnap, Rudolf, Der Logische Aufbau der Welt. (A Construção Lógica do Mundo), Ber-
lim, 1928. (N. do T.)
DOIS DOGMAS DO EMPIRISMO =
an
m—s
tênues, a influenciar o pensamento dos empiristas. Persiste a noção de que, asso-
ciado a cada enunciado ou a cada enunciado sintético, existe um domínio único
de eventos sensoriais possíveis, tais que a ocorrência de qualquer um deles con-
tribuiria para a probabilidade da verdade do enunciado, e de que associado a
cada um deles existe também outro domínio único de possibilidades de eventos
sensoriais cuja ocorrência prejudicaria aquela probabilidade. Esta noção está
implícita evidentemente na teoria verificacional do significado.
O dogma do reducionismo sobrevive na suposição de que cada enunciado,
tomado isoladamente de seus companheiros, pode admitir confirmação ou infir-
mação de algum modo. Minha contraproposta, resultando essencialmente da dou-
trina do mundo físico de Carnap no Aufbau, é que nossos enunciados sobre o
mundo exterior enfrentam o tribunal da experiência sensível não individualmente,
mas apenas como corpo organizado. '?
O dogma do reducionismo, mesmo em sua forma atenuada, está intima-
mente ligado a outro dogma — o de que existe uma separação entre o analítico
e o sintético. Nós mesmos nos vimos, na realidade, levados deste último ao pri-
meiro problema através da teoria verificacional do significado. Mais diretamente,
um dogma claramente suporta o outro neste sentido: enquanto se considera signi-
ficante em geral falar de confirmação ou infirmação de um enunciado, parecerá
igualmente significante falar de um tipo limite de enunciado que é confirmado
vacuamente ipso facto, aconteça o que acontecer; e tal enunciado é analítico.
Os dois dogmas são de fato idênticos em suas raízes. Há pouco concluíra-
mos que em geral a verdade dos enunciados depende obviamente tanto da lin-
guagem como do fato extralingiístico, e notáramos que esta circunstância óbvia
acarreta como conseqgiiência, não logicamente, mas de modo completamente na-
tural, um sentimento de que a verdade de um enunciado é de algum modo ana-
lisável em um componente lingiiístico e em um componente tfatual. Devendo o
componente fatual, de um ponto de vista empirista, reduzir-se a um domínio
de experiências confirmatórias. No caso extremo, onde o componente lingiístico
é tudo o que importa, um enunciado verdadeiro é analítico. Mas eu espero que
agora estejamos impressionados com o modo tão obstinado como a distinção
entre analítico e sintético resistiu a qualquer linha de demarcação simples. Além
disso, estou também impressionado, pondo de parte os exemplos pré-fabricados
de bolas brancas e pretas numa urna, pelo fato de ter sido sempre tão descon-
certante o problema de se chegar a uma teoria explícita da confirmação empírica
de um enunciado sintético. Minha proposta atual diz que é um disparate, e ori-
gem de muitos outros disparates, falar de um componente lingiistico e de um
componente fatual da verdade de qualquer enunciado particular. Tomada global-
mente, a ciência tem sua dupla dependência para com a linguagem e a experiên-
cia. Mas esta dualidade não é significantemente delineável em termos dos enun-
ciados da ciência tomados um por um.
A idéia de definir um símbolo no uso foi, como observamos, um progresso
sobre o impossível empirismo termo por termo de Locke e Hume. Com Bentham
o enunciado, preferivelmente ao termo, veio a ser reconhecido como a unidade
relevante para uma crítica empirista. Mas o que estou agora realçando é que,
mesmo tomando o enunciado como unidade, tecemos nossa rede em malhas
demasiado estreitas. O todo da ciência é a unidade de significância empírica.
” Esta doutrina foi discutida por Duhem P., La théorie physique: som objet et sa structure.
Paris, 1906, pp. 303-328. Ou então v. Lowinger. The Methodology of Pierre Duhem, N. Y,,
Columbia Un. Press, 1941, pp. 132-140,
QUINE
to
in
[9]
6. Empirismo sem dogmas
A totalidade daquilo a que chamamos de nossos conhecimentos ou crenças,
das mais casuais questões de geografia e história, às mais profundas leis da física
atômica ou mesmo da matemática pura e da lógica, é uma construção humana
que está em contato com a experiência apenas em suas extremidades. Ou, mudan-
do a figura, a ciência total é como um campo de força cujas condições de contor-
no são constituídas pela experiência. Um conflito com a experiência, na periferia,
ocasiona reajustamentos no interior do campo. Os valores de verdade devem sei
redistribuídos entre alguns de nossos enunciados. A reavaliação de alguns enun-
ciados acarreta a reavaliação de outros, por suas interconexões lógicas — sendo as
leis lógicas, por sua vez, simplesmente alguns enunciados adicionais do sistema,
certos elementos adicionais do campo. Tendo reavaliado um enunciado, devemos
reavaliar alguns outros, que podem ser enunciados logicamente relacionados com
o primeiro ou podem ser eles próprios enunciados de conexões lógicas. Mas o
campo total está de tal modo determinado por suas condições de contorno, a
experiência, que existe larga margem de escolha de quais enunciados reavaliar à
luz de qualquer experiência individual contrária. Não existem experiências parti-
culares no interior do campo, exceto indiretamente, através de considerações
de equilíbrio que afetam o campo como um todo.
Se esta visão é correta, é enganoso falar em conteúdo empírico de um
enunciado individual, especialmente se se trata de um enunciado completamente
distante da periferia experimental do campo. Além disso, passa a ser um desa-
tino buscar uma fronteira entre enunciados sintéticos que se baseiam contingente-
mente na experiência, e enunciados analíticos, válidos aconteça o que acontecer.
Qualquer enunciado pode ser considerado verdadeiro aconteça o que acontecer,
se realizarmos ajustamentos suficientemente drásticos em outra parte do sistema.
Mesmo um enunciado muito próximo à periferia pode ser considerado verda-
deiro frente a uma experiência recalcitrante, alegando-se alucinação ou reajustan-
do certos enunciados do tipo chamado leis lógicas. Inversamente, comprovando
o que foi dito, nenhum enunciado é imune à revisão. Mesmo a revisão da lei
lógica do terceiro escluído foi proposta como meio de simplificar a mecânica
quântica; e qual em princípio a diferença entre tal alteração e a alteração pela
qual Ptolomeu cedeu lugar a Kepler, Newton a Einstein, ou Aristóteles a Darwin?
Por questões de colorido, falei em termos de variação da distância com
respeito a uma periferia sensorial. Tentarei agora clarificar esta noção sem recor-
rer a metáforas. Certos enunciados, embora sobre objetos físicos e não sobre a
experiência sensível, parecem peculiarmente geminados com a experiência sensi-
vel — e de um modo seletivo: determinados enunciados com determinadas expe-
riências, outros, com outras. Tais enunciados, especialmente geminados com ex-
periências particulares, eu descrevo como próximos à periferia. Mas nesta relação
de “geminação” não vejo mais que uma vaga associação refletindo relativa pro-
babilidade, na prática, de nossa escolha de um enunciado ao invés de outro para
revisão no caso de experiência recalcitrante. Por exemplo, podemos imaginar
experiências recalcitrantes às quais certamente estaríamos inclinados a ajustar
nosso sistema, reavaliando apenas o enunciado de que existem casas de alvenaria
em Elm Street, juntamente com enunciados relacionados sobre o mesmo assun-
to. Podemos imaginar outras experiências recalcitrantes às quais estaríamos incli-
nados a ajustar nosso sistema, reavaliando apenas o enunciado de que não existem
centauros, junto com enunciados congêneres. Uma experiência recalcitrante pode,
eu salientei, ser ajustada por qualquer uma das várias reavaliações alternativas
em vários setores alternativos do sistema total; mas, nos casos que agora ima-
DOIS DOGMAS DO EMPIRISMO 2
tn
109)
ginamos, nossa tendência natural de perturbar o mínimo possível o sistema total
nos levaria a focalizar nossas revisões sobre estes enunciados específicos a res-
peito de casas de alvenaria ou centauros. Deste modo sente-se que estes enuncia-
dos possuem uma mais nítida referência empírica do que os enunciados alta-
mente teóricos da física, da lógica, ou da ontologia. Estes últimos enunciados
podem ser considerados como relativamente centrais dentro da rede total, isto
significando meramente que pouca conexão preferencial com qualquer dado sen-
sível particular se interpõe.
Como empirista, continuo a pensar no esquema conceitual da ciência como
uma ferramenta, em última instância, para prever a futura experiência à luz da
experiência passada. Os objetos físicos são introduzidos conceitualmente na situa-
ção como intermediários convenientes — não pela definição em termos de expe-
riência, mas simplesmente como supostos irredutíveis, ”? comparáveis, epistemo-
logicamente, aos deuses de Homero. Por minha parte, entretanto, como físico
leigo que sou, acredito nos objetos físicos e não nos deuses de Homero; e conside-
ro um erro científico acreditar diversamente. Mas na questão do embasamento
epistemológico, os objetos físicos e os deuses diferem apenas em grau, não em
espécic. Ambos os tipos de entidade integram nossa concepção apenas como
supostos culturais. O mito dos objetos físicos é epistemologicamente superior à
maior parte dos outros mitos porque provou ser mais eficiente que os demais
como expediente para introduzir uma estrutura manipulável no fluxo da expe-
riência.
Esta postulação não pára nos objetos físicos macroscópicos. Objetos a nível
atômico são supostos para fazer as leis dos objetos macroscópicos, e, em última
instância, as leis da experiência, mais simples e mais manipuláveis; e não deve-
mos esperar ou exigir definição completa de entidades atômicas ou subatômicas
em termos de entidades macroscópicas nem uma definição das coisas macroscó-
picas em termos de dados sensíveis. A ciência é uma continuação do senso co-
mum, e ela continua a utilizar o recurso do senso comum de expandir a ontologia
para simplificar a teoria.
Os objetos físicos, pequenos e grandes, não são os únicos supostos. As for-
ças são outro exemplo; e de fato nos dizem hoje em dia que é obsoleta a fron-
teira entre energia e matéria. Mais ainda, as entidades abstratas, substância das
matemáticas — em última instância, classes e classes de classes e assim por
diante — são outros supostos de mesmo espírito. Epistemologicamente são mi-
tos com o mesmo embasamento dos objetos físicos e dos deuses, nem melhores
nem piores, exceto por diferenças no grau em que favorecem nosso manuseio da
experiência sensível.
A álgebra global dos números racionais e irracionais é subdeterminada pela
álgebra dos números racionais, mas é mais regular e conveniente, e inclui a álge-
bra dos números racionais como uma parte entalhada ou dissimulada. ?! A ciên-
cia total, matemática e natural e humana, é de modo similar, porém mais extremo,
subdeterminada pela experiência. As extremidades do sistema devem ser ajusta-
das à experiência; o restante, com todos os seus elaborados mitos e ficções, tem
como objetivo a simplicidade das leis.
Sob este ponto de vista, as questões ontológicas estão no mesmo pé que
as questões da ciência natural. 22? Considere-se a questão de saber se cabe susten-
2% Cf. From a Logical..., pp. 17 es.
2 Id. p. 18.
2 Lontologie fait corps avec ta science elle-même et ne peut en être separée. Meyerson.
Identité et Realité, Paris, 1908, p. 439.
254 QUINF
tar as classes como entidades. Como indiquei em outra parte, ? trata-se da ques-
tão de saber se devemos quantificar com respeito às variáveis que tomam classes
como valores. Ora, Carnap * sustentou que isso não é uma questão tatual, mas
de escolha de uma forma lingiística conveniente, um esquema ou estrutura con-
ceitual conveniente para a ciência. Posso concordar com isso, com a condição de
que o mesmo seja concebido no que diz respeito às hipóteses científicas em ge-
ral. Carnap reconheceu ser capaz de preservar um duplo critério para questões
ontológicas e hipóteses científicas, apenas assumindo uma distinção absoluta entre
o analítico e o sintético; e não preciso dizer mais uma vez que é uma distinção
que rejeito. *
A questão da existência das classes parece mais uma questão de esquema
conceitual conveniente; a questão da existência de centauros ou casas de alvena-
ria em Elm Street parece mais uma questão de fato. Mas tenho salientado que
esta diferença é apenas de grau, e baseia-se em nossa inclinação vagamente prag-
mática para ajustar uma fibra do tecido da ciência ao invés de outra, ao acomodar
alguma particular experiência recalcitrante. Em tais decisões, têm seu papel o
conservadorismo e igualmente a busca da simplicidade.
Carnap, Lewis e outros tomam posição pragmática na questão da escolha
entre formas lingúísticas, ou estruturas científicas, mas seu pragmatismo se detém
na fronteira imaginada entre o analítico e o sintético. Repudiando tal fronteira.
esposo um pragmatismo mais completo. A cada homem é dada uma herança
científica mais um contínuo fogo de barragem de estimulação sensorial; e as
considerações que o guiam na urdidura de sua herança científica para ajustar ser:
contínuas incitações sensoriais são, quando racionais, pragmáticas.
23 From a Logical..., pp. 12 e s., pp. 102 ess.
24 Para uma expressão efetiva de dúvidas adicionais a respeito desta distinção, consultar
White, “The analytic and the syntetic: an untenable dualism”, in S. Hook (ed.), John Dewey:
Philosopher of Science and Freedom, N. Y., Dial Press, 1950, pp. 316-330.
25 Carnap, R., “Empiricism, semantics, and ontology”, Revue Internationale de Philosophie
4 (1950), 20-40. Republicado em Linsky, L. (org.), Semantics and the Philosophy of Lan-
guage (Urbana: University of Illinois Press, 1952). (N. do T.)
IDENTIDADE, OSTENSÃO E HIPÓOSTASE
A identidade é bem conhecida como fonte de perplexidade filosófica. Dadas
as mudanças por que eu passo, como se pode dizer que continuo sendo eu mes-
mo? Considerando que de tantos em tantos anos se dá uma substituição completa
de minha substância material, como se pode dizer que continuo sendo eu próprio
por mais do que esse período, na melhor das hipóteses?
Seria agradável deixar-se arrastar, por estas ou outras considerações, para
a crença numa alma imutável e portanto imortal, como veículo de minha persis-
tente identidade pessoal. Mas hesitaríamos mais em adotar uma solução seme-
lhante para o problema posto por Heráclito a respeito do rio, embora o proble-
ma seja semelhante: “Não podemos banhar-nos no mesmo rio duas vezes, porque
novas águas estão sempre correndo para nós.”
A solução do problema de Heráclito, embora por demais conhecida, per-
mitirá uma abordagem adequada de questões menos conhecidas. A verdade é que
podemos banhar-nos duas vezes no mesmo rio, mas não no mesmo estágio de
rio. Podemos banhar-nos em dois estágios de rio que são estágios do mesmo rio,
e a isto chamamos banhar-se duas vezes no mesmo rio. Um rio é um processo
através do tempo, e os estágios de rio são partes momentâneas deste processo. A
identificação do rio em que já nos banhamos uma vez com o rio em que volta-
mos a banhar-nos é precisamente o que leva a conceber nosso assunto como
processo de rio, e não como estágio de rio.
Permita-se-me chamar uma água a qualquer multiplicidade de moléculas de
água. Sendo assim, um estágio de rio é ao mesmo tempo um estágio de água,
mas dois estágios do mesmo rio geralmente não são estágios da mesma água.
Os estágios do rio são estágios de água, mas os rios não são águas. Podemos
banhar-nos no mesmo rio duas vezes sem nos banharmos na mesma água duas
vezes, e podemos também, nestes dias de transportes rápidos, banhar-nos duas
vezes na mesma água, banhando-nos em dois rios diferentes.
Suponhamos que podemos começar partindo de coisas momentâneas e suas
inter-relações. Uma destas coisas momentâneas, chamada a, é um estágio momen-
tâneo do rio Caístro, na Lídia, cerca de 400 anos a.C. Uma outra, chamada b,
é um estágio momentâneo do Caístro dois dias depois. Uma terceira, chamada c,
é um estágio momentâneo, neste mesmo dia posterior, da mesma multiplicidade
de moléculas de água que estava no rio no momento a. Metade de c está no vale
do baixo Caístro, e a outra metade encontra-se em diversos pontos espalhados
pelo mar Egeu. Assim, a, b e c são três objetos relacionados de várias maneiras.
Podemos dizer que a e b se encontram numa relação de parentesco fluvial, e que
a e c se encontram numa relação de parentesco aquático.
Ora, apresentar os rios como entidades singulares, isto é, processos ou obje-
tos consumidores de tempo, consiste fundamentalmente em falar em identidade
256 QUINE
onde antes falávamos em parentesco fluvial. Seria errado, sem dúvida, dizer que
a e b são idênticos; entre eles há apenas parentesco fluvial. Mas se apontássemos
para a, depois esperássemos os necessários dois dias e apontássemos para b, e
afirmássemos a identidade dos objetos apontados, estaríamos manifestando que
nosso apontar não pretendia ser o apontar de dois estágios de rio aparentados, e
sim o apontar de um único rio que os inclui a ambos. Aqui, a atribuição de iden-
tidade é essencial para determinar a referência da ostensão.
Essas reflexões remetem para a análise de nossa idéia dos objetos exteriores
feita por Hume. A teoria de Hume era de que a idéia dos objetos exteriores deriva
de um erro de identificação. Várias impressões semelhantes separadas no tempo
são erradamente tratadas como idênticas; depois, a fim de resolver esta contradi-
ção de identificar eventos momentâneos que estão separados no tempo, inventa-
mos um novo objeto não momentâneo para a ele referir nossa afirmação de iden-
tidade. A acusação de identificação errônea proferida aqui por Hume é interes-
sante como conjetura psicológica sobre as origens, mas não é preciso adotar aqui
essa conjetura. O aspecto que é importante salientar é a relação direta entre a
identidade e o posicionamento de processos, ou objetos desenrolados no tempo.
Atribuir identidade em vez de parentesco fluvial é o mesmo que falar no rio
Caístro em vez de falar em a e em b.
Apontar é já de si ambíguo quanto à amplitude temporal do objeto indicado.
Mesmo admitindo que o objeto indicado seja um processo de considerável am-
plitude temporal, e portanto uma somação de objetos momentâneos, o apontar
nem por isso nos diz qual é a somação de objetos momentâneos de que se trata,
para além do fato de que o objeto momentâneo deverá estar na somação dese-
jada. Apontar para a, construído enquanto referido a um processo desenrolado
no tempo e não meramente ao objeto momentâneo a, pode ser interpretado como
referido ao rio Caístro do qual a e b são dois estágios, ou como referido à água
da qual a e c são dois estágios, ou como referido a qualquer uma dentre um
número ilimitado de outras somações menos naturais às quais a também pertence.
Geralmente esta ambigiiidade é resolvida acompanhando o apontar com pa-
lavras como “este rio”, apelando assim para o conceito anterior de um rio como
um tipo definido de processo consumidor de tempo, uma forma definida de so-
mação de objetos momentâneos. Apontar para a e dizer “este rio” — ou hóde ho
potamós, já que estamos no ano 400 a. C — não deixa ambigiidade quanto ao
objeto da referência, se a própria palavra rio” já de si for inteligível. *Este rio
significa 'a somação fluvial de objetos momentâneos que contém este objeto
momentâneo”.
Mas aqui já fomos além da simples ostensão e assumimos a conceitualização.
Suponhamos agora que, pelo contrário, o termo geral “rio” ainda não é com-
preendido, de modo que não podemos especificar o Caístro apontando e dizendo:
“Este rio é o Caístro”. Suponhamos que estamos privados de qualquer outro ins-
trumento de descrição. Nesse caso, o que podemos fazer é apontar para a e dois
dias depois para b, dizendo de cada uma das vezes: “Este é o Caístro”. Usada
assim, a palavra 'este' não deve referir-se a nem a b, mas a alguma coisa mais
abrangente, idêntica nos dois casos. Todavia, nossa especificação do Caístro ain-
da não é única, pois poderíamos ainda estar indicando qualquer uma dentre uma
vasta variedade de outras coleções de objetos momentâneos, relacionados de ou-
tros modos que não o parentesco fluvial; tudo quanto sabemos é que a e b se
contam entre seus constituintes. Todavia, ao apontar cada vez mais estágios além
de a e b vamos eliminando, cada vez mais, alternativas, até que nosso ouvinte,
ajudado por sua própria tendência para favorecer os agrupamentos mais naturais,
acaba por captar a idéia do Caístro. Seu aprendizado desta idéia é uma indução:
IDENTIDADE, OSTENSÃO, HIPÓOSTASE 2s)
a partir de nosso agrupamento das amostras de objetos momentâneos a, b, d, g e
outras, sob a designação de Caístro, ele projeta uma hipótese geral correta a res-
peito de quais os outros objetos momentâneos que nós também estaríamos dis-
postos a incluir.
Na realidade, o caso do Caístro implica também o problema de sua exten-
são no espaço, assim como no tempo. Temos que apontar nossas amostras não
apenas em várias datas, mas também em vários pontos rio acima e rio abaixo,
para que nosso ouvinte possa adquirir uma base representativa para sua genera-
lização indutiva quanto à pretendida amplitude espaço-temporal do objeto tetra-
dimensional Caístro.
Na ostensão, a amplitude espacial não é inteiramente separável da ampli-
tude temporal, porque é inevitável que as sucessivas ostensões, que fornecem as
amostras relativas à amplitude espacial, consumam tempo. Pode-se assim ver
uma antecipação, embora superficial, nesta simples situação de ostensão, da
inseparabilidade do espaço e do tempo característica da teoria da relatividade.
Assim, vemos que o conceito de identidade desempenha uma função central
na especificação por ostensão de objetos espaço-temporalmente extensos. Sem a
identidade, n atos de ostensão limitar-se-iam a especificar até n objetos, cada um
deles de amplitude espaço-temporal indeterminada. Mas, quando afirmamos a
identidade de um objeto, de ostensão em ostensão, fazemos que nossas n osten-
sões se refiram ao mesmo objeto extenso, fornecendo assim a nosso ouvinte um
fundamento indutivo a partir do qual ele pode adivinhar o pretendido alcance
desse objeto. A pura ostensão mais a identificação transmitem, com a ajuda de
um pouco de indução, a amplitude espaço-temporal.
do
Ora, existe uma evidente semelhança entre o que até aqui se observou e a
explicação ostensiva dos termos gerais, tais como “vermelho” ou trio”. Quando
aponto numa direção em que há vermelho visível e digo: “Isso é vermelho”, repe-
tindo o ato em diversos lugares durante um certo período de tempo, forneço uma
base indutiva para a avaliação da pretendida amplitude do atributo vermelhidão.
A diferença parece ser simplesmente que a amplitude de que aqui se trata é uma
amplitude conceitual, a generalidade, em vez de uma amplitude espaço-temporal.
E será isto realmente uma diferença? Procuremos modificar nosso ponto de
vista de maneira a pensar na palavra “vermelho” em total analogia com a palavra
'Caístro”. Apontando e dizendo: “Isto é Caístro' em vários momentos e lugares
vamos progressivamente melhorando a compreensão de nosso ouvinte quanto às
porções do espaço-tempo que pretendemos sejam abrangidas por nossa palavra
“Caístro”; e apontando e dizendo: “Isto é vermelho” em vários momentos e luga-
res vamos progressivamente melhorando a compreensão de nosso interlocutor
quanto às porções do espaço-tempo que pretendemos sejam abrangidas por nos-
sa palavra “vermelho”. Sem dúvida as regiões às quais “vermelho” se aplica não
estão em continuidade umas com as outras, ao contrário das regiões às quais
'Caístro' se aplica, mas isto é certamente um pormenor irrelevante; certamente
“vermelho” não deve ser oposto a “Caístro”, como o abstrato ao concreto, sim-
plesmente por causa da descontinuidade em forma geométrica. O território dos
Estados Unidos, incluindo o Alasca, é descontínuo, mas mesmo assim é um
objeto concreto singular; é também esse o caso de uma série de quartos, ou de
um baralho de cartas espalhado. Não há dúvida de que todo objeto físico que
não seja subatômico será considerado, segundo a física, como feito de partes
espacialmente separadas. Nesse caso, por que não encarar “vermelho” no mesmo
[9]
in
[9 .6)
QUINE
pé que *Caístro”, como designação de um objeto concreto singular situado no
espaço e no tempo? Deste ponto de vista, dizer que uma certa gota é vermelha
é o mesmo que afirmar uma simples relação espaço-temporal entre dois objetos
concretos; um dos objetos, a gota, é uma parte espaço-temporal do outro, o ver-
melho, tal como uma certa queda de água é uma parte espaço-temporal do
Caístro.
Antes de passar a examinar como se dá o colapso da equiparação geral dos
universais aos particulares, gostaria de voltar atrás para perscrutar mais atenta-
mente o terreno que já percorremos. Já vimos como a identidade e a ostensão se
combinam na conceitualização de objetos extensos, mas não perguntamos por
quê. Qual é o valor da sobrevivência desta prática? A identidade é mais con-
veniente do que o parentesco fluvial ou outras relações, porque os objetos rela-
cionados não têm que ser separados, enquanto multiplicidade. Se o que preten-
demos dizer sobre o rio Caístro não implicar em si mesmo distinções entre os
estágios momentâneos a, b, etc., ganhamos em simplicidade formal de assunto
pela representação de nosso assunto como um objeto singular, o Caístro, em vez
de uma multiplicidade de objetos a, b, etc., ligados por parentesco fluvial. Este
expediente é uma aplicação, de maneira local ou relativa, da navalha de Occam:
as entidades visadas num determinado discurso são reduzidas de uma multipli-
cidade, a, b, etc., a uma só, o Caístro. Contudo, note-se que de um ponto de
vista global ou absoluto este expediente opõe-se diametralmente à navalha de
Occam, porque as múltiplas entidades a, b, etc., não foram eliminadas do uni-
verso; simplesmente foi acrescentado o Caístro. Há contextos nos quais ainda
precisaremos falar diferencialmente de a, b, e outros, em vez de falar indiscrimi-
nadamente do Caístro. Mesmo assim, o Caístro continua sendo um acréscimo
conveniente a nossa ontologia, por causa dos contextos em que ele efetivamente
permite uma economia.
Suponhamos, de maneira um tanto mais geral, um discurso sobre objetos
momentâneos que acontece continuarem sendo todos estágios de rio, mas não
inteiramente ligados por parentesco fluvial. Se acontecer neste discurso deter-
minado que tudo quanto se afirme de qualquer objeto momentâneo seja também
afirmado de qualquer outro a ele ligado por parentesco fluvial, de modo tal que
se torne irrelevante qualquer distinção entre estágios do mesmo rio, nesse caso
torna-se claro que ganhamos em simplicidade com a representação de nosso as-
sunto como composto de alguns rios, em vez dos muitos estágios de rio. Continua
havendo diversidades entre nossos novos objetos, os rios, mas não permanecem
quaisquer diversidades além das que são exigidas pelas necessidades do discurso
que nos ocupa.
Referi-me há pouco à integração de objetos momentâneos em totalidades
consumidoras de tempo, mas é claro que idênticas observações se aplicam à
integração de localidades individualmente assinaláveis em totalidades espacial-
mente extensas. Quando o que pretendemos dizer acerca de certas superfícies
extensas não diz respeito a distinções entre suas partes, simplificamos nosso dis-
curso tornando seus objetos tão poucos e tão grandes quanto podemos — to-
mando como objetos singulares diversas superfícies extensas.
Observações semelhantes se aplicam também, e de maneira extremamente
manifesta, à integração conceitual — a integração de particulares num universal.
Suponhamos um discurso acerca de estágios de pessoas, e suponhamos que tudo
quanto for dito acerca de qualquer estágio de pessoa, neste discurso, se aplica
igualmente a todos os estágios de pessoa que ganham a mesma quantidade de
dinheiro. Neste caso, nosso discurso é modificado pela mudança de assunto, de
IDENTIDADE, OSTENSÃO, HIPÓOSTASE 259
estágios de pessoa para grupos de renda. São assim excluídas do assunto as dis-
tinções irrelevantes para o discurso em questão.
De uma maneira geral, poderíamos propor esta máxima da identificação dos
indiscerníveis: os objetos que não se distinguem uns dos outros nos termos de um
dado discurso devem ser construídos como idênticos para esse discurso. De modo
mais preciso: as referências aos objetos originais devem ser reconstruídas, para os
fins do discurso, enquanto referidas a outros objetos, em menor número, de mo-
do tal que cada um dos originais indistinguíveis dá lugar ao mesmo novo objeto.
Um exemplo flagrante da aplicação desta máxima é o chamado cálculo pro-
posicional, que é bem conhecido. ' Para começar, sigamos o exemplo de parte da
literatura moderna, pensando no “p”, no 'q”, etc., desse cálculo como referidos a
conceitos proposicionais, sejam eles o que forem. Mas sabemos que os conceitos
proposicionais idênticos em valor de verdade são indistinguíveis nos termos des-
se cálculo, isto é, intercambiáveis quanto a tudo o que diga respeito a coisas ex-
pressáveis neste cálculo. Assim, o cânon da identificação dos indiscerníveis reco-
menda que reconstruamos “p”, 'q”, etc., como referidos unicamente a valores de
verdade — o que era, a propósito, a interpretação dada por Frege a este cálculo.
Quanto a mim, prefiro conceber 'p”, 'q', etc., como letras esquemáticas ocu-
pando o lugar de enunciados, mas sem qualquer função de referência. Mas a
máxima aplicar-se-á perfeitamente se eles forem tratados como tendo função de
referência.
Nossa máxima de identificação dos indiscerníveis é relativa a um discurso,
e portanto é vaga na mesma medida em que é vaga a diferenciação entre dis-
cursos. Aplica-se melhor quando o discurso é nitidamente fechado, como o cál-
culo proposicional, mas geralmente o discurso se subdivide em determinado grau.
e este grau tenderá a determinar onde e em que grau se poderá tornar conveniente
invocar a máxima da identificação dos indiscerníveis.
3
Voltamos agora a nossas reflexões sobre a natureza dos universais. Repre-
sentamos há pouco esta categoria através do exemplo de 'vermelho', e vimos
que este exemplo permite ser tratado como um particular espaço-temporalmente
extenso comum, no mesmo plano que o Caístro. O vermelho é a maior coisa
vermelha do universo — a coisa total dispersa cujas partes são todas as coisas
vermelhas. De maneira semelhante, no recente exemplo dos grupos de renda, ca-
da grupo de renda pode ser pensado simplesmente como a coisa espaço-temporal
dispersa total que é feita dos estágios de pessoa pertinentes, vários estágios de
várias pessoas. Um grupo de renda é exatamente tão concreto como um rio ou
uma pessoa, e tal como uma pessoa e uma somação de estágios de pessoa. Difere
de uma pessoa apenas na medida em que os estágios de pessoa que se reúnem
para construir um grupo de renda são uma seleção diferente daquela que consti-
tui uma pessoa. Os grupos de renda relacionam com as pessoas aproximadamente
como as águas se relacionam com os rios; pois lembrar-se-á que o objeto mo-
mentâneo a fazia parte, de maneira temporal, do mesmo rio e da mesma água,
enquanto b fazia parte do mesmo rio, mas não da mesma água, e que c fazia
parte da mesma água, mas não do mesmo rio. Até agora, portanto, a distinção
! Ver From a Logical Point of View, Harvard University Press, Cambridge, 1964. pp. 108-113.
260 QUINE
ntre a integração espaço-temporal e a integração conceitual parece inútil; tudo
integração espaço-temporal.
Permita-se-me agora mudar para um exemplo mais artificial. Suponhamos
que nosso assunto consiste nas regiões convexas visivelmente delineadas, peque-
nas e grandes, desta figura. Há trinta e três dessas regiões. Suponhamos além
e
e
disso que empreendemos um discurso relativamente a quais dentre quaisquer re-
giões geomcetricamente similares são intercambiáveis. Nesse caso, nossa máxima
de identificação dos indiscerníveis ordena, para fins deste discurso, que falemos
em identidade em vez de similaridade; que digamos que x = y, em vez de que
x e y são similares, passando a reconstruir os objetos x e y como formas, e não
mais como regiões. Assim, o tema vê-se reduzido em multiplicidade de trinta e
três para cinco: o triângulo isósceles retângulo, o quadrado, o retângulo de dois
por um e duas formas trapezoidais.
Cada uma destas cinco é um universal. Suponhamos agora que, tal como
reconstruímos a cor vermelha como a coisa espaço-temporal total feita de todas
as coisas vermelhas, construímos também a forma do quadrado como a região
total feita da associação de todas as cinco regiões quadradas. Suponhamos tam-
bém que construímos a forma do triângulo isósceles retângulo como a região
total feita da associação de todas as dezesseis regiões triangulares. Da mesma
maneira, suponhamos que construímos a forma do retângulo de dois por um co-
mo a região total feita da associação das quatro regiões retangulares de dois por
um; e de maneira semelhante para as duas formas trapezoidais. É claro que isto
leva a dificuldades, pois nesse caso todas as nossas cinco formas se reduzem a
uma só, a região total. A associação de todas as regiões triangulares resulta sim-
plesmente na região total quadrada, a associação de todas as regiões quadradas
resulta no mesmo; e de maneira semelhante para as outras três formas. Iríamos
desembocar na intolerável conclusão de que as cinco formas são idênticas.
Assim apesar de ter ela resultado para o caso do vermelho, assistimos ao
colapso, em termos gerais, da teoria dos universais enquanto concretos. ? É pos-
sível imaginar que os universais em geral, enquanto entidades, se insinuaram em
nossa ontologia da maneira seguinte. Primeiro adquirimos o hábito de introduzir
coisas concretas espaço-temporalmente extensas, conformemente ao padrão há
pouco examinado. Vermelho entrou, juntamente com Caístro e os outros, como
coisa concreta. É, finalmente, triângulo, quadrado e outros universais foram in-
troduzidos com base numa analogia defeituosa com vermelho e outros do mesmo
gênero.
Puramente a título de esporte filosófico, sem supor que haja quaisquer im-
plicações sérias, psicológicas ou antropológicas, em nossas reflexões, voltemos
agora à teoria dos objetos exteriores de Hume, levando-a um passo mais à frente.
As impressões momentâneas, segundo Hume, são erroneamente identificadas umas
2 Cf. Nelson Goodman, The Structure of Appearance (Cambridge, Harvard University Press.
1951). pp. 46-51. É
IDENTIDADE, OSTENSÃO, HIPOSTASE 261
com as outras com base na semelhança. Depois, para resolver o paradoxo da
identidade entre entidades temporalmente díspares, inventamos os objetos consu-
midores de tempo como objetos dessa identidade. A amplitude espacial pode ser
considerada, para além do que é dado momentaneamente numa impressão, como
introduzida de maneira semelhante. A entidade vermelho, a que podemos cha-
mar um universal ou um particular amplamente disperso, conforme nos aprouver,
pode ser encarada como entrando pelo mesmo processo (embora aqui já tenha-
mos ido além de Hume). As impressões de vermelho momentaneamente locali-
zadas são identificadas umas com as outras, e é então que se apela para uma
entidade singular, o vermelho, como veículo para essas identidades que de outro
modo seriam insustentáveis. E de maneira semelhante no caso da entidade qua-
drado, assim como no da entidade triângulo. As impressões quadrados são identi-
ficadas umas com as outras, e é então que é importada a entidade singular quadra-
do, como veículo para a identidade; e correspondentemente para triângulo.
Até aqui não foi notada qualquer diferença entre a introdução dos particu-
lares e a dos universais. Mas retrospectivamente temos que reconhecer uma dife-
rença. Se quadrado e triângulo se relacionassem com os particulares originais
quadrados e triangulares da mesma maneira como os objetos concretos se
relacionam com seus estágios momentâneos e fragmentos especiais, o resul-
tado seria quadrado e triângulo serem idênticos um ao outro — conforme
se observou por último nos termos de nosso pequeno universo artificial de
regiões.
Portanto chegamos ao reconhecimento de dois tipos de associação diferen-
tes: o de partes concretas num todo concreto, e o de instâncias concretas num
universal abstrato. Chegamos ao reconhecimento de uma diferença entre dois
sentidos de “é”: “Isto é o Caístro”, oposto a “Isto é quadrado”.
4
Interrompendo esta psicologia especulativa, voltemos agora a nossa análise
da ostensão de objetos espaço-temporalmente extensos, para vermos como ela
difere do que pode chamar-se ostensão de universais irredutíveis, como quadrado
e triângulo. Para explicar ostensivamente o Caístro apontamos para a, b e outros
estágios e dizemos de cada vez: “Isto é o Caístro”, entendendo-se identidade do
objeto indicado entre cada ocasião e a seguinte. Para explicar ostensivamente
“quadrado”, por outro lado, apontamos para vários particulares e dizemos de cada
vez: “Isto é quadrado”, sem atribuir identidade ao objeto indicado, entre cada
ocasião e a seguinte. Neste último caso, os vários gestos de apontar dão a nosso
ouvinte a base para uma indução razoável quanto àquilo que em geral nós que-
remos apontar como quadrado, tal como no primeiro caso os vários gestos de
apontar lhe deram a base para uma indução razoável quanto àquilo que poderia-
mos querer apontar como sendo o Caístro. A diferença entre os dois casos é
simplesmente que num caso se supõe, e no outro não, um objeto indicado idên-
tico. No segundo caso o que se supõe seja idêntico entre um gesto de apontar e
o seguinte não é o objeto indicado e sim, no máximo, um atributo de quadrati-
dade que é partilhado pelos objetos indicados.
Realmente não há necessidade, até este ponto, de supor quaisquer entidades
tais como os atributos em nosso esclarecimento ostensivo de “quadrado”. Estamos
esclarecendo, através do gesto de apontar, nosso uso das palavras 'é quadrado";
mas nem se supõe um objeto quadratidade como objeto apontado, nem é neces-
sário supor que se dispõe dele como referência da palavra 'quadrado”. Nada mais
precisa ser pedido, para a explicação de “é quadrado” ou de qualquer outra frase,
262 QUINE
a não ser que nosso ouvinte aprenda quando deve esperar que nós a apliquemos
a um objeto e quando não; não é preciso que a própria frase seja um nome em
vez de um objeto separado, de qualquer espécie que seja.
Surgiram assim, entre os termos gerais e os termos singulares, os seguintes
contrastes. Primeiro, as ostensões que introduzem um termo geral diferem das
que introduzem um termo singular na medida em que as primeiras não atribuem
identidade de objeto indicado entre cada ocasião e a seguinte. Segundo, o termo
geral não pretende, ou não precisa pretender, ser por sua vez um nome de uma
entidade separada de qualquer espécie, ao contrário do caso do termo singular.
Estas duas observações não são independentes uma da outra. A acessibili-
dade de um termo a contextos de identidade foi afirmada por Frege? como o
padrão pelo qual se pode julgar se esse termo está sendo usado como um nome.
Se um termo está ou não sendo usado para nomear uma entidade é coisa a ser
decidida, em qualquer contexto dado, em função de ser esse termo visto ou não
nesse contexto como sujeito ao algoritmo da entidade: a lei de substituir iguais
por iguais. ?
Não se deve supor que esta doutrina de Frege esteja ligada a um repúdio das
entidades abstratas. Pelo contrário, continuamos a ter a liberdade de admitir os
nomes como entidades abstratas; e, segundo o critério de Frege, uma tal admis-
são consistirá precisamente em admitir os termos abstratos em contextos de iden-
tidade sujeitos às leis regulares da identidade. Diga-se de passagem que a filo-
sofia de Frege pode ser caracterizada como bastante platônica.
A maneira mais clara de encarar este passo da hipóstase de entidades abs-
tratas é, penso eu, encará-lo como um passo adicional que se segue à introdução
dos termos gerais correspondentes. Primeiro podemos supor a introdução do
idioma “Isto é quadrado”, ou 'x é quadrado" — talvez por ostensão, como foi
visto antes, ou talvez de outras maneiras, tal como a habitual definição geomé-
trica mediante termos gerais previamente introduzidos. Depois, num outro passo
deferente, derivamos o atributo quadratidade ou, o que quase equivale à mesma
coisa, a classe dos quadrados. Neste passo apela-se para um novo operador fun-
damental, “classe de”, ou “-idade”.
Atribuo muita importância à distinção tradicional entre termos gerais e ter-
mos singulares abstratos, “quadrado” oposto a 'quadratidade”, por causa de uma
questão ontológica: o uso do termo geral não nos obriga por si só a admitir em
nossa ontologia uma entidade abstrata correspondente; por outro lado, o uso de
um termo singular abstrato, sujeito ao comportamento típico dos termos singula-
res, como a lei de substituir iguais por iguais, obriga-nos diretamente a admitir
uma entidade abstrata nomeada pelo termo.
Facilmente se entenderá que foi precisamente devido a não se ter observado
esta distinção que desde o começo as entidades abstratas adquiriram o domínio
que exercem sobre nossa imaginação. A explicação ostensiva de termos gerais
como “quadrado” é, conforme vimos, muito semelhante à dos termos singulares
concretos como 'Caístro”, e sem dúvida alguma há casos como o de 'vermelho”
em que não precisa ser estabelecida qualquer espécie de diferença. Daí a tendên-
cia natural não apenas para introduzir termos gerais juntamente com termos
singulares, mas também para tratá-los no mesmo pé, uns e outros tomados como
nomes de entidades singulares, Esta tendência é, sem dúvida, estimulada pelo fato
3 “On sense and nominatum”, in Feigl, Herbert e Sellars (eds.), Readings in Philosophical
Analysis, (N. York, Appleton Century Crofts, 1949), pp. 85-102.
4 Ver From a Logical Point of View, Harvard University Press, Cambridge, 1964, pp. 139 e ss.
* Ver From a Logical Point of View, Harvard University Press, Cambridge, 1964, pp. 113 e ss.
IDENTIDADE, OSTENSÃO, HIPÓOSTASE 263
de muitas vezes se tornar conveniente, por razões puramente sintáticas, como,
por exemplo, razões de ordem de palavras ou de remissão, tratar um termo
geral como nome próprio.
5
O esquema conceitual em que fomos educados é uma herança eclética, e as
forças que condicionaram sua evolução desde os dias do Homem de Java em
diante é são matéria de conjetura. As expressões referentes a objetos físicos devem
ter ocupado uma posição focal a partir dos períodos lingiiísticos mais remotos,
porque esses objetos forneciam pontos de referência relativamente fixos para a
linguagem como processo social. Os termos gerais também devem ter aparecido
num estágio remoto, porque estímulos semelhantes tendem psicologicamente a
produzir respostas semelhantes; objetos semelhantes tendem a ser designados pe-
la mesma palavra. Conforme vimos, não há dúvida de que a aquisição ostensiva
de um termo geral concreto se processa fundamentalmente da mesma maneira
que a de um termo singular concreto. A adoção de termos singulares abstratos,
acarretando a suposição de entidades abstratas, é mais um passo em frente, e um
passo filosoficamente revolucionário; mas vimos como por sua vez este passo
poderia ter sido dado sem qualquer invenção consciente.
Há todas as razões para nos regozijarmos com a presença dos termos ge-
rais, seja qual for sua causa. É manifesto que sem eles a linguagem seria impos-
sível, e o pensamento resumir-se-ia a muito pouco. Quanto à admissão das entida-
des abstratas, todavia, enquanto nomeadas pelos termos singulares abstratos, há
lugar para juízos de valor divergentes. Para maior clareza é importante, seja como
for, reconhecer em sua introdução um operador adicional, “classe de” ou '-idade”.
Talvez tenha sido, como há pouco se sugeriu, a incapacidade para apreciar a
intrusão de um tal operador inexplicado que deu origem à crença em entidades
abstratas. Mas este problema genético é independente da questão de saber se as
entidades abstratas, uma vez presentes entre nós, não são uma boa coisa, afinal
de contas, do ponto de vista de conveniência conceitual — mesmo que sua ado-
ção possa ter sido um feliz acidente.
Em qualquer caso, uma vez admitidas as entidades abstratas, nosso meca-
nismo conceitual prossegue em frente e gera uma interminável hierarquia de ou-
tras abstrações, como se esta se impusesse por si mesma. Pois deve se salientar
antes de mais nada, que os processos ostensivos aqui estudados não são a única
maneira de introduzir termos, sejam singulares ou gerais. A maioria de nós con-
cordará que essa introdução é fundamental; mas, uma vez que se dispõe de um
fundo de termos ostensivamente adquiridos, não há dificuldade em explicar dis-
cursivamente outros termos adicionais, mediante a paráfrase em complexos de
vermos já disponíveis. Ora, a explicação discursiva, ao contrário da ostensão, é
exatamente tão utilizável para a definição de novos termos gerais aplicáveis a
entidades abstratas como, por exemplo, “forma” ou “espécie zoológica”, quanto
para a definição de termos gerais aplicáveis a entidades concretas. Assim, apli-
cando o operador “-idade' ou “classe de” a esses termos gerais abstratos, obtemos
termos singulares abstratos de segunda ordem, passando por nomes de entidades
tais como o atributo de ser uma forma ou uma espécie zoológica, ou a classe de
é O espírito grosseiro e vagaroso
Do Homo javanensis
Lidava apenas com coisas concretas
E aos sentidos presentes.
264 QUINE
todas as formas ou espécies zoológicas. O mesmo procedimento pode ser repe-
tido para o nível seguinte, e assim por diante, teoricamente sem limite. É nesses
níveis mais altos que as entidades matemáticas tais como os números, as funções
de números, etc., encontram seu lugar, conforme as análises dos fundamentos da
matemática que se tornaram habituais de Frege em diante, passando por Whi-
tehead e Russell.
A aparentemente fundamental pergunta filosófica: “Quanto de nossa ciência
é mera contribuição da linguagem e quanto é genuíno reflexo da realidade”, tal-
vez seja uma pergunta espúria, ela mesma brotando inteiramente de um certo
tipo particular de linguagem. Não há dúvida de que nos veremos em dificuldades
se tentarmos responder à pergunta, porque para responder à pergunta temos de
falar sobre o mundo tanto como sobre a línguagem, e para falar sobre o mundo
é inevitável que imponhamos ao mundo algum esquema conceitual peculiar a
nossa própria linguagem especial.
Apesar disso não devemos cair na conclusão fatalista de que estamos con-
denados ao esquema conceitual em que fomos educados. Podemos mudá-lo pouco
a pouco, peça por peça, enquanto ao mesmo tempo não há nada para nos levar
em frente senão o próprio esquema conceitual em evolução. A tarefa do filósofo
foi corretamente comparada por Neurath à de um marinheiro que tivesse que
reconstruir seu navio em alto mar.
Podemos ir melhorando nosso esquema conceitual, nossa filosofia, pouco
a pouco, ao mesmo tempo que continuamos a depender de seu apoio; mas não
podemos afastar-nos dela e compará-la objetivamente com uma realidade ainda
não conceitualizada. Por isso não tem qualquer sentido, sugiro eu, perguntar
sobre a absoluta correção de um esquema conceitual enquanto espelho da reali-
dade. Nosso critério para avaliar mudanças básicas do esquema conceitual não
pode ser um esquema realista de correspondência com a realidade, tem que ser
um critério pragmático. ? Os conceitos são linguagem, e a finalidade dos conceitos
e da linguagem é a eficácia da comunicação e da predição. É esse o dever último
da linguagem, da ciência e da filosofia, e é em relação com esse dever que, em
última instância, se deve avaliar um esquema conceitual.
A elegância, a economia conceitual, também conta como objetivo. Mas esta
virtude, embora seja atraente, é secundária — às vezes de uma maneira e às
vezes de outra. A elegância pode decidir a diferença entre um esquema conceitual
psicologicamente utilizável e um outro que seja demasiado canhestro para nos-
sas pobres mentes lidarem com ele eficazmente. Quando isto ocorre, a elegância
é simplesmente um meio em vista de um fim: conseguir um esquema conceitual
pragmaticamente aceitável. Mas a elegância também conta como um fim em si
mesma — o que é perfeitamente aceitável na medida em que permanece secun-
dária sob outro aspecto, a saber, na medida em que a ela se recorre apenas
quanto a escolhas contra as quais o critério pragmático não prescreve qualquer
decisão. Quando a elegância não constitui obstáculo, podemos e devemos, como
poetas, procurar a elegância pela elegância.
* Ver, sobre este tema, Pierre Duhem, La théorie physique: son object et sa structure (Paris,
1906), pp. 34, 280, 347; ou Armand Lowinger, The Methodology of Pierre Duhem (N. York,
Columbia University Press, 1941). pp. 41, 121, 145.
PF STRAWSON
: ESCRITOS
LÓGICO - LINGUÍSTICOS:
(CAPÍTULOS 1,2,/47€9)
Tradução de Balthazar Barbosa Filho
* Traduzido do original inglês: Logic-Linguistic Papers, London, 1971, Methuen & Co. Ltd.
PE cs:
“
I — SOBRE REFERIR
Com muita fregiência, utilizamos certos tipos de expressões para mencionar
ou fazer referência (refer) a alguma pessoa individual ou objeto singular, ou a um
acontecimento em particular, ou lugar ou processo, ou fazer algo que descreve-
riamos, normalmente, como a execução de um enunciado (statement) acerca da-
quela pessoa, objeto, lugar, acontecimento ou processo. Chamarei esse modo de
utilizar expressões de utilização referencial individualizante (uniquely referring
use). As classes de expressões que com maior frequência se utilizam dessa ma-
neira são: pronomes demonstrativos singulares ('isto' e “aquilo; nomes próprios
(por exemplo, *Veneza”, 'Napoleão”, “João'); pronomes pessoais e impessoais no
singular ('ele”, “ela”, *eu”, “tu”, tele”); e frases que começam com o artigo definido
seguido por um substantivo, qualificado ou não, no singular (por exemplo, “a me-
sa”, 'o homem velho”, '*o rei da França”. Qualquer expressão pertencente a qual-
quer uma dessas classes pode figurar como o sujeito daquilo que seria tradício-
nalmente considerado uma sentença de sujeito-predicado no singular; figurando
dessa maneira, tal expressão exemplificaria a utilização que desejo discutir.
Não pretendo dizer que as expressões pertencentes a essas classes jamais
possuam outra utilização que não aquela que quero discutir. Ao contrário, é óbvio
que elas possuem outras utilizações. É óbvio que qualquer um que preferisse
(uttered) a sentença “A baleia é um mamífero”, estaria utilizando a expressão 'a ba-
leia” de maneira totalmente diferente daquela em que ela fosse utilizada por al-
guém que jamais tivesse ocasião de proferir (utter) com seriedade a sentença “A
baleia abalroou o navio”. Na primeira sentença, é óbvio que não se está mencio-
nando uma baleia particular, e é igualmente Óbvio que se está mencionando uma
baleia particular na segunda sentença. Do mesmo modo, se eu dissesse “Napoleão
foi o maior soldado francês”, estaria utilizando a palavra “Napoleão” para men-
cionar um indivíduo determinado, mas não estaria utilizando a frase *o maior
soldado francês” para mencionar um certo indivíduo, mas, ao contrário, para di-
zer algo acerca de um indivíduo que já mencionei. Seria natural dizer que, ao
utilizar essa sentença, eu estava falando acerca (about) de Napoleão, e que aquilo
que eu estava dizendo acerca dele era que foi o maior soldado francês. É claro,
porém, que eu poderia utilizar a expressão *o maior soldado trancês” para men-
cionar um indivíduo; por exemplo, dizendo: 'o maior soldado francês morreu no
exílio”. Fica evidente, portanto, que pelo menos algumas expressões pertencentes
às classes que mencionei, podem ter outras utilizações além daquela que me pro-
ponho examinar. Outra coisa que não pretendo sustentar é que, numa sentença
dada qualquer, nunca há mais do que uma expressão utilizada da maneira que
me interessa discutir. Ao contrário, é óbvio que pode haver mais do que uma.
Seria natural, por exemplo, dizer que, ao utilizar com seriedade a sentença “A ba-
leia abalroou o navio”, eu estava dizendo algo acerca de uma certa baleia e acerca
de um certo navio, e que estava utilizando as expressões 'a baleia” e 'o navio” pa-
ra mencionar um objeto particular; ou, em outras palavras, que eu estava utili-
268 STRAWSON
zando essas duas expressões de uma maneira referencial individualizante. Apesar
disso, contudo, a minha atenção ficará restrita, em geral, a casos nos quais uma
expressão utilizada desse modo figura como o sujeito gramatical de uma sentença.
Penso que é correto dizer que a Teoria das Descrições de Russell — a
qual se ocupa com a última das,quatro classes de expressões que mencionei aci-
ma (isto é, com as expressões da forma 'o tal-e-tal) — ainda é largamente aceita
entre os lógicos, por se entender que ela oferece uma elucidação (account) corre-
ta da utilização de tais expressões na linguagem ordinária. Quero mostrar, em pri-
meiro lugar, que essa teoria, assim entendida, contém alguns erros fundamentais.
A que pergunta, ou perguntas, relativas a frases da forma “o assim-e-assim”,
a Teoria das Descrições destinava-se a responder? Creio que pelo menos uma
dessas perguntas pode ser ilustrada da maneira seguinte. Suponhamos que alguém
pronunciasse hoje a sentença “O rei da França é sábio”. Ninguém diria que a sen-
tença pronunciada é desprovida de significação (meaningless). Todo o mundo
concordaria em que ela é significante (significant). Todos sabem, porém, que não
existe, atualmente, um rei da França. Uma das perguntas que a Teoria das Des-
crições destinava-se a responder era, então, a seguinte: como pode uma sentença
como 'O rei da França é sábio” ser significante mesmo quando não há nada que
corresponda à descrição que ela contém, isto é, nesse caso, nada que corres-
pondia à descrição “O rei da França”? E uma das razões pelas quais Russell pen-
sou ser importante fornecer uma resposta correta a essa pergunta, é que ele con-
siderou ser importante mostrar que estava errada uma outra resposta que poderia
ser oterecida. A resposta que ele pensava estar errada, e à qual Russell desejava
ardentemente fornecer uma alternativa, poderia ser exibida como conclusão de
qualquer um dos dois argumentos seguintes, ambos falaciosos. Chamamos a sen-
tença “O rei da França é sábio” de sentença S. O primeiro argumento é, então o
seguinte:
(1) A frase 'O rei da França” é o sujeito da sentença 5.
Portanto, (2) se S é uma sentença significante, S é uma sentença acerca do
rei da França.
Mas, (3) se não existe, em nenhum sentido, um rei da França, a sentença
não é acerca de coisa nenhuma e, por conseguinte, não é acerca do rei da França.
Portanto, (4) visto que S é significante, o rei da França deve, em algum sen-
ido (em algum mundo), existir (ou subsistir),
E o segundo argumento é como segue:
(1) Se $ é significante, ela é verdadeira ou falsa.
(2) S é verdadeira se o rei da França é sábio e falsa se o rei da França não
é sábio.
(3) Mas o enunciado (statement) de que o rei da França é sábio, assim como
o enunciado de que o rei da França não é sábio são, um e outro, verdadeiros, so-
mente se existir (em algum sentido, em algum mundo) algo que é o rei da França.
Portanto, (4) visto que S é significante, segue-se a mesma conclusão que antes.
É razoavelmente óbvio que esses argumentos são maus e Russell, como
poderíamos esperar, os rejeita a ambos. A postulação de um mundo de entidades
estranhas, ao qual pertence o rei da França, ofende, diz ele, “aquele senso de
realidade que deve ser preservado mesmo nos estudos mais abstratos”. O fato de
Russell rejeitar esses argumentos tem menos interesse, todavia, do que a medida
na qual — ao rejeitar-lhes a conclusão — ele admite o mais importante dos seus
princípios. Referir-me-ei à frase: *O rei da França” como frase D. Creio, então,
que as razões que levaram Russell a recusar esses dois argumentos podem ser
resumidas da maneira seguinte. O erro surge, diz ele, do fato de pensar que D
— que é, sem dúvida, o sujeito gramatical de S —, é também o sujeito lógico
SOBRE REFERIR 269
de S. Na realidade, embora S possua, do ponto de vista gramatical, um sujeito
singular e um predicado, ela não é, do ponto de vista lógico, uma sentença de
sujeito-predicado. A proposição que ela exprime é um tipo complexo de propo-
sição existencial, parte da qual poderia ser descrita como uma proposição 'exis-
tencial individualizadora” (uniguely existencial). A fim de exibir a forma lógica
da proposição, deveríamos reescrever a sentença numa forma gramatical logica-
mente apropriada, de tal sorte que a ilusória semelhança de $ com uma sentença
que exprime uma proposição de sujeito-predicado, desapareceria e que estaríamos
resguardados contra argumentos como os maus argumentos que esbocei acima.
Antes de lembrar os detalhes da análise de S que Russell propôs, devemos assina-
lar aquilo que a sua resposta — tal como eu a apresentei até aqui -— parece
implicar. A resposta de Russell parece implicar que, no caso de uma sentença
que é semelhante a $S em virtude de (1) ter, gramaticalmente, a forma sujeito-
predicado, e (2) o seu sujeito gramatical não se referir a nada — a única alter-
nativa, face à possibilidade de tal sentença ser desprovida de significação, é que
ela não tenha realmente (isto é, do ponto de vista lógico) a forma sujeito-predi-
cado, mas, ao contrário, uma forma totalmente diferente. E isso, por sua vez,
parece implicar que, se existem sentenças que são genuinamente da forma sujeito-
predicado, então o fato mesmo de que sejam significantes, de que tenham signi-
ficação, garante que há alguma coisa referida pelo seu sujeito lógico (e grama-
tical). Mais ainda, a resposta de Russell parece implicar que existem tais sen-
tenças. Com efeito, se é verdade que a semelhança gramatical de S com outras
sentenças pode nos induzir no erro de pensar que S é, do ponto de vista lógico,
da forma sujeito-predicado, então é certo que deve haver outras sentenças gra-
maticalmente semelhantes a S que tenham a forma sujeito-predicado. Para mos-
trar não apenas que a resposta de Russell parece implicar essas conclusões, mas
também que ele aceitou pelo menos as duas primeiras, basta considerar o que
ele diz a respeito de uma classe de expressões que denomina de 'nomes logica-
mente próprios (logically proper names), expressões que ele contrapõe a outras
-— como D — que chama de “descrições definidas”. Com relação aos nomes
logicamente próprios, Russell diz, ou as suas afirmações implicam, as seguin-
tes coisas:
(1) Que eles, e somente eles, podem figurar como sujeitos de sentenças que
são genuinamente da forma sujeito-predicado.
(2) Que uma expressão que pretenda ser um nome logicamente próprio é
sem significação (meaningless) a menos que haja um objeto singular que a ex-
pressão represente (for which it stands), pois a significação (meaning) de tal ex-
pressão é justamente o objeto individual que a expressão designa. Para que seja
um nome, portanto, ela deve designar alguma coisa.
É fácil ver que, se alguém aceita essas duas proposições, o único meio de
salvar o caráter significante (the significance) da sentença S consiste em negar
que ela seja, do ponto de vista lógico, uma sentença da forma sujeito-predicado.
Em termos gerais, podemos dizer que para Russell, as sentenças que parecem
ser, devido a sua estrutura gramatical, acerca de alguma pessoa particular ou de
algum objeto ou acontecimento individual, só podem ser significantes de duas
maneiras:
(1) A primeira é que a forma gramatical dessas sentenças seja enganosa com
relação à sua forma lógica, e que elas possam ser analisáveis, como S, como um
tipo especial de sentença existencial.
(2) A segunda é que o seu sujeito gramatical seja um nome logicamente
próprio, cuja significação é a coisa individual que ele designa.
Creio que Russell está inquestionavelmente errado nisso e que as sentenças
270 STRAWSON
que são significantes, e que começam com uma expressão utilizada de maneira
referencial individualizante, não caem dentro de nenhuma dessas duas classes,
As expressões utilizadas de maneira referencial individualizante nunca são no-
mes logicamente próprios nem descrições, se o que se pretende dizer (what is
meant by), ao chamá-las de *descrições”, é que elas devem ser analisadas de acor-
do com o modelo fornecido pela Teoria das Descrições, de Russell.
Não existem nomes logicamente próprios e tampouco existem descrições (en-
tendida no sentido indicado).
Consideremos agora os detalhes da análise de Russell, Segundo Russell.
aquele que assertasse S estaria assertando que:
(1) Há um rei na França.
(2) Não há mais do que um rei na França.
(3) Não há nada que seja rei da França e que não seja sábio.
É fácil ver a maneira pela qual Russell chegou a essa análise e, ao mesmo
tempo, como ela lhe permite responder à pergunta com que começamos, a sa-
ber: como pode a sentença S ser significante quando não há nenhum rei da Fran-
ça? É claro que Russell chegou à sua análise ao perguntar-se quais seriam as
circunstâncias nas quais diríamos que alguém que proferisse a sentença S teria
feito uma asserção verdadeira. E realmente parece bastante claro — e eu não
pretendo contestar este ponto — que as sentenças (1)-(3) acima, etetivamente
descrevem circunstâncias que constituem, pelo menos, condições necessárias para
que alguém faça uma asserção verdadeira ao proferir a sentença S. Espero mos-
trar, todavia, que dizer isto não é absolutamente o mesmo que dizer que Russell
ofereceu uma explicação (account) correta da utilização da sentença S, nem mes-
mo que ele tenha oferecido uma explicação que, embora incompleta, seja, tal
como está, correta; e certamente não é a mesma coisa que dizer que o modelo
de tradução oferecido seja o modelo correto para todas (ou para qualquer ums
dentre) as sentenças singulares que começam com uma frase de forma 'o tal-e-tal”.
Também é fácil constatar de que maneira essa análise permite a Russell
responder à pergunta sobre como pode a sentença S ser significante mesmo quan-
do não há nenhum rei da França. Com efeito, se essa análise é correta, todo
aquele que proferisse hoje a sentença S estaria assertando simultaneamente três
proposições, uma das quais (a saber, aquela segundo a qual há um rei de França)
seria falsa; e visto que a conjunção de três proposições, uma das quais é falsa, é,
ela própria, falsa, a asserção total (as a whole) seria significante, embora falsa.
Assim, nenhum dos maus argumentos em favor de entidades subsistentes aplicar-
se-ia a tal asserção.
IH
A título de passo destinado a mostrar que a solução que Russell apresenta
para o seu problema é errada, e a formular a solução correta, traçarei agora al-
gumas distinções. Para esse propósito, no restante desta seção, passarei a em-
pregar, em vista da brevidade, a locução “uma expressão” para referir-me a uma
expressão que possui uma utilização referencial individualizante e a locução “'uma
sentença” para referir-me, abreviadamente, a uma sentença que começa com tal
expressão. As distinções que pretendo traçar não são mais do que aproximativas
e não resta dúvida de que poderiam ser apresentados casos difíceis que exigi-
riam o seu refinamento. Mas acredito que elas servirão para o meu objetivo. As
distinções em questão são entre:
(Al) uma sentença,
(A2) uma utilização de uma sentença,
SOBRE REFERIR 2
(A3) uma elocução (utterance) de uma sentença, e, de maneira correspon-
dente, entre:
(Bl) uma expressão,
(B2) uma utilização de uma expressão,
(B3) uma elocução (utterance) de uma expressão.
Consideremos novamente a sentença “O rei da França é sábio". É iácil ima-
ginar que essa sentença foi proferida (uttered) em várias épocas, a partir, por
exemplo, do século XVII em diante, durante os reinados de cada um dos su-
cessivos monarcas franceses; e é igualmente fácil imaginar que essa sentença foi
também proferida (uttered) durante os períodos subsegientes nos quais a França
já não era uma monarquia. Observa-se que foi natural, para mim, dizer que “a
sentença” ou “esta sentença” foi proferida em épocas diferentes durante esse pe-
ríodo; ou, em outros termos, que seria natural e correto dizer que uma única e
mesma sentença foi proferida em todas essas ocasiões diversas. É no sentido em
que seria correto dizer que uma única e mesma sentença foi proferida em todas
essas ocasiões diversas, que desejo utilizar a expressão (Al) “uma sentença”. Exis-
tem, no entanto, diferenças óbvias entre as diferentes ccasiões de utilização (occa-
sions of the use) dessa sentença. Por exemplo, se um homem a proferiu durante o
reinado de Luís XIV, e se um outro a proferiu durante o reinado de
Luís XV, seria natural dizer (ou supor) que ambos estavam falando, res-
pectivamente, de pessoas diferentes; e poder-se-ia sustentar que a primeira
pessoa, ao utilizar a sentença, fez uma asserção verdadeira, ao passo que a se-
gunda, utilizando a mesma sentença, fez uma asserção falsa. Por outro lado, se
dois homens diferentes proferissem simultaneamente a sentença (por exemplo, se
um a tivesse escrito e o outro a tivesse proferido oralmente) durante o reinado
de Luís XIV, seria natural dizer (ou supor) que ambos estavam falando acerca
da mesma pessoa e que, nesse caso, ao utilizar a sentença, ambos devem ter feito
uma asserção verdadeira ou ambos devem ter feito uma asserção falsa. E isso
ilustra aquilo que eu quero dizer (what I mean by) quando falo de uma utilização
de uma sentença. Os dois homens que proferiram a sentença, um durante o rei-
nado de Luís XIV e o outro durante o reinado de Luís XV, fizeram, cada um
deles, uma utilização diferente da mesma sentença; ao passo que as duas pessoas
que proferiram ao mesmo tempo a sentença durante o reinado de Luís XIV, fize-
ram a mesma utilização ' da mesma sentença. É óbvio que, no caso dessa senten-
ça — e é igualmente óbvio no caso de muitas outras —, não podemos dizer que
a sentença é verdadeira ou falsa, mas, exclusivamente, que ela é utilizada para
fazer uma asserção verdadeira ou falsa, ou (se se preferir) para exprimir uma
proposição verdadeira ou falsa. E é igualmente Óbvio que não podemos dizer que
a sentença é acerca de uma pessoa particular, dado que a mesma sentença pode
ser utilizada, em épocas diferentes, para falar acerca de pessoas particulares to-
talmente diferentes; podemos falar apenas de uma utilização da sentença para
falar acerca de uma pessoa particular. Por último, aquilo que pretendo significar
por um enunciado de uma sentença ficará suficientemente claro se eu disser que
as duas pessoas que proferiram ao mesmo tempo a sentença durante a época de
Luís XIV, fizeram duas elocuções (utterances) diferentes da mesma sentença,
embora tenham feito a mesma utilização da sentença.
! Esse emprego (usage) de “utilização” (use) difere, é claro, (a) do emprego corrente no qual
“utilização (de uma palavra, frase ou sentença particular) = aproximadamente) “regras de
uso' = (aproximadamente) “significação”; e (b) do meu próprio emprego na frase utilização
referencial individualizante de expressões”, na qual “utilização = (aproximadamente) 'modo
de utilizar”.
272 STRAWSON
Se considerarmos agora não toda a sentença 'O rei da França é sábio", mas
apenas aquela parte dela constituida pela expressão to rei da França”, fica mani-
festo que podemos estabelecer distinções análogas, ainda que não idênticas, entre
(1) a expressão, (2) uma utilização da expressão e (3) uma elocução da expres-
são. As distinções não serão idênticas às anteriores. É evidente que nós não po-
demos dizer corretamente que a expressão 'o rei da França” é utilizada para
exprimir uma proposição verdadeira ou falsa, visto que só as sentenças podem,
em geral, ser utilizadas com verdade ou falsidade; e, de maneira similar, é só
utilizando uma sentença e não apenas uma expressão isolada que podemos falar
acerca de uma pessoa em particular. Em troca, diremos, nesse caso, que alguém
utiliza a expressão para mencionar ou para fazer referência a uma pessoa parti-
cular, ao utilizar a sentença para falar acerca dessa pessoa. Nesse caso, entretanto
— e em muitos outros —, é óbvio que não se pode dizer que a expressão (Bl)
menciona, ou faz referência a alguma coisa, assim como não se pode dizer que
a sentença é verdadeira ou falsa. A mesma expressão pode ter diferentes utiliza-
ções mencionadoras (mentioning-uses), assim como uma mesma sentença pode ser
utilizada para fazer enunciados (statements) com diferentes valores de verdade.
'Mencionar' ou 'referir' não é algo que uma expressão faça; é algo que alguém
pode fazer ao utilizar uma expressão. Mencionar ou fazer referência a alguma
coisa é uma característica de uma utilização de uma expressão, assim como “ser
acerca de” (being about) algo e verdade-ou-falsidade são características de uma
utilização de uma sentença.
Um exemplo bem diferente pode tornar essas distinções mais claras. Consi-
deremos um outro caso em que uma expressão possui uma utilização referencial
individualizante, a saber: a expressão “eu”; consideremos, então, a sentença "Eu
estou com calor”. Inúmeras pessoas podem utilizar essa mesma sentença; mas é
logicamente impossível que duas pessoas diferentes façam a mesma utilização
dessa sentença ou, se se preferir, que a utilizem para exprimir a mesma proposi-
ção. A expressão 'eu” pode ser utilizada corretamente por uma pessoa qualquer
(e somente por ela) para referir-se a si mesma. Dizer isso é dizer algo a respeito
da expressão 'eu': em certo sentido, é dar a sua significação. Esse é o tipo de
coisa que pode ser dito a respeito de expressões. Mas não faz sentido dizer que a
expressão “eu” se refere a uma pessoa em particular. Isso é o tipo de coisa que
só pode ser dito de uma utilização particular da expressão.
Que me seja permitido utilizar 'tipo' (type) como uma abreviação para 'sen-
tença ou expressão”. Não estou dizendo, então, que existem sentenças e expres-
sões (tipos), e utilizações de umas e outras, e elJocuções de umas ou outras, à ma-
neira como existem barcos e sapatos e lacre. O que estou afirmando é que não
podemos dizer as mesmas coisas acerca de tipos, de utilizações de tipos e de elo-
cuções de tipos. E é um fato que nós falamos a respeito de tipos, e que confusões
poderão surgir se não atentarmos para as diferenças que existem entre aquilo que
podemos dizer a respeito de-tipos e aquilo que podemos dizer apenas a respeito
das utilizações dos tipos. Somos inclinados a imaginar que estamos falando acerca
de sentenças e expressões, quando, na verdade, estamos falando acerca das utili-
zações de sentenças e expressões.
E é isso o que Russell faz. Contra ele, eu diria, em geral, o seguinte. A sig-
nificação (pelo menos em um sentido importante) é uma função da sentença ou
da expressão; mencionar e fazer referência, verdade e falsidade, são funções da
utilização da sentença ou da expressão. Dar a significação de uma expressão (no
sentido em que estou utilizando essa palavra) é fornecer diretivas gerais para
utilizá-la a fim de fazer referência a ou mencionar objetos ou pessoas particula-
res; dar a significação de uma sentença consiste em fornecer diretivas gerais para
SOBRE REFERIR ao
oo
utilizá-la ao fazer asserções verdadeiras ou falsas. Não é falar a respeito de uma
ocasião particular em que a sentença ou a expressão foi utilizada. A significação
de uma expressão não pode ser identificada ao objeto a que se faz referência
mediante a sua utilização numa ocasião determinada. A significação de uma sen-
tença não pode ser identificada à asserção que é feita mediante a sua utilização
numa ocasião determinada. Com efeito, falar acerca da significação de uma ex-
pressão ou de uma sentença não é falar acerca de sua utilização numa ocasião
particular, mas, sim, falar das regras, hábitos e convenções que governam em
todas as ocasiões, a sua utilização correta para fazer referência ou para assertar.
Assim, a questão de saber se uma sentença ou uma expressão é significante ou
não não tem absolutamente nada a ver com a questão de saber se a sentença,
proferida numa ocasião particular, está sendo ou não, naquela ocasião, utilizada
para fazer uma asserção verdadeira-ou-falsa, ou com a questão de saber se a
expressão está sendo utilizada, naquela ocasião, para fazer referência a, ou para
mencionar alguma coisa.
A origem do erro cometido por Russell encontra-se em que ele pensou que
fazer referência ou mencionar — a supor que isso tenha de fato ocorrido — deve
ser significar (must be meaning). Russell não distinguiu Bl e B2; ele confundiu
as expressões com as suas utilizações num contexto particular; e, desse modo,
confundiu significar com mencionar, com fazer referência. Se eu falo a respeito
do meu lenço, posso, talvez, tirar do meu bolso o objeto a que estou fazendo
referência. Mas não posso tirar do bolso a significação da expressão *o meu len-
ço". Por ter confundido significar com mencionar, Russell pensou que, se existis-
sem quaisquer expressões que tivessem uma utilização referencial individualizante
— que fossem o que parecem ser (isto é, sujeitos lógicos) e não outra coisa dissi-
mulada —, a significação dessas expressões deve ser o objeto particular a que
se faz referência ao utilizá-las. Daí a embaraçosa mitologia dos nomes logica-
mente próprios. Mas se alguém me perguntasse sobre a significação da expressão
“isto” — que, em determinado momento, constituiu o candidato favorito de Rus-
sell para o status de nome logicamente próprio —, eu não lhe mostraria o objeto
ao qual acabo de fazer referência utilizando essa expressão, nem acrescentaria,
ao mesmo tempo, que a significação da palavra muda cada vez que ela é utili-
zada. Tampouco mostraria a ele todos os objetos aos quais se fez. ou aos quais
poder-se-ia fazer referência mediante a utilização da expressão. O que faria é
explicar ou ilustrar as convenções que regem a sua utilização. E nisso consiste
dar a significação de uma expressão. O que é muito diferente de dar (seja qual
for o sentido de dar) o objeto a que ela faz referência, pois a expressão mesma
não se refere a nada, ainda que ela possa ser utilizada, em diferentes ocasiões,
para fazer referência a inúmeras coisas. Ora, é um fato que existe, na língua in-
glesa, um sentido da palavra “significar” (mean) no qual essa palavra se aproxima
de “indicar, mencionar ou fazer referência a”; por exemplo, quando alguém diz
(de maneira desagradável) “É você de quem estou falando” (f mean you); ou
quando eu aponto para alguém e digo 'É aquele ali de quem estou falando”
(That's the one I mean). Mas aquele de quem estou falando (the one 1 meant)
é muito diferente da significação da expressão que utilizei para falar dele. Nesse
sentido especial de “significar”, são as pessoas que significam, e não as expressões.
As pessoas utilizam as expressões para fazer referência a coisas particulares. A
significação de uma expressão, contudo, não é o conjunto de coisas ou a coisa
particular a que se pode fazer referência ao utilizar corretamente a expressão: a
significação é o conjunto de regras, hábitos e convenções que determinam a utili-
zação da expressão para fazer referência.
O mesmo ocorre com as sentenças, e de maneira ainda mais patente. Todos
274 STRAWSON
sabem que a sentença “A mesa está coberta de livros” é significante, e todos sabem
que ela significa. Mas se eu perguntar: “Acerca de que objeto é essa sentença”,
estarei fazendo uma pergunta absurda — uma pergunta que não pode ser formu-
lada a respeito da sentença, mas somente a respeito de alguma utilização dessa
sentença. E, nesse caso, a sentença não foi utilizada para falar a respeito de algu-
ma coisa, ela foi apenas tomada como um exemplo. Ao saber o que ela significa,
sei também como ela poderia ser corretamente utilizada para falar a respeito de
coisas: assim, ter conhecimento da significação não tem nada a ver com ter co-
nhecimento acerca de uma utilização particular qualquer da sentença para falar
acerca de alguma coisa. De modo análogo, se eu perguntar: “A sentença é verda-
deira ou falsa?”, estarei formulando uma pergunta absurda, que não se torna me-
nos absurda se ajuntar: “Ela deve ser uma coisa ou outra, visto que é significante”.
A pergunta é absurda porque a sentença não é nem verdadeira nem falsa, assim
como não é, tampouco, acerca de algum objeto. Sem dúvida, o fato de que ela é
significante é o mesmo que o fato de que ela pode ser corretamente utilizada para
falar acerca de alguma coisa, e que, ao utilizá-la desse modo, alguém efetuará
uma asserção verdadeira ou falsa. E eu acrescentaria que ela será utilizada para
fazer uma asserção verdadeira ou falsa somente se a pessoa que a utiliza está
falando acerca de algo. Se, quando a pessoa a profere (utters), ela não está falan-
do acerca de nada, então a sua utilização não é genuína, mas apenas uma utili-
zação espúria ou uma pseudo-utilização: essa pessoa não está fazendo uma asser-
ção verdadeira ou uma asserção falsa, embora possa pensar que esteja. E isso
indica o caminho que conduz a uma resposta correta ao problema (puzzle) para
o qual a Teoria das Descrições fornece uma resposta fatalmente incorreta. O
ponto importante está em que a questão de saber se a sentença é ou não signifi-
cante é totalmente independente da questão que pode ser formulada a respeito
de uma utilização particular da sentença, a saber: a questão de saber se se trata
de uma utilização espúria ou genuína, de saber se ela está sendo utilizada para
falar acerca de alguma coisa, ou se está sendo utilizada em termos fictícios (in
make-believe), ou como um exemplo em filosofia. A questão de saber se a sen-
tença é ou não significante é a questão de saber se existem hábitos, convenções
ou regras de linguagem tais que a sentença poderia, logicamente, ser utilizada
para falar acerca de alguma coisa; aquela questão, por conseguinte, é totalmente
independente da questão de saber se a sentença foi utilizada dessa maneira numa
ocasião particular.
HI
Consideremos novamente a sentença “O rei da França é sábio” e as coisas
verdadeiras e talsas que Russell diz a seu propósito.
Há pelo menos duas coisas verdadeiras que Russell diria a respeito dessa
sentença:
(1) A primeira, é que ela é significante; ou que, se alguém a proferisse
(utter) agora, estaria proferindo uma sentença significante.
(2) A segunda é que, se alguém proferisse hoje a sentença, estaria fazendo
uma afirmação verdadeira somente se de fato existisse, no presente, um e apenas
um rei da França, e se esse rei fosse sábio.
Quais são as coisas talsas que Russell diria sobre a sentença? As seguintes:
(1) Que qualquer pessoa que a proferisse agora estaria fazendo uma asser-
ção verdadeira ou uma asserção falsa.
(2) Que parte daquilo que tal pessoa estaria assertando seria que existe,
atualmente, um e apenas um, rei da França.
Já apresentei algumas razões que fazem pensar que esses enunciados (state-
SOBRE REFERIR 27
"A
ments) são incorretos. Suponhamos, agora, que alguém de fato nos dissesse, com
um ar de perfeita seriedade: *O rei da França é sábio”. Responderíamos: “Isso
não é verdade”? Estou certo que não. Mas suponhamos que essa pessoa pros-
seguisse, e nos perguntasse se pensamos que aquilo que ela acaba de dizer é
verdadeiro ou falso; se concordamos ou se discordamos com o que acaba de
dizer. Creio que estaríamos inclinados a responder, com alguma hesitação, que
nem uma coisa nem outra; que a questão de saber se o seu enunciado é verda-
deiro ou falso simplesmente não se põe, visto não haver uma pessoa tal como
o rei da França. Se o nosso interlocutor fosse manifestamente sério (com o ar
nebuloso de quem está perdido nos séculos), poderíamos dizer algo como: *Receio
que você esteja sendo vítima de um equívoco (be under a misapprehension). A
França não é uma monarquia. Não existe rei da França”. E isso manifesta o fato
de que, se alguém pronunciasse (uttered) seriamente a sentença em questão, a
sua elocução (his uttering) constituiria, em certo sentido, evidência de que ele
acredita que existe um rei da França. Tal fato não constituiria evidência da sua
crença nisso simplesmente, no sentido em que o fato de um homem buscar o seu
impermeável constitui evidência de que ele acredita que está chovendo. Por outro
lado, tampouco seria evidência de sua crença nisso no sentido em que o fato
de um homem dizer “Está chovendo” constitui evidência da sua crença em que
está chovendo. Poderíamos exprimi-lo da maneira seguinte. Dizer “O rei da França
é sábio” significa implicar (imply) (em algum sentido de “implicar que existe
um rei da França. Mas esse constitui um sentido muito especial e atípico (odd)
— de 'implicar'. 'Implica”, nesse sentido, não é certamente equivalente à “implica
logicamente” (entails — or “logically implies'). E isso provém do fato de que, em
resposta ao seu enunciado, dizemos (como deveríamos dizer) 'Não existe um rei
da França”, seguramente não diríamos que estávamos contradizendo o enunciado
(statement) segundo o qual o rei da França é sábio. É certo que não estamos
dizendo que ele é falso. Estamos dando, ao contrário, uma razão para dizer que
a questão de saber se o enunciado é verdadeiro ou falso simplesmente não se põe.
E é nesse ponto que a distinção que tracei antes pode nos auxiliar. A sen-
tença *O rei da França é sábio" é certamente significante; mas isso não quer
dizer (mean) que qualquer utilização particular que dela seja feita é verdadeira
ou falsa, Utilizamo-la com a verdade ou falsidade de quando nós a utilizamos
para falar acerca de alguém; quando, ao utilizar a expressão 'O rei da França',
estamos efetivamente mencionando alguém. O fato de que a sentença e a expres-
são, respectivamente, sejam significantes é exatamente o fato de que a sentença
poderia ser utilizada, em certas circunstâncias, para dizer algo verdadeiro ou
falso, e de que a expressão poderia ser utilizada, em certas circunstâncias, para
mencionar uma pessoa particular; e conhecer a significação de uma e outra é
conhecer que tipo de circunstâncias são essas. Assim, quando proferimos a
sentença sem, de fato, mencionar ninguém mediante a utilização da frase 'O rei
da França”, nem por isso a sentença deixa de ser significante: ocorre, simples-
mente, que fracassamos (we simply fail) em dizer algo verdadeiro ou falso por
que simplesmente fracassamos em mencionar alguém mediante essa utilização
particular daquela frase perfeitamente significante. Trata-se, se se quiser, de uma
utilização espúria da sentença e de uma utilização espúria da expressão, embora
possamos (ou não) acreditar que se trata de uma utilização genuína.
E essas utilizações espúrias? são muito corriqueiras. Os romances sofisti-
2 A escolha do termo 'espúrio' me parece agora ter sido infeliz, pelo menos para algumas
utilizações não-padrão. Prefereria hoje chamar algumas dessas utilizações de utilizações
'secundárias”.
276 STRAWSON
cados, assim como os contos de ficção sofisticados, * delas dependem. Se eu
começasse dizendo: “O rei da França é sábio”, e continuasse: '*e mora num castelo
de ouro e tem cem mulheres”, e assim por diante, qualquer ouvinte compreen-
der-me-ia perfeitamente bem, sem supor, ou que eu estava falando acerca de
uma pessoa particular, ou que eu estava fazendo um enunciado (statement) falso
segundo o qual existiria uma pessoa tal como minhas palavras a descrevem. (Vale
a pena acrescentar que, quando a utilização das sentenças e das expressões é
claramente ficcional, o sentido da palavra “acerca” pode mudar. Como disse
Moore, é perfeitamente natural e correto dizer que algumas das afirmações que
encontramos nos Pickwick Papers são acerca do Sr. Pickwick. Mas quando a
utilização das sentenças e das expressões não pertence claramente à ficção, essa
utilização de “acerca” parece menos correta, isto é: não seria correto, em geral,
dizer que uma afirmação foi acerca do Sr. X ou acerca do tal-e-tal, a menos
que tal pessoa ou coisa exista. Assim, somente quando o romance corre o
risco de ser tomado a sério é que poderíamos responder à pergunta: “Acerca
de quem está falando ele?” com a resposta: “Ele não está falando acerca de nin-
guém"”; ao dizer isso, entretanto, não estamos dizendo que aquilo que o narrador
está dizendo é falso ou sem sentido (nonsense).
Deixando de lado a utilização abertamente ficcionais, todavia, acabamos
de dizer que utilizar, no início de uma sentença, uma expressão como “O rei
da França”, significa implicar, em algum sentido de “implicar”, que existe um rei
da França. Quando alguém utiliza tal expressão, ele não asserta, nem tampouco
aquilo que ele diz implica logicamente (entail), uma proposição existencial indi-
vidualizante (uniquely existencial proposition). Mas uma das funções convencio-
nais do artigo definido consiste em atuar como um sinal de que uma referência
individualizante está sendo executada — um sinal, e não uma asserção camu-
flada. Quando começamos uma sentença com a frase 'o tal-e-tal (the such-and-
such), a utilização do artigo *o' mostra, mas não enuncia (state), que estamos nos
referindo, ou que temos a intenção de nos referir, a um indivíduo particular
da espécie “tal-e-tal”. Qual é o indivíduo particular, é uma questão a ser deter-
minada a partir do contexto, do tempo, do lugar e de outras características
(features) da situação de elocução (utterance). Ora, todas as vezes que alguém
utiliza uma expressão qualquer, existe a presunção de que ele acredita estar
utilizando-a corretamente: assim, quando ele utiliza a expressão 'o tal-e-tal” de
um modo referencial individualizante, a presunção é de que ele acredita que
existe algum indivíduo dessa espécie e, ao mesmo tempo, que o contexto de
utilização determinará adequadamente qual é o indivíduo que ele tem em mente.
Utilizar desse modo a palavra 'o' significa, então, implicar (no sentido rele-
vante de 'implicar”) que as condições existenciais descritas por Russell estão
preenchidas. Mas utilizar *o' desse modo não é enunciar (state) que essas con-
dições estão preenchidas. Se começo uma sentença com uma expressão da forma
'o assim-e-assim” (the so-and-so) e, logo a seguir, sou impedido de continuar,
não fiz nenhuma afirmação de espécie alguma; mas posso ter tido êxito em
mencionar alguém ou alguma coisa.
A asserção existencial individualizante que Russell supôs ser parte de toda
asserção na qual se faz uma utilização referencial individualizante de uma expres-
são da forma “o assim-e-assim” (the so-and-so) constitui, observa ele, um com-
posto de duas asserções. Dizer que existe um Y? é dizer algo compatível com o
fato de existirem vários » s; dizer que não existe mais do que um q é dizer
* Ds menos sofisticados começam com: Era uma vez...
SOBRE REFERIR Da
algo compatível com o fato de não existir nenhum. Dizer que existe um q €
apenas um é compor essas duas asserções. Até aqui ocupei-me quase que exclu-
sivamente (mostly) com a suposta asserção de existência, tendo dito muito
pouco a respeito da suposta asserção de unicidade. Um exemplo que enfatiza
esse último aspecto servirá para mostrar com maior clareza o sentido de “impli-
cado” no qual uma asserção existencial individualizante é implicada, mas não
implicada logicamente (entailed), pela utilização de expressões segundo o modo
referencial individualizante. Consideremos a sentença: *A mesa está coberta de
livros”. É certo que, em qualquer utilização normal dessa sentença, a expressão
'a mesa” seria utilizada para fazer uma referência individualizante (unique refe-
rence), isto é: para fazer referência a uma única mesa. Trata-se aqui de uma
utilização bastante estrita do artigo definido, no sentido em que Russell, na p. 30
dos Principia Mathematica, fala de utilizar o artigo “estritamente, de maneira a
implicar unicidade”. Na mesma página, Russell diz que uma frase da forma
'o assim-e-assim”, utilizada estritamente, 'só terá aplicação no caso de existir um
assim-e-assim, e não mais do que um”. Ora, é evidentemente falso que a frase
'a mesa”, na sentença 'a mesa está coberta de livros”, utilizada normalmente.
'só terá aplicação no caso de existir uma mesa e não mais do que uma”. Sem
dúvida, é tautologicamente verdadeiro que a frase, em tal utilização, só terá
aplicação no caso de haver uma mesa, e não mais do que uma, que está sendo
referida, e que admitir-se-á que essa frase tem aplicação apenas no caso de
existir uma mesa, e não mais do que uma, a qual entende-se estar sendo refe-
rida mediante a utilização da frase. Utilizar a sentença não é assertar, embora
seja implicar (no sentido especial já examinado) que existe só uma coisa que,
ao mesmo tempo (both), é do tipo especificado (isto é, uma mesa) e está sendo
referida pelo locutor. Evidentemente, não é assertar isso. Fazer referência não
é dizer que se está fazendo referência. Dizer que existe uma ou outra mesa
à qual se está fazendo referência não é o mesmo que fazer referência a uma
mesa particular. Não teríamos nenhuma utilização para frases tais como 'o indi-
víduo a que fiz referência” se não houvesse algo que fosse considerado como
referir. (Não faria sentido dizer que alguém apontou se não houvesse nada que
fosse considerado como apontar.) Dessa maneira, mais uma vez tiro a conclusão
de que fazer referência a ou mencionar uma coisa particular não pode se redu-
zir (be dissolved into) a nenhum tipo de asserção. Referir não é assertar, embora
façamos referência com o objetivo de assertar.
Tomarei agora um exemplo de utilização referencial individualizante de
uma expressão que não tenha a forma “o assim-e-assim”. Suponhamos que, face
a alguém, eu estenda as minhas mãos, cuidadosamente em concha, em sua
direção, dizendo, ao fazer isso: “Este tem um belo vermelho” (this is a fine red
one). Ao olhar para as minhas mãos e ao ver que não há nada nelas, o meu
interlocutor pode dizer: 'O que é? Do que é que você está falando” Ou talvez:
'Mas não há nada nas suas mãos”. Seria absurdo, é claro, afirmar (say) que,
ao dizer: “Mas você não tem nada nas mãos”, meu interlocutor estava negando
ou contradizendo o que eu disse. 'Este' não é, portanto, uma descrição camu-
flada no sentido de Russell. Nem é, tampouco, um nome logicamente próprio.
Com efeito, uma pessoa deve saber o que a sentença significa a fim de reagir
de tal ou qual maneira à sua elocução. E é precisamente em virtude de o
caráter significante (the significance) da palavra “este ser independente de qual-
quer referência particular que se pode fazer mediante a sua utilização — em-
bora não seja independente do modo segundo o qual ela pode ser utilizada para
referir —, que eu posso, como no exemplo acima, utilizá-la para fingir que
estou me referindo a alguma coisa.
278 STRAWSON
A conclusão geral disso tudo é que a comunicação constitui um problema
de asserção explícita ou camuflada (encoberta) em grau muito menor do que
os lógicos costumam supor. A aplicação particular dessa conclusão geral que
me interessa, está na sua aplicação ao caso no qual se faz referência indivi-
dualizante (the case of making a unique reference). Uma parte do caráter signi-
ficante das expressões do tipo que estou discutindo consiste em que elas podem
ser utilizadas, numa variedade imensa de contextos, para fazer referência indi-
vidualizante. Mas não faz parte da sua significância assertar que elas estão
sendo utilizadas dessa maneira, ou que as condições para que sejam assim
utilizadas são satisfeitas. Assim, a distinção capital que somos obrigados a fazer
é entre:
(1) utilizar uma expressão para fazer uma referência individualizante; e
(2) assertar que existe um e apenas um indivíduo que possui certas caracte-
rísticas (por exemplo, é de um tipo determinado, encontra-se em determinada
relação com o locutor, ou ambas as coisas).
Essa distinção, em outras palavras, é a mesma que existe entre:
(1) sentenças que contém uma expressão utilizada para indicar, mencionar
ou fazer referência a uma pessoa ou coisa particular; e
(2) sentenças existenciais individualizantes.
O que Russell faz é progressivamente assimilar, mais e mais, as sentenças
da classe (1) a sentenças de classe (2) e, consegientemente, envolver-se a si
mesmo em insuperáveis dificuldades relativas aos sujeitos lógicos e, de maneira
geral, relativas aos valores das variáveis individuais; essas dificuldades leva-
ram-no, finalmente, àquela teoria — logicamente desastrosa — dos nomes de-
senvolvida no Enquiry into Meaning and Truth e em Human Knowledge. A
concepção da significação das expressões que são sujeitos lógicos, concepção
essa que fornece o principal incentivo para a Teoria das Descrições, exclui,
ao mesmo tempo, a possibilidade de que Russell jamais chegue a encontrar
substitutos satisfatórios para aquelas expressões que, começando com as frases
substantivas, ele vai progressivamente privando (degrades) do estatuto de sujei-
tos lógicos. * A raiz do problema não reside simplesmente, como algumas vezes
foi dito, no fascínio exercido pela relação entre um nome e o seu portador.
Nem mesmo os nomes conseguem atingir (come up tc) o impossível standard que
foi fixado. Trata-se, antes, da combinação de duas concepções errôneas mais
radicais: em primeiro lugar, o fato de não conseguir apreender a importância
da distinção (ver seção II acima) entre aquilo que pode ser dito de uma expres-
são e aquilo que pode ser dito de uma utilização particular da expressão; em
segundo lugar, uma incapacidade em reconhecer que a utilização referencial indi-
vidualizante das expressões é algo de inofensivo e necessário, distinto mas
complementar da utilização predicativa ou adscritiva (ascriptive) das expressões.
As expressões que podem, de fato, ocorrer como sujeitos lógicos singulares são
expressões da classe que enumerei no início (demonstrativos, frases substan-
tivas, nomes próprios, pronomes): dizer isso é dizer que essas expressões, junta-
mente com o contexto (no mais amplo sentido), são aquelas que utilizamos
para fazer referências individualizantes. A finalidade (point) das convenções que
governam as utilizações de tais expressões está em assegurar, juntamente com
a situação em que são proferidas, unicidade de referência. Mas para fazer
isso, o suficiente é suficiente (enough is enough). Nós não atingimos, nem
4 E isso a despeito do sinal de perigo que constitui a frase 'forma gramaticalmente enganosa
tmisteading).
SOBRE REFERIR pais,
podemos atingir, ao fazer referência, um grau de explicitação completa, no
qual a função referencial não mais é executada. A referência individualizante real
que foi feita, se é que alguma foi efetuada, é uma questão de utilização parti-
cular num contexto particular; a significância da expressão utilizada consiste
no conjunto de regras ou de convenções que permitem que tais referências
sejam efetuadas. Nós podemos, assim, ao utilizar expressões significantes, fingir
que fazemos referência, tal como ocorre nas fábulas ou nas ficções, ou pensar
erroneamente que estamos fazendo referência a alguma coisa quando não esta-
mos nos referindo a nada. º
Isso mostra a necessidade de distinguir dois tipos (entre muitos outros)
de convenções ou regras lingiiísticas: regras para referir e regras para atribuir
e adscrever; mostra também a necessidade de investigar o primeiro tipo. Se
reconhecemos, tal como ela é, essa distinção entre utilizações, estaremos no
caminho que leva à solução de um certo número de antigos problemas (puzzles)
lógicos e metafísicos.
As duas últimas seções referir-se-ão, mas somente nos contornos mais gené-
ricos, a essas questões.
IV
Um dos principais objetivos (purposes) para os quais utilizamos a lingua-
gem é o de enunciar (state) fatos a respeito de pessoas, coisas e acontecimentos.
Se desejamos preencher esse objetivo, devemos contar com algum meio de
antecipar a pergunta: “Acerca de que (de quem, de qual) você está falando”,
bem como a pergunta: “O que você está dizendo acerca disso (about it) (dele. .
dela)” A função (task) que nos permite evitar a primeira pergunta é a função
referencial (ou identificadora) (the referring (or identifying) task). A função que
permite antecipar a segunda é a função atributiva (ou descritiva, classificatória
ou adscritiva). Numa sentença inglesa convencional, utilizada para enunciar
(to state), ou com a pretensão de enunciar um fato acerca de uma coisa, pessoa
ou acontecimento individual, a realização dessas duas funções pode ser atri-
buída (assigned), de maneira aproximada, a expressões separáveis. * E numa
sentença desse gênero, essa vinculação (this assigning) das expressões a seus
papéis separados corresponde à classificação gramatical convencional de sujei-
to e predicado. Não há nada sacrossanto no emprego de expressões separáveis
para desempenhar essas duas tarefas. Outros métodos poderiam ser, e são, em-
pregados. Existe, por exemplo, o método que consiste em proferir (uttering)
uma única palavra ou frase atributiva na presença manifesta do objeto a que
se faz referência; existe também o método análogo exemplificado, por exemplo,
pela inscrição (painting), numa ponte. das palavras “perigoso para caminhões”.
ou pela fixação de uma etiqueta num abacate, na qual se lê: 'primeiro prêmio”.
Pode-se também imaginar um jogo complicado no qual jamais se utilizasse uma
expressão de uma maneira referencial individualizante, proferindo se apenas sen-
tenças existenciais individualizantes, tentando, com isso, fazer com que o ouvinte
5 Essa sentença parece-me agora sujeita a objeções sob vários aspectos, notadamente em
razão de uma utilização restritiva não explícita da palavra “referir. A sentença poderia ser
expressa com maior exatidão da seguinte maneira: “Nós podemos assim, ao utilizar expres-
sões significantes, fazer referência de maneira secundária, tal como ocorre nas fábulas ou
nas ficções, ou pensar erroneamente que estamos fazendo referência a alguma coisa de
maneira primária quando não estamos nos referindo, dessa maneira, a nada”.
é Deixo de lado as sentenças relacionais, pois essas exigem apenas complicações de detalhe.
e não uma mov'ificação no princípio do que digo.
o
280 STRAWSON
identifique, mediante a acumulação progressiva de cláusulas relativas, aquilo de
que se está falando. (Essa descrição dos objetivos do jogo mostra em que
sentido tratar-se-ia de um jogo: não é essa, com efeito, a utilização normal que
fazemos de sentenças existenciais.) É necessário sublinhar duas coisas. A pri-
meira é que a necessidade de executar essas duas tarefas a fim de afirmar
fatos particulares não requer nenhuma explicação transcendental: chamar a
atenção para essa necessidade é, em parte, elucidar a significação da frase 'enun-
ciar um fato” (stating a fact). A segunda é que, mesmo essa elucidação é feita
em termos que derivam da gramática da sentença singular convencional; que
mesmo a distinção lingiística, explicitamente funcional, entre os papéis identi-
ticador e atributivo que as palavras podem desempenhar na linguagem, é suge-
rida pelo fato de que o discurso ordinário nos apresenta expressões separáveis
às quais se pode atribuir, com plausibilidade e com aproximação, essas funções
distintas. As distinções entre particular e universal, entre substância e qualidade,
constituem aquelas sombras pseudomateriais projetadas pela gramática da sen-
tença convencional na qual expressões separáveis desempenham papéis dis-
tinguíveis. 7
Utilizar uma expressão separada para executar a primeira dessas tarefas
é utilizar uma expressão de um modo referencial individualizante. Quero dizer
agora algumas coisas gerais a propósito das convenções de utilização que incidem
sobre expressões utilizadas desse modo, e contrastá-las com as convenções da
utilização adscritiva. A seguir, passarei a ilustrar rapidamente essas observações
genéricas, e efetuarei algumas outras aplicações dessas observações.
Para efetuar uma referência individualizante, obviamente algum elemento
ou conjunto de elementos é, em geral, requerido para mostrar que se tem a inten-
ção de fazer uma referência individualizante e, ao mesmo tempo, de qual refe-
rência individualizante se trata; isto é, exige-se algum elemento que exija e
permita ao ouvinte ou leitor identificar aquilo de que se fala. Para assegurar
esse resultado, é quase impossível exagerar a importância do contexto de elo-
cução (utterance). Por contexto” entendo, pelo menos, o tempo, o lugar, a situa-
ção, a identidade do locutor, os temas que constituem o foco imediato de interesse
e as histórias pessoais tanto do locutor, quanto daqueles a quem ele se endereça.
Além do contexto, existe, é claro, a convenção: a convenção lingiiística. Mas
— exceto no caso dos nomes próprios genuínos, a respeito dos quais terei algo
a dizer mais adiante —, a satisfação de condições contextuais que podem ser
enunciadas de forma mais ou menos precisa é algo exigido convencionalmente
(ou, num sentido amplo da palavra, logicamente) para a utilização referencial
correta das expressões, num sentido em que isso não é exigido para as utiliza-
ções adscritivas corretas. O requisito que deve ser preenchido para que uma
expressão seja, na sua utilização adscritiva, corretamente aplicada a uma coisa
determinada, consiste, simplesmente, em que a coisa seja de um certo tipo, que
possua certas características. O requisito que deve ser preenchido para que uma
expressão, na sua utilização referencial, seja corretamente aplicada a uma coisa
determinada é algo que vai acima e além de qualquer requisito da significação
adscritiva que a expressão possa eventualmente possuir; é, a saber, o requisito
de que a coisa se encontre em certa relação com o locutor e com o contexto de
elocução (utterance). Chamarei a esse requisito de requisito contextual. Assim,
por exemplo, no caso limite da palavra “eu”, o requisito contextual é que a coisa
7? O que está dito ou implicado nas duas últimas sentenças desse parágrafo já não mais me
parece ser verdadeiro, a menos que seja consideravelmente qualificado.
SOBRE REFERIR 281
seja idêntica ao locutor; mas, no caso da maioria das expressões que têm um
uso referencial, esse requisito não pode ser especificado com tanta precisão. Uma
diferença adicional, e perfeitamente geral, entre convenções para fazer referên-
cia e convenções para descrever já foi mencionada, a saber, que a satisfação das
condições de uma utilização adscritiva correta de uma expressão faz parte daquilo
que é enunciado por tal utilização; ao contrário, a satisfação das condições de
uma utilização referencial correta de uma expressão nunca faz parte daquilo que
é enunciado, embora seja implicada (no sentido relevante de “implicar” por essa
utilização.
As convenções para fazer referência foram negligenciadas ou mal interpre-
tadas pelos lógicos. Não é difícil perceber as razões dessa negligência, embora
não seja fácil enunciá-las em forma breve. Duas delas são, em termos apro-
ximados:
(1) a preocupação da maioria dos lógicos com as definições;
(2) a preocupação de alguns lógicos com os sistemas formais.
(1) No sentido mais familiar, uma definição é uma especificação das con-
dições de utilizações adscritiva ou classificatória correta de uma expressão. As
definições não levam em conta os requisitos contextuais. De tal sorte que, na
medida em que a procura da significação ou a procura da análise de uma
expressão é concebida como a procura de uma definição, torna-se inevitável
negligenciar ou interpretar erroneamente as convenções que não são adscritivas.
Seria melhor, talvez, dizer (pois não desejo legislar acerca de “significação” ou de
'“análise”) que os lógicos não se deram conta de que os problemas de utilização
são mais amplos do que os problemas de análise e de significação. (2) A influên-
cia da preocupação com a matemática e com a lógica formal é constatada com a
maior clareza nos casos de Leibniz e de Russell (para não tomar exemplos mais
recentes). O construtor de cálculos, que não está interessado nem obrigado a
fazer enunciados (statements) fatuais, aborda a lógica aplicada com um precon-
ceito (prejudice). É natural que ele suponha que os tipos de convenção, cuja
adequação, num campo que lhe é familiar, ele conhece, devam ser realmente
adequados, se apenas pudéssemos ver de que maneira, num campo completa-
mente diferente — aquele das afirmações de fato. Assim, vemos Leibniz lutar
desesperadamente para fazer da unicidade das referências individualizantes um
problema de lógica, e Russell lutando com igual desespero para fazer a mesma
coisa — ainda que de maneira diferente — tanto com relação à implicação de
unicidade quanto com relação à de existência.
Deve ficar claro que a distinção que estou tentando estabelecer é, antes de
tudo, uma distinção entre papéis ou partes diferentes que as expressões podem
desempenhar na linguagem, e não, em primeiro lugar, uma distinção entre
diferentes grupos de expressões. Algumas expressões, com efeito, podem apa-
recer em ambos os papéis. Alguns dos tipos de palavras de que falarei possuem
predominantemente, se não exclusivamente, um papel referencial. Isso é verda-
deiro, da maneira mais evidente, dos pronomes e dos nomes próprios. Outros
tipos podem ocorrer como todos ou como partes de expressões que possuem
uma utilização predominantemente referencial, e também como todos ou como
partes de expressões que possuem uma utilização predominantemente adscritiva
ou classificatória. Os casos óbvios são os dos substantivos (nouns) comuns; ou
os dos substantivos comuns seguidos de adjetivos, incluindo os adjetivos partici-
piais; ou, de maneira menos óbvia, adjetivos ou adjetivos participiais isolados. As
expressões suscetíveis de ter uma utilização referencial também diferem entre
si pelo menos de alguma dentre as três maneiras seguintes, as quais não são
mutuamente independentes:
282 STRAWSON
(1) Elas diferem na medida em que a referência que com elas se faz depende
do contexto de sua elocução (utterance). Palavras como “eu” e “ele” (it) encon-
tram-se num extremo dessa escola — no extremo da dependência máxima —
e frases como '*o autor de Waverley' e 'o décimo-oitavo rei da França” encon-
tram-se no outro extremo.
(2) Elas diferem no grau de 'significação descritiva” que possuem: por “signi-
ficação descritiva” entendo 'a limitação convencional, quanto à aplicação, a coisas
de um tipo geral determinado ou a coisas que possuem certas características ge-
rais. Num extremo dessa escala, encontram-se os nomes próprios que utilizamos
com a maior frequência no discurso ordinário: homens, cachorros e bicicletas
podem, todos, ser chamados de 'Horácio”. O puro nome não tem nenhuma signi-
ficação descritiva (exceto aquela que ele pode adquirir como resultado de uma
das suas utilizações como nome). Uma palavra como “ele” tem uma significa-
cão descritiva mínima, mas ainda tem alguma. Frases substantivas como “a
mesa redonda” possuem o máximo de significação descritiva. Uma posição inter-
mediária interessante é ocupada por nomes próprios “impuros”, como 'a Távola
Redonda” — frases substantivas que adquiriram, com o tempo, letras maiúsculas.
(3) Elas podem, finalmente, ser divididas nas duas classes seguintes: ([) aque-
las cuja utilização referencial correta é regulada por algumas convenções gerais
referenciais-com-adscrição (refering-cum-ascriptive conventions); (IN) aquelas cuja
utilização referencial correta não é regulada por convenções gerais, sejam do tipo
contextual, sejam do tipo adscritivo, mas por convenções ad hoc para cada caso
particular (embora não para cada elocução (utterance) particular). A primeira
classe pertencem tanto os pronomes (que têm a menor significação descrita),
quanto as frases substantivas (que têm a maior). À segunda classe pertencem,
falando em termos aproximativos, o tipo mais corrente de nomes próprios. Igno-
rar o nome de um homem não é ignorar a linguagem. Essa é a razão pela qual
não falamos da significação dos nomes próprios. (E não é uma resposta satisfa-
tória, dizer que eles são desprovidos de significação.) Também nesse caso, uma
posição intermediária é ocupada por frases como *O Grande Mentiroso” (The Old
Pretender). Só se pode fazer referência, dessa maneira, a um grande mentiroso;
mas saber de que grande mentiroso se trata não é conhecer uma convenção geral,
mas uma convenção ad hoc.
Quando as trases da torma 'o assim-e-assim' são utilizadas reterencialmente,
a utilização do 'o', juntamente com a posição da frase na sentença (isto é, no
início da sentença ou depois de um verbo transitivo ou de uma preposição), atua
como um sinal de que uma referência individualizante está sendo feita; e o substan-
tivo que segue, ou o substantivo mais o adjetivo, junto com o contexto da
elocução (utterance), mostra qual referência individualizante está sendo feita. Em
geral, a diferença funcional entre substantivos comuns e adjetivos é que os pri-
meiros são natural e habitualmente utilizados de maneira referencial, ao passo que
os últimos não são habitualmente ou, pelo menos, não tão naturalmente, utili-
zados desse modo, exceto quando qualificam substantivos (as qualifying nouns),
embora possam, e sejam, isoladamente utilizados de maneira referencial. É claro
que essa diferença funcional não é independente da força descritiva que é peculiar
a cada palavra. Em geral, pode-se esperar que a força descritiva dos substantivos
seja tal que eles são instrumentos mais eficientes para mostrar qual referência
se pretende fazer quando essa referência é assinalada; e pode-se também esperar
que a força descritiva das palavras que utilizamos, natural e habitualmente, para
efetuar referências individualizantes reflitam (mirror) o nosso interesse naquelas
características salientes, relativamente permanentes e comportamentais das coisas.
Essas duas expectativas não são independentes entre si. E, se atentarmos para
SOBRE REFERIR 283
as diferenças entre o tipo mais comum de substantivo comum e o tipo mais
comum de adjetivos, constataremos que ambas as expectativas são satisfeitas.
Essas diferenças são do tipo que Locke menciona de maneira bizarra, quando fala
das nossas idéias de substâncias como sendo coleções de idéias simples, quando
nos diz que “as faculdades (powers) constituem uma grande parte das nossas idéias
de substância” e quando, no caso das idéias simples, ele passa a contrastar a
identidade da essência real e da essência nominal com a ausência de identidade
de ambas e com a variabilidade da essência nominal no caso das substâncias.
A “substância” mesma é o embaraçoso tributo que Locke paga à sua própria
apercepção obscura da diferença existente na função lingiúística predominante,
que perdura mesmo quando o substantivo foi expandido numa série mais ou
menos indefinida de adjetivos. Russell repete, com uma diferença, o erro de
Locke quando, ao admitir a inferência da sintaxe à realidade, a ponto de ter a
impressão de que ele só pode livrar-se desse desconhecido metafísico se puder
purificar integralmente a linguagem da função referencial, estabelece o seu pro-
grama para “abolir os particulares”, um programa, de fato, que pretende abolir a
distinção de utilização lógica que tanto me custa enfatizar aqui.
O requisito contextual para a utilização referencial de pronomes pode ser
enunciado (stated) com maior precisão em alguns casos, (por exemplo, “eu” e tu”)
e somente com maior imprecisão em outros casos (por exemplo, ele” (it) e 'este”).
Não me proponho dizer mais nada acerca dos pronomes, se não assinalar um
sintoma adicional do fracasso em reconhecer, pelo que ela e, a utilização refe-
rencial individualizante, a saber, o fato de que certos lógicos efetivamente pro-
curaram elucidar a natureza de uma variável apresentando sentenças como “ele
está doente”, “isto (it) é verde”, como exemplos de algo que se assemelha, no
discurso ordinário, a uma função sentencial. Ora, é claro que é verdade que a
palavra “ele” pode ser utilizada, em ocasiões diferentes, para fazer referência a
pessoas diferentes ou a animais diferentes: e o mesmo com a palavras 'João' ou
com a frase 'o gato”. O que impede tais lógicos de tratar essas duas expressões
como quase- variáveis é, no primeiro caso, a duradoura superstição de que um
nome está logicamente ligado a um único indivíduo e, no segundo caso, a signi-
ficação descritiva da palavra “gato”. 'Ele”, contudo, que possui um vasto âmbito
de aplicação e uma força descritiva mínima, só adquire utilização como uma
palavra referencial. É esse fato, juntamente com o fato de não reconhecer as ex-
pressões que são utilizadas referencialmente o lugar que lhes pertence dentro da
lógica (lugar esse que é mantido aberto para os míticos nomes logicamente pró-
prios), que explica a tentativa equivocada (misleading) de elucidar a natureza
da variável por referência a palavras como “ele”, ela”, “ele”, (it).
As vezes se diz, dos nomes próprios ordinários, que eles são essencialmente
palavras, cada uma das quais é utilizada para se fazer referência a apenas um
único indivíduo. Isso é manifestamente falso. Muitos nomes pessoais ordinários
— nomes par excellence são corretamente utilizados para se fazer referência
a muitas pessoas. Um nome pessoal ordinário é, aproximadamente, uma palavra,
utilizada referencialmente, cuja utilização não é prescrita por nenhuma signifi-
cação descritiva que a palavra possa ter, e não é prescrita, tampouco, por nenhu-
ma regra geral para que seja utilizada como uma expressão referencial (ou como
parte de uma expressão referencial), ao contrário, do que ocorre no caso de
palavras como eu”, “isto” e to”; a sua utilização é governada, ao contrário, por
convenções ad hoc para cada conjunto particular de aplicações de palavras a
uma dada pessoa. O ponto importante é que a correção de tais aplicações não
deriva de nenhuma regra ou convenção geral relativa à utilização da palavra
como tal. (O limite do absurdo e circularidade óbvia é alcançado quando se
284 STRAWSON
tenta tratar os nomes como descrições camufladas no sentido de Russell, pois
aquilo que, no sentido especial indicado, é implicado, mas não implicado logi-
camente (entailed), pelo fato de eu referir-me agora a alguém pelo seu nome, é
simplesmente a existência de alguém, a quem se faz referência agora, que é con-
encionalmente referido pelo nome em questão.) Mesmo essa característica dos
nomes, no entanto, constitui apenas um sintoma do objetivo para o qual eles
são empregados. Na atualidade, a nossa escolha de nomes é em parte arbitrária,
em parte dependente de práticas (observances) sociais e legais. Seria perfeita-
mente possível ter um sistema completo de nomes, baseado, por exemplo, em
datas de nascimento ou numa classificação minuciosa de diferenças fisiológicas e
anatômicas. O êxito de qualquer sistema desse gênero, contudo, dependeria intei-
ramente da conveniência da alocação de nomes (dele resultante) para o propósito
de efetuar referências individualizantes. E isso dependeria da multiplicidade das
classificações empregadas e do grau em que essas intersecionam aleatoriamente
os agrupamentos sociais normais. Se ambas essas coisas são dadas num grau sufi-
ciente, a seletividade proporcionada pelo contexto faria o resto, exatamente como
ocorre com os nossos hábitos atuais de dar nomes (naming habits). Se tivéssemos
um tal sistema, poderíamos utilizar as palavras-nome (name-words) tanto des-
critivamente (tal como o fazemos atualmente, em medida limitada e de maneira
diferente, como alguns nomes famosos), quanto referencialmente. Mas é por meio
de critérios derivados da consideração dos requisitos da função (task) referencial
que deveríamos avaliar a adequação de qualquer sistema de dar nomes (of na-
ming). Do ponto de vista do dar-nome, nenhum tipo de classificação será melhor
ou pior do que um outro qualquer simplesmente em razão de ser o tipo de clas-
sificação — de nascimento ou anatômico — que é.
Já mencionei a classe de quase-nomes, das frases substantivas que termina-
ram por receber letras maiúsculas, e de que constituem exemplos frases como
'a Gloriosa Revolução”, “a Grande Guerra”, 'a Anunciação”, 'a Távola Redonda”.
Enquanto que a significação descritiva das palavras que seguem o artigo definido
ainda é relevante com relação ao seu papel referencial, as letras maiúsculas são
um signo daquela seletividade extralógica no uso referencial dessas frases, que
é característica dos nomes puros. Tais frases se encontram impressas ou escritas
quando um membro de alguma classe de acontecimentos ou coisas apresenta
numa sociedade determinada um interesse bastante proeminente. Essas frases são
nomes embrionários (embryonic). Por razões óbvias, uma frase pode ingressar
ou sair dessa classe (por exemplo, 'a Grande Guerra”).
V
Desejo concluir considerando, de maneira muito rápida, três outros problemas
relativos às utilizações referenciais.
(a) Referências indefinidas. Nem todas as utilizações referenciais de expres-
sões singulares evitam a pergunta “Acerca de que (de quem, de qual) você está
falando?” Existem algumas utilizações referenciais que atraem essa pergunta,
ou então desqualificam a intenção ou a capacidade de respondê-la. Exemplos são
fornecidos por inícios de sentença (sentence-beginnings) tais como “Uma pessoa
me disse que. ..”, “Alguém me disse que...” Segundo a doutrina ortodoxa (rus-
selliana), tais sentenças são existenciais, mas não existenciais individualizantes.
Isso parece errado sob múltiplos aspectos. É ridículo sugerir que parte do que
é assertado é que a classe de homens ou de pessoas não é vazia. Sem dúvida,
isso é implicado, no sentido de implicação que agora já é familiar. Mas essa im-
plicação também é tanto uma implicação da unicidade do objeto particular de
SOBRE REFERIR 288
referência, quanto quando eu começo uma sentença com uma frase como 'a mesa”.
A diferença entre a utilização dos artigos definido e indefinido é, de maneira
muito aproximativa, a seguinte. Utilizamos 'o' quando uma referência prévia foi
feita, e quando “o” assinala que a mesma referência está sendo feita; ou então
quando, na ausência de uma referência indefinida prévia, espera-se que o con-
texto (incluindo o conhecimento que se presume por parte do ouvinte) permita
a esse dizer qual referência está sendo feita. Utilizamos “um” quando essas con-
dições não são preenchidas, ou quando, embora uma referência definida pudesse
ter sido feita, desejamos omitir a identidade do indivíduo ao qual ou a que esta-
mos fazendo referência. Essa é a utilização primordial (arch) de frases como
"uma certa pessoa” ou “alguém”; essas frases poderiam ser expandidas em “al-
guém, mas não estou te dizendo quem”, mas não em “alguém, mas não saberias
(ou eu não sei) quem”.
(b) Enunciados de identificação (identification statements). Por esse rótulo.
entendo enunciados como os que seguem:
(ia) Esse é o homem que atravessou o canal a nado duas vezes no
mesmo dia.
(1a) Napoleão foi o homem que ordenou a execução do duque de Enghien.
A dificuldade que essas sentenças apresentam consiste em que os seus predi-
cados gramaticais não parecem ser utilizados de uma maneira estritamente
(straightforwardly) adscritiva, como ocorre, ao contrário, com os predicados
gramaticais dos enunciados seguintes:
(1h) Esse homem atravessou o canal a nado duas vezes no mesmo dia.
(15) Napoleão ordenou a execução do duque de Enghien.
Mas, se dissermos, a fim de evitar a dissolução da diferença entre (ia) e
(1b) e entre (lia) e (1ib), que as frases que formam os complementos gramaticais
de (ia) e (lia) estão sendo utilizados de modo referencial, ficaremos perplexos
a respeito daquilo que está sendo dito nessas sentenças. Parecia então que está-
vamos nos referindo duas vezes à mesma pessoa e, não dizendo nada sobre
ela e, portanto, não fazendo nenhum enunciado, ou então identificando-a com
ela mesma, produzindo, assim, uma identidade trivial.
O fantasma da trivialidade pode ser posto de lado. Ele só aparece para
aqueles que pensam que o objeto referido pela utilização de uma expressão é
a sua significação € que pensam, portanto, que o sujeito e o complemento dessas
sentenças significam o mesmo porque ambos poderiam ser utilizados para fazer
referência à mesma pessoa.
Creio que as diferenças entre as sentenças do grupo (a) e as sentenças do
grupo (b) podem ser compreendidas melhor se considerarmos as diferenças entre
as circunstâncias nas quais alguém diria (ia) e as circunstâncias nas quais alguém
diria (ih). Diríamos (ia) em vez de (1b) se soubéssemos ou acreditássemos que
o nosso interlocutor sabe ou acredita que alguém atravessou o canal a nado
duas vezes no mesmo dia. Dizemos (ia) quando consideramos que o nosso inter-
locutor está na posição de alguém que pode perguntar: 'Quem atravessou o
canal a nado duas vezes no mesmo dia” (E ao perguntar isso, ele não está
dizendo que alguém fez isso, embora o fato de perguntar (Ais asking) implique
— no sentido relevante — que alguém o fez.) Essas sentenças são como respostas
a perguntas desse tipo. É preferível chamá-las de “enunciados de identificação"
do que de “identidade”. A sentença (ia) não asserta mais ou menos do que a
sentença (ib). Trata-se apenas de que nós dizemos (ia) a alguém que pensamos
conhecer certas coisas que consideramos serem desconhecidas da pessoa a quem
dizemos (ih).
Essa é, nos seus elementos essenciais mais despojados, a solução do pro-
286 STRAWSON
blema levantado por Russell a respeito das 'frases denotativas' unidas por “é';
é um dos problemas que Russell atribui à Teoria das Descrições o mérito de
resolver.
(c) A lógica de sujeitos e predicados. Grande parte do que eu disse acerca
da utilização referencial individualizante das expressões pode ser estendida, com
as modificações apropriadas, à utilização referencial não individualizante das
expressões, isto é: a algumas utilizações de expressões compostas das locuções
'os”, “todos os”, “alguns”, “alguns dos”, etc., seguidas por substantivos, qualifi-
cados ou não, no plural; a algumas utilizações de “eles”, 'a eles”, “aqueles”, “esses”;
e a conjunções de nomes. As expressões do primeiro tipo possuem um interesse
especial. Em termos gerais, pode-se dizer que a crítica ortodoxa contemporânea,
inspirada na lógica matemática, de doutrinas como a do Quadrado da Oposição
e de algumas formas do silogismo tradicionalmente reconhecidas como válidas,
baseia-se na ausência habitual do reconhecimento do sentido especial em que
as asserções existenciais podem ser implicadas pela utilização referencial das
expressões. Afirma-se que as proposições universais do quadrado clássico devem,
ou receber uma interpretação existencial negativa (para 4, por exemplo: 'não
existem Xs que não são Ys”), ou que elas devem ser interpretadas como con-
junções de enunciados existenciais negativos e positivos, da forma, por exemplo
(para 4: 'não existem Xs que não são Ys e existem Xs”. As formas [ e O
recebem, normalmente, uma interpretação existencial positiva. Verifica-se então
que, seja qual for a alternativa selecionada dentre as acima aludidas, algumas
leis tradicionais deverão ser abandonadas. O dilema, no entanto, é espúrio.
Se interpretarmos as proposições do quadrado como não sendo nem positiva-
mente ou negativamente existenciais, nem como positiva e negativamente exis-
tenciais, mas como sentenças em relação às quais a questão de saber se estão
sendo utilizadas para fazer asserções verdadeiras ou falsas não se coloca exceto
quando a condição existencial é preenchida quanto ao termo sujeito, então todas
as leis tradicionais permanecem válidas em conjunto. E essa interpretação apro-
xima-se muito mais das mais comuns utilizações de expressões que começam
com 'todos” e 'alguns' do que qualquer alternativa russelliana. Pois essas expres-
sões, habitualmente, são utilizadas de modo referencial. Uma pessoa, de mente
literal e sem filhos, interrogada sobre se todos os seus filhos estão dormindo
certamente não responderia, “sim”, sobre o fundamento de que não tem nenhum
filho; mas tampouco responderia, 'não”, baseando-se nesse mesmo fundamento.
Visto que não tem filho, a questão não se põe. Dizer isso não é dizer que eu
não posso utilizar a sentença “Todos os meus filhos estão dormindo” com a
intenção de fazer crer a alguém que eu tenho filhos, ou com a intenção de enga-
ná-lo, levando-o a pensar que tenho filhos. Tampouco torno a minha tese menos
sólida se conceder que frases singulares da forma “o assim-e-assim" podem, por
vezes, ser utilizadas para um objetivo similar. Nem as regras aristotélicas nem
as russellianas fornecem a lógica exata de qualquer expressão da linguagem
ordinária, pois à linguagem ordinária não tem uma lógica exata.
HW — O PARTICULAR FE O GERAL
Existe uma determinada questão filosófica que, se a antiguidade confere
respeitabilidade, é tão respeitável quanto qualquer outra. Há não muito tempo,
ela foi discutida por Ramsey sob a forma: “Qual é a diferença entre um particular
e um universal?” ! e, mais recentemente, por Ayer, sob a forma: *Qual é a diferença
entre propriedades e indivíduos?” 2? Ramsey decidiu que não havia nenhuma dife-
rença última; é possível, contudo, que ele tenha fixado o standard de uma diferen-
ça última acima do que desejaríamos ou que o tenha derivado de uma teoria
que não mais queremos sustentar. Ayer, depois de algumas sugestões interessan-
tes, mudou de tema e, em seu lugar, discutiu duas outras questões, a saber: qual
é a diferença de função que existe entre palavras indicadoras e predicados, e:
poderíamos, em princípio, dizer aquilo que queremos dizer sem utilizar as primei-
ras? * E possível que a questão original tenha se tornado mais fácil de abordar,
e mais difícil de resolver, por um fracasso inicial em tornar pelo menos razoavel-
mente claro quais são os tipos de classe de coisas que devem ser incluídos nas duas
categorias gerais entre as quais se procura uma diferença satisfatória. Os termos
em que são formuladas as questões que eu citei são de escasso auxílio. Diz-se que
os universais incluem as qualidades e as relações. Mas se nós tomarmos, por exem-
plo, as palavras “qualidade”, 'relação' e “propriedade” nas suas utilizações (uses)
correntes, boa parte do que indubitavelmente desejaríamos incluir no que é (on the
side of the) geral, enquanto oposto ao particular, ficaria excluído; por outro lado,
se não as tomarmos nas suas utilizações correntes, não fica claro como deveremos
tomá-las. Assim, a neve, o ouro e o vestuário não são propriedades; tampouco o é
o homem, ou qualquer outra espécie; tampouco o são o xadrez ou a mobília;
nem, tampouco, a Union Jack “* — pela qual entendo (mean), não o exemplar
(specimen) esfarrapado que o porta-estandarte mantém numa gaveta, mas a ban-
deira desenhada no século XIX, exemplares da qual são tirados das gavetas pelos
porta-estandartes e desfraldados nas janelas. Todas essas, contudo, são coisas
que bem gostaríamos de classificar junto com aquelas propriedades que são assim
chamadas corretamente, como a inflamabilidade, ou junto com aquelas qualida-
Ramsey, Foundations of Mathematics, pp. 112-34.
Ayer, 'Individuals”, Mind, 1952.
A resposta de Ayer à segunda questão era afirmativa; e sendo as coisas como são, Isso
é sem dúvida correto com respeito ao que é teoricamente praticável. Ayer reconhece também
ta) que, na prática efetiva, dificilmente poderíamos dispensar as palavras indicadoras, e (b)
que a tentativa de dispensá-las sempre envolveria um fracasso teórico em individualizar.
visto que nenhuma elaboração de predicados excluiria a possibilidade teórica de reduplicação.
Duvido, entretanto, que a questão original possa ser respondida, a menos que levemos esses
dois fatos mais a sério do que Ayer.
4 A bandeira inglesa. (N. do E.)
[OS O
= sassssssos:s DÊ: de
288 STRAWSON
des que são assim chamadas corretamente, como a prudência, quando contras-
tamos essas útimas com indivíduos ou particulares. Existem, com efeito, fiocos,
montes ou quedas de neve individuais, peças de ouro, artigos de vestuário ou de
mobília, partidas (games) de xadrez ou membros de espécies, todos eles indivi-
duais; é* e existem centenas de Union Jacks. Tais coisas são (ou não são?), todas
elas, instâncias particulares das coisas gerais que são nomeadas em nome delas
(named then names). A dessemelhanca dessas coisas gerais com as propriedades
ou qualidades que são assim denominadas corretamente, é dissimulada, por vezes.
pela introdução de expressões como 'ser (uma peça de) ouro”, “ser neve”, “ser um
homem”, “ser uma Union Jack”, “ser uma cadeira”, “ser uma partida de xadrez? —
dizendo-se que frases como essas nomeiam propriedades. Ora, essas expressões
têm, sem dúvida, uma utilização participial; e algumas delas (por exemplo), “ser
um homem”) podem ter uma utilização como frases nominais (noun-phrases),
como termos singulares. Mas é duvidoso que muitas delas tenham uma utiliza-
ção como termos singulares, assim como é duvidoso que qualquer uma delas possa
ser considerada como o nome de uma propriedade. E seja qual for a maneira
como resolvemos essas dúvidas em diferentes casos, em todos eles surgirá o
dilema seguinte. Ou esses substantivos verbais (verbal nouns) (quando são subs-
tantivos) têm a mesma utilização que os nomes gerais que eles incorporam —
e. nesse caso, cles podem ser descartados, sem problemas, em favor desses no-
mes gerais, os quais são mais familiares e, por conseguinte, em relação a cujas uti-
lizações estamos menos sujeitos a ser induzidos em erro; ou então eles possuem
uma utilização diferente desses nomes gerais e, nesse caso, ainda temos em mãos,
a serem diferenciadas (como as propriedades que são assim chamadas correta-
mente) das coisas particulares (from particulars), aquelas coisas gerais designadas
por esses nomes gerais familiares.
H
Essa obscuridade inicial acerca dos limites das duas grandes categorias de
geral e de particular mostra-se também naquele arbitrário estreitamento do cam-
po de consideração, cuja ocorrência deve ser presumida sempre que certas res-
postas à nossa questão parecem plausíveis. Examinarei novamente algumas dessas
respostas que toram rejeitadas por Ayer ou Ramsey, ou por ambos, não tanto pela
razão de que eles pensaram que clas fossem falsas, como sobre a base de não
terem acreditado que tossem tundamentais. Ha, por exemplo, a sugestão de que
as coisas gerais, ao contrário das particulares, não podem ser percebidas por
meio dos sentidos; e isso parece altamente plausível se estivermos pensando nas
coisas designadas por certos nomes gerais abstratos. Não é com os olhos que dize-
mos que alguém vê à esperança. Pode-se, contudo, com plena literalidade, sentir
o cheiro (smel!) de sangue ou de toucinho, assistir a uma partida de críquete, ouvir
música ou trovões. Por outro lado, existem certos particulares com relação aos
quais tem duvidoso sentido dizer que alguém os percebe. Além disso, existe tam-
bém a idéia de que as coisas gerais, ao contrário das particulares, podem estar
em vários lugares ao mesmo tempo. Pode haver gripe tanto em Londres como
em Birmingham, e pode haver ouro na Austrália como na África. Do mesmo mo-
do, entretanto, vários particulares nodem estar espalhados pela superfície da mesa
ou pelo globo. E mais: há um duvidoso sentido em dizer que algumas coisas
gerais (por exemplo, a solubilidade) estão em algum lugar (in any place), e mais
* Embora uma partida de xadrez possa ser alguma coisa que possua, ela própria, instâncias.
O PARTICULAR E O GERAL 289
duvidoso ainda em dizer que estão em vários lugares; e há um sentido igualmen-
te duvidoso em dizer, de algumas coisas particulares (um pensamenio subito,
uma imagem mental, a Constituição francesa /of France/), que elas possuem uma
localização espacial particular. Pode-se afirmar que eu não percebi o ponto essen-
cial dessas duas teorias. Pode-se sustentar, em primeiro lugar, que, quando dize-
mos que percebemos coisas gerais, o que realmente percebemos são instâncias
individuais de tais coisas e não as próprias coisas gerais; e, em segundo lugar.
que dizer que as coisas gerais podem estar em vários lugares ao mesmo tempo
significa (is) dizer que elas podem ter diferentes instâncias diferentemente locali-
zadas, ao passo que falar de diferentes instâncias de indivíduos não faz nenhuni
sentido. Ora, explicar tais teorias dessa maneira significa (is) abandoná-las. Sig-
nifica simplesmente voltar atrás e repetir que as coisas gerais podem ter instâncias.
e que as instâncias individuais das coisas gerais não o podem. Isso talvez consti-
tua um irrepreensível enunciado da distinção geral entre as duas categorias, mas
parece difícil considerá-lo como uma explicação da distinção.
Segundo uma terceira sugestão, as coisas individuais, à diferença das coisas
gerais, possuem datas ou histórias. Objeções semelhantes às anteriores, contudo
aplicam-se a essa idéia. Podemos falar da história do vestuário (dress) ou da
engenharia, das origens da civilização, da invenção do golfe e da evolução do
homem. Essa teoria, bem como as precedentes (quando tomadas no seu valor
aparente), pode delinear uma distinção logicamente interessante, mas. como aque-
las, não estabeleceu uma distinção que coincida com a fronteira categorial entre
o particular e o geral.
Uma doutrina que poderia parecer mais promissora — porque mais geral
— do que essas, é aquela segundo a qual os indivíduos podem funcionar em pro-
posições somente como sujeitos e nunca como predicados, ao passo que as coisas
gerais podem funcionar tanto como uns quanto como outros. Não fica claro, toda-
via, qual é o alcance dessa doutrina. Suponhamos, primeiramente, que se trate de
uma questão (point) gramatical. Se a teoria afirma, então, que os nomes de indi-
viduos jamais possuem formas adjetivas ou verbais, ao passo que os nomes das
coisas gerais possuem tais formas, a doutrina é falsa. Sc cla afirma que os nomes
individuais jamais fazem parte de predicados gramaticais ou, alternativamente, que
cles nunca se apresentam sozinhos (stand by themselves) depois da palavra “É
num predicado gramatical, cla é igualmente falsa. Seja qual for o caso, uma ques-
tão gramatical dificilmente poderia ser fundamental, visto que é fácil imaginar
a eliminação das distinções sobre as quais tais questões devem repousar, em favor
do expediente que consiste simplesmente em unir, numa ordem qualquer, os no-
mes de tipos apropriados numa sentença singular. Ao fazer isso, no entanto, não
estaríamos eliminando a distinção de categoria, pois poderíamos imaginar uma
nova modificação da linguagem, exigindo que os nossos nomes devam aparecer
(stand) de um lado ou outro da frase: 'é uma instância de”, passando, então. a
distinguir os nomes individuais simplesmente como aqueles nomes que jamais
ocorrem à direita dessa irase.º Penso, portanto, que devemos concluir que a
questão enganosamente estabelecida em termos de gramática simplesmente con-
siste, uma vez mais, na questão de que os indivíduos, à diferença das coisas gerais.
não podem ter instâncias. Dizer que as coisas gerais, ao contrário das individuais,
8 Ramsey parece sugerir que isso equivaleria simplesmente a manufaturar uma distinção
verbal vazia. (Cf. Foundations of Mathematics, pp. 132-e s.) Mas não seria assim. Com
efeito, decidir quais nomes colocar em qual lado da frase de ligação (coupling) não seria
uma questão arbitrária.
290 STRAWSON
podem ser predicados de outras coisas, não é mais do que uma paráfrase disso;
e nenhuma das duas manciras de exprimir isso parece mais esclarecedora do que
a outra.
=
Mas poderá a mesma palavra 'instância” carregar realmente o peso dessa
distinção? Na medida em que se trata de uma palavra de filósofo, entendida em
termos da distinção em questão, é claro que cla não poderia deixar de suportar
esse peso; nessas condições, entretanto, ela deixa de explicar a distinção para nós.
Se perguntarmos quais são as expressões que cfetivamente utilizamos para fazer
referência a ou para descrever uma coisa individual enquanto instância de uma
coisa geral, constatamos que existem muitas expressões, c que talvez nenhuma
delas seja apropriada em todos os casos. Tais expressões incluem: 'um caso de”,
"um exemplo de”, 'um espécime de”, 'um membro de”, 'uma peça de”, “uma quan-
tidade de”, 'uma cópia de”, 'uma execução (performance) de”, “uma partida de”,
'um artigo de”, e assim por diante. Embora cada uma delas possa ser seguida pelo
nome de uma coisa geral, muitas podem também ser seguidas por expressões que
hesitaríamos em considerar como nomes de coisas gerais. Isso ocorre com u pró-
pria frase “uma instância de”. Podemos falar de uma instância indicadora de
(a signal instance of) generosidade; mas podemos igualmente falar de uma instân-
cia indicadora da generosidade de Silva. De maneira análoga, podemos falar não
apenas de uma peça de ouro ou de um artigo de vestuário, mas também de uma
peça de ouro de Silva e de um artigo de vestuário de Silva. Assim, se procurar-
mos desempenhar a nossa distinção em função das palavras efetivamente utiliza-
das para desempenhar o papel (part) da palavra de filósofo “instância” — inclu-
indo entre elas a própria palavra “instância —, não será suficiente dizer que as
coisas gerais podern ter instâncias. Pois coisas não gerais também podem.
Esse ponto pode ser formulado, aproximadamente, nos seguintes termos.
Somos tentados a explicar a distinção entre dois tipos de coisas, Tl e T2, por
meio de uma certa relação R; isto é, dizendo que só as coisas pertencentes a 72
podem aparecer como segundo termo dessa relação, ao passo que tanto as coisas
pertencentes a T2 quanto aquelas que pertencem a TI podem aparecer como o
primeiro termo da relação. R é algo que se assemelha a — embora seja mais
geral do que é caracterizado por, ou é um membro de ou à conversa de é pre-
dicado de. Mas torna-se evidente, então, que não temos, na realidade, nenhuma
noção de R, exceto uma noção que é inútil para objetivos explanatórios, visto
que a própria noção deverá ser explicada em função da diferença entre fl e P2;
c nisso consiste aquilo que chamei de noção de tilósoto de “uma instância de”.
O que temos, em troca, é uma grande quantidade de noções que são ou excessi-
vamente restritas para poderem servir aos nosso propósitos (por exemplo, “tem
a propriedade de”, ou que não são restritas da mancira exata que gostaríamos que
fossem, ou as duas coisas ao mesmo tempo. Poderíamos tomar a idéia lógica de
perticipação numa classe (class-membership) como um exemplar (member)
preeminente pelo seu caráter abstrato — desse conjunto de noções. O problema
aqui consiste, grosso modo, em que podemos tormar classes definidas (closed)
a partir de qualquer princípio que nos aprouver; poderíamos considerar prati-
camente qualquer particular que porventura mencionarmos como uma classe desse
gêncro e, por conseguinte, como o segundo termo da nossa relação. (Essas obser-
vações são muito grosseiras e esquemáticas, mas espero que sirvam para estabe-
lecer, sob uma forma geral, o ponto que me interessa fixar.) Consequentemente,
somos obrigados a desistir da idéia de explicar a diferença entre o particular e o
O PARTICULAR E O GERAL 2
No
me
geral em função daquela relação. O abandono de tal projeto, todavia. não nos
conduzirá, como talvez tenha levado Ramsey, a menosprezar a noção filosófica de
instância c a pensar que essa noção é imprestável, pois é bastante fácil ensinar a
qualquer pessoa, sem explicações precisas, a sua aplicação. Esse abandono nos
obriga, entretanto, a procurar alhures tais explicações.
IV
Para começar, gostaria de traçar uma distinção aproximada entre três classes
de substantivos, todos os quais seriam tradicionalmente considerados, ou como
sendo eles próprios nomes de universais (de coisas gerais), ou — no caso dos
substantivos do grupo (2) — como estreitamente ligados a tais nomes. As distin-
ções serão indicadas exclusivamente através de exemplos, e as três classes abso-
lutamente não esgotam o domínio. Mas isso não tem importância para os meus
propositos.
(1) Constituem exemplos da primeira classe substantivos partitivos como
“ouro”, “neve”, “água”, 'geléia”, ce “música”. A esses chamarei de nomes de material
Onaterial-names) ec àquilo que eles nomeiam de materiais (materials). ”
(2) São exemplos da segunda classe certos substantivos articulativos como
(um) homem”, (uma) maçã”, (um) gato”. Chamarei a esses de nomes de substância
e aquilo a que eles se aplicam de substâncias.
(3) Exemplos da terceira classe são substantivos abstratos como 'vermelhi-
dão” (ou 'vermelho”), 'redondeza”, “cólera”, e 'sabedoria”, Chamarei a esses de
nomes de qualidade ou de nomes de propriedade, e aquilo que eles nomeiam, de
qualidade ou de propriedades.” Essas três classes de substantivos podem ser com-
paradas e contrastadas entre si de inúmeras maneiras, mas o contraste que mais
me interessa acentuar é
(1) O contraste entre os substantivos do grupo (3) e os substantivos dos gru-
pos (1) e (2). Os substantivos do grupo (3) são os mais sofisticados e os mais dis-
pensáveis. São derivados de adjetivos, e as coisas gerais que cles nomciam pene-
tram, habitualmente, no nosso discurso por intermédio dos adjetivos de que os
seus nomes são derivados. Quando cxaminamos as coisas que os filósofos estão
dispostos a considerar como instâncias dessas coisas gerais, constatamos a cxis-
tência de uma considerável latitude nas categorias de coisas a que tais instâncias
podem pertencer. Assim, um homem, uma observação ou uma ação podem cons-
tituir uma instância de sabedoria. Uma instância da cor vermelha pode ser uma
coisa material, como uma caixa de correio (pillar-box), um acontecimento, como
um crepúsculo, ou uma coisa mental, como uma imagem. Uma palavra, um gesto.
uma expressão ou um homem podem, todos, ser instâncias de cólera. Em contras-
tw com essa situação, não existe nenhuma latitude — postas de lado as ambigii-
dades não sistemáticas — com respeito à categoria de coisa que pode constituir
uma instância individual de um gato ou de uma maçã. Existe alguma latitude —
embora possamos, muitas vezes, hesitar em chamá-la de latitude-categoria (cate-
gory-latitude) — com relação aquilo que pode constituir uma instância individual
das coisas gerais nomeadas pelos substantivos do grupo (1). Um veio, um pedaço
ou uma quantidade de ouro podem ser uma instância de ouro; c um monte, um
campo (expanse), um pedaço ou mesmo uma queda de neve podem ser uma
instância de neve.
? A terminologia, evidentemente. não deve ser tomada muito a sério. A música dificilmente
é um material. A cólera é um estado, não uma propriedade ou qualidade.
29 STRAWSON
(ii) A seguir, quero sublinhar um aspecto no qual os substantivos do grupo
(2) diferem dos substantivos dos grupos (1) e (3). Em filosofia, pode-se falar de
'uma instância (exemplo, espécime) individual (particular) de q onde ' q "é
substituído por um substantivo pertencente a qualquer um desses três grupos.
Suponhamos que o nome seja tirado do grupo (2): teremos então frases como “uma
instância de um cavalo” ou “uma instância de uma maçã”. Deve-se observar que
o que segue a expressão “uma instância de” é uma frase que pode funcionar, e que
efetivamente funciona, por si mesma (by itself), como uma designação indefinida
de uma instância individual, (Uma instância de um cavalo é a mesma coisa que
cavalo.) Isso não ocorre se os substantivos forem tirados dos grupos (1) ou (3).
(Ouro não é a mesma coisa que um pedaço de ouro). Parece que, quando dizemos
que x é uma instância de y, e quando y é tal que não temos nenhuma escolha
acerca do tipo de coisa que podemos considerar como uma instância sua, não
sentimos nenhuma necessidade de um autêntico nome de coisa-geral para y, isto
é, de um nome que seja diferente de uma designação indefinida de uma instância
individual de y. (É bem verdade que temos as expressões 'o cavalo”, 'a maçã”, etc.,
todas elas nomes de espécies ou de tipos (kinds) e agrupadoras (collectors) evi-
dentes de indivíduos homogêneos; mas essas expressões figuram depois da expres-
são 'uma instância de” com muito menos naturalidade do que a frase que contém
o artigo indefinido.) Os filósotos perceberam essa diferença e tentaram obscurecê-
la com a invenção de expressões como “equinidade” (cf. “ser um cavalo”). A dife-
rença, entretanto, deveria, antes, ser tratada como uma pista (a clue), até que fosse
provado constituir uma anomalia.
(iii) Desejo, finalmente, assinalar a existência de uma classe especial de ins-
tâncias individuais de coisas gerais cujos nomes pertencem ao grupo (3). A receita
mais simples, embora não a única, para formar os nomes dos membros dessa classe
é a seguinte: na fórmula o... de...', preencha o primeiro espaço vacante (gap)
com o nome de propriedade em questão, e o segundo espaço vacante com a desig-
nação definida de um indivíduo apropriado. Assim, podemos falar de a sabedoria
de Sócrates como uma instância de sabedoria; de a vermelhidão do rosto de Silva
como uma instância de vermelhidão; e podemos também dizer que o atual estado
mental de Pereira constitui uma instância de cólera. Essa classe de instâncias indi-
viduais de propriedades ou de coisas semelhantes a propriedades (property-like
things) incluirá também as 'qualidades particulares” que Stout defendia. Pode-se
ainda encontrar uma analogia entre fazer referência a um cavalo enquanto 'uma
instância de um cavalo” e fazer referência ao atual estado colérico de Silva en-
quanto 'uma instância de cólera”.
V
A seguir, desejo fazer algumas observações gerais, a um nível ainda pro-
pedêutico, acerca da noção de indivíduo ou particular.
(1) A idéia de um indivíduo é a idéia de uma instância individual de alguma
coisa geral. Não existe algo que seja (there is no such thing as a) um puro particu-
lar. (Essa verdade é antiga demais para requerer uma fundamentação elaborada.)
(2) A idéia de uma instância individual de q é a idéia de alguma coisa que
somos capazes, em princípio,
; a) de distinguir de outras instâncias de q :c
b) de reconhecer como a mesma instância cm momentos distintos (quando
essa noção for aplicável).
Assim, para ter a idéia de uma instância particular de q , necessitamos
(em geral)
O PARTICULAR E O GERAL 2)
14)
a) de critérios de distinção (distinctness) e
b) de critérios de identidade
para uma instância particular de y. Devemos fazer os seguintes comentários a
propósito da necessidade desses critérios:
(i) Poder-se-ia supor que a distinção entre os dois tipos de critérios constitui
um equívoco, que não existe tal distinção, pois a identidade e a diferença são
as duas faces de uma mesma moeda. É possível, todavia, pelo menos em alguns
casos, considerar separadamente os critérios mediante os quais distinguimos e
enumeramos objetos do mesmo tipo, numa situação em que não se põe ou não
se considera a questão de identificar qualquer um deles como aquele que possui
tal e tal história, ou de distingui-lo daquele que possui tal e tal história. É a crité-
rios desse gênero que dou o nome de “critérios de distinção”. Poderíamos também
chamá-los de critérios de enumeração”. *
(ii) Quais podem ser os critérios de distinção e de identidade para instância
de y, é um problema obviamente ligado de perto ao de saber o que é py, mas o
primeiro não é inteiramente determinado pelo segundo em todos os casos. Que o
segundo não determina integralmente o primeiro é algo evidente no caso de pro-
priedades, qualidades, estados, etc.; já vimos, na alínea (4 (1)), quão vasto é o
domínio (range) de categorias de onde podem ser tiradas as instâncias de pro-
priedades, qualidades, estado, etc. Isso é menos óbvio, no caso das coisas gerais
nomeadas por nomes de material mas ainda se aplica a ele.
O problema geral dos critérios de distinção e de identidade de instâncias indi-
viduais de neve ou de ouro não pode ser colocado ou, se levantado, não pode ser
resolvido satisfatoriamente. Devemos esperar até saber se estamos falando de
veios, de peças ou de quantidades de ouro, ou de quedas, de montes ou de cam-
pos de neve. Existem casos, entretanto, em que não parece haver essa indetermi-
nação relativa aos critérios de identidade e de distinção, nos quais parece que.
uma vez dado «w , os critérios também são dados. Entre esses casos encontram-
se aqueles nos quais *y ” é um nome de substância (4 (ii) ). Deve-se mais uma
vez assinalar que esses são os casos em que não encontramos um autêntico
nome de uma coisa geral seguindo a frase “uma instância de”, mas, ao contrário,
uma expressão que pode funcionar, por si mesma, como uma designação indefinida
de uma instância individual (por exemplo, “um cavalo”).
(3) Quando já se disse que um particular deve ser uma instância de alguma
coisa geral, e que devem existir critérios de distinção e (quando aplicáveis) de
identidade para instâncias individuais de uma coisa geral — ainda não se disse
algo de importância central. Ao fornecer os critérios — ou conjuntos de critérios
— relevantes para instâncias individuais de uma coisa geral determinada, não indi-
camos, com isso, a maneira como tais particulares são introduzidos no nosso
discurso. E tampouco introduzimos um particular no nosso discurso ao mencionar
simplesmente esses critérios. (Mencioná-los ainda é falar em geral.) Nós intro-
duzimos um particular no nosso discurso somente quando determinamos ou sele-
cionamos um ponto de aplicação para esses critérios, somente quando menciona-
mos ou fazemos referência à alguma coisa a que esses critérios devam ser apli-
cados; e nenhuma teoria de particulares que não levar em conta os meios pelos
quais determinamos um tal ponto de aplicação enquanto ponto de aplicação para
esses critérios, poderá ser adequada.
8 Poderia ser verdade (a supor que fosse inteligível) que, se tivéssemos uma perspectiva das
coisas de tal forma indiferente ao tempo que nós as veriamos como objetos tetradimen-
sionais no espaço-tempo — então, nesse caso, seria inócuo conceder uma consideração espe-
cial aos critérios de distinção. Mas nós não temos uma perspectiva como essa.
294 STRAWSON
VI
No restante deste artigo, tentarei fazer duas coisas. Em primeiro lugar, ten-
tarei mostrar como, no caso de certos tipos de particulares (de instâncias particu-
lares de certos tipos de coisas gerais), a noção de um particular pode ser encarada
como algo de logicamente complex em relação a outras noções (como uma
espécie de composto dessas noções). Isto é, tentarei apresentar, para certos casos,
uma explicação (ou análise) parcial da noção de uma instância individual; em
seguida, tentarei mostrar que essa noção, tal como foi explicada para esses casos,
poderá ser utilizada na explicação da noção de instâncias individuais de outros
tipos de coisas gerais e, também, na explicação das noções desses outros tipos
de coisas gerais. Assim, não se oferecerá, nessa parte do artigo (seções VI-IX),
nenhuma elucidação geral da distinção que nos ocupa. O procedimento consistirá,
essencialmente, em indicar, passo a passo, como certos tipos de noção podem
ser considerados como dependentes de outros; por outro lado, o procedimento
indicado não terá nenhuma pretensão de ser completo. Em segundo lugar (seção
XII, descobriremos que esse procedimento sugere uma possível elucidação geral
da distinção que nos interessa, embora a aceitabilidade ou não dessa elucidação
geral pareça ser independente da aceitabilidade do esquema de explicação que
progride passo por passo.
Ora, poderia parecer que a dificuldade de encontrar uma explicação de
noção de uma instância individual surge no fato de que a distinção de categoria
entre o geral e o individual é tão fundamental que não há, do ponto de vista lógico,
nada mais simples ou mais fundamental em termos do qual essa noção poderia
ser explicada. Acredito, porém, que esse ponto de vista pode ser posto em ques-
tão num certo domínio de casos importantes, os quais talvez possam, então,
servir como base para a explicação de outros. Para contestar com êxito esse ponto
de vista, devemos considerar a possibilidade de fazer enunciados (statements)
que (a) não fazem utilização da noção de instâncias individuais e (b) não pressu-
põem a existência de enunciados que utilizam essa noção. Pode-se afirmar que
a segunda condição exclui os enunciados gerais, pois, embora muitos enunciados
gerais não façam nenhuma menção direta de indivíduos, tem-se muitas vezes sus-
tentado, e com plausibilidade, que eles pressupõem, em certo sentido, a existência
de enunciados que fazem tais menções. Assim, o que devemos considerar é a pos-
sibilidade de enunciados singulares que não fazem menção (isto é, que não con-
têm nomes para, ou outras expressões que, de maneira definida ou indefinida,
fazem referência) a instâncias individuais de coisas gerais. Ora, certamente existe,
na utilização ordinária, uma gama (range) de enunciádos singulares empíricos que
correspondem a essa descrição. Como exemplos, sugiro os seguintes:
Está (esteve) chovendo
Pode-se ouvir música ao longe (in the distance)
Está caindo neve
Há ouro aqui
Há água aqui.
Todas essas sentenças contêm o nome-de-material de uma coisa geral (“músi-
ca”, 'neve”) ou um verbo correspondente, mas nenhuma contém qualquer ex-
pressão que possamos interpretar (can be construed as) como servindo para fazer
uma menção definida ou indefinida a instâncias individuais dessas coisas gerais
(isto é, pancadas ou gotas de chuva, peças de ouro, poças de água, e assim por
diante). É claro que, quando essas sentenças são utilizadas, a combinação das
O PARTICULAR E O GERAL 295
circunstâncias de sua utilização com o tempo do verbo e com os advérbios de-
monstrativos que elas contêm (se é que contêm algum), fornece uma indicação
da incidência da coisa geral em questão. Para que enunciados singulares empíricos
possam ser feitos, tal indicação deve ser fornecida de alguma maneira. Um fato
importante, entretanto, é que ela pode ser fornecida por meio de indicações cen-
tradas na elocução (utterance-centred indications) que não incluem expressões
substantivas (noun-expressions) que façam referência, de modo definido ou inde-
finido, a instâncias individuais. Sentenças como essas não introduzem particulares
no nosso discurso.
As linguagens imaginadas a partir do modelo dessas sentenças são chamadas,
às vezes, de linguagens de “locação de propriedade”. Creio, entretanto, que a pala-
vra “propriedade” merece objeções aqui, porque (a) as coisas gerais que figuram
nos meus exemplos não são propriedades, e (b) a idéia de propriedade, assim
como a idéia mesma de uma instância individual, pertence a um nível de com-
plexidade lógica superior ao nível no qual estamos tentando permanecer. Pro-
ponho, portanto, substituí-la pela palavra “característica” (feature), a qual é me-
nos filosoficamente comprometida, e proponho falar de sentenças que localizam
características (feature-placing).
Embora não introduzam particulares no nosso discurso, as sentenças que
localizam características fornecem os materiais para essa introdução. Suponhamos
que comparemos uma sentença que localiza características (Há neve aqui”) com
uma frase ((Essa (porção de) neve”) em cuja utilização menciona-se uma instância
individual da característica em questão. Nesse caso, parece possível considerar a
noção da instância individual como algo de logicamente complexo em relação às
duas noções mais simples de característica e de localização. Pode-se evidenciar
essa complexidade lógica da maneira seguinte. Ao fazer o enunciado (statement)
que localiza uma característica, proferimos (utter) uma sentença completa sem
mencionar indivíduos. Se simplesmente mencionássemos o indivíduo, sem nada
dizer, a seguir, acerca dele, não teríamos conseguido proferir uma sentença com-
pleta; e, contudo, aquilo que a sentença que localiza uma característica diz expli-
citamente, já está implícito, num certo sentido, na mera menção. Assim, como
passo fundamental num esquema explanatório, podemos considerar que a noção
de uma instância particular de certos tipos de coisas gerais é uma espécie de com-
posto lógico das noções mais simples de características e de localização.
Mas, que dizer a respeito dos critérios de distinção e de identidade que afir-
mávamos, em geral, serem necessários à noção de uma instância individual de
uma coisa geral? A base para o critério de distinção já pode ser introduzida ao
nível da localização de característica, sem, ainda, que particulares sejam introdu-
zidos. Com efeito, nos casos em que podemos dizer 'Há neve aqui ou “Há ouro
aqui”, também podemos, talvez, dizer com maior exatidão, conquanto não com
maior correção: 'Há neve (ouro) aqui — e aqui — e aqui”. E nos casos em que
podemos dizer “Nevou hoje”, também podemos, talvez, dizer com maior exatidão,
mas não com maior correção: 'Nevou duas vezes hoje”. As considerações que de-
terminam a multiplicidade de localização tornam-se, quando introduzimos parti-
culares, os critérios para distinguir essa porção de neve daquela outra, ou a pri-
meira queda de neve da segunda. Mas, adiante direi mais alguma coisa, em geral,
e respeito dos critérios de identidade.
Poder-se-ia objetar que é absurdo dizer que uma transição apenas imaginá-
tia de sentenças que localizam uma característica para expressões substantivas que
designam, de maneira definida, instâncias particulares de características constitui
a introdução de particulares; que é absurdo representar essa transição imaginária
(imagined) como parte de uma possível análise da noção de uma instância par-
EE aaa lg.
296 STRAWSON
ticular, mesmo naqueles casos simples de nomes de material que parecem os
mais favoráveis; e que tal transição pode, no máximo, realizar, é a indicação de
um modo possível de encarar certas designações de certos particulares. Os par-
ficulares, com efeito, não são eles uma parte relevante tanto daquelas situações
em que se emprega uma sentença que localiza uma característica, quanto de uma
situação em que se emprega uma designação de particular substantivada (substan-
tival particular-designation)? Eu responderia a essa objeção perguntando qual pro-
blema filosófico poderia existir acerca de particulares, se não os designássemos,
se não pudéssemos fazer listas deles, se não predicássemos qualidades deles, e as-
sim por diante. O que devemos explicar é uma certa modalidade de discurso (a
certain mode of speech).
VII
Quando passamos dos nomes de material aos nomes de substância, a ten-
tativa de fornecer uma explicação análoga da noção de instância individual pare-
ce muito mais Cifícil. Ainda que difícil, talvez valha a pena fazer a tentativa,
pois, se ela alcançar êxito, podemos descobrir que temos, então, uma base ade-
quada para a explicação da noção de uma instância individual em outros casos,
assim como para a explicação de tipos ulteriores (further) de coisas gerais. Para
que a tentativa tenha êxito, deveremos ser capazes de considerar uma situação
na qual, em lugar de operar com a noção de uma instância individual de um gato
ou de uma maçã, nós operamos com a noção de uma característica correspondente
e com a de localização. A linguagem ordinária não parece nos oferecer, nesses
casos, sentenças que localizam uma característica. Poder-se-ia, inclusive, argu-
mentar que a idéia de tais sentenças seria absurda nesses casos. Com efeito, (1)
poder-se-ia assinalar que uma diferença de capital importância entre coisas como
neve e coisas como gato reside no fato de que diferentes instâncias de neve são,
num sentido, indefinidamente aditivas, podendo ser consideradas juntas (counted)
como uma só instância de neve, ao passo que isso não ocorre (not true of) com
instâncias de gatos; poder-se-ia sugerir, além disso, que aqui se encontra uma
razão da possibilidade, no caso de neve, de sentenças que localizam características,
e da sua impossibilidade no caso de gatos. Por outro lado, (2) poder-se-ia
acrescentar que não temos, no caso de gatos, nenhum nome para uma coisa geral
que poderia ser considerada como a característica desejada. E verdade que falamos
de o gato em geral; mas “o gato” classifica-se (rank as) como um nome de espécie,
e é tão certo que a noção de espécie pressupõe a noção de membros individuais
quanto é certo que a noção de propriedade envolve a noção de coisas individuais
as quais a propriedade pertence ou poderia pertencer. Também é verdade que,
da mesma forma como podemos falar de uma instância de ouro, podemos falar de
uma instância (ou espécime) de um gato; mas, nesse caso, o que segue a frase 'uma
instância de” não é — ao contrário de “ouro' —, um nome de coisa-geral que po-
deria figurar numa sentença que simplesmente localiza características e, sim, uma
expressão que serve também como designação indefinida de um indivíduo. Ora,
tudo isso não sugere fortemente que não poderia haver um conceito de 'caracte-
rística de gato”, tal como esse seria requerido para que a análise se aplicasse; que
toda e qualquer idéia geral de gato deve ser a idéia de um gato, isto é, deve en-
volver critérios de identidade e de distinção para gatos enquanto indivíduos e, por-
tanto, a noção de uma instância individual?
Embora essas objeções sejam dotadas de grande força e importância, não
creio que sejam decisivas. Elas não demonstram, com efeito, que é logicamente
absurdo supor que possamos reconhecer a presença de um gato, ou signos da pre-
O PARTICULAR E O GERAL 207
sença passada ou futura de um gato, sem que jamais tenhamos tido ocasião de
distinguir um gato de outro como o gato da esquerda, ou de identificar um gato
como sendo o nosso gato ou como sendo Félix. ? O segundo argumento não faz
mais do que nos lembrar de que os recursos da nossa linguagem são tais que, em
qualquer ocasião etetiva desse gênero nós utilizamos, de fato, não um substantivo
partitivo, mas as formas indefinidas ('gatos' ou “um gato”) do substantivo articu-
Jativo. Esse fato, contudo, pode ser explicado de maneira compatível com a análi-
se proposta (ver seção X). Todavia, esses argumentos mostram alguma coisa. O
ponto acerca do nome de espécie, por exemplo, é correto; a noção de uma espécie,
como a de uma propriedade, pertence a um nível de complexidade superior aquele
que estamos tentando atingir. Em segundo lugar — e isto é mais imediatamente
importante —, o primeiro argumento mostra que, para que exista um conceito geral
de característica de gato, correspondente, da forma exigida, à noção de uma
instância individual, é necessário que ele já inclua em si mesmo a base para os
critérios de distinção que aplicamos aos gatos individuais. (Grosso modo, a idéia
de gato, ao contrário da de neve, incluiria a idéia de uma forma típica (charac-
teristic shape).) Mas conceder isso não significa conceder a impossibilidade da
análise. Vale a pena acrescentar que às vezes encontramos indicações verbais da
nossa utilização de conceitos de característica como aqueles que estamos tentando
considerar; por exemplo, quando falamos de “gato farejador' ('smelling cat”) ou de
leão caçador ('hunting lion”), utilizando o substantivo no singular, sem o artigo.
Poder-se-ia pensar que existe uma objeção mais geral a todo esse método.
Com efeito, parece que sempre seria possível, na prática, parafrasear uma dada
sentença que localiza uma característica que se está utilizando por meio de uma
sentença que incorpore designações indefinidas de instâncias particulares; por
exemplo, parece possível parafrasear “Há ouro aqui” por intermédio de “Há uma
quantidade de ouro aqui"; “Caiu neve duas vezes” por meio de 'Houve duas que-
das de neve”; “Há neve aqui — e aqui” por meio de 'Há manchas (campos) de
neve aqui e aqui"; e assim por diante. Por outro lado, se sentenças que incorpo-
ram designações definidas ou indefinidas de instâncias particulares introduzem
particulares no nosso discurso; e se enunciados feitos mediante a utilização de
sentenças que localizam características são eguivalentes a enunciados feitos me-
diante a utilização de sentenças que incorporam designações indefinidas de ins-
tâncias particulares —- não somos obrigados, então, a dizer que as próprias sen-
tenças que localizam características introduzem particulares no nosso discurso?
Esse argumento, entretanto, pode ser empregado em favor da explicação contra
a qual está endereçado. Suponhamos que exista um enunciado S feito mediante
»ma sentença que localiza uma característica, e um enunciado equivalente 'S”,
feito mediante uma sentença que contém uma designação de particular indefinida:
suponhamos, finalmente, que exista um enunciado T, feito mediante uma sen-
tença que contém uma designação definida do particular designado de maneira
indefinida em S'. Ora, uma linguagem só pode admitir enunciados corretamente
descritos da maneira como descrevi S”, se ela admitir enunciados como T. (Não
há designações indefinidas de particulares se não houver designações definidas
de particulares.) Mas uma linguagem pode admitir enunciados como S sem ad-
mitir enunciados com T. Portanto, a existência de enunciados como S”, numa lin-
guagem que admite tanto enunciados como $ como enunciados como 7, não des-
trói a nossa análise, constituindo, ao contrário, uma prova da sua correção.
9 Cf. Price, Thinking and Experience, pp. 40 e s., sobre a identidade dos indivíduos e das
características (characteristics).
O
298 STRAWSON
Vl
Se o argumento exposto até aqui é aceitável, podemos então considerar, pelo
menos no caso de alguns materiais e de algumas substâncias, que a noção de uma
instância individual é parcialmente explicada em função da composição lógica
das duas noções de característica e de localização. Quando nos voltamos para as
propriedades e qualidades, podemos utilizar um tipo diferente de explicação, a
qual tornará ao mesmo tempo completo, num certo sentido, o primeiro tipo.
Quer dizer, não tentarei explicar a noção de instância individual de cólera, de
sabedoria ou de vermelho, em termos da composição lógica de uma caracteris-
tica, como cólera ou vermelho, e de localização. Tampouco afirmarei, porém, que
tal tentativa seria errônea ou impossível. Poderíamos considerar tais coisas gerais,
como cólera (ou vermelho), não, em primeiro lugar, como qualidades, proprie-
dades, estados ou condições de pessoas ou coisas, mas, em primeiro lugar, como
instanciadas em, por exemplo, situações (ou manchas) cujo estatuto enquanto in-
divíduos foi adquirido, justamente, a partir de uma composição lógica do gênero
indicado. Embora isso indique de que maneira poderíamos pensar, não é assim,
contudo, que efetivamente pensamos na maior parte dos casos. Ao contrário, é
natural considerar que essas coisas gerais que são apropriadamente chamadas de
qualidades, de condições, etc., pertencem, no mínimo, ao mesmo nível de com-
plexidade lógica que a idéia de instâncias individuais dos tipos com os quais nos
ocupamos até agora; em outros termos, é natural considerá-las como coisas seme-
ihantes a características (feature-like things), cuja incidência, entretanto, é indi-
cada, primariamente, não pela localização, mas por sua atribuição (ascription)
a instâncias individuais de características materiais ou substanciais, cuja incidên-
cia é primariamente indicada por uma localização. !º Já vimos que a noção de
uma instância individual de alguns materiais e de algumas substâncias pode ser
considerada como o composto lógico das noções de característica e de localização.
Devemos agora encarar a atribuição de uma qualidade (etc.) a um indivíduo des-
ses como uma operação análoga à localização de uma característica. Na realidade,
poderemos encontrar na possibilidade dessa operação a finalidade (point) — ou
uma importante finalidade — daquela composição lógica que nos fornece o par-
ticular. A instância individual da característica simplesmente localizável emerge
como um possível ponto de locação para coisas gerais diferentes da característica
da qual ela é, primariamente, uma instância, emergindo também, portanto, como
uma instância individual dessas coisas gerais, das suas propriedades, qualidades
ou estados. Poder-se-ia, com certo exagero, dizer: a finalidade (point) de possuir
a idéia de instâncias individuais de características materiais ou substanciais está
em que elas podem ser representadas como instâncias individuais de caracterís-
ticas semelhantes a propriedades. Os indivíduos são distinguidos enquanto indi-
víduos a fim de serem contrastados e comparados.
Outras noções exigem tratamento diferente. Considerarei mais duas noções.
(a) Na seção IV (iii), mencionei uma classe um tanto especial de instâncias
individuais de propriedades ou de coisas semelhantes a propriedades. Formamos
a noção de uma instância dessas quando falamos, por exemplo, não de um homem
ou de uma ação como uma instância de sabedoria ou de cólera, mas quando fala-
mos da sabedoria de Sócrates como um indivíduo (como de um caso de sabedo-
ria), ou do atuai estado mental de Silva como uma instância individual de cólera.
10 Essas observações só se aplicam, é claro, a algumas das coisas que são corretamente cha-
madas de propriedades. estados, qualidade, etc.
O PARTICULAR E O GERAL 299
Nesse caso, a noção de instância individual pode ser encarada como um novo
tipo de composto lógico, a saber, como um composto que inclui como elemento
tanto a noção da coisa geral (ou propriedade) que estiver em questão, quanto a
noção do indivíduo material ou substancial que for uma instância da primeira:
tal composto pode incluir às vezes um elemento adicional de localização tempo-
ral (cf. *o seu atual estado de cólera”.
(b) Até aqui quase não mencionei instâncias de acontecimentos (events) de
processos e de modificações. A maioria das nossas mais familiares palavras para
exprimir acontecimentos (happenings) nos aparece essencialmente como nomes
para as ações e transformações (undergoings) das instâncias individuais de carac-
terísticas materiais ou substanciais. Existe uma diferença, contudo, entre essas
palavras para acontecimentos (happening-words) e palavras para qualidades ou
estados. Um homem sábio constitui uma instância de sabedoria, mas um morto
ou um moribundo não constitui uma instância de morte. Só uma morte apresenta
uma instância de morte. Com respeito a palavras para acontecimentos como
esses, devemos então considerar que a idéia de uma instância individual é con-
quistada por um tipo de composição lógica análogo ao tipo considerado no pará-
grafo imediatamente acima: uma instância individual de uma característica ma-
terial ou substancial é um elemento do composto. Mas, embora talvez sejam “os
mais importantes, não são esses os únicos tipos de palavras para acontecimentos
(happening-words).
IX
A forma geral dessas explicações pode ser indicada, aproximadamente, da
maneira seguinte. A noção de localizar uma característica é tomada como básica,
como consistindo dos elementos mais simples do ponto de vista lógico, com os
quais deveremos operar. Assinala-se, em seguida, que nenhum desses elementos
envolve a noção de uma instância individual nem, por conseguinte, as noções de
certos tipos de coisas gerais, como propriedades e espécies; e mostra-se, final-
mente, que é possívei tornar inteligível, para certos casos, a idéia de operar ex-
clusivamente com esses elementos mais simples. (Na realidade, as características
pertencem, é claro, à classe de coisas gerais; na medida, entretanto, em que per-
manecemos ao nível da localização de características, elas não podem ser alocadas
(assigned) àquela classe, visto que não há nada com que contrastar o geral.) A
partir dessa base, procedemos por meio de composição e de analogia. As desig-
nações de instâncias individuais de (algumas) características materiais e substan-
ciais são introduzidas em primeiro lugar, como expressões, que não sendo elas
próprias sentenças completas, incluem indicações de localização; e, para comple-
mentar, são introduzidos certos tipos de coisas gerais (por exemplo, propriedades
e tipos de acontecimentos), como itens cujas designações não contêm indicações
de localização, e que são atribuídos a indivíduos materiais ou substanciais. A atri-
buição de algo como uma propriedade a um indivíduo substancial é representada
simplesmente como uma operação análoga à localização de uma característica, de
sorte que nenhuma circularidade afeta a palavra “atribuição”. Indivíduos de alguns
outros tipos (por exemplo, acontecimentos que ocorrem (events happening to) a
substâncias, estados de substâncias e qualidades “particularizadas”) são, então, in-
troduzidos como os designata de expressões que contêm as designações de indi-
víduos de tipos precedentes, indiretamente incluindo, por conseguinte, a noção de
localização.
Existem muitos tipos de indivíduos e de coisas gerais além daqueles aqui con-
siderados. Alguns poderão admitir um tratamento análogo e seria possível intro-
360 STRAWSON
duzir outros, a partir da base já fornecida, mediante outros métodos de construção
e de explicação. No entanto, toda introdução de uma particular, realizada em
termos de um esquema como esse, conterá diretamente a noção de localização,
ou então preservará, através dos indivíduos já introduzidos, o vínculo original
com essa noção. É evidente que o valor dessa sugestão, tal como foi formulada,
permanece reduzido. Pois a noção de uma instância individual se estende indefi-
nidamente, através de conexões muito mais complicadas do que as que indiquei
até aqui; além disso, os limites de plausibilidade dos tipos de procedimentos de
construção que utilizei, seriam, sem dúvida alguma, rapidamente alcançados, a
supor que eles já não tenham sido transpostos. Apesar disso, penso que esse
esboço de procedimento possui certos méritos:
(1) Algumas das dificuldades que afetam qualquer tentativa de elucidar a
distinção de categoria entre o particular e o geral, surgem do fato de que essas
duas classes incluem, nelas próprias, um grande número de diferentes distinções
categoriais. Esse fato cria um dilema para quem elabora uma teoria da distinção.
Por um lado, ele é tentado, sob a forma ilustrada no início deste artigo, a traçar
distinções que efetivamente separam uma ou mais subcategorias de uma classe
de uma ou mais subcategorias da outra, distinções essas, todavia, que não conse-
guem, quando aplicadas à totalidade do campo (over the whole field), produzir
os resultados desejados. Ou então, por outro lado, no esforço de fugir a esse do-
mínio exercido por diferenças categoriais irrelevantes, ele é tentado pelo projeto
(prospect) de uma distinção puramente formal, valendo-se então, para esse pro-
pósito, dos termos e conceitos da gramática ou da lógica formal. Distinções assim
estabelecidas, contudo, só podem ter aparência de êxito porque o seu caráter for-
mal foi infringido e porque elas incorporam sub-repticiamente a distinção cate-
gorial problemática. O procedimento sugerido aqui nos oferece pelo menos uma
esperança de escapar dessa dificuldade. Ele admite integralmente, com efeito, as
diferenças entre tipos de coisas gerais e tipos de indivíduos; além disso, em lugar
de produzir uma explicação única, idêntica para todos os casos, ele oferece um
método serial para explicar os tipos ulteriores de coisas gerais ou particulares
sobre a base dos tipos precedentes, preservando, ao mesmo tempo, uma diferen-
ciação geral contínua, no curso da explicação, entre as duas categorias principais
(major). Não se deve, porém, alimentar pretensões excessivas com relação ao
processo sugerido; em especial, não devemos pensar que ele toi descrito de forma
a fornecer um critério para a distinção que nos ocupa.
(2) Um outro traço típico do nosso esquema de explicação está em que ele
confere um lugar central à noção de uma instância individual de certos tipos de
coisas gerais, a saber: os tipos de características materiais e substanciais. Isso (ver
seção VIII) não constitui um traço típico essencial; ele poderia ser modificado.
Mas há razões para acreditar que ele corresponde à nossa maneira real de pensar;
de acreditar que esses indivíduos são os “particulares básicos”. Por que deva ser
assim, e se não poderia ser de outro modo, são questões que não examinarei aqui.
(3) Por último, embora o esquema mesmo não ofereça um critério de geral
e de particular, ele indica o caminho de uma possível distinção geral que poderia
ser defensável, ainda que fosse provado que o procedimento que sugere a distin-
ção é insatisfatória. Esboçarei essa distinção geral na seção XII. Antes de fazê-lo.
porém, restam alguns pontos ulteriores a serem considerados.
x
Antes de mais nada, deveremos dizer mais alguma coisa a sespeito dos cri-
térios de identidade para instâncias individuais de uma coisa geral. Vimos (em V
O PARTICULAR E O GERAL 301
(2)) como a questão dos critérios de distinção e de identidade de uma instância
individual de uma coisa geral é, em muitos casos, incompletamente determinada
quando a coisa geral é nomeada. Isso se manifestou de maneira particularmente
evidente no caso de algumas propriedades, tendo-se evidenciado também no caso
de materiais. Quando estavam em questão nomes de substâncias, entretanto, essa
indeterminação não parecia existir; quando o nome era dado, os critérios eram
fixados. E isso estava ligado ao fato de que não parecia existir, nesses casos, ne-
nhum autêntico nome de coisa geral, com exceção de expressões que se classifi-
cavam como (ranked as) nomes de espécies e que pressupunham, obviamente,
certos critérios definidos de identidade para membros individuais. No que con-
cerne aos critérios de distinção, esse aspecto não suscita nenhuma dificuldade
especial. Vimos, por exemplo, como a idéia de uma característica simplesmente
localizável poderia incluir — na realidade, poderia ser — a idéia de uma forma
típica (characteristic shape), fornecendo, desse modo, uma base para os critérios
de distinção para instâncias individuais da característica em questão. Não encon-
tramos a mesma facilidade, todavia, em explicar a aparente determinação dos
critérios de identidade. O esquema explanatório apresentado exigia que fôssemos
teoricamente capazes de formar conceitos de algumas características de substância
(substance-features) que fossem logicamente anteriores aos, e logicamente inde-
pendentes dos conceitos correspondentes de uma instância individual de tais ca-
racterísticas; ora, essa exigência parece entrar em conflito com a aparente deter-
minação dos critérios de identidade para tais indivíduos. Uma resposta paralela
à que foi apresentada no caso dos critérios de distinção encontra-se, teorica-
mente, ao nosso alcance, mas é de uma implausibilidade pouco atraente. Se rejei-
tarmos essa resposta e se não pudermos encontrar uma alternativa, deveremos
pelo menos revisar de maneira radical, conquanto numa direção que não nos é
estranha, a base do nosso esquema explanatório. (A dificuldade é, essencialmente.
uma forma mais específica da dificuldade já encontrada na seção VIL)
Acredito, contudo, que se pode encontrar uma alternativa aceitável. Com
efeito, em todos aqueles casos em que se pode supor que um conceito de carac-
terística é possível, pode-se considerar que os critérios de identidade (e de dis-
tinção) para uma instância da coisa geral em questão — ou que os conjuntos de
tais critérios, quando houver mais do que um conjunto — são determinados por
uma combinação de fatores, a saber: a natureza da própria característica, os mo-
dos segundo os quais a característica se manifesta empiricamente no mundo e —
para adotar uma forma de expressão provavelmente enganosa (possibly mislea-
ding) — o tipo de incentivos " que existem para possuir uma noção de uma ins-
tância individual da característica em questão. A relevância desse terceiro fator
talvez nos dê inclusive o direito de dizer que existe algo de arbitrário nos critérios
que adotamos, algo que, dados os outros dois fatores, constitui — pelo menos
num sentido amplo -— matéria de escolha. Em casos extremos, isso se torna óbvio.
Mesmo aqueles que acompanharam todo o problema em discussão poderiam, por
exemplo, dar respostas variadas à uma pergunta como: Essa disputa agora em
curso é a mesma que estava em curso quando eu a abandonei? A resposta que
escolhermos poderá depender do seguinte: em quais distinções, exatamente, esta-
mos interessados. E é possível imaginar muitas situações para esse exemplo, bem
“ O que eu entendo por tincentivos' aqui pode ser ilustrado a partir da conveniência da
instituição de propriedade. Suponhamos que exista uma característica geral, (p, que Os seres
humanos desejam utilizar. Mesmo se existir bastante «p para todos, atritos poderão ser
evitados se se utilizarem critérios para distinguir o meu «p do seu. (Na verdade. “meu” é
uma das primeiras palavras individualizadoras que as crianças utilizam)
302 STRAWSON
como várias coisas diferentes que poderiam nos influenciar. Por outro lado, pode
haver inúmeros casos de características nos quais a adoção de um determinado
conjunto específico (particular) de critérios de identidade (e de distinção) para
instâncias dessas características é tão absolutamente natural que aplicar-lhes a
frase “matéria de escolha” pareceria uma intolerável extensão da expressão. Mes-
mo nesses casos, entretanto. pode-se ainda considerar que a naturalidade depende
da combinação de fatores que mencionei; além disso, se tivermos presente esse
fato, poderemos algumas vezes imaginar a possibilidade de alternativas. (Essa é
uma questão que poderia, com proveito, ser explorada em vários tipos diferentes
de casos.)
Parece razoável encarar as características substanciais como casos desse
gênero. Se for aceitável esse ponto de vista, poderemos encontrar nele uma expli-
cação daquela diferença, a que já me referi várias vezes, entre nomes de substância
e alguns outros autênticos nomes de coisa geral. Dado um genuíno nome de coisa
geral, como “ouro” ou “sabedoria”, a questão dos critérios de identidade das suas
instâncias não poderá ser respondida até que seja especificado o tipo de instância,
mediante uma frase como “um pedaço de ouro” ou *uma ação sábia”. Mas quando
um conjunto de critérios de identidade é particularmente dominante, quando a
sua adoção é particularmente compulsória, não encontramos, na utilização habi-
tual, adulta e não sofisticada, nenhum nome geral descomprometido (no-commit-
ial) como acima. Tudo o que poderíamos desejar fazer com ele, podemos igual-
mente fazer sem ele, mediante a utilização das formas indefinidas, no singular ou
ao plural, do nome de substância ordinário (por exemplo, “um cavalo” ou “cavalos”.
XI
Taivez seja necessário tomar precauções, em rápidas palavras, contra um
erro de compreensão (a misunderstanding). É claro que não estou negando que
podemos perfeitamente utilizar designações de indivíduos como tais, sem estar
em condições, ou sem jamais ter estado em condições de efetuar uma localização
relevante de alguma característica que, nos termos do esquema explanatório que
defendi, seja imediata ou ultimamente relevante para a explicação do tipo de
instância que estiver em questão. Seria absurdo negar isso. Significaria negar,
por exemplo, que, quando estamos falando acerca de personagens históricos mais
remotos. estamos realmente falando acerca de indivíduos. O ponto de vista que
estou defendendo não requer, entretanto, uma negação dessas. Esse ponto de
vista, com eteito, procura simplesmente explicar a noção de uma instância indi-
vidual de. uma coisa geral em função, em última análise, da localização de
características. Mas ele absolutamente não implica que não possamos fazer uso
dessa noção em situações diversas daquelas em função das quais ela é explicada.
Na realidade, é claro, o caráter expansivo (expansiveness) do nosso discurso
(talk) acerca de indivíduos encontra-se em nítido contraste com o caráter restrito
dos nossos contatos com eles. Tanto a possibilidade desse caráter expansivo,
quanto os incentivos a ele, possuem um fundamento empírico; na variedade dos
indivíduos, a não-repetitividade das situações. Esse fato pode, não obstante,
nos induzir em erro (mislead us), podendo fazer, ao desviar a nossa atenção de
um elemento de um elemento essencial na noção de uma instância individual, com
que o problema teórico da individuação parece mais difícil do que realmente
é. Esse problema dificilmente poderia parecer árduo no caso de um universo
imaginário (imagined) em que tudo o que ocorresse fosse apenas a repetição de
uma única nota musical, de volume talvez variável. Nesse caso, as instâncias
individuais só poderiam ser descritas como, por exemplo, “a terceira antes de
OQ PARTICULAR E O GERAL. 303
agora” ou 'a próxima a vir”. Num universo como esse, porém, seriam escassos
os incentivos para formar a noção de uma instância individual. De maneira geral
poderíamos dizer que aquilo que é essencial à noção de uma instância individual
não é o que é interessante a respeito dos indivíduos.
XII
Em conclusão. Observei anteriormente que o esquema explanatório que
esbocei indica o caminho para uma possível distinção geral entre as duas prin-
cipais (major) categorias que nos ocupam. Para recordar, em primeiro lugar,
alguns termos vagos, figurados e insatisfatórios, que já empreguei: o esquema
sugere que a noção de um indivíduo particular sempre inclui, direta ou indire-
tamente, a noção de localização, ao passo que isso não ocorre com a noção de
uma coisa geral. Ora, localizar é algo tipicamente efetuado mediante a utilização
de expressões cuja referência é em parte determinada pelo contexto de sua
utilização, e não apenas pela sua significação, se é que a expressão tem alguma.
E isso sugere a possibilidade de formular, de maneira mais satisfatória, uma
distinção geral. Podemos dizer, com efeito: para que uma coisa seja uma coisa
geral, é uma condição necessária que ela possa ser referida mediante (by) uma
expressão substantiva no singular, para a qual uma referência única é determinada
exclusivamente pela significação das palavras que constituem a expressão em
questão; por outro lado, para que uma coisa seja particular, é uma condição
necessária que ela possa ser referida por uma expressão substantiva no singular,
para a qual uma referência única é determinada exclusivamente pela significação
das palavras que constituem a expressão em questão. Poder-se-ia modificar, de
maneira a produzir definições, essa especificação de condições necessárias mutua-
mente exclusivas, se estipulássemos que as condições seriam não apenas neces-
sárias, mas também suficientes. Há uma razão (point), entretanto, em não fazê-lo.
Com efeito, na medida em que consideramos expressões substantivas cada vez
mais distanciadas dos casos mais simples, pode surgir uma crescente relutância
em aplicar a distinção. Essa relutância não é totalmente irracional, pois os casos
mais simples são aqueles que constituem a base da distinção geral. (Daí, grosso
modo, a associação da particularidade com a concretude (concreteness).) Pode-se,
assim, admitir que a distinção tradicional ecra tão vaga quanto pouco clara e,
ao mesmo tempo, respeitar sob essa forma o seu bem fundado caráter vago
(vagueness).
Para elucidar essa quase-definição de particular e de geral, acrescentarei
alguns comentários diversos de graus variáveis de importância.
(1) Poder-se-ia objetar às condições apresentadas que expressões como 'O
terceiro homem mais alto que jamais existiu, existe ou existirá” respondem às
especificações para uma designação de coisa geral. Se tais expressões realmente
respondessem àquelas especificações, não seria talvez difícil, mediante correções
apropriadas das especificações, excluí-las por decreto (legislate them out). Na
realidade, entretanto, elas não respondem. A significação dessas expressões, com
efeito, não basta para determinar um único objeto de referência para elas. Se
for verdade que existe uma única coisa que corresponda a tal descrição, tra-
tar-se-á apenas de uma verdade contingente. Esse caso, contudo, não suscita um
problema a respeito de saber como devem ser interpretadas as palavras: “expressão
para a qual uma referência única é determinada exclusivamente pela significação”.
Se nós as interpretarmos como: “expressão para a qual a existência de exata-
304 STRAWSON
mente um só objeto de referência é garantida pela sua significação”, poderemos
nos encontrar em dificuldades (provavelmente contornáveis) em relação, por
exemplo a “logístico” ou a *o unicórnio”. E, no entanto, essa é a interpretação
que o caso presente sugere em primeiro (at first). Será melhor, portanto, inter-
pretar aquelas palavras da maneira seguinte: 'expressão da qual a (ou uma)
significação é tal que é, ao mesmo tempo, logicamente impossível que ela faça
referência a mais do que uma coisa (naquela significação) !? e logicamente im-
possível que a expressão deixe de fazer referência em virtude da existência de
candidatos concorrentes ao título”. E o sentido de “candidatos concorrentes”
pode ser explicado como segue: x, y e z são candidatos concorrentes (e os
únicos candidatos concorrentes) ao título D, se não existissem dois deles,
D aplicar-se-ia ao terceiro.
(2) Talvez pyssa parecer um fato mais perturbador o de que os nomes
que habitualmente empregamos para certos tipos, como a Quinta Sinfonia de
Beethoven, não correspondem às especificações apresentadas para uma desig-
nação de coisa geral, embora possamos estar mais inclinados a considerar tais
tipos como coisas gerais. Esses nomes, com efeito, incluem, como parte de si
próprios ou como parte de suas explicações, nomes próprios como “Beethoven”.
Temos aqui, entretanto, um remédio fácil. Podemos considerar o configurar
(pattern) de sons em questão como uma coisa geral para a qual poderia existir
(talvez exista) uma descrição geral cuja significação determinaria de maneira
unívoca (uniquely) a sua referência. Nesse caso, o fato de que Beethoven se
encontra numa certa relação específica com a coisa geral assim designada, ma-
nifestar-se-ia como a verdade contingente que realmente é. Isso não nos obriga
a dizer que é uma verdade contingente que a Quinta Sinfonia de Beethoven
tenha sido composta por Beethoven; a necessidade aqui implicada, entretanto,
é simplesmente uma conseguência do fato de que nós fazemos referência, ha-
bitual e naturalmente, à coisa geral em questão por intermédio de uma expressão
que contém uma referência a um indivíduo particular que se encontra numa
relação específica com essa coisa geral. Considerações análogas se aplicam a
muitos outros tipos. É claro que temos sempre aberta a alternativa de recusar-
mo-nos a aplicar os critérios a esses casos.
(3) É claro que os números, se lhes aplicarmos o nosso critério, surgirão
como coisas gerais. Mas esse é um resultado que perturbará poucas pessoas e
certamente não perturbará nenhuma que continue a sentir o encanto da análise
em termos de classe de classes (class-of-class analysis).
(4) Se decidirmos aplicar o teste a fatos, obteremos como resultado (não
totalmente desprovido de atrativos) que, por exemplo, os fatos de que 2 + 2 =
4, de que todos os corvos são pretos e de que existem corvos (numa utilização
de 'existem”) são, todos eles, coisas gerais, ao passo que os fatos de que Brutus
matou César e de que todas as pessoas nesta sala são filósofos são coisas parti-
culares. É claro que o resultado será análogo para as proposições. A distinção
corresponderá, grosso modo, à velha distinção entre aquelas proposições (ou fa-
tos) que são 'verdadeiramente universais” e aquelas que não o são. No caso dos
fatos e das proposições, todavia, é bem possível que sintamos relutância muito
2 Essa qualificação deixa margem para o possível caso no qual não existe nenhuma de-
signação não ambígua e adequada para a coisa geral em questão. No entanto, ela não é
estritamente necessária, dado que é sempre possível construir uma designação não ambígua.
O PARTICULAR E O GERAL 305
forte em empregar dessa forma a classificação; e es sentirmos tal relutância, não
há nenhuma razão que nos obrigue a lutar por superá-la. !º
Restam alguns pontos de importância (significance) mais geral.
(5) A título de evidência histórica para a correção geral dessa doutrina,
podemos assinalar que Russell, que demonstrou, durante um longo período da
sua vida filosófica, um grande empenho em identificar significação e referência
no caso dos nomes, inclinou-se, finalmente, pela conclusão de que os únicos
nomes autênticos eram os nomes de universais. !! Não somos obrigados, é claro,
ao reconhecer a correção da visão dos universais que as idéias de Russell im-
plicam, a adotar a sua idiossincrásica utilização do termo “nome”.
(6) É evidente que a quase-definição que estou sugerindo tem pontos de
contato com algumas das maneiras mais familiares de marcar a distinção que
terminam por se revelar mais ou menos insatisfatórias. Por exemplo, será inútil
dizer que as coisas gerais não possuem posições e limites espaço-temporais, ao
passo que as coisas particulares os têm. Algumas coisas gerais, pertencentes a
categorias apropriadas, como ouro, possuem distribuição espacial e algumas
podem ter limites temporais. A questão, ao contrário, é que, quando fazemos
referência a coisas gerais, fazemos abstração da sua distribuição e dos seus
limites efetivos (actual), se elas os tiverem, abstração essa que não podemos
realizar quando fazemos referência a particulares. Daí, então, o fato de que
a significação, no caso das coisas gerais, baste para determinar a referência.
Ligada a isso encontra-se tendência, em geral dominante, de atribuir uma rea-
lidade superior às coisas particulares. No caso dessas, a significação não é sufi-
ciente para determinar a referência das suas designações; é essencial o elemento
extra, contextual. Num sentido muito preciso, elas são menos abstratas; e nós
somos, em geral, constituídos de tal forma que consideramos o menos abstrato
como o mais real.
(7) Finalmente, nós podemos, se assim decidirmos, voltar à maneira filo-
sófica original de estabelecer a distinção em termos do conceito de uma instância
e dar-lhe um sentido em termos da definição final. A instanciabilidade, no
sentido do filósofo, termina precisamente no ponto em que começa a depen-
dência contextual das expressões referenciais (referring expressions), ou quando
as expressões referenciais, enquanto são nomes próprios de indivíduos, têm
significação apenas num sentido em que ela é inteiramente divorciada da refe-
rência. Dessa maneira, as coisas gerais podem ter instâncias, ao passo que as
coisas particulares não podem.
3 O que eu disse acerca de fatos e de proposições não deve nos levar a supor que pode-
riamos alcançar um resultado similar para sentenças. Essas, bem como tipos de expressão
(types-expression) em geral, aparecerão como coisas gerais. (Por exemplo, pode-se dizer que
a expressão 'a palavra “e””, em virtude das convenções que regem a utilização das aspas,
determina, apenas pela sua própria significação, um objeto único de referência.)
4 Ver Enquiry into Meaning and Truth e Human Knowledge: its Scope and Limits.
*
IV — REFERÊNCIA IDENTIFICADORA E VALORES-DE-VERDADE
Os materiais para este artigo são os seguintes: uma função de discurso
(speech-function) familiar e fundamental, uma controvérsia em lógica filosófica.
e duas ou três banalidades.
Deveremos nos ocupar com enunciados (statements) nos quais se noticia,
pelo menos aparentemente, algum fato histórico particular, acontecimento ou
estado de coisas (state of affairs) passado ou presente, notável ou trivial; por
exemplo, que o imperador perdeu uma batalha, que o bebê perdeu o seu clo-
calho, ou que o imperador está morrendo ou que o bebê está chorando. lMiais
exatamente, deveremos nos ocupar com uma importante subclasse desses enun-
ciados, a saber, com aqueles nos quais a função (task) de especificar apenas o
estado de coisas histórico que está sendo noticiado inclui, como parte essencial,
a subfunção (sub-task) de designar algum item ou itens históricos particulares en-
volvidos no estado de coisas. Nem todas as execuções (performances) da tarefa
de noticiar (reporting task) incluem a execução dessa subtareia — isto é. a função.
como eu a chamarei, de referência identificadora a um item particular. Assim.
a notícia de que está chovendo agora ou a notícia de que estava chovendo aqui
há uma hora não incluem essa última função. Ao contrário, o enunciado de
que César está morrendo, além de especificar o fato ou situação histórica que o
enunciado como um todo tem a função de noticiar, tem, como parte dessa
função, a subfunção de designar um item histórico particular — a saber, César —.
essencialmente envolvido naquela situação. E essa parte da função de todo o
enunciado é toda a função de uma parte do enunciado, a saber, do nome “César”.
A função de discurso que deverá nos ocupar consiste, então, na funcão de
referência identificadora a um item histórico particular, quando tal referência
ocorre como uma subfunção do enunciado. Estaremos interessados nessa função
com relação a um ponto específico de uma controvérsia filosófica, a saber, a
questão de saber se uma falha (failure) radical na execução dessa função resulta
num caso especial de falsidade no enunciado ou, ao contrário, no que Quine
chama de lacuna de valor-de-verdade (truth-value gap). Nossa esperança não está
em mostrar que uma das facções dessa disputa está inteiramente certa e a outra
totalmente errada. Nossa esperanca reside em exibir, ao mesmo tempo, a função
de discurso, a controvérsia e uma ou duas banalidades de uma maneira que seja
mutuamente esclarecedora.
asso agora a introduzir o meu primeiro par — um par que se complementa
— de banalidades. Um dos propósitos, talvez o principal, mas certamente não
o único, do discurso assertivo consiste em fornecer informação a uma audiência
de certa espécie, a saber, ao nosso ouvinte ou ouvintes ou ao nosso leitor ou
leitores. Visto que não há nenhum propósito em, ou talvez devêssemos dizer.
nenhuma possibilidade de informar alguém de alguma coisa de que ele já está
08 STRAWSON
toa
informado, a execução de uma elocução (utterance) assertiva ou de um enun-
ciado — quando tal elocução tem em vista o objetivo de asserção — implica uma
presunção (por parte do locutor) de ignorância (por parte da audiência) acerca de
algum ponto a ser comunicado na elocução. Esse lugar-comum pode ser deno-
minado de Princípio da Presunção de Ignorância. Paga-se excessivo tributo a
esse princípio em alguns projetos de análise ou de reconstrução da linguagem
ordinária, projetos esses que podem se revelar baseados num princípio diferente
e errôneo, o Princípio da Presunção de Total Ignorância. Como precaução contra
tal excesso, torna-se necessário que enfatizemos uma banalidade que complementa
a primeira. Poderíamos chamá-la de Princípio da Presuncão de Conhecimento. A
substância dessa banalidade complementar, expressa com pouco rigor, está nisto
que, quando se faz uma elocução empiricamente assertiva com uma intenção
informativa, há, de hábito, ou pelo menos muitas vezes, uma presunção (por
parte do locutor) de conhecimento (que a audiência possui) dos fatos empíricos
que são relevantes para o ponto específico a ser comunicado na elocução. Isso
foi exprimido com demasiado pouco rigor. A conexão entre a presunção de
conhecimento e a intenção de comunicar precisamente tal-e-tal ponto específico
de informação pode ser mais estreita do que a de uma associação costumeira;
por outro lado, a conexão entre a identidade do ponto específico que se tem a
intenção de comunicar e o tipo de conhecimento presumido pode ser mais es-
treita do que a conexão de relevância. Assim como poderíamos dizer que não
poderia ser verdade que um locutor teve a intenção de informar uma audiência
de algum ponto específico, a menos que tivesse presumido a ignorância dessa
acerca daquele ponto, assim também poderíamos dizer, muitas vezes, que não
poderia ser verdade que um locutor teve a intenção de informar a audiência a
respeito exatamente daquele ponto específico, a menos que tivesse presumido que
a sua audiência possuía um certo conhecimento empírico. Dessa maneira, O
segundo princípio (no qual estou interessado em primeiro lugar) é, verdadeira-
mente, o complemento do primeiro.
Ora, isso pode parecer um pouco misterioso. Mas não haverá nenhuma
dificuldade em admitir pelo menos a questão vaga e geral de que constantemente
presumimos, de fato, conhecimento, assim como ignorância, por parte daqueles
que constituem as audiências das nossas elocuções assertivas, e que O primeiro
tipo de presunção, bem como o segundo, tem importante incidência sobre a nossa
escolha do que dizer. A aplicação particular que desejo fazer desse ponto geral
concerne ao caso da referência identificadora. Para tal aplicacão, deverei intro-
duzir a noção, não muito abstrusa, de conhecimento identificador de particulares.
Qualquer pessoa tem conhecimento da existência de várias coisas particula-
res, sendo capaz, ao mesmo tempo, de distinguir — num ou noutro sentido,
ainda que não necessariamente em todos os sentidos — cada uma delas de todas
as outras coisas. Assim, uma pessoa é capaz de destacar (pick out) uma coisa
no seu campo atual (current) de percepção. Pode também saber que existe uma
coisa (que não se encontra no seu campo perceptivo atual) a que se aplica uma
certa descrição que não se aplica a nenhuma outra coisa: chamarei uma descri-
cão dessas de descrição identificadora. Uma pessoa pode também conhecer o
nome de uma coisa e ser capaz de reconhecê-la quando a encontra, mesmo se
normalmente não puder fornecer nenhuma outra descrição identificadora da
coisa, além daquela que incorpora o próprio nome dessa. Se uma pessoa satis-
fizer qualquer uma dessas condições em relação a um particular determinado,
eu direi que ela possui um conhecimento identificador desse particular. Somos
obrigados a definir essa noção em função dos seus casos mais remotos, casos
esses, aqui, de um conhecimento identificador mínimo e relativamente isolado.
REFERÊNCIA IDENTIFICADORA 309
Torna-se importante, portanto, sublinhar que existem, em contraste com esses
casos de conhecimento identificador mínimo e relativamente isolado, inúmeros
casos de conhecimento identificador extremamente rico e pleno, e que o nosso
conhecimento identificador de particulares, em geral, forma uma rede extraordi-
nariamente complexa de conexões e relações — a rede, poder-se-ia dizer, do
nosso conhecimento histórico e geográfico em geral, admitindo-se que esses adje-
tivos não devam ser interpretados como qualificando apenas temas acadêmicos,
mas, ao contrário, qualificando também o conhecimento do tipo mais despreten-
sioso acerca de coisas e pessoas particulares que penetram nas transações que,
a cada instante ou dia a dia, mantemos com o mundo.
A noção de referência identificadora deve ser compreendida em relação
estreita com a noção de conhecimento identificador. Quando as pessoas falam
entre si, elas supõem, de hábito e a justo título, uma larga comunidade de conhe-
cimento identificador de itens particulares. Muitas vezes um locutor sabe ou
supõe que uma coisa, da qual ele possui um conhecimento identificador, é, ao
mesmo tempo, uma coisa da qual a sua audiência também tem um conheci-
mento desse tipo. Sabendo ou supondo isso, ele pode querer enunciar (state)
algum fato particular a respeito da coisa em questão; por exemplo, . que ela é
assim e assim. Nesse caso, normalmente ele incluirá na sua elocução (utterance)
uma expressão que considera, nas circunstâncias da elocução, adequada para in-
dicar à sua audiência qual é a coisa — dentre todas as que se encontram no
âmbito (scope) do conhecimento identificador da audiência — que ele está decla-
rando ser assim e assim. A linguagem contém expressões de vários tipos bem
conhecidos que, de diferentes modos, são particularmente bem adaptadas para
serem utilizadas com esse propósito. Nesses tipos se incluem os nomes próprios,
as descrições definidas, possessivas e demonstrativas e os pronomes demonstrati-
vos e pessoais. Não afirmo que todas as expressões desses tipos sejam bem adap-
tadas para serem utilizadas com esse propósito. Não afirmo, tampouco, que as
que são bem adaptadas não sejam regularmente utilizadas de outras maneiras
e com outros propósitos.
Quando uma expressão pertencente a uma dessas classes é utilizada da ma-
neira indicada, direi que ela é utilizada a fim de invocar o conhecimento iden-
tificador que se sabe ou se presume estar em posse de uma audiência. Seria
fácil, agora, definir a referência identificadora de tal forma que uma expressão só
seria utilizada para desempenhar a função de referência identificadora quando
fosse utilizada para invocar um conhecimento identificador. No entanto, embora
simplificasse a exposição restringir dessa maneira a atenção áquilo que, em qual-
quer hipótese (in any case), consideraríamos como os casos centrais da referência
identificadora, uma tal restrição não seria inteiramente desejável. Existem casos,
com efeito, que não podem ser descritos com exatidão como casos em que se
invoca um conhecimento identificador, conquanto sejam, todavia, suficientemente
semelhantes a casos que podem ser descritos, desse modo, a ponto de ser inte-
ressante classificá-los junto com esses últimos como casos de referência identi-
ficadora. Pode haver, por haver, dentro do atual campo de percepção possível
de uma pessoa, alguma coisa que ela não observou e que não podemos afirmar
tenha sido efetivamente discriminada nesse campo por aquela pessoa, embora
seja possível chamar-lhe intencionalmente a atenção para a coisa mediante, sim-
plesmente, a utilização, por parte de um locutor qualquer, de uma expressão per-
tencente a um dos tipos que mencionei, como parte integrante de um enunciado
de algum fato relativo ao item particular em questão. Na medida em que a inten-
ção do locutor, ao utilizar a expressão em questão, consiste menos em informar
a audiência da existência de algum item particular que é único sob certo aspecto.
310 STRAWSON
do que em fazer com que a audiência veja por st mesma (sees for itself) que
existe um tal item — podemos considerar, nessa medida, que esse caso merece
ser classificado junto com os casos centrais de referência identificadora. De outra
parte, existem casos em que não se pode, com exatidão, atribuir a uma audiência
o conhecimento da existência de um determinado item único sob certo aspecto,
embora se possa atribuir-lhe uma forte presunção nesse sentido, embora se possa
atribuir-lhe, poderíamos dizer, uma presunção identificadora, em lugar de um
conhecimento identificador. Essa presunção presumida pode ser invocada no
mesmo estilo em que se pode invocar tal conhecimento.
Podemos admitir, portanto, que a nocão de referência identificadora a um
item particular se estenda além daqueles casos em que se invoca um conheci-
mento identificador. Nesse caso, deveremos enfrentar a consegiiência pouco sur-
preendente de que, se quisermos, como de fato queremos, contrastar os casos
em que um locutor utiliza uma expressão para executar a função de referência
identificadora com os casos em que a intenção e o efeito da utilização de uma
expressão por parte de um locutor consistem em informar a audiência da exis-
tência de um item particular que é único sob certo aspecto — se assim quiser-
mos, deveremos, então, encontrar alguns casos que não pertencem com clareza
a nenhuma dessas classes contrastantes e que parecem candidatos mais ou menos
dúbios a ambas as classes. Mas essa não é uma situação que deva nos causar
embaraços em filosofia. Assim, tendo assinalado esse ponto, no que segue pas-
sarei a falar, por razões de simplicidade, como se todos os casos de referência
identificadora fossem, pelo menos em intenção, casos em que se invoca um
conhecimento identificador.
O que disse até aqui, ao descrever a função da referência identificadora, é,
penso eu, incontestável no sentido de que a descrição foi apresentada sem que
cu tenha sido obrigado a assumir uma posição em nenhum costumeiro ponto de
controvérsia. O que toi dito tem uma consegiência, que acabei de mencionar, que
deveria ser igualmente indisputável, a qual deverei agora elaborar um pouco mais,
em parte com o objetivo de distingui-la de qualquer prise de position numa questão
que é, indubitavelmente, controvertida.
Expliquei a referência identificadora — ou o caso central de referência iden-
tificadora — como algo que envolve essencialmente uma presunção por parte
do locutor, segundo a qual a audiência possui um conhecimento identificador de
um item particular. Um conhecimento identificador é o conhecimento de um
item particular que a audiência distingue, num ou noutro sentido, de qualquer
outro item. A porção apropriada de conhecimento identificador deverá ser invo-
cada pela utilização de uma expressão considerada adequada pelo locutor, nas
circunstâncias globais de elocução, a fim de indicar à audiência qual é, dentre
todos os itens que estão dentro do âmbito do conhecimento identificador da
audiência, aquele que se está declarando, na elocução como um todo, ser assim
c assim (thus-and-so). Dependendo da natureza do item e da situação de elocucão.
a expressão utilizada poderá ser um nome, um pronome, ou uma descricão defi-
nida ou demonstrativa; e não será necessário, é claro, que o nome ou a descri-
ção deva, em geral, ser aplicável unicamente (uniquelvy) ao item em questão, na
medida em que a escolha de um ou de outra seja considerada, nas circunstâncias
globais da elocução, adeguada para indicar à audiência qual é, dentre todos os
itens particulares que se encontram dentro do âmbito do conhecimento identifi-
cador dessa audiência, aquele que se está declarando, na elocução como uni
todo, ser assim e assim.
Ora, uma coisa que está absolutamente clara é que, no caso de tais elocu-
ções, não pode ser parte da intenção do locutor a de informar à audiência da exis-
REFERÊNCIA IDENTIFICADORA 311
tência de um item particular que porte o nome ou que corresponda à descrição.
e gue seja distinguido, por esse fato ou por esse fato mais alguma outra coisa co-
nhecida da audiência, de qualquer outro item. Ao contrário, a própria tarefa de
referência identificadora, tal como foi descrita, só pode ser empreendida por um
locutor que sabe ou presume que a sua audiência já está de posse de um conhe-
cimento de existência e de unicidade (uniqueness) desse gênero. A tarefa da re-
ferência identificadora é definida em função de um tipo de intenção do locutor
que exclui a atribuição, ao locutor, da intenção de comunicar a informação de
existência e de unicidade em questão. Tudo isso pode ser exprimido de maneira
perfeitamente natural sob outras formas. Assim, por exemplo, o fato de que existe
um item particular a que se pode aplicar o nome ou a descrição e que, se não é
único sob esse aspecto, satisfaz alguma condição de unicidade conhecida do ou-
vinte (e que satisfaz também alguma condição de unicidade conhecida do locu-
tor) — esse fato não faz parte daquilo que o locutor asserta numa elocução na
qual ele utiliza o nome ou a descrição para executar a função de referência iden-
tificadora; tal fato constitui, ao contrário, uma pressuposição do seu ato de as-
sertar (of his asserting) o que ele asserta.
Esse modo de exprimir permanece ainda indisputável, pois é uma maneira
natural de exprimir algo que, em si mesmo, é indisputável. Mas ele introduz um
contraste, entre o assertado e o pressuposto, em termos que se encontram asso-
ciados a uma questão controvertida.
Podemos chegar a essa questão ao considerar algumas das maneiras segundo
as quais uma tentativa de executar a função de referência identificadora pode
tracassar integralmente ou, pelo menos, não conseguir alcançar um êxito e uma
qualidade satisfatória completos. Existem inúmeras maneiras nas quais uma ten-
tativa dessas pode fracassar ou ser defeituosa. Pode acontecer, por exemplo. que
uma audiência não possua conhecimento identificador do item histórico particular
ao qual o locutor tem a intenção de fazer uma referência identificadora, embora
o locutor possua tal conhecimento; que o locutor credite a audiência com um
conhecimenot identificador que ela de fato não possui. Pode acontecer, também,
que, embora a audiência tenha um conhecimento identificador do item particular
em questão, a expressão escolhida pelo locutor não consiga invocar a porção
apropriada de conhecimento identificador, deixando a audiência incerta ou até
induzindo-a em erro (misleads) quanto a quem ou a que se está pretendendo
designar (as to who or what is meant). Falhas desse tipo podem ser devidas,
embora não o sejam necessariamente, a defeitos de um outro tipo. Pode aconte-
cer, com efeito, que a escolha que o locutor faz de uma expressão reflita um
erro (mistake) de tato ou de linguagem da sua parte; e escolhas como essas, que
refletem erros, ainda são defeitos, mesmo quando não induzem em erro, como é
o caso, por exemplo, de referências à Grã-Bretanha como “Inglaterra” ou ao pre-
sidente Kennedy como “O Primeiro Ministro dos EUA”, as quais provavelmente
não induzirão em erro.
Embora todos esses sejam casos de referência defeituosa ou fracassada, eles
não constituem casos do mais radical tipo possível de fracasso. As descrições que
apresentei desses casos, com efeito, implicam que pelo menos uma condição fun-
damental de êxito foi preenchida, mesmo se outras não o foram. Elas implicam,
no mínimo, que, dentro do âmbito (scope) do conhecimento identificador do lo-
cutor, há um item histórico particular — mesmo se nem todas as suas crenças a
respeito dele forem verdadeiras —, de tal sorte que o locutor, mediante uma
escolha apropriada de expressão, tem a intenção de invocar um conhecimento
identificador (que ele presume estar na posse de sua audiência) acerca daquele
item. Mas mesmo essa condição poderia também estar ausente; e de várias manei-
Eno STRAWSON
ras. Poderia ocorrer, por exemplo, que o item particular ao qual o locutor consi-
dera estar fazendo referência simplesmente não existe, que aquilo que o locutor,
e talvez também a sua audiência, considera ser um conhecimento identificador
de um item particular simplesmente não seja conhecimento, mas uma crença
completamente falsa. Esse seria apenas um caso do que se poderia, indisputavel-
mente, chamar de fracasso radical da pressuposição de existência da referência
identificadora. Esse caso não envolve nenhum defeito (turpitude) moral por parte
do locutor. Um caso diferente, no entanto, seria aquele em que o locutor utilizasse
uma expressão — como forma de manifestar a intenção, aparentemente, de fa-
zer uma referência identificadora — a fim de invocar algo que ele sabe, ou pensa,
que a sua audiência pensa ser um conhecimento identificador, embora ele, locutor,
saiba tratar-se apenas de uma crença falsa. O locutor, nesse caso, pode não ter
nenhuma intenção de realmente tazer referência a um item histórico particular e,
por conseguinte, não é possível que ele falhe, no sentido estrito, em executar
essa intenção. Ele pode ter a intenção de fazer com que se considere que ele tem
a primeira intenção; e ele pode ter êxito nessa intenção. Um tratamento completo
do tema exigiria que considerássemos atentamente diferenças como essa. Por ra-
zões de simplicidade, ignorarei o caso da simulação (pretence), concentrando-me
naquele caso de fracasso radical de referência no qual o fracasso não é de na-
tureza moral.
O nosso ponto controvertido concerne à pergunta seguinte: dada uma elocu-
ção que padece de radical fracasso de referência, deveremos dizer que o que
temos aqui é simplesmente um caso especial de enunciado falso ou, ao contrário,
deveremos dizer que o nosso enunciado padece de uma deficiência a tal ponto
radical que ele não tem nem chance de ser verdadeiro ou falso? Alguns filósofos
que debateram essa questão nos últimos anos adotaram incondicionalmente a pri-
meira resposta, ao passo que outros aderiram incondicionalmente à segunda; al-
guns adotaram uma posição eclética, escolhendo a primeira resposta para alguns
casos e a segunda para outros; e alguns se contentaram simplesmente em adotar
qualquer doutrina que se apresentasse no momento guardando-se prudentemente,
ao mesmo tempo, de expor qualquer flanco. Em virtude da sua Teoria das Des-
crições e das suas opiniões sobre os nomes próprios ordinários, que considerava
como descrições condensadas, poderíamos dizer que Russell é o patrono do pri-
meiro partido — o partido do “caso especial de enunciado falso”. Um filósofo que
recentemente deu adesão explícita a esse partido é o Sr. Dummett, no seu inte-
ressante artigo “Truth” (P. A. S., 58-59). Com algumas reservas, pode-se dizer
que o segundo partido — o partido do 'nem verdadeiro nem falso” — inclui
Quine, Austin e eu próprio. Quine inventou a excelente expressão “lacuna de va-
lor-de-verdade” (Truth-value gap) para caracterizar a situação que encontramos
nesses casos (ver Word and Object). Austin (ver Performative Utterances e How
to do Things with Words) estabelece um contraste entre essa espécie de deficiên-
cia ou, como ele 3 denomina, de “infelicidade”, no enunciado com a falsidade di-
reta, preferindo dizer que um enunciado que sofre desse tipo de deficiência é vá-
cuo — 'vácuo por falta de referência”.
Ignoremos os ecléticos e os franco-atiradores que aderem a qualquer doutri-
na que se apresente, limitando a nossa atenção, pelo menos momentaneamente,
aos dois partidos incondicionais. Não creio que seja possível demonstrar que um
partido está totalmente certo e o outro inteiramente errado. O que temos aqui é
uma situação filosófica familiar, na qual um partido é atraído por um conceito
simplificado e teórico — ou “retificado' — de verdade e falsidade, e o outro
partido é atraído por um outro conceito. Poder-se-ia perguntar: como o uso ordi-
nário se pronuncia sobre a questão? E, como sempre, essa é uma questão cuja
REFERÊNCIA IDENTIFICADOR A 313
colocação é instrutiva. O uso ordinário, todavia, não proporciona um veredito
claro para um ou outro partido. E por que deveria fazê-lo? Os interesses que o
uso ordinário reflete são excessivamente complexos e variados para poder for-
necer um apoio irresistível a qualquer um desses dois modos de simplificar o
problema. Por outro lado, o fato de o uso ordinário não fornecer um veredito
claro não significa, é claro, que não possa haver nenhum outro meio de demons-
trar, pelo menos, que uma das posições está inteiramente errada. Poder-se-ia
mostrar, por exemplo, que ela é inconsistente ou incoerente de alguma outra ma-
neira. Não é esse o caso, contudo, com nenhum desses pontos de vista. Cada um
deles deveria sofrer uma certa dose de explicação e de ajustamentos, mas cada
um poderia ser elaborado com perfeita consistência. E, o que é mais importante:
cada um deles é razoável. Em lugar de tentar demonstrar que um está totalmente
certo e o outro inteiramente errado, será mais instrutivo considerar como ambos
são razoáveis, como ambos representam modos diferentes de ser sensibilizado
pelos fatos.
Como ponto de partida aqui, será razoável considerar casos aparentados
que apresentam enunciados indiscutivelmente falsos e, a seguir, compará-los com
os casos discutidos, de sorte que possamos perceber como um dos partidos é
mais impressionado pelas semelhanças e o outro mais impressionado pelas dife-
renças entre o caso discutido e o caso indiscutido. Os casos indiscutidos rele-
vantes são, obviamente, de dois tipos. Um é o caso de uma elocução na qual se
faz com êxito uma referência identificadora e na qual todas as condições de
um ato satisfatório ou plenamente bem sucedido de asserção empírica são preen-
chidas, com a exceção de que o item particular, referido de maneira identificadora
e que se declara ser assim e assim, não é, de fato, assim e assim. Afirma-se, por
exemplo, que o Sr. Silva, o novo inquilino da Granja, é solteiro, quando ele é,
de fato, casado. Temos aqui um enunciado satisfatório sob todos os aspectos,
com a exceção de que é, indiscutiveimente, falso. O outro caso relevante é aquele
no qual se faz uma asserção explícita de existência e de unicidade. Afirma-se,
por exemplo, que existe uma e não mais do que uma ilha na Baía da Beatitude.
E isso é falso, porque, simplesmente, não existe nenhuma ilha ou porque exis-
tem várias.
Ora, a favor de um dos lados, poder-se-ia dizer que a maneira na qual as
coisas desandam no caso de um fracasso radical de referência é imensamente di-
ferente dos modos nos quais as coisas desandam em qualquer um desses casos
indiscutidos de falsidade indicados acima. Um juízo relativo à verdade ou à falsi-
dade é um juízo acerca daquilo que o locutor asserta. Já assinalamos, contudo,
um ponto indiscutível, segundo o qual a condição de existência, que não é preen-
chida no caso de uma falha radical de referência, não é algo assertado, mas
apenas pressuposto, pela elocução do locutor. Não se pode, portanto, julgar o
seu enunciado com uma asserção existencial falsa. E tampouco, evidentemente,
podemos julgá-lo como uma asserção falsa no mesmo sentido do primeiro exem-
plo indiscutido, isto é, talsa por ser caracterização errônea do item particular a
que se faz referência. Não existe, com efeito, tal item para ser erroneamente ca-
racterizado. Em geral, quando existe o item a que o locutor se refere, e quando
asserta a respeito desse item, que ele é assim e assim, a sua asserção será correta-
mente estimada verdadeira se o item for assim e assim, € falsa em caso contrário.
No caso de uma falha radical de referência, o locutor, falando de boa fé, pretende
(means) que o seu enunciado seja apto a ser avaliado (to be up for assessment)
desse modo; ele se considera, analogamente, estar assertando, com respeito a um
item particular, que ele é assim e assim. Na realidade, porém, não foram preen-
chidas as condições para que ele faca uma asserção como a que ele se considera
314 STRAWSON
estar fazendo. Podemos reconhecer o caráter das suas intenções e a natureza da
sua performance discursiva (speech-performance), dizendo que ele fez um enun-
ciado; ao mesmo tempo, porém, devemos reconhecer o caráter radical da ma-
neira em que as suas intenções foram frustradas, dizendo que o seu enunciado
não se qualifica como a asserção que ele considera que o enunciado é e, portanto,
não se qualifica para avaliação enquanto tal asserção. Sendo assim, o enunciado
não se qualifica para uma avaliação de verdade ou falsidade. Todo o empreendi-
mento assertivo entra em colapso pelo fracasso de uma de suas pressuposições.
Mas, então, poder-se-ia dizer, em favor do outro lado, que aquilo que o
caso discutido tem em comum com o caso indiscutido de falsidade é muito mais
importante do que as diferenças entre eles. Em todos os casos, igualmente, pode-
mos considerar que se fez um genuíno enunciado empírico; uma formação (form)
de palavras foi utilizada de tal sorte que, se existisse, de fato, no mundo (no
Espaço e no Tempo) um certo item, ou certos itens, com determinadas caracte-
rísticas — ou, para dizê-lo de outro modo, se certas circunstâncias complexas se
realizassem, de fato, no mundo (no Espaço e no Tempo) —, então o enunciado
seria verdadeiro. A distinção importante está entre o caso em que essas circuns-
tâncias complexas efetivamente se realizam e o caso em que elas não se reali-
zam. É justamente para marcar essa distinção que deveríamos utilizar as pala-
vras “verdadeiro” e “falso”, mesmo se, de fato, não agimos assim consistentemente.
Ora, essa distinção pode ser traçada tanto nos casos discutidos quanto nos indis-
cutidos. Um enunciado empírico falso é, simplesmente, qualquer enunciado em-
pírico que, por razões fatuais, isto é, em virtude das circunstâncias no mundo
serem como são e não de outra maneira, fracassa (fails) em ser um enunciado ver-
dadeiro. Os casos de talha radical de referência constituem simplesmente uma
classe de enunciados falsos.
Atualmente, não mais me parece ser importante ater-se a um ou à outro lado
dessa disputa. Ambas as concepções são confeccionadas, dos modos que acabo de
indicar, a fim de sublinhar diferentes tipos de interesse nos enunciados; e cada
uma delas possui méritos próprios. Os motivos que me levaram a levantar aqui
essa questão são três, dois dos quais já se manifestaram parcialmente. Em primei-
ro lugar, desejo separar essa questão controvertida de outras questões com as
quais ela é por vezes confundida. Em segundo lugar, desejo dissipar a ilusão de
que a questão controvertida pode, de uma maneira ou de outra, ser rapidamente
resolvida, por meio de um brusco e sumário argumento tormal. Em terceiro lugar,
quero indicar uma maneira — e há, sem dúvida, mais do que uma — na qual
podemos descobrir, sem nos comprometer positivamente com nenhuma das teo-
rias rivais, que vale a pena elaborar e burilar as questões que elas suscitam. Direi
alguma coisa a respeito desses três pontos e, principalmente, acerca do terceiro.
Primeiramente, então, o problema entre a teoria da lacuna de valor-de-
verdade e a teoria da falsidade, o qual teceu vastas teias em toda essa área
de discussão, fazendo-o de um modo que poderia induzir em erro (be mislea-
ding) ou que poderia produzir uma falsa impressão. Poder-se-ia dar a impressão,
com efeito, de que o problema entre essas duas explicações (accounts) teóricas
constitui a questão crucial em toda essa área — a chave, por assim dizer, para
todas as posições. Poder-se-ia supor, assim, que todo aquele que rejeitasse a
opinião de que a Teoria das Descrições fornece uma análise geral adequada ou
uma explicação do funcionamento das descrições definidas, comprometer-se-ia,
por essa rejeição, a uma adesão incondicional à teoria da lacuna de valor-de-
verdade e a uma incondicional rejeição da teoria da falsidade para o caso da
falha radical de referência. Ora, isso simplesmente não é verdade. A distinção
entre uma referência identificadora e uma asserção existencial individualizante
REFERENCIA IDENTIFICADORA 315
(uniquely existential assertion) é algo que simplesmente não pode ser negado.
O sentido em que a existência de algo que corresponde a uma descrição defi-
nida utilizada com o propósito de uma referência identificadora, e a sua possibi-
lidade de ser distinguida (its distinguishability) de qualquer outra coisa por
uma audiência determinada — o sentido em que isso é pressuposto, e não
assertado numa elocução que contém uma expressão desse gênero, utilizada da
maneira indicada, permanece absolutamente sólido, quer optemos ou não pela
opinião de que a falha radical de pressuposição privaria o enunciado de um
valor-de-verdade. Continua sendo uma objeção decisiva à Teoria das Descrições.
considerada como uma teoria que incorpora uma análise globalmente correta
dos enunciados que contêm descrições definidas, o fato de que, assim conside-
rada, ela equivale a uma negação dessas inegáveis distinções. Sinto-me obrigado
a desenvolver um pouco esse ponto, visto que posso ter sido responsável parcial-
mente pela confusão dessas duas questões, ao fazer com que a palavra “pres-
suposição” suportasse, ao mesmo tempo, tanto o peso da distinção funcional
quanto o da teoria da lacuna de valor-de-verdade. Contudo, sou, no máximo,
parcialmente responsável, pois a transição de uma à outra, embora não inevi-
tável, é bastante natural e, embora não exista nenhuma compulsão lógica numa
direção, existe tal compulsão na outra. Quem aceitar a Teoria das Descrições
como uma análise correta, será obrigado a aceitar a teoria da falsidade para
certos casos e a rejeitar a teoria da lacuna de valor-de-verdade. Quem aceitar
a teoria da lacuna de valor-de-verdade, será obrigado a rejeitar a Teoria das
Descrições como uma análise globalmente correta. É perfeitamente consistente.
entretanto, rejeitar, pelas razões (on the grounds) que indiquei, a opinião de
que a Teoria das Descrições é uma análise geralmente correta e, ao mesmo
tempo, recusar-se a aceitar a teoria da lacuna de valor-de-verdade.
Passemos agora ao meu segundo ponto. Tendo negado que qualquer uma
das duas teorias possa ser decisivamente refutada por argumentos breves, susten-
tarei essa negação citando e comentando alguns argumentos típicos que se pen-
sou, algumas vezes, possuírem esse poder. Examinemos, primeiramente, alguns
argumentos em favor da teoria da lacuna de valor-de-verdade e contra a teoria
da falsidade.
A (1) Suponhamos que fa representa um enunciado do tipo em questão.
Se a teoria da falsidade for correta, a contraditória de Fa não será + Fa e, sim.
a disjunção de + Fa com um enunciado existencial negativo. Mas a contradi-
tória de Fa é + Fa, Portanto, a teoria da falsidade é falsa.
(2) Se 'falso' for utilizado normalmente, então será correto inferir $ não é P
de É falso que S seja P. Mas, em ambas as teorias, admite-se que S não é P só
será verdadeira se existir uma coisa S. Portanto, se “falso” for utilizado normal-
mente, É falso que S é P só será verdadeira se existir uma coisa $S. Portanto, se
falso” for utilizado normalmente no enunciado da teoria da falsidade, essa teo-
ria será falsa.
(3) A pergunta S é P? e a ordem Faça com que S seja P podem padecer de
uma falha radical de referência exatamente idêntica à do enunciado S é P. Mas,
se uma elocução que padece dessa falha radical de referência se torna, por isso
mesmo, falsa, então deve-se dizer que a pergunta e a ordem são falsas. Ora, isso
é absurdo. Assim, a teoria da falsidade é falsa.
Vejamos agora argumentos em favor do outro lado:
B (1) Suponhamos que Fa represente um enunciado do tipo em questão
(por exemplo, O rei da França é careca). Nesse caso, pode haver um enunciado
equivalente, Gb (por exemplo, 4 França tem um rei careca), que será manifes-
tamente falso se não existir uma coisa a. Ora, os dois enunciados são equiva-
316 STRAWSON
Jentes. Portanto, Fa será falso se não existir uma coisa a. Portanto, a teoria da
lacuna de valor-de-verdade é falsa.
(2) Suponhamos que P seja um enunciado que, segundo a teoria da lacuna
de valor-de-verdade, não é nem verdadeiro nem falso. Nesse caso, o enunciado
de que P é verdadeiro será falso. Mas se for falso que P é verdadeiro, então P
será falso. Do mesmo modo, poderíamos derivar daquela hipótese a conclusão de
que P é verdadeiro e, por conseguinte, a conclusão de que P é verdadeiro e falso
ao mesmo tempo. Ora, isso é contraditório e, portanto, também o é a hipótese
original.
O defensor de qualquer um dos pontos de vista não encontrará grandes di-
ficuldades em enfrentar esses argumentos contra a sua posição. Assim, a resposta
a B2 será esta: se um enunciado carece de valor-de-verdade, qualquer enunciado
que estimá-lo verdadeiro simpliciter ou falso simpliciter carecerá, analogamente,
de valor-de-verdade. Portanto, não se pode derivar nenhuma contradição. A res-
posta a Bl é que o argumento ou é inconclusivo ou já supõe resolvido o proble-
ma que ele pretente resolver (guestion-begging). Se 'equivalente” significa simples-
mente “tal que, se qualquer um for verdadeiro, necessariamente o outro será ver-
dadeiro”, o argumento é inconclusivo. E se o termo significa também “tal que, se
um deles for falso, então, necessariamente, o outro será falso”, o argumento sim-
plesmente supõe resolvido o problema que pretende resolver (question-begging).
A resposta a A3 é que não existe nenhuma razão para que aquilo que vale pa-
ra enunciados deva também valer para perguntas e ordens. A resposta a A2 é
que a inferência em questão nao é estritamente correta, embora seja perfeitamen-
te natural que nós a façamos habitualmente. E a resposta a Al consiste em dizer
que o argumento pressupõe o problema resolvido (question-begging), embora seja
perfeitamente inteligível, também nesse caso, que estejamos inclinados a consi-
derar os contraditórios dessa maneira.
Ora, é simplesmente ilusório pensar que se possa levar a cabo a posição de
qualquer um dos lados em disputa, mediante pequenas investidas-relâmpago co-
mo essas. O que temos, na realidade, na entusiástica defesa de uma ou outra
teoria, é um sintoma de diferença de direção de interesse. Aquele que tem um
interesse em situações de discursos reais, na função (part) que a enunciação
(stating) desempenha na comunicação entre seres humanos, tenderá a achar ina-
dequada a teoria mais simples, a da falsidade, e a sentir simpatias — embora,
como disse, ele não seja obrigado a aceitar exclusivamente, nem, sequer, a sim-
plesmente optar pela teoria rival. Por outro lado, a pessoa que encara o enun-
ciado sob um ponto de vista mais impessoal, que tem uma imagem na qual têm
escassa importância (significance) as necessidades, objetivos e presunções afeti-
vas dos locutores e dos ouvintes — na qual, por assim dizer, simplesmente exis-
tem enunciados, de um lado, e, do outro, o mundo que eles deveriam refletir —,
essa pessoa tenderá naturalmente a afastar a teoria da lacuna de valor-de-verdade
e a adotar a sua rival mais simples. Poderíamos dizer que, para essa pessoa, O
tema (subject) de todo enunciado é simplesmente o mundo em geral. Para o seu
oponente, o tema será ora esse item, ora aquele outro; e, talvez, algumas vezes —
embora raramente e de maneira bastante desconcertante —, absolutamente nada.
Passando agora à terceira questão, constataremos que ela não está desvin-
culada dessa última consideração. Parece ser um fato — que os defensores de
qualquer uma das duas teorias, ou de nenhuma delas, podem igualmente reco-
nhecer sem dano — que a atração intuitiva ou a plausibilidade à primeira vista
exercida pela teoria da lacuna de valor-de-verdade não se mostra constante para
todos os casos, que podem ser apresentados ou imaginados, que exemplificam
ESCRITOS LÓGICO-LINGUÍSTICOS 317
uma falha radical de referência. Podemos nos aplicar, sem nos comprometer com
nenhuma das duas teorias, a explicar essa variação na atração intuitiva exercida
por uma delas — atração essa que é, ao mesmo tempo, uma variação inversa da
atração intuitiva exercida pela outra. A tentativa de explicar esse fato poderá fa-
zer ressaltar outros fatos que incidem, sob formas interessantes, sobre as situa-
ções de discurso em geral e, em particular, sobre aquelas situações que envolvem
uma referência identificadora. Chamarei a atenção para um fator apenas —
existem outros, sem dúvida — que pode contribuir para a explicação desse fato
em alguns casos. Ao fazer isso, invocarei um outro lugar-comum que será ali-
nhado e vinculado com as banalidades que já apresentamos.
Em primeiro lugar, podemos observar que a teoria da lacuna de valor-de-
verdade pode ser expressa, em termos da idéia familiar de predicação, de tal sor-
te que lhe seja assegurada uma certa flexibilidade de aplicação. Chamaremos de
expressão referencial a uma expressão enquanto e quando utilizada num enuncia-
do com a função (role) de preferência identificadora — quer ela padeça ou não,
nessa utilização, de uma falha radical de referência. Nesse caso, podemos consi-
derar que qualquer enunciado que contém uma expressão referencial E é com-
posto de duas partes de expressão (as consisting of two expression-parts), uma
sendo a própria expressão E, que chamaremos de expressão-sujeito ou de termo-
sujeito, a outra sendo o restante do enunciado, que chamaremos de expressão-
predicado ou de termo-predicado. No caso de um enunciado contendo mais de
uma expressão referencial (digamos duas), deverá caber a nós alocar uma delas
ao papel de expressão-sujeito, ao passo que a outra será considerada como
absorvida no termo-predicado que se liga ao termo-sujeito de forma a produzir
o enunciado como um todo. O partidário do ponto de vista da lacuna de valor-
de-verdade poderá, então, enunciar a sua opinião da maneira seguinte. ! O enun-
ciado ou a predicação como um todo só será verdadeiro naquele caso em que o
termo-predicado se aplicar de fato ao (for, de fato, “verdadeiro do”) objeto a
que o termo-sujeito faz referência (de maneira identificadora). O enunciado ou a
predicação como um todo só será falso naquele caso em que a negação do termo-
predicado se aplicar àquele objeto, isto é, naquele caso em que se puder, com
verdade, negar o termo-predicado desse objeto. O caso de uma falha radical de
referência por parte do termo-sujeito não pertence à nenhum desses dois tipos.
Trata-se aqui do caso de lacuna de valor-de-verdade.
Consideremos agora um enunciado que comporta (consisting of) duas expres-
sões referenciais, uma das quais é culpada de falha referencial, ao passo que a
outra não o é. Fica a nosso critério, então, dividir o enunciado de duas manei-
ras diferentes, podendo-se admitir, além disso, que decisões diferentes quanto ao
procedimento de divisão resultarão em avaliações diferentes do enunciado quanto
ao valor-de-verdade. Assim, (1) podemos considerar que a expressão referencial
culpada é absorvida num termo-predicado, o qual é ligado à expressão referencial
inocente de forma a constituir o enunciado como um todo; ou, então (2), pode-
mos considerar que a expressão referencial inocente é absorvida numa expressão-
predicado, a qual é ligada à expressão referencial culpada de forma a constituir
o enunciado como um todo. Ora, se dividirmos o enunciado de acordo com a
segunda maneira, deveremos dizer — em conformidade com o nosso enunciado
corrente da teoria da lacuna de valor-de-verdade — que o enunciado carece de
valor-de-verdade. Mas, se o dividirmos de acordo com a primeira maneira, po-
1 Essa maneira de enunciá-la está, de fato, implícita na definição fundamental de predica-
ção que Quine apresenta na p. 96 de Word and Object.
318 STRAWSON
deremos dizer que o enunciado é falso (ou, por vezes — quando o enunciado
está em forma negativa —, que ele é verdadeiro). Com efeito, dividi-lo segundo o
primeiro modo significa (is) considerar que o enunciado é constituído da expres-
são referencial satisfatória ou inocente, juntamente com um termo geral ou pre-
dicado no gual foi absorvida a expressão referencial culpada. A questão de saber
se o predicado se aplica ou não ao objeto referido pela expressão referencial satis-
fatória permanece, nesse caso, uma pergunta que pode ser perfeitamente respon-
dida; e o fato de que o predicado absorveu uma expressão referencial culpada
terá como conseqiiência, para a maioria dos predicados de forma afirmativa, sim-
plesmente que a resposta correta é “Não”. Portanto, se encararmos dessa maneira
um enunciado desse gênero, poderemos, com bastante naturalidade, declará-lo
falso ou não verdadeiro (untrue) e, com igual naturalidade, afirmar que a sua
negação é verdadeira, em virtude da falha de referência da expressão referencial
culpada.
Dessa maneira, poder-se-ia ter a impressão de que a teoria da lacuna de
valor-de-verdade poderia prontamente ser modificada a fim de tomar em consit-
deração certos exemplos que podem parecer, do ponto de vista intuitivo, desfa-
voráveis a ela. Por exemplo, não existe rei da França; e não existe — supo-
nhamos — nenhuma piscina nos arredores. Por outro lado, contudo, existe —
suponhamos — uma Exposição na cidade; e não há dúvida — suponhamos —
acerca da existência de Silva. Se considerarmos os enunciados:
(1) de gue Silva passou a manhã na piscina local, e
(2) de que a Exposição recebeu ontem a visita do rei da França, poderá
parecer bastante natural dizer (1) que é totalmente inverdade, ou que é falso que
Silva tenha passado a manhã na piscina local, visto que não há nenhuma; e dizer
que, seja qual for o modo como Silva tenha passado a manhã, ele não a passou
na piscina local, visto que não existe tal local. E, analogamente, parecerá bastante
natural dizer (2) que é totalmente inverdade, ou que é falso que a Exposição te-
nha recebido ontem a visita do rei da França; que, seja qual for a pessoa cuja vi-
sita tenha sido recebida ontem pela Exposição, ela não recebeu a visita do rei
da França, dado que essa pessoa não existe. Assim, ao admitir que as expressões
referenciais culpadas, 'a piscina local" e 'o rei de França”, sejam, em cada caso,
absorvidas no predicado, a teoria modificada da lacuna de valor-de-verdade se
adaptaria a essas intuições.
Conquanto simples e elegante, essa modificação da teoria da lacuna de
valor-de-verdade dificilmente parecerá adequada. De um lado, a modificação não
será acessível para todos os exemplos intuitivamente desfavoráveis, mas somente
para aqueles que contêm mais de uma expressão referencial. De outro lado, ela
permanecerá incompleta dentro do seu próprio domínio, a menos que se forneça
algum princípio de escolha entre modos alternativos de dividir um enunciado.
A teoria poderia resolver essa última questão de maneira auto-sacrificante, decla-
rando que a operação de divisão deverá sempre ser conduzida de forma a permi-
tir, sempre que possível, a atribuição (assignement) de um valor-de-verdade. Esse
expediente, porém, poderia revelar-se excessivamente auto-sacrificante, transfor-
mando amigos em inimigos, transformando casos intuitivamente favoráveis em
casos desfavoráveis.
Levemos mais adiante, portanto, as nossas considerações. Confrontados com
o exemplo clássico: *O rei da França é careca”, é bem possível que achemos na-
tural dizer, imediatamente, que a questão de saber se o enunciado é verdadeiro
ou falso não se põe porque não existe rei da França. Suponhamos, todavia, que
esse enunciado figure no contexto de um conjunto de respostas à pergunta: “Que
exemplos há, se houver algum, de personagens contemporâneos famosos que são
ESCRITOS LÓGICO-LINGUÍSTICOS 319
carecas? Ou então pensemos em alguém que está compilando uma lista em res-
posta à pergunta: “Quem morreu recentemente”, e que inclui na lista o termo “o
rei da França”. Ov ainda, Imaginemos alguém incluindo o enunciado *O rei da
França casou-se novamente” num conjunto de enunciados compilados em resposta
à pergunta: “Que acontecimentos de destaque, se é que houve algum, ocorreram
recentemente no terreno social e no terreno político?”. Nos dois primeiros casos,
o rei da França parece ser citado como uma instância ou exemplo de uma classe
previamente introduzida. No último caso, é o enunciado como um todo que pre-
tende relatar um acontecimento enquanto esse é uma instância de uma classe
previamente introduzida. Em cada um desses casos, a pergunta representa o cen-
tro prévio de interesse como uma certa classe — a classe de celebridades carecas,
a classe de celebridades recentemente falecidas, a classe de recentes acontecimen-
tos de destaque num certo domínio —, e a pergunta diz respeito a que itens (se é
que existe algum) essas classes incluem. Dado que é certamente falso que as
classes, em cada um desses casos, incluam qualquer um dos itens que as nossas
respostas pretendem que elas incluem, podemos simplesmente, sem maiores escrú-
pulos, assinalar essas respostas como erradas. Assinalá-las dessa forma, contudo.
não significa (is) rejeitá-las como respostas a questões que não se colocam, mas,
ao contrário, rejeitá-las como respostas erradas a questões que se colocam. No
entanto, é necessário que as respostas incluam apenas uma expressão referencial
para um item particular, a saber: a expressão culpada de falha referencial; mas
não é necessário que as perguntas contenham nenhuma expressão desse gênero.
Isso sugere uma direção em que poderíamos procurar o princípio de escolha
que está faltando no caso dos nossos exemplos anteriores, aqueles relativos à
piscina e à Exposição, que continham duas expressões referenciais. O problema,
ali, não consiste (ou, pelo menos, não consistia exclusivamente) nisto que cada
caso continha uma expressão referencial adicional e satisfatória. A questão, ao
contrário, era que nós poderíamos facilmente constatar que o centro de interesse.
em todos aqueles casos, era a questão, por exemplo, de como Silva passou a ma-
nhã, ou que visitantes famosos a Exposição recebeu, ou como está indo a Expo-
sição. E a naturalidade que encontramos em considerar dessa maneira aqueles
exemplos se via aumentada mediante o expediente de colocar a expressão referern-
cial satisfatória em primeiro lugar, como sujeito gramatical da sentença, e a ex-
pressão insatisfatória em último lugar. Poderíamos sentir um pouquinho mais de
escrúpulo, por exemplo, se tivéssemos escrito *O rei da França visitou ontem a
Exposição” em lugar de “A Exposição recebeu ontem a visita do rei da França.
Nós realmente sentimos muito escrúpulo acerca de “O rei da França é careca”,
quando apresentado abruptamente, fora de contexto, precisamente porque não
pensamos, espontânea e imediatamente, num contexto em que o interesse pudesse
estar concentrado; por exemplo, num contexto em que o interesse estivesse cen-
trado sobre a pergunta Que celebridades carecas existem?, e não sobre a pergunta
Como é o rei da França? ou O rei da França é careca? É claro que o enunciado
não constituiria apenas uma resposta incorreta a qualquer uma dessas duas últi-
mas perguntas. Essas perguntas não têm resposta correta e, por conseguinte, tam-
pouco têm, num certo sentido, uma resposta incorreta. Essas são questões que
não se põem. Isso não significa, porém, que não exista uma réplica correta a elas.
A réplica correta será: “Não existe rei de França”. Essa réplica, todavia, não cons-
titui uma resposta à pergunta, mas uma rejeição dela. De outra parte, entretanto,
a pergunta acerca de celebridades carecas pode ser respondida, correta ou incor-
retamente. Qualguer resposta que pretenda mencionar alguém incluído nessa
classe e que fracasse em fazer isso, será errada; e ainda será errada mesmo se
320 STRAWSON
não existir absolutamente nenhuma pessoa como aquela que a resposta pretende
mencionar.
Gostaria, agora, de enunciar, sob forma um pouco mais geral e com menos
dependência em relação à noção de pergunta, as considerações a que estive fa-
zendo alusão. De maneira sumária, as minhas sugestões são as seguintes.
(1) Em primeiro lugar, vem o lugar-comum adicional que prometi. Os enun-
ciados ou os fragmentos (pieces) de discurso a que eles pertencem possuem sujei-
tos (subjects), não apenas nos sentidos relativamente precisos da lógica e da gra-
mática, mas também num sentido mais vago, com o qual passarei a associar as
palavras “tópico” e 'acerca”. Há pouco, utilizei a hipótese de uma pergunta a fim
de apresentar, com uma exatidão pouco natural, a idéia do tópico ou centro de
interesse de um enunciado, a idéia daquilo acerca do qual poderíamos, nesse sen-
tido, dizer que um enunciado é. Mesmo quando não existe, contudo, nenhuma
autêntica pergunta de primeira ordem que possa fixar (pinpoints) para nós, com
esse grau de exatidão, a resposta à pergunta de ordem superior: “Acerca de quê,
nesse sentido, é o enunciado?” — muitas vezes será possível, mesmo assim, for-
necer uma resposta bastante definida a essa pergunta. Enunciar, com efeito, não
é uma atividade humana gratuita e ao acaso. Exceto em situações de desespero
social, não endereçamos uns aos outros fragmentos de informação isolados e des-
conectados. Ao contrário, em geral nós temos a intenção de dar ou acrescentar
informações acerca daquilo que constitui matéria permanente ou atual de interesse
ou de atenção. Há uma grande variedade de tipos possíveis de resposta à pergun-
ta sobre qual é o tópico de um enunciado, sobre “acerca” de que é um enunciado
— acerca de calvície, acerca de quais grandes homens são carecas, acerca de
quais países têm governantes carecas, acerca da França, acerca do rei, etc. —, e
nem todas essas respostas excluem, num caso dado, todas as demais. Poderíamos
dignificar esse lugar-comum com o título de o Princípio de Relevância.
(2) Esse lugar-comum vem alinhar-se ao lado daquela outra banalidade ge-
ral que anunciei anteriormente, sob o título de o Princípio de Presunção de Co-
nhecimento. Todos estarão lembrados de que esse princípio diz que os enuncia-
dos, com respeito ao seu teor informativo (their informativeness), não constituem,
em geral, unidades auto-suficientes, livres de qualquer apoio naquilo que se su-
põe que a audiência já sabe ou supõe. Ao contrário, eles habitualmente depen-
dem, para que produzam seus efeitos, de um conhecimento que se supõe já estar
na posse da audiência. A aplicação particular que fiz desse princípio incidia so-
bre o caso da referência identificadora, na medida em que a execução dessa
função repousa sobre a presunção de um conhecimento identificador em posse
da audiência. Quando afirmo que o novo lugar-comum vem se alinhar ao lado
do velho, quero dizer com isso que as esferas (a) daquilo acerca do que é um
enunciado que se endereça a uma audiência e (b) daquilo a respeito do qual se
supõe, ao fazer o enunciado, que a audiência já possui algum conhecimento —
são esferas que muitas vezes e naturalmente se sobrepõem.
Mas (3) não é necessário que elas sejam co-extensivas. Assim, dado um
enunciado que contém uma expressão referencial, a especificação do tópico des-
se enunciado, daquilo acerca do qual ele é, incluiria muitas vezes mencionar, ou
parecer mencionar o objeto a que se tinha a intenção de fazer referência com
aquela expressão, às vezes, entretanto, poder-se-ia especificar o tópico de um
enunciado contendo uma expressão dessas sem mencionar tal objeto. Chamemos
o primeiro tipo de caso de Tipo 1 e o segundo tipo de caso de Tipo 2. (É evidente
gue um enunciado poderia ser do Tipo | relativamente a uma expressão referen-
cial que ele porventura contivesse, e do Tipo 2 relativamente a uma outra expres-
são desse mesmo gênero.)
ESCRITOS LÓGICO-LINGUÍSTICOS 323
Ora, (4) as avaliações dos enunciados como verdadeiros ou falsos são, mui-
tas vezes (embora não exclusivamente), centradas no tópico (are topic-centred),
da mesma maneira como o são os enunciados avaliados. E quando é assim, como
assim é habitualmente, poderemos dizer que o enunciado é avaliado enquanto
informação putativa acerca do seu tópico.
Portanto (5), dado um caso de falha radical de referência por parte de uma
expressão referencial, a explicação em termos de lacuna de valor-de-verdade das
consegiiências dessa falha parecerá mais naturalmente aplicável se o enunciado
em questão for do Tipo 1 (relativamente àquela expressão referencial) do que se
ele for do Tipo 2. Se for do Tipo 2, com efeito, a falha de referência não afetará
o tópico do enunciado; ela afetará apenas aquilo que pretende constituir uma
informação acerca do seu tópico. Mas não poderemos dizer isso se se tratar de
um caso de Tipo 1. Se for um caso do Tipo 1, a falha de referência afetará o
próprio tópico e não apenas a informação putativa acerca do tópico. Se temos
conhecimento da falha de referência, sabemos que o enunciado não pode, na
realidade, ter o tópico que ele pretende ter e, por conseguinte, não se pode avaliá-
lo enquanto informação putativa acerca desse tópico. Não se pode considerá-lo
nem como uma informação correta, nem como uma informação incorreta acerca
do seu tópico.
Poder-se-ia dizer, todavia, que essa explicação é contraditória. Pois ela im-
plica que — num caso de talha radical de referência pertencente ao Tipo 1 —
o enunciado não possui, na realidade, o tópico que, por hipótese, ele efetiva-
mente possui; ela implica que um enunciado que é, por hipótese, acerca de alguma
coisa, não é, na realidade, acerca de nada. Devemos responder a essa objeção com
uma distinção. Se eu acreditar que a lenda do Rei Artur é uma verdade histórica,
quando de fato não existiu tal pessoa, poderei, num sentido, fazer enunciados
acerca do Rei Artur, descrever o Rei Artur e fazer do Rei Artur o meu tópico.
Há um outro sentido, entretanto, em que eu não posso fazer enunciados acerca
do Rei Artur, descrevê-lo ou fazer dele o meu tópico. Esse segundo sentido é
mais forte do que o primeiro. Posso supor que esteja fazendo enunciados acerca
dele no segundo e mais forte sentido; na realidade, porém, estarei apenas fazendo
enunciados acerca dele no primeiro e mais fraco sentido. Por outro lado, con-
tudo, se a minha crença no Rei Artur fosse verdadeira e se eu estivesse realmen-
te fazendo enunciados acerca dele no segundo sentido, mesmo assim ainda seria
verdade que eu estaria fazendo enunciados acerca dele no primeiro sentido. É por
isso que o primeiro constitui um sentido mais fraco (isto é, mais amplo /com-
prehensive/) do que o segundo, e não apenas diferente desse.
Tendo em mente essa distinção de sentido, podemos agora construir uma
receita para distinguir aqueles casos de falha de referência que são relativamente
favoráveis à teoria da lacuna de valor-de-verdade daqueles casos que lhe são rela-
tivamente desfavoráveis. A receita é a seguinte. Consideremos, dentro do seu con-
texto, o enunciado que sofre de falha de referência e formulemos um certo tipo
de descrição do episódio de discurso que consiste em fazer tal enunciado. A des-
crição deverá começar com alguma frase do gênero “Ele (isto é, o locutor) estava
dizendo (descrevendo)... .' e deverá continuar com um pronome, adjetivo ou ad-
vérbio interrogativo que introduza uma cláusula dependente. A cláusula, com a
sua conjunção introdutória, especificará o tópico do enunciado, aquilo de que
se pode dizer (pelo menos no sentido mais fraco e, se não houver falha de refe-
rência, também no sentido mais forte) que o enunciado é acerca de; ao mesmo
tempo, eliminar-se-á da descrição aquilo que é dito acerca do seu tópico em be-
nefício da expressão interrogativa. Seriam exemplos, baseados em casos já men-
cionados, de descrições como essas, os seguintes.
22 STRAWSON
Ele estava descrevendo como Silva passou a manhã
Ele estava dizendo quais contemporâneos célebres são carecas
Ele estava dizendo qual é a aparência do rei da França.
Se a expressão referencial pecaminosa sobreviver na cláusula introduzida pelo in-
terrogativo, na cláusula que especifica aquilo acerca de que era o enunciado ori-
ginal, então teremos um caso relativamente favorável à teoria da lacuna de
valor-de-verdade. Por outro lado, se a expressão referencial pecaminosa for eli-
minada, pertencendo, portanto, àquilo que pretende ser uma informação acerca
do tópico do enunciado original, teremos então um caso relativamente desfavo-
rável à teoria da lacuna de valor-de-verdade. Não pode haver descrições-de-qual-
é-a-aparência-do-rei-da-França que sejam verdadeiras ou falsas, certas ou erradas,
pois não existe rei da França. Mas pode haver descrições-de-como-Silva-passou-
a-manhã que sejam corretas ou erradas, e a descrição de Silva segundo a qual
ele passou a manhã na piscina do lugar estará errada porque não existe tal local.
Torna-se fácil perceber a razão pela qual a relevância desses fatores deveria
ter sido, necessariamente, negligenciada por aqueles filósofos, nos quais eu pró-
prio estou incluído, que, considerando uns poucos exemplos de sentenças, isola-
das de possíveis contextos de suas utilizações, foram tentados a adotar e a gene-
ralizar a teoria da lacuna de valor-de-verdade. Com efeito, em primeiro lugar.
ocorre muitas vezes que o tópico de um enunciado é ou inclui alguma coisa que
é referida por uma expressão referencial; pois uma expressão dessas invoca o
conhecimento ou as percepções atuais (current) de uma audiência, e aquilo que
é de interesse (concern) para uma audiência é, com fregiiência, algo acerca do
qual ela já conhece alguma coisa ou algo que ela está atualmente percebendo. E,
em segundo lugar, acontece muitas vezes que a colocação de uma expressão no
início de uma sentença, na posição de sujeito gramatical, serve, por assim dizer,
para anunciar o tópico do enunciado. O filósofo, refletindo sobre a falha de refe-
rência em função (in terms of) de um ou dois exemplos breves e isolados de sen-
tenças que começam com expressões referenciais, tenderá a ser influenciado por
esses fatos sem perceber todos que o estão influenciando. Assim, ele tenderá a
atribuir a sua sensação de que algo mais radicalmente errado do que a falsidade
à simples presença da única coisa que é óbvia, a saber, uma expressão referencial
que carece de referência; dessa maneira, ele deixará inteiramente de lado essas
considerações acerca do caráter de ser-acerca (about aboutness), ou do tópico.
que estive discutindo.
Que me seja permitido assinalar que não pretendo ter feito mais do que men-
cionar um fator que pode, por vezes, incidir sobre o fato de que uma teoria da
lacuna de valor-de-verdade para o caso de uma falha radical de referência pode
parecer intuitivamente mais atraente em alguns casos do que em outros.
Vil — GRAMÁTICA E FILOSOFIA *
Uma pessoa que fala fluente e corretamente a sua língua materna tez a
aquisição, durante um certo período de ternpo, daquele domínio da língua que
cla agora possui. Durante esse período, essa pessoa esteve exposta, sem dúvida,
a muitas sentenças produzidas por outras pessoas e 2 algumas correções de sen-
tenças que ela própria produziu. O seu domínio da língua, contudo, não consiste
simplesmente em ser ela capaz de reproduzir as sentenças produzidas pelos ou-
tros e, nas suas formas corrigidas, as sentenças que ela mesma produziu anterior-
mente. Esse domínio consiste em ser ela capaz, também, de produzir um número
indefinido de sentenças novas, de saber o que elas significam (mean) e de ser
capaz de compreender um número indefinido de sentenças novas que lhe são
apresentadas. Consiste, ainda, no fato de a pessoa ser capaz de distinguir as sen-
tenças da sua língua que são plenamente “corretas” e literalmente significantes —
não importando quão elaboradas ou estilisticamente inusitadas possam ser — e
as sentenças que se desviam, de maneiras ou em graus variados, da “correção:
plena ou da significância literal; e talvez consista também em ser ela capaz de
perceber, com maior ou menor clareza (explicitness), como se desviam as senten-
ças que se desviam da correção.
Parece inteiramente razoávei dizer que a posse, por parte do locutor fluente
e correto de uma língua, dessas capacidades de construir. interpretar e criticar
sentenças, implica a existência de um conjunto ou de um sistema de regras cujo
domínio o locutor, em algum sentido, adquiriu. Isso não implica que ele, cons-
cientemente, construa ou interprete as sentenças à luz de qualquer uma dessas
regras nem, tampouco, que ele possa sequer começar a formular tais regras como
algo que se aproxime de uma plena explicitação ou de um máximo de sistema-
ticidade. Tais regras podem “governar” o exercício das suas capacidades de cons-
trução e de interpretação de sentenças, e até de crítica de sentenças, sem, entre-
tanto, que o locutor chegue a ter plena consciência dessas regras enquanto regras
que governam tal exercício. Não deveríamos esperar, por parte do locutor fluente
e correto de uma língua, que, simplesmente porque é tal locutor. ele possa enun-
ciar a teoria da sua prática.
Apesar disso, a prática está aí. Deveria ser possível, portanto, para aqueles
que estão dispostos a fazê-lo, extrair a teoria e enunciá-la com plena explicitação
* Para qualquer pessoa que assistiu às conferências sobre John Locke que o Protessor
Chomsky pronunciou em Oxford. no verão de 1969, posteriores, portanto, à redação do
presente artigo, será evidente que Chomsky se afastou de ou modificou algumas das posições
que. neste texto, lhe são atribuídas nã base das suas publicações. Apesar disso, eu mantive
as atribuições. embora com qualificações ocasionais. pois a palavra escrita. controlável. tor-
nece uma base mais firme para a discussão do que a palavra falada. incontrolável.
324 STRAWSON
e com o máximo de sistematicidade. Esse é o objetivo que os novos gramáticos
se fixaram, os expoentes da gramática gerativa transformacional. Um enunciado
plenamente explícito e sistemático em grau máximo das regras que 'governam' o
exercício, por parte do locutor fluente, das suas capacidades, proporcionará a
teoria da língua desse locutor. Uma teoria desse gênero pode ser chamada, num
sentido amplo da palavra, de gramática da língua. Ela deverá conter três partes
ou componentes: uma parte sintática, uma parte semântica e uma parte fonoló-
gica. De maneira muito aproximativa e um tanto enganosa, pode-se dizer que
essas partes se ocupam, respectivamente, com a estrutura, com o sentido (sense)
e com o som; dizer isso, porém, é um tanto enganoso, visto que a própria estru-
tura determina, em bem larga medida, o sentido. De modo geral, foi a parte sin-
tática ou estrutural que recebeu a maior ênfase e que despertou o maior interesse
nos trabalhos dos gramáticos transformacionistas.
A gramática tradicional nos familiarizou com alguns dos termos que são
empregados na nova gramática para exprimir fatos acerca da estrutura das sen-
tenças. Quer dizer, já estamos familiarizados com nomes-de-classes ou nomes-de-
categorias gramaticais tais como os de substantivo (noun) e de frase nominal
(noun-phrase), verbo, preposição, advérbio e adjetivo; e, também, com os nomes
de relações gramaticais tais como os de sujeito da sentença, sujeito do verbo, ob-
jeto do verbo, modificador do sujeito, modificador do verbo, e assim por diante.
É bastante óbvio que uma apreensão dos fatos a respeito da estrutura e a res-
peito das relações gramaticais numa sentença é algo que entra na nossa compre-
ensão das sentenças. Apreciar a diferença de sentido entre “João ama Maria” e
'Maria ama João” ou entre “O velho homem canta uma canção" e “O homem can-
ta uma velha canção” é apreender aqueles fatos estruturais que, na terminologia
da gramática, são expressos ao se dizer que João" é o sujeito e que 'Maria' é o
objeto do verbo na primeira sentença, e vice-versa na segunda, ou que o adjetivo
“velho” se encontra em combinação atributiva com “homem” na terceira sentença
e com “canção” na quarta. No tipo de análise gramatical que fazemos (ou que
fizemos) na escola, nós expomos, numa forma prescrita, fatos desse tipo acerca
das relações gramaticais que vigoram dentro das sentenças que analisamos. Nes-
sa medida, nós expomos a estrutura dessas sentenças. E claro que podemos não
ser muito bons nesses exercícios, embora, ao mesmo tempo, possamos apreciar
perfeitamente bem as diferenças de sentido entre tais sentenças. E isso simples-
mente ilustra o ponto segundo o qual a apreensão da estrutura não é a mesma
coisa que a capacidade de enunciar explicitamente o que é apreendido.
A estrutura gramatical, portanto, assim como os sentidos das palavras in-
dividuais, determina o sentido ou a interpretação semântica das sentenças. A tese
central dos gramáticos transformacionistas (transformational), o passo que con-
diciona todo o caráter das suas teorias, está na insistência em que qualquer teo-
ria gramatical adequada deverá reconhecer uma distinção entre a estrutura sintá-
tica superficial de uma sentença e a sua estrutura básica, entre a sua gramática
profunda e a sua gramática de superfície. A motivação dessa distinção tem raízes
realmente muito profundas, como: veremos a seguir. Mas será fácil sermos leva-
dos a perceber uma razão para a distinção se observarmos, por exemplo, que
duas sentenças podem ser muito semelhantes nas suas estruturas sintáticas super-
ficiais, embora, ao mesmo tempo, seja muito diferente, por assim dizer, a estru-
tura dos seus sentidos: e que, na compreensão que temos de tais sentenças, reco-
nhecemos diferenças nas relações gramaticais dos seus elementos que simples-
mente não são marcadas nas sentenças tais como elas se apresentam. Chomsky
dá como um exemplo disso o par de sentenças: “They persuaded John to leave”, e
ESCRITOS LÓGICO-LINGUÍSTICOS 325
“They expected John to leave”. ! Na nossa compreensão dessas sentenças, “John”
tem, em ambas, uma relação de sujeito (subject-like) com o verbo leave; mas,
embora tenha também uma relação de objeto (object-like) com o verbo principal
(persuaded) da primeira sentença, esse termo não tem nenhuma relação dessa es-
pécie com o verbo principal (expected) da segunda. Assim, nós compreendemos
os elementos das sentenças como diferentemente relacionados nos dois casos. Não
existe, contudo, nenhuma diferença estrutural manifesta entre as sentenças tais
como elas se apresentam, correspondente a essa diferença que compreendemos.
Além disso, um modo talvez mais contundente de tornar aceitável a distinção entre
estrutura profunda e estrutura de superfície consiste em apontar certas sentenças
sintática ou estruturalmente ambíguas, tais como — para adaptar um exemplo
mais antigo — esta: “A principal coisa na sua vida era o amor das mulheres”.
Embora a ambigiiidade possa muito bem ser removida pelo contexto, a sentença,
tal como está, nos deixa incertos quanto a saber se é o fato de ele amar as mu-
lheres ou de as mulheres o amarem que está em questão. Ora, sustenta-se que,
tanto as diferenças estruturais não manifestas, exemplificadas no primeiro tipo de
caso, quanto as ambigiiidades sintáticas, exemplificadas no segundo, seriam exi-
bidas, de maneira clara e sistemática, na representação da estrutura profunda da
sentença, em oposição à estrutura de superfície. Toda relação sintática ou estru-
tural entre elementos sentenciais (sentence-elements) seria, com efeito, represen-
tada com total explicitação. Uma gramática do tipo desejado atribuirá, portanto,
pelo menos duas estruturas profundas diferentes a uma sentença sintaticamente
ambígua e atribuirá estruturas profundas manifestamente diferentes a sentenças
que possuem uma identidade meramente superficial de estrutura.
Se olharmos, por um momento, além dos limites de uma única língua, po-
deremos entrever um outro e mais antigo tipo de motivação para uma distinção
como essa. Assim como uma similaridade de superfície pode esconder uma dife-
rença profunda, assim também uma diferença de superfície pode esconder uma
identidade profunda. Dadas duas sentenças em línguas diferentes, uma sendo uma
tradução precisa e adequada da outra, podemos facilmente descobrir, numa delas,
construções gramaticais que estão ausentes da outra. Não desejaríamos dizer, con-
tudo, que os relacionamentos estruturais fundamentais, que assim se revelaram
diferentes na superfície, são exatamente os mesmos nas duas sentenças? A ques-
tão de saber até que ponto estamos dispostos a levar essa idéia tem incidência
sobre a questão de saber se estamos dispostos a considerar e, em caso positivo,
como estamos dispostos a utilizar a noção de uma gramática universal. É evi-
dente que uma idéia como essa não pode deixar de ter interesse para os filósofos.
Mas isso já é antecipar. Passemos agora à questão de saber como os fatos
acerca da estrutura são efetivamente apresentados pelos gramáticos transforma-
cionistas. Qualquer resposta que eu possa fornecer a essa questão no presente
contexto deverá necessariamente ser incompleta e grosseiramente simplificada;
espero, porém, que ela não o seja de maneira que possa induzir em erro em
relação às demais questões que pretendo levantar.
O componente sintático de uma gramática ou teoria de uma lingua consiste,
então, em um sistema de regras, permissivas ou mandatárias, que operam, em
última análise, sobre certos elementos. Esses materiais terminais devem ser con-
cebidos como as unidades mínimas de significação da língua, os átomos a serem
estruturados, por assim dizer, pela sintaxe da língua em questão. Chomsky deno-
mina esses itens de formadores (formatives). Não é possível estabelecer nenhuma
! Eles persuadiram John a sair. Eles esperaram que John saísse. (N. do E.)
326 STRAWSON
identificação simples dos formadores com nenhuma idéia familiar; mas não é ne-
cessário que nos ocupemos aqui da sua natureza exata. Os formadores são de dois
tipos: léxicos e não léxicos. Podemos considerar que o primeiro tipo corresponde
aqueles termos gerais e aos nomes próprios da língua cuja significação não é, sob
forma alguma, sintaticamente derivada — tais como os verbos 'cantar' ou 'amar”,
o adjetivo 'vermelho” e o nome 'Maria”. Os formadores do segundo tipo consti-
tuem um grupo mais heterogêneo, incluindo, por exemplo, um formador chamado
Passado, para o Tempo Passado do verbo.
As regras que operam, em última análise, sobre esses materiais são de tal
sorte que, para qualquer sentença da língua, existe, na aplicação dessas regras,
um caminho cuja observação nos fornecerá uma exibição completa tanto da es-
trutura profunda quanto da estrutura de superfície da sentença em questão. É
necessário que isso não seja mal compreendido. A observação não significa nada
além do que ela diz. Não significa. por exemplo, que a gramática nos forneça um
procedimento mecânico para descobrir a estrutura profunda de uma sentença
dada anteriormente ou para produzir uma determinada sentença. ? Significa ape-
nas que, numa gramática completa do tipo em questão, existe um caminho atra-
vés das regras que produzirá esses resultados. Do que já foi dito, ficará evidente
que as próprias regras são de dois tipos: aquelas que produzem estruturas pro-
fundas e aquelas que transformam essas últimas em estruturas de superfície. Não
me ocuparei muito com as regras do último tipo. Por outro lado, no entanto, de-
verei dizer mais alguma coisa acerca das regras da estrutura profunda ou regras
da base.
Os termos em que se formulam os tipos fundamentais de regras de base
têm uma tranguilizadora familiaridade. Esses termos são os nomes-de-classes ou
nomes-de-categorias gramaticais, tais como sentença, frase nominal, frase predi-
cativa, substantivo, verbo, adjetivo, auxiliar verbal, frase preposicional, etc. Os
resultados da aplicação das regras podem ser representados, da maneira mais
simples, por uma espécie de estrutura de árvore invertida, para cuja produção
nós começamos a partir do símbolo básico S (para sentença), ramificando a partir
daí em categorias gramaticais constituintes, depois em constituintes desses cons-
tutuintes, e assim por diante, até atingir um ponto em que todos os nomes das
categorias terminais são tais que possamos introduzir os formadores diretamente
sob eles. As regras permitem a produção de diagramas extremamente simples
desse tipo — como, por exemplo, o diagrama para “João sorriu — e, igual-
mente, de diagramas com qualquer grau de complexidade. Elas autorizam, com
efeito, a reintrodução do símbolo S sob o título (under a heading) de uma estru-
tura constituinte apropriada (como a trase nominal, por exemplo) onde ele atua,
por sua vez, como o topo de um outro diagrama ramificado subordinado. O dia-
grama da estrutura profunda ou de base de uma sentença efetiva da língua fica
completo quando são introduzidos, sob as extremidades (headings) das catego-
tias terminais, os formadores apropriados, a série ou sequência de formadores
resultante, constituindo, então, a seqiiência terminal da estrutura. Assim, pode-
mos introduzir o formador não léxico Passado abaixo do título de categoria (un-
der the category headings) Auxiliar Verbal. Os formadores léxicos são arrolados
num léxico que os classifica em categorias léxicas, como substantivo, verbo e
adjetivo.
De um diagrama completo desse tipo, que expõe uma sequência terminal
juntamente com o esquema (pattern) da sua derivação, podemos extrair, com to-
2 V. Chomsky. Aspects of the Theory oj Syntax, p. d4l.
ESCRITOS LÓGICO-LINGUÍSTICOS 32
o |
tal explicitação, todos aqueles fatos de estrutura gramatical que incidem sobre a
interpretação da sentença cuja estrutura profunda o diagrama representa. A ra-
zão pela qual podemos fazer isso — e este é um ponto de importância absoluta-
mente central — é que todas as relações sintáticas que, como já sabemos, deter-
minam em tão ampla medida o sentido (ou a interpretação semântica) das sen-
tenças, são definidas em função das categorias ou classes gramaticais e das con-
catenações permitidas entre essas, que se encontram em diagramas de estrutura
profunda. Chomsky é bastante explícito a respeito desse ponto importante. Se
deixarmos o léxico de lado, a função primária das regras da base descritas até
aqui, consiste, diz ele, “em definir as relações gramaticais que são expressas na
estrutura profunda e que determinam, por conseguinte, a interpretação semântica
de uma sentença.” * Temos aqui, repito, um ponto de importância capital. A maio-
ria dos detalhes do que estive dizendo até agora poderá ser esquecida sem danos
se esse ponto for retido.
O componente sintático da teoria, então, nos fornece tanto a estrutura pro-
funda quanto a estrutura de superfície das sentenças. Acrescentemos uma pala-
vra — e não mais — acerca das suas relações com os componentes restantes. o
semântico e o fonológico. As regras do componente fonológico da teoria se apli-
cam às estruturas de superfície a fim de permitir a reprodução sonora efetiva
(actual sound-rendering) de uma sentença. Por outro lado, considera-se que a
informação, contida no componente semântico, acerca das significações dos itens
léxicos individuais se combina com a informação estrutural contida no diagrama
da estrutura profunda para determinar a interpretação semântica completa da
sentença. *
H
Isso é suficiente como esboço do tipo de teoria de uma língua que é con-
siderado por alguns gramáticos transformacionistas. Ora, iniciei este artigo resu-
mindo a capacidade linguística de um locutor, idealmente fluente e correto, de
uma língua, como sendo a capacidade de compreender, produzir e criticar um
número indefinido de sentenças novas da sua língua. Os teóricos da gramática
transformacional não pretendem, pelo menos nos seus momenios mais cautelosos.
que se possa explicar a posse dessas capacidades linguísticas por parte de um lo-
cutor-ouvinte idealizado, atribuindo-lhe, simplesmente, um “domínio tácito” —
ou mesmo, atribuindo-lhe uma 'representação interna” — daquele sistema de re-
gras que seria fornecido por uma teoria dessa espécie. Eles concedem, ou melhor.
insistem em que se exige muito mais para uma explicação adequada. Vamos adiar.
por enquanto, o exame da questão de saber como os próprios gramáticos pen-
sam que deveria ser suplementada a apresentação de uma teoria dessas a fim de
que fosse cumprida a exigência de uma explicação adequada. Em lugar disso.
consideremos uma condição em relação à qual um crítico não especialista po-
3 Op. cit. p. 99. Ver também pp. 69. 117. 120 e Id.
4 Esse é um ponto importante a respeito do qual Chomsky modificou as suas opiniões.
Ele agora admite que a estruiura de superfície possi também incidir sobre a interpretação
semântica, de tal sorte que duas sentenças. que têm exatamente o mesmo diagrama de
estrutura profunda. podem. não obstante, diferir na significação. aparecendo a diferença
apenas no nivel das transformações que produzem a estrutura de superfície. No entanto.
ele ainda adota u sua opinião original com referência aos aspectos da interpretação seman-
tica que dependem das relações gramaticais. Ora, é desses aspectos, justamente. que O pre-
sente artigo se ocupa.
328 STRAWSON
deria achar que uma teoria dessas não conseguiria cumprir o seu requisito de
compreensão. Chamá-la-ei de condição de perspicácia (perspicucusness).
Nesse ponto, deveremos, mais uma vez, voltar a considerar as estruturas
profundas das sentenças, que são tão decisivas, como diz Chomsky, para a sua
interpretação semântica. As estruturas profundas são geradas pelas regras de
base do componente sintáxico. Se deixarmos de lado aquela parte da base. (in-
cluindo o léxico) que possibilita o acabamento das estruturas profundas com se-
quências terminais, restar-nos-ão, essencialmente, regras de ramificação (bran-
ching-rules) que introduzem categorias gramaticais (frase nominal, verbo, frase
preposicional, etc.) em várias concatenações permitidas. Como já assinalamos,
Chomsky diz que a importância dessas regras e das categorias gramaticais que
elas introduzem reside, em primeiro lugar, no fato de que elas fornecem a base
para a definição daquelas relações gramaticais que, no que se refere às conside-
rações estruturais, são de uma importância decisiva, conquanto não exclusiva,
para a interpretação semântica das sentenças. É por isso que as categorias gra-
maticais e as regras formadas a partir (framed in terms of) delas têm importân-
cia. Elas têm importância porque, juntas, proporcionam os termos nos quais se
podem definir as relações gramaticais (sujeito-de, predicado-de, objeto-de, mo-
dificador-de, etc.) para uma língua dada. E essas relações, por sua vez, têm im-
portância em virtude da sua incidência decisiva sobre a interpretação semântica
das sentenças. Até aqui, entretanto, se deixarmos o léxico de lado, a gramática
não nos dá nenhuma informação acerca da significância dessas relações gra-
maticais que seja independente do fato de serem elas definidas em termos das
categorias gramaticais. Diz-se que os símbolos para as categorias gramaticais e
as regras para formar diagramas de estrutura que contenham as primeiras apon-
tam para as relações gramaticais, que são tão importantes para a compreensão
das sentenças. Os nomes das relações gramaticais, entretanto, apontam, por defi-
nição, para trás, para os símbolos das categorias gramaticais e da sua organização
(arrangement). Ora, posto que a gramática é um enunciado totalmente explícito
das regras, não devemos supor que estejamos equipados com qualquer compre-
ensão de algum desses tipos de termos, à exceção da compreensão que é dada
pelas regras explícitas da própria gramática.
É claro que a gramática, ou a teoria da linguagem, fornece, globalmente
(as a whole), uma saída para esse círculo de termos técnicos. E ela proporciona
tal saída porque contém um léxico que, na sua parte sintática, atribui formadores
léxicos às categorias gramaticais e porque contém um componente semântico o
qual podemos considerar que possui toda a informação remanescente acerca dos
elementos da língua que todo aquele que a compreende deve possuir. Ora, é bem
verdade, como os críticos sublinharam e como os próprios gramáticos reconhe-
cem, que ainda não se forneceu nenhuma explicação teórica satisfatória do com-
ponente semântico. Não é esse o ponto, contudo, enunciado sob essa forma geral,
que desejo trabalhar. Vamos simplesmente supor que a apreensão das regras da
teoria, incluindo a apreensão do componente semântico, acarrete consigo uma
apreensão completa do sentido de todos os formativos, tanto léxicos quanto não
léxicos. Nesse caso, visto que a gramática atribui formativos individuais às cate-
gorias gramaticais, constataremos que a gramática proporciona a ligação imediata
dos sentidos dos formadores com as categorias gramaticais. Por conseguinte, ela
também proporciona, mediatamente, a ligação dos sentidos dos formadores com
possíveis relações gramaticais na estrutura profunda, relações essas que ajudam
a determinar o sentido das sentenças. Mas — e é este o ponto em que incidem as
minhas críticas — não existe, na gramática, absolutamente nenhuma teoria geral
desse conjunto aparentemente decisivo de elementos. Existe simplesmente a lista
ESCRITOS LOGICO-LINGUÍSTICOS 324
de itens no léxico, sem nenhuma explicação dos princípios gerais que determinam
a atribuição desses itens às categorias gramaticais. No entanto, seria desse con-
junto de conexões que, antes de tudo, deveríamos esperar uma teoria geral, se
tivermos a esperança de que a gramática possa satisfazer a condição de pers-
picácia.
Vale a pena insistir mais uma vez sobre as razões pelas quais poderíamos
esperar isso. Devemos lembrar que a importância primária das categorias gra-
maticais e das suas disposições permitidas nas estruturas profundas de uma lin-
gua reside no fato de que elas tornecem os termos nos quais podem ser defini-
das — para a língua em questão — as funções e relações gramaticais subjacen-
tes dos elementos nas sentenças. E essas funções e relações qualquer locutor
ordinário da língua apreende implicitamente ao compreender as sentenças que
ele escuta ou produz. Ele as apreende apenas implicitamente, visto que não pos-
sui — como podemos supor — um aprendizado (training) explícito da pramática.
Ora, de que maneira a sua apreensão implícita dessas funções e relações se en-
contra ligada ao seu conhecimento da significação dos elementos da sua língua?
Não se deve supor que o seu conhecimento da significação desses elementos seja
algo totalmente separado da sua apreensão do poder que têm tais elementos de
figurar naquelas funções e naquelas relações gramaticais que ele deve apreender
implicitamente a fim de poder compreender os sentidos das sentenças que cle
escuta e produz. A sua apreensão da significação dos elementos da língua deve-
rá incluir, ao que parece, pelo menos uma certa apreensão dos papéis potenciais
desses elementos nas relações gramaticais das estruturas de base. Suponhamos,
então, que existam conexões intrínsecas e gerais entre os tipos de significação
dos elementos e as potencialidades de papel gramatical na estrutura profunda ou
de base. Ora, ao enunciar os princípios de tais conexões, deveríamos, é claro,
vincular entre si considerações semânticas e sintáticas. Mas não deveríamos, en-
tão, estar, ao mesmo tempo, expondo as fundações, ou uma determinada parte
das fundações, de uma teoria geral da gramática? Seja qual for o caso, uma gra-
mática que repousasse sobre tais princípios ou que os incorporasse poderia pre-
tender, a melhor título que uma gramática que não o fizesse, satisfazer a condh-
ção de perspicácia.
uI
Essa é uma maneira, pelo menos, em que poderíamos raciocinar. Um pouco
mais adiante, serei obrigado a refinar essa noção de perspicácia.
Antes, porém, voltemos rapidamente a Chomsky. Como já insinuei, o pró-
prio Chomsky é o primeiro a reconhecer que aquilo que ele chama de uma gra-
mática gerativa “descritivamente adequada” de uma língua — uma teoria como
aquela que descrevi, nos seus traços mais esquemáticos, na Seção I deste artigo
— seria incapaz de satisfazer, por si só, a condição de adequação explanatória.
Para preencher essa condição, necessitaríamos, diz ele, de uma teoria dos univer-
sais lingiísticos que são característicos da linguagem humana em geral. Além
disso, necessitaríamos mostrar que essa teoria se relaciona de uma forma deter-
minada com a nossa gramática descritivamente adequada, selecionando-a, por
assim dizer, dentre outras gramáticas possíveis que são compatíveis com os “dados
lingiiísticos primários”. Ora, poderíamos estar inclinados a levantar duas pergun-
tas com respeito a esses requisitos. Em primeiro lugar: a satisfação desses requi-
sitos seria capaz de produzir, finalmente, uma explicação completa da posse, por
parte do ouvinte-locutor idealizado, das suas capacidades linguísticas — incluindo.
como devemos recordar, a sua capacidade de compreender um número indefinido
330 STRAWSON
de sentenças da língua? E, em segundo lugar: a satisfação desses requisitos po-
deria envolver — além, é claro, de muitas outras coisas — a ligação de conside-
rações semânticas e sintáticas, um pouco semelhante à maneira à qual acabamos
de aludir?
Para nenhuma dessas perguntas a resposta oficial é inteiramente clara. Com
referência à primeira pergunta, contudo, podemos supor que a satisfação dos re-
quisitos enunciados nos levaria pelo menos mais perto de uma explicação com-
pleta das capacidades do ouvinte-locutor. * Em vista disso, o caráter da resposta
de Chomsky à segunda pergunta poderá nos surpreender. Com efeito, embora
admita que 'não há nenhuma razão para excluir a priori” a possibilidade de que
'caracterizações substantivas” do *vocabulário universal de que são construídas as
descrições gramaticais sejam obrigadas, em última análise, a fazer referência “a
conceitos semânticos de um tipo ou de outro” * as referências que Chomsky faz
a qualquer possibilidade dessas são, apesar disso, acentuadamente frias. Assim,
Chomsky fala de “asserções vagas e não fundadas acerca da “base semântica da
sintaxe” ”, asserções essas que 'não trazem nenhuma contribuição para a com-
preensão dessas questões”. 7 É evidente que asserções vagas e não fundadas não
trazem muita contribuição para a compreensão de coisa alguma. Por outro lado,
se uma direção geral de investigação parece promissora e se, inclusive, não puder-
mos ver nenhuma alternativa para ela, é certamente nessa direção que deveríamos
procurar asserções que não sejam vagas e que possamos fundamentar.
O próprio Chomsky assinala que seria natural esperar que a estrutura últi-
ma para a caracterização das categorias universais da gramática deveria ser encon-
trada em alguns traços típicos (features) da base. O que ele tem em mente aqui é
o que se chama de traços formais da base. Ora, a base inclui o léxico. E o léxico.
por sua vez, inclui listas dos itens que são suscetíveis de serem introduzidos dire-
tamente sob as rubricas léxicas de categoria (under iexicai category-headings) nas
estruturas de base. Esses itens serão muito menos numerosos do que os verbetes
num dicionário ordinário da língua. Eles não incluirão, por exemplo, na categoria
de substantivos, os formadores correspondentes aos nossos substantivos abstratos
ordinários como “sinceridade” e “destruição”; 'sinceridade” e “destruição” só apare-
cem em sentenças como o resultado de uma transformação nominalizadora. * Não
pareceria, então, uma atitude bastante natural a de percorrer a lista restrita de
itens com uma pergunta determinada em mente, a saber: quais são os tipos semân-
ticos de itens que deveremos encontrar no léxico, que sejam tais que possam se
combinar de modo a formar sentenças cuja estrutura profunda exija um mínimo
* Deixando, como devemos supor, um certo volume de trabalho a ser ainda realizado por
psicólogos e fisiólogos.
é Op. cit, pp. ll6 es.
7 Op. cit., p. 78.
8 As conferências sobre John Locke mostram que Chomsky não mais afirma (ou, pelo
menos, não mais sustenta para todos os casos) que tais substantivos abstratos aparecem como
o resultado de uma transformação nominalizadora. Ele afirma, ao contrário, que existem
elementos semânticos ou léxicos subjacentes que, embora não sejam em si mesmos nominais
nem, por exemplo, verbais ou adjetivos, são, contudo, capazes de figurar nas estruturas pro-
fundas em qualquer um desses papéis. Apesar disso, poderia parecer que existem razões para
conceder, em tais casos, alguma espécie de primazia sintática ao papel verbal ou adjetivo
sobre o papel nominal. Quaisquer que sejam os termos teóricos em que se deva compreender
essa concessão, ela será suficiente para os meus propósitos presentes. A minha própria con-
jetura a respeito, valha o que ela valer, se alinha com as últimas posições de Chomsky, visto
que não encontro nenhuma razão pela qual não devamos, encontrando, ao contrário, muitas
razões pelas quais devamos ter uma utilização para uma noção de nominalização que não
dependa da noção de transformação.
ESCRITOS LÓGICO-LINGUÍSTICOS 331
de transformação para produzir a estrutura de superfície? E quais são as corre-
lações que poderão ser encontradas entre os tipos semânticos desses itens e as
categorias gramaticais ou sintáticas às quais eles são atribuídos? Ou consideremos,
então, uma questão mais específica. A categoria gramatical de sentença se divide.
basicamente, nos modelos de gramática transformacional propostos por Chomsky.
em frase-nominal e frase-predicado, e essa divisão, por definição, nos fornece
imediatamente, para as estruturas básicas, a relação de sujeito e predicado de uma
sentença. Ora, esse ponto parece nos conduzir imediatamente à beira da pergunta:
quais são os tipos semânticos gerais de expressão que se qualificam para os pa-
péis básicos de sujeito e de predicado nas sentenças mais simples? E por quê?
Poder-se-ia ter a impressão de que uma resposta a essa pergunta poderia muito
bem constituir pelo menos o início de uma caracterização perspicaz dessa relação
gramatical aparentemente fundamental; tal resposta poderia nos auxiliar, por
exemplo, a compreender a sua extensão através da nominalização a outros casos
menos simples. No entanto, nenhum passo foi tomado no sentido de enfrentar
essas perguntas, quer na sua forma mais geral, quer na sua forma mais específica.
IV
Afirmei há pouco que pareceria bastante natural que os gramáticos transtor-
macionistas, dadas as suas preocupações teóricas últimas, se movessem na direção
que indiquei. Existem, todavia, razões pelas quais seria natural, ao contrário, que
não o fizessem. E mais do que isso: existem razões pelas quais as perguntas que
acabo de indicar como naturais, embora sejam de espírito correto, não estão, en-
tretanto, em forma correta. Provavelmente é verdade que, para que se possa for-
necer fundamentos genuinamente explanatórios, será necessário tentar preencher
a lacuna explicativa (explanarion-gap) que existe entre os traços semântico-lógicos.
de um lado, e as classificações e relações sintáticas, do outro. E é provavelmente
falso que a melhor maneira dc empreender essa tentativa consista, em primeiro
lugar, em formular questões diretamente em termos de categorias e relações sin-
táticas tradicionais, tais como as de substantivo e verbo, de objeto do verbo, etc.
Antes de explicar por que não se deve compreender de maneira tão simples a
forma do empreendimento, permitam-me tentar explicar, primeiramente, a relu-
tância dos gramáticos em encetar esse necessário empreendimento. Embora de
maneira sutil, esses dois pontos estão estreitamente interligados.
Lembremos em primeiro lugar que, assim como, de um lado, os gramáticos
transformacionistas tendem a ser críticos severos dos filósofos da linguagem ordi-
nária por serem esses insuficientemente sistemáticos, assim também, por outro
lado, não são críticos menos severos daqueles filósofos da linguagem que derivam
sua inspiração da lógica formal e que praticam ou advogam a construção de lin-
guagens ideais. Lembremos ainda que a crítica que tais gramáticos endereçam a
esses últimos filósofos consiste em que, embora sejam eles realmente sistemáticos,
são insuficientemente empíricos. ? Com efeito, embora a abordagem dos gramá-
ticos transformacionistas seja, sob um aspecto, altamente abstrata e teórica, ela
é totalmente empírica sob um outro aspecto. São lingiistas ou gramáticos empí-
ricos — embora sejam, em aspiração, gramáticos generalizadores — de línguas
efetivamente existentes, inclinados a suspeitar de noções teóricas, exceto na me-
dida em que essas possam ser utilizadas na construção de sistemas ou mecanismos
de regras que sejam capazes, também, de assinalar, com regularidade. os desvios
? Sobre esses dois pontos, ver. por exemplo, Katz, Philosophy of Language, cap. 3.
332 STRAWSON
que ocorrem nas sentenças desviantes. Assim, embora seja característico do gra-
mático transformacionista uma disposição a encarar favoravelmente a idéia de
uma gramática universal, de uma teoria geral da linguagem, ele preferiria, apesar
disso — e o exemplo de Chomsky o sugere —, considerar que os conceitos que
entram em tal teoria são suscetíveis de ser inteiramente elucidados em função da
contribuição que fazem a esses mecanismos de regras que encontramos em ativi-
dade. Considerá-los de uma outra maneira qualquer seria, do ponto de vista do
gramático, um enfoque excessivamente vago e intuitivo para poder satisfazer o
seu ideal de clareza empírica.
O gramático tende, portanto, a impedir-se de adotar uma abordagem que o
filósofo pode adotar com menores reticências, e que talvez deve ser adotada se se
quiser fornecer fundações para a gramática que sejam autenticamente explanató-
rias. Algumas das idéias fundamentais dos gramáticos transformacionistas — a
distinção entre estruturas profundas e de superfície, a noção de relações transfor-
macionais sistemáticas entre elas, a insinuação de uma sugestão de que as formas
básicas de relação funcional serão encontradas nas formas mais simples de estru-
turas profundas —, todas essas idéias atingirão uma corda compreensiva no co-
ração de qualquer filósofo que tenha tentado atingir, através das semelhanças de
superfície da forma gramatical, as diferenças semântico-lógicas que se encontram
atrás delas; isto é, tais idéias sensibilizarão qualquer filósofo, seja ele qual for.
Mas quando se levanta, contra esse pano de fundo de idéias comuns, a questão
das fundações explanatórias da gramática, parece-me que a resposta do filósofo
deveria consistir, pelo. menos de início, numa utilização máxima dessa desacredi-
tada liberdade frente a coações empíricas. Não é absolutamente necessário, por-
tanto, que o filósofo se ocupe, pelo menos para começar, com os arranjos for-
mais reais mediante os quais as relações funcionais são efetivamente represen-
tadas numa língua particular, sejam elas representadas no nível de base ou num
outro nível qualquer. O filósofo, de um lado, terá (como os gramáticos têm)
uma concepção dos elementos de significação (os átomos a serem estruturados) e,
de outro lado, dos modos de combinação desses elementos que são semantica-
mente significantes (as relações sintáticas). De outra parte, contudo, o filósofo
estará pronto, desde o início, a utilizar um vocabulário que é abertamente semân-
tico ou, num sentido amplo, lógico, para a classificação de elementos que são
abstratamente concebidos. Além disso, esse vocabulário encontrar-se-á, desde o
início, numa ligação manifesta com o seu vocabulário relativo aos modos de com-
binação ou às relações gramaticais. Dadas essas ligações evidentes, ele poderá, a
seguir, considerar os arranjos formais possíveis mediante os quais as funções de
combinação podem ser executadas. Poderá, finalmente, relacionar esses modelos
teóricos de linguagem com aquilo que efetivamente encontramos nas línguas em-
piricamente dadas.
Eis aí, então, um programa para pesquisa em lingiística não empírica, o
qual poderá, talvez, pagar, no seu término, dividendos empíricos. O procedimento
a ser seguido na execução de um programa como esse lembrará, sob certos as-
pectos, as construções de linguagens ideais feitas pelos lógicos; o objetivo, porém,
será menos restrito do que o dos lógicos. Quine, em algum lugar, diz o seguinte:
não exiba estrutura mais do que o necessário (don't expose more structure than
ycu need expose). O gramático não empírico, ao contrário, ocupar-se-á com
todos aqueles pontos nos quais a estrutura é necessária para contribuir para
a significação global. A estrutura deve ser exibida em cada ponto e compreen-
dida em cada ponto.
Devemos agora dizer um pouco mais acerca dos detalhes do procedimento.
Falando de um ponto de vista prático, é inevitável que devamos começar com
ESCRITOS LÓGICO-LINGUÍSTICOS 333
modelos relativamente simples de tipos de língua, e que, a partir daí, elabo-
remos modelos mais complexos. A distinção vital que deve ser observada em
todo o trabalho é a distinção entre a gramática intrínseca ou essencial de um
tipo de língua e as gramáticas alternativas ou variáveis desse mesmo tipo de
língua. Um tipo de língua é definido mediante a especificação (1) do tipo se-
mântico ou, em termos amplos, do tipo lógico dos elementos de significação
que ela contém e (2) dos tipos de combinações significativas em que tais ele-
mentos poderão entrar a fim de formar sentenças. Essas especificações deter-
minarão a priori a gramática essencial da língua-tipo, supondo-se que cada
sentença, pelo menos na base, deva permitir uma interpretação sintaticamente
não ambígua. As regras da gramática essencial exigirão que todas as combina-
ções devam, de uma maneira ou de outra, ser indicadas e, quando necessário,
diferenciadas; por exemplo, se uma sentença contiver um certo número de
elementos que poderiam ser significativamente aglomerados em diferentes agru-
pamentos atributivos, as regras exigirão que, de alguma maneira, sejam indicados
quais elementos devem ser tomados com quais outros. De outra parte, elas
exigirão também que — no caso de um elemento que significa uma relação
não simétrica em combinação com elementos ou grupos de elementos que sig-
nificam os termos dessa relação — deva ser indicada, de algum modo, a
ordenação (ordering) dos elementos ou dos grupos de elementos que signifi-
cam os termos. Esses são requisitos da gramática essencial. A gramática essen-
cial de uma língua-tipo, todavia, não estipula, sob forma alguma, como esses
requisitos deverão ser preenchidos. Ela possibilita uma escolha entre maneiras
diferentes de utilizar os vários expedientes formais, como, por exemplo, o de
posicionar os elementos, a inflexão, ou o de afixar ou utilizar marcadores sin-
táticos especiais. Ao escolher um dentre os vários conjuntos possíveis de ar-
ranjos formais que são adequados aos requisitos da gramática essencial, esta-
riamos escolhendo uma dentre as possíveis gramáticas variáveis ou alternativas
para a língua-tipo em questão. Uma vez realizada e codificada uma escolha
dessas, teremos uma gramática (ou uma forma de gramática) completa e total-
mente adequada para aquela língua-tipo. O custo disto estará, é claro, em que
não teremos a gramática de uma língua-real, mas apenas de um tipo de lín-
gua idealmente simplificado.
Se levarmos essas pesquisas um pouco adiante, descobriremos que neces-
sitaremos de um vocabulário bastante elaborado ou de um conjunto de voca-
bulários inter-relacionados de noções teóricas. Assim, necessitaremos, em pri-
meiro lugar, do que poderíamos chamar de um vocabulário ontológico. Em se-
gundo lugar, precisaríamos de um vocabulário semântico ou vocabulário para
nomear tipos semânticos de elementos e, inclusive, para descrever elementos
individuais (esses elementos sendo concebidos, como já foi dito, de maneira
abstrata em toda a pesquisa). Em terceiro lugar, precisaremos de um vocabu-
lário funcional para nomear os tipos de combinação ou de relação em que os
elementos poderão entrar nas sentenças, e para nomear os tipos de função (role)
que os elementos ou as combinações de elementos podem desempenhar nas sen-
tenças. Em quarto e último lugar, necessitaremos de um vocabulário de instru-
mentos (devices) formais. Entre os três primeiros vocabulários ou bateria de
noções, e no interior de cada um deles, existem inter-relações e dependências
estreitas. O quarto vocabulário ocupa um lugar um tanto separado do resto, de
forma que nós só precisamos invocá-lo quando passamos da gramática essen-
cial para a gramática variável. Quando fiz referência a posicionar elementos, à
inflexão, etc., já estava mencionando alguns exemplares dos itens pertencentes
ao vocabulário ontológico que poderiam incluir o espaço, o tempo, um objeto per-
334 STRAWSON
manente particular (particular continuant), uma situação particular, uma carac-
terística ou uma relação geral e algumas subclassificações desses últimos, co-
mo, talvez, a subelassificação das características (characters) gerais em tipos
(sorts), estados, ações e propriedades, e a subclassificação das relações em, pelo
menos, relações simétricas e não simétricas. Uma pronta disposição a empregar
algumas dessas noções é algo inseparável da utilização dos vocabulários fun-
cional e semântico. As noções funcionais deverão incluir aquelas ligaduras prin-
cipais (major linkages) que organizam em sentenças as principais partes senten-
ciais, incluindo também, para qualquer língua-tipo que não seja de uma sim-
plicidade obtusa, a noção de ligaduras menores que organizam elementos em
partes sentenciais. As ligaduras principais e menores deverão, umas e outras,
ser ulteriormente distinguidas em tipos (kinds), assim como também deverão
sê-lo as funções (roles) que os elementos ou partes podem desempenhar, bem
como as diferentes relações em que eles podem se encontrar relativamente uns
aos outros dentro dessas diferentes combinações. As relações internas, a engre-
nagem e as justaposições do vocabulário funcional são extremamente complexas
e eu não tentarei ilustrá-las agui. O vocabulário semântico para uma língua-
tipo razoavelmente restrita poderá incluir três classes principais de elementos:
(1) nomes próprios para particulares permanentes; (2) elementos que signifi-
cam características e relações gerais e (3) elementos deícticos (deictic elements).
Para uma língua-tipo dotada de certa riqueza, a segunda e a terceira classe, pelo
menos, deveriam ser subdivididas, a segunda nas linhas já indicadas no vocabu-
lário ontológico e a terceira talvez em elementos para a deixis temporal, para a
deixis espacial, para a deixis interlocutória e para aquilo que poderíamos chamar
simplesmente de deixis contextual.
Ora, deve-se observar que, ao arrolar esses itens exemplares a partir dos
vocabulários inter-relacionados da gramática essencial, não fiz nenhuma men-
ção a qualquer uma das categorias sintáticas tradicionais de substantivo, verbo,
adjetivo, preposição, etc. Isso não constitui um acidente de seleção ou uma
omissão. Quanto mais complexa a língua-tipo, tanto mais complexos, certamen-
te, serão os vocabulários inter-relacionados que são necessários para especificar
n tipo e para enunciar, como consegiiências da especificação, os requisitos da
gramática essencial. No entanto, não obstante o grau de complexidade que esses
vocabulários possam vir a ter, eles jamais incluirão — enquanto permanecer-
mos ao nível da gramática essencia) —. as classificações sintáticas tradicionais
que mencionei. Essas classificações, com efeito, tais como as entendem os gra-
máticos modernos convencionais, envolvem uma referência essencial aos arran-
Jos (arrangements) formais mediante os quais as relações gramaticais são repre-
sentadas na gramática variável. Quanto mais rigoroso for o gramático, tanto
mais empenhar-se-á em explicar categorias como as de substantivo e de verbo
em termos de critérios formais: por exemplo, em termos dos tipos de inflexões
que as expressões podem sofrer e em termos da sua distribuição nas sentenças,
das posições que elas podem, em regra (standardly), ocupar nas sentenças em
relação a expressões de outras categorias. O enunciado de tais critérios talvez
jamais possa ser inteiramente purificado de noções semânticas. Além disso, se
se quiser que as categorias tradicionais se apliquem a uma certa gama (over a
range) de línguas, esse enunciado deverá ser formulado com alguma flexibili-
dade (looseness). Permanece de pé, contudo, o ponto de que as categorias tra-
dicionais convencionais refletem a interação, nas línguas reais, dos fatores se-
mânticos e funcionais com os fatores formais que encontramos efetivamente.
Tais categorias, por conseguinte, não têm nenhum lugar no estudo das gramá-
ticas essenciais. Isso não deverá impedir o estudioso da gramática perspícua
ESCRITOS LÓGICO-LINGUÍSTICOS 335
de observar o quanto é natural que certos tipos de arranjo formal e, portanto,
ialvez também certas categorias sintáticas convencionais devam ser introduzi-
dos ao nível da gramática variável. Mas eles serão introduzidos apenas a esse
nível, não antes. E o que vale para as categorias sintáticas convencionais valerá
igualmente para as relações sintáticas convencionais, na medida em que a carac-
terização dessas for inseparável da caracterização das primeiras.
Espero que agora se tenha tornado clara a razão pela qual observei ante-
rormente que a melhor abordagem da tarefa de descobrir fundações explana-
tórias para a gramática não consiste em tentar estabelecer vínculos diretos en-
tre noções semântico-lógicas e categorias sintáticas tradicionais (ou, pelo me-
nos, que possuem nomes tradicionais) como aquelas que os gramáticos trans-
formacionistas empregam ao imaginar as estruturas de base. Se os nomes guar-
darem alguma coisa da sua significação normal, será necessário ir além deles
ou sob eles a fim de chegar às funções e classificações essenciais. Por outro la-
do, se eles não guardarem mais nada da sua significação normal, será melhor
suprimi-los em favor de uma nomenclatura mais clara. Algumas vantagens in-
cidentais do fato de nos emanciparmos, como é nosso dever, dessas categorias
tradicionais, são bastante óbvias. Estaremos mais prontamente preparados, com
efeito, para constatar que não se devem forçar imediatamente essas categorias
em algumas línguas mais remotas (do nosso ponto de vista). Correspondente-
mente, estaremos menos inclinados a tirar, de tal descoberta, conclusões ro-
mânticas a respeito de diferenças profundas entre os esquemas conceituais dos
locutores de tais línguas e dos locutores da nossa própria língua.
Há muitas questões acerca de um programa como o que acabo de esboçar.
A noção de uma gramática essencial é, evidentemente, uma noção relativa: uma
gramática essencial é a gramática essencial de uma língua-tipo especificada.
Podemos pôr de lado o fato óbvio de que o único meio praticável de proceder
consiste em começar a partir de especificações relativamente simples, elaboran-
do, a seguir, especificações mais complexas, as gramáticas essenciais e alterna-
tivas tornando-se, elas próprias, mais complexas a cada estágio do processo.
Há questões bem mais fundamentais a serem enfrentadas com respeito às espe-
cificacões dos tipos relativamente báxicos de elementos e de combinações, e
com respeito, ainda, à seleção dos vocabulários funcional e lógico-semântico
basicos. Admite-se que essas seleções não possam ser totalmente independentes
entre si e que cada tipo semântico-lógico acarrete consigo uma certa potencia-
lidade de função sintática. Não seria de se temer (ou supor) que qualquer sele-
cão que o teórico da gramática perspícua fizer poderá ser restritivamente con-
dicionada por traços daquelas línguas com as quais ele tem uma maior fami-
haridade? E que, na pior hipótese, a ontologia que deveria entrar nas funda-
ções explanatórias da gramática não seja nada mais que o reflexo abstrato da
base da gramática nativa e local do ontologista? E, em tal caso, como se colo-
caria isso face à idéia de uma teoria geral da linguagem humana — nada me-
nos do que aguela teoria capaz de satisfazer a exigência plena de explicação?
Só posso oferecer respostas dogmáticas a essas questões. Primeiramente,
mesmo gue esses temores sejam justificados em certa medida, não se segue abso-
iutamente que não se possa ganhar nada com a adoção da abordagem sugerida.
Penso que conseguir realizar quaisquer modelos razoavelmente ricos em gra-
mática perspícua já seria realizar muita coisa. Mesmo que isso não nos pro-
porcione diretamente os universais lingiiísticos substantivos de uma teoria ge-
ral, já poderia nos ajudar a procurá-los. Não constitui nenhuma novidade tra-
balhar em busca de uma teoria compreensiva por meio de teorias que são bem
menos do que compreensivas, com o objetivo de atingir uma explicação ade-
336 STRAWSON
quada através de uma rejeição de explicações inadequadas. Em segundo lugar.
entretanto, parece-me que tais temores são suscetíveis de exagero. Todos nós
somos animais da mesma espécie, com organizações nervosas e cerebrais fun-
damentalmente semelhantes. Não se deve supor, conseguentemente, nem que as
categorias mais gerais para a organização da experiência humana sejam vasta-
mente diferentes nem, correspondentemente, que os tipos lógico-semânticos bá-
sicos de elementos a serem detectados nas línguas humanas sejam largamente
diferentes. (Isso não significa dizer que a detecção seja fácil tarefa.) A evidência
linguística pode, é verdade, parecer indicar algumas variações razoavelmente
básicas. !º E é simplesmente impossível dizer, antes de um desenvolvimento
muito maior da teoria e da pesquisa, qual será a melhor maneira de manipular
esses problemas aparentes de variação. Por outro lado, todavia, nenhuma Jin-
guagem poderia sequer nos fornecer um problema definido se não fosse com-
preendida por algum teórico da gramática. Portanto, não é de se temer muito
(ou de se esperar) que uma língua qualquer, que efetivamente apresente um
problema definido, possa escapar para sempre da inclusão numa teoria unificada.
Um dos gramáticos transformacionistas sugere que uma teoria geral da lin-
guagém, concebida como um estudo empírico-lingúístico totalmente independente
(qúite self-contained), encerraria as soluções de uma vasta gama de problemas
filosóficos tradicionais. " As minhas sugestões aqui foram no sentido de que uma
teoria geral da linguagem não deveria se situar acima de uma ajuda a receber
da filosofia, bem como não deveria se recusar a auxiliá-la. Uma das coisas mais
notáveis acerca da abordagem transformacionista da gramática está nisto que ela
aponta de maneira tão acentuada na direção que indiquei. Seguir essa direção
não parece constituir um afastamento do empiricismo concebido de forma gene-
rosa, ainda que se possa perfeitamente sustentar que o título apropriado para
um empreendimento desses deveria ser, como sugeri anteriormente, o de Pes-
quisa (Research) em Lingiística Não Empírica. É claro que o valor empírico das
construções de gramáticas perspícuas apresentadas pelo estudioso filósofo deverá
ser submetido, em última instância, aos controles dos psicólogos e dos linguistas,
trabalhando esses separadamente e em acordo. Mesmo quando esses dois estu-
dos tão diferentes coincidirem, entretanto, o filósofo poderá ainda, pelo menos
durante um certo tempo, encontrar uma função; e ela não será a menos promis-
sora que está ao seu alcance no momento. Finalmente, seja qual for o valor em-
pírico último das suas construções e mesmo que essas não tenham nenhum, ele
poderá estar assegurado de nelas encontrar uma fecunda fonte de um certo tipo
de pergunta e resposta que o filósofo tipicamente aprecia.
0 Ela pode parecer sugerir, por exemplo, que, em certas áreas nas quais nós estamos incli-
nados a incluir, entre os nossos conceitos primários, conceitos de tipos de objetos —, os
conceitos primários dos locutores de uma outra língua mais aproximada aos nossos podem
ser de tipo diferentes, possivelmente de tipo mais primitivo, podendo não ser ainda deter-
minados nem como conceitos de certos tipos de objetos, nem como conceitos de tipos de
atividades ou de situações em que tais objetos poderiam estar envolvidos de forma típica.
? Ver Katz, foc. cit.
IX — SIGNIFICAÇÃO E VERDADE
Durante o último quarto de século, Oxford ocupou, ou voltou a ocupar.
uma posição que talvez tenha mantido, pela última vez, há seiscentos anos: a de
um grande centro de filosofia no mundo ocidental. Durante esse mesmo período,
o meu predecessor nesta cadeira, Professor Gilbert Ryle, foi o centro desse centro.
Muito devemos à sua visão, ao seu empreendimento, e à sua dedicação como
uma espécie de supervisor — um supervisor inteiramente não autocrático — do
desenvolvimento e da organização do tema. Devemos mais ainda à sua fecundi-
dade, ao seu brilho e à sua originalidade como filósofo.
É característico dos filósofos refletir sobre a sua própria atividade com o mes-
mo espírito em que refletem sobre os objetos dessa atividade; é característico
deles examinar filosoficamente a natureza, os objetivos e os métodos do exame
filosóficc. Quando escreveu nesse espírito metafilosófico, o Professor Ryle apre-
sentou o filósofo, algumas vezes, sob uma luz um tanto austera: como alguém
cuja função consiste em corrigir uma postura mental rotineira e negligente; ou
em desembaraçar o intricado tráfego das idéias ou em prescrever os exercícios
apropriados para as nossas cáibras e confusões intelectuais. O Professor Ryle
realizou a sua parte desse trabalho de necessária correção. Quando examinamos.
porém, a sua produção filosófica como um todo, a impressão que se recebe não
é de austeridade, mas de abundância, de profusão de intuições, de vivacidade de
ilustrações e de uma grande rapidez de invenção (devisal). Cada tópico recalci-
trante é, a seu turno, brilhantemente iluminado através de um método em que se
combinam, com grande força, o detalhe, a produção de imagens (imagery), o
contraste e a generalização. Os tópicos abordados cobrem um amplo domínio,
grande parte dos quais pertence às vastas regiões da filosofia da significação e
da filosofia do espírito. E se me fosse permitido aventurar aqui um juízo de
preferência, eu selecionaria o seu tratamento do pensar — acerca do qual ele já
escreveu muito e com o qual ainda se ocupa — como sendo, talvez, a mais sutil
e sensível de todas as suas explorações filosóficas.
Na obra do Professor Ryle, como na de poucos outros filósofos, o pensa-
mento e o estilo são uma coisa só: a abundância da imagem e do epigrama, a
antítese cortante, as sentenças equilibradas e tensas, não constituem meras adi-
ções decorativas aos seus argumentos, mas a forma mesma do pensamento. Se
formos obrigados a mencionar uma qualidade única como a característica su-
prema do seu pensamento e do seu estilo, será justamente aquela que já fui
forçado a nomear duas vezes: brilho. Os seus escritos constituem uma contri-
buição brilhante e duradoura não apenas à filosofia, mas também — e trata-se
de algo de igual grandeza — às letras inglesas.
O que é, para alguma coisa, ter uma significação, à maneira como ou no
sentido em que palavras, sentenças ou sinais têm significação? Em que consiste,
338 STRAWSON
para uma sentença particular, ter a significação ou as significações que ela de
fato tem? O que é, para uma frase particular ou para uma palavra particular,
ter a significação ou as significações que ela de fato tem? Essas questões são
obviamente ligadas entre si. Qualquer elucidação (account) que apresentemos da
significação em geral (no sentido relevante) deverá ajustar-se à elucidação que
apresentarmos acerca do que é, para expressões particulares, ter significações
particulares. Ao mesmo tempo, deveremos reconhecer, como duas verdades com-
plementares, primeiramente, que a significação de uma sentença depende, em
geral, de uma maneira sistemática, das significações das palavras que a consti-
tuem e, em segundo lugar, que ter uma significação particular é, para uma pala-
vra, uma questão relativa ao fato de ela trazer uma contribuição sistemática
particular às significações das sentenças em que a palavra figura.
Não empreenderei a tentativa de responder a essas questões tão manifesta-
mente interligadas. Essa não é tarefa para uma só conferência ou para um só ho-
mem. Em lugar disso, pretendo discutir um certo conflito ou um certo conflito
aparente que podemos discernir, de forma mais ou menos obscura, nas abordagens
correntes dessas questões. Para termos um rótulo, poderíamos chamá-lo de conflito
entre os teóricos da intenção-de-comunicação e os teóricos da semântica formal.
De acordo com os primeiros, é impossível fornecer uma explicação (account)
adequada do conceito de significação sem fazer referência à posse, por parte dos
locutores, de intenções endereçadas a uma audiência, intenções essas de um
determinado tipo complexo. As significações particulares das palavras e das sen-
tenças constituem largamente, sem dúvida, um problema de regra e de convenção;
mas a natureza geraí dessas regras e convenções só poderá ser finalmente com-
preendida por referência ao conceito de intenção-de-comunicação (comunication-
intention). Segundo o ponto de vista oposto, pelo menos no seu aspecto negativo,
a doutrina acima simplesmente toma as coisas ao contrário ou as toma invertidas,
confundindo o contingente com o essencial. Evidentemente, podemos esperar uma
certa regularidade de conexão entre aquilo que as pessoas têm a intenção de
comunicar ao proferir (by uttering) certas sentenças e aquilo que essas sentenças
significam convencionalmente. Mas o sistema de regras semânticas sintáticas, em
cujo domínio consiste o conhecimento de uma língua — as regras que determinam
as significações das sentenças —, simplesmente não é um sistema de regras para
comunicar. As regras podem ser utilizadas (exploited) para esse objetivo, mas
isso será incidental para o seu caráter essencial. Seria perfeitamente possível que
alguém compreendesse completamente uma língua — que tivesse uma compe-
tência lingúística perfeita — sem que tivesse sequer a idéia implícita da função
de comunicação; sob a condição, bem entendido, que a língua em questão não
contenha palavras que se refiram explicitamente a essa função.
Um combate sobre algo que parece constituir um problema tão central em
filosofia deveria ter alguma coisa de caráter homérico; ora, um combate homérico
requer deuses e heróis. Posso nomear, pelo menos, embora apenas como ten-
tativa, alguns comandantes ainda vivos e algumas sombras benevolentes: de um
lado, digamos Grice, Austin e o último Wittgenstein; do outro, Chomsky, Frege
e o primeiro Wittgenstein.
Em primeiro lugar, então, os teóricos da intenção-de-comunicação. A ma-
neira mais simples e mais prontamente inteligível, embora não a única maneira,
de alguém aderir às suas fileiras consiste em apresentar sua própria teoria da
significação em duas etapas: primeiramente, apresentar e elucidar um conceito
primitivo de comunicação (ou de intenção-de-comunicação) em termos que não
pressuponham o conceito de significação lingiiística; a seguir, mostrar que esse
ESCRITOS LÓGICO-LINGUÍSTICOS 330
último conceito pode e deve ser explicado em termos do primeiro.! Para todo
teórico que seguir essa via, o conceito fundamental na teoria da significação será
o de um locutor /speaker's) ou, de maneira geral, de um elocutor (utterer's)
significando alguma coisa por meio de (meaning something by) uma elocução
endereçada a uma audiência numa ocasião particular. Uma elocução é algo pro-
duzido ou executado por um elocutor; não é necessário que ela seja vocal; pode-
ria ser um gesto, um desenho ou à movimentação ou disposição de objetos numa
ordem determinada. Especifica-se incidentalmente aquilo que um elocutor signi-
fica pela sua elocução, quando se especifica a intenção complexa com a qual ele
reproduz a elocução. Visto que a análise do tipo de intenção em questão é de-
masiado complexa para ser apresentada em detalhes aqui, limitar-me-ei a uma
descrição incompleta. Como uma das suas intenções ao executar a sua elocução,
um elocutor poderia ter a intenção de levar a sua audiência a pensar que ele,
elocutor, acredita em alguma proposição, por exemplo, a proposição p; ao mesmo
tempo, poderia pretender que essa intenção fosse (intend this intention to be)
totalmente manifesta, que cla fosse claramente reconhecida pela audiência. Por
outro lado, poderia também ter a intenção de levar a sua audiência a pensar que
ele, elocutor, quer que ela execute alguma ação, por exemplo, a; ao mesmo
tempc, poderia igualmente pretender que essa sua intenção fosse (intend this inten-
tion of his to be) totalmente manifesta, que ela fosse claramente reconhecida pela
audiência. Nesse caso, a supor que tenham sido preenchidas certas outras con-
dições relativas às intenções do elocutor, pode-se dizer que o elocutor significa,
no sentido relevante, alguma coisa pela sua elocução: mais especificamente, pode-
se dizer que, no primeiro caso, ele significa que p, no modo declarativo, e, no
segundo caso, que ele significa, no modo imperativo, que a audiência deve exe-
cutar a ação a. Grice, por sua parte, nos deu razões de pensar que — com cuidado
suficiente e com refinamentos bem maiores do que os que indiquei — é possível
expor um tal conceito de intenção-de-comunicação ou, como ele o denomina, de
significação do elocutor (utterer's meaning), que seja à prova de objeções e que
não pressuponha a noção de significação lingiiística.
Devemos agora dizer alguma coisa acerca de como se supõe que deverá
proceder a análise da significação lingúística em termos da significação do elo-
cutor. Também aqui não entrarei em detalhes, pois esses seriam extremamente
complexos. A idéia fundamental, porém, é relativamente simples. Estamos habi-
tuados — e isso é razoável — a conceber a significação lingiiística em termos de
regras e convenções semânticas e sintáticas. Ora, quando consideramos o imenso
trabalho (elaboration) dessas regras e convenções — a sua capacidade, sublinhada
pelos linguistas contemporâneos, de engendrar um número infinito de sentenças
numa língua dada —, podemos nos sentir infinitamente distantes daquele tipo de
situação primitiva de comunicação em que naturalmente pensamos quando tenta-
mos compreender a noção de significação-do-elocutor em termos tais que ela
manifestamente não pressuponha a significação lingiúística. As regras ou conven-
ções, no entanto, governam as práticas humanas e as atividades humanas dotadas
| Essa não é a única maneira. Com efeito, dizer que um conceito 104) não pode ser adequa-
damente elucidado sem referência a um conceito y não é a mesma coisa que dizer que e
possível apresentar uma análise clássica de 4 em termos de Y. Ela é, contudo, a maneira
mais simples, pois o método clássico de análise é justamente aquele em termos do qual, na
nossa tradição. nós pensamos de maneira mais espontânea.
340 STRAWSON
de objetivos (purposive). Devemos perguntar, portanto, quais atividades dotadas
de objetivos são governadas por essas convenções. Essas regras são regras para
fazer o quê? Ora, a idéia extremamente simples que mencionei e que se encontra
sob o tipo sugerido de análise, consiste em que essas regras são, precisamente,
regras para comunicar, regras mediante cuja observância o elocutor poderá rea-
lizar o seu objetivo, satisfazer a sua intenção-de-comunicação; e que esse é o seu
caráter essencial. Isto é, o fato de que essas regras admitem uma utilização para
esse propósito não constitui simplesmente um feliz acaso; ao contrário, a natureza
mesma das regras só poderá ser compreendida se elas forem consideradas en-
quanto regras mediante as quais se pode realizar esse objetivo.
Essa simples idéia pode parecer simples demais; e isso de várias maneiras.
Com efeito, é claro que podemos comunicar, e efetivamente comunicamos, coisas
bastante complicadas mediante a utilização da linguagem. Ora, se devemos con-
ceber a linguagem fundamentalmente como um sistema de regras para facilitar a
realização das nossas intenções-de- comunicação e, de outro lado, para que a
análise não seja circular — não será necessário atribuir a nós mesmos intenções-
de-comunicação (ou pelo menos desejos) extremamente complicadas, independen-
temente de termos à nossa disposição os meios lingiúísticos de satisfazer a esses
desejos? Ora, isso não é absurdo? Penso que sim. O programa de análise, con-
tudo, não exige tanto. Tudo o que a análise exige é que possamos explicar a
noção de convenções de comunicação em termos da noção de comunicação pré-
convencional a um nível mais básico. Dado que podemos fazê-lo, existe, então,
mais de uma maneira em que poderemos começar a nos levantar pelos nossos
próprios cabelos lingiísticos. E as aparências são de que podemos explicar a
noção de convenções de comunicação em termos da noção de comunicação pré-
convencional a um nível mais básico.
Podemos apelar, por exemplo, para uma estória do gênero analítico-genético.
Suponhamos que um elocutor alcance, mediante uma elocução x, por exemplo,
um êxito de comunicação pré-convencional com uma audiência determinada.
Vis-à-vis à audiência, o locutor tem uma intenção completa do tipo que se con-
sidera como uma intenção-de-comunicação; além disso, ele tem êxito em satis-
fazer essa intenção ao proferir (by uttering) x. Suponhamos que a intenção pri-
mária era a de que o locutor significava (meant) determinado p ao proferir x;
por outro lado, visto que ele alcançou, por hipótese, um êxito de comunicação,
o locutor foi compreendido nesse sentido (so) por sua audiência. Ora, se o mesmo
problema de comunicação se apresentar mais tarde para o mesmo locutor em
relação à mesma audiência — o fato, conhecido de ambos, de que o locutor, ao
proferir x anteriormente, significou (meant) determinado p, dá ao locutor uma
razão para proferir x novamente e, ao mesmo tempo, dá à audiência uma razãc
para interpretar a elocução do mesmo modo como antes. (A razão que cada um
possui consiste no conhecimento de que o outro tem o conhecimento que o pri-
meiro possui.) É fácil, portanto, perceber de que maneira a elocução de x poderia
vir a estabelecer-se, entre esse locutor e essa audiência, como um meio de sig-
nificar (of meaning) determinado p. Por ter funcionado, ela se tornou estabelecida:
a seguir, porém, ela funciona porque está estabelecida. E é bastante fácil perceber
que essa estória poderia ser construída de forma a envolver não apenas um grupo
de duas pessoas, mas um grupo bem mais amplo. Podemos, portanto, passar
do fato de que um locutor significa pré-convencionalmente determinado p me-
diante uma elocução x para o fato de que a elocução-tipo x, dentro de um grupo
determinado, significa convencionalmente determinado p, daí voltando ao fato de
que os membros locutores do grupo significam determinado p mediante um exem-
plar (token) da elocução-tipo, agora, contudo, de acordo com as convenções.
ESCRITOS LÓGICO-LINGUÍSTICOS 341
Ora, essa explicação da significação convencional em termos da significa-
ção do elocutor não é, evidentemente, suficiente por si só. Com efeito, ela abrange
apenas o caso, ou só abrange de maneira óbvia o caso de elocuções-tipo (utterance-
types) sem estrutura — isto é, de elocuções-tipo cuja significação não é derivada
sistematicamente das significações das suas partes. Ter estrutura, entretanto, é
característico das elocuções-tipo lingiiísticas. A significação de uma sentença é
uma função sintática das significações das suas partes e da disposição (arran-
gement) dessas partes. Não existe, porém, nenhuma razão de princípio que impeça
que uma elocução pré-convencional tenha uma certa complexidade —, um tipo
de complexidade que permita que um elocutor, tendo alcançado um êxito de
comunicação, alcance um outro mediante a repetição de uma parte da elocução
juntamente com a variação de uma outra parte, aquilo que ele significa na
segunda ocasião tendo algo em comum e, ao mesmo tempo, algo que o diferencie
daquilo que ele significou na primeira ocasião. Ora, se ele realmente alcança
assim um segundo êxito, o caminho fica aberto para que um sistema rudimentar
de elocuções-tipo venha a ser estabelecido, isto é, se torne convencional dentro
de um grupo.
Pode-se modificar um sistema de convenções de forma a que ele possa
satisfazer necessidades que dificilmente poderíamos imaginar como existentes
antes da existência do sistema. E a modificação e enriquecimento desse sistema
pode criar, por sua vez, a possibilidade de certos pensamentos de tal natureza
que não poderíamos sequer compreender o que significaria possuí-los sem supor
a ocorrência daquela modificação e daquele enriquecimento. Podemos imaginar,
dessa maneira, uma espécie de desenvolvimento alternado. Intenções e êxitos de
comunicação primitivos originam a emergência de um limitado sistema conven-
cional de comunicação, o qual torna possível o seu próprio enriquecimento e
desenvolvimento, isso possibilitando, por sua vez, a dilatação das necessidades
de pensamento e de comunicação até um ponto em que surge novamente uma
pressão sobre os recursos de linguagem existentes, os quais respondem, a seu
turno, a essa pressão... É claro que há um elemento de mistério nisso; de qual-
quer modo, porém, também há um na criatividade humana intelectual e social.
Tudo o que foi dito acima não é mais do que um esboço, o mais grosseiro
possível, de alguns traços salientes de uma teoria da significação que adota o
ponto de vista da intenção-de-comunicação; não é mais, tampouco, do que uma
sugestão de como essa teoria poderia enfrentar a objeção óbvia de que certas
intenções-de-comunicação pressupõem a existência da linguagem. Tudo isso já
foi dito antes, e com muito maior sofisticação. Espero que esse esboço, contudo,
sirva como base suficiente para a confrontação dos pontos de vista que desejo
organizar.
Passemos agora ao ponto de vista oposto, pelo menos em aparência, que
até aqui caracterizei apenas no seu aspecto negativo. É claro que os que defendem
esse ponto de vista têm algumas bases em comum com os seus opositores. Ambos
concordam em que as significações das sentenças de uma língua são largamente
determinadas pelas regras ou convenções semânticas e sintáticas dessa língua.
Ambos concordam em que os membros de qualquer grupo ou comunidade de
pessoas que participam do conhecimento de uma língua — que possuem em
comum uma competência lingiística comum — têm à sua disposição um instru-
mento ou meio de comunicação mais ou menos poderoso e, por conseguinte, um
instrumento ou meio de modificar as crençãs ou atitudes uns dos outros ou de
influenciar as ações uns dos outros. Ambos concordam em que esses meios são
utilizados regularmente de uma maneira bastante convencional, concordando tam-
bém em que aquilo que as pessoas têm a intenção de comunicar mediante o que
342 STRAWSON
elas dizem encontra-se vinculado, de forma regular, às significações convencionais
das sentenças que elas proferem (utter). O ponto em que ambos dilerem se referc
às relações entre as regras da língua que determinam a significação, de um lado,
e a função de comunicação, do outro. Um dos partidos insiste, e o outro se recusa
(aparentemente) a admitir que a natureza geral dessas regras só possa ser com-
preendida por referência a essa função.
A recusa impõe naturalmente uma pergunta, a saber: qual é o caráter geral
daquelas regras que deverão, em algum sentido, ter sido dominadas por todo
aquele que fala e compreende uma determinada língua? A resposta rejeitada ba-
seia o caráter geral dessas regras na função social de comunicar, por exemplo,
crenças, desejos ou instruções. Se essa resposta for rejeitada, deve-se oferecer uma
outra. Portanto, novamente perguntamos: qual é o caráter geral dessas regras
que determinam a significação?
Parece-me haver um só tipo de resposta que tenha sido seriamente proposta
ou desenvolvida ou que mereça uma consideração séria, capaz de fornecer uma
alternativa possível à tese do teórico da comunicação. Trata-se de uma resposta
que repousa sobre a noção de condições-de-verdade. A idéia de que o sentido
de uma sentença é determinado pelas suas condições-de-verdade será encontrada
em Frege e no primeiro Wittgenstein; ela será encontrada novamente em vários
autores posteriores. Como exemplo, tomarei um artigo recente escrito pelo Pro-
fessor Davidson. A justo título, Davidson está interessado no seguinte ponto: uma
explicação adequada das regras de significação para uma língua L deverá mostrar
de que maneira as significações das sentenças dependem das significações das
palavras em L. Por outro lado, uma teoria da significação para L será capaz de
fazer isso, diz cle, se essa teoria contiver uma definição recursiva de verdade-
em-L. A 'conexão óbvia”, diz ele, entre uma tal definição de verdade e o conceito
de significação é a seguinte: 'a definição funciona ao fornecer as condições ne-
cessárias e suficientes da verdade de cada sentença, e dar as condições-de-verdade
é uma maneira de dar a significação de uma sentença. Conhecer o conceito se-
mântico de verdade para uma língua é saber em que consiste, para uma sentença
— para qualquer sentença —, ser verdadeira e isso equivale, num sentido impe-
cável que podemos conferir à frase, a compreender a língua”.
Davidson, no artigo de que extraí a citação acima, tem um interesse limi-
tado. Esse interesse, contudo, encontra o seu lugar no interior de uma idéia mais
geral. A idéia geral é, de maneira bastante clara, de que as regras sintáticas e
semânticas determinam, juntas, as significações de todas as sentenças de uma
língua e que elas o fazem mediante, justamente, a determinação das condições-
de-verdade das sentenças.
Ora, se quisermos chegar à raiz da questão, se quisermos isolar o problema
crucial, parece-me que é importante deixar de lado, pelo menos inicialmente, uma
classe de objeções à adequação dessa concepção da significação. Eu disse uma
classe de objeções; trata-se, porém, de uma classe que admite subdivisões. Assim,
pode-se assinalar que existem alguns tipos de sentenças — por exemplo, impera-
tivas, optativas e interrogativas —, para os quais a noção de condição-de-verdade
parece inapropriada, visto que a elocução convencional dessas sentenças não re-
sulta no fato de se dizer algo verdadeiro ou falso. Por outro lado, pode-se tambéni
assinalar que, mesmo as sentenças para as quais a noção de condições-de-verdade
parece apropriada, podem conter certas expressões que certamente fazem uma
diferença para a sua significação convencional, mas não o tipo de diferença que
2 “Truth and Meaning (Synthese, 1967, p. 310). Os grifos são meus.
ESCRITOS LÓGICO-LINGUÍSTICOS 34
O]
possa ser explicada em termos das suas condições-de-verdade. Compare-se a
sentença 'Felizmente, Sócrates está morto” com a sentença “Infelizmente, Sócrates
está morto". Comparemos uma sentença da forma 'p e q' com a sentença corres-
pondente da forma 'p mas q'. É claro que significações dos membros de cada
par de sentenças são diferentes; mas está longe de ser claro que as suas condições-
de-verdade sejam diferentes. Além do mais, não são apenas uma ou duas expres-
sões que dão origem a esse problema; existem muitas expressões desse gênero.
E óbvio que tanto uma teoria geral da significação que seja compreensiva,
como uma teoria semântica compreensiva para uma língua particular, devem estar
equipadas para enfrentar esses pontos. Apesar disso, contudo, é razoável consi-
derá-los como pontos periféricos. Com efeito, é uma verdade implicitamente
reconhecida pelos próprios teóricos da comunicação * que, em quase todas as
coisas que consideraríamos como sentenças, existe um substancial núcleo central
de significação que pode ser explicado ou em termos de condições-de-verdade,
ou então em termos de alguma noção aparentada que é possível derivar, de forma
bem simples, da noção de condição-de-verdade; por exemplo, a noção, como
poderíamos chamá-la, de condição-de-cumprimento, no caso de uma sentença
imperativa, ou de condição-de-satisfação, no caso de uma optativa. Se supuser-
mos, portanto, que se possa dar uma explicação da própria noção de condição-
de-verdade, explicação essa que seja realmente independente de uma referência
à intenção-de-comunicação —, então será razoável pensar que a maior parte da
tarefa de uma teoria geral da significação foi realizada sem uma referência desse
gênero. E, justamente por isso, podemos, a partir da mesma suposição, pensar
que também é possível apresentar a maior parte da teoria particular da significa-
ção de uma língua particular L sem nenhuma referência desse gênero, nem mesmo
implícita; ela poderá ser apresentada, com efeito, mediante a exposição siste-
mática das regras sintáticas e semânticas que determinam as condições-de-verdade
para as sentenças de L.
E claro, como já se admitiu, que alguma coisa deverá ser acrescentada a
fim de completar a nossa teoria geral e a fim de completar as nossas teorias
particulares. Assim, para uma teoria particular, deveremos acrescentar uma expli-
cação das transformações que, a partir de sentenças com condições-de-verdade,
produzem sentenças com condições-de-cumprimento ou com condições-de-satis-
fação. Além disso, a teoria geral deverá dizer que tipo de coisa, semanticamente
falando, é, em geral, uma sentença derivada como essas. Em si mesmo, porém,
embora produzindo uma grande abundância de sentenças, isso constituirá uma
adição relativamente pequena à teoria particular ou à teoria geral. Por outro
lado, serão necessárias outras adições relativas às outras objeções que mencionei.
Encorajado, porém, até a confiança pelo seu hipotético sucesso, o teórico pode
estimar ser capaz de manipular algumas dessas adições sem fazer referência essen-
cial à intenção-de-comunicação. E entusiasmado até a generosidade pelo seu hi-
potético sucesso, ele poderá sentir-se feliz em conceder ao teórico da intenção-
de-comunicação certos direitos sobre peguenas parcelas exteriores do território
de facto da semântica teórica, em vez de confiná-lo integralmente ao território
um tanto menos apetitoso chamado de pragmática teórica.
3 Esse reconhecimento encontra-se provavelmente implícito, embora de maneira não muito
clara, no conceito de significação locucionária de Austim (ver How to do Things with Words,
Oxford, 1962); ele está certamente implícito na distinção que Grice estabelece entre aquilo que
os locutores realmente dizem, num sentido privilegiado de “dizer”, e aquilo que eles implicam
(ver “Utterer's Meaning, Sentence-Meaning and Word-Meaning” in Foundations of Language,
1968), assim como na distinção que Searle estabelece entre a proposição apresentada e q
modo ilocucionário no qual ela é apresentada (ver Speech Acts, Cambridge. 1969).
344 STRAWSON
Espero que agora tenha ficado claro em que consiste a questão central.
Ela consiste em nada mais do que a questão, aparentemente simples, de saber
se a noção de condições-de-verdade pode ser, ela própria, explicada ou compreen-
dida sem referência à função de comunicação. Um esclarecimento menor ainda
se faz necessário antes de passarmos ao exame direto da questão. Utilizei livre-
mente a frase *as condições-de-verdade das sentenças' e disse que essas condições-
de-verdade são determinadas pelas regras semânticas e sintáticas da língua a que
as sentenças pertencem. Num contexto desses, compreendemos naturalmente a
palavra 'sentença' no sentido de uma “sentença-tipo”. (Por uma sentença no sen-
tido de um tipo, entendo o sentido em que existe uma só sentença portuguesa
no caso, por exemplo, de “Estou me sentindo febril', ou uma só sentença portu-
guesa no caso, por exemplo, de “Ela fez ontem o seu décimo-sexto aniversário”,
a qual sentença, uma e a mesma, pode ser proferida em inúmeras ocasiões dife-
rentes por pessoas diferentes e com referências ou aplicações diferentes.) Ora,
para muitas sentenças-tipo, como as que acabei de mencionar, a questão de saber
se elas, as sentenças, são verdadeiras ou falsas é uma questão que não tem aplica-
ção natural: o que naturalmente dizemos ser verdadeiro ou falso não são as
próprias sentenças-tipo invariantes, mas, ao contrário, as coisas sistematicamente
variáveis que as pessoas dizem, as proposições que elas exprimem quando pro-
ferem essas sentenças em diferentes ocasiões particulares. Mas se a noção de
valores-de-verdade é, em geral, inapropriada para as sentenças-tipo, como poderia
ser apropriada a noção de condições-de-verdade? E de se presumir, com efeito,
que as condições-de-verdade de alguma coisa sejam as condições sob as quais
essa coisa é verdadeira.
É muito fácil, porém, resolver a dificuldade. Tudo o que é preciso dizer é
que o enunciado das condições-de-verdade para muitas sentenças-tipo — talvez
mesmo para a maioria das que são efetivamente proferidas na conversação ordi-
nária — deve e pode ser relativizado, sob modo sistemático, às condições con-
textuais de elocução. Um enunciado geral das condições-de-verdade de uma sen-
tença dessas será, então, não um enunciado das condições sob as quais a sentença
é verdadeira (is a truth), mas um enunciado geral do tipo de condições sob as
quais diferentes elocuções particulares da sentença resultarão em diferentes ver-
dades particulares. Além disso, há outros modos mais ou menos equivalentes,
embora menos naturais, de resolver essa dificuldade.
Passemos agora, finalmente, à questão central. Para os teóricos da semântica
formal, como cu os denominei, todo o peso ou grande parte do peso de uma teoria
geral da significação, assim como de teorias semânticas particulares, recai sobre
a noção de condições-de-verdade e, por conseguinte, sobre a noção de verdade.
Admitamos que o peso recaia aí. Mesmo assim, porém, não podemos nos con-
tentar com isso, pois não podemos estar certos de ter alcançado uma compreensão
geral adequada da noção de significação a menos que estejamos certos de ter
alcançado uma compreensão geral adequada da noção de verdade.
Encontramos aqui uma manobra que obstruiria qualquer esperança de al-
cançar uma compreensão adequada; e, se não estou enganado, essa manobra
exerce certa atração sobre alguns teóricos da semântica formal. A manobra con-
siste em reagir ao pedido de uma explicação geral da noção de verdade repor-
tando-nos a uma concepção, no estilo de Tarsky (a Tarsky-like), de verdade-
numa-língua-dada L, concepção essa que é elucidada, precisamente, mediante
um enunciado recursivo das regras que determinam as condições-de-verdade pa-
ra as sentenças de L. Ora, isso equivale a uma recusa total de enfrentar a ques-
tão filosófica geral. Tendo admitido o ponto geral de que as significações das
sentenças de uma lingua são determinadas ou largamente determinadas pelas re-
ESCRITOS LÓGICO-LINGUÍSTICOS 345
gras que determinam as condições-de-verdade, nós levantamos, a seguir, a ques-
tão geral de saber que tipo de coisas são as condições-de-verdade, ou de que são
condições as condições-de-verdade; como resposta, nos dizem que o conceito de
verdade para uma língua dada é definido pelas regras que determinam as condi-
ções-de-verdade para as sentenças dessa língua.
E evidente que isso não pode nos satisfazer. Voltamos, portanto, à nossa
questão geral acerca da verdade. E imediatamente nos sentimos um tanto emba-
raçados, pois chegamos a pensar que existe muito pouco a dizer acerca da ver-
dade em geral. Vejamos, porém, o que é possível fazer com esse muito pouco.
Eis aqui uma maneira de dizer alguma coisa não-controvertida e bastante geral
a respeito da verdade. Quem faz um enunciado ou uma asserção, faz um enun-
ciado verdadeiro se e somente se as coisas são como, ao fazer o enunciado, ele
enuncia que elas são. Ou então: aquele que exprime uma suposição, exprime uma
suposição verdadeira se e somente se as coisas são como, ao exprimir a suposi-
ção, ele expressamente supõe que sejam. Liguemos agora a essas observações
inócuas as idéias admitidas acerca da significação e das condições-de-verdade.
Teremos então, em primeiro lugar: a significação de uma sentença é estabelecida
por aquelas regras que determinam como as coisas são enunciadas por alguém
que, ao proferir a sentença, faz um enunciado; ou como as coisas são expres-
samente supostas por alguém que, ao proferir a sentença, exprime uma supo-
sição. Podemos, então, lembrando que as regras são relativizadas às condi-
ções contextuais, parafrasear da seguinte maneira: a significação de uma senten-
ça é determinada pelas regras que determinam qual enunciado é feito por alguém
que, ao proferir a sentença em determinadas condições, faz um enunciado, ou
que determinam qual suposição é expressa por alguém que, ao proferir a senten-
ça em determinadas condições, exprime uma suposição; e assim por diante.
Dessa maneira, somos mais uma vez reconduzidos, mediante a noção de
verdade, de volta à noção do conteúdo de atos de discurso como enunciar, su-
por expressamente, e assim por diante. E é aqui que o teórico da intenção-de-co-
municação vê a sua oportunidade. Não há nenhuma esperança, diz ele, de elu-
cidar a noção do conteúdo desses atos de discurso sem levar em consideração a
noção desses atos de discurso eles mesmos. Ora, dentre todos os atos de discurso
em que se pode propor, de um modo ou de outro, alguma coisa verdadeira ou
falsa, é razoável considerar que o ato de discurso de enunciado ou de asserção
ocupa uma posição particularmente central. (Ansiosos por certezas, nós valori-
zamos a especulação primariamente porque valorizamos a informação.) E não
podemos, assim sustenta o teórico, elucidar a noção de enunciar ou de assertar
se não em termos de uma intenção endereçada a uma audiência. Com efeito, o
caso fundamental de enunciar ou de assertar, em função do qual todas as varian-
tes devem ser compreendidas, é aquele de proferir uma sentença com uma certa
intenção — intenção essa totalmente manifesta no sentido exigido pela análise
da significação do elocutor — a qual pode ser incompletamente descrita como a
intenção de fazer com que a audiência saiba, ou de levá-la a pensar, que o locutor
tem uma certa crença; como resultado disso, essa mesma crença poderá ou não
ser ativada ou produzida nessa audiência. As regras que determinam a signi-
ficação convencional da sentença se unem às condições contextuais da sua
elocução para determinar qual é, nesse caso primário e fundamental, a crença
em questão. Ao determinar qual é a crença em questão nesse caso, as regras
determinam, ao mesmo tempo, qual enunciado foi feito nesse caso. Determinar
a primeira é determinar o segundo. Ora, é justamente isso que desejamos. Com
efeito, quando estabelecemos, a partir do ponto unanimemente admitido, que as
regras que determinam as condições-de-verdade determinam, por isso mesmo, a
346 STRAWSON
significação, a conclusão a que fomos levados consistia, precisamente, em que
essas regras determinavam qual enunciado era feito por alguém que, ao proferir
a sentença, fazia um enunciado. Por conseguinte, longe de constituir uma alter-
nativa para uma teoria comunicacional da significação, o ponto unanimemente
admitido nos conduz diretamente, ao contrário, a uma teoria da significação
dessa natureza.
Essa conclusão pode parecer um pouco rápida demais. Vejamos, então, se
existe alguma maneira de evitá-la. A condição geral para que possamos evitá-la
é bastante clara. Está em que deveríamos ser capazes de apresentar uma explica-
ção da noção de condições-de-verdade que não envolva nenhuma referência a
atos de discurso comunicativos. Ora, se estivermos interessados na elucidação
filosófica da noção de significação, a alternativa que consistiria em recusar-se
a apresentar qualquer explicação — em simplesmente basear-se na noção de
condições-de-verdade — é algo que simplesmente se encontra, como já indiquei,
fora do nosso alcance: essa alternativa simplesmente nos deixaria com os con-
ceitos de significação e de verdade, cada um deles apontando inexpressiva e inu-
tilmente para o outro. Tampouco seria proveitoso, embora possa parecer tentador
nesse ponto, abandonar a noção de condições-de-verdade em favor da noção
menos específica de correlação em geral; isto é, não seria proveitoso dizer, sim-
plesmente, que as regras que determinam as significações das sentenças executam
essa tarefa ao correlacionar as sentenças, consideradas como proferidas em cer-
tas condições contextuais, com determinados estados de coisas (states of affairs)
possíveis. Uma razão pela qual isso não funcionaria está em que a noção de
correlação em geral é, simplesmente, muito inespecífica. Existem vários tipos de
comportamento (inclusive de comportamento verbal) — e poder-se-iam imaginar
muitos outros tipos — que são correlacionados, através de regras, com estados
de coisas possíveis sem, contudo, ser verdade que tal correlação lhes confira
aquele tipo de relação com esses possíveis estados de coisas nos quais estamos
interesados.
Outra razão pela qual isso não funcionaria é a seguinte. Consideremos a
sentença “Estou cansado”. Na verdade, as regras que determinam a sua significa-
ção são tais que elas correlacionam essa sentença, considerada como proferida
por um locutor particular num momento particular, com o possível estado de
coisas de o locutor estar cansado naquele momento. Esse traço, porém, não é
peculiar a essa sentença, nem aos membros da classe de sentenças que têm a
mesma significação que ela. Consideremos, com efeito, a sentença 'Não estou
cansado”. As regras que determinam a sua significação também são tais que elas
correlacionam essa sentença, considerada como proferida por um locutor deter-
minado num momento determinado, com o possível estado de coisas de esse
locutor não estar cansado naquele momento. É claro que os tipos de correlação
são diferentes nos dois casos. Eles são, respectivamente, tais que normalmente
entenderiamos que quem proferiu a primeira sentença estaria afirmando que o
estado de coisas em questão se realiza, ao passo que normalmente entenderíamos
que quem proferiu a segunda sentença estaria negando que o estado de coisas
em questão se realiza. Ou, em outros termos: os tipos de correlação são tais que,
quem profere a primeira sentença quando o estado de coisas em questão se rea-
liza, faz um enunciado verdadeiro, e quem profere a segunda sentença nessas
mesmas circunstâncias faz um enunciado falso. Invocar essas diferenças, todavia.
equivaleria, justamente, a abandonar a idéia de empregar unicamente a noção
inespecífica de correlação em geral. Não vale a pena elaborar esse ponto mais
detidamente. Por outro lado, contudo, pode-se rapidamente constatar não somen-
ESCRITOS LÓGICO-LINGUÍSTICOS 34
ie que sentenças de significação diferente e até oposta estão correlacionadas, de
um modo ou de outro, como o mesmo estado de coisas possível, mas também
que uma e mesma sentença não ambígua está correlacionada, de uma maneira
ou de outra, com inúmeros estados de coisas diferentes e, em alguns casos, mu-
tuamente incompatíveis. A sentença “Estou cansado” está correlacionada com o
possível estado de coisas de o locutor estar no ponto de total exaustão; mas tam-
bém com o estado de coisas de ele encontrar-se fresco como uma rosa. À sen-
tença “Tenho mais de 40 anos” está correlacionada com qualquer possível estado
de coisas relativo à idade do locutor; e a sentença “Os cisnes são pretos” está
correlacionada com qualquer estado de coisas relativo à cor dos cisnes.
A noção bastante inespecífica de correlação é, por conseguinte, inútil para
o objetivo que se tem em vista. É necessário encontrar um modo qualquer de espe-
cificar uma correlação particular em cada caso, a saber: a correlação da sentença
com o possível estado de coisas cuja realização seria necessária e suficiente para
que se tenha dito algo verdadeiro ao proferir a sentença sob quaisquer condições
contextuais que porventura considerarmos. Assim, mais uma vez voltamos à noção
de condições-de-verdade e à questão de saber se podemos fornecer uma expli-
cação dessa noção que não envolva nenhuma referência essencial a atos-de-
discurso comunicativos, isto é, à intenção-de-comunicação.
Nessa altura, só consigo perceber um único recurso ao alcance ou apa-
rentemente ao alcance do teórico da significação que ainda sustenta que a
noção de intenção-de-comunicação não ocupa nenhum lugar essencial na análise
do conceito de significação. Sob pena de engolir o anzol do seu opositor, ele
deverá suprimir algumas páginas do seu livro. Ele constata agora que não po-
derá se deter na idéia de verdade. Essa idéia conduz diretamente à idéia de
aquilo que é dito, o conteúdo do que é dito quando se fazem elocuções:; e isso
leva, por sua vez, à questão de saber o que é que está sendo feito quando se
fazem elocuções. Ora, não poderia o nosso teórico seguir esse caminho durante
um certo tempo sem, contudo, ir tão longe quanto o seu opositor? Não seria
possível apagar a referência à intenção-de-comunicação, preservando, ao mesmo
tempo, uma referência à expressão-de-crença, por exemplo? E isso, incidental-
mente, não seria mais realista, na medida em que frequentemente formulamos
os nossos pensamentos para nós mesmos, sem nenhuma intenção comunicativa?
A manobra proposta merece uma descrição mais completa. Ela consiste no
seguinte. Em primeiro lugar: siga o teórico da comunicação e responda ao de-
safio por uma elucidação da noção de condições-de-verdade invocando a noção
— por exemplo e de maneira central — de enunciado ou de asserção (aceitando
o ponto indiscutido de que alguém faz um enunciado ou asserção verdadeiro
guando as coisas são como, ao fazer essa asserção, ele asserta que são). Em segun-
do lugar: siga novamente o teórico da comunicação e responda ao desafio de uma
elucidação da noção de assertar estabelecendo uma conexão com a noção de
crença (concedendo que fazer uma asserção é, no caso primário, dar expressão
a uma crença; que tazer uma asserção verdadeira é dar expressão a uma crença
correta; e que uma crença é correta quando as coisas são exatamente da maneira
como aquele que sustenta essa crença, na medida em que ele a sustenta, acredita
que sejam). Em terceiro lugar, entretanto: com respeito à natureza dessa conexão
entre asserção e crença, separe-se do teórico da comunicação; isto é, negue que
o análise da noção de assertar envolva referência essencial a uma intenção, por
exemplo, de levar uma audiência a pensar que o executor da asserção sustenta
a crença em questão; negue que a análise da noção de assertar envolva qualquer
tipo de referência a uma intenção endereçada a uma audiência; mantenha, ao
contrário, que é perfeitamente satisfatório aceitar como fundamental aqui a
348 STRAWSON
noção de simplesmente formular ou exprimir uma crença. Conclua, então, que
as regras que determinam a significação para uma sentença da língua são as
regras que determinam qual crença é convencionalmente articulada por alguém
que, em condições contextuais dadas, profere a sentença. Como anteriormente,
determinar o que é essa crença é o mesmo que determinar qual asserção foi
feita. Assim, preservam-se todos os méritos da teoria do opositor, expulsando-se,
ao mesmo tempo, a referência à comunicação.
É claro que tanto esse teórico quanto o seu opositor deverão dizer muito
mais. Com efeito, não é necessário que as sentenças que podem ser utilizadas
para exprimir crenças sejam sempre utilizadas dessa forma. Esse ponto, porém,
deverá ser estabelecido por ambos os lados, de sorte que podemos deixá-lo de
lado no momento.
Ora, isso funcionará? Penso que não. Mas para constatar isso, talvez seja
necessário empreender um duro combate contra uma certa ilusão. A noção de
exprimir uma crença, com efeito, pode nos parecer perfeitamente direta; em
consequência, também pode parecer igualmente direta noção de exprimir uma
crença de acordo com certas convenções. No entanto, na medida em que a noção
de exprimir uma crença realmente for a noção de que precisamos, é bem pos-
sível que ela tire toda a sua força e o seu caráter direto precisamente da situação
de comunicação de cuja dependência essa noção, supostamente, deveria libertar
a análise da significação. Poderíamos ser tentados a argumentar da maneira
seguinte. Muitas vezes exprimimos crenças com uma intenção endereçada a uma
audiência; temos a intenção de que a nossa audiência considere que nós temos
a crença que exprimimos e, talvez, de que a crença seja, ao mesmo tempo, ativada
ou produzida na audiência. Nesse caso, porém, poderia haver algo mais claro
do que isto: que aquilo que podemos fazer com uma intenção dirigida a uma
audiência, podemos igualmente fazer sem nenhuma intenção desse gênero? Quer
dizer, a intenção dirigida a uma audiência, quando presente, seria algo acres-
centado à atividade de exprimir uma crença, e de modo algum RSSGnCI! a ela
— ou ao seu conceito.
Que mescla de verdade e de falsidade, de banalidade e de ilusão temos
aqui! Suponhamos que voltamos a considerar, por um instante, aquela análise
da significação que esboçamos, em grandes traços, no início. O elocutor produz
alguma coisa — a sua elocução x — com uma complexa intenção dirigida a
uma audiência, intenção essa que envolve a intenção de levar a audiência a
pensar que o elocutor tem uma determinada crença. Não podemos destacar
ou extrair da análise um elemento que corresponda ao fato de o elocutor ter
exprimido uma crença sem nenhuma intenção do gênero —, embora possamos,
na verdade, apresentar a seguinte descrição e, ao mesmo tempo, imaginar um
caso a que ela se aplique: ele age como se tivesse uma intenção desse tipo,
embora, na realidade, não tenha. Nesse caso, porém, a descrição depende da
descrição do caso em que o elocutor efetivamente tem tal intenção.
O que estou tentando sugerir é que podemos, aqui como alhures, ser ten-
tados por uma espécie de aritmética espúria de conceitos. Dado o conceito de
Expressão de Crença Dirigida a uma Audiência (ECDA), podemos realmente
considerar a Expressão de Crença (EC) sem a Direção a uma Audiência (DA);
e podemos encontrar casos em que isso se realiza. Mas daí não se segue que o
conceito de ECDA seja uma espécie de composto lógico das duas noções mais
simples de EC e DA e, consegientemente, que DA seja conceitualmente inde-
pendente de ECDA.
É obvio que essas observações não mostram: a inexistência de um conceito
ESCRITOS LÓGICO-LINGUISTICOS 349
independente de expressão de crença, capaz de satisfazer as necessidades do
teórico anticomunicacionista. Elas constituem apenas observações endereçadas
contra um argumento excessivamente simples segundo o qual existe um con-
ceito desses.
Pelo menos isto fica claro: se existir um tal conceito de expressão de crença,
essencialmente independente, que seja capaz de satisfazer às exigências da análise
da noção de significação, não poderemos nos deter simplesmente na frase “expri-
mir uma crença'. Deveremos ser capazes de apresentar alguma explicação desse
conceito, de relatarmos para nós mesmos alguma estória inteligível a seu respeito.
Às vezes, podemos dizer, com razão, que as ações de um homem ou que o seu
comportamento exprime uma crença, quando, por exemplo, vemos que essas
ações são dirigidas a um fim ou a um objetivo, o qual é plausível atribuir ao
homem em questão na medida em que for também plausível atribuir-lhe aquela
crença. Por si só, contudo, essa reflexão não nos leva muito longe. Com efeito,
por um lado, estamos impedidos, de acordo com o programa em exame, de
fazer com que a referência ao fim ou objetivo da comunicação constitua uma
parte essencial da nossa estória. Por outro lado, o tipo de comportamento que
deve interessar deve ser ou deve ser capaz de ser formalizado ou convencio-
nalizado de tal sorte que possamos considerá-lo como sujeito a regras ou como
executado em observância a regras. E mais: como sujeito a regras que regulam
o comportamento precisamente sob o seu aspecto de expressão de crença. Não
bastará dizer simplesmente: poderíamos supor que um homem encontre alguma
satisfação (não especificada) ou algum objetivo (não especificado) em executar,
em algumas ocasiões, certas ações formalizadas (talvez de natureza vocal), tais
ações estando sistematicamente ligadas ao fato de que ele possui certas crenças.
Com efeito, suponhamos que um homem tenha o hábito de vocalizar de uma
maneira determinada sempre que ele vê o sol nascer e de vocalizar de uma outra
maneira, em parte semelhante, em parte diferente da primeira, sempre que vê o
sol declinar. Esse hábito, nesse caso, estaria regularmente vinculado a certas
crenças, isto é, à crença de que o sol está nascendo ou de que está declinando.
Mas essa descrição não nos dá absolutamente nenhuma razão para dizer que,
quando esse homem sucumbia a esse hábito, estava exprimindo a crença de que
o sol estava nascendo ou declinando, de acordo com uma regra para fazer isso.
Nós realmente não temos aqui uma descrição suficiente que nos permita saber
o que dizer nesse caso. Tanto quanto nos é dado ver, poderíamos dizer que
ele simplesmente tem esse ritual de saudar dessa maneira o nascimento ou o
declínio do sol. Não sabemos qual é a necessidade sua que esse ritual satisfaz.
Suponhamos, no entanto — apenas para argumentar —, que possamos
elaborar uma concepção relevante de exprimir uma crença que não pressuponha
nada que, segundo o presente programa estejamos proibidos de pressupor e que
contemos com esse conceito de exprimir uma crença a fim de apresentar uma
explicação ou uma análise, segundo as linhas indicadas, da noção de significação
lingiística. Se assim for, seguir-se-á uma interessante conseqiiência. Isto é, evi-
denciar-se-á como uma verdade inteiramente contingente acerca da linguagem o
fato de que as regras ou convenções que determinam as significações das sen-
tenças de uma língua sejam regras ou convenções sociais públicas. Isso consti-
tuirá, por assim dizer, um fato natural, um fato da natureza, absolutamente não
essencial ao conceito de uma linguagem, e que exige apenas uma explicação
natural que não podemos permitir afete ou modifique esse conceito. Não deve
haver nada no conceito que exclua a idéia de que cada indivíduo poderia ter
a sua própria linguagem que só ele compreenda. Nesse caso, porém, poderíamos
perguntar: por que cada indivíduo deveria observar suas próprias regras? Ou
STRAWSON
oe
&»
Ed,
qe
quaisquer regras? Por que não poderia ele exprimir qualquer crença que lhe
apraza, de qualquer maneira, que lhe ocorra imaginar, sempre que lhe ocorrer
sentir um impulso de exprimi-la? Existe pelo menos uma resposta que o teórico
que estamos considerando está impedido de dar a essa pergunta, pelo menos no
interesse do seu próprio programa. Ele não pode, com efeito, dizer: Ora, um
homem poderia querer registrar as suas crenças de tal sorte que possa, mais
tarde, fazer referência aos seus registros; ele poderia, então, achar conveniente
possuir regras para interpretar os seus próprios registros. O nosso teórico está
impedido de oferecer essa resposta porque ele introduz, ainda que de forma
atenuada, o conceito de intenção-de-comunicação: o homem anterior se comunica
com o seu ego (self) posterior.
Poderia haver um meio de silenciar as dúvidas que surgem com tanta ra-
pidez nessa direção. Seria o de oferecer possíveis explicações naturais do suposto
tato natural de que a linguagem é pública, de que as regras lingiiísticas são regras
mais ou menos socialmente comuns; explicações essas que evitassem, com êxito,
qualquer sugestão de que a conexão das regras públicas com a comunicação fosse
outra coisa que não incidental e contingente. Como procederia uma explicação
desse gênero? Poderíamos começar dizendo que foi um ponto unanimemente
admitido que a posse de uma linguagem amplia o espírito, que existem crenças
que não poderíamos exprimir sem uma linguagem na qual exprimi-las, pensa-
mentos que não poderíamos acolher sem um sistema de expressões, governado
por regras, para articulá-los. E constitui um fato acerca dos seres humanos que
eles simplesmente não adquiriram o domínio de um sistema como esse se não
tivessem sido expostos, quando crianças, a um condicionamento ou treinamento
por parte dos membros adultos de uma comunidade. Sem que nos ocupemos
aqui das origens remotas da linguagem, podemos, então, supor que os membros
adultos de uma comunidade desejam que os seus sucessores tenham à sua dis-
posição esse instrumento de ampliação do espírito — e é evidente, então, que
todo o procedimento de treino ficará simplificado se todos eles ensinarem a
mesma e comum língua. É razoável supor que os aprendizes, no início, não
percebam muito bem o que estão fazendo, finalmente, com a língua; que, no
início, trata-se para eles de um problema de aprender a fazer o que é correto,
e não de aprender a dizer o que é verdadeiro; isto é, trata-se para eles de uma
questão de responder vocalmente a situações de maneira a merecer recompensa,
ou a evitar punição, e não de uma questão de exprimir as suas crenças. Mais
tarde, porém, virão a se dar conta de que dominaram um sistema que os torna
capazes de executar essa última atividade (ainda inexplicada) sempre que o
desejarem; e então estarão falando uma língua.
Deve-se admitir, é claro, que são também capazes de adquirir, durante o
processo, a habilidade secundária de comunicar as suas crenças. Mas isso é algo
simplesmente acrescentado, um benefício extra e conceitualmente não conven-
cionado, bastante incidental à descrição do que significa ter adquirido o domínio
das regras de significação da língua. Se, de fato, endereçarmos propositalmente
elocuções, cuja função essencial reside em exprimir uma crença, a um outro
membro da comunidade, ele estará inclinado a pensar que nós sustentamos as
crenças que porventura estiverem em questão e, na verdade, a pensar que nós
temos a intenção de que ele pense assim: e esse fato pode originar e, na verdade,
deve-se admitir que ele efetivamente origina todo um número de conseqiiências
sociais, abrindo, ao mesmo tempo, as mais variadas possibilidades de tipos de
comunicação lingiística diferentes daquela que se baseia na expressão da crença.
Eis porque, como já se reconheceu, poderemos ser obrigados, finalmente, a
admitir, em porções adjacentes da nossa teoria semântica, alguma referência
ESCRITOS LÓGICO-LINGUÍSTICOS 351
essencial à intenção-de-comunicação. Só correremos esse risco, porém, se formos
além do núcleo central de significação, o qual é determinado pelas regras que
determinam as condições-de-verdade. Enquanto nos limitarmos a esse núcleo
central, a função de comunicação permanecerá secundária, derivativa e con-
ceitualmente inessencial.
Espero que seja claro que qualquer teoria desse gênero seria maldosa e
arbitrária em excesso para poder satisfazer os requisitos de uma teoria aceitável.
Se é assim que o jogo deve ser jogado, deve-se então admitir que o teórico da
comunicação ganhou o jogo.
Mas é necessário que o jogo seja, em última análise, jogado dessa ma-
neira? Penso que, em última análise, sim. É realmente salutar e, em geral,
inofensivo dizer que conhecer a significação de uma sentença é conhecer sob
que condições aquele que a profere diz alguma coisa verdadeira. Mas, se dese-
jarmos uma elucidação filosófica do conceito de significação, essa máxima
representará, então, não o fim, mas o início da nossa tarefa. Ela simplesmente
limita e relocaliza o nosso problema, obrigando-nos a investigar o que está con-
tido na pequena frase *... diz alguma coisa verdadeira”. É evidente que há
muitas maneiras segundo as quais pode-se dizer alguma coisa que seja, de fato,
verdadeira, dar expressão, se preferirmos, a uma proposição verdadeira, sem,
com isso, exprimir uma crença nessa coisa, sem assertar a proposição: por
exemplo, quando as palavras em questão formam certos tipos de cláusulas su-
bordinadas ou coordenadas ou quando se está citando ou representando um
papel teatral, e assim por diante. Mas, quando passamos a tentar explicar, em
geral, o que é dizer alguma coisa, o que é exprimir uma proposição verdadeira,
a referência à crença ou à asserção (e, nesse último caso, à crença) torna-se
inevitável. Poderíamos, assim, arriscar inofensivamente o seguinte: alguém diz
alguma coisa verdadeira se as coisas são como ele diz que são. Esse “diz”, contudo.
já tem aqui a força de “asserta”. Ou então, para suprimir o “diz” que é idêntico a
“asserta”, poderíamos arriscar inofensivamente o seguinte: alguém propõe, de um
modo ou de outro, uma proposição verdadeira se as coisas são tais que todo
aquele que acreditar no que o primeiro propõe acreditará, por conseguinte, que
elas são. Nesse caso, a referência à crença é explícita.
A referência, direta ou indireta, à expressão de crença é inseparável da
análise do dizer alguma coisa verdadeira (ou falsa). E, como tentei mostrar,
será de um irrealismo ao ponto de ininteligibilidade — ou, pelo menos, de
extrema perversidade —, tentar libertar a noção da expressão lingiística da
crença de toda conexão essencial com o conceito de intenção-de-comunicação.
Mais acima, eu insinuei que o hábito de alguns filósofos de falar como
se “verdadeiro” fosse um predicado de sentenças-tipo, constituía apenas uma
aberração menor, que poderia ser acomodada, com bastante facilidade, aos fatos.
E é verdade. Mas não é uma simples questão de pedantismo insistir em corrigir
a aberração. Se não formos cuidadosos, com efeito, ela é capaz de nos induzir
em erro total. Em particular, quando investigamos a natureza da significação,
ela é capaz de nos fazer esquecer para quê existem sentenças. Nós vinculamos
a significação com a verdade e a verdade nós a vinculamos, de forma demasiado
simples, com as sentenças; e as sentenças pertencem à língua. Mas, enquanto
teóricos, não saberemos nada da língua humana se não compreendermos o
discurso humano.
Este livro integra a coleção
OS PENSADORES — HISTÓRIA DAS GRANDES IDÉIAS DO MUNDO OCIDENTAL
Composto e impresso nas oficinas da Í
Abril SA. Cultural e Industrial, caixa postal 2372, São Paulo